sexta-feira, 10 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: De Amor e Trevas

Tessler e Natalie: um filme sobre origens. 

Em 2017 a atriz Natalie Portman conseguiu sua terceira indicação ao Oscar, a primeira depois que foi premiada como a bailarina complicada de Cisne Negro (2010). Conhecida mundialmente, ela é uma das atrizes mais prestigiadas de sua geração e estreou como diretora em 2008 com um curta metragem (chamado Eve e estrelado por Lauren Bacall) e um dos episódios de Nova York, Eu te Amo! Em 2015, Portman dirigiu seu primeiro longa-metragem e o mais interessante é ver que a atriz fugiu de Hollywood e voltou-se para suas origens (tanto que o filme é todo falado em hebreu). Pouca gente lembra, mas Natalie é israelense, nascida em Jerusalém em uma família de judeus, e escolheu um livro de memórias do compatriota Amos Oz para realizar o roteiro (também escrito por ela) deste De Amor e Trevas. Não satisfeita a atriz ainda reservou para ela o papel da mãe do escritor. Ou seja, Natalie escreveu, produziu, dirigiu e estrelou seu longa de estreia. Porém, quem lembra da estrela meiga que aparece em revistas, pode esquecer, ela está mais para a atriz séria que mergulha nas angústias de uma bailarina em crise ou lida com o assassinato do esposo presidente. De Amor e Trevas não é um filme brando ou fofinho sobre a relação de uma mãe com seu filho. Trata-se de um filme sofrido, seco e que fica ainda mais triste quando sua personagem mostra-se cada vez mais depressiva. Natalie investe no que há de mais sombrio e melancólico nas memórias do escritor em seu relacionamento muito próximo com a mãe, Fania Klausner. Fania sempre contou histórias um tanto obscuras para o filho (e podemos até imaginar a influência que ela exerceu sobre o futuro escritor), verdadeiros contos sobre moradores da região (muitos terminando em suicídio, que já revelava uma ideia fixa na mente da mãe e esposa zelosa). A melancolia de Fania se relaciona muito com o período retratado no filme, em que ocorre a transição do domínio do Reino Unido e os primeiros anos da criação do Estado Israelense ao final da década de 1940, pouco depois do mundo se chocar com os horrores da Segunda Guerra Mundial. Os conflitos já eram evidentes naquela época, mas o tom amargo é por vezes equilibrado pela poesia de belas imagens com narrativas em off. O filme também tem como atrativo a luminosa atuação do menino Amir Tessler (que vive Amos quando pequeno) e a marcante presença de Gilad Kahana (como o esposo de Fania e pai de Amos). Traduzir um livro de memórias não é uma tarefa fácil, mas percebe-se desde o início que o interesse da atriz /diretora revela muito sobre suas origens e a histórias que deve ter escutado em família sobre a terra natal - e isso traz um grande diferencial para seu olhar como cineasta. Ainda que o grande público possa considerá-lo um tanto lento e arrastado (e por vezes é mesmo, mas quem disse que todo filme precisa ser ágil e eletrizante?), De Amor e Trevas é uma estreia promissora para uma diretora que, como atriz, sempre tem seus melhores momentos quando aposta no imprevisível.

Natalie Portman

De Amor e Trevas (A Tale of Love and Darkness / Israel - EUA / 2015) de Natalie Portman com Natalie Portman, Amir Tessler, Gilad Kahana, Tomer Kapon e Moni Moshonov. ☻☻☻ 

quinta-feira, 9 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: Toni Erdmann

Filha e Pai: presos pelo mundo levado a sério demais. 

