sexta-feira, 28 de abril de 2023

#FDS Lars von Trier: Europa

Jean e Barbara: nas ferrovias do passado europeu. 

Confesso que demorei um pouco a fazer esse #FDS com filmes do dinamarquês Lars von Trier (e faz um tempo que a MUBI está com vários filmes dele disponíveis), afinal, o moço está no pódio de diretores tão amados quanto odiados ao redor do mundo. Se por um lado existem cinéfilos que exaltam o valor artístico de seu estilo provocador, por outro existem vários outros que mantém o pé atrás com as intenções do cineasta. Após uma declaração desastrosa no Festival de Cannes em 2011, acusações da conduta abusiva dele com Björk no set de Dançando no Escuro (2000) e denúncias de assédio sexual em sua produtora, a situação do diretor não parou de complicar. Hoje, lidando com o diagnóstico de Parkinson, o diretor está mais recluso e teve como último trabalho o terceiro ano de sua cultuada série  O Reino (2022). Falando em terceiro, muitos críticos costumam separar a carreira de Lars em trilogias (Europeia, Coração de Ouro, Terra de Oportunidade e Da Depressão). Europa fecha o primeiro ciclo da obra do cineasta ao explorar sentimento relativos à identidade do velho continente - a ideia se iniciou com Elemento de Um Crime (1984), teve segmento com Epidemia (1987) antes de chegar ao seu episódio mais elogiado. Neste início de carreira, Lars já demonstrava habilidade em lidar com técnicas cinematográficas diferenciadas, sendo Europa o mais elaborado visualmente comparado aos seus antecessores. Além da  cenografia bem cuidada, preto e branco,  projeções e sobreposições de imagens, ele tb cita referências que vão de Fritz Lang a Hitchcock, alcançando um resultado visualmente tão artificial quanto interessante. Tanto capricho lhe valeu o grande prêmio do júri no festival de Cannes e prestígio mundial. Aqui ele já conseguia atrair nomes famosos do cinema europeu para sua produção e o orçamento também foi maior que em suas obras anteriores (reza a lenda que só um estúdio beira da falência aceitou o risco de bancar a ideia do diretor). Ambientado log depois da Segunda Guerra Mundial, o filme conta a história de um jovem americano chamado Leopold (o então muso francês Jean Marc-Barr) cujo tio rabugento (Ernst-Hugo Järegård) lhe arranja o emprego em uma ferrovia na Alemanha, a Zentropa. O tio é um chato, o trabalho é árduo, mas ele tem bom coração e se apaixona pela herdeira da ferrovia, Katharina (Barbara Sokowa). O que poderia ser apenas uma história de amor se torna um intrincado jogo de segredos, espionagem e atentados que revelam que as feridas do passado recente ainda não estavam cicatrizadas. O pano de fundo histórico se torna fundamental para que o roteiro explore a construção de poder e fortuna em torno da ferrovia e sua participação na Guerra e no Holocausto. Lars von Trier brinca com a linguagem cinematográfica a todo instante, ora soando nostálgico aos filmes antigos, ora soando como um pastiche dos clássicos, mas sempre mantendo o tom inquieto e provocador quanto à Europa e seus signos. Com relação ao elenco, Europa  proporciona a Jean Marc-Barr seu melhor trabalho como ator, o que não é pouco se pensarmos no seu arquétipo de bom moço a certa altura não sabe mais qual o melhor caminho a seguir. Ele traz muito das características das protagonistas femininas que aparecem posteriormente nas obras do diretor (especialmente na trilogia seguinte, a "Coração de Ouro" formada por Ondas do Destino/1996, Os Idiotas/1998 e Dançando no Escuro/2000). Ainda com todo o virtuosismo autoral, Europa é considerado o filme mais acessível do diretor. 

Europa (Zentropa/ Dinamarca - França - Alemanha - Suíça / 1991) de Lars von Trier com Jean Marc-Barr, Barbara Sukowa, Udo Kier, Ernst-Hugo Järegård, Jørgen Reenberg, Max Von Sydow, Eddie Constantine e Erik Mørk. ☻☻☻☻

quinta-feira, 27 de abril de 2023

PL►Y: Alpes

 
Angeliki: altruísmo ou problema psicológico?

Yorgos Lanthimos apareceu em escala mundial com  Dente Canino (2009) que fez sucesso em festivais e ganhou uma surpreendente indicação ao Oscar de filme estrangeiro (entrando para a história como o um dos filmes mais estranhos a concorrerem na categoria). Dois anos depois, Lanthimos lançou Alpes que obteve recepção mais discreta, mas que agrega elementos um tanto diferentes do anterior. Se a cena de abertura evoca com Carmina Burana a tragédia de seu antecessor, existe um contraste com a leveza da ginasta (Ariane Labed) que se apresenta ao som daquela música. Ao final do treino ela se volta ao treinador e diz que gostaria de se apresentar ao som de algo mais pop e a severidade do treinador é apresentada logo em seguida. Este é o ponto inicial para conhecermos um grupo que realiza o serviço de substituir pessoas falecidas para aqueles que amargam o luto. O líder do grupo o denomina de Alpes em alusão aos alpes europeus e cada um dos integrantes passa a usar como codinome o nome de uma montanha. Os membros do grupo aprendem a se comportar como os falecidos, a se vestir como eles, falar como eles, ajeitar o cabelo feito eles, incorporando até mesmo ações realizadas pelos falecidos. Quem recebe mais destaque na história é uma enfermeira (Angeliki Papoulia), que, digamos, assume "vários trabalhos" ao longo do filme, ao ponto de quebrar regras do grupo ao assumir a vida de uma jovem tenista falecida recentemente. Aos poucos, o filme demonstra estar menos interessado na dor da perda e mais na confusão identitária vivida pela enfermeira. Em determinado momento nem ela ou o espectador saberá identificar o que faz parte da vida real ou o que é encenação. Um pouco deste efeito também é sentido no arco envolvendo a ginasta que aparece no início, que deixa embaçado se sua relação com o treinador é real ou se ali alguém está substituindo alguém, ou quando recebe uma visita inesperada e não sabe muito bem como reagir. Neste ponto notamos como não sabemos nada do grupo. Yorgos constrói aqui mais uma história estranha do seu cinema absurdista, mais uma vez ele borra os limites entre drama e comédia em uma narrativa com atuações comedidas, ritmo lento e tom seco. O público que não está acostumado ao estilo do cineasta estranhará, mas os fãs consideram um deleite! Angeliki (que também atuou em Dente Canino) merece destaque no elenco pelo trabalho sem amarras em um personagem complicado que desaparece aos poucos nas interações que realiza. Em sua personagem o que parece ser altruísmo se revela cada vez mais um transtorno psicológico. Sobre a direção, ainda que Yorgos demonstre rigidez na condução da narrativa,  em determinados momentos, ele transparece mais leveza e um humor mais descarado (como a cena de dança destrambelhada perto do final) afim de acentuar os contrastes da narrativa e seu tom de crítica à uma sociedade de relações em crise. Embora seja considerado um filme menor em sua carreira, Alpes apresenta um autor que começava a lapidar seu estilo ímpar. 

Alpes (Alpeis / Grécia - 2011) de Yorgos Lanthimos com Angeliki Papoulia, Aris Servetalis, Johnny Vekris, Ariane Labed e Stavros Psyllakis. ☻☻☻

PL►Y: Era Uma Vez Um Gênio

 
Tilda e Idris: amor pelas narrativas. 

