sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

PL►Y: Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Tony e Liu: recorte e colagem chinês Made in Hollywood. 

Confesso que demorei uma eternidade para escrever sobre este filme da Marvel por ter enfrentado um verdadeiro desafio de ficar acordado durante as vezes em que tentava assistir. É preciso dizer que a partir de certo ponto eu até fiquei interessado nos rumos na história, mas, o motivo sonífero da produção sempre estava presente. Calma, eu explico. Quando a Marvel anunciou que em sua nova fase eles adaptariam o personagem Shang Chi para o seu universo cinematográfico, muita gente ficou surpresa com os planos para um personagem que não vive o auge de sua popularidade faz tempo. Criado em 1972 para aproveitar o sucesso da série televisiva King Fu, Shang Chi teve uma HQ só para ele até 1983, depois se tornou coadjuvante de histórias estreladas pelo Punho de Ferro, Cavaleiro da Lua e até dos X-Men. Enquanto a fase pós-Ultimato vai ganhando forma, surgiu o filme de origem do personagem em tempos de pandemia (e de olho no vasto mercado oriental). A história é bem simples: Shang Chi (Simu Liu) é um jovem chinês que saiu de seu país e foi viver nos Estados Unidos sossegado, até que um grupo de personagens misteriosos aparecem para que seu passado seja descoberto. Afinal, ele é filho de Wenwu (Tony Leung), um guerreiro imortal que o treinou desde pequeno para ser seu sucessor. Este seria o rumo natural das coisas se Shang não houvesse descoberto que seu pai está longe der ser a pessoa nobre que ele imaginava. Eis que o rapaz voltará para a China com sua melhor amiga (Awkwafina) e sua complicada história familiar começa a tomar conta do roteiro. Além do passado de sua mãe, ele reencontra  a irmã rancorosa e até uma tia (que vive num lugar repleto de magia). Ah, o filme também tem lutas super elaboradas em ônibus, ringues da dark web, em andaimes de um prédio, além de guerra com dragões ameaçadores e tudo mais que os roteiristas  Dave Callaham e Destin Daniel Cretton (que também assina a direção) assistiram em filmes de ação chineses nas últimas décadas. São tantas referências já assistidas em tantos filmes (de O Tigre e o Dragão/2000 até os sucessos de Jackie Chan) que achei difícil me envolver com tudo o que estava acontecendo. É verdade que tem efeitos especiais esmerados (mas que por vezes deixam claro sua artificialidade) e, talvez para se equilibrar com o plot que se leva a sério demais, o filme resolveu fazer  troça com alguns de seus próprios elementos com as atuações de Awkwafina e Ben Kingsley (que retoma aqui o criticado Mandarim para passa-lo a limpo). Mas nem tudo é postiço, Simu Liu consegue injetar carisma ao seu personagem parrudo e bom moço, mas quem rouba a cena mesmo é o ótimo Tony Leung (astro de vários filmes de Wong Kar-Wai) que desvia seu personagem do arquétipo de vilão tradicional (especialmente por ter uma pendenga familiar no meio do caminho). Sobre os Dez Anéis, vale dizer que ele compõem parte do belo visual do filme, mas no fim da contas, com todo seu recorte e colagem, Shang Chi não me deixou empolgado. 

Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang Chi and The Legend of the Ten Rings/EUA-2021) de  Destin Daniel Cretton com Simu Liu, Tony Leung, Awkwafina, Fala Chen, Michelle Yeoh, Meng'er Zhang, Ben Kingley e Florian Monteanu. ☻☻