Existe um  gênero bastante específico de comédia que quando a realizadora realmente o entende, o resultado causa grande sensação. Trata-se da "comédia maluca", aquela onde os personagens se envolvem em situações cada vez mais absurdas, mas que debaixo de toda o besteirol existem intenções muito profundas. O filme alemão Toni Erdmann se enquadra nesta descrição. Exibido em Cannes o filme da diretora Maren Ade causou sensação com seu humor cheio de absurdos imprevisíveis e a mensagem de que devemos levar a vida com mais leveza do que andamos fazendo. A história gira em torno de Winfried (Peter Simonischek) que parece não levar nada muito a sério, ao contrário de sua filha, Ines (Sandra Hüller), uma workaholic sempre pendurada no celular e que aparenta não ter vida fora do trabalho. Winfried e Ines são extremos opostos e, sem entrar em detalhes sobre como foi a relação familiar entre os dois (apenas entendemos que os pais de Ines são separados há tempos), percebemos que os dois estão fora de sintonia. Desde o primeiro encontro, existe um verdadeiro abismo entre os dois personagens e quando o pai resolve passar alguns dias com a filha tudo piora. Não é difícil perceber o quanto Ines está imersa no trabalho 24 horas por dia - se ela estivesse feliz a situação seria outra, mas ela evidencia sinais cada vez mais gritantes de estresse. Ines se cobra demais e, provavelmente, ao interagir no competitivo mundo empresarial, aprendeu desde cedo que o seu melhor é sempre pouco perante a concorrência que pode tomar o seu lugar. A diretora está longe de criar um discurso feminista, mas de vez em quando a personagem precisa lidar com comentários de quem pensa que faz parte do seu trabalho conhecer todos os shoppings da cidade e orientar as compras da esposa de um cliente - ou até aceitar ofensas disfarçadas de elogio ao fato dela ser mulher. Já Winfried já percebe a vida de outro jeito, percebe que levar a vida muito a sério só faz com que ela fique cada vez mais chata e, de vez em quando, até suas são levadas a sério! Já que existe um desgaste evidente entre pai e filha, o pai resolve criar um personagem: Toni Erdmann - para fazer a filha perceber como o universo que ela habita é bem menos sisudo do que ela imagina - às vezes ele acerta, em outras ele só percebe os motivos que deixaram  a filha endurecida pela profissão. Toni Erdmann tem duas horas e quarenta minutos de duração, mas se desenvolve de forma bastante dinâmica, especialmente porque o roteiro sempre cria momentos de virada bastante interessantes - especialmente no aniversário de Ines que sugere um verdadeiro surto da personagem! No entanto, vale ressaltar que é um filme de comédia alemã - o que pode causar desconforto com algumas cenas um tanto despudoradas, mas não é difícil embarcar no clima da produção que foi indicado ao Oscar, ao BAFTA e ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro após concorrera Palma de Ouro em Cannes. O jeito tresloucado do filme funciona tão bem que Hollywood até prepara um remake estrelado por Jack Nicholson, resta saber se a espinha dorsal da história permanecerá intacta ao abordar a delicada relação entre pai, filha e o mundo cada vez mais sisudo.

Maren Ade

Toni Erdmann (Alemanha/2016) de Maren Ade com Peter Simonischeck, Sandra Hüller, Thomas Loibl, Trystan Pütter, Lucy Russell e Alexandru Papadopol. ☻☻☻☻

quarta-feira, 8 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: As Sufragistas

Sufragettes: luta pelo direito ao voto feminino. 

