segunda-feira, 25 de outubro de 2021

PL►Y: Falsos Milionários

Gina, Richard e Evan: rumo ao trambique perfeito. 

Suspeita-se que Old Dolio (Evan Rachel Wood) recebeu este nome em homenagem a um idoso que estava à beira da morte e que seus pais acreditavam que ela herdaria tudo que era dele. Como esta ambição não se concretizou, restou este nome estranho para uma garota que precisou crescer sob a responsabilidade de um casal de trambiqueiros. Vivendo de pequenos golpes, Robert (Richard Jenkins) e Theresa (Debra Winger), criaram a filha de uma forma bastante peculiar. Educada desde pequena para ser cúmplice das tramoias, sobrou pouco tempo para sua educação sentimental, o que a tornou uma jovem distante e incapaz de demonstrar emoções ou saber digerir seus próprios sentimentos. Além disso, crescer sempre sob a ameaça de despejo, ainda que morem em um escritório com uma parede que sempre escorre espuma em determinado horário, torna a rotina da família ainda mais esquisita. Eis que diante da necessidade de pagar o aluguel, o trio conhece Melanie (Gina Rodriguez), que se tornará cúmplice em alguns golpes e irá mudar a sólida dinâmica instaurada naquela estranha família. É preciso deixar registrado que a direção e o roteiro do filme são de Miranda July que em seu status de artista multimídia pode ser acusada de tudo, menos de ser convencional. Escritora, diretora, atriz, cantora e artista performática digital ou ao vivo, Miranda curte pitadas de nonsense em sua obra e neste seu terceiro longa-metragem, talvez ela tenha alcançado o seu resultado mais próximo do "normal". Eu disse próximo. Kajillionaire (o nome original que se refere à ideia de prosperidade que aqui se tornou o enganoso Falsos Milionários) parece ser uma dramédia bizarra sobre uma família complicada, mas consegue ser um tanto mais do que isso, quando começa a fazer sua protagonista desconfiar que existe algo de muito equivocado em sua trajetória. A começar pelo curso de maternidade que começa a frequentar para ganhar alguns trocados e depois com a chegada da luminosa Melanie, que começa a lhe proporcionar um desconforto jamais experimentado. É possível notar que até determinado ponto, ela era vista menos como uma filha e mais como uma cúmplice, sujeita às ideias, mandos e desmandos dos pais, pelo menos até que ela comece a questionar o que ela deseja para si mesma. É neste ponto, lá pela segunda metade do filme que a história engata de vez, demonstrando como o desejo pode ser uma força transformadora. Nesta guinada, Miranda capricha na sutileza, deixando o espectador perceber aos poucos a mudança que esta acontecendo na personagem de Evan Rachel Wood, num caminho que aos poucos se torna até óbvia dentro de uma estrutura anticonvencional. Embora seja um filme repleto de esquisitices, Miranda transforma aquela relação que aos poucos ganha contornos quase inevitáveis o aspecto mais natural de seu filme. Em seus filmes anteriores (Eu, Você e Todos que Conhecemos/2005 e O Futuro/2011), Miranda também assumia o posto de protagonista, aqui ela preferiu ficar somente atrás das câmeras e com isso cedeu espaço para a atuação mais estranha de Evan Rachel Wood (que está mais robótica do que em Westworld) que se torna um ótimo contraste ao carisma de Gina Rodriguez, que muda diretamente o tom do filme (e o foco de interesse da história) assim que aparece. Tão ambicioso quanto estranho, o filme peca pelo excesso de artifícios bizarros em seu início, mas tão logo deixa de enfatiza-los a todo instante, torna-se uma produção interessante. 

Falsos Milionários (Kajillionