sábado, 19 de junho de 2021

NªTV: Sweet Tooth

 
Stefania, Christian e Nonso: a fantasia pandêmica na Netflix. 

Sucesso nas últimas semanas na Netflix (e forte candidata à série mais fofinha do ano), Sweet Tooth nem é tão fofa assim. O fato é que a história da criança que nasce com chifres e orelhas de servo e precisa se esconder com o pai no meio do nada para continuar vivo tem aqueles elementos de fantasia e suspense que de vez em quando casa tão bem na gigante do streaming. Além do protagonista infantil de aparência curiosa, outros fatores também ajudam a chamar atenção para o  programa. A começar por uma misteriosa pandemia que começa a dizimar parte da humanidade e que passa a ser chamada de "flagelo". A misteriosa enfermidade também é responsável pelo tom crescente de paranoia e faz com que pessoas que sempre se deram bem sejam capazes de ações escabrosas. No entanto, não é só de flagelo que vive a sociedade imaginada na história, já que junto a isso, as crianças começaram a nascer híbridas, carregando características de animais e provocando grande estranhamento, além da suspeita de que estas serem as grandes responsáveis pela contaminação da humanidade. Portanto neste mundo imaginário da história em quadrinhos criado pelo canadense Jeff Lemire em 2009, existem aqueles que querem exterminar os híbridos, pessoas que tentam protegê-las e pessoas empenhadas para descobrir a cura da terrível doença. Sim, Sweet Tooth possui suas semelhanças com o estranho mundo que vivemos desde março de 2020 e foi filmada durante a pandemia na Nova Zelândia que, como todos sabem, teve uma postura exemplar na contenção do Coronavírus e foi o primeiro país a livrar-se dele. Para além da situação de saúde mundial e seus protocolos de segurança, o grande desafio era determinar o público alvo da série e evitar que a violência presente na trama afugentasse os mais jovens. O incrível é que o programa adaptado por Jim Mickle e Beth Schwartz acerta no tom, deixando que ganhe a embalagem de uma produção infanto-juvenil, mas capaz de atrair a atenção dos adultos que são capazes de torcer pelo adorável menino de chifres, o Gus (o fofo Christian Convery de onze anos). A vida de Gus vira do avesso quando ele precisa se virar sozinho no mundo hostil que o pai (um bom trabalho de Will Forte) sempre tentou deixá-lo afastado, afinal, o menino pretende encontrar a mãe que não faz a mínima ideia de onde ele está. Claro que atrás dele terá um bando de malvados e ao seu lado um punhado de tramas paralelas que ne sempre ajudam a produção a manter o ritmo adequado para prender a atenção em seus oito episódios. Criado como um eficiente entretenimento, Sweet Tooth é uma produção caprichada, engenhosa na construção de seu mundo particular e cheia de possibilidades a serem exploradas em sua próximas temporadas. Se (a demorada) Stranger Things ainda ocupa o posto de série favorita da Netflix ao redor do mundo, Sweet Tooth tem chances de ameaçar este posto em breve. 

Sweet Tooth (Estados Unidos / 2021) de Jim Mickle e Beth Schwartz com Christian Convery, Will Forte, Nonso Anozie, Stefania LaVie Owen, Dania Ramirez, James Brolin e Adeel Akhtar. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de junho de 2021

PL►Y: Quo Vadis, Aida?

 
Aida (Jasmila Zbanic): dores de uma tragédia anunciada. 