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

4EVER: Elza Soares

23 de junho de 1930 ✰ 20  de janeiro de 2022

Nascida no Rio de Janeiro, Elza Gomes da Conceição teve uma uma infância pobre, ajudava a mãe nos serviços domésticos, mas gostava de brincar com os meninos na rua. A vida de Elza não foi fácil, o casamento arranjado quando ainda era adolescente e a vivência ao lado dos filhos antes dos vinte anos sempre lhe garantiu histórias sofridas. Os trabalhos lhe rendiam pouco dinheiro alimentavam seu sonho de ser cantora, bastou se apresentar no programa de rádio apresentado por Ary Barroso para que a voz peculiar chamasse atenção. Em 1960 o sonho de trabalhar somente com música se realizou. Anos depois seu relacionamento com o jogador Garrincha chamava atenção da mídia (e o relacionamento entre os dois virou até filme, Estrela Solitária/2003, em que a cantora foi vivida por Taís Araújo). Elza lançou mais de trinta álbuns ao longo de sua carreira, foi eleita em 1999 pela Rádio BBC de Londres o título de cantora brasileira do milênio. Prestes a completar 70 anos sua carreira ganhou novo fôlego com o CD Trajetória (1997) e com A Mulher do Fim do Mundo (2015), Elza consolidou de vez sua imagem de ícone para uma nova geração de fãs. A atriz faleceu em decorrência de causas naturais em sua residência. 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

4EVER: Gaspard Ulliel

 
25 de novembro de 1984 ✰ 19 de janeiro de 2022

Gaspard Thomas Ulliel nasceu no conforto do subúrbio parisiense, filho de uma produtora e um estilista. Embora tenha estudado cinema na Universidade de Saint Denis, seu gosto pela atuação surgiu quando ainda estava na escola, quando começou a carreira em várias produções para a televisão francesa nos anos 1990 e uma cicatriz no rosto em decorrência de um arranhão de cachorro aos seis anos de idade lhe conferiu um sorriso bastante instigante. Seu primeiro longa-metragem foi o sucesso O Pacto dos Lobos (2001), mas ele começou a se tornar famoso após Eterno Amor/2004 de Jean Pierre Jeunet, que lhe rendeu o César de ator revelação. A fama mundial veio quando encarnou um jovem Hannibal Lecter em A Origem do Mal (2007), trabalho que dividiu opiniões, principalmente pela ausência de semelhança com Anthony Hopkins e um péssimo roteiro. No entanto, isso não impediu que Ulliel acumulasse prestígio em sua carreira, sendo indicado outras quatro vezes ao prêmio César, uma delas por seu trabalho em Saint Laurent/2014 (e perdeu para Pierre Niney que interpretou o famoso estilista em outro filme no mesmo ano) e  foi premiado pelo trabalho intimista em Apenas o Fim do Mundo/2016 do canadense Xavier Dolan. Ulliel em breve aparecerá na série da Marvel,  Cavaleiro da Lua e no filme Plus que Jamais que deve estrear ainda esse ano. O ator faleceu em decorrência de um grave acidente de esqui. 

PL►Y: The House

Um: a origem. 

Em cartaz na Netflix desde a semana passada, a animação The House é um daqueles filmes preciosos que podem ficar perdidos no vasto catálogo da gigante do streaming. Em se tratando dos tempos em que só se falam de continuações entre filmes que disputam uma vaga no próximo Oscar a situação desta curiosa produção fica ainda mais arriscada. Feito em stop motion (aquela técnica feita com bonecos em que os movimentos são captados quadro a quadro e demora uma eternidade para se fazer um longa de hora e meia de duração). O filme é composto de três histórias em tom de contos em torno de um casarão. Não espere muita ligação entre as três histórias (embora sejam todas escritas pela também produtora Enda Walsh), embora, em todas elas a casa sirva mais do que ambientação não e se torne um personagem importante em cada uma das tramas - ao lado dos fofos bonecos que trazem uma expressividade melancólica para as ideias que aparecem aqui. A primeira história (dirigida por Emma De Swaef e Marc James Roels)  conta a origem do casarão, no século XIX, vinculada à uma família que estava cansada de ser esnobada pelos parentes e vê a oportunidade de mudarem de vida quando um misterioso empreiteiro os convida a morarem em uma casa  muito maior e luxuosa. A única condição para ganharem a casa de presente é deixar que ela seja construída no terreno do qual são proprietários. Obviamente que quando a esmola é demais o santo desconfia e as crianças começam a perceber que existe algo de estranho em toda aquela história, mas o preço da ambição de seus pais pode ser bastante alto. A primeira história é a que mais flerta com o terror e o suspense, numa cadência perfeita que bebe nos clássicos do gênero (em que confiar na pessoa errada pode ser mortal) e marca o tom de surpresa que se torna uma constante da produção. Já a segunda história é protagonizada por um simpático ratinho (com voz de Jarvis Cocker, vocalista do Pulp) que resolveu reformar o casarão para vender e ter algum lucro.

Dois: a ruína de um rato. 

Aquele é o projeto da vida dele e, embora a narrativa (dirigida agora por Niki Lindroth von Bahr) traz alguns elementos da primeira história, como um personagem ambicioso confiando nas pessoas erradas, só que embora aos poucos se torne uma trama angustiante, ela flerta o tempo inteiro com um tom mais cômico, auxiliado principalmente pelo uso dos ratinhos para contar a história em tom bastante metafórico. Se na primeira história o uso de figuras humanas deixava o surrealismo ganhar corpo aos poucos, nesta segunda trama o tom é de fábula - o que não evita que o simpático protagonista caminhe aos poucos para ruína de forma desamparada e um tanto atrapalhada. O desfecho, consegue ser ainda mais impactante que o da primeira história e deixa claro que estamos diante de um filme que gosta de enxergar fora da caixinha na condução de seus enredos, o que pode provocar grande estranhamento na plateia que ainda confunde animação como "filme para criança" e não como uma forma de diretores explorarem histórias sem as restrições do live action.  A qualidade técnica fica ainda mais visível em cada detalhe nesta segunda história, seja na estrutura da casa ou dos inúmeros roedores que compõem a trama. Na terceira história saem de cena os ratos e entram simpáticos gatinhos morando no casarão, que agora, em um futuro não identificado, tenta manter-se de pé diante de um mundo debaixo d'água. Agora a dona da casa, chamada Rosa, tenta reformar o casarão decadente enquanto hospeda outros felinos que lhe fazem companhia enquanto atrasam o aluguel. Depois de duas tramas marcadamente pessimistas, esta terceira e última tenta ser diferente e capricha no delinear dos personagens, que apesar dos problemas de um mundo em naufrágio, tentam manter uma visão positiva diante do que os rodeia. No entanto, o contraste deste tom fica por conta de Rosa (voz de Susan Wokoma) que fica desesperada com o rumo dos acontecimentos inevitáveis em torno de sua propriedade. Quando a plateia espera mais um desfecho tristonho, a diretora Paloma Baeza opta pelo viés da poesia e rende um belo momento de partir em busca de novos caminhos. Original em seus simbolismos e metáforas, The House é uma beleza de assistir e sentir, provando que entre a fofura e o estranhamento existe muito mais do que podemos imaginar.  

Três: navegar é preciso. 
The House (EUA - Reino Unido /2022) de Emma De Swaef, Marc James Roels, Niki Lindroth von Bahr e Paloma Baeza. Com vozes de Mia Goth, Matthew Goode, Jarvis Cocker, Susan Wokoma, Helena Bonhan Carter, Paul Kaye, Will Sharpe, Miranda Richardson e David Holt. ☻☻☻☻

domingo, 16 de janeiro de 2022

4EVER: Françoise Forton

08 de julho de 1957  ✰ 16 de janeiro de 2022

Nascida no Rio de Janeiro, filha de um francês e uma brasileira, Françoise iniciou a carreira de atriz em uma participação especial na novela A Última Valsa (1969) aos doze anos de idade. Alguns anos depois, participou da primeira versão de A Grande Família interpretando a namorada do Tuco no ano de 1973, mas ganhou fama nacional quando fez a personagem rebelde de Fogo Sobre a Terra (1974). Discreta sobre sua vida pessoa, a atriz participou de várias  novelas importantes ao longo da carreira, entre elas foi a miss de Estúpido Cupido (1976), a mulher traída em Tieta (1989), a vilã de Explode Coração (1995),  a emergente Meg em Por Amor (1997) e atualmente pode ser vista na reprise da novela O Clone (2001) como a cientista Simone. Ao longo da carreira, a atriz também realizou várias peças de teatro e nove filmes, entre eles Jardim de Alah (1988), Manobra Radical (1991) e Coração de Cowboy (2018). A atriz faleceu em decorrência de um câncer de colo de útero. 

#FDS Rumo ao Oscar: King Richard

Richard (Will Smith) e sua família: métodos controversos. 

Tão logo começaram as apostas para o Oscar 2022, eu afirmei que sentia um cheirinho de Oscar para Will Smith na próxima cerimonia. Afinal, o ator é um dos mais populares de Hollywood, já rendeu muito dinheiro para os estúdios e, caso seja indicado, este será seu terceiro reconhecimento junto à Academia, mas que até agora nunca lhe rendeu uma estatueta. Faz um tempinho que o astro já percebeu que figuras reais são o seu ponto forte quando se trata de cair no radar da Academia e ao produzir este filme sobre a importância do pai, Richard Williams, na carreira das tenistas Venus e Serena Williams, o ator acertou em cheio. A ideia do patriarca torná-las mais do que atletas, mas verdadeiras estrelas do esporte ocorreu quando ele assistia o French Open no final dos anos 1970 e traçou um plano detalhado para que duas de suas meninas se tornassem verdadeiras potências do tênis. O mais interessante é que as pessoas que esperam um paizão convencional e amoroso irá se surpreender com a pessoa que irá encontrar por trás do sucesso da dupla. Sim, Richard é amoroso, mas adepto de métodos pouco convencionais para que suas filhas aprendam valores que lhe são caros, ao ponto de deixá-las em uma loja e ir embora sem maiores explicações ou fazê-las ver filmes até que respondam perguntas sobre ele da forma que ele deseja. Se existe carinho e obstinação nesta história existe, também, um pouco de tirania na forma como lida não apenas com a família, mas também com a carreira das filhas (pelo menos no início como o filme apresenta), afinal, a forma como ele lida com os treinadores das filhas é contra a exploração que elas possam vir a sofrer, mas também tem doses consideráveis rabugice. No entanto, Will Smith consegue conciliar estas camadas quase antagônicas de seu personagem o tornando bastante coerente, especialmente quando relata fatos do seu passado que foram marcantes na construção de sua personalidade. Sorte das filhas que contam com uma mãe do porte de Brandy Williams (Aunjanue Ellis) para, de vez em quando, chamar Richard de volta à realidade e fazê-lo ver os sentimentos de quem está ao seu redor. Só pela história, além das performances de Smith e Ellis (ambos cotados para os prêmios da temporada), o filme já merecia atenção, mas conta ainda com as talentosas Saniyya Sidney e Demi Singleton na pele (respectivamente) de Venus e Serena adolescentes e (mais do que) convincentes quando treinam e pisam nas quadras. Embora o diretor Reinaldo Marcus Green pudesse ter optado por uma narrativa mais enxuta (manter o ritmo por quase duas horas e meia é uma tarefa difícil), ele consegue contornar este problema com o bom trabalho junto ao elenco (que ainda conta com Tony Goldwyn e Joe Bernthal como os treinadores das meninas) e oscilações entre as tensões que a família vivencia, seja pela realidade violenta do bairro, as primeiras experiências como esportistas ou nas pendengas familiares mesmo. Particularmente acho o desfecho do filme muito sem graça, o que acaba diminuindo a voltagem do longa até que subam os créditos ao som da canção tema de Beyoncé e arquivos da carreira das tenistas. Seja como for, ao viver um personagem tão cheio de camadas (e com muitas outras que acabaram ficando de fora do texto final do roteirista Zach Bailyn - como os filhos fora do casamento), Will Smith tem sua grande chance de levar para casa seu primeiro Oscar no dia 27 de março. Depois de uma temporada nos cinemas brasileiros, o filme está disponível no HBOMax.

King Richard: Criando Campeãs (King Richard/EUA-2021) de Reinaldo Marcus Green com Will Smith, Saniyya Sidney, Demi Singleton, Aunjanue Ellis, Joe Bernthal e Tony Goldwyn. ☻☻☻

sábado, 15 de janeiro de 2022

#FDS Rumo ao Oscar: No Ritmo do Coração

 
A Família Rossi: diversão para toda a família. 

Exibido em Festivais no início do ano passado e lançado nos cinemas em agosto, o americano CODA é o  tipo de filme discreto de pequeno porte que aos poucos ganha fãs fervorosos que (chegada a temporada de prêmios alguns meses depois) seguem na torcida para que o filme tenha seu valor reconhecido. Lembro que quando o filme chegou aos cinemas muita gente apontou que era uma refilmagem do filme francês A Família Bélier (2014), mas na verdade trata-se de uma versão, já que faz alterações relevantes na história ao levá-la para os Estados Unidos. Torna-se assim um novo filme e não apenas aquela versão sem alma feita para os sobrinhos do Tio Sam que não curtem legendas. O longa conta a história de Ruby (Emilia Jones), uma adolescente filha de surdos que gosta de música e ajuda seu pai (Troy Kotsur) e o irmão (Daniel Durant) no trabalho no barco de pesca. Aparentemente está tudo bem com a rotina de Ruby, já que ela possui plena consciência de sua importância em servir de intérprete para sua família no contato com um mundo dominado pela sonoridade que lhes escapa. A situação começa a mudar quando Ruby se inscreve nas aulas de música e o professor (Eugenio Derbez) percebe que a garota tem voz e talento para investir numa formação em música. No entanto, a constante dificuldade financeira de sua família a faz ponderar entre o que ela deseja e o que ela precisa fazer por eles. É preciso destacar que Ruby teve um caminho complicado quando chegou na escola, já que sua forma de se comunicar era semelhante à de sua família e gerou muitos comentários maldosos entre seus colegas de classe e, por outro lado, o filme provoca identificação da plateia ao abordar aquele período decisivo da adolescência às portas da vida adulta em que é preciso fazer escolhas sobre o seu futuro. O filme  ganha pontos ao retratar a rotina de uma casa de surdos e sua relação com o som, a linguagem de sinais usada de forma errada por leigos e outros detalhes... mas  o diretor e roteirista Sian Heder faz um filme fácil de assistir, leve e redondinho com personagens carismáticos e um tom de filme familiar que quase não se vê mais. Com fotografia outonal e trilha sonora agradável, o filme foge de parecer denso ou panfletário. No Ritmo do Coração é um filme que tem como maior ousadia a  sua capacidade de inclusão ao ter um elenco principal majoritariamente de surdos e se ele traz de volta a oscarizada Marlee Matlin (Oscar de melhor atriz por Os Filhos do Silêncio/1986) para os holofotes, apresenta também ao grande público o talento de Troy Kotsur (cotado na categoria de ator coadjuvante da temporada) que tem os melhores momentos ao lado de Emilia Jones. Feito para emocionar (e cair muito bem em uma futura Sessão da Tarde), No Ritmo do Coração assume o posto de produção independente querida da temporada e pode surpreender ao aparecer em mais categorias do Oscar do que qualquer envolvido teria imaginado. Os fãs agradecem. 

No Ritmo do Coração (CODA/EUA-2021) de Sian Heder com Emilia Jones, Marlee Matlin, Troy Kotsur, Daniel Durant, Eugenio Derbez e Ferdia Walsh Peelo. ☻☻☻

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

#FDS Rumo ao Oscar: Bar Doce Lar

 
Ben e Tye: a melhor relação do filme. 

Começando o ano em meio à ressaca de janeiro, o que mais se fala sobre cinema são as apostas para o Oscar que se aproxima (os indicados serão divulgados dia 08 de fevereiro) e vários filmes que disputam uma vaga na disputa da estatueta dourada já estão disponíveis em serviços de streaming no Brasil. Neste #FimDeSemana irei comentar três longas que já aparecem nas primeiras premiações do ano e que devem cair nas graças da Academia em breve. O primeiro deles é o novo filme dirigido por George Clooney, que após sua parceira com a Netflix em O Céu da Meia-Noite (2020) agora aparece no Prime Video com The Tender Bar, filme que apesar da expectativa ganhou pouco mais do que a simpatia da crítica com sua adaptação do livro com traços biográficos de J.R. Moehringer. O filme começa com o menino J.R. (Daniel Ranieri) ao lado da mãe (Lily Rabe) morando com os avós e o tio (Ben Affleck). Para JR o pai não é mais do que uma voz que ele escuta no rádio (e uma promessa de proximidade que nunca se concretiza). Se a vida do menino poderia ser pura melancolia, ele tem uma família afetuosa que serve para alegrar seus dias, com destaque para um tio que cumpre muito bem as vezes de figura paterna em seu cotidiano. Tio Charlie administra o bar que dá título ao filme, que sob o nome de Dickens abriga mais do que bebidas, mas livros variados (que sempre são indicados para a leitura do sobrinho). A relação entre Charlie e J.R. é a mais calorosa do filme e constrói uma energia irresistível sempre que surge. Por seu trabalho como tio Charlie, Ben Affleck  aparece em vários prêmios do ano na disputa de ator coadjuvante e se ficar de fora no Oscar será de fato uma injustiça, já que aqui o ator apresenta seu trabalho mais leve e afetivo. Vale lembrar que Affleck tem um Oscar na estante pelo roteiro de Gênio Indomável (1997) e outra como produtor de Argo (2012), seu Oscar de Melhor File que não lhe rendeu indicação ao Oscar de direção (ou de ator). Affleck nunca foi indicado ao prêmio por uma interpretação (e até seu irmão Casey tem uma estatueta em casa). Ben constrói aqui seu personagem mais de carne e osso, não vive momentos heróicos ou de grandes estripulias, mas consegue compor uma figura imponente que torna palpável a influência que possui sobre o sobrinho (que ao crescer sonha em ser escritor (e passa a ser interpretado por Tye Sheridan, bom ator mas que não tem nenhuma semelhança com o menino que o interpretava na infância). Quando JR chega na adolescência ele vai para a faculdade, arranja um emprego, começa a beber e começa a ter suas primeiras experiências amorosas. Infelizmente conforme o garoto cresce o filme fica menos interessante e o roteiro tem uma dificuldade vergonhosa em encontrar uma linha narrativa para seguir até o desfecho e opta por se agarrar a mais fraca das linhas que tinha à disposição: o romance de JR com Sidney (Brianna Middleton). A relação entre os dois nasce moderninha mas aos poucos demonstra ser tão sem sal que ninguém de fato se importa com o que acontecerá ali (mas o roteiro teima em fingir que aquele é o aspecto mais interessante sobre o crescimento do personagem). Isso faz com que Bar Doce Lar entre no piloto automático e se arraste rumo ao desfecho. Aqui faz muita falta o diretor George Clooney com a empolgação de seus primeiros filmes (Confissões de Uma Mente Perigosa/2002 e Boa Noite e Boa Sorte/2005), o que começa como uma produção charmosa e simpática se torna cada vez mais desanimada, tendo uma fagulha de alguma coisa só quando JR se depara com quem seu pai é na realidade. No fim das contas, fica na lembrança o que o filme poderia ter sido e abandonou no meio do caminho em troca de um romance boboca. 

Bar Doce Lar (The Tender Bar /EUA - 2021) de George Clooney com Tye Sheridan, Lily Rabe, Ben Affleck, Christopher Lloyd, Daniel Ranieri, Briana Middleton, Sondra James e Ron Livingston. ☻☻

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

4EVER: Sidney Poitier

20 de fevereiro de 1927✰ 06 de janeiro de 2022

Sidney Poitier nasceu prematuramente em um veleiro a caminho de Miami. Seus pais eram agricultores da cidade de Cat Islands nas Bahamas e viajavam para vender sua produção. Filho caçula de uma família de sete irmãos e descendente de haitianos, Poitier cresceu nas Bahamas e aos quinze anos foi morar com irmão mais velho em Miami. Sentindo a discriminação na nova cidade decidiu que iria para Nova York. Sidney mentiu a idade para alistar-se no exército durante a Segunda Guerra Mundial e ao deixar o exército resolveu seguir carreira no teatro, mas após várias rejeições conseguiu entrar no elenco de uma peça da Broadway. Seu primeiro trabalho de destaque no cinema no cinema foi como o médico de O Ódio é Cego. Desde então fez um filme após o outro. Em 1958 recebeu sua primeira indicação ao Oscar de ator por Acorrentados e em 1964 se tornou o primeiro ator negro a receber um Oscar da categoria (o seguinte só seria Denzel Washington por Dia de Treinamento em 2002). Astro de clássicos como Ao Mestre com Carinho (1966), No Calor da Noite (1967) e Adivinhe quem Vem Para Jantar (1968), Sidney não atuava desde 2001 após alguns trabalhos para a televisão. Trabalhando ainda como diretor e produtor, Sidney recebeu um Oscar honorário em 2002 por seus serviços prestados ao cinema. Mais do que um astro do cinema, Sidney Poitier se tornou um verdadeiro símbolo do cinema de Hollywood.