sábado, 10 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Visages Villages (FILMED+)

Agnès e JR: deliciosa viagem 

Um dos meus erros nas apostas do Oscar deste ano foi ter considerado que Visages Villages levasse o prêmio de melhor documentário. Bem, ele não levou, mas isto não quer dizer muita coisa, já que ele ainda é um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos meses. O longa parte da ideia da cultuada diretora francesa Agnès Varda - responsável por clássicos imortais como As Duas Faces da Felicidade (1965), Os Renegados (1985) e o recente As Praias de Agnès (2008), que assim como este aqui envolve suas memórias e a paixão pela fotografia - em ter uma parceria com o artista JR, famoso pelas fotografias gigantes de anônimos em preto e branco coladas em lugares públicos. Embora sejam de gerações diferentes (ela tem 90 anos e ele deve ter uns quarenta) os dois deixam claro que seus trabalhos tem afinidades bem marcantes. O encontro é irresistível desde o início, quando os dois contam de forma muito simpática como eles não se conheceram. Logo depois eles entregaram que se conheceram através da arte um do outro. Ele lembra do cinema de Varda e ela se impressionou com algumas fotografias que ele espalhou por aí. Assim, fica fácil entender como ela teve a ideia de convidá-lo para uma viagem criativa pelo interior da França em busca de anônimos prestes a se tornarem obras de arte. Sorte que o filme consegue ser mais do que apenas uma sucessão de sessões de fotografia, uma vez que dá voz para as pessoas comuns, suas histórias e reações diante das imagens gigantes. As fotografias rendem encontros, resgates históricos, apresentações e momentos um tanto surreais guiados pela imaginação da dupla. São momentos deliciosamente lúdicos (o caminhão ilustrado como uma máquina fotográfica - e que revela as fotos como uma enorme Polaroid sobre rodas  é um verdadeiro achado). Visages Villages é uma verdadeira ode às pessoas comuns e o que podem ter de mais interessante: suas histórias de vida. Para além da proposta em si, o filme explora um pouco a relação entre os  dois artistas (especialmente o incômodo de Agnès em sempre ver seu parceiro de óculos escuros) e ver a cineasta comentar um pouco sobre o envelhecimento, a visão (que se torna cada vez mais turva - como ela já relatou no documentário brasileiro Janela da Alma/2001) e até a solidão após a morte do esposo, o também diretor Jacques Demy. Criativo, sensível e engraçado, o filme poderia ser o primeiro de uma série de filmes com a dupla e, o melhor de tudo, demonstra como uma mulher genial permanece uma mulher genial, mesmo sob os efeitos do tempo. Vale lembrar que o Oscar de documentário não foi para o filme, mas Varda foi a homenageada do ano pela Academia, recebendo um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra no cinema. 

Agnès Varda

Visages Villages (França/2017) de Agnès Varda e JR com Agnès Varda, JR, Marie Douvet, Claude Flaert e Vincent Gills. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 9 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: A Festa

Os convidados: elegantes alfinetadas sobre a Europa atual. 

