quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CATÁLOGO: Conte Comigo

Ruffalo e Linney: alcançando um novo patamar na carreira. 

Kenneth Lonergan é um desses ilustres desconhecidos do público. Tendo apenas dois filmes no currículo ele já provou que suas produções são capazes de fazer bonito no circuito independente - e se ano passado Margaret serviu para dar alguns prêmios de interpretação para Anna Paquin, o mesmo aconteceu em 2000 quando escolheu Laura Linney para interpretar a irmã sistemática de Conte Comigo. O filme rendeu à atriz sua primeira indicação ao Oscar (hoje ela já soma três) e ainda apresentou Mark Ruffalo ao público. O filme começa com um acidente de carro que vitima os pais dos pequenos Samantha e Terrence. Anos depois vemos o que a vida fez daquelas duas crianças órfãs. Sammy (Linney) trabalha num banco local e cuida do filho sozinha, portanto fica contente quando finalmente recebe notícias do irmão, Terry (Ruffalo) que irá visitá-la (pena que esse reencontro parece fadado ao fracasso na primeira vez que se veem). É visível as diferenças entre os dois irmãos, enquanto Sammy mostra-se certinha demais, Terry não consegue esconder que tornou-se um desajustado. Não que seja um marginal ou coisa parecida, mas fica evidente que algo está errado no rumo que sua vida tomou - e isso fica ainda mais forte quando ele revela que ficou preso por três meses depois de uma briga (que ele gosta de ressaltar que não foi ele quem começou). No fim das contas ele queria era pedir dinheiro para a irmã e voltar para sua vida no Alaska, mas uma série de imprevistos fará com que convivam por algum tempo. É compreensível a decepção de Samantha ao reencontrar o irmão, afinal ela esperava que ele fosse um exemplo para o seu filho, o pequeno Rudy (Rory Culkin que mostra que era mais expressivo quando era criança).  Da mesma forma, compreendemos que Terry fique chateado com os constantes sermões que recebe da irmã. Embora as expectativas de Sammy sejam elevadas demais, até ela vai perceber que a presença do irmão é muito proveitosa para Rudy. Embora esteja sempre de olho nos tropeços do irmão, Sammy tem sua própria cota de problemas. Tem um chefe que adora pegar no seu pé (Matthew Broderick), um noivo compreensivo e atraente (Jon Tenney) mas que ela parece estar presa à ele mais por comodidade do que por amor. Lonergan trabalha as personalidades dos dois irmãos de forma sutil, num ritmo de eficiente dramédia que consegue ser extremamente verossímil na abordagem de um tema tão complexo quando o relacionamento entre dois irmãos. Filmes sobre o relacionamento fraterno não costumam funcionar por exagerar no açúcar ou no melodrama, o que não é o caso deste aqui. Boa parte dos méritos vem da química do par central de atores. Na pele da neurótica Sammy, Linney provou que estava muito acima dos papéis que recebeu em filmes como Congo (1995) e As Duas Faces de Um Crime (1996), enquanto Mark Ruffalo alcança momentos comoventes em que parece apenas um garoto crescido amaldiçoado pela lei de Murphy - isso sem falar na piada incidental de colocar o eterno Ferris Bueller (personagem de Broderick em "Curtindo a Vida Adoidado"/1986) como um engravatado chato. Com o visual limpinho de uma cidadezinha do interior dos EUA (odiada por Terry, registre-se), o filme merece destaque pelo trabalho com personagens e diálogos - que parecem lapidados para que todos pareçam que são nossos vizinhos há tempos. 

Conte Comigo (You can count on Me/EUA-2000) de Kenneth Lonergan com Laura Linney, Mark Ruffalo, Rory Culkin, Matthew Broderick, Jon Tenney e Amy Ryan ☻☻☻

DVD: Apenas uma Noite

Knightley e Worthingon: com quanta (des)confiança se faz um casamento?

Deve haver alguns milhares de filmes sobre infidelidade e, ainda que seja uma temática gasta, ela ainda é capaz de chamar atenção do grande público. Claro que o sucesso depende de vários fatores, alguns deles estão em Apenas Uma Noite (), filme escrito e dirigido pela iraniana Massy Tadjedin que mostra sensibilidade e gosto pela escrita dos conflitos de seus personagens, embora o filme não fuja muito de um certo comodismo. Mesmo assim, trata-se de um filme a que se acompanha sem dificuldades na elegância com que trata os conflitos no casamento de Joanna (Keira Knightley) e Michael (Sam Worthington). Joanna anda enciumada ao conhecer uma colega de trabalho dele (pudera, é a bonitona Eva Mendes - uma expert em ser amante em filmes de Hollywood) e após uma discussão sobre sua suspeita de ter acontecido algo que não devia entre os dois, Michael partirá numa viagem de trabalho com um amigo e a tal colega. Na primeira parte, o filme consegue ser extremamente bem sucedido ao explorar as inseguranças do jovem casal, mas quando surge a tal viagem a coisa fica meio desengonçada na necessidade de contar paralelamente o que acontece com cada um deles. Se de início Michael mostra-se seguro com relação à sua resistência às investidas da colega tentadora, as coisas começam a mudar quando ele liga para a esposa e ela não atende ao telefone. Mal sabe ele que Joanna reencontrou Alex (o francês Guillaume Canet), um homem com que teve um breve romance enquanto o namoro deles enfrentava uma lacuna. Talvez por vingança ou pela vontade de ter uma aventura, Joanna aceita se encontrar com Alex, jantar com amigos dele e... é  motivando a vontade de saber o que vai acontecer que o filme camimha para o final. É uma histórioa simples sobre uma noite onde o casal terá de colocar em prova a fidelidade e a satisfação perante a estrutura do casamento. No entanto, o filme parece andar em círculos em vários momentos. Muita gente reclamou da atuação de Sam Worthington, mas considero que sua escolha para o papel é bastante coerente, já que em sua passividade ele consegue ficar a vontade nas cenas com Keira Knightley e desconfortável nas que enfrenta Eva Mendes. Acho que o problema é mais do personagem do que propriamente dele. O que acontece é que os outros atores tem presença marcante suficiente para não perceber o quanto seus personagens não tem muito para onde ir na estrutura apresentada. Tadjedin consegue até imprimir algumas nuances importantes nos personagens, mas a curta duração do filme e a opção de abordar somente uma noite tentadora na vida dos quarteto principal, acabou aprisionando-os demais na temática que aborda em tom realista. Mais do que infidelidade, o filme ainda abrange questões como confiança e traição de forma mais ampla. O fato de Joanna não atender a ligação do esposo seria uma traição? E o fato de Michael ter encostado nas pernas da tal colega? O que dizer de Joanna nunca ter contado da existência de Alex ao marido? E de Michael não ter falado que a colega era uma beldade? Visto nessa perspectiva o filme se torna mais interessante, ainda que merecesse explorar um pouco mais os conflitos de seus personagens - esse problema poderia ser superado se a diretora não hesitasse em apresentar a derradeira conversa do casal. Curiosidade: faz um tempinho que a inglesinha Keira Knightley largou as superproduções de Hollywood e começou a investir em filmes sérios. Embora seja dedicada, ela ainda não conseguiu um sucesso desde Desejo e Reparação/2007, isso pode mudar quando estrear no fim do ano a nova versão de Anna Karenina pelas mãos de Joe Wright. Dizendo isso, parece até que este filme é uma espécie de ensaio para a atriz viver uma das mais célebres adúlteras da literatura.

Apenas uma Noite (Last Night/EUA-França-2010) de Massy Tadjedin com Keira Knightley, Sam Worthington, Eva Mendes, Guillaume Canet, Griffin Dunne e Daniel Eric Gould. ☻☻

DVD: Precisamos Falar Sobre o Kevin

Swinton e os Kevins: assombrada pelo filho em todas as idades.