Vivemos tempos estranhos onde muitas pessoas parecem considerar que os direitos conquistados ao longo da histórias são favores ou benefícios concedidos pela bondade de governantes bondosos. Ainda me impressiono com a quantidade de bobagens que circulam nas redes sociais, onde as opiniões mais grotescas ganham aparência de verdades imbatíveis e cheia de seguidores. Nada contra a liberdade de se expressar, mas estudar um pouco de história não faz mal a ninguém, pelo contrário, ajuda a não espalhar baboseiras por aí, especialmente quando nos referimos aos direitos humanos. No Dia Internacional da Mulher (e espero que você saiba a história deste dia) escrevo sobre um filme que demonstra um pouco como nossos direitos devem ser valorizados como frutos de luta e não da generosidade de quem estabelece o que é certo ou errado perante a lei. As Sufragistas, filme da diretora inglesa Sarah Gavron, representa bem como um direito, aparentemente banal em nossos dias foi conquistado com muito sangue, suor e lágrimas. O filme conta a luta de um grupo de mulheres pelo voto feminino no Reino Unido, o grupo conhecido como "sufragistas" foi responsável por manifestações e atos que fizeram com que a voz feminina pudesse ser ouvida politicamente. Embora tenha o foco numa personagem fictícia, Maud Watts (Carey Mulligan em outro bom momento), o filme retrata situações que realmente aconteceram durante a jornada dessas mulheres que foram presas, rejeitadas por suas famílias e até espancadas em manifestações pacíficas (o que fez com que posteriormente, elas mesmas adotassem ações mais agressivas e violentas). É interessante como no início Maud parece não se importar com a situação das mulheres de seu país, afinal, ela se preocupa em trabalhar (e ver as situações de abuso no local de trabalho), cuidar da casa, do esposo  (Ben Whishaw) e do filho pequeno. No entanto, aos poucos ela percebe que o voto será essencial para uma mudança do papel da mulher na sociedade - e ela se torna cada vez mais engajada no movimento. No entanto, assim como suas amigas (destaque para Helena Bonhan Carter e Romola Garai) ela enfrentará muitas agressões e incompreensão, afinal, conceder tal direito é visto como uma ameaça à soberania do estado estabelecido pelas regras masculinas. Embora a diretora opte por não explorar todas as possibilidades que tem nas mãos, o filme consegue criar um retrato de época bastante fiel sobre a situação das mulheres britânicas no início do século XX - até culminar no incidente envolvendo a militante Emily Davison (Natalie Press) em 1913. Para além do cuidado na reconstituição de época, vale destacar a atuação de Carey Mulligan, que constrói uma espécie de amálgama de várias personagens reais com a competência de sempre e realiza cenas de arrepiar (especialmente quando enfrenta o personagem de Brendan Gleeson, a personificação da repressão do estado à causa das mulheres). Em tempos onde as pessoas simplificam o feminismo como "o oposto do machismo" [sic], As Sufragistas torna-se um filme essencial para perceber que a igualdade de direitos é algo essencial (e não a opressão de um gênero sobre o outro como o machismo institui num conjunto de ideias que se propagam feito ervas daninhas). Além de assustar com suas cenas de violência, o filme também assusta pelo final da sessão, quando somos lembrados que alguns países instituíram o voto feminino somente no século XXI - e outros ainda não o fizeram.

Sarah Gavron

As Sufragistas (Sufragette/Reino Unido - 2015) de Sarah Gavron com Carey Mulligan, Helena Bonhan Carter, Brendan Gleeson, Ben Whishaw, Natalie Press e Meryl Streep. ☻☻☻☻

terça-feira, 7 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: Rainha de Katwe

Madina e Lupita: duas peças valiosas no tabuleiro de Mira Nair.

A cineasta Mira Nair nasceu na Índia no ano de 1957 e seguiu os estudos na Universidade de Dehi e em Harvard nos EUA. Profissionalmente chamou atenção como documentarista no final da década de 1970 antes de se aventurar por filmes de ficção em 1988 com o longa Salaam BomBay! O filme lhe valeu a Camera D'Or no Festival de Cannes e indicações ao Oscar, BAFTA e Globo de Ouro de filme estrangeiro.  Em 2001 seu filme "Um Casamento à Indiana" ganhou o prêmio máximo do Festival de Veneza. Embora sempre volte às suas origens, Mira vive nos Estados Unidos faz tempo e seu último filme foi este Rainha de Katwe, produzido pela Disney e que conta a história real da campeã mundial de xadrez Phiona Mutesi, menina nascida em Uganda, de origem muito pobre e que aprende a jogar xadrez meio que por acaso - e contrariando a vontade da mãe. Phiona é vivida com grande carisma por Madina Nalwanga, atriz estreante, nascida em Uganda e que aos dezesseis anos contracena com atores renomados como Lupita Nyong'o e David Oyelowo. A família de Phiona vendia milho para pagar as despesas familiares, mas, para o desespero da mãe viúva (a oscarizada Lupita em seu primeiro papel de destaque depois do Oscar por 12 Anos de Escravidão/2013) as vendas são sempre menores do que precisa para sustentar a família de cinco filhos - e em busca de mais dinheiro, a filha mais velha, Night (Taryn Kyaze) , começa a se prostituir. É assistindo a um jogo de futebol que Phiona e o irmão conhecem o instrutor Robert Katende (David Oyelowo), que trabalha num projeto social em que ensina crianças em situações de risco a aprender xadrez. Ainda que sofra discriminações dentro do próprio grupo de crianças, Phiona não desiste e aprende a dominar o jogo, derrotando os colegas que conhecem as regras a mais tempo e chamando atenção dentro do próprio grupo. Oyelowo tira de letra o papel de mentor da protagonista, afinal, como já viveu Martin Luther King em Selma/2014 (filme de outra grande diretora Ava Duvernay), sabemos que ele consegue ser inspirador diante da câmera. Com o ator na pele de Katende, ele personifica todos os sonhos da menina mudar de vida, enquanto a mãe - cheia de medos e inseguranças sobre o futuro - representa um obstáculo para a mudança de vida, não por maldade, mas por não querer que a filha sofra com ilusões de uma vida melhor que parece cada vez mais distante. São entre estes dois polos que Phiona tenta construir sua própria história - e momentos emocionantes não faltam. Mira Nair consegue contar esta história motivacional com grande energia - e se pensarmos que ela trabalha dentro da camisa de força dos estúdios Disney o resultado parece ainda melhor. É verdade que ela importa muito da estética de Bollywood para o filme seja na música constante ou no colorido nos figurinos (que serve de ótimo contraste com a aridez da paisagem), mas se  Rainha de Katwe não é um filme inesquecível, ele sabe contar de forma atraente a história de superação de uma menina com a vida cheia de problemas e que encontra nas estratégias do jogo  a sua redenção. No fim das contas fica a mensagem dita pelo instrutor: na vida, ao perder, devemos retirar as peças do tabuleiro e começar tudo de novo, assim como no xadrez. Phiona fez isso várias vezes até se tornar uma referência mundial.

Mira Nair

Rainha de Katwe (Queen of Katwee/EUA-2016) de Mira Nair com Madina Nalwanga, Lupita Nyong'O e David Oelowo. ☻☻☻

segunda-feira, 6 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: O Porteiro da Noite

Charlote e Dirk: amor, estranho amor. 

Nascida em 1933 a diretora italiana Liliana Cavani nunca se apresentou como uma diretora feminista, mas suas obras mais famosas sempre deixaram evidente o retrato de uma mulher forte e passional que nunca temeu expressar seus pensamentos. Isso ficou claro em filmes como I Cannibali (1970), A Pele (1981) e Berlin Affair (1985), todos com histórias de amores intensos e sacrifícios, no entanto muitos consideram o polêmico O Porteiro da Noite (1974) como sua verdadeira obra-prima. Imagino há mais de quarenta anos uma mulher contando a história do relacionamento sadomasoquista entre um ex-oficial nazista e uma sobrevivente de um campo de concentração. A ideia já parece um delírio, mas Liliana transcende a História e conta uma história de amor cheia de jogos de poder, dominação e luxúria. O resultado faz 50 Tons Mais Escuros parecer ainda mais capenga e antiquado - e reparem que estou falando de um filme lançado há 43 anos! O porteiro da noite se chama Max (Dirk Bogarde), seu passado nazista está prestes a ser julgado, mas se o seu grupo de amigos ex-oficiais diz que não há o que temer, já que não existe testemunhas contra ele. No entanto, a situação muda quando Lucia (Charlotte Rampling, linda e se tornando uma estrela internacional num papel complicado) se hospeda no hotel e o reconhece. Basta o primeiro olhar para que ela identifique o oficinal que há doze anos manteve com ela uma estranha relação no campo de concentração. A relação entre os dois personagens gerou muita discussão, mas Cavani sempre afirmou que em seus trabalhos como documentarista conheceu histórias que inspiraram na construção do filme, sobretudo na personificação do mal e a atração que ele pode provocar. O Porteiro da Noite é cheio de detalhes, seja quando Lucia começa a ser perseguida e Max a protege (como se ele quisesse que o que houve nos campos jamais pudesse ser exterminado da memória) ou o fato dela não ostentar a estrela amarela como a maioria das pessoas presente no campo de concentração. Cavani ainda esgarça reflexões sobre a cumplicidade da vítima com seu agressor, além de provocar questões sobre oprimido e opressor, dependência mútua e dominação. No entanto, o filme fica ainda mais interessante quando o percebemos como uma história de amor diferente, entre duas pessoas que se identificam pelo prazer através do poder que possuem um sobre o outro, um relacionamento que pode ser tão consentido quanto abusivo e destrutivo. Vários filmes italianos na década de 1970 erotizaram oficiais nazistas, mas nenhum deles é tão lembrado por subverter os signos como este aqui. Ainda hoje o filme de Cavani impressiona por sua ousadia, pela plasticidade e o desconforto que causa diante do relacionamento sadomasoquista que retrata. É difícil imaginar um cineasta que ousaria fazer um filme como este nos dias atuais e, por levar nosso imaginário a lugares nunca antes pensados, que a coragem de Liliana Cavani é necessária.

Liliana Cavani

O Porteiro da Noite (Il Portiere di Notte/Itália-1974) de Liliana Cavani com Dirk Bogarde, Charlotte Rampling e Gabriele Ferzetti. ☻☻☻☻

domingo, 5 de março de 2017

CICLO DIRETORAS: Chega de Saudade


Cássia, Conceição e Tonia: baile animado na noite paulistana. 

Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher o blog decidiu fazer uma semana dedicada somente a filmes dirigidos por cineastas mulheres. Para começar escolhi um filme de uma das jovens cineastas mais elogiadas do cinema brasileiro, Laís Bodansky. Laís teve o seu talento reconhecido nacionalmente quando lançou seu longa metragem de estreia, o celebrado Bicho de Sete Cabeças (2000). O filme denso abordava a falta de diálogo em uma família, assim como a situação manicomial no Brasil. Baseado no livro biográfico O Canto dos Malditos de Austregésilo Carrano, o longa fez o público perceber que nascia ali uma cineasta vigorosa, sem medo de criar desconforto na plateia, ao mesmo tempo ela tinha sensibilidade para fazer a plateia sentir os personagens sem que fossem necessárias descrições minuciosas sobre o que era visto na tela. Bicho ganhou vários prêmios internacionais e o longa seguinte da diretora foi mais do que aguardado. Depois de anos divulgando outro projeto (o CineMambembe, que visita cidades sem cinema para projetar filmes brasileiros em praças) ela lançou Chega de Saudade (2007), filme que não poderia ser mais diferente do anterior - mas ao mesmo tempo, consegue demonstrar ainda mais a destreza técnica da cineasta. Ambientado em uma noite num baile em São Paulo, o roteiro assinado pela diretora e Luis Bolognesi conta um pouco da história dos personagens que frequentam aquele local. A trama mistura alegrias, tristezas, amores e desilusões de vários personagens, sendo assim conhecemos personagens como o casal de veteranos Alice (Tonia Carrero) e Álvaro (Leonardo Villar) - ela cada vez mais esquecida, ele com a perna quebrada -, a solitária Elza (uma ótima Betty Faria que teme passar a noite sem ser chamada para dançar), a tímida Nice (Miriam Mehler, sensacional) que vai ao baile pela primeira vez), a romântica Marici (a brilhante Cássia Kiss) que ainda sofre de amor pelo conquistador Eudes (Stepan Nercessian), além do jovem DJ (Paulo Vilhena em ótima atuação discreta) e a namorada (Maria Flor). Durante a noite os personagens irão se encontrar e desencontrar, dançar e temer a solidão numa narrativa dinâmica que surpreende pela originalidade e o carinho com que os personagens são retratados. A forma como a diretora mergulha nesse microcosmo, além da da forma como a identidade dos personagens se revela ali, lembra muito alguns filmes de Robert Altman, especialmente a opção pela narrativa caleidoscópica que mescla vários personagens num todo coerente. Laís capricha nos movimentos de câmera, nos enquadramentos, no uso da luz, na trilha sonora (com direito ao falecido Marku Ribas e  Elza Soares animando a noite com sua voz peculiar), além de extrair do elenco ótimos momentos. Chega de Saudade é um filme único na cinematografia nacional, tanto que ao final da sessão você sente que passou a noite ao lado de cada um daqueles personagens - e vai para a casa esperando reencontrá-los no próximo baile.

Laís Bodansky

Chega de Saudade (Brasil/2007) de Lais Bodansky com Cássia Kiss, Betty Faria, Tonia Carrero, Leonardo Villar, Paulo Vilhena, Maria Flor, Miriam Mehler, Conceição Senna, Elza Soares e Marku Ribas.
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sábado, 4 de março de 2017

Momento Rob Gordon: O Novo Wolverine

Quem vai encarar o uniforme?

Diante da anunciada despedida de Hugh Jackman de seu famoso personagem, a pergunta que não quer calar é quem será o novo Wolverine da Fox! Diante de todas as especulações da internet pedi para minha irmã e algumas amigas fazerem um trabalho de consultoria e citar os cinco atores favoritos para encarnar o herói com garras de adamantium. Nem vou destacar os critérios que as meninas utilizaram e vou deixar para que percebam ao ver a lista que segue...

#05 Lee Pace
O ator da série Halt and Catch Fire já tem experiência com o universo cinematográfico nerd, afinal, já participou da trilogia O Hobbit como o rei Elfo Thranduil, Lee também foi o vilão Ronan de Guardiões da Galáxia/2014. Prestes a completar 38 anos o que pesou contra o moço foi (pasmem) que "ele não tem pelos no peito", mas "com estas sobrancelhas selvagens ele não pode ficar de fora" - acho que ouvi até um rugido! O ator nascido em Oklahoma merecia uma colocação melhor, mas quem sou eu para questionar as minhas convidadas?

#04 Luke Evans 
O ator nascido do Reino Unido chamou a atenção da mulherada com "Drácula: A História Não Contada" (2014), aos 37 anos ele tem um currículo vasto (eu lembro dele em O Retorno de Tamara/2010, seu terceiro filme). Luke também apareceu na trilogia Hobbit, em Velozes e Furiosos 7 (2015), no recente A Garota do Trem (2016) e estará em A Bela e a Fera/2017. O ator já emprestou até a voz para Wolverine no desenho Frango Robô (2016), mas o que pode pesar na sua escolha para o papel é que Evans é assumidamente gay. 

#03 Michiel Huisman
Minha irmã fez um lobby tão forte deste ator holandês que ele passou de desconhecido para a medalha de bronze da lista. Huisman deve ter habitado os sonhos das espectadoras de A Incrível História de Adeline (2015) por algum tempo, mas ele também tem papel de destaque na série Orphan Black, onde interpreta o pai da menina Kira. Quando perguntei o motivo do ator, de 35 anos, aparecer na lista a resposta foi: "Está na cara"! seguido de um didático "E ele ainda tem mais pelos no resto do corpo". Então tá. 

#02 Tom Hardy 
Eu não entendo muito bem o que as pessoas veem para Hardy interpretar Wolverine no cinema. O fato é que os elogios de Hugh Jackman e as especulações da mídia devem ter pesado quando o ator britânico ficou em segundo lugar por aqui. Hardy completa 40 anos em setembro. Com fama de esquentadinho é o único da lista com uma indicação ao Oscar (O Regresso/2016). Minhas assessoras disseram que ele tem "um jeito rústico que combina com o personagem". Sério? Talvez eu ainda o veja como Bane... ou simplesmente prefira as sobrancelhas do Lee Pace.

