segunda-feira, 17 de junho de 2024

4EVER: Jacqueline Laurence

10 de outubro de 1932✰ 17 de junho de 2024
 

Jacqueline Juliette Laurence nasceu na cidade de Marselha, na França, e veio para o Brasil na adolescência para acompanhar  o pai jornalista. Entre 1955 e 1957 integrou a Fundação Brasileira de Teatro, ingressando posteriormente no Tablado. Ela estreou na televisão na Rede Globo com Uma Rosa com Amor (1972), depois participou de clássicos da teledramaturgia como Dancin' Days (1978), Água Viva (1980), Guerra dos Sexos (1983) e Top Model (1989). Embora tenha feito a maior parte de seus trabalhos na Globo, a atriz também participou de produções na extinta Rede Manchete (Dona Beija/1986), TV Cultura (Confissões de Adolescente/1994) e Record (Ribeirão do Tempo/2010). Seu último trabalho na televisão foi  na novela Salve-se Quem Puder (2020). A atriz também apareceu em mais de uma dezena de produções cinematográficas, entre elas Menino do Rio (1982) de Antônio Calmon, Veja Esta Canção (1994) de Cacá Dieques e Polaróides Urbanas (2008) de Miguel Fallabella. Jacqueline Laurence  também era famosa por seus trabalhos de atuação e direção no teatro, pelo qual recebeu os prêmios Moliére e Mambembe em diversas ocasiões. A atriz faleceu em decorrência de uma parada cardíaca.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Paris is Burning

Strike a Pose: registro histórico de um mundo então clandestino.
 

Para finalizar o Ciclo DiversidadeSXL desse ano, escolhi um filme que é um verdadeiro marco temporal. Assistir ao documentário Paris is Burning tem o efeito de uma viagem no tempo diferente, uma que te leva para um lugar que existia mas que era desconhecido da maioria das pessoas. O filme de estreia de Jeanne Livingston retrata o universo vibrante dos Ballrooms da Nova York oitentista. Frequentados sobretudo por drag queens, mulheres trans, gays afro-americanos e latinos. Os eventos eram competições acirradas de estilo, desfiles, batalhas de vogue e disputas em categorias diversas como Town and Country ou Butch Queen. O registro ressalta a importância dos Ballrooms para a construção da identidade de uma comunidade cansada de lidar com a exclusão e o preconceito. Naquele universo eles poderiam ser o que quisessem sem as limitações dos anos 1980, beldades trans poderiam ser divas das revistas de moda ou do cinema, jovens latinos poderiam ser executivos de terno indo trabalhar em Wall Street (e os figurinos do clipe Vogue da Madonna fizeram um novo sentido após perceber isso com o filme), a dura realidade de privações eram esquecidas naqueles momentos. É verdade que existiam discussões terríveis durante as competições e o filme mergulha em interpretações sobre essa necessidade de autoafirmação junto com  expressões que são usadas até hoje dentro do universo LGBTQIAPN+. O documentário nos apresenta figuras icônicas destes locais e explica o que era ser membro de casas famosas como Labeija, Pendavis e Extravaganza que se tornavam sobrenomes para quem fosse vencedor nas competições (uma ostentação talvez ainda maior do que os troféus recebidos). No entanto, o trabalho de Jeanne Livingston não deixa de abordar o lado menos festivo da realidade de pessoas rejeitadas por suas famílias e a necessidade de estabelecer novos laços entre seus pares. Aparecem sonhos de luxo e estrelato em oposição à uma realidade marcada por discriminação, poucas oportunidades e violência. Embora a cultura dos Ballrooms hoje seja mais conhecida, afinal serviu de inspiração para série Pose, para RuPaul's  Drag Race e até Madonna resgatou essa origem na apresentação da música Vogue durante sua Celebration Tour (aquele momento que contou com participação da Anitta em Copacabana), o filme demonstra como a descoberta do que era uma cultura underground de Nova York rendeu curiosidade da mídia. Falando em Vogue, a percepção que tenho das coreografias mudou completamente depois de ver o filme explica-las como se estivéssemos diante de uma verdadeira luta de ninjas. Disponível na MUBI, Paris is Burning ainda pode ser visto como uma verdadeira celebração, mas também como um registro histórico de um grupo de pessoas dispostas a construir uma realidade paralela em que se tornavam verdadeiras estrelas orgulhosas de não ter vergonha do que se é.

Paris is Burning (EUA - Reino Unido / 1990) de Jennie Livingston com Brooke Xtravaganza, André Christian, Dorian Corey, Paris Duprée, Pepper LaBeija, Willi Ninja, Octavia St. Laurent, Sol Pendavis e Freddie Pendavis. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 12 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Blue Jean

Viv (Kerrie Hayes) e Jean (Rosy McEwen): dilemas pertinentes.

Jean (Rosy McEwen) é uma professora de Educação Física de uma escola inglesa para adolescentes. Sua vida profissional é aparentemente sem problemas, mas a vida pessoal passou por atribulações com um divórcio recente e um relacionamento cada vez mais distante com a família. O único lugar em que Jean pode ser ela mesma é no bar que costuma frequentar com a namorada, Viv (Kerrie Hayes) e algumas amigas. Jean é lésbica e ainda precisa lidar com o desconforto que as pessoas demonstram ao descobrir sua homossexualidade. Vale lembrar que o filme é ambientado no cenário bastante conservador de 1988, em que direitos dos homossexuais estava em pauta na mídia britânica e rendia discussões acaloradas que se refletiam em toda sociedade, incluindo nas escolas. Diante da postura de alguns colegas de trabalho, Jean fica ainda mais preocupada com a ideia de um dia descobrirem que se relaciona com outras mulheres, ao ponto de temer nunca mais conseguir trabalhar na região. A forma discreta com que Jean consegue lidar com sua sexualidade e separá-la da vida profissional irá passar por um teste árduo com a chegada de uma nova aluna, Lois (Luccy Halliday), que passa a integrar o time que ela treina para a escola. Lois é sempre perseguida pelas outras colegas, por vezes gerando atos de violência. No dia em que Lois passa a frequentar o mesmo bar que Jean e suas amigas, a professora entra em crise ao imaginar o que pode acontecer depois, logo em seguida se vê diante um dilema que acarretará consequências para ambas. Blue Jean é o filme de estreia da britânica Georgia Oakley que foi indicada ao BAFTA de revelação britânica pelo trabalho e, de fato, realiza algo notável na forma como seu filme se torna cada vez mais complexo perante a postura da professora e do mundo perante sua sexualidade. O roteiro junto ao bom trabalho da atriz Rosy McEwen tem como maior objetivo tornar difícil julgar a postura da personagem, uma vez que suas atitudes são sempre pautadas pelas implicações que podem ser geradas, mas por outro lado, geram ações bastante questionáveis. Desde que Lois atravessa a divisória da realidade traçada por Jean, o filme só cresce em tensão e passa a pontuar questões que talvez a professora negasse pensar durante muito tempo. Um dos pontos mais importantes é ressaltado por Viv em uma das conversas mais tristes que já vi em um filme, mas que é realizado com bastante sutileza pela diretora. O mesmo pode se dizer sobre as cenas de Jean na casa da irmã, local que parece um mundo tão orquestrado que beira o incômodo, mas que também serve de cenário para o momento mais libertador da personagem. Blue Jean é um filme que faz pensar sobre as implicações do preconceito introjetadas na personalidade dos sujeitos que precisam fingir ser outras pessoas como um verdadeiro mecanismo de defesa e sobrevivência. Ao término do filme eu apenas imaginei como a protagonista estaria vivendo hoje. 

Blue Jean (Reino Unido - 2022) de Georgia Oakley, com Rosy McEwen, Kerrie Hayes, Lucy Halliday, Lydia Page, Becky Lindsay, Laynei Shaw e Amy Booth-Steel. ☻☻☻☻

terça-feira, 11 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: O Outro Lado da Cidade Proibida

Si Han: perseguição ao desejo proibido.

