sexta-feira, 21 de junho de 2013

DVD: Hitchcock

Hopkins e Scarlett: as pedras no caminho para fazer um clássico. 

Ano passado Alfred Hitchcock tornou-se personagem de cinema. Esteve na pele de Toby Jones atazanando Tippi Hedren (Sienna Miller) na produção televisiva "A Garota" - sobre os bastidores de Os Pássaros (1963) e também neste filme para a telona estrelado por Anthony Hopkins personificando Hitch enquanto ele tentava dar vida ao arriscado Psicose (1960). Em comum, os dois filmes deixam claro a obsessão do diretor com suas belas estrelas. Hitchcock é baseado no livro de Stephen Rebello sobre os bastidores de Psicose e, segundo o diretor estreante Sacha Gervasi o cineasta era, na maior parte do tempo, um verdadeiro cavalheiro com Jennifer Leigh (Scarlett Johansson) - talvez por ela ser casada com Tony Curtis e ter duas filhas (e mesmo quando ele dá seus xiliques, ela o considera muito mais agradável de lidar do que Orson Welles, com quem trabalhara em A Marca da Maldade/1958). Quem aparece como testemunho das manias do diretor com suas divas é Vera Miles (Jessica Biehl),  atriz que o deixara na mão antes de filmar Um Corpo Que Cai (1958), mas o assunto é abordado apenas superficialmente com breves comentários no roteiro. Parece que o Hitchcock não conseguia entender como as atrizes poderiam escolher casar e ter filhos a viver o estrelato de seus filmes. O filme sugere que a maior mágoa do diretor é mesmo com Grace Kelly, que depois de trabalhar em três filmes com ele, largou o estrelato para casar-se com o príncipe de Mônaco. O filme de Gervasi se concentra mais é na relação de Alfred com a esposa, Alma (Helen Mirren, indicada ao Globo de Ouro pelo papel), principalmente na forma como ela o ajudava a dar forma aos filmes dele. É interessante como Alma é mostrada como figura fundamental para dar vida ao filme Psicose. O projeto era considerado muito arriscado pelo estúdio, ao ponto de Hitch produzí-lo com dinheiro do próprio bolso (hipotecando a casa) num esquema independente, deixando para o estúdio apenas a distribuição do longa - se considerasse que seria rentável. Os problemas com o filme já começam por conta da obra de Robert Bloch ter sido considerada apenas um livro de terror qualquer, uma trama bastante abaixo das habilidades do diretor.  Hitch enxergava em Psicose uma forma de expressar seu olhar sobre a mente de um psicótico e ainda brincar com algumas convenções do cinema (como matar a protagonista no meio do filme). Ciente de que a surpresa final era fundamental para que funcionasse a história, Alfred pediu para que comprassem todos os exemplares do livro antes que os leitores pudessem desvendar o mistério do Hotel Bates. Essa visão dos bastidores fascina qualquer cinéfilo, mas o diretor coloca coisa demais em sua história sem ter habilidade para lidar com todas elas. É até interessante explorar a crise na relação de Alfred e Alma, ao ponto dele suspeitar que ela tem um caso com um escritor (Danny Huston) e prejudicar a realização do filme (um dos momentos mais aguardados é a cena do chuveiro como um retrato desta crise no relacionamento). Alma costumava ajudar o diretor na produção, no roteiro, na edição, mas a irritação perante à vida na sombra das obsessões do esposo, a aborreciam o suficiente para que a parceria sofresse uma fissura. Sem saber muito bem a direção que deve tomar, Gervasi deixa o seu elenco a vontade para explorar os seus personagens. Hopkins, apesar da maquiagem, consegue injetar bastante humor em meio a estranheza do personagem. Scarlett consegue construir uma Jennifer Leigh adorável. Helen Mirren consegue dar carne e osso para Alma e até Toni Collette tem uma participação pequena mas marcante como a assessora de longa data de Hitchcock. Quem aparece pouco, mas chama a atenção, é James D'Arcy na pele de um Anthony Perkins que tem muito da postura física de Norman Bates! Apesar das boas tiradas (como o diretor rejeitando a clássica trilha sonora, a elaborada estratégia de marketing para vender o filme ou o pássaro pousando no ombro de Hitch quando ele pré-anuncia seu novo projeto à plateia), Gervasi não consegue conjugar os bons elementos que tem em mãos com a harmonia necessária para transformar o longa num filme à altura de seu biografado. Talvez pelo seu fascínio pelo mestre do suspense, o diretor tenha se acovardado,  deixado a sensação de que suas pretensões ficaram pelo meio do caminho. 