Ainda não consigo entender como Tilda Swinton não foi indicada ao Oscar deste ano (acabou perdendo a vaga, inexplicavelmente, para Rooney Mara para a versão americana de  Os Homens que Não amavam as Mulheres/2011). A atriz alcança o seu trabalho mais notável (para quem conhece a carreira da atriz nascida na Irlanda sabe que isso não é pouca coisa). Ela consegue absorver o espectador na angústia de sua personagem de forma que conseguimos sentir o mundo como ela. Obviamente que devemos reconhecer que a atriz está muito bem amparada pela diretora Lynne Ramsay que consegue extrair todo o horror que brota do livro de Lionel Shriver, ao ponto de esquecermos que estamos diante de uma drama. O resultado é realmente perturbador - em maior parte à desenvoltura da diretora em criar cenas que ficam assombrando nossa cabeça um bom tempo.  A tortura psicológica de sua personagem acaba surtindo mais efeito do que a cena final, onde descobrimos o motivo de toda a cidade odiá-la, ainda que ela esteja sozinha e se culpando pelas atrocidades cometidas pelo filho, Kevin. Considero fascinante como Ramsey consegue anunciar a violência  eminente com detalhes vermelhos em cada cena, como se fosse o prenúncio de uma grande tragédia. Quando conhecemos Eva (Tilda Swinton) ela está na Itália, banhada de vermelho na tradicional tomatina. Este é um dos poucos momentos em que a personagem aparece feliz ao lado do esposo Franklin (John C. Reilly). Pouco depois descobre-se grávida e com o pequeno Kevin nos braços. Alguns críticos reclamaram da forma como o filme culpa a mãe pelos atos de seu filho, mas isso é compreensível já que todo o filme é contado sob a perspectiva de Eva sobre o relacionamento com o filho (o livro era até escrito em formato de diário). Seu presente solitário busca respostas no passado exibido em flashbacks, afinal,   como a maioria das mães ela se sente culpada pelos atos do filho e são em suas memórias que mergulhamos conhecendo Kevin em cada fase de sua vida. De início Eva relembra sua inadequação ao fato de ser mãe, as diferenças com o esposo na forma de lidar com o bebê, a forma como percebe que havia algo de diferente em Kevin em suas travessuras e pequenas crueldades - especialmente depois que ganha uma irmãzinha. Enquanto Eva percebe que Kevin não sente culpa em seus atos (especialmente quando é vivido pelo ótimo Ezra Miller, num tom sádico assustador) o pai sustenta que ele não deve mesmo se sentir culpado e lhe instiga no que seria sua arma.seu brinquedo favorito: arco e flecha. Os atos de Kevin irão culminar numa dessas tragédias ambientadas em escola - que já se tornaram moda nos Estados Unidos - e revelarão que existe algo de muito estranho naquele rapazinho. Além do passado conturbado com o filho, o presente de Eva não é mais agradável, sua vida ficou manchada pela presença dele e estagnada em volta do filho. Se o tema já rendeu filmes recentes como O Deus da Carnificina (2011) e Tarde Demais (2010), apenas em Precisamos Falar sobre Kevin ele recebe uma abordagem visceral, tão intensa que nos faz pensar como nenhum efeito 3D poderia nos despertas as sensações proporcionadas pelo filme. Ainda que possam  criticar a forma como Ramsey gira em torno da culpa de Eva (não por acaso ela tem esse nome) é interessante como ela consegue ampliar esse olhar pela forma como lidamos com a educação social de crianças e adolescentes, além dos limites dos pais na criação do caráter de seu filho. Seria Kevin um psicopata desde pequeno? Seria um sociopata? Um sádico? Um rejeitado pela própria mãe? Na última cena não existe justificativa para seus atos, mas existe o abraço mais caloroso de uma mãe no pedaço que sobrou de si. 

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin/Reino Unido-2011) de Lynne Ramsey com Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Ashley Gerasimovich e Jasper Newell. ☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

DVD: Reis e Ratos

A bela Rafaela e o monstrengo Santoro: corretos num filme que peca pelo excesso. 