Pode se dizer que o cineasta Zhang Yuan estava disposto a fazer barulho quando começou a idealizar O Outro Lado da Cidade Proibida, uma co-produção entre França e China, filmada de forma clandestina devido à forte repressão do governo chinês. O filme foi lançado no Festival de Cannes de 1997 e chamou atenção na Mostra Un Certain Regard, mesmo que o diretor não pudesse estar presente devido à suspensão de seu passaporte por toda polêmica em torno do longa. O filme ficou conhecida como a primeira produção chinesa a falar abertamente sobre homossexualidade e causou escândalo por conta disso, ao ponto de ser proibida de ser exibido no país. A trama conta a história de um jovem escritor (Si Han) que procura parceiros sexuais em um parque em Beijing, perto dos banheiros públicos da cidade, que se tornou ponto de encontro  de homossexuais. O local de vez em quando era alvo de rondas policiais que repreendiam os rapazes presentes por ali com uso de violência física e verbal, além de, por vezes, o levarem para a delegacia para registro daquele "comportamento inadequado". Em uma dessas ações policiais, o escritor conhece um policial (Hu Jun), por quem passa a nutrir uma atração que é logo selada com um beijo. Os dois irão se reencontrar e irão travar uma longa conversa na delegacia. A conversa começa como um interrogatório, mas depois de torna um relato sobre episódios marcantes da história do escritor (que envolvem diretamente a perseguição aos homossexuais e uma vida sexual clandestina). Sobre estes relatos, o policial ouvinte demonstra uma relação ambígua. As narrativas servem para humanizar a figura daquele personagem que lhe parecia tão diferente quanto indigno, mas também para que o próprio policial se depare com alguns desejos que preferia manter escondido. Num processo complexo de identificação e negação, os dois mergulham em um duelo incômodo envolvendo a atração que sentem um pelo outro, mas também jogos de poder e dominação. A utilização de um único cenário ressalta a ideia claustrofóbica daquele encontro e promove um verdadeiro embate entre as identidades dos dois personagens que é ressaltada pelos ângulos escolhidos para emoldurar toda a interação entre os dois. O texto e a direção borram propositalmente algumas questões, especialmente quando apresenta um dos personagens vestido de mulher desencadeando atitudes imprevisíveis na dinâmica entre os dois. Ali prevalece a ideia de um desejo que pode parecer confuso, mas porque não consegue ser explicado ou legitimado, mas apenas sentido e, ao mesmo tempo, precisa ser silenciado por modelos de conduta já estabelecidos. O desfecho do filme deixa bastante evidente os conflitos do policial com sua sexualidade e as ações que isso desencadearam durante o filme. Vale lembrar que pessoas que fugiam do padrão heteronormativo foram criminalizadas na China até 1997 (um ano após toda polêmica do filme), desde então, embora atos homossexuais sejam permitidos no país. O casamento entre pessoas do mesmo sexo permanece proibido no país. 
 
O Outro Lado da Cidade Proibida (Dong gond xi Gong/França - China /1996) de Zhang Yuan com Si Han, Jun Hu, Jing Ye e Wei Zhao.☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Orlando, A Mulher Imortal

Tilda: o masculino/feminino através dos séculos.
 