Hitchcock (EUA/2012) de Sacha Gervasi com Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlet Johansson, Jessica Biel, Toni Collette, James D'Arcy e Danny Huston. ☻☻☻

quarta-feira, 19 de junho de 2013

4EVER: James Gandolfini

(18 de setembro de 1961 / 19 de junho de 2013)

Nascido em Nova Jersey, James Gandolfini foi o mafioso que todos aprendemos a gostar. Responsável pela antológica interpretação de Tony Soprano no seriado revolucionário Família Soprano (1999-2007), o ator saiu do anonimato de uma carreira que começou na década de 1980. Na pele de Tony, Gandolfini recebeu 16 prêmios (Emmy e Globo de Ouro incluídos) e recebeu uma segunda chance no cinema em boas atuações, seja em filmes questionáveis como A Mexicana (2001) e Corações Perdidos (2010) ou elogiados como In The Loop (2009), O Homem da Máfia (2012) e A Hora Mais Escura (2012). Esse ano ele chegou a ser cotado para o Oscar de coadjuvante na pele do pai de rockstar em Not Fade Away (2012). Dia 19 de junho, James foi encontrado ainda vivo pelo filho no banheiro de um hotel durante um ataque cardíaco, mas faleceu no hospital. O funeral do ator será realizado na Itália. 

LADIES & GENTLEMEN: Sam Rockwell

O californiano Sam Rockwell nasceu no dia 5 de novembro de 1968 e aos dois anos mudou-se com a família para Nova York. Seus pais também eram atores e aos cinco anos o  menino teve que atravessar o divórcio do casal. Ele acabou indo morar com o pai em São Francisco e passando os verões com a mãe em Manhattan. Sua estreia como ator aconteceu ao lado da mãe quando tinha apenas dez anos. Quem conheceu o ator durante a adolescência garante que os tipos inconsequentes que costuma viver nas telas são inspirados nele mesmo, já que ele vivia chapado e correndo atrás das garotas em festas. Sua estreia no cinema aconteceu numa produção de Francis Ford Coppola de 1989, o obscuro Palhaço Assassino (Clownhouse), onde interpretava um dos três fugitivos de um manicômio que, disfarçados de palhaços, aterrorizam três crianças. A produção marcou a despedida de Rockwell de São Francisco. Decidido a tornar-se ator, mudou-se para Nova York e foi aprimorar o seu talento. Lentamente ele conseguiu participações em produções para a TV e pequenas aparições em filmes conhecidos como Noites Violentas no Brooklyn (1989), As Tartarugas Ninja (1990) e O Dono da Noite (1992). Com mais de uma dezena de títulos desconhecidos no currículo, as coisas pareciam começar a mudar quando o ator foi convidado por Woody Allen para participar de Celebridades (1998). Apesar de sua eficiência em cena, a carreira ainda não decolou. O ponto de mudança foi mesmo em 1999. Naquele ano, o ator participou do shakesperiano Sonhos de Uma Noite de Verão, fez uma participação no divertido Heróis Fora de Órbita e chamou a atenção do público como o prisioneiro mais desagradável de À Espera de Um Milagre (1999). Sua personificação como o vilão Wild Bill caiu no gosto da crítica - era como se o ator percebesse que a personificação de um sujeito tão deplorável fosse a grande chance de sua carreira. Apesar de todos os olhos estarem voltados para o gigante Michael Clarke Duncan (que foi indicado ao Oscar de coadjuvante), Rockwell recebeu uma cota generosa de elogios e não parou mais de ganhar papéis de destaque. No ano seguinte foi o vilão bobo de As Panteras (2000) e no ano seguinte participou de cinco produções - a de maior prestígio foi O Assalto  (2001) de David Mamet, onde atuou ao lado de Gene Hackman e Morgan Freeman. Sua chance como protagonista só veio em 2002, quando George Clooney o escalou para sua estreia na direção. Confissões de Uma Mente Perigosa contava com mais uma atuação inspirada de Rockwell. O roteiro de Charlie Kauffman retratava os delírios da biografia de  Chuck Barris que dizia ter trabalhado como agente da CIA (e vivido histórias tão mirabolantes que nem a CIA admite suas sandices). Rockwell ganhou o prêmio de ator no Festival de Berlim pelo papel e vivia ali a criação de um tipo que lhe persegue até hoje: o "doidinho". Mas sua versatilidade ainda lhe rendeu papéis como o amigo traidor em Os Vigaristas (2003) de Ridley Scott e uma participação especial no descolado O Guia do Mochileiro das Galáxias (2005). Talvez pelo tom cômico que tempera suas atuações, o ator surpreenda mesmo em personagens sérios como o de Charley Ford em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) e Frost/Nixon (2008). Apesar de curtir muito sua atuação como o viciado em sexo de No Sufoco (2008), minha atuação favorita de Rockwell está na estreia de Duncan Jones no cinema. Lunar (2008) é uma pérola pouco famosa da ficção científica recente de Hollywood, mas traz um trabalho memorável do ator como um astronauta que entra em crise de identidade sozinho na Lua. Solitário em cena, Rockwell tem uma performance memorável submerso nos conflitos do personagem - mas o grande público deve lembrar mesmo é dele como o o rival de Tony Stark em Homem de Ferro 2, lançado no mesmo ano. Ainda sem indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro, imaginaram que sua atuação em A Condenação lhe rendesse alguma coisa. Engano. Restou fazer menos do que devia em filmes como Cowboys & Aliens (2011) e O Babá(ca)  (2011). Sorte que de vez em quando aparecem roteiros como de Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012) para lhe render prêmios no cinema independente e associações de críticos. Com cinco filmes agendados para estrear em 2013 - entre eles o elogiado no Festival de Berlim, A Single Shot e o novo longa de Clark Gregg, Trust Me. Você ainda vai esbarrar com ele em alguma telona neste ano.