A inglesa Sally Potter dirige filmes desde que ganhou sua câmera oito milímetros aos quatorze anos. Ela começou a carreira fazendo curtas e chamou atenção da crítica quando ousou adaptar Orlando - A Mulher Imortal (1992), a saga escrita por Virginia Woolf em que a ambiguidade sexual de sua protagonista atravessa os séculos. O filme foi indicado para dois Oscars e foi um dos primeiros filmes a colocar Tilda Swinton sob os holofotes da mídia internacional. Em seus filmes seguintes, o fato de contar com personagens femininas fortes tornou-se uma marca registrada, mesmo que por vezes as utilizasse de forma inusitada (basta lembrar da modelo vivida por Jude Law em Fúria/2009). Sally definitivamente não liga para convenções e, por isso mesmo, seus filmes costumam sempre deixar a plateia um tanto inquieta. Foi isso que aconteceu com A Festa, que foi exibido por aqui no Festival do Rio do ano passado e dividiu a crítica pela forma que a diretora constrói sua história. A trama gira em torno de uma noite onde um grupo de amigos se encontram para comemorar a nomeação de Janet (Kristin Scott Thomas) para ocupar o cargo de Ministra da Saúde na Inglaterra. Entre os convidados estão o esposo de Janet, Bill (Timothy Spall) - que parece um tanto catatônico diante da notícia - , a amiga americana  politicamente desiludida, April (a excepcional Patricia Clarkson), e o namorado alemão  otimista, Gottfried (Bruno Ganz num personagem que até o nome parece uma piada).  Também marcam presença o casal de amigas formado por Martha (Cherry Jones) e Jinny (Emily Mortimer) que precisam lidar com a notícia da chegada de trigêmeos na família. Ah, claro, não poderia faltar Tom (Cillian Murphy), o marido bonitão da atrasada Marianne - e que está disposto a contar um segredo capaz de desestabilizar toda a comemoração. A Festa tem uma essência totalmente teatral, mas foi escrita para a telona mesmo, ressaltando a forma como a diretora utiliza uma câmera ágil para intensificar a agitação dos personagens com todos os dilemas que surgem daquele encontro, especialmente com a crise deflagrada no casamento de Janet - que tenta manter a calma, mas está visivelmente à beira de um ataque de nervos. Existem dois pontos que fazem a diferença no filme, um deles é o humor negro, tipicamente britânico que faz a plateia rir nervosa em vários momentos (a cena em que April diz para a amiga o que ela precisa fazer para governar o país é de rolar de rir), o outro ponto fica por conta dos diálogos elaborados lapidados para retratar como é difícil entender política enquanto parte das relações humanas, especialmente no mundo pós-moderno cheio de discursos efêmeros e dicotomias. Esperanças, ideologias, desilusões, fidelidades, traições e falência das instituições aparecem em vários diálogos emoldurados por closes constantes ou ângulos diferenciados, quase expressionistas. Existe um cinismo realmente cortante no roteiro que muitos percebem retratar uma Europa de pouca certeza em suas convicções e que não sabe muito bem para onde vai - talvez por isso, a diretora opte pela belíssima fotografia em preto e branco para mostrar o quanto algumas questões parecem datadas, ou  seriam clássicas? Talvez sejam apenas cinzentas mesmo. 

Sally Potter

A Festa (The Party / Reino Unido - 2017) de Sally Potter com Kristtin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Timothy Spall, Bruno Ganz, Emily Mortimer, Cillian Murphy e Cherry Jones. ☻☻☻

quinta-feira, 8 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Fatal (FILMED+)

Ben e Penélope: romance e melancolia. 

Os livros de Phillip Roth costumam complicar a vida dos diretores que tentam levar suas histórias para a tela, ainda assim, ele é um dos escritores favoritos quando o assunto é adaptação cinematográfica. Geralmente seus fãs ficam desapontados com o resultado, mas, pode se dizer que o trabalho da cineasta espanhola Izabel Coixet sobre o livro Animal Agonizante é uma das melhores adaptações do autor para o cinema. Talvez, o que faça a diferença seja a presença de uma mulher dirigindo uma história tão centrada no olhar masculino sobre um romance. O protagonista da história é o professor universitário David Kepesh (Ben Kingsley), ele adora sair com suas alunas mais jovens, mas isto não impede que ele tenha um relacionamento somente sexual com a colega Carolyn (Patricia Clarkson). Os dois são maduros e aparentemente bem resolvidos, se encontram regularmente há anos e não existem cobranças emocionais sobre namoro, casamento ou monogamia. A rotina de David muda quando ele conhece Consuela (Penélope Cruz) e, por mais que o romance entre os dois se intensifique, ele faz questão de manter um distanciamento, afinal, não se considera homem de assumir compromissos. No entanto, nasce ali um sentimento diferente, que David não sabe muito bem como lidar e que sofrerá um duro golpe quando o destino de Consuela sofrer uma mudança dolorosa. Com este material em mãos, muitos críticos e leitores perceberam que mesmo sendo fiel ao livro de Roth, Coixet banha seu filme em uma melancolia ainda maior,  o que torna a história ainda mais interessante e revelador, especialmente em suas dores sobre o envelhecimento e a morte. Ben Kingsley está ótimo como o homem autocentrado que evita envolvimento emocional com as suas parceiras, mas é Penélope Cruz que tem o melhor momento do filme, naquela cena em que ela se despede de suas formas antes que o inevitável aconteça. É uma cena tão devastadora que ainda hoje não consigo assistir sem chorar como se fosse pela primeira. Não foi por acaso que a diretora resolveu colocar outro nome em seu filme, Elegy (Elegia, um poema lírico, terno e triste) que ilustra muito melhor o que vemos na tela (sabe se lá o motivo de no Brasil o filme se chamar Fatal). Coixet capricha em cada detalhe de seu filme, na fotografia, na condução de seus atores (com destaque ainda para o casal formado por Dennis Hooper e a rockeira Debbie Harry do Blondie). Este é o meu filme favorito da diretora nascida em Barcelona e que filma cada vez mais em língua inglesa. Não deixa de ser curioso que em um de seus filmes mais recentes (o bem mais leve Assumindo a Direção/2014) ela tenha trabalhado novamente com Patricia e Ben em papéis totalmente diferentes que vemos aqui.

Isabel Coixet

Fatal (Elegy/EUA-2008) de Isabel Coixet com Ben Kingsley, Penelope Cruz, Patricia Clarkson, Dennis Hooper, Debbie Harry e Peter Sarsgaard. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 7 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: Miss Stevens

Miss Stevens e seus alunos: a dura arte de crescer. 

Ouvi falar do filme Miss Stevens por acaso no meio das matérias sobre os indicados ao Oscar deste ano que transbordaram nas últimas semanas. O matéria era sobre atuações marcantes dos indicados que provavelmente ninguém viu. O citado em questão era o Timothée Chalamet, indicado ao Oscar de Melhor Ator por Me Chame Pelo seu Nome que aqui recebe destaque como o problemático Billy, um menino que tem dom para atuação e que está, provavelmente, apaixonado pela professora que dá nome ao filme. Miss Stevens é a jovem professora de Literatura de uma escola americana que recebe a tarefa de levar três alunos para uma competição de arte dramática no fim de semana em outra cidade. Assim, ela terá que conviver mais de perto com Margot (Lili Reinhart), Sam (Anthony Quintal) e o introspectivo Billy (Chalamet). A viagem tem lá seus contratempos, mas o que interessa é como a proximidade faz com que Miss Stevens baixe a guarda e comece a se revelar mais como Rachel do que como a professora de todos os dias na escola. Ela fala palavrão quando fura o pneu do carro, comenta travessuras de sua adolescência em uma escola conservadora, bebe quando está numa festa e até flerta com um homem casado. A postura da professora deixa seus alunos um tanto confusos, especialmente quando a própria professora precisa lembrar a si mesma que por mais que esteja próxima daqueles adolescentes ela é a adulta responsável por eles naqueles três dias. O mais interessante do filme é apresentar que se os três alunos são seres em construção, a própria protagonista ainda precisa aprender a lidar com a vida adulta, especialmente após uma perda que ainda não conseguiu superar. O filme torna-se interessante justamente por ela tentar ajudar seus alunos a superarem seus desafios quando ela mesma não sabe muito bem o que deve fazer, mas segue em frente tentando acertar. A ideia rompe completamente com aquela velha imagem de professor redentor tão comum em vários filmes. Miss Stevens é tão humana quanto seus alunos e, por isso mesmo, torna-se interessante. O filme dirigido pela estreante Julia Hart é bastante simpático e fácil de assistir, ao mesmo tempo carrega o encanto de mostrar aqueles personagens tentando fugir dos papéis que lhe cabem no ambiente escolar. Assim, Margot torna-se capaz de generosidade insuspeitas, Sam é bem menos seguro do que se imagina e Billy... mostra-se o personagem mais interessante da história. Seu interesse por Miss Stevens está sempre no olhar, no sorriso e nas tentativas de fazê-la se afastar do papel de professora. É neste embate entre o distanciamento e a identificação que um sente pelo outro que o filme se torna mais interessante. Talvez se estudassem na mesma escola, Billy e Rachel fossem amigos e até vivessem um romance pelas afinidades que possuem, mas com a distância de pouco mais de uma década a situação complica, mas a diretora trabalha esta situação com bastante leveza e sobriedade. Ajuda muito também o fato de Billy saber canalizar seus problemas para o palco com uma energia invejável (a cena em que ele se apresenta com um trecho de Um Bonde Chamado Desejo é arrepiante e mostra que Chalamet tem tudo para fazer bonito em Hollywood). Julia Hart pode até não aprofundar demais os conflitos de seus personagens, mas consegue realizar um filme simpático e bastante sincero, capaz de crescer em nossas mentes após a cena final. Sua estreia transita entre comédia e drama com facilidade - e me faz querer saber qual será seu próximo projeto atrás das câmeras. 