A escritora britânica Virgina Woolf (1882-1941) é um dos nomes mais reverenciados da literatura mundial, foi considerada uma voz revolucionária por abordar as restrições às mulheres na Inglaterra na sociedade vitoriana. Suas obras e frases cortantes causavam impacto em muita gente (quem nunca ouviu a célebre frase "Quem tem Medo de Virginia Woolf"? que virou até título de filme com Elizabeth Taylor). Virginia se tornou referência do feminismo de sua era e, ainda que fosse casada com o historiador Stephen Woolf, seu relacionamento com a poetisa Vita Sackville-West se tornou bastante intenso (como pode ser notado pelas cartas presentes na compilação The 50 Greatest Love Letters of All Time), o romance entre as duas também rendeu a inspiração para um dos livros mais famosos de Woolf: Orlando. Publicado em 1928, o livro conta a história do personagem que nasce homem, conquista prestígio na nobreza britânica em 1600, mas após uma visita da rainha Rainha Elizabeth I à sua casa, é condenado a permanecer eternamente jovem, atravessando os séculos experimentando mudanças de gênero e parceiros. Durante uma viagem à Turquia, Orlando acorda sendo uma mulher e a mudança altera a forma como enxerga o mundo e como o mundo o enxerga, criando novas perspectivas de vida para alguém que se descobre também imortal. As vivências da protagonista atravessam séculos, deflagrando as diferenças de tratamento dado a homens e mulheres, além do interesse de ambos por ela atravessando as mudanças na sociedade, mas também algumas marcas que permanecem. Adaptar uma obra dessas para o cinema não é tarefa fácil, mas a diretora Sally Potter realizou em 1992 esta adaptação com o auxílio luxuoso de Tilda Swinton no papel principal. Tilda já atuava desde os anos 1980, mas ainda estava longe da consagração que só viria no século XX, no entanto, já demonstrava ser uma potência na interpretação, sobretudo pela forma como se apropria da imagem andrógina para dar vida à Orlando. Ela está brilhante ao manter a essência da personagem entre as mudanças de gênero apresentadas na trama. É incrível como o filme atravessa trezentos anos em hora e meia de duração onde tudo serve para apresentar a passagem do tempo, os cenários, a maquiagem os cabelos e, especialmente, os figurinos que são de encher os olhos num trabalho genial da mestra Sandy Powell (que concorreu ao Oscar assim como a direção de arte do filme). As peças funcionam  não apenas para demarcar o gênero da protagonista, mas também para borra-los em meio aos adornos masculinos e femininos que se misturam através dos séculos. A ideia foi tão à frente do seu tempo que até hoje as peças são reverenciadas em exposições como a ocorrida no Metropolitan Museum of Art (o MET) em 2020. Quando o filme foi lançado em 1992, se tornou um tanto incompreendido e era comum comentar como a bissexualidade do protagonista atravessa os séculos, mas visto hoje, novas camadas são inseridas à obra, não apenas discussões sobre o sexismo que permanece na sociedade, mas também a forma como o filme aborda pontos sobre transexualidade, não-binariedade  e a sexualidade fluida (terminologias recentes, mas que Virginia já imaginava em sua obra há quase cem anos, aspecto que só demonstra o olhar aguçado da escritora sobre a sexualidade humana) pelo viés de uma narrativa que flerta com aspectos fantásticos como a juventude eterna e a imortalidade. Talvez pela história atravessar séculos em uma duração inacreditavelmente enxuta, o fluxo e o ritmo da narrativa provoquem estranhamento até hoje em alguns espectadores, mas aqueles que perceberem como a diretora faz todo o filme se curvar à história secular de seu protagonista (incluindo os toques de humor peculiares como as quebras da quarta parede feitas por Orlando), se sentirão bastante recompensados. Com o tempo o filme adquiriu uma outra curiosidade, o grande amor de Orlando é vivido pelo ator Billy Zane, que quatro anos depois se tornou um dos raros casos de atores gays a se assumirem em Hollywood.

Orlando, A Mulher Imortal (Orlando - Reino Unido /1992) de Sally Potter com Tilda Swinton, Quentin Crisp, Jimmy Somerville, Billy Zane, Simon Russell Beale e Anna Healy. ☻☻☻☻

domingo, 9 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: A Vida sem Você

 Elgerd e Andersson: cenas de uma separação.

Eis que um dia Hampus (Jonathan Andersson) percebe que seu relacionamento com Adrian (Björn Elgerd) não está funcionando. Resta apenas anunciar o término. O anúncio é feito como se algo houvesse morrido,  passa a impressão que qualquer questionamento perante o fim soe mais como uma negação do que a tentativa de buscar argumentos para que prossiga. Resta aceitar. Existe uma apatia, certa indiferença e um senso de comodidade no diálogo que se segue entre o jovem casal. Resta cada um seguir sua vida. Dividirem o que é de quem na casa (incluindo metade da cama, já que a ideia de dividirem o valor não funcionou, mas a metade serve para compensar a TV que ganharam de presente e que não pode ser dividida). Nas conversas entre os dois personagens percebemos que já se separaram anteriormente, mas agora parece diferente, parece definitivo. Embora os dois se encontrem de vez em quando, afinal gostam de ir ao mesmo pub, tem amigos em comum e um sabe onde ver o outro em momentos de recaída, a ideia de voltar atrás sempre soa como um retrocesso, confirmado quando as conversas deixam o afeto de lado e se tornam ásperas pela realidade já conhecida dos momentos de crise. Entre a vontade de reatar e seguir em frente, novas oportunidades de romance aparecem na vida de ambos enquanto tentam manter contato um com o outro.  Talvez seja pela cena inicial (presente nesta postagem) somada ao fato do filme ser sueco, mas a todo instante em que eu assistia A Vida Sem Você, o filme me parecia uma variante do clássico Cenas de Um Casamento (1974) de Ingmar Bergman. Seria óbvio ressaltar que David Färdman (que aqui marca sua estreia em longa metragem de ficção) está longe de ter a genialidade bergmaniana (assim como todos os outros diretores que tentaram fazer algo parecido ao filme estrelado por Liv Ullman), mas assim como alguns admiradores da obra, consegue erros e acertos na empreitada. Durante boa parte de sua duração, A Vida sem Você se apresenta como se não houvesse diferença no rompimento de um casal gay ou hétero, o que por vezes força uma dinâmica um tanto simulada entre os personagens. O elenco se esforça para injetar complexidade nos dilemas dos seus personagens introspectivos,  o que ajuda bastante já que a trama segue sem grandes sobressaltos enquanto descobrimos segredos, mágoas e expectativas daquele relacionamento naufragado. Nota-se uma preocupação especial com Adrian ao longo da narrativa, já que ele é quem menos aceita o rompimento (provavelmente por ter sido anunciado pelo parceiro), mas ao longo do filme passa por uma autoavaliação que se mostra bastante reveladora a si mesmo, o arco do personagem funciona como fio condutor da história. Achei um tanto exagerada a cena em que ele dorme abraçado com um bicho de pelúcia (seria um sinal de carência ou de imaturidade?) e também não gostei da última cena, em que ele anda de bicicleta pelo campo ao por do sol, praticamente um clichê em forma de desfecho. O filme deveria ter terminado na cena anterior demonstrando que o rapaz enfim encontrou seu ponto na conformidade com o inevitável. Dizem que o filme tem um final alternativo, mas acabando na penúltima cena já estaria de bom tamanho para concluir um filme sem novidades mas que cumpre seu papel ao abordar as dores de um término de relacionamento e o sempre desconfortável recomeço.

A Vida sem Você (Are We Lost Forever/ Suécia - EUA / 2020) de David Färdmar com Jonathan Andersson, Björn Elgerd, Shirin Golchin, Victor Iván, Micki Stoltt e Nemanja Stojanovic. ☻☻☻

sábado, 8 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Querelle

Brad Davis e seus colegas de elenco: coleção de fetiches. 