Com o diretor Clooney (esq.) em  Confissões de Uma Mente Perigosa: melhor ator em Berlim. 

DVD: A Condenação

Swank e Rockwell: frutos de uma família disfuncional. 

Hillary Swank é o tipo de atriz que Hollywood não sabe muito bem o que fazer com ela. Com dois Oscars de atriz na estante (Meninos não Choram/1999 e Menina de Ouro/2004), esta norte americana nascida em Nebraska não se enquadra no tipo de papel que os estúdios costuma encaixar suas mulheres. Ela não é muito convincente bancando a heroína romântica (P.S. Eu Te Amo/2007), não fica bem de garota assustada (A Colheita do Mal/2007 ou A Inquilina/2010) ou sofredora (O Dom da Premonição/2000) e seu físico esguio de dentes enormes também não cai bem como heroína de filmes de ação (O Núcleo/2003) ou mulheres sedutoras (Dália Negra/2006), sendo assim os papéis que lhe caem bem são específicos e escassos: mulheres fortes e determinadas (como os que lhe renderam os prêmios da Academia e o papel da policial em Insonia/2002 de Christopher Nolan). Swank sabe disso, tanto que quando soube que havia uma história real inacreditável só esperando para ser contada na telona ela a agarrou com unhas e (grandes) dentes. O problema é que histórias inacreditáveis costumam ser bastante polêmicas e ela não contava que a repercussão de sua assinatura na produção de A Condenação poderia comprometer o sucesso do filme.  A Condenação conta a história real de Betty Anne Waters (Swank), uma mulher casada e com dois filhos que tem a vida transformada depois que o irmão, Kenny (Sam Rosckwell) é acusado e preso por assassinar uma moradora das redondezas. Acreditando na inocência do irmão, Betty irá se formar em direito para que possa reabrir o caso e provar que o irmão é inocente. A direção de Tony Goldwin (mais conhecido como o amigo traidor de Patrick Swayze em Ghost/1990) mostra-se bastante eficiente, mas convencional. Goldwin demonstra ter plena consciência de que o roteiro é amparado pela obstinação da personagem e do seu vínculo com o irmão (que é ainda mais reforçado pelas desnecessárias cenas de infância da dupla, onde chegam a invadir domicílios para saber como é viver numa casa normal). Betty e Kenny são aquilo que os americanos costumam chamar de White Trash: as famílias são complicadas, moram em trailers e os pais não conseguem cuidar nem de si mesmos. Embora Hillary na pele de Betty garanta o tom edificante do filme, a produção tem alguns problemas. Um deles é que fala-se tão pouco da assassinada que não fazemos a mínima ideia de quem seja. Não aparece durante todo o filme nenhum parente da vítima, apenas a família Waters e algumas testemunhas de acusação (a esposa de Kenny vivida por Clea Duvall e uma namorada esquisita do moço encarnada pela sempre competente Juliette Lewis), estas são amparadas pela policial responsável pelo caso, a suspeita Nancy Taylor (Melissa Leo). Essa parcialidade do roteiro foi bastante criticada, já que os parentes da vítima acusaram o filme de tendencioso e que mostram Kenny como um sujeito apenas esquentadinho. Outro problema da narrativa é a forma como são retratadas as perdas da própria Betty Anne durante a jornada pela inocência de Kenny (seu divórcio nem é trabalhado pelo roteiro e a relação com os filhos é pouco explorada), o que interessa mesmo é a busca por provas que inocentem o irmão. Problemas a parte, temos que admitir que Swank está convincente, mas não tão excepcional ao ponto de gerar as especulações que quase a colocaram na mira do terceiro Oscar, afinal, sua atuação não é melhor do que a do resto do elenco. Se alguém merece destaque é Sam Rockwell que consegue fazer de um tipo suspeito ser bastante simpático e humano, mas se ele não conseguiu pairar nas premiações com o astronauta de Lunar (2009), beirava o impossível ele concorrer a estatuetas por conta de um controverso suspeito de assassinato. 

