sábado, 15 de junho de 2013

DVD: Martha Marcy May Marlene

Elizabeth e Hawkes: a melhor Olsen de toda a história. 

Não lembro de ter visto este filme ganhar espaço nos cinemas. Depois de assistí-lo em DVD acho que, devido a sua estranheza, acabou indo direto para as locadoras. Desde a exibição em Cannes o filme do novato Sean Durkin foi saudado com elogios, principalmente por exibir os genes mais famosos da família Olsen, que foram todos para Elizabeth. Ela é a irmã caçula daquelas gêmeas (chatinhas) Mary-Kate e Ashley Olsen, curioso é que bastou apenas um filme para que ela fosse considerada a melhor atriz da família e quase fosse indicada ao Oscar! Pode parecer truque de marketing, mas a garota, que tinha vinte anos quando o filme foi realizado é realmente bastante competente. O resultado é fruto das aulas de teatro que obteve na infância e os estudos na Escola de Artes de Nova York. A indicação ao Oscar de Lizzie acabou não aparecendo, mas ela colecionou alguns prêmios da crítica e em festivais de cinema independente. Desde o início vemos que Martha Marcy May Marlene não é o tipo de filme realizado para ser um campeão de bilheteria, mas é extremamente eficaz em sua proposta de gerar tensão ao explorar um tema que parece estar voltando à moda. O filme mistura o passado e o presente de Martha (Elizabeth Olsen), uma adolescente que parece ter atravessado problemas familiares e cujo o único parentesco é com uma irmã recém casada (Sarah Paulson). Martha passa a morar com a irmã depois de algum tempo em meio a uma comunidade que parece hippie, mas que mantinha traços de culto abusivo. Liderados por Patrick (John Hawkes), um grupo de jovens viviam em comunidade, com prática de sexo livre e... treino de tiro e prática de alguns assaltos pela redondezas. Isolados do mundo, os rapazes atendem o telefone sob o nome de Mathew Lewis e as garotas com o nome de Marlene Lewis, o que só indica que o grupo tem coisas sérias a esconder. Esse passado obscuro só conhecemos através dos flashbacks que assombram a jovem enquanto a irmã e o cunhado (Hugh Dancy) tentam descobrir o que se passa na cabeça atormentada da garota. Ao que parece, as coisas vão demorar para entrar nos eixos na mente de Martha, principalmente por que as marcas são mais profundas do que ela mesma imagina. Além das atuações, existem vários outros méritos no filme de Sean Durkin. A maior delas é a tensão que o diretor consegue construir vagarosamente conforme a narrativa mescla os fatos do passado ao presente da personagem. A mistura exala um perigo iminente que culmina no final paranoicamente aberto. A trilha sonora também colabora muito ao criar os tons estranhos da história e a edição Zac Stuart-Pontier merecia um Oscar pela precisão com que corta e costura as percepções da plateia pelos olhos da protagonista. Muita gente compara o culto do filme aquele fatídico de Charles Manson (que vitimou Sharon Tate, esposa de Roman Polanski em 1969) e comparam Martha à personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965) do próprio Polanski. Essas sinistrices só colaboram para deixar o filme ainda mais estranho. Há quem considere que a abordagem psicológica do filme enfraquece um pouco a força da história, eu penso totalmente o oposto. A abordagem sutilmente perturbadora de MMMM é suficiente para deixar a plateia à beira do ataque de nervos por um bom tempo, especialmente pelo que os lobos em pele de cordeiro andam fazendo com uma juventude cada vez mais sem referencias. Depois de ver o filme, vale buscar na internet o curta-metragem Mary Last Seen  feito pelo mesmo diretor em 2010 que conta uma espécie de prévia deste aqui.

Martha Marcy May Marlene (EUA-2011) de Sean Durkin com Elizabeth Olsen, Sarah Poulson, John Hawkes, Hugh Dancy e Brady Corbett.
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terça-feira, 11 de junho de 2013

DVD: We'll take Manhattan

Jean e Bailey: ditando tendências na marra. 

Penso que se We'll Take Manhattan fosse lançado nos cinemas seria um desses cults que podem até fazer bonito em algumas premiações (nem que seja pelo figurino). Produzido para a TV pela BBC, o filme é saboroso de se assistir, graças a linguagem deliciosamente pop impressa pelo  diretor John McCay. Soma-se a isso a química irresistível entre os atores principais, que vivem o fotógrafo David Bailey (Aneurin Barnard) e sua musa Jean Shrimpton (Karen Gillian) e o nascimento do estilo Swinging London. Ambientado no inverno de 1962, o filme retrata a feitura de um dos ensaios que causaram uma revolução na conceituada revista Vogue. Apesar de ambientar sua trama no mundo da moda, o filme está longe de ser deslumbrado sobre esse universo, revelando uma visão bastante crítica sobre um mundo que estava prestes a ser transformado. Conforme indica a introdução do filme, não havia uma cultura jovem fixada até então. Os Beatles e o rock ainda não haviam estourado e a moda era consumida por senhoras endinheiradas e elegantes. Desde a primeira cena vemos que Bailey é uma espécie de rebelde. Cansado das poses gélidas de modelos diante da câmera, ele  se demite de um grande estúdio para trabalhar por conta própria, imprimindo o seu olhar sobre um mundo que era mais pulsante do que o que aparecia nas capas de revista. É até engraçado quando um editor da Vogue o convida para fotografar e antes de aceitar ele pergunta ao jornaleiro se aquela publicação vende. O jornaleiro reponde: "É, rende um dinheirinho". Insatisfeito com o salário e relegado a uma salinha pequena da publicação Bailey parecia esperar  o momento certo de colaborar para uma mudança radical no mundo editorial. Como aliada ele escolhe uma jovem interiorana, de movimentos rudes e rosto sisudo, mas que diante das câmeras é capaz de retratar a energia jovem que estava prestes a explodir naquela geração. Nem ele entende muito bem como consegue convencer a posuda Vogue inglesa revista a levar aquela jovem desconhecida para um ensaio nas ruas de Manhattan. Apesar de David ser casado (o que aparece retratado somente com uma aliança, já que sua esposa nem aparece no filme) é quase inevitável que ele e Jean se tornem amantes. Talvez para não ressaltar os aspectos cinderelianos da história, o romance é mostrado de forma bastante natural e sem maiores polêmicas. O maior problema do casal é ter que lidar com a editora Lady Diana Vreeland (a divertidamente esnobe Frances Barber), enviada para coordenar o ensaio pelos pontos turísticos de Manhattan. Desde o primeiro dia podemos perceber o espírito jovial de Bailey constrastando com a pompa da editora - que ofende o casal várias vezes seguidas. A ideia de Bailey retratar a juventude real e não a ideal (pautada pelo que está posto pelos mais velhos) incomoda Lady Vreeland ao ponto dela beirar o surto. Ainda assim é muito divertido quando Lady dispara falas como "uma mulher de respeito não usa óculos escuros" ou quando Bailey fotografa sua musa através de uma tela de arame, ou emoldurada por faixas de protesto e até avisos sobre a sujeira dos cachorros. O mais interessante é como a história nos faz perceber a formatação do embrião da Vogue como a  que conhecemos hoje, provocativa, moderna e ditando tendências. We'll take Manhattan capricha nos figurinos e na reprodução do histórico ensaio de Bailey e Jean (que se tornaram ícones do mundo fashion) pelas ruas da Big Apple. Retratando o mundo a moda, o filme é uma atraente crônica de como o mundo dá voltas. 

We'll Take Manhattan (Inglaterra/2012) de John McCay com Aneurin Barnard, Karen Gillan, Frances Barber, Allan Corduner e Joseph May. ☻☻☻☻

DVD: A Última Casa da Rua

Elissa e Ryan: amor proibido contra roteiro ruim. 

Jennifer Lawrence precisou de apenas cinco anos desde sua estreia no cinema para se tornar um dos maiores nomes de Hollywood. Aos 16 anos ela estreava em produções para a TV, dois anos depois era premiada em Veneza como a melhor coisa de Vidas que Se Cruzam (2008) de Guillermo Arriaga. Desde então ela não parou mais, veio Inverno da Alma (2010) e sua primeira indicação ao Oscar de atriz. Para o ano seguinte ela tinha pequenas participações em filmes como Um Novo Despertar e Loucamente Apaixonados. Era uma espécie de despedida da vida tranquila de adolescente, seus filmes seguintes marcaram seu currículo com duas franquias milionárias. Encarnou a jovem Mística em X-Men: Primeira Classe (2011) e a vigorosa Katniss em Jogos Vorazes (2012). Ambos os filmes já garantiram trabalho para alguns anos, não satisfeita, a moça interpretou uma jovem maluquete em O Lado Bom da Vida (2012) de David O. Russell, que lhe garantiu o Oscar de atriz e vários outros prêmios na última temporada de ouro. Agora eu me pergunto: Por que raios ela resolveu participar de um filme de terror tão mal ajambrado quanto A Última Casa da Rua? Se houvesse sido lançado depois do prêmio da Academia, ela teria sido considerada mais uma amaldiçoada pelo prêmio. Bastava ver o currículo do roteirista David Loucka (sem trocadilho) para ver que o rapaz não merece muito crédito, afinal, seus filmes mais famosos são os fracassos Eddie (1996) com Whoopi Goldberg e o raquítico A Casa dos Sonhos (2011) com Daniel Craig. É engraçado como este tem muita coisa em comum com A Última Casa da Rua. Pra começar, retratam famílias que tentam recomeçar  avida em outro lugar e se deparam com assassinatos relacionados com a nova moradia. No caso, a residência em que a adolescente Elissa (Lawrence) e a mãe (Elizabeth Shue, mais uma vez se esforçando por nada) fica ao lado de uma casa marcada por uma tragédia familiar. É essa tragédia que marca o início do filme. Nela uma adolescente mata os pais e a trama desvia para a a chegada de Elissa no bairro tempos depois. O começo é até promissor, apesar daquelas bobagens que insistem em colocar nos filmes para dialogar com os adolescentes (paqueras, trilha pop, piadinhas, sorrisos em excesso...), nem precisava, já que o filme desperta o interesse conforme Elissa percebe que debaixo daquele ambiente pacífico do subúrbio se esconde um bocado de intolerância. A intolerância gira em torno do crime ter reduzido o valor imobiliário da vizinhança e do único sobrevivente da família vitimada ainda viver por lá, no caso o tristonho Ryan (Max Thierriot). Enquanto a cidade inventa lendas urbanas sobre o paradeiro da irmã doida de Ryan, Elissa se solidariza com o rapaz que não presenciou os acontecimentos trágicos por cuidar de uma parente doente ao norte do país. Enquanto o filme desenvolve a atração entre Ryan e Elissa, ambientado na tensão crescente da vizinhança, o filme funciona. Nem quando revela um segredo de Ryan logo no início o filme abala sua credibilidade junto à plateia. O problema é quando começamos a desconfiar que o rapaz não é tão bonzinho quanto aparenta e o filme se torna um suspense dos mais rasteiros. De que adianta atuações esforçadas se o texto já perdeu toda a credibilidade? A história se torna, cada vez mais, um pastiche de Psicose (1960). Quando chega ao final, o filme já deixou o espectador aborrecido e com plena vontade de esquecê-lo. No entanto, a pergunta permanece: Por que Jennifer Lawrence se meteu num projeto desses? Talvez a estrela quisesse provar que tem poder suficiente de alavancar a bilheteria até de filme trash. Acredita-se que o filme custou apenas sete milhões de dólares e rendeu mais de trinta milhões só nos EUA. A garota tem poder...

A Última Casa da Rua (House at the end of the Street/EUA-2012) de Mark Tonderai com Jennifer Lawrence, Max Thierrot, Elizabeth Shue e Gil Bellows. ☻

domingo, 9 de junho de 2013

DVD: Twilight Portrait

Marina e seu agressor: amor, estranho amor...