George Miller é conhecido principalmente pelo seu trabalho em Mad Max: Estrada da Fúria (2015), mas seu escopo cinematográfico é bem mais vasto. Ele é responsável também pelo irresistível As Bruxas de Eastwick (1987), pelo drama competente O Óleo de Lorenzo (1992), pela indicação ao Oscar do porquinho mais querido do cinema (Babe/1995) e tem um Oscar na estante pela animação Happy Feet (2006). Pensando no seu currículo diferenciado é até fácil entender o que lhe atraiu no conto de A.S. Byatt. De início o filme parece que irá contar a história da pesquisadora Alithea (Tilda Swinton) que é narratologista e é convidada para um congresso em que apresenta paralelos entre histórias milenares e os super-heróis das histórias em quadrinhos. No entanto, o tom científico não impede que ela suspeite que sua mente está lhe pregando peças, de forma que ela veja criaturas fantásticas interagindo com ela. Ainda assim, quando ela se depara com uma garrafa q aprisiona um gênio (Idris Elba), fica difícil o espectador imaginar que ela está delirando. Grato por tira-lo daquela prisão, o gênio lhe oferece os tradicionais três desejos, mas para ela, qualquer pedido que fuja da lógica de sua vida racional é um sinal de problemas. Porém, enquanto ela não pedir os três desejos ele está aprisionado à ela. Começa então uma longa conversa em que o gênio tenta convencê-la a fazer os pedidos. Começa então a contar mais de três mil anos de história envolvendo personagens verídicos e a forma como esteve presente na vida deles. Ver a história pela ótica do gênio torna o filme bastante atraente, enriquecido ainda mais pelas ambientações caprichadas pela direção de arte, figurinos e maquiagem. O uso de cores conjugado com a fotografia alcança um resultado deslumbrante que torna o apelo visual do filme seu ponto mais forte Nota-se que por boa parte da projeção, Tilda e Idris são participações mais do que especiais na arte de Miller construir sua narrativa sobre contação de histórias. Não por acaso, nos lembra a capacidade que o cinema tem de narrar através de palavras e imagens para atrair a atenção do espectador. Quando o filme chega em sua terceira parte, ele inverte um pouco os papéis, colocando o gênio no mundo real, com suas cores e rotinas menos vibrantes, comprometendo a sobrevivência da própria fantasia. É nessa parte que o filme perde um pouco de sua força, principalmente por conta do súbito amor de um pelo outro (mas vou atribuir o amor da protagonista ao fato do gênio ser o Idris Elba), mas antes que alguém chame minha atenção, eu entendi que não se trata do amor entre dois personagens, mas o amor da humanidade pela sua imaginação e capacidade de criar narrativas. 

Era uma Vez um Gênio (Three Thousand Years of Longing/ EUA - Austrália) de George Miller com Idris Elba, Tilda Swinton, Nicolas Mouawaud, Lachy Hulme, Aamito Lagum, Anna Adams e Ogulcan Arman Uslu. ☻☻☻

PL►Y: Girl

Polster: bom trabalho envolto a polêmicas. 