A Condenação (Conviction/EUA-2010) de Tony Goldwin com Hillary Swank, Sam Rockwell, Clea Duvall, Juliette Lewis, Melissa Leo e Ele Bardha. ☻☻☻

terça-feira, 18 de junho de 2013

DVD: Os Miseráveis

Jackman: Cosette no colo de Wolverine?

Continuando minha peregrinação pelos indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano, que acabam de chegar em DVD, assisti a Os Miseráveis de Tom Hooper. Para introduzí-los a todos os meus receios sobre o filme vou ser bem direto antes de falar sobre o material em si. Lembro quando estava na Universidade Federal Fluminense fazendo aula de Cinema e Literatura quando a professora exibiu a versão de 1998 da obra de Victor Hugo para o cinema. Os Miseráveis (1998) tinha direção de Bille August e atuações inspiradas de Liam Neeson (na pele de Jean Valjean), Geoffrey Rush (Javert), Uma Thurman (Fantine) e Claire Danes (Cosette). Apesar de toda dedicação o filme tinha produção modesta e não empolgou nas bilheterias. Na ocasião a professora levou até a trilha sonora do musical inspirado na obra. Na hora eu achei esquisito, afinal, um musical com um protagonista  condenado para o resto da vida por roubar um pedaço de pão não é propriamente a matéria prima para agudos inspirados. Depois do Oscar por O Discurso do Rei/2010 (que apesar de toda a produção de poucos recursos ganhou quatro prêmios da Academia, incluindo melhor filme), Tom Hooper alardeou que faria uma adaptação do musical Les Misérables. Eu fiquei preocupado. Conforme as estrelas aderiam à produção (Hugh Jackman - que há tempos queria um musical na telona -, Russell Crowe e Anne Hathaway) meu interesse foi crescendo. Durante toda a campanha de marketing ficou bem claro que esta sexta adaptação da obra de Victor Hugo para a telona tinha a produção mais caprichada. Dos cenários aos figurinos, ele parece ter custado muito mais do que os alardeados 61 milhões de dólares. No entanto, eu sabia que a minha relação com o filme seria complicada. Quero deixar claro que não há do que reclamar do filme enquanto produção cinematográfica.  Tudo nele é de encher os olhos, as atuações, o som, as imagens, no entanto eu precisei de alguns minutos para me acostumar ao vilão Javert (Crowe) cantando sempre em terceira pessoa enquanto persegue Jean Valjean (Hugh Jackman)! Acho que até em Dançando no Escuro (2000) de Lars Von Trier as mazelas cantadas faziam mais sentido. Depois que eu me acostumei com a narrativa cantada eu achava que estava tudo resolvido, mas achei a duração longa demais (duas horas e quarenta minutos) para ouvir as canções quase sempre parecidas. Talvez por isso, os momentos que mais me empolgaram foram os monólogos de Eponine (a revelação Samantha Barks) e Fantine (Hathaway, que levou o Oscar de coadjuvante pela cena), ambos me soaram mais intimistas e reais do que a maioria dos números apresentados. Quem conhece a história clássica irá identificar que a essência da obra de Victor Hugo está presente. Seu discurso panfletário contra a miséria da França no século XIX e a necessidade de uma Revolução para mudar o sistema opressor existente. Os personagens são retratos dessas mazelas. Jean Valjean (Jackman) é um homem condenado eternamente por roubar um pão, ele foge de sua condicional e clandestinamente se torna um homem de respeito. Sua vida seria melhor se o obstinado inspetor Javert não o reencontrasse, justo quando Jean se sensibiliza com a história de Fantine, que precisa trabalhar para que uma dupla de picaretas (Sacha Baron Cohen e Helena Bonhan Carter) cuide de sua pequena filha pequena Cosette. Valjean acaba fugindo com Cosette (quando crescida será Amanda Seyfried) que irá se apaixonar pelo revolucionário Marius (Eddie Redmayne). Mais do que homem da lei, Javert é um sujeito que persegue sua classe de origem como se isso o afastasse de suas origens, enquanto Jean é seu completo oposto (sendo movido por ações notadamente humanistas). É dessa relação dicotômica que a história se nutre. Hooper consegue manter a intensidade dos personagens, mas tanta pompa pode ficar cansativa para quem não tem o gênero musical entre os seus favoritos ou para fãs ferrenhos da obra de  Victor Hugo. Ainda tenho minhas ressalvas de que tudo pode se tornar um musical (já imaginou um com o Quarteto Fantástico?), mas pode ser pura rabugice minha! Vale conferir os méritos de Les Misérables nem que seja para constatar que Hugh Jackman não pode ser condenado a ser Wolverine para sempre. 