Desde que foi exibido na disputa ao Leão de Ouro no último Festival de Veneza, o longa Quo Vadis, Aida? se tornou um daqueles filmes tão comentados que se torna praticamente impossível não ter vontade de vê-lo. Some isso às indicações aos prêmios de filme estrangeiro que concorreu no Oscar e no BAFTA e a curiosidade só cresce ainda mais. No entanto, o bom mesmo, é que o filme da diretora Jasmila Zbanic (indicada ao BAFTA de melhor direção) é realmente impressionante. O filme conta as horas que precederam o aterrorizante massacre de Srebrenica, um dos momentos mais sangrentos da guerra civil iugoslava, marcada pelos conflitos entre países do Leste Europeu que perdurou de 1991 até 2001. Vale ressaltar que a narrativa do filme acontece durante os ataques da Sérvia à Bósnia e Herzegovia, cujas tropas promoviam um verdadeiro genocídio étnico após a Bósnia proclamar independência em 1992. A trama do filme é ambientada três anos depois, na cidade de Srebrenica que está prestes a ser invadida pelos Sérvios. É bom destacar este contexto histórico, já que o filme não se preocupa em contextualizar historicamente o que se vê na tela, para a emoção que a diretora pretende despertar em seus espectadores, basta saber que existe um grupo enorme de pessoas que deixam seus lares temendo por suas vidas e buscam abrigo na base da ONU. O que move todo o filme é a angústia do drama humano que transborda de uma tragédia anunciada. Conduzindo a narrativa está Aida (Jasmila Zbanic), a protagonista do filme, que teme por tudo o que pode acontecer perante o caos que se instaura no país, mas teme, principalmente, pela vida de sua família. Trabalhando como intérprete da ONU, ela transita entre os refugiados e as autoridades, sofrendo por ver os rumos dos acontecimentos sem poder fazer muita coisa perante o que acontece diante dos seus olhos. Aos poucos o local que deveria transmitir segurança se torna uma verdadeira bomba relógio, com acordos políticos surgindo aqui e ali, fermentando a permissividade de quem deveria protegê-los e que se tornam cúmplices de uma tragédia. A atriz Jasna Djuricic está perfeita como Aida, ela se comporta feito uma verdadeira leoa enjaulada, aos poucos sua angústia cresce perante a impotência que se revela implacável. O trabalho de Jasna é fundamental para que o filme alcance o nível que o trabalho da direção almeja: ser urgente, cru e numa linguagem quase documental (que é o formato dos primeiros trabalhos da diretora). Jasmila Zbanic filma como se estivesse dentro de uma panela de pressão e faz doer ao encaixar aqui e ali cenas de um passado próximo em que os inimigos eram vizinhos e amigos de longa data. Se terminasse naquela cena desoladora do pátio o filme seria perfeito, mas ele se estende um pouco mais e não era necessário. Ainda que seja um retrato de um período histórico recente de um país distante, o ódio disseminado pela política de "nós versus eles" mostra-se bastante próximo quando vemos até onde a sandice humana pode ir. 

Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina | Áustria | Romênia | Noruega | Alemanha | Polônia | França | Noruega | Turquia - 2020) com Jasna Djuricic, Izudin Bajrovic, Boris Ler, Johan Heldenbergh e Raymond Thiry. ☻☻☻☻

domingo, 13 de junho de 2021

#FDSérie DIVERSIDADESXL: Feel Good

 
Charlotte e Mae: ótima primeira temporada. 