Com a estreia de Close (2022) na Mubi, procurei novamente o primeiro filme do cineasta Lukas Dhont na Netflix (e lá estava ele, faz tempo na minha lista de programas a assistir). Girl foi a estreia do diretor belga, que recebeu quatro indicações ao European Film Awards, foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e sua estreia no Festival de Cannes foi mais do que promissora, recebendo três prêmios no festival mais famoso do mundo (um prêmio de atuação para o ator Victor Polster na mostra paralela, a Queer Palm e o Golden Camera para o diretor estreante). Tantos elogios não evitaram algumas polêmicas por colocar um ator cis para viver uma adolescente trans que sonha ser uma grande bailarina no mesmo período em que está prestes a fazer sua cirurgia de adequação sexual. Existe toda uma discussão sobre escalar atores LGBTQIA+ para viver papeis correspondentes no cinema em nome da representatividade, mas o fato de ter um artista cis como protagonista invalida os méritos da obra? Levando a reflexão que o filme proporciona e o bom trabalho de Victor Polster na pele de Lara, considero que o filme merece uma chance (os produtores testaram mais de 500 adolescentes, sem especificação de gênero e somente Victor deu conta de dançar e defender a personagem com a mesma desenvoltura). O filme é baseado em uma história real (e a bailarina no qual o filme se baseia demonstrou bastante satisfação com a obra) e Lukas Dhont já demonstra bastante sensibilidade para contar uma história complicada. Enquanto a família parece lidar bem com a transição de Lara, parece que decisão de viver com o pai (Arieh Worthalter) e o irmão (o pequeno Oliver Bodart) em outra cidade em nome de "uma nova vida" não parece ter o efeito esperado. Não faltam situações constrangedoras na convivência com as colegas de escola e das aulas de ballet. Se existe um esforço descomunal para se tornar bailarina, para Lara a coisa parece se complicar ainda mais por conta de ter que aprender toda uma nova forma diferente de se movimentar da que aprendeu anteriormente em sua antiga identidade. A forma como Lara rejeita os atributos masculinos de sua anatomia são apresentadas várias vezes durante o filme em cenas que ilustram muito bem a sensação de disforia de gênero vivenciada pela protagonista (e tem uma cena junto com algumas meninas que se torna um verdadeiro marco das humilhações que a personagem vivencia). Aos poucos Lara se torna cada vez mais instrospectica, problemas físicos começam a aparecer e comprometem sua cirurgia. Embora o filme tenha uma fotografia quase idílica a maior parte do tempo, Dhont capricha no tom vertiginoso para demonstrar todo esforço da personagem para provar aos outros o que se é. A sensação de inadequação (e cansaço) se intensifica ao ponto que uma ação chocante surja no roteiro. Polêmicas a parte, Girl é uma bela estreia e já demonstra o quanto Lukas Dhont está alinhado com questões pertinentes de seu tempo. 

Girl (Bélgica - Países Baixos / 2018) de Lukas Dhont com Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart, Tijmen Govaerts, Alain Horonez e Magali Elali.  ☻☻☻☻

terça-feira, 25 de abril de 2023

4EVER: Harry Belafonte

1º de março de 1927 ✰ 25 de abril de 2023 

Harold George Bellanfanti Jr. nasceu no Harlem (EUA), filho de mãe jamaicana e pai francês da Martinica, Harry passou a maior parte da infância na Jamaica até mudar-se para Nova York. Belafonte começou a fazer sucesso cantando Calypso, um ritmo caribenho que fez sucesso após a Segunda Guerra Mundial. Seu LP, batizado com o nome do ritmo em 1956, se tornou o primeiro álbum a vender um milhão de cópias nos Estados Unidos. O artista também ficou famoso por seu ativismo, se tornou um nome importante na luta pelos direitos civis dos afro-americanos, se tornando confidente de Martin Luther King e financiador da causa. Por seu envolvimento com política, seu tornou membro do Comitê de Assessoria do Corpo da Paz criado pelo presidente John Kennedy. Em 1954 ele ganhou um Tony pelo seu trabalho na Broadway e em 1960 ganhou um EMMY por seu programa de música na TV. Em meio a tantas atividades, Belafonte também fazia filmes desde o início dos anos 1950. Trabalhou várias vezes com o icônico Robert Altman, fez o clássico Carmen Jones (1954), que tornou Dorothy Dandridge a primeira atriz negra indicada ao Oscar de melhor atriz. Sua última aparição como ator foi em Infiltrado na Klan de Spike Lee (2018). O artista icônico faleceu em decorrência de insuficiência cardíaca. 