Os Miseráveis (Les Misérables / EUA/Reino Unido-2012) de Tom Hooper com Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonhan Carter, Eddie Redmayne, Samantha Barks e Aaron Tveit. ☻☻☻

DVD: Indomável Sonhadora

Wallis: a mais jovem indicada ao Oscar de Atriz. 

O estreante Behn Zeitlin nunca deve ter pensado que seu primeiro filme iria parar no Oscar. Acho que nem as críticas positivas conquistadas no Festival de Cannes o havia convencido de que Indomável Sonhadora tinha chances de fazer bonito na temporada de ouro. É verdade que boa parte do impacto do filme se deve à atuação da precoce Quvenzhané Wallis (merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz, tornando-se a mais nova atriz a concorrer ao prêmio) tinha pouco mais de sete anos quando filmava na pele da protagonista Hushpuppy. Sua intensidade é de fazer corar muitas atrizes celebradas! Mas a surpresa de Zeitlin deve ter brotado do fato de que seu filme é completamente fora dos padrões  Hollywoodianos. Para começo de conversa seus personagens são de um grupo que o cinema americano prefere ignorar: os americanos muito pobres. Não estou me referindo aqueles que precisam trabalhar para pagar as contas, mas aqueles que, na grande maioria das vezes, não tem nem trabalho. Sim, existem pessoas muito pobres na terra do Tio Sam. Os do filme moram numa ilha (chamada carinhosamente de "a banheira") localizada numa barragem que devido a uma tempestade fica submersa. Além da pobreza, que não lembro ter sido mostrada de forma tão despudorada na produção americana recente, existe alguns toques de fantasia para que a plateia possa acompanhar a dura vida de Hushpuppy e a comunidade em que vive. Zeitlin mostra suas cenas de forma quase documental e fotografia realista (o ruim são as malditas câmeras trêmulas) para emoldura os moradores daquela localidade e seu cotidiano. O que enriquece o filme é a narrativa da garota que corta cada cena como se fosse uma navalha poética. Diante da dura realidade que presencia, ela especula sobre o que diz o coração dos animais enquanto bate, sobre o paradeiro da mãe, sobre o mundo, as geleiras e sente-se culpada pela doença do pai. Talvez por conta das reflexões da menina, os distribuidores brasileiros acharam bonitinho chamá-la de "sonhadora", mas ela está longe de fugir da realidade que a cerca. Pelo contrário, ela tem ambições bastante concretas que é sobreviver à enchente local (que irá gerar uma manifestação de moradores), reencontrar a mãe e ficar parte do pai até a inevitável despedida. O ideal deveria ser uma tradução fiel do título em inglês, Bestas (ou feras) do Sul Selvagem soa tão cru quanto o roteiro pretende ser.  A ideia de Zeitlin juntar uma narrativa realista com toques de fábula (acho que é isso que significa aqueles javalis gigantes que caminham até a comunidade do filme) funciona sempre que a narradora explora as possibilidades das cenas, mas em alguns momentos o filme é bastante desengonçado na passagem dos acontecimentos que aparecem na tela. Não chega a prejudicar o filme, mas em alguns momentos o filme parece perder o fôlego. Indomável Sonhadora é um filme de baixo orçamento, repleto de ideias e de alguns vícios estéticos que merecem os quatro prêmios recebidos no Festival de Cannes no ano passado, as quatro indicações ao Oscar (filme, diretor, roteiro adaptado e atriz) e entrar para a história por revelar uma atriz que tem o nome complicado proporcional ao seu talento. 