Mauro Lima fez sucesso com seu filme anterior, Meu Nome Não é Johny (2008), e não demorou a engatar um novo trabalho. Reis e Ratos foi um dos filmes mais aguardados do ano por ser uma comédia de erros sobre o período que precede o AI-5. Ambientado no ano de 1963, o marketing do filme se amparava em comparações com a forma como Roberto Benigni abordava o holocausto no superestimado A Vida é Bela (1998) e a forma Tarantino de reciclar o tema com Bastardos Inglórios (2009). Sinceramente, o filme fica a dever todo o burburinho que fizeram em torno dele. Bem produzido, o filme padece de uma falta de estilo gritante em suas gracinhas com personagens bizarramente interessantes, mas que, em sua maioria,  não conseguem se distanciar da caricatura. Sei que o tom de farsa é proposital, mas isso acaba trabalhando contra o humor que o filme apresenta - isso, sem contar, que a trama é uma grande confusão. A narrativa ficou por conta da cantora de boate vivida pela belíssima Rafaela Mandelli (que está entre os poucos que conseguem dar carne e osso ao personagem) que narra uma série de incidentes que a envolveu antes do golpe militar. Sem saber muito bem os motivos, ela acaba envolvida em uma série de conspirações arranjadas por dois agentes da CIA (Seltom Mello e Otávio Müller), que num primeiro momento parecem querer que um fazendeiro (Orã Figueiredo), motivado por ciúme, faça o serviço sujo para eles: matar o presidente. Só que nada sai como o esperado e existe uma arriscada operação de queima de arquivo. A trama poderia ser eletrizante se Lima não desse a mínima para ela! Prefere ocupar o tempo com as esquisitices de um radialista médium (Cauã Reymond) que atrapalha as ações da CIA ou um cafetão que era envolvido com a militância política (um asqueroso Rodrigo Santoro). As idas e vindas temporais quando sossegam até deixam o espectador entender um pouco o que está acontecendo, mas não chega a envolver. O motivo disso deve ser o excesso. Há narrativa demais, diálogos demais, piadinhas demais, escracho demais e se havia alguma coisa séria no contexto histórico se perdeu no que deveria ser o fio condutor da trama e do estilo buscado pelo diretor. Não sei por qual motivo os diretores brasileiros resolveram fazer filmes de época copiando a linguagem noir de Hollywood (outro filme que padece desse mal é Heleno de José Henrique Fonseca) - se não tivessem os atores conhecidos e as falas em português poderia se dizer que este era um filme americano equivocado. Essa carência de identidade em abordar um período tão delicado de nossa história é o que o filme como maior defeito. Não vejo problemas na ideia de uma abordagem cômica, o problema está na forma como ela é conduzida de forma pouco original ou inventiva. ao ponto de perceber que a trama poderia acontecer nos dias hoje com alterações mínimas. A parte histórica da trama não consegue nem fazer parte do contexto. As viagens do roteiro só demonstram uma  infantilidade ao criar uma trama que pudesse dialogar com nossa História. De nada adianta Seltom Mello fazer cara de detetive noir se o personagem não consegue sair do lugar nem quando descobre que a esposa (Paula Burlamaqui) o trai com um marinheiro (Seu Jorge) e todos os personagens acabam seguindo pelo mesmo caminho. Curioso é que com todo o cuidado na produção o filme mostra-se um grande desperdício  -e deve ser lembrado somente como o filme em que Rodrigo Santoro estava feio. 

Reis e Ratos (Brasil/2012) de Mauro lima com Seltom Mello, Rafaela Mandelli, Cauã Reymond, Otávio Müller, Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Paula Burlamaqui, Bel Kutner e Orã Figueiredo. ☻☻

COMBO: Stephen King

5 Louca Obsessão (1990) Acho que um belo dia Stephen King acordou e pensou como seria se uma fanática o aprisionasse em casa e quisesse ditar o rumo de suas obras. Deve ter sido assim que nasceu a ideia de Louca Obsessão, filme dirigido por Rob Reiner que oscarizou Kathy Bates como a (aparentemente) pacata Annie Wilkes que fica surpresa de perceber que seu escritor favorito (James Caan) acidentou-se perto de sua casa. A primeira vista a solitária Wilkes demonstra ser atenciosa e caridosa, mas quando começa a descobrir que o escritor dará rumos que não lhe agrada em sua série literária favorita começa um jogo de tortura física e psicológica de arrepiar - e o autor de terror mais popular  desde a década de 1970 mostra que o horror pode brotar das situações mais inofensivas. 

4 Eclipse Total (1995) Olha ela aí de novo! Se existe uma musa cinematográfica de Stephen King esta deve ser Kathy Bates. Depois de todos os merecidos prêmios com Louca Obsessão, o diretor Taylor Hackford convidou a atriz para viver Dolores Claiborne. Dolores é acusada de ter matado uma velhinha rica para a qual trabalhava. Sempre considerada dedicada em seu trabalho, a situação choca a cidade e ganha vasta publicidade em jornais. Este é apenas o ponto de partida para uma narrativa cheia de camadas. Além de lidar com a acusação, Dolores precisará acertar as contas com a filha bem sucedida (Jennifer Jason Leigh) e relembrar do seu obscuro relacionamento com o esposo agressivo (David Straitharn). Apesar do resultado excelente desta produção, ela acabou esquecida nas grandes premiações. 