Julia Hart

Miss Stevens (EUA-2016) de Julia Hart com Lily Rabe, Timothée Chalamet, Lili Reinhart, Anthony Quintal, Oscar Nuñez e Rob Huebel. ☻☻☻

terça-feira, 6 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: A Hora da Estrela

Marcélia e Dumont: excelente adaptação da obra de Clarice Lispector. 

É surpreendente como nos Estados Unidos as cineastas ainda precisam fazer  barulho para ter seus méritos reconhecidos. Dia desses conversava com uma amiga e percebemos que no Brasil existe uma tradição de grandes diretoras que já são reconhecidas pelo seu talento, com prêmios, bilheterias expressivas e tudo mais. Obviamente que elas devem enfrentar alguns preconceitos para bancar os seus projetos, mas em termos de méritos artísticos, são bem posicionadas perante o público e a crítica e não precisam provar mais nada para ninguém. Não consigo imaginar diretoras do porte de Laís Bodansky ou Tata Amaral clamando por indicações e prêmios por seus trabalhos. A consagração já acontece, o que não deixa de ser uma situação notável em um país com tantos problemas rondando sua produção cinematográfica. Citaria fácil umas dez diretoras brasileiras que são reconhecidas aqui e no exterior e, no meio delas, estaria Suzana Amaral. A estreia da diretora aconteceu em 1985 com A Hora da Estrela, adaptação do livro lançado sete anos antes pela icônica Clarice Lispector - o qual viria a se tornar o último livro da escritora publicado em vida. Considerado um clássico do cinema nacional, o filme está entre  as melhores adaptações de um livro para o cinema e, o mais curioso, é que consegue transpor toda a alma da história para a telona sem precisar ser rigorosamente fiel ao livro. Ele já começa com a ousadia de cortar o narrador do livro, o que não é pouco, já que quem leu o livro sabe que o narrador é praticamente um personagem da história. Suzana deixou as imagens falarem por si só, valorizando os diálogos entre os personagens e, sobretudo as atuações de um elenco inspirado. Coube à então estreante Marcélia Cartaxo dar vida à protagonista, Macabéa, que aqui não vive no Rio de Janeiro, mas em São Paulo. Macabéa trabalha como datilógrafa num escritório, divide a casa com outras mulheres e  tem como maior passatempo ouvir a Rádio Relógio - anotando até em um caderninho com as informações que considera as mais interessantes. A vida de Macabéa segue sem grandes emoções, até que ela encontra um namorado, Olímpico (José Dumont), mas ele é tão grosseiro que fica difícil torcer para que os dois se acertem. Ela também tem uma amiga, Glória (a sumida Tamara Taxman) que é seu completo oposto e a vida e só ressalta o quanto a personagem está pouco confortável no mundo em que habita. Pelo papel de Macabéa, Marcélia foi premiada no Festival de Berlim e seu trabalho é notável pela vulnerabilidade que transborda da personagem, transmitindo uma inocência quase infantil ao mesmo tempo que mo termina cada frase como se pedisse desculpa pela própria existência. Pela magistral condução dos seu elenco, que torna cada personagem cheio de camadas e de difícil julgamento, Suzana se tornou um dos maiores nomes do cinema nacional. A narrativa um tanto áspera com contraste às esperanças de sua protagonista ainda é bastante vivaz e faz jus ao estilo de Clarice Lispector descrever o que ela chamava de geografia interior de suas criações sem perder a sensibilidade diante delas (vale lembrar que estou falando da verdadeira Clarice, não aquela farsante de memes em redes sociais). Apesar da trilha sonora datada, o filme envelheceu bem e ao assistí-lo só lamentamos o fato de Suzana filmar tão pouco. Em 33 anos de carreira, a cineasta realizou apenas quatro filmes, sendo que o último (Hotel Atlântico/2009) dividiu opiniões pelo seu tom assumidamente inspirado em David Lynch. Suzana tem oitenta e cinco anos, formou-se na Escola de Comunicação e Arte da USP e fez pós-graduação em cinema na Universidade de Nova York e gosta de fazer filmes bastante diferentes um do outro. Por conta disto, é capaz de surpreender mais do que muitos jovens cineastas que estão por aí.