Ver filmes apontados como referências de determinado gênero é sempre uma experiência complicada. Afinal, você precisa lidar com as expectativas de tudo que ouviu falar sobre ele através de vários anos, talvez décadas. Disponibilizado recentemente na MUBI, Querelle é um daqueles filmes sempre apontados como um marco referencial de uma estética cinematográfica queer. Obviamente que existe aqui um diferencial de peso, afinal, não se trata de uma obra feita por um diretor novato que ainda buscava encontrar seu público, mas um diretor consagrado. O alemão Rainer Werner Fassbinder se tornou um dos grandes nomes do cinema alemão e acabava de concluir sua trilogia sobre o período mais sombrio da história da Alemanha quando se aventurou pelo universo de Jean Genet (1910-1986). O livro Querelle de Brest foi publicado em 1947 e trazia a marca da homossexualidade das obras do escritor. Fassbinder já era famoso por se envolver com seus atores e atrizes, tendo começado a construir uma estética queer com  As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant /1972 (que recentemente recebeu uma versão chamada Peter Von Kant/2022 de François Ozon, outro diretor de marca queer bastante evidente). Dez anos após voltar sua lente pessimista sobre a atração entre duas mulheres, o diretor volta-se agora para homens atraídos por outros homens. Querelle (Brad Davis) é um marinheiro francês que é cercado de homens que o desejam. Ele chega no porto de Brest e reencontra o irmão (Hanno Pöschl), que agora vive em um bordel com sua amante cafetina, Lysiane (Jeane Moreau). Não espere uma trama de romances, o filme utiliza o que tem em mãos para contar uma série de relações de poder, violência e abuso entre os personagens que gravitam em torno do protagonista. Existe uma sensação de desejos e amores sufocados prestes a explodir em sua relação com as ações dos personagens e os diálogos crus e agressivos. Basta ver a cena do reencontro entre os dois irmãos, em que o abraço se intercala com socos abaixo da costela. Não espere sutilezas. As frases estão lá para serem cortantes e, vistas hoje, podem provocar risos, mas na época geraram bastante polêmica pela naturalidade como abordava sua temática sexual. A estética de Querelle é por sua vez bastante onírica, marcada por um tempo indefinido, anacrônico, com o por do sol permanente em oposição aos momentos noturnos. Existe uma atmosfera de sonho e fantasia com muita inspiração nos cenários e movimentações teatrais sobre um palco. Ali se misturam vários elementos que podemos identificar hoje como fetiches, os corpos suados, couro, policiais, marinheiros, homens brutos que mais parecem disfarces para os desejos que devem sempre ser contidos ou vivenciados em tom de indiferença. Esse processo de construção da narrativa me soa bem mais interessante do que a trama em si, que em determinado momento cede espaço para uma investigação policial. Acho que a intenção de Fassbinder era essa mesmo. Querelle se tornou o último filme do diretor - e também foi o mais controverso de sua carreira, muito por conta do conteúdo sexual sem disfarces. Há quem aponte que seria um marco da nova fase da carreira do cineasta, sua carreira pontuada por filmes tão alegóricos quanto secos chegou ao fim por conta de uma overdose em junho de 1982, três meses antes do lançamento de Querelle.

Querelle (Alemanha Ocidental / França - 1982) de Rainer Werner Fassbinder com Brad Davis, Franco Nero, Janne Moureau, Laurent Male, Günther Kauffman, Roger Fritz, Burkhard Driest e Dieter Schidor. ☻☻☻

quarta-feira, 5 de junho de 2024

NªTV: Eric.

Eric e Benedict: projetando os demônios interiores.
 
Nos anos 1980, Vincent Anderson (Benedict Cumberbatch) era um dos cérebros por trás de um programa estrelado por bonecos que era um dos maiores sucessos televisivos para as crianças. Casado e com um filho, o fofo Edgar (Ivan Morris Howe), Vincent começa a sofrer pressões dos produtores para alavancar a audiência do programa. Bastam poucas cenas para ver que Vincent é um sujeito instável, além do temperamento explosivo no trabalho, as discussões com a esposa, Cassie (Gaby Hoffmann) também se tornaram constantes, ao ponto de um dia o pequeno Edgar ir para a escola sozinho para fugir daquele clima. Acontece que o menino não chega à escola e também não retorna para a casa. Os Anderson começam a viver um pesadelo sobre o que teria acontecido com o menino. Enquanto o detetive Michael Ledroit (McKingley Belcher III) investiga o paradeiro do menino, Vincent começa a interagir com Eric, o monstro (imaginário) sugerido por Edgar para ser o novo membro do programa infantil. Composta por seis episódios, Eric da Netflix é uma série que expande sua trama ao limite. Não querendo falar somente sobre uma investigação policial, a série investe no contraste entre a fantasia reconfortante  de um programa infantil com a dura realidade da Nova York nos anos 1980 com suas crianças desaparecidas, inferninhos, AIDS, grandes empresários, políticos corruptos, moradores de rua, drogas, prostituição e por aí vai. Às vezes deixa a impressão que o programa quer falar sobre tanta coisa quando na verdade utiliza os temas citados apenas para ressaltar as angústias da família Anderson, afinal, nada além disso recebe um desenvolvimento elaborado, até mesmo a interação de Vincent com o monstro imaginário rende poucos momentos memoráveis no meio da história. O grande trunfo da minissérie é a atmosfera de insegurança e o trabalho de todo o elenco que é capitaneado pelo sempre interessante Benedict Cumberbatch. Quando eu descobri do que se tratava a história, eu lembrei de um filme feito para TV em que o ator também buscava o filho desaparecido (The Child in Time/2017), no entanto, os dois pais vividos pelo ator não poderiam ser mais diferentes,  o Vincent parece muito com o complicado Patrick Melrose/2018, o que acabou atrapalhando meu envolvimento com o personagem. Déjà vu.  Finalizando os seis episódios, imaginei que Eric renderia um ótimo filme de duas horas e meia de duração. Se não atirasse para todos os lados, seria uma  das minhas minisséries favoritas do ano.
 