Reza a lenda que as segundas temporadas são sempre as mais arriscadas, afinal, as séries não devem se repetir, mas precisam manter suas identidades aprofundando as questões que seus personagens apresentaram na temporada anterior. Quando assisti a primeira temporada de Feel Good na Netflix (lembro como se fosse hoje, era uma noite de domingo em que eu não fazia a mínima ideia do que assistir e resolvi dar uma chance para aquele programa que acabava de ficar disponível na gigante do streaming), vi os seis episódios (curtinhos em seus vinte minutos) de uma vez só, compondo uma espécie de filme episódico e que terminava com um dramático gancho para a segunda temporada. Confesso que fiquei bastante apreensivo com o que estava por vir. Talvez esta curiosidade de saber o destino das personagens tenha pesado quando tentei ver toda a segunda tmeporada de uma vez tão logo foi lançada nesse ano. Consegui ver dois capítulos por dia e olhe lá. Criado e escrito pela comediante Mae Martin (que conta com Joe Hampson na lapidação do texto), em sua primeira temporada, a série caprichava no humor (ainda que autodepreciativo) por conta de sua protagonista, Mae (Mae Martin) que ganha a vida como comediante e cai de amores por uma pessoa que assistia a um de seu shows de stand up, George (Charlotte Ritchie). As duas se aproximam, se apaixonam, passam a conviver, os problemas começam a surgir, mas toda a autenticidade do programa reside justamente na forma como constrói aquela relação. No entanto, conforme a temporada avança, o passado de Mae com o uso de drogas começa a se tornar mais presente e prejudicar o que poderia ser visto como um idílico romance. A química entre Mae e Charlotte é fundamental para que tudo funcione conforme o esperado e as duas dão conta de transformar o casal na alma do programa. Quando a segunda temporada começa, aquela sensação de angústia deixada na season finale retorna, mas aos poucos se dilui em um conjunto de situações tão repetitivas quanto previsíveis. É verdade que a trama constrói para si um conjunto de elementos que tornam esta segunda temporada muito mais densa, já que somado ao processo de reabilitação da protagonista, existe ainda um diagnóstico de estresse pós-traumático e revelações sobre o passado sobre relacionamentos abusivos que ela vivenciou. Talvez o problema seja que ficou coisa demais para ser trabalhada nos novos seis episódios e sobrou pouco espaço para o que vimos anteriormente. O humor foi praticamente embora e  Mae sofre um bocado... soa até exagerado todas as coisas complicadas que acontecem com ela durante a temporada. Em determinados momentos eu imaginava o motivo de ainda estar assistindo a série, talvez eu desejasse um final feliz para ela, mas do jeito que termina eu nem sei dizer se foi feliz ou não. Recentemente descobri que esta é a última temporada, o que só piora minha percepção sobre o que fizeram com o programa em 2021. Acho que complicaram demais as coisas em Feel Good e não tiveram tempo de trabalhar suas ambições de forma satisfatória, o resultado é que até o romance que era empolgante na temporada anterior se tornou tedioso nesta temporada. Feel Good virou Feel Bad. 

Feel Good (Reino Unido / 2020-2021) de Mae Martin com Mae Martin, Charlotte Ritchie, Phil Burgers, Lisa Kudrow, Shophie Thompson, Tom Andrews, Jack Barry e Ramon Tikaram. 1ª temporada ☻☻☻☻ / 2ª temporada ☻☻

sábado, 12 de junho de 2021

#FDSérie: Special

 
Jenkins e Connell (ao centro): série para deixar saudades. 

Foi com enorme tristeza que me despedi do seriado Special da Netflix. Descobri a série meio que por acaso, assim que ela estreou em 2019 e fiquei muito feliz quando foi renovada para a segunda temporada, que foi adiada por conta da pandemia de Covid-19 e depois foi finalizada com a notícia de que seria a última a ser produzida. Na segunda temporada a sensação de despedida me deixou a impressão de que o seriado poderia continuar por várias temporadas frente à temática única que tomou para si. Afinal, quantas vezes você viu uma comédia sobre um rapaz gay com paralisia cerebral e seus dilemas para viver a vida que sempre quis? Esta foi a ideia de Ryan O'Connell que depois de ganhar a vida como roteirista de séries para TV (como Awkward, Daytime Divas e o sucesso Will & Grace) resolveu passar para a frente das câmeras e acumular as funções de produtor, roteirista e ator. O resultado da primeira temporada (curtinha com oito episódios de pouco mais de vinte minutos cada), lhe rendeu uma indicação de atuação no EMMY e outra enquanto produtor da série. Na série, Ryan vive Ryan Hayes um rapaz que trabalha para um site que pretende ser descolado, mas o rapaz ainda precisa resolver algumas questões sobre a forma como lida com a paralisia cerebral, sua homossexualidade e até com sua mãe (um ótimo trabalho de Jéssica Hecht que foi indicada ao Emmy de atriz coadjuvante). Assim como o personagem, Ryan também possui paralisia cerebral, passou por cirurgias e outras situações para conviver com ela da melhor forma possível e aqui demonstra abordagens que só seriam possíveis através das vivências que acumulou ao longo da vida, assim a série retrata a forma como precisa lidar com o mundo ao seu redor e como este mundo lida com ele. Assim, quando inicia um relacionamento ou se envolve em alguma desventura, Ryan deixa claro que não é definido por esta ou aquela característica, mas pela junção de tudo que ele é. Por isso, torna-se ainda mais real a forma como agrega outros fatores ao desenvolvimento de sua personalidade. Neste ponto, o relacionamento com a mãe ganha destaque em vários episódios, por evidenciar como o zelo e a proteção em excesso podem atrapalhar em alguns momentos e tornar alguns desentendimento inevitáveis, seja quando ele decide morar sozinho (e encarar novos desafios) ou quando um novo relacionamento surge na vida dela - e ela fica visivelmente sem saber como lidar  com tudo isso  (afinal se privou destes sentimentos por tanto tempo em nome do filho). Special (que tem o maior jeitão de filme indie) tem outras qualidades que vão para além de sua ideia original e a simpatia de seus personagens, a começar pela naturalidade como explora a vida sexual de Ryan, sem usar de sensacionalismo quando aparece cenas de nudez, sexo, beijos ou diálogos improváveis em outros programas do gênero.  Quem também merece destaque é a melhor amiga de Ryan, Kim (Punam Patel também indicada ao EMMY de coadjuvante pelo papel), uma influenciadora digital que foge dos estereótipos e ajuda a caminhada de Ryan em encontrar a si mesmo como uma espécie de fada madrinha de carne e osso. No fim das contas o que Ryan e todos os outros personagens só querem ser amados pelo que são, igual a você, eu e todos os outros ao nosso redor.  Se você achou a primeira temporada curta, a segunda é ainda menor (seis episódios um pouco mais longos) e deixa aquela sensação que o programa tinha material para várias temporadas. Por enquanto terei que me contentar em criar novas histórias para Ryan na minha cabeça - e para Tanner (Max Jenkins) também. Elogiada pela crítica, mas sem a audiência esperada (talvez por ser muito fora da caixinha) a série só não é melhor por terminar na segunda temporada.   

Special - 1ª e 2ª Temporadas de Ryan O'Connell com Ryan O'Connell, Jessica Hecht, Punam Patel, Marla Mindelle, Patrick Fabian e Max Jenkins. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 11 de junho de 2021

#FDSérie DIVERSIDADESXL: Todxs Nós

 
Clara, Juliana e Kelner: trio dos bons. 