Suzana Amaral

A Hora da Estrela (Brasil - 1985) de Suzana Amaral com Marcélia Cartaxo, José Dumont, Tamara Taxman Sonia Guedes e Fernanda Montenegro. ☻☻☻☻

segunda-feira, 5 de março de 2018

CICLO DIRETORAS: The Breadwinner

Parvana: animação a ser levada a sério. 

Parvana é uma menina de onze anos que vive em no Afeganistão sobre o regime do Talibã no ano de 2001. Seu pai é um ex-professor que ela ajuda nas vendas que auxiliam nas despesas da casa. Um dia ele é levado preso e a pequena Parvana deverá ajudar a mãe a manter a casa, cuidando de um irmão ainda bebê e contando com o auxílio da irmã mais velha. Não bastasse todos os dramas que decorrem da prisão do pai, a história ainda ressalta a opressão às mulheres daquele país e as complicações geradas a partir dela, já que Parvana mal pode sair de casa sem a presença do pai por perto. Diante destas condições, ela decide se passar por um menino, conseguindo não apenas trabalho e algum dinheiro, mas também tenta descobrir o paradeiro do pai preso injustamente. The Breadwinner é baseado no livro de Deborah Ellis e chegou às telas pelas mãos da diretora irlandesa Nora Twormey . A produção é de Angelina Jolie e, apesar do traço gracioso, o filme aborda uma história densa, mas sem perder a sensibilidade e um certo toque de fantasia - já que Parvana pontua sua trajetória com a história de um outro personagem quase mítico que tem vários desafios a vencer. Embora seja uma animação, o filme é bastante sério e deixa claro o cuidado da cineasta no trato com os personagens enquanto seres de carne e osso. Twormey privilegia sobretudo as relações de sua protagonista com a família em contraste com o cenário caótico que se intensifica com uma guerra iminente (e basta olhar o ano em que se passa a história para saber o motivo). Não deixa de ser curioso que o filme tenha sido indicado ao Oscar de melhor animação deste ano - ao lado de filmes que primam sobretudo ao entretenimento - já que um dos grandes méritos fica por conta do talento da diretora não diluir a força da história que tem em mãos afim de para torná-la mais palatável. O resultado é não apenas bonito visualmente, mas também comovente. Esta não foi a primeira vez que a animadora teve um filme indicado ao Oscar, em 2010 ela co-dirigiu The Secret of Kells que também concorreu ao prêmio de animação daquele ano. O mais interessante é que em seu projeto solo caiu como uma luva nos projetos de Jolie em contar histórias sobre a opressão vivida, especialmente por mulheres e crianças ao redor do mundo.

Norah Twomey

The Breadwinner (Canadá/Irlanda/Luxemburgo - 2017) de Norah Twomey com vozes de Saara Chaudry, Soma Chhaya, Noorin Gulamgaus, Laara Sadiq e Kawa Ada. ☻☻☻☻

PREMIADOS OSCAR 2018



Ontem a temporada de ouro do cinema chegou ao fim com a entrega dos Oscars e, embora não tenha acontecido muitas surpresas, foi uma festa emocionante para quem curte cinema. A Academia acertou no tom e nas escolhas, evidenciando que percebe o quanto o cinema é um reflexo dos tempos em que vivemos. Fora isso, também disse que tem opinião própria sobre aquele que considera o melhor filme do ano. A seguir comento todos os premiados e marcando os meus acertos com o tradicional ☻ :

☻Melhor Filme: A Forma da Água
Se você acompanha o blog, viu que o primeiro filme que citei como um dos favoritos na temporada de prêmios foi A Forma da Água. Embora Três Anúncios para um Crime se tornasse o mais premiado desta temporada, era evidente o apelo que esta fantasia de Guillermo del Toro teria sobre os votantes. O romance de uma mulher muda por um monstro evoca todos os gêneros cinematográficos (sem deixar até o musical de fora) e fala um pouco da história do próprio cinema enquanto reflexo da realidade, seja através da fantasia ou do realismo. Goste ou não, A Forma da Água é o tipo de filme que será lembrado por muito tempo. 