domingo, 23 de abril de 2023

PL►Y: Speak no Evil

Sidsel e Morten (de frente) : não confie em estranhos

Vou começar dizendo que Speak no Evil do dinamarquês Christian Tafdrup se tornou fácil um dos filmes mais assustadores que já vi em toda minha vida. Sei que vai ter gente que dirá que não viu nada demais e que só no final que o filme assusta e tal... para esses eu só posso dizer que se não fosse todo o desenvolvimento do filme até o desfecho, provavelmente o final seria bem menos arrepiante. São pouco mais de hora e meia de projeção, mas tudo é desenvolvido com tanto detalhe que se torna uma verdadeira obra-prima do horror. Não do horror vinculado aos corpos que se empilham ao logo da história, mas um horror psicológico que vai crescendo e se torna devastador por tocar em questões que são universais. O filme gira em torno de dois casais que se conhecem de férias na Toscana, na Itália. Os dinamarqueses Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch) são pais da adorável Agnes (Liva Forsberg). Ele está sempre com um sorriso no rosto, ela é vegetariana e a pequena está sempre com o coelho de pelúcia por perto. Se os dinamarqueses são o polimento em forma de família, o casal neerlandês, Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders) é mais atirado e comunicativo, embora o pequeno Abel (Marius Damslev) seja bastante quieto e retraído. Conforme a afinidade cresce, surge o convite para os dinamarqueses passarem um fim de semana na casa dos novos conhecidos. Eles pensam por algum tempo, acham que seria deselegante recusar o convite e, conforme dizem a certa altura, "o que pode dar errado?". Tudo. Conformem vivem na mesma casa por alguns dias, as coisas começam a sair dos trilhos em várias situações de desconforto. De grosserias passando por mentiras e o tratamento dado ao pequeno Abel, os visitantes sentem cada vez mais de que existe algo de muito errado por ali.  Quando o filme começa, pouco mais do que a trilha sonora denota que existe algo de ruim para acontecer. Conforme a trilha se torna menos densa, o espectador já está imerso naquele pesadelo.  Outro detalhe é a fotografia que investe no contraste da coloração idílica nas belas paisagens com o tom sombrio em todas as outras locações, com destaque para o preto e o vermelho. Os quinze minutos finais de Speak no Evil são atordoantes. Me deram uma espécie de convulsão nervosa e depois, fiquei paralisado, esta reação acontece muito por conta de ver as consequências de tudo que foi mostrado até ali, mas também pela busca de uma lógica por trás das atitudes do casal neerlandês (a qual procuro até agora) e algo muito parecido com o que acontece a Bjørn dentro do carro. Quando a trilha se eleva novamente é para dar ao desfecho uma conotação quase religiosa e a noção de punição por seus pecados (que não são muito mais do que escolha de caminhos errados, correto?), afinal, como é dito em um diálogo entre os casais, tudo acontece pq Louise e Bjørn permitiram. Terminando quase num retorno ao seu início, você nunca sentirá tanto rancor de um coelho de pelúcia e ainda irá pensar mil vezes antes de aceitar convites de estranhos. O filme apareceu em várias listas de melhores filmes de terror do ano passado e foi indicado Critics Choice de melhor filme de terror e melhor ator (para Fedja van Huêt). Não por acaso, uma versão Hollywoodiana com James McAvoy já está sendo preparada, mas dificilmente terá o impacto do que vemos aqui. Para quem assistiu ao original, o impacto do desfecho do remake nunca será o mesmo. 

Speak no Evil (Dinamarca - Países Baixos / 2022) de Christian Tafdrup com Morten Burian, Fedja van Huêt, Sidsel Siem Koch, Marius Damslev, Karina Smulders e Liva Forsberg. ☻☻☻☻

PL►Y: Compartimento Número 6

Seidi e Iuriy: rumo ao Polo Norte. 

Laura (Seidi Haarla) é uma estudante de arqueologia finlandesa que passou os últimos tempos na Rússia  ao lado da namorada Irina (Dinara Drukanova), uma professora universitária que vive num grupo bem mais academicista que sua parceira. Laura está prestes a realizar um sonho antigo: ir até o Círculo Polar Ártico para visitar as pinturas rupestres milenares de Murmansk. O problema é que ela terá que ir sozinha, devidamente acompanhada de uma câmera para registrar tudo. Se a ideia de ir desacompanhada já não é muito boa, a coisa piora quando ela conhece seu parceiro de vagão (o compartimento do título), um jovem russo chamado Vadim (Iuriy Burisov), um mineiro que está de mudança em busca de emprego. Os dois não poderiam ser mais diferentes, ela é uma  discreta intelectual, Vadim é um operário desbocado e de modos pouco polidos, que não demora a tentar começar uma conversa com grosserias e ofensas. Fosse uma comédia de Hollywood, os dois beberiam na manjada fonte dos "opostos que se atraem" e se odiariam até descobrirem que são almas gêmeas ao final do filme. Como é um filme finlandês, os dois vão se estranhar no início até que um forte vínculo de amizade se instaure entre os dois e o filme ganhe uma leveza insuspeita em seus momentos iniciais. Obviamente que ambos terão que fazer por onde, Ele terá que maneirar em suas grosserias e apresentar que é capaz de ser um sujeito sensível e divertido, assim como ela terá q baixar a guarda e tentar criar vínculo com aquele sujeito que está por perto. Afinal, paira sobre ambos uma sensação de solidão e insegurança durante a viagem. Se ela não consegue conversar muito com a namorada por telefone ou ter muito o que fazer em cada estação em que o trem para, ele também não tem muito mais o que fazer do que encher a cara sempre que pode. Diante dessa insatisfação mútua durante a viagem, surgirá uma  conexão entre os dois que deixará a jornada de ambos menos melancólica. Compartimento Número 6, que está disponível atualmente no prime Vídeo, foi um dos filmes europeus mais badalados de 2021, ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes2021,  concorreu a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, além de ser indicado ao Bafta, César e Independent Spirit na mesma categoria. O motivo para tantos elogios é o diferencial do filme calcado na dupla principal que trazem um tanto de calor humano às paisagens gélidas que atravessam e, aos poucos, modificam a ideia claustrofóbica construída no início do filme. Não por acaso a personagem principal começa interessada nos registros do passado (as pinturas rupestres) e termina com uma carta calorosa na mão ao desfecho do filme. 

Compartimento Nº 6 (Hytti nro 6 / Finlândia - Rússia - Estônia - Alemanha / 2021) de Juho Kuosmanen com Seidi Haarla, Yuriy Borisov, Dinara Drukarova, Julia Aug e Tomi Alatalo. ☻☻☻

sábado, 22 de abril de 2023

PL►Y: Excluídos

Ashley: o passado bate à sua porta. 

Um amigo indicou que eu assistisse Excluídos, uma produção da Netflix que não lembro de ter visto ser comentada em seu lançamento. Ao final da sessão, tive a certeza que no meio de todo o acervo da gigante do streaming, bons filmes acabam ficando soterrados no marketing destinado a grandes produções com astros famosos. A produção inglesa é um grande acerto ao construir um drama calcado em questões raciais, sabendo construir uma crescente suspeita na personagem principal e a vontade do espectador entender o que está acontecendo na trama. A trama gira em torno de Neve (Ashley Madekwe em um ótimo trabalho), uma mulher casada, com filhos, dona de uma casa confortável e respeitada pelos vizinhos por conta de seu trabalho filantrópico. Ela é casada com Ian (Justin Salinger) e tem dois filhos, Sebastian (Samuel Paul Small) e Mary (Maria Almeida) que estudam na escola na qual a mãe participa da equipe diretiva. Aparentemente tudo é perfeito na vida daquela família, embora ela e seus filhos sejam visivelmente os únicos negros da vizinhança (o que de vez em quando rendem comentários sobre os jovens serem os únicos mestiços da escola). Os problemas começam quando Neve começa a se incomodar quando outras pessoas negras começam a aparecer nas redondezas. De onde vem o temor da personagem? Ao que parece está relacionado com a cena de abertura. Excluídos soa desde o início como uma provocação às origens da personagem, seja pelas perucas que a personagem utiliza para esconder seus cabelos naturais (e que sempre provocam coceira durante o dia), seria pela tonalidade do cabelo da filha que agora prefere penteados afros ou o fato de Sebastian se aproximar cada vez mais do jovem zelador negro da escola (Jorden Myrie). Quando o filme revela o motivo de todo o temor da protagonista, ele retrocede e apresenta outro ponto de vista sobre a vida que a personagem construiu para si. Afinal, ela foi construída a que preço? O preço é o que fica reservado ao ato final em que o drama de suspense parece se inspirar em um filme do austríaco de Michael Haneke e a casa confortável se torna uma espécie de purgatório para toda a sua família. Embora possa provocar risos em alguns momentos pelos exageros (que parecem propositais para gerar risos nervosos na plateia), esta estreia do diretor Nataniel Martello-White é bastante eficiente. Entre o dramático e o sombrio, o final ousado promete dividir opiniões, mas combina com a personagem que busca seu lugar no mundo enquanto foge de si mesma. 

Excluídos (The Strays / Reino Unido - 2023) de Nataniel Martello-White com Ashley Madekwe, Samuel Paul Small, Maria Almeida, Jorden Myrie, Bukky Bakray e Justin Salinger. ☻☻☻


FILMED+: Close

Gustav e Eden: amizade em risco. 

Leo (Eden Dambrine) e Remy (Gustav de Waele) são melhores amigos há tempos. Estão acostumados a brincar na casa um do outro e, na maioria das vezes, Leo costuma dormir na casa de Remy. Os dois estão prestes a estudar em uma nova escola e tanta proximidade começa a gerar comentários sobre a sexualidade de ambos, mais especificamente sobre Leo. É inútil que ele explique que os dois são apenas amigos, as piadinhas e comentários prosseguem, até que Leo resolve se reinventar e se distanciar do melhor amigo. Esse processo doloroso é vivenciado pelos dois meninos com a mesma sutileza com que o diretor Lukas Dhont trabalha todo o filme. Tudo é amparado por palavras não ditas, olhares e silêncios que estão cheios de sentimentos conflitantes (e por isso mesmo, muita gente não vai gostar por imaginar o filme "paradão", como se o interior dos personagens não movimentasse o tempo inteiro). No entanto, em meio a rotina aparentemente simples dos personagens existe um acontecimento que rompe brutalmente a realidade dos amigos. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no Oscar desse ano (e ganhador do Grande Prêmio do júri em Cannes2022), Close surpreendeu o anúncio devido a leitura divisiva (e polêmica) que alguns espectadores podem fazer de sua trama. Ironicamente, o melhor da produção nasce daí, já que são as suas diversas camadas que possibilitam várias leituras sobre a relação entre os amigos. O espectador pode criar suas próprias ponderações sobre Remy e Leo e imaginar o que motiva suas ações no filme, sem apontar se sua opinião está certa ou errada ao final. O fato concreto é que o filme conta uma história sobre a afetividade entre dois meninos que estão na passagem da infância para a idade adulta e o impacto da forma como a sociedade observa as demonstrações de carinho entre duas pessoas do sexo masculino. É preciso destacar o ótimo trabalho do elenco durante todo o filme, especialmente do estreante Eden Dambrine com seus olhos expressivos e Émilie Dequenne, que interpreta a mãe de Remy. Além disso, Dhont consegue criar várias analogias sobre os sentimentos dos personagens, seja na primeira cena em que os amigos se escondem de inimigos, da corrida nos campos  em que a família de Leo trabalha (ressaltados pela magnífica fotografia), o braço quebrado, a plantação marcando a passagem do tempo e a renovação, ou algo que se assemelha a isso enquanto Leo olha para a tela na última cena, que soa como um desafio ao espectador a imaginar o que se passa em sua cabeça. Este é o segundo filme do belga Lukas Dhont (o primeiro, Girl/2018, está em cartaz na Netflix faz tempo) e fico curioso de acompanhar seus próximos passos no cinema. Close já está em cartaz na Mubi e tem lugar garantido em listas de melhores do ano. 

Close (Bélgica/França - 2022) de Lukas Dhont com Eden Dambrine, Gustav de Waele, Émilie Dequenne, Léa Drucker, Kevin Janssens, Igor van Dessell e Marc Weiss. ☻☻☻☻☻