Indomável Sonhadora (Beasts of Southern Wild/EUA-2012) de Behn Zeitlin com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry e Levy Easterly. ☻☻☻

domingo, 16 de junho de 2013

COMBO: Mockumentary

O Mockumentário é o tipo de filme que passa ao espectador a sensação de retratar algo que aconteceu de verdade. Para criar a sensação de que estamos diante de um fato real - ou de registros de câmeras escondidas diante da realidade - vale qualquer coisa: atores falando para a câmera, enquadramentos distantes, cenas toscas, diálogos desarticulados, cortes bruscos e, principalmente, câmeras trêmulas o tempo inteiro (que eu odeio). No entanto, essas características não precisam aparecer todas juntas, depende da intenção da obra. Separei neste Combo, cinco filmes realizados pelos dogmas do gênero que merecem ser lembrados:

5 A Bruxa de Blair (1999) Me arrisco a dizer que se Daniel Myrick e Eduardo Sanchez. não houvessem lançado este filme baratíssimo e de enorme repercussão jamais teria existido Rec (2007), Atividade Paranormal (2007), Cloverfield (2008), O Último Exorcismo (2010), Apollo 18 (2011) e tantos outros filmes de terror que investem numa atmosfera real para contar suas histórias. A ideia dos três estudantes que se perdem numa floresta assombrada por uma bruxa (e deixam uma câmera para contar história) levou milhões de pessoas ao cinema -  a maioria iludida de que o que viam era real. Não era, mas a narrativa simplista que investe pesado no pavor do desconhecido até que funciona muito bem. Além de marcar as histórias de horror, o filme consolidou a internet como meio primordial de campanhas publicitárias para o cinema. 

4 Poder sem Limites (2012) A necessidade de justificar as câmeras escondidas nas cenas mais mirabolantes às vezes atrapalha esse filme de ação para adolescentes. Porém, a plateia nem se incomoda diante das cenas de ação mais do que convincentes sobre três amigos que descobrem um estranho meteorito que lhes atribui super-poderes. No início eles só querem curtir (e encher a linguiça do roteiro), nessa parte que é feito os desenhos dos personagens e mostra que um vilão é feito com um bocado de tristeza e ressentimentos! Esse vilão é o que destaca Dane DeHaan (o aprendiz de Leonardo DiCaprio) que não faria feio na tropa de Magneto. A ideia deu tão certo que pode virar uma franquia, mas antes o diretor Josh Trank irá repaginar as aventuras do Quarteto Fantástico no cinema. 

3 Borat - O Segundo Melhor Repórter do Cazaquistão Viaja à América (2007) Desde que tinha seu programa de televisão sabia-se que o humorista Sacha Baron Cohen não tinha medo de incomodar os politicamente corretos. Isso ganhou carne e osso quando vimos o documentário realizado por Borat na exploração dos preconceitos da terra do Tio Sam. Como não era um personagem famoso, o filme traz momentos bastante reveladores dos entrevistados sobre uma sociedade que se diz paladina da democracia e da liberdade. Cenas como o judeu botando ovo ou a luta de Borat e seu assistente peladões só não causaram mais polêmica do que a pilha de processos dos entrevistados nessa genial provocação. O filme acabou indicado ao Oscar de roteiro adaptado e Sacha ganhou o Globo de Ouro de ator de comédia. Pena que em Brüno (2009) a forma mostrou-se gasta.

2 Zelig (1983) De vez em quando Woody Allen inventa um filme sobre um sujeito que nunca existiu, mas nenhum deles teve a vida tão bem retratada quanto Leonard Zelig, um homem que sofria de um distúrbio raro: a síndrome do camaleão. Zelig era capaz de absorver características físicas e psicológicas de quem estivesse por perto. Ambientado nas décadas de 1920 e 1930 o filme tem uma reconstituição de época tão impressionante quanto os efeitos que inserem o personagem em momentos importantes da história. Cenas como a dança do lagarto ou seu embate com a psicóloga são hilariantes e provam porque Woody Allen é considerado gênio mesmo quando você não gosta dos filmes dele. Zelig é uma alegoria sobre a necessidade humana de aceitação. 

1 Por trás das Câmeras (2006) Esse primeiro lugar é um verdadeiro conjunto da obra, afinal precisamos celebrar Christopher Guest que tornou o mockumentary o seu estilo de vida! Parece que desde que participou da equipe do antológico This Is Spinal Tap (1986), o diretor mergulhou em criar documentários de mentira sobre o estilo de vida dos americanos. Filmes como O Melhor do Show (2000), Esperando por Guffman (1996) e Os Grandes Músicos (2003) tem sua legião de fãs e merecem ser vistos. O estilo do diretor e sua patota de atores (que inclui Catherine O'Hara, Parker Posey e o parceiro em roteiros Eugene Levy) são tão conhecidos que até participaram de uma vinheta no Oscar desse ano. A premiação da Academia é o alvo desse filme hilariante sobre os envolvidos num filme independente que sofre as especulações de ser indicado ao prêmio. Egos inflados, competitividade e um final surpresa garantem a diversão!

sábado, 15 de junho de 2013

DVD: J C Comme Jésus Christ

O prodígio JC: A fama como uma tigela de cereal! 

JC ganhou a Palma de Ouro em Cannes (ele já recebera um prêmio no Festival pelo seu curta de estreia Cereja Crocante quando tinha apenas 13 anos). Aos 16 ganhou o seu primeiro Cesar (o Oscar francês). Preparando seu próximo longa-metragem (um musical baseado na história do pedófilo mais famoso de todos os tempos), o jovem tem dez dias de sua vida filmados para um documentário. Ficou impressionado com o currículo do rapaz? Então se prepare para saber que JC é uma bela piada com o mundo do cinema. O público e a crítica não ligou muito para esse documentário de mentirinha que rende risadas, mesmo que seja por algumas piadas bastante esquisitas. JC (o gaiato Vincent Lacoste com visual de Bob Dylan juvenil) mantém o olhar blasée ainda que more com os pais, engane a namorada romântica, saia com estrelas e prostitutas, esnoba Lars Von Trier e sonha em ter Vincent Cassel ao lado de Diane Kruger e Mélanie Laurent em seu novo filme, além de (obviamente) posar de gênio incompreendido quando precisa convencer seus produtores que que sua nova ideia é totalmente viável. O filme de estreia do diretor Jonathan Zaccaï apoia-se numa piada só, mas faz isso com tanto gosto que a plateia nem vai se importar. Além de brincar com o mundo dos prodígios do cinema, ainda brinca com a "privacidade pública" que tornou-se cada vez mais comum na era dos reality shows. JC aparece na maioria do tempo como um sujeito egocêntrico e mimado (não dispensa que a mãe lhe entregue uma tigela de cereais no café da manhã). Se essas características já é presente num adolescente comum, imagine o efeito da fama num sujeito desses? Parece que JC não se dá conta do quanto sua rotina atrapalha quem está ao seu redor (ou então, percebe e não está nem aí). Considerei que as melhores piadas são aquelas onde os personagens querem trair o documentário que está sendo filmado (como a amante estrela de cinema vivida por Elsa Zylberstein fingindo que entre eles o relacionamento é apenas "artístico" quando se encontram num quarto vestidos em cima de uma cama de casal, ou quando os pais pedem que desliguem a câmera para que possam dar um sermão no mocinho), além das impagáveis cenas de atores apontando suas semelhanças com o personagem do novo filme de JC (um pedófilo, lembra?). As desventuras do jovem diretor irão levá-lo até a casa de um produtor (que pode até financiar o polêmico musical se sua esposa tiver um papel no filme) e a conhecer um jovem diretor (vindo das artes plásticas) que pode até tomar o seu lugar no mainstream. Ao fim dos dez dias de filmagem (que inclui até uma invasão ao quarto dos pais de JC) o documentarista chega a conclusão que JC é genial - enquanto o câmera considera o rapaz completamente biruta. No fim das contas essa despretensiosa comédia francesa consegue ser bastante divertida sem mostrar a redenção de sua celebridade inventada (sem perder a chance de alfinetar por dentro a pompa que ainda enxergam no cinema francês). Obviamente que com tanta genialidade, o filme não poderia deixar Jean Luc Godard de fora (no caso ele "aparece" enquanto sobe os créditos comentando suas impressões sobre tudo, inclusive Shrek 2!! A brincadeira rendeu o nome do filme no mercado internacional: Play it  Like Godard. 