Com Martin McDonagh fora do páreo de direção, eu já esperava que a festa seria de Guillermo. Seu estilo de cinema ainda causa estranhamento, mas... vai dizer que não é interessante? O melhor de tudo é que sua premiação completa a trinca de hermanos com um Oscar de direção na mão. Alfonso Cuarón  e Alejandro González Iñárritu devem estar comemorando.

Ninguém tinha dúvidas de que chegava a hora de Oldman colocar as mãos na estatueta. Incrível como um ator de tantos recursos foi indicado somente uma vez antes de ser premiado. Obviamente que eu gostaria que ele não precisasse utilizar aquela maquiagem transfigural de Churchill, mas está valendo! Se você chorou por Thimothée Chalamet não levar, não se preocupe, o moço terá muitas chances de levar no futuro. 

Outra unanimidade da temporada, Frances já tinha um Oscar em casa por Fargo (1995) e agora fez um par. O melhor de tudo foi ver seu estilo peculiar (ela faz o tipo de que não está nem aí para a fama) fazendo discursos que misturava o ar entediado com gracinhas ("de vez em quando acham que eu mereço um desses aqui", "vocês deveriam lembrar das mais jovens para motivá-las", "essa temporada de prêmios vai durar para sempre" e por aí vai). No Oscar ela se superou ao pedir para que todas as indicadas ficassem de pé para destacar que todas tem projetos a serem financiados e que merecem atenção dos produtores. Que assim seja.

☻Melhor Ator Coadjuvante: Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime)
Embora muita gente considere que Rockwell fez aqui o que sempre fez na carreira, vale lembrar que o Oscar nunca deu bola para ele, portanto, já estava na hora, mesmo que fosse por um policial execrável que se torna bonzinho ao longo da história.  

☻Melhor Atriz Coadjuvante: Allison Janney (Eu, Tonya)
Janney levou todos os prêmios da temporada e foi merecido. É o tipo de atriz que fazia tempo que merecia ser descoberta pela Academia. Sua atuação como a mãe da patinadora Tonya Harding consegue ser engraçada e assustadora ao mesmo tempo. Simplesmente sensacional! 

☻Melhor Roteiro Adaptado: Me Chame pelo seu Nome
Um dos filmes mais elogiados do ano não poderia sair de mãos abanando. Além disso, a Academia teve a ótima oportunidade de honrar a carreira de James Ivory - que já teve três indicações ao Oscar antes desta aqui e nunca levou. Parabéns, James. 

☻Melhor Roteiro Original: Corra!
Outro que também não poderia sair de mãos abanando. O mais curioso é que o terror de Jordan Peele tem inspiração no universo de Quero Ser John Malkovich (1999) - que também concorreu na mesma categoria e não levou. Misturando crítica social e surrealismo, Peele se tornou um autor para se ficar de olho. 

Melhor Filme em Língua Estrangeira: A Fantastic Woman (Chile)
Foi bastante pontual a escolha do filme chileno na categoria! Ele é bastante afinado com o discurso que a Academia ainda precisa repetir para seus membros e lembra bastante os filmes que Almodóvar poderia ter feito se não houvesse se perdido nos últimos anos. Bom trabalho, vizinhos!

Melhor Design de Produção: A Forma da Água
Os visuais de del Toro são sempre imbatíveis, mas eu ainda achava que ampliar o mundo de Blade Runner levaria esta. 

☻Melhor Fotografia: Blade Runner 2049
Eu chorei ao ver Roger Deakins quebrar a maldição de ser um dos maiores perdedores do Oscar. Foi necessário ser indicado a décima terceira vez para ser reconhecido pelos votante. Além disso, serviu de consolo para os fãs do incompreendido filme de Denis Villeneuve. 

☻Melhor Figurino: Trama Fantasma
Nada mais coerente na categoria do que dar o prêmio para um filme ambientado no mundo da moda. 

Não era minha favorita, mas tinha um apelo irresistível para os vontantes (ainda mais com a celebração mexicana que apareceu em vários momentos). Eu torcia para Mistery of Love de Me Chama Pelo Seu Nome, mas só de ver Sufjan Stevens tocando no palco com a St. Vincent eu já fiquei feliz. 

Melhor Edição: Dunkirk
Sou um dos que tem algumas ressalvas com relação à edição caótica de Dunkirk, mas também não posso dizer que se trata de um equívoco. Eu ainda preferia a cadência de Em Ritmo de Fuga que era muito mais inovadora. 

☻Melhor Mixagem de Som: Dunkirk
Esta era merecida. No cinema a mixagem realmente impressiona ao nos transportar para o campo de batalha. Tive uma baita dor de cabeça...

Melhor Edição de Som: Dunkirk
Espero que a sequência de Em Ritmo de Fuga tenha mais sorte...

☻Melhor Animação: Viva: A vida é uma festa
Surpresos? Não mesmo...

☻Melhor Curta de Animação: "Dear Basketball"
Quando eu vi o traço original, quase feito em esboços eu imaginei que a Academia iria adorar. Além disso a paixão pelo basquete ajuda bastante!

Melhor Curta: "The Ailent Child"
Geralmente não temos muito acesso aos curtas indicados ao Oscar, mas só o fato da  diretora subir ao palco para pegar a estatueta e traduzir seu discurso para a linguagem de sinais, já merecia um outro Oscar. 

Melhor Trilha Sonora: A Forma da Água
Segundo Oscar para Desplat. Esta foi sua sétima indicação ao prêmio - e o cara é um gênio (ainda que eu preferisse a de Trama Fantasma). 

Melhor Documentário: Ícaro
Surpresa!!! Ninguém imaginava que um filme da Netflix iria desbancar um filme da Agnès Varda. Não acho Ícaro tão interessante, mas valeu para quebrar os preconceitos com as produções distribuídas pelo serviço de streaming. 

Melhor Documentário em Curta-Metragem: "Heaven is a traffic jam on the 405"
Outra surpresa, mas desta vez foi boa. O curta sobre uma artista atormentada e sua ligação com a arte é realmente fascinante. Vale procurar. 

☻Melhor Maquiagem e Penteados: O Destino de uma Nação
Só pelo o que fizeram com o rosto Gary Oldman o filme já merecia. 

☻Melhores Efeitos Visuais: Blade Runner 2049
Queria tanto ver Blade Runner 2049 se consagrar no Oscar, mas... tive que me contentar com duas estatuetas. Por criticar sei que estarei reclamando de barriga cheia então... o prêmio está nas mãos certas!

Placar:
A Forma da Água: 04
Dunkirk: 03
Três Anúncios Para um Crime - 02
O Destino de Uma Nação - 02
Blade Runner 2019 - 02
Viva: A Vida é Uma Festa - 02
Trama Fantasma - 01
Corra! -  01
Me Chame Pelo Seu Nome - 01
Eu, Tonya - 01

Número de Acertos: 
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 16 acertos em 24 categorias 
Um a menos que ano passado... putz!
Ano que vem eu melhoro...

domingo, 4 de março de 2018

4EVER: Tônia Carrero

23 de agosto de 1922✰  3 de março de 2018

Algumas mulheres nascem para se tornar divas. Este é o caso de Maria Antonieta Portocarrero Thadim, mais conhecida como Tônia Carrero. Nascida e criada no Rio de Janeiro, Tônia fez sucesso no teatro, na televisão e no cinema. Após formada em Educação Física ela foi para a França fazer cursos de teatro e ao voltar para o Brasil criou sua própria companhia de teatro nos anos 1950 . Ao lado do amigo Paulo Autran várias peças clássicas (como de Shakespeare) e até de vanguarda (como as de Sartre). A atriz era famosa por sua elegância e performances luminosas que transitavam entre a comédia e o drama. Só no cinema a atriz realizou 25 filmes, pelo seu último trabalho, no ótimo Chega de Saudade (2008), a atriz recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cartagena e demonstrava o mesmo carisma de sempre. Mãe do ator Cecil Thiré e avô dos também atores Miguel, Luísa e Carlos Thiré, Tônia deixa em seu legado uma carreira brilhante que só saiu dos holofotes após os problemas em decorrência do diagnóstico de hidrocefalia oculta. A estrela passou os últimos anos ao lado de familiares e amigos e faleceu em decorrência de uma parada cardíaca durante uma cirurgia aos 95 anos. 