Confesso que estou muito enrolado para dar conta de ver os filmes para fazer uma semana de Ciclo DiversidadeSXL deste ano, então tive a ideia de comentar três séries que buscam abordar a diversidade sexual de uma forma diferente. Fugindo dos lugares comuns e apresentando seus personagens para além de um rótulo, mas enquanto pessoas em descobertas, dilemas, conflitos que vão para além das questões de preferência sexual. Para começar este #FDS resolvi escrever sobre uma série lançada pela HBO no ano passado e aguarda a sua segunda leva de episódios. Todxs Nós me surpreendeu não apenas pela forma como aborda questões de sexualidade e de gênero como também encontra espaço para falar sobre amizade, crescimento, fidelidade, família, veganismo e muitas outras coisas! Sendo composta por oito episódios com menos de trinta minutos e embalados por uma trilha sonora bastante, digamos, peculiar, a série conta a história de dois amigos de longa data, Vini (Kelner Macêdo) e Maia (Juliana Gerais), que dividem um apartamento em São Paulo e seguem suas vidas sem maiores novidades. Vini ainda tenta a sorte como ator e está com problemas com o namorado (Felipe Frazão) que insiste em convencê-lo a ter um relacionamento aberto, enquanto Maia trabalha em um escritório publicitário e está cada vez mais interessada em um colega de trabalho (Rafael de Bona do bom 45 Dias Sem Você/2018) que já é comprometido.  A rotina da dupla é alterada com a chegada da prima do Vini, ou melhor, de prime do Vini, Rafaela, agora Rafa (Clara Gallo) que acaba de se descobrir uma pessoa não-binária e está prestes a fazer várias mudanças em sua vida. As mudanças vão para além do corte de cabelo e o visual, mas inclui a exigência no uso de pronomes neutros quando se referem a Rafa, no entanto, o maior problema é a família que não entende muito bem o que está acontecendo. Até Vini, gay aparentemente descolado, enfrenta dificuldades em lidar com as mudanças referentes a prime e em determinados momentos demonstra seus preconceitos com aquela história. No entanto, o processo de crescimento de Rafa inclui ainda algumas verdades que precisam ser encaradas (como aprender a se bancar sem ajuda financeira do pai e perceber que ainda que você se considere entre iguais, existem espertalhões "binários" ou "não-binários" em toda parte). O clima despojado e bem-humorado ajuda a  manter o equilíbrio quando algumas situações pesam na vida do trio, além disso o roteiro consegue manter o tom certo perante o desafio de lidar com temáticas delicadas em tempos de politicamente corretos (sim, mesmo que as intenções da série sejam as melhores possíveis, por vezes ela também demonstra o desafio em tocar nestes assuntos com humor sem ser ofensiva) assim temos cenas no melhor estilo "eu posso rir disso?" (que soam como provocações ou até armadilhas para quem se considera "desconstruído") conjugadas com outras que pecam quando investem num tom mais didático. Todxs Nós acerta mesmo é quando apresenta seus personagens de carne e osso com qualidades, defeitos, anseios, desejos (e a série tem uma cenas bem desinibidas) sem perder o tom de alfinetada (e sobra alfinetada até para a galera de teatro, dos coletivos, dos militantes, dos preconceituosos... e por aí vai).  No entanto, o programa deixa claro que não cria uma bolha para si, sempre busca a realidade, especialmente em seu último episódio em que a intolerância explode em sua forma mais covarde. Eu não costumo ter sorte com séries brasileiras da HBO (eu adorava FDP/2012 e ela foi cancelada logo após sua primeira temporada), mas com a segunda temporada de Todxs Nós prestes a estrear neste ano, eu adoraria ouvir que a terceira também chegará no ano que vem. Enquanto a nova temporada  não vem, a primeira está disponível na HBO GO. 

Todxs Nós (Brasil/2020) de Vera Egito, Heitor Dhalia e Daniel Ribeiro com Clara Gallo, Kelner Macêdo, Juliana Gerais, Rafael de Bona, Felipe Frazão, Gilda Nomacce e Felipe Frazão. ☻☻☻☻

domingo, 6 de junho de 2021

KLÁSSIQO: Andrei Rublev

Anatoliy: personagem real em clássico de Tarkovsky. 

Depois dos prêmios de A Infância de Ivan (1962), o cineasta Andrei Tarkovsky investiu em um épico de quase três horas a ser lançado em seguida. Se o filme anterior criou alguns impasses perante os censores da União Soviética pela forma incomum com que retratou a obra de Vladimir Bogomolov, aqui a situação não foi diferente. Ao escolher como protagonista o famoso monge pintor Andrei Rublev, o diretor estava mais interessado em construir um retrato do período em que o artista viveu, a sanguinolenta Rússia Medieval assolada pela barbárie enquanto seus personagens discutem entre o paraíso e a danação. Visto hoje, o filme também demonstra muita relação com os dilemas do próprio cineasta ao ter que trabalhar com arte num país em que suas obras eram constantemente interrogadas por seus significados alegóricos. O diretor fixa aqui sua opção pela não obviedade ao contar histórias, mesmo quando se trata de uma biografia. Aqui Rublev (Anatoliy Solonitsyn) é apresentado como um homem bom, forte e temente a Deus, mas encontra tantas atrocidades pelo caminho ao se tornar responsável pela criação dos afrescos de uma catedral que começa até a questionar sua própria fé.  Enquanto o protagonista sofre seus próprios dilemas, o diretor apresenta todo aquele universo ao seu redor, entre loucos, pessoas cegas pela fé, pagãos, soldados, pessoas comuns, além de combates, e massacres provocados pelas invasões de tártaros e mongóis. Este peso da parte histórica do filme acontece também por haver poucos registros sobre a vida de Rublev, que viveu entre os séculos XIV e XV e o texto busca perceber como seria sua presença durante aquele período conturbado. A saída foi criar uma narrativa dividida em sete episódios, sem maiores relações entre eles, calcados em acontecimentos importantes que precederam o período dos czares. O resultado é um filme com quase três horas de duração que foi finalizado em 1966, mas que foi exibido oficialmente somente em 1969, -ano em que também foi exibido no Festival de Cannes - mas conseguiu ser distribuído mundialmente somente em 1973. Existe toda uma polêmica em torno  com sua do longa em sua mistura de religiosidade e violência, mas muitos os consideram um dos filmes mais otimistas da cinematografia do diretor, principalmente pela postura de seu personagem principal que é tratado de forma bastante respeitosa (lembrando que se tratava de um filme financiado por verba de um governo comunista). A produção constrói uma verdadeira odisseia religiosa nas entranhas da história russa, o que o torna bastante querido pelos historiadores. Para a maior parte do público o resultado pode ser cansativo, afinal, somos  convidados a acompanhar uma verdadeira colagem de acontecimentos sangrentos de um período bastante cruel da história. Filmado em preto e branco, o filme começa com impressionantes tomadas aéreas e demonstra mais uma vez o gosto do cineasta em deixar os cenários contarem suas histórias por si só. Ao final, ele revela as cores das obras de Rublev na famosa catedral que é construída ao longo da trama. Apesar do seu formato diferente para o gênero, este é o filme mais tradicional (ou explícito) do diretor que ficou famoso por suas poesias visuais e trabalhos repletos de simbologias.

Andrei Rublev (União Soviética /1966) de Andrei Tarkovsky com  Anatoliy Solonitsyn, Ivan Lapikov, Nikolay Grinko e Irina Tarkovskaya. ☻☻☻ 

sábado, 5 de junho de 2021

PL►Y: Saída à Francesa

Michelle e Lucas: pendengas familiares a resolver. 

Quando foi anunciada a versão cinematográfica do best-seller French Exit do americano Patrick DeWitt muita gente ficou animada. Quando Michelle Pfeiffer foi escalada para viver a protagonista as expectativas foram nas alturas e a colocaram na lista de favoritas para o Oscar 2021... mas bastou o filme ser exibido no Festival de Nova York para que as opiniões se dividissem. Confesso que ouvi tantas críticas ao filme (no entanto, sempre destacando o trabalho oscarizável de Pfeiffer) que quando o assisti o achei bem melhor do que eu esperava. Já lançado em plataformas digitais por aqui com nome de Saída à Francesa, o filme é uma espécie de comédia amalucada que peca por sua instabilidade quando o desfecho começa a ser necessário e o diretor insiste em continuar. O cineasta Azazel Jacobs quase cometeu o mesmo erro em The Lovers/2017, mas soube contornar o problema em seus 97 minutos de duração. Aqui o efeito é um tantinho mais problemático por se levar mais a sério do que deveria em quase duas horas de duração, no entanto, o trabalho de Michelle e Lucas Hedges consegue prender a atenção quando o ritmo começa a ser um problema em situações pouco interessantes que fazem o filme beirar duas horas. Aqui acompanhamos a viúva Frances Price (Michelle Pfeiffer que foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel), uma beldade que se tornou uma espécie de celebridade na alta sociedade de Nova York décadas atrás, mas desde a morte do esposo (Tracy Letts), Frances está fora do eixo. Não sabe muito bem o que fazer com o tédio de seus dias na companhia do filho, Malcolm (Lucas Hedges) e o gato Frank. Eis que ela aceita a ideia de uma amiga para passar uma temporada em sua casa na França e desde a sua viagem ela começa a conhecer novas pessoas e revelar um pouco mais de suas esquisitices. A começar pelo gato (que tem uma particularidade que não vou dizer para não estragar a surpresa) e aquela mania de dar grandes quantias de dinheiro para estranhos que lhe despertam alguma simpatia - esta mania talvez seja por Frances ter problemas sérios em se relacionar com outras pessoas, foi assim com o esposo, com o filho e até com uma socialite que deseja ser sua amiga em território francês, mas enquanto ela precisa resolver suas questões (afinal a localização geográfica muda, mas os problemas são internos e não externos), Malcolm também tem seus próprios dilemas para lidar (seja o noivado que ficou pelo meio do caminho para acompanhar à mãe ou a rejeição paterna mal resolvida até hoje). Por deixar algumas possibilidades pelo caminho, Saída à Francesa soa como uma brincadeira com a bolha dos endinheirados americanos, seu estilo de vida e  excentricidades (em alguns momentos o filme me lembrou muito A Estranha Família de Igby/2002). O filme se embola quando passa a retomar personagens sem muito propósito e poderia terminar naquela cena em que Frances caminha pelas ruas francesas (uma trilha sonora mais presente no início também faria milagres para criar empatia pela produção), no entanto, do jeito que está, pode ser visto como um filme interessante para passar o tempo, com o mérito de ter uma grande atriz que parece cada vez mais subestimada em Hollywood.  

Saída à Francesa (French Exit/EUA-2020) de Azazel Jacobs com Michelle Pfeiffer, Lucas Hedges, Tracy Letts, Danielle MacDonald, Imogen Poots, Valeria Mahaffey e Susan Coyne. ☻☻☻

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Pódio: Michael Douglas

Bronze: o pianista icônico.

3º Behind the Candelabra (2013) Também conhecido como Minha Vida com Liberace, o filme de Steven Soderberg fez bonito no Festival de Cannes e ainda surpreendeu quando exibiu Michael Douglas na pele do cintilante pianista. Se a vida particular do artista (especialmente a sexual) é tratada em tom de galhofa, Michael aproveita e entrega uma interpretação bem-humorada e numa química com Matt Damon compatível a que desenvolveu com suas famosas parceiras de tela. O filme recebeu onze prêmios Emmy, incluindo melhor ator para Michael (que também levou o Globo de Ouro e o SAG de melhor ator em filme para a TV). O ator que acabava de retornar após sobreviver a um câncer de garganta. 

Prata: o engravatado inescrupuloso
2º Wall Street - Poder e Cobiça (1987) Sempre tenho a impressão que Gordon Gekko era para ser coadjuvante neste filme de Oliver Stone, mas foi interpretado com tanta gana por Michael Douglas que ofuscou o jovem protagonista ambicioso vivido por Charlie Sheen e que adota Gekko como seu mentor. Se os ganhos aumentam na vida do novato, os riscos também aumentam perante o caráter inescrupuloso de Gordon lidar com os negócios. Michael levou para casa seu Oscar de melhor ator pelo papel (e o Globo de Ouro e National Board of Review também). Ele já tinha um Oscar como produtor por Um Estranho no Ninho (1975) e este segundo serviu para o retirar da sombra do pai, Kirk Douglas, para sempre. 

Ouro: o professor de literatura.
1º Garotos Incríveis (2000) O meu trabalho favorito do ator é na pele do professor de Literatura Grady Tripp neste delicioso filmes de Curtis Hanson que fracassou nas bilheterias (por tratar homossexualidade e uso de drogas sem moralismos? Será?). Eu assisti no cinema e ria sozinho com as desventuras do ex-escritor prodígio que viu o tempo passar e o segundo romance nunca ficar pronto. Às voltas com alunos brilhantes (Tobey Maguire e Katie Holmes incluídos), um editor com fome de sucesso (Robert Downey Jr.) e um caso com a esposa do Reitor (Frances McDormand), Michael foi indicado ao BAFTA e Globo de Ouro, mas o Oscar preferiu só indicar o roteiro e premiar a canção de Bob Dylan. Vejam o filme por favor (eu comprei até o DVD)! 

NªTV: O Método Kominsky

Michael e Kathleen: parceiros de longa data. 

Foi com tristeza que me despedi hoje da última temporada de O Método Kominsky da Netflix. Confesso que quando foi lançado eu assisti ao primeiro episódio e não me empolgou a ideia de ver Michael Douglas como um professor de atores que lidava com o amigo rabugento vivido por Alan Arkin. No entanto, no meio da pandemia, retomei a série e foi um verdadeiro deleite. Não apenas por ver um programa que ousa brincar com o politicamente incorreto em tempos tão estranhos, como também pela forma cada vez mais lapidada com que conseguia abordar temas centrais complicados como envelhecimento e morte (que sempre pairaram sobre as outras temáticas que eram amizade e sucesso/fracasso - atrelado a não ter problemas financeiros). Pode se dizer que este foi o melhor papel de Michael Douglas desde que fez Minha vida com Liberace (2013) em que encarnava o próprio, ali, ao se aproximar dos temidos setenta anos, o ator percebeu que estava na hora de brincar com a imagem de sedutor que quase sempre lhe coube nas telas. Na pele de Sandy Kominsky é fácil perceber que é uma versão de Michael num universo paralelo, em que foi celebrado por seu trabalho no teatro, mas nunca decolou na carreira diante da câmeras. Se o sucesso não veio para Sandy, a mulherada foi um aspecto marcante de sua vida, especialmente o casamento com a doutora Roz (Kathleen Turner), com quem teve uma filha, Mindy (Sarah Baker) que está prestes a se casar com um homem mais velho (Paul Reiser). O interessante é que em suas três temporadas (as duas primeiras com oito episódios e a última com seis), o programa sobre expandir seus universo, inserindo novos personagens que recebiam o devido destaque não deixando toda a responsabilidade sobre os ombros da dupla protagonista. Mais interessante ainda é como o programa lida de forma bem humorada com aspectos relacionados à idade avançada, o corpo que não funciona como antes, as doenças que começam a aparecer, a busca por novos romances quando o viagra começa a ser mais usado do que você gostaria, a busca pelo reconhecimento e o arrependimento do que poderia ter feito diferente, mas tudo desviando da pieguice de forma surpreendente. Fora isso, a série ainda contou com participações mais do que especiais de atores veteranos (Morgan Freeman, Allison Janney, Jan Seymour, Nancy Travis...) e outros que andavam esquecidos (como Haley Joel Osment provando de vez seu talento cômico bem distante do menininho de O Sexto Sentido/1999). No entanto, o melhor de tudo desta última temporada foi colocar Kathleen Turner em destaque! A atriz que atuou ao lado de Douglas em sucessos como Tudo por uma Esmeralda (1984), A Joia do Nilo (1985) e A Guerra dos Roses (1989) pode não ser mais a beldade de Corpos Ardentes (1981), mas comprova que merecia ser mais lembrada pelos produtores que não a escalam para papéis no cinema. Sua química com Michael Douglas está intacta e ajuda a deixar a tristeza um pouco de lado com a ausência de Norman (Alan Arkin) na temporada. Claro que no desfecho Kominsky merecia ter o seu momento e a série o constrói de forma redondinha quando vista em perspectiva com as temporadas anteriores. Com o cinema olhando cada vez menos para os seus veteranos, Michael Douglas (que sempre foi um produtor esperto) já tem outras produções em vista para a telinha, será Ronald Regan na minissérie Regan & Gorbatchev e também aparecerá em E se..., a aguardada série da Marvel em que viverá novamente o cientista Hank Pym na brincadeira com os caminhos do universo cinematográfico da editora. Aos 78 anos, a aposentadoria de Michael Douglas parece cada vez mais distante.

O Método Kominsky (The Kominsky Method / EUA / 2018-2021) de Chuck Lorre com Michael Doulgas, Alan Arkin, Sarah Baker, Paul Raiser, Kathleen Turner,  Nancy Travis, Jane Seymour, Nancy Travis, Elisa Edelstein e Haley Joel Osment. ☻☻☻☻