#01 Scott Caan
Eu jamais teria cogitado o filho do James Caan para essa lista, mas bastou aparecer a foto do rapaz sem camisa, com barba crescida e charuto na mão para que eu visse ele deslanchar como unanimidade no time de consultoras. Bem... os motivos da escolha estão logo acima e o que eu posso dizer é que nunca havia pensado em um Wolverine louro! Scott tem 40 anos e seu papel mais famoso é na série Hawaii Five-0 (no ar desde 2010) em que vive o detetive Dan Williams (que já lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de ator coadjuvante). No cinema seu papel mais famoso foi na trilogia Onze Homes e um Segredo (2001) em que era o fiel escudeiro de Casey Affleck. 

Na Tela: Logan

Jackman: Bye, bye Wolvie...

Não parece, mas há 17 anos que o australiano passou de um ator desconhecido para se tornar o intérprete do herói mutante mais famoso do cinema. Hugh Jackman tinha 32 anos  e dois filmes no currículo quando foi escolhido para substituir Dougray Scott no papel de Wolverine no primeiro X-Men (2000). De lá para cá, Hugh virou astro, símbolo sexual, trabalhou com diretores importantes (Woody Allen, Christopher Nolan, Darren Aronofsky, Baz Luhrman, Denis Velleneuve...), foi indicado ao Oscar (pelo musical Os Miseráveis/2012) e ainda viveu Wolverine outras cinco vezes. Com os cinquenta anos batendo na porta (precisamente em 12 de outubro de 2018) o ator começou a perceber que estava na hora de se despedir do personagem e ter mais tempo para se dedicar a outros projetos. Além dos filmes dos X-Men, Wolverine também teve duas aventuras solo que nunca caíram na graça dos fãs e Jackman queria se despedir do personagem em grande estilo. Ajudou muito o fato do desbocado Deadpool/2016 demonstrar que um filme de herói para maiores era capaz de gerar bilheterias robustas, mas eu ainda fiquei assustado de colocarem Wolverine fazendo piadinhas chulas em sua terceira aventura solo. Graças a Deus não foi isso que aconteceu! Inspirado na trama da antológica HQ Velho Logan, o astro e o diretor James Mangold resolveram se despedir em grande estilo do personagem. O melhor de tudo é que ao utilizar uma trama no futuro (2024) o filme se distancia de toda confusão que foi feita na linha temporal dos mutantes nas telas, mostrando um tempo onde os X-Men não existem mais, Wolvie ganha a vida como motorista de limusines e cuida de um professor Xavier (Patrick Stewart) cada vez mais esquecido e descontrolado, precisando de medicamentos para evitar que algo pior aconteça (e adoro os efeitos utilizados quando acontecem). Para quem é fã dos discípulos de Xavier o filme traz uma alta carga emocional diante de um futuro em que os mutantes foram dizimados. No entanto, o filme tem muito mais a oferecer. O diretor James Mangold mostra-se mais uma vez um operário padrão a serviço de Hollywood, fazendo o que lhe pedem, aqui ele capricha no tom desiludido e desesperançoso do filme, criando com maestria um mundo sujo, empoeirado para o amargo Logan viver sua jornada de despedida. As coisas mudam quando uma enfermeira cruza o caminho do herói e pede para que leve uma menina a um paradeiro incerto. Desde a primeira cena em que aparece, sabemos que o destino da menina Laura (Dafne Keen) já está misturado ao do protagonista, que se verá tendo que protegê-la de um grupo de mercenários conhecidos como Carniceiros - que farão de tudo para capturar a menina e devolvê-la ao seu... melhor parar por aqui. Enquanto Wolverine descobre que tem mais em comum com Laura do que imagina, Mangold bebe diretamente na fonte dos faroestes clássicos para construir um filme que impressiona pela sua violência gráfica e uma densidade de filme de gente grande. Ainda no trabalho de Mangold, merece destaque a excelente condução de atores. Jackman vive um Wolverine completamente diferente, decadente, fragilizado, com seus poderes se tornando cada vez mais fracos com o passar do tempo. Ele está muito bem acompanhado por Patrick Stewart, que vive um Professor Xavier com mais destaque e nuances do que o vimos nos últimos anos, some a esta dupla conhecida o comediante Stephen Merchant (excelente como Caliban) e a dramaticidade de Elizabeth Rodrigues de Orange is the New Black) e você terá o melhor elenco de um filme solo do mutuna. O filme pode ser dividido em duas partes, afinal, depois da cena da fazenda o filme perde um pouco de sua densidade e tudo se torna pretexto para uma orgia sanguinolenta em cenas conduzidas com uma energia impressionante. Não ficarei surpreso se o filme for aclamado como uma marco nas adaptações de histórias em quadrinhos para o cinema, especialmente por seus toques metalinguísticos e a seriedade com que o filme é tratado em sua primeira metade. Se é o fim de Jackman na pele do personagem eu não sei  - ele mesmo já disse que voltaria ao papel se finalmente pudesse fazer parte de uma aventura dos Vingadores no cinema - mas o fato é que o ator conseguiu produzir uma aventura de respeito. 