CICLO DIRETORAS: Mudbound

Garrett e Mitchell: amizade contra o preconceito. 

Para abrir mais um Ciclo Diretoras deste ano no blog, escolhi comentar um filme que muita gente esperava que fosse consagrado no Oscar deste ano. Exibido e aclamado no Festival de Sundance, Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi concorre em quatro categorias no Oscar deste ano, mas poderia concorrer em muitas outras, incluindo filme e direção. O que provavelmente o deixou de fora destas categorias foi o fato de ter sido comprado pela Netflix... existe um papo muito esquisito sobre os diretores que estão aceitando as propostas do serviço de streaming para distribuir seus filmes, como se a melhor proposta fosse dos distribuidores das salas de cinema, que costumam pagar menos e ter uma distribuição um tanto capenga para filmes sérios e densos como este. Obviamente que na telona é muito melhor de apreciar um filme de qualidade, mas com centenas de salas tomadas por blockbusters fica complicado achar espaço para filmes que não irão faturar milhões em bilheteria. Mas vamos ao filme. Mudbound é dirigido por Diandrea Rees, ou melhor, Dee Rees. Americana nascida na cidade de Nashville que aos 41 anos se firma como uma das diretoras mais importantes dos Estados Unidos. Embora tenha trabalhos na televisão, curtas-metragens e um documentário no currículo, Mudbound impressiona por ser seu segundo filme (o primeiro foi o elogiado Pariah/2011). Sua direção é segura e um tanto destemida ao contar a história dolorosa de duas famílias que se cruzam no estado do Mississipi com seu racismo latente. O roteiro (que garantiu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado para Dee e seu parceiro Virgil Williams) é baseado no livro de Hillary Jordan e mescla a narrativa de vários personagens sobre a vida em um lugar de muita lama, preconceitos e relações ásperas no período da Segunda Guerra Mundial. Assim conhecemos os irmãos Henry McCallan (Jason Clarke) e Jamie McCallan (Garrett Hedlund). O primeiro se apaixonou por Laura (Carey Mulligan) e o segundo tem fama de namorador, mas está prestes a ser piloto na Guerra. Quando Henry compra uma fazenda para viver com a família, ele imagina que sua vida mudará para melhor, mas chegando lá, percebe que caiu em um golpe. Pelos acasos do destino eles acabam se aproximando da família de Hap Jackson (Rob Morgan) e Florence (Mary J. Blige, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante e de melhor canção), para contragosto do Sr. McCallan (Johnatan Banks), que é racista até o osso. Os Jackson também tem um filho (Jason Mithcell) que foi lutar pelo país na Guerra - e o rapaz nem imagina que quando voltar tudo continuará como antes. A dura realidade do racismo nos sul dos Estados Unidos já apareceu em vários outros filmes, mas a direção de Rees lhe confere uma intensidade impressionante, ela paira sobre aqueles personagens como se fizesse parte do calor daquele lugar. A tensão cresce até ferver no último ato conduzido de forma firme, sem concessões. Embora  em alguns momentos o filme abuse da narrativa em off, o resultado é bastante coeso, amparado principalmente pelo ótimo elenco, que impressiona na sintonia ao alternar o tom entre a leveza e a densidade nos momentos exatos. Ao lidar com atores de lugares, formações e identidades tão distintas, a sintonia entre eles conduzida pela diretora é um dos pontos altos do filme. São destaques também a fotografia que alterna luz e sombras constantemente (que fez história com Rachel Morrison se tornando a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria) e ter uma diretora nascida no sul dos EUA e que deve ter sofrido na pele o preconceito que exala daquelas relações. Embora aborde temas pesados e tenha cenas fortíssimas em seu desfecho, Mudbound acerta ao costurar sua trama com a amizade sincera entre alguns personagens, reforçando que para sentimentos nobres, a cor da pele é um detalhe completamente irrelevante. Dee Rees merece nossa atenção não apenas pelo seu talento, mas também pela intensidade do que tem a dizer.

Dee Rees

Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi (EUA-2017) de Dee Rees com Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Mithcell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jason Clarke e Johnatan Banks. ☻☻☻☻