3 Carrie - A Estranha (1976) Embora a obra de Stephen King possa ter rendido algumas obras puramente caça-níqueis, existem produções que conseguiram captar metáforas poderosas em sua escrita. Talvez a maior delas seja a que vemos em Carrie, A Estranha. Para honrar isso, Brian DePalma radicalizou a presença do sangue na história. Para os menos atentos pode parecer que Carrie (Sissy Spacek, excepcional e indicada ao Oscar de atriz) é apenas uma jovem cuidada com excesso de rigos pela mãe (a ótima Piper Laurie, indicada ao Oscar de coacjuvante) e o estrago dessa educação castradora você pode imaginar quando os hormônios entram em ebulição. Quem conseguir mergulhar na história vai perceber o quanto a sexualidade é vista como ameaça numa sociedade conservadora, especialmente na adolescência. Recentemente o filme serviu de exemplo para campanhas contra bullying e se transformou no favorito dos que sofreram com perseguição na escola. Por que? Veja como Carrie arrasa (literalmente) na festinha de formatura! O filme ganhará um remake com Chloe Moretz e Julianne Moore. 

2 O Nevoeiro (2007) Quantas camadas políticas cabem num filme de terror? Os cinéfilos mais xiitas vivem dizendo de filmes de terror servem para gerar medo e justificar guerras (claro que em uma argumentação mais complexa do que escrevo aqui), acho que Frank Darabont quis deixar isso claro quando resolveu adaptar O Nevoeiro, se apropriando da obra de forma assustadora, ao ponto de criar um final mais redondo e perturbador para a obra (que o próprio Stephen King elogiou). Darabont já havia trabalhado com a obra de King em Um Sonho de Liberdade (1995) e À Espera de Um Milagre (1999), mas foi aqui que abraçou o terror sem pudores - ainda que numa perspectiva totalmente política. Numa cidadezinha um nevoeiro começa a preocupar os moradores. Os personagens do filme se encontram presos num supermercado e a tensão chega ao limite com teorias apocalípticas de uma fanática religiosa (Marcia Gay Haden), que acaba se tornando uma líder em oposição ao sensato David Drayton (Thomas Jane). Esqueça os monstros que aparecem, o mais bacana é a dinâmica das relações entre os personagens. 

1 O Iluminado (1980) Acho que alguém correria atrás de mim com um machado se eu não colocasse em primeiro lugar esse clássico do horror dirigido pelo mestre Stanley Kubrick. O diretor nos mergulha na claustrofóbica situação da família que se vê isolada num hotel cinco estrelas no meio do nada. O lugar parece ideal para que um escritor (Jack Nicholson, mais estranho que nunca) termine sua nova obra. A tática poderia até dar certo se aquele lugar não fosse uma mansão assombrada por todos os fatos macabros que já aconteceram por ali. Vale destacar o estilo Kubrick de criar o horror gradativamente, com cenas lentas, bizarrices, fotografia banhada de luz e trilha sonora excepcional. Até o protagonista querer dar cabo de sua família, até você vai ficar com medo de pensar como um escritor mergulha num processo criativo.  

domingo, 9 de setembro de 2012

CATÁLOGO: À Espera de Um Milagre

Hanks e Duncan: milagres no corredor da morte. 

"É um filme de prisão, mas é diferente"! Disse minha tia quando assistiu Um Sonho de Liberdade (1994)  e acho que este comentário se enquadra perfeitamente em À Espera de Um Milagre (1999). As semelhanças entre os dois filmes não param por aí. Além de serem bem dirigidos por Frank Darabont, eles ainda são baseados em contos do escritor Stephen King - mestre no gênero horror mas que também tem os seus momentos de explorar dramas mais intimistas. Como se não bastasse,  os dois foram indicados ao Oscar de Melhor Filme e se fortalecem na parceria entre dois atores (que, por acaso, um é branco e o outro é negro). As semelhanças param por aí, já que Um Sonho de Liberdade é bem realista, enquanto À Espera de Um Milagre possui elementos fantásticos que atraíram muita gente no ano em que O Sexto Sentido (1999) estava na moda. Ambientado no corredor da morte numa penitenciária no ano de 1935,  a tranquilidade do ambiente é garantida pelos policiais que pretendem dar um pouco de dignidade aos homens que foram condenados à cadeira elétrica. Os policiais são liderados pelo bom moço Paul Edgecomb (Tom Hanks, quando ainda tinha sua aura de astro intacta após vários sucessos de bilheteria), que consegue ser agradável mesmo com o seu desconfortável problema urinário (que afeta até sua relação com a esposa vivida, pela sempre simpática, Bonnie Hunt). A rotina da penitenciária é apresentada sem pressa, onde conhecemos até a história de um ratinho de circo. A surpresa começa mesmo quando recebem o grandalhão John Coffey (Michael Clarke Duncan em excepcional atuação). Um homem acusado de matar duas meninas e que em momento algum, demonstra ser capaz de uma atrocidade dessas, pelo contrário, trata-se de uma das pessoas mais gentis que já apareceram numa tela. Seu temperamento até infantil mostra-se um paradoxo com seu físico e com as acusações que recaem sobre ele. As dúvidas sobre ter cometido o tal crime só aumentam quando ele demonstra possuir um misterioso poder de curar os doentes que cruzam seu caminho. Um assassino tão brutal seria capaz de ter esse dom? Essa é a pergunta que os personagens se fazem, ao mesmo tempo que a plateia se rende ao prisioneiro gigante. Seu personagem entra em contraste com o sadismo de um policial (um exagerado Doug Hutchinson) e um prisioneiro de fama assombrosa (Sam Rockwell no papel que o tirou do anonimato). Muita gente se incomoda com o fato desses dois personagens serem as únicas figuras desagradáveis no filme - numa construção artificialmente simétrica num filme povoado de personagens tão gentis. No entanto, quem assistiu (e quem não assistiu?) sabe que Darabonts faz um excelente trabalho ao construir uma atmosfera única em seu filme, conseguindo conjugar momentos cômicos e outros de puro horror como as cenas de execução na cadeira elétrica. Abaixo de todos esses elementos existe uma crítica ao sistema carcerário, à própria eficiência da pena de morte e os preconceitos que emergem na condenação desses prisioneiros, mas Darabont prefere valoriza o que sua trama tem de mais diferente nos filmes ambientados numa prisão - o que não deixa de ser um grande risco. É uma tarefa que pode até parecer fácil, mas não é. Emoldurado com bela fotografia e boas atuações, o filme consegue um equilíbrio raro entre esses elementos (e isso em três horas de duração), mas, dificilmente, teria alcançado a projeção em seu lançamento sem a atuação comovente do gigante Michael Clarke Duncan que não deixa seu personagem cair na pieguice em momento algum. Falecido recentemente, é este filme que deixa Duncan imortalizado na história do cinema com um punhado de dor e fantasia. 

À Espera de Um Milagre (The Green Mille/EUA-1999) de Frank Darabonts com Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, Sam Rockwell, James Cromwell, Bonnie Hunt, Patricia Clarkson, David Morse e Barry Pepper. ☻☻☻☻

DVD: O Solteirão

Douglas: garanhão em crise. 