Eric (EUA-2024) de Abi Morgan com Benedict Cumberbatch, Gaby Hoffmann, Dan Fogler, Ivan Morris Howe, Mckingley Belcher III, Bamar Kane, José Pimentão, Erika Soto e Chloe Claudel. ☻☻☻

PL►Y: Godzilla Minus One

Gojira: monstrão de respeito.

Pode parecer coincidência ou ironia, ou talvez seja proposital que em tempos em que se reclama muito sobre os efeitos especiais dos filmes americanos, o ganhador do Oscar de melhores efeitos especiais seja uma produção japonesa. Na concorrência estava o aguardado Napoleão de Ridley Scott, o último filme da franquia Missão Impossível, o sucesso Guardiões da Galáxia3 e a surpresa Resistência. Quem levou foi Godzilla Minus One, o primeiro filme do monstrão com mais de setenta anos a levar um Oscar para casa e, também, o primeiro de língua não inglesa a levar a estatueta para casa. Foram necessários mais de quarenta filmes para que esta aclamação acontecesse e muito se deve ao diretor Takashi Hiamazaki, um verdadeiro craque dos efeitos. O trabalho da equipe é realmente notável devido ao realismo impresso nas cenas, não apenas em que o monstrengo aparece, mas também na completa devastação promovida por ele. No entanto, o que chama bastante atenção no filme é a forma como leva a a sério a história que tem para contar em torno do seu protagonista. O filme começa ao final da Segunda Guerra Mundial, quando somos apresentados ao piloto kamikaze Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), que estava ao lado de engenheiros da aviação japonesa na Ilha Odo quando o gigantesco monstro aparece para dizimar quem estiver pela frente. Kōichi acaba sobrevivendo ao ataque e voltando para uma Tóquio devastada pela guerra. Lá encontra alguns sobreviventes, com quem acaba formando uma família com integrantes que perderam seus parentes durante a guerra. Quando a vida parece entrar nos eixos por lá, o Godzilla aparece maior e mais forte e disposto a eliminar quem perturbou seu sono nas profundezas do oceano. Assim, Kōichi precisa enfrentar os medos que sempre o fizeram permanecer em guerra consigo mesmo e impossibilitado de seguir em frente.  Com este ponto de partida, o filme retoma a origem do monstro, sem perder de vista o terror e o fascínio que provoca com base na história do próprio Japão, que precisou se reerguer das cinzas após ser destroçado pela Guerra. Mais do que a devastação provocada pelo monstro (em cenas impressionantes) o filme se mantém de pé por conta da jornada do seu protagonista para se tornar um verdadeiro herói. Godzilla Minus One é um filme com maior jeito de matinê, não cai na armadilha de se complicar e acerta ao fazer o que os fãs de um dos maiores monstros do cinema querem assistir no cinema. A vantagem aqui é que o monstro aparece dentro de seu contexto de forma avassaladora (bem diferente do que vemos nas produções de Hollywood em torno dele), reflete temores históricos e promove uma catarse de forma contundente. Embora o filme tenha surpreendido nas bilheterias mundiais (só nos Estados Unidos foi o filme estrangeiro mais visto na história), basta assisti-lo para entender o que motivou tanto sucesso. Enquanto Hollywood torra o que este fez de bilheteria  em filmes que flopam perante o público, Godzilla Minus One custou dez milhões de dólares e rendeu mais de dez vezes isso só nos EUA. O Oscar de melhores efeitos especiais soa como um sinal para rever conceitos. O filme entrou recentemente no catálogo da Netflix.

Godzilla Minus One (Gojira -1 / Japão - 2023) de Takashi Hiamazaki com Ryunosuke Kamiki, Minami Hamabe, Sakura Andô, Kuranosuke Sasaki e Munetaka Aoki. ☻☻☻