Logan (EUA/2017) de James Mangold com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Stephen Merchant, Richard E. Grant e Elizabeth Rodrigues. ☻☻☻☻

sexta-feira, 3 de março de 2017

.Doc: Life Animated

Owen: a vida através dos desenhos. 

No meio de tantos documentários densos sobre guerras e preconceito, Life Animated chamou atenção por contar uma história incomum sobre como o amor pelo cinema pode mudar vidas. O filme de Roger Ross Williams comoveu muita gente ao contar um pouco da história de Owen Suskind, um menino que teve diagnóstico de Autismo na infância e que preocupou seus pais pela dificuldade encontrada para se comunicar. O início do filme se dedica ao impacto da notícia para a família e como eles tentaram lidar com os obstáculos enfrentados pelo filho em seu processo de desenvolvimento e relacionamento com o mundo ao redor. Para quem curte cinema, especialmente animação, é fascinante perceber como aquele menino passa a ler o mundo e suas próprias emoções a partir dos desenhos. Afinal, com todo o coloridos, entonações e expressões enfáticas, especialmente dos filmes da Disney, Owen voltou a se comunicar com os pais e expressar o que sentia. Paralelo a isso, o filme conta a jornada do rapaz para se tornar independente para além do grupo de apreciadores de animações que criou na escola. A família conta várias dificuldades encontradas para lidar com Owen, incluindo a busca por uma escola adequada para o menino, assim como a melhor forma para auxiliá-lo no processo de comunicação com muita ludicidade e fantasia. O filme de Roger Ross Williams só perde pontos quando exagera na fofura para deixar tudo o mais agradável possível para a plateia, como se a própria vida de Owen fosse uma animação fofinha. Sabemos que não é bem assim. Essa ênfase deve ter relação com o fato do roteirista do filme ser do pai de Owen, o jornalista Ron Suskind, que apresenta a jornada do rapaz junto à família e que encontra na própria paixão por desenhos animados uma forma de homenagear o filho. Prefiro quando o filme desmistifica a vida de um autista, demonstrando que, com o devido acompanhamento, ele pode se desenvolver, namorar, trabalhar e até viver longe dos pais, considero que o desenvolvimento da autonomia de Owen tem grande destaque na produção. Quando o filme se concentra na vida como ela é torna-se muito interessante, quando exagera nas intervenções diante da câmera existe certa artificialidade na narrativa, mas nada que tire o interesse da plateia de uma vida registrada pelas câmeras. 

Life Animated (EUA/2016) de Roger Ross Williams com Owen Suskind, Ron Suskind e Jonathan Freeman. ☻☻☻