Traduzir o nome para um filme gringo que estreia no Brasil deve ser a fonte de um dos piores trabalhos do universo. De vez em quando aparecem anormalidades gritantes e, o que é mais raro, dois filmes que recebem o mesmo nome. Isso aconteceu com Greenberg (2010) dirigido por Noah Baumbach e estrelado por Ben Stiller e este Solitary Man (2009) estrelado por Michael Douglas. Ambos ganharam o nome O Solteirão e poderiam ter chamado mais atenção se seus nomes originais fossem respeitados. Conheço um bocado de gente que deixou de ver um por ter assistido o outro. Levando em consideração que considero Greenberg uma das coisas mais insuportáveis que já assisti, espero que a maioria tenha visto este aqui. Além do título, ambos tem em comum a presença de dois personagens estagnados em suas vidas, ainda que de forma distintas. Se Greenberg era solteiro por ser chato de mais para conviver com qualquer ser humano, o solteirão de Michael Douglas até parece ter salvação - mais por conta do carisma do ator do que do personagem em si. Apesar de ter alguns tropeços no ritmo (talvez por ter dois diretores Brian Koppelman - que também assina o texto - e David Levien), o filme tem ideias interessantes que valem a visita. O filme começa com a cena de Ben no cardiologista descobrindo que tem um problema cardiológico que pode acabar com sua vida. Um corte temporal o mostra com a mão no peito e pensando em alguns segundos sobre o que pode lhe acontecer, isso é importante para cravar a ameaça da morte no personagem -  já que  só depois da metade do filme ele volta a falar sobre ela. O longa começa com aquele ritmo cômico para ganhar a simpatia da plateia: Ben (Douglas) é um verdadeiro predador, está sempre à caça - ao ponto de pedir para a filha fingir que é namorada dele e o neto chamá-lo de pai para não perder uma beldade que está por perto. Ainda que tenha teorias tendenciosas sobre relacionamentos, descobrimos que Ben tem um relacionamento estável com uma dondoca (Mary Louise Parker, que depois da série Weeds voltou a chamar atenção no cinema) e tem que aguentar a perseguição da mimada enteada (uma eficiente Imogen Poots). Ele tenta reconstruir a vida depois de um escândalo que  manchou sua vida profissional, mas no meio do caminho precisa levar a enteada para entrevista de admissão numa Universidade onde  ainda tem alguma influência. É neste ponto que começamos a entender do que se trata a trajetória de Ben. Podem chamar de crise de meia idade, mas acho que o filme vai um pouco mais fundo do que isso. É curioso como o protagonista se envolve com as pessoas ao seu redor, as mulheres são apenas alvos e não merecem muita atenção depois que ele consegue o que quer. E ainda que se comporte feito um adolescente ele repete a todo instante são os outros que não cresceram. Nesta visita à Universidade, onde ele mesmo estudou, reencontra um amigo (vivido por um inspirador Danny DeVito), faz amizade com um tímido membro do grêmio estudantil (Jesse Eisenberg) e (é só colocar uma camisa teen) que ele parece se transformar naquele típico colega de dormitório que irá ajudar o garoto tímido a conquistar a mulherada. Ben ainda se dá muito bem com o neto (especialmente quando jogam video game), mas este é um fato que acontece menos do que as vezes em que pede dinheiro para a filha - como se fosse um menino que acabou com a mesada. Mas ele acredita, com todas as forças, que são os outros que não cresceram. Ele nem faz ideia do estrago que a enteada irá promover na sua vida e tão pouco como o seu comportamento é capaz de magoar a si mesmo e as pessoas ao seu redor. Quando ele parece entender as contra-indicações de seu estilo de vida o título em inglês (Homem Solitário) faz falta, mas quem pode mudar as coisas é ele mesmo - e fugir não é o melhor caminho para isso. Com ótimas atuações, ainda que esteja longe de ser um filme perfeito, ainda existe um punhado de ideias na construção deste anti-herói que fazem do filme uma dramédia eficiente, cenas como o momento em que, apesar de girar em torno de seu universo umbigo, ele descobre que possui amigos (mesmo que ele pareça não dar a mínima para isso) fazem a diferença. O roteiro só precisava ser um pouco mais lapidado, especialmente em sua cena final que transparece sutilmente, uma tendência suicida na teimosia de Ben em não assumir responsabilidades com os outros ou consigo mesmo.  

O Solteirão (Solitary Man/EUA-2009) de Brian Koppelman e David Levien com Michael Douglas,  Jenna Fischer, Susan Sarandon, Mary Louise Parker, Imogen Poots, Danny DeVito, Jesse Eisenberg e Olivia Thirlby. ☻☻☻

sábado, 8 de setembro de 2012

FESTIVAL DE VENEZA 2012

Hoffman e Phoenix: rumo ao Oscar

Com o anúncio dos ganhadores no Festival de Veneza 2012, mais uma vez o Festival parece ditar quem estará no páreo de Melhor Ator do ano na temporada de ouro que se aproxima. Nos últimos anos Mickey Rourke (O Lutador/2008), Colin Firth (Direito de Amar/2009) e Michael Fassbender (Shame/2011) foram premiados e surgiram com força para as premiações. Neste ano a coisa deve ficar ainda mais emocionante, já que The Master (o aguardado novo filme de Paul Thomas Anderson) não traz uma, mas duas notáveis atuações de Phillip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix, numa trama que se inspirou na vida do criador da cientologia L. Ron Hubard. A seguir todos os premiados:

Leão de Ouro (Melhor Filme)
Pieta de Kim Ki-duk

Leão de Prata (Melhor Diretor)
Paul Thomas Anderson (The Master)

Melhor Ator
Phillip Seymour Hoffman / Joaquin Phoenix (The Master)

Melhor Atriz 
Hadas Yaron (Lemale et Ha'Chalai)

Prêmio Marcelo Mastroinani (Novos Talentos)
Fabrizio Falco ("E Stato il Figlio" e "Bella Addormentata")

Melhor Roteiro
Olivier Assayas (Aprés Mai)

Melhor Fotografia 
Daniele Cipri (E Satto il Figlio)

Leão de Ouro do Futuro 
Kuf: Mold (de Ali Aydin)

Prêmio Queer Lion
The Weigth (de Joel Kyu-hwan)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DVD: Redenção

Butler: em busca de reconhecimento com o roteiro errado. 

Podem até dizer que eu estava num mal dia quando inventei de ver esse filme do diretor Marc Foster estrelado por Gerard Butler, mas tive a impressão que o filme beira o desastre. A história edificante pode até ser boa e inspiradora, mas é conduzida com uma preguiça pelo diretor que simplesmente não me envolveu. O filme trata da história de Sam Childers, um ex-presidiário que sai da prisão, briga com a esposa por ela ter deixado de ser uma stripper (quando se torna religiosa). Revoltado ele mete a cara nas drogas e chega a matar um homem. Aí ele encontra a religião e se torna um exemplo de vida. Parece que esqueci algum detalhe? Esse é o problema que perpassa todo o filme. Nada contra histórias redentoras ou um pouco de fé na humanidade, mas o filme mostra essa transição de forma tão brusca que não convence. Gerard Butler até que se esforça num papel que lhe exige mais do que ser um brutamontes sorridente, mas o personagem é tão esquemático que não lhe dá o mínimo amparo para alcançar seus objetivos (que seria aparecer em algumas premiações).  Depois de mudar sua concepção de mundo ao tornar-se religioso, Sam torna-se missionário no Sudão e fica indignado com a situação social, política e econômica do país, ao ponto de enfrentar os guerrilheiros locais em defesa de crianças órfãs da guerra civil que acontece por lá. Quero deixar claro que a história é interessante e poderia render um belo filme, mas o resultado fica aquém do esperado com um roteiro fracote e mal desenvolvido. Até Foster está tão acomodado que esquece de envolver o espectador no que interessa: o filme. A impressão é que apostaram todas as fichas nos aspectos mais "solidários" da história e ficaram repetindo a vida toda que aquele homem não fez nada de bom até o momento em que encontra uma causa para lutar. Da forma como aparece, soa como se o ponto de mudança para esse homem fosse tornar-se um assassino - mas não existe reflexão suficiente no personagem para que tal mudança ocorresse. A simplificação das situações apresentadas é o que mais compromete o resultado. Ao optar por girar em torno da lógica do personagem o filme se empobrece em termos narrativos,tornando tudo superficial e apressado - e mesmo assim a história não anda numa duração longa e aborrecida. A história de Childers pode até causar polêmica pela forma radical escolhida para combater as atrocidades que presencia (ao ponto de muitos considerá-lo um mercenário). Pode até chocar por frases como "Falar de paz em uma sala é perda de tempo", mas se atrapalha mais ainda por repetir para si mesmo que os fins justificam os meios e se as intenções são boas as atrocidades são até permitidas [sic], mas não se engane, o longa se apropria do sentimento cristão para embasar uma visão empobrecida do contexto político em que Childers se insere. Nada é tão simples como aparece no filme. A impressão que tive é que Marc Foster tinha total consciência dos problemas melodramáticos do roteiro esquemático que tinha em mãos e optou por uma narrativa seca para atenuar essas características. O resultado soa tão passivo quanto desengonçado, um desperdício do que poderia ter sido uma bela reflexão sobre política. Afinal, por mais que você se identifique com a indignação do personagem, isso não torna as ações dele menos questionáveis - além de não justificar porque sua visão "nobre" sobre o mundo é a única que aparece no filme. 

Redenção (Machine Gun Preacher/EUA-2011) de Marc Foster com Gerard Butler, Michael Shannon, Michelle Monaghan, Madeline Carroll e Kathy Baker. ☻