JC Comme Jésus Christ (França/Bélgica - 2011) de Jonathan Zaccaï com Vincent Lacoste, Elsa Zylbertein, Kad Merad,  e Aure Atika. ☻☻☻

DVD: Roman Polanski - Uma Vida em Filmes

Adrien Brody e Polanski em O Pianista: o filme favorito do diretor.

Não resta dúvidas de que Roman Polanski é um dos maiores cineastas do século XX. Também não resta dúvida de que é um dos que possui a vida mais marcada por tragédias e polêmicas. Ainda menino, sobreviveu ao holocausto no gueto de Cracóvia, presenciando a morte de amigos e da própria mãe. Com a vida reconstruída e a carreira consolidada em Hollywood, a esposa grávida Sharon Tate foi assassinada pelo lunático Charles Manson e seu bando em 1969. Não bastasse essas tristezas, ele foi acusado de seduzir uma garota de quinze anos numa festa, sendo preso em 1977 num processo que até hoje lhe persegue. Esses são alguns dos assuntos abordados neste documentário idealizado pelo amigo Andrew Braunsberg, filmado na casa do cineasta em Gstaad, na Suíça. Desde o início fica claro que Andrew é amigo de longa data de Roman, é essa intimidade que diferencia o documentário, em formato de entrevista, de um talk show televisivo. Diante da câmera, Polanski relembra as dificuldades vividas durante a Segunda Guerra Mundial, as dores das perdas e momento marcantes como o reencontro com o pai. Andrew explora bastante esse passado doloroso do diretor (talvez até demais), mas consegue estabelecer relações interessantíssimas entre esse período com o filme que muitos consideram a obra-prima do cineasta: O Pianista (2002), filme pelo qual o cineasta recebeu o Oscar de direção em 2003. Cenas como a que o pai do personagem é agredido ou o momento em que Adrien Brody tenta abrir uma lata de picles são inspiradas em vivências do próprio diretor. O filme ressalta ainda mais toda a dor que o diretor sentiu durante aquele período sobreposta na história do pianista Wladyslaw Spilszman. O diretor ainda comenta o início de sua carreira, quando sua estreia com A Faca na Água (1962) foi perseguido pelos sensores e quando filmado só encontrou prestígio quando lançado no mercado internacional (sendo até indicado ao Oscar de filme estrangeiro). É curioso ainda as lembranças de suas participações como ator em alguns filmes (desde a adolescência), sua rejeição ao sucesso Repulsa ao Sexo (1965) estrelado por Catherine Deneuve. Os fãs ainda vão gostar de vê-lo ao lado das equipes de seus filmes (inclusive de O Deus de Carnificina/2010, filme em que trabalhava quando o documentário foi realizado). Apesar de retratar sua felicidade atual ao lado de Emmanuelle Seigner,  o filme se rende mesmo aos acontecimentos obscuros na vida do diretor. Sobre a morte de Sharon Tate fica claro que o diretor ainda não digeriu a perda tão traumática. Sobre a acusação de pedofilia (que rende a prisão do cineasta na Suíça quando ele viajava para receber um prêmio), o filme mostra um trecho da entrevista com a garota-já-crescida que conta por que considera que a mídia e a justiça prejudicaram mais sua vida do que a noite que esteve ao lado do cineasta. Sem firulas, mas com cenas de arquivo dos longas mais relevantes da carreira do cineasta, o filme consegue ser eficaz em sua simplicidade e nos fazer admirar ainda mais o talento que surgiu de uma trajetória tão conturbada. 

Roman Polanski: Uma Vida em Filmes (Roman Polanski: A Film Memoir/Reino Unido; Itália; Alemanha -2011) de Laurent Bouzereau com Andrew Braunsberg e Roman Polanski. ☻☻☻