Não é sempre que nos deparamos com um filme russo, mesmo assim quando vemos o filme da diretora Angelina Nikovana temos certeza que é o tipo de obra feita para criar polêmica por onde passa, gerar debates e uma relação de amor e ódio com o espectador. O que esperar de um filme onde a protagonista se apaixona pelo estuprador - e se sujeita a ser agredida sempre que ela declara seu amor por ele? Parece coisa de troglodita? E se eu disser que o roteiro foi escrito pela diretora e atriz principal? Não é fácil descrever as emoções que o filme desperta desde o seu início quando um trio de policiais estupram uma garota de programa que acaba de fazer o serviço para um caminhoneiro. Sabemos que ela não é a primeira e nem será a última vítima do trio e quando a narrativa corta para o rosto insatisfeito de Marina (Olga Dihovichnaya), sabemos como o caminho dos personagens irá se cruzar. Por uma sucessão de erros e escolhas que podem ser atribuídas ao orgulho da personagem ela será violentada e terá a parte obscura de sua personalidade revelada a quem está ao seu redor. Tudo indica que Marina é casada com um homem carinhoso, possui um bom emprego, roupas caras, tem  um emprego respeitado (é assistente social), é inteligente, mas toda essa bolha de perfeição esconde uma espécie de vácuo existencial. Diante do fracasso das instituições que poderiam ajudá-la a fazer justiça (a cena em que conversa com uma policial sobre a violência que sofreu é devastadora pela indiferença com que lidam com a situação). Marina não zela nem pela festa de aniversário surpresa que lhe preparam, não pensando duas vezes em contar os segredos que aqueles rostos sorridentes escondem dos amigos. A bolha perdeu todo o sentido? Provavelmente. Por isso, quando Marina segue um dos seus agressores com uma garrafa quebrada em punho pensamos que estamos diante de uma história trivial de vingança. Pode até ser, mas por uma perspectiva diferente. Depois do tórrido encontro em um elevador, ela e o agressor (Sergei Borisov, que talvez seja o homem mais indiferente de todo o filme) se encontram mais algumas vezes. Ela mente para o marido e passa a viver alguns dias com o amante, demonstrando uma passividade e submissão difíceis de digerir. Porém, ela sempre diz que o ama. Um romance que parece guiar para uma redenção cada vez mais distante. É difícil entender como a personagem parece estar mais confortável naquele ambiente deplorável e sujo do que no ambiente que estava no início do filme. Penso no que as feministas diriam sobre o filme. Lembro das fãs de 50 tons de Cinza toda vez que Marina é agredida  e admiro a coragem de uma diretora fazer um filme que flerta tanto com a misoginia. Talvez, o sucesso do filme em festivais europeus, seja pela cena final, onde até um homem com dificuldades de se relacionar com o amor parece seguí-lo para mais algumas doses. 

Twilight Portrait (Rússia-2011) de Angelina Nikovana com  Olga Dihovichnaya, Sergei Borisov e Sergei Golyudov. ☻☻

DVD: Sons of Norway

Nicolaj e o pai: Não é fácil ter um papai peladão. 

A rebeldia é um traço bastante comum no comportamento dos adolescentes. Não é necessário um conhecimento muito profundo de psicologia para entender que a busca pela construção de uma identidade não dá conta dos conflitos e indagações pessoais. O adolescente costuma ser bastante crítico e ter conflitos constantes com os pais. Isso sem falar na relação do jovem com seu grupo de amigos, que na maioria das vezes indica o que ele deve gostar, como ele deve se comportar, falar, se vestir e até relacionar-se com a família. Eu pensei em tudo isso enquanto assistia o norueguês Sons of Norway, um filme divertido, despretensioso, ainda que tenha alguns elementos que podem causar estranhamento da plateia. A maior graça do filme é acompanharmos um moleque punk que posa de rebelde pela vizinhança, mas precisa aprender a lidar como o apoio geral e irrestrito que o pai dá à sua postura transgressora. Será que ser rebelde sem abalar a figura paterna é tão divertido? Essa poderia ser a principal pergunta do filme, mas o filme tenta ir mais longe, embora nem sempre consiga. O filme começa com um garoto punk (com um alfinete atravessado entre a boca e a bochecha) causando um pequeno atentado ao acertar uma garrafa na cabeça de uma figura ilustre da região. A perseguição começa e conhecemos o início da história do (então) fofo Nicolaj (Asmund Hoeg), filho de pais descolados (e meio ripongos) que vive numa casa onde o natal tem como prato principal a paixão atual do pai: banana. Ambientado no final da década de 1970, a casa de Nicolaj é mostrada como a de uma família feliz e sem recalques, afinal seus pais não ficam constrangidos nem quando são surpreendidos fazendo sexo. Tudo poderia ser mais feliz na vida de Nicolaj se ele não começasse a ter alguns probleminhas com os valentões da escola, principalmente pelo seu corte de cabelo que ressalta a androginia do período pré-adolescente. Com tesoura na mão, Nico corta o cabelo por conta própria e sua mãe percebe uma fagulha de atitude punk naquele rapazinho. Ela o leva a uma loja de disco e ele é apresentado à música de Iggy Pop e os versos de Lust for Life. O garoto parece encontrar o seu caminho, mas um golpe do destino irá mudar as relações daquele lar para sempre. É neste período que ele vai conhecer a zoeira dos Sex Pistols e radicalizar a filosofia punk em sua vida - com direito à jaqueta decorada com a bandeira da Noruega queimada, brincos e toques de rebeldia. De início o compreensivo papai Magnus (o ótimo Sven Nordin) só estranha que os Pistols rejeitem tudo e a todos, reclamando sem apontar uma direção a seguir. Depois ele acaba apoiando aquela explosão sonora furiosa que inspira seu filho a entrar para uma banda de meninos punk que tocam pior do que eu. O quinto longa do premiado Jens Lien explora a relação entre pai e filho sem apelar para o lugar comum desse tipo de filme. Mostra um rito de passagem que acontece através da música e da postura punk que tomou o mundo após o discurso pacifista da cultura hippie. Essa relação entre as diferentes ideologias/gerações aparece de forma bastante bem humorada quando Magnus leva o filho para uma comunidade naturista e ali, no meio daquele bando de peladões, tenho a impressão que Nicolaj pode ser contra muitas coisas mas não andar vestido (principalmente naquela fase que não estamos satisfeitos com as mudanças que nosso corpo atravessa). O filme, no entanto, fica mais sombrio quando as drogas aparecem na vida de Nicolaj e seus amigos e o que era diversão começa a dar espaço para relações cada vez mais agressivas e fragilizadas. As alucinações rendem pelo menos dois bons momentos surrealistas, um deles com a participação de Johny Rotten em pessoa (ele disse que participou do filme mais por dinheiro do que por qualquer outra coisa). Simpaticamente decorado com excentricidades, Sons of Norway é um bom filme sobre a entrada na adolescência sem as firulas a que estamos acostumados. 

Sons of Norway (Sonner av Norge/Noruega-2011) de Jens Lien com Asmund Hoeg, Sven Nordin e Sonja Richter. ☻☻☻

sábado, 8 de junho de 2013

DVD: O Colaborador

Martin e David: Era uma vez, dois meninos que cresceram na mesma rua e...

Martin Donovan era uma espécie de muso do cinema indie nos anos 1990, chegando até a interpretar um contemporâneo Jesus Cristo em O Livro da Vida (1998) de Hal Hartley. O século XXI reservou ao ator filmes menos expressivos e presença cativa em séries televisivas. Portanto, não deixa de ser interessante que sua carreira como diretor tenha começado em 2011 com o eficiente O Colaborador que demorou um ano para entrar em cartaz no exterior. Acumulando as funções de diretor, roteirista e protagonista, Donovan demonstra talento para conduzir as emoções de seus personagens num material difícil com alguma tensão política e um bocado de humor negro. O filme começa muito bem com a apresentação do dramaturgo Robert Longfellow (Donovan) através das críticas negativas que sua última peça recebeu ao entrar em cartaz. A apresentação do personagem é tão bem feita que em poucos minutos sabemos das dificuldades que atravessa devido seu tom político e como até o fato de ter uma esposa bem sucedida, Alice Longfellow (a ex-baixista ruiva do Hole, Melissa Auf der Maur em boa participação) parece motivo de chacota. Robert aparenta estar em crise quando recebe a proposta de  ajudar num roteiro e, em seguida,  resolve visitar a mãe. A temporada parece uma inevitável viagem ao passado, seja pelo retorno dos velhos posteres à parede, seja pela mãe que sempre confunde o  nome do filho, o reencontro com uma ex-namorada que se tornou estrela de cinema (Olivia Williams) e até um vizinho rude, Gus (David Morse), que força uma aproximação. Enquanto apresenta seus personagens, o diretor apresenta diversas possibilidades do seu roteiro. Enriquece a figura de Robert ao encontrar pessoas que sempre elogiam sua obra (por mais que a mídia o despreze) e sugere que o longa irá se acomodar no mais típico filme indie sobre a vida rumo ao fundo do poço. Neste ponto que o roteiro traz uma guinada inesperada. Prestes a chegar as vias de fato com a namorada de outrora, Robert recebe a visita de Gus.  A visita regada a várias latas de cerveja se torna um sequestro. Enquanto a mídia e a polícia fazem da situação um espetáculo para as massas, Longfellow e Gus se tratam como velhos conhecidos dentro da casa. Obviamente que desde a primeira cena sabemos que Gus tem alguns parafusos faltando, mas David Morse sempre sugere outros caminhos para seu personagem do que o troglodita psicótico. Às vezes, Gus carrega uma tensão homoerótica sobre o vizinho, outras vezes parece um adolescente apaixonado ao conversar com sua atriz favorita no telefone até que surta ao ter que lidar com a polícia. Robert parece unido à Gus pela morte do irmão, mas talvez seja mais do que isso. O roteiro parece mostrar que, mesmo com tanta proximidade, duas pessoas podem seguir caminhos totalmente diferentes - e os "improvisos" feitos pelos dois mergulham o espectador na tensão vivida pelos personagens de forma bastante original. Ao final, o encontro entre os dois personagens parece convergir para os embates (polêmicos) da obra de Longfellow sobre fantasmas americanos que ainda estão longe de ser exorcizados. Engenhoso em suas mudanças de tom, além de detalhes auto-referenciais, o filme consegue ser bastante interessante.  Se o cinema não oferecer bons papéis a Donovan, ele promete escrever bons textos e ter lugar atrás das câmeras. 

O Colaborador (The Collaborator/Canadá-2012) de Martin Donovan com Martin Donovan, David Morse, Olivia Williams, Melissa Aud Der Maur e Katherine Helmond. ☻☻☻☻

DVD: À Beira do Caminho

Duda e João: a vida em canções de Roberto Carlos. 

A relação entre música e cinema é tão antiga que antes mesmo de inventarem um modo do filme ter som, contratava-se músicos para tocar a trilha sonora enquanto o filme era exibido. Portanto, não deixa de ser interessante que o cinema vez por outra lance filmes inspirados em canções. Já comentei sobre isso antes no blog, filmes como Magnólia (1999) e o recente Faroeste Caboclo (2013) só confirmam que a tendência tende a ganhar força. Ano passado, o brasileiro Breno Silveira confirmou ser o diretor com maior fetiche para o gênero, não se contentando em lançar um filme inspirado em músicas, mas dois do gênero em 2013. Gonzaga - De Pai para Filho e À Beira do Caminho, demonstram como o diretor tem habilidade de gerar imagens a partir de composições (nem vou mencionar o sucesso estrondoso que o diretor alcançou com Dois Filhos de Francisco/). Em À Beira do Caminho, o diretor se apropria do texto de Patrícia Andrade calcada nas composições do "rei" Roberto Carlos. Acho que todo mundo teve a vida marcada por pelo menos uma música do cantor, gostando dele ou não. Eu, por exemplo, prefiro muito mais quando cantoras da MPB entoam seus versos do que quando RB está cantando seu repertório, mas cresci com uma mãe que em todo natal ganhava de presente um disco (é amigos, podem ver o tiranossauro passando pela janela) do cantor, mas faz tempo que ela não se empolga com a obra de vossa majestade. Para ela o cara não é mais ele faz tempo. Mas ainda bem que o assunto aqui é cinema! É inegável que Silveira sempre tem grande respeito pelas canções que utiliza em seus filmes e aqui não poderia ser diferente. Contando a história do  encontro do amargo caminhoneiro João (o sempre bom João Miguel) com o menino Duda (o prodígio Vinícius Nascimento), o diretor alcança momentos de bastante sensibilidade e força dramática. É verdade que de vez em quando o texto exagera nos traumas da dupla, mas o resultado consegue ser bastante envolvente. Desde o início João é contra deixar o menino seguir viagem com ele, mas aos poucos aquele menino, que deseja ir para São Paulo encontrar o pai, consegue conquistá-lo. Vale dizer que o garoto enche os olhos da plateia desde a primeira cena. O relacionamento entre os dois é cheio de rusgas, discussões e desentendimentos que parecem ter relação com o passado de João (que aparece em flashbacks espalhados como se fossem vírgulas). Parece-lhe difícil ter alguém com quem se importar. Somente quando aparece a personagem de Dira Paes percebemos que a relação entre João e Duda já estrapolou a amizade, trata-se da constituição de uma família pouco convencional. O que isso tem a ver com Roberto Carlos? Doze canções! O Diretor utiliza doze composições do artista em seu filme, algumas encaixadas de forma brilhante. As canções de Roberto também serviam de contraponto Inspirado em tantas canções, o resultado poderia investir menos nos dramas de João, mas ainda assim, o resultado é um bom filme e com merecido final feliz depois de fazer a plateia (incluindo minha mãe) derramar algumas lágrimas. Vossa majestade agradece!

À Beira do Caminho  (Brasil/2012) de Breno Silveira com João Miguel, Vinícius Nascimento e Dira Paes. ☻☻☻☻

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MOMENTO ROB GORDON: Irmãos Brothers

5 - Bob Farrelly & Peter Farrelly
Faz tempo que os diretores americanos Farrelly não emplacam um sucesso da magnitude de Quem Vai Ficar com Mary (1998), mas eles ainda são conhecidos pela comédia escrachada. Se a versão deles para Os Três Patetas (2012) não agradou eles ainda podem se gabar de ter no currículo algumas das comédias debochadas sem compromisso com o politicamente correto com os que estão acima do peso em O Amor é Cego (2001) ou múltipla personalidade em Eu, Eu Mesmo e Irene (1998) - e não podemos esquecer os manos siameses de Ligado em Você (2000). Agora eles estão preparando a continuação de seu filme de estreia:  Debi e Lóide (1994), será um retorno aos velhos tempos da dupla em que formavam a dupla mais rentável de Hollywood?

4 - Andy Wachowski & Lana Wachowski 
Os americanos nascidos em Chicago começaram a chamar a atenção pelo roteiro engenhoso de Assassinos (1995) com Silvester Stallone. Talvez por considerarem o resultado convencional demais precisavam convencer os estúdios que seriam capazes de dirigir projetos inovadores. Foi assim que fizeram o independente Ligadas pelo Desejo (1996). O resultado convenceu Hollywood a bancar a trilogia Matrix (1999/2003) capitaneada pela dupla. Juntos os filmes da trilogia renderam mais de um bilhão de dólares.  Se o resultado de Speed Racer (2008) não empolgou, eles não se importaram e abusaram da pretensão narrativa em A Viagem (2013), épico de ficção científica onde seis tramas se entrelaçam entre passado, presente e futuro. O filme pode não ter alcançado o sucesso esperado, mas marcou a mudança na assinatura de Larry Wachowski para Lana Wachowski em grande estilo

3 - Vittorio Taviani & Paolo Taviani 
Nascidos em San Miniato, os irmãos italianos prestam serviços ao cinema desde a década de 1950. Com 22 filmes no currículo - o último deles César Deve Morrer/2012, onde um grupo de guardas de presídio encenam Shakespeare, rendeu à dupla o Urso de Ouro em Berlim e o prêmio ecumênico no mesmo. A dupla é responsável por títulos cultuados como Pai Patrão (1977) e A Noite de São Lourenço (1987). Com mais de 47 prêmios internacionais eles não se acomodam nem quando se rendem à inevitável polêmica de adaptar Goethe em As Afinidades Eletivas (1996) sobre um casal e seus amantes. 

2 - Luc Dardenne & Jean-Pierre Dardenne
Nascidos na Bélgica durante a década de 1950, os irmãos dirigem desde 1978 - assinando um total de 16 filmes. Cinco deles foram premiados no Festival de Cannes e renderam 36 prêmios internacionais para a dupla. Famosos pelo olhar que lançam sobre as relações familiares, elas estão presentes nos premiados O Garoto de Bicicleta (2011), A Criança (2005), O Filho (2002) e Rosetta (1999). Em seus filmes, o uso de atores desconhecidos e outros famosos constroem um universo em que a câmera tenta registrar a vida como ela é. A direção sem firulas dos diretores tem seguidores fiéis, mas poucos conseguem a espontaneidade da obra dos Dardenne. Atualmente estão trabalhando em um novo projeto, mais uma vez filmado na França, com a estrela Marion Cotillard.    

1 - Joel Coen & Ethan Coen
Os outros manos que me desculpem, mas a primeira dupla de irmãos diretores que vem à cabeça quando toco no assunto são os Coen. Nascidos em Minnesotta a dupla passou do cinema independente para consagração em Hollywood com 4 Oscars (cada um) na estante - um pelo roteiro original de Fargo (1996) e três respectivamente pela direção, produção e roteiro adaptado de Onde os Fracos Não tem Vez (2007). Apesar do marcante humor negro da dupla, o mais engraçado é que desde o primeiro filme (Gosto de Sangue/1984) as pessoas sabiam que os manos faziam de tudo juntos na produção (fotografia, trilha, edição, direção...) mas Joel assinava a direção, Ethan a produção e o resto era feito com pseudônimos. Ethan e Joel só assinaram a primeira direção juntos no pouco querido Matadores de Velhinha (2004). Recentemente lançaram Inside Llewyn Davis em Cannes que deve aparecer na temporada de ouro 2013! 

domingo, 2 de junho de 2013

DVD: O Garoto de Bicicleta

Thomas e Cécile: à família que escolhemos. 

Os irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne estão na ativa desde a década de 1970. Em quase cinquenta anos prestados ao cinema tornaram-se uma referência cinematográfica, especialmente quando falamos de filmes europeus. Com 17 filmes no currículo os manos ficaram famosos por suas tramas repletas de referências às estruturas familiares, sendo que em sua última obra O Garoto de Bicicleta, deixaram claro que os laços familiares são mais complexos do que apenas o compartilhamento do mesmo sangue ou DNA. O filme foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e foi premiado com o Grande Prêmio do Júri (os manos colecionam prêmios em Cannes, são cinco ao todo) e, de quebra, foi indicado ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro. Por muito pouco o longa não apareceu entre os indicados ao Oscar  no ano em que a França estava com tudo perante à Academia (O Artista, Meia Noite em Paris, Um Gato em Paris...). O que deve ter prejudicado o filme é que ele tem uma história bastante simples, mas filmada com o brilhantismo que somente os grandes mestres do cinema são capazes de imprimir. Apesar da fotografia límpida e do nome simpático, a história pode soar árdua para alguns, já que narra a história de um garotinho que é rejeitado pelo pai. No início Cyril Catoul (o eficiente Thomas Doret) tenta fugir do orfanato em que seu pai o deixou, mas não tem muito sucesso. Não entendemos muito bem o motivo de sua revolta, até o dia em que consegue fugir e descobre que seu pai se mudou e vendeu sua bicicleta. Descontente com a descoberta, Cyril precisa de ajuda para descobrir o paradeiro do pai e para isso conta com a bem intencionada Samantha (Cécile de France), uma cabelereira que mora na vizinhança e que pode ter algumas pistas sobre o paradeiro dele. Quando Cyril reencontra o pai a decepção é inevitável, já que ele deixa bem claro que não quer mais cuidar do filho. Tudo que a cena possui de arrasadora também possui de reconfortante na figura de Samantha que percebe o quanto Cyril precisa de referências para lidar com a dor e crescer. Cyril passa a ficar com ela durante os fins de semana e as coisa vão bem até o momento em que conhece pessoas que podem se aproveitar da revolta que ele ainda não conseguiu filtrar. Existem momentos bastante tristes no filme, mas também existem outros bastante esperançosos até o final em que mostra que a violência só gera mais violência, seja ela emocional ou física, independente de suas motivações. O Garoto de Bicicleta tem o mérito de em toda a sua simplicidade causar sucessivos nós em nossa garganta até o desfecho em que só desejamos que Cyril seja feliz ao lado da família que escolheu. Talvez debaixo de toda sua simplicidade, o filme queira chamar a atenção onde os pais tentam perceber cada vez menos a importância que tem na vida dos filhos, de forma que projetam neles suas emoções de adultos e esperam que lidem com o mundo como se fossem adultos em miniatura. Sendo que, nem os adultos conseguem lidar direito com o mundo que criaram. 

O Garoto de Bicicleta (Le gaumin au vélo/Bélgica-França-Itália/2011) de Jean Pierre Dardenne e Luc Dardenne com Thomas Doret, Cécile de France, Jérémie Renier e Fabrizio Rongione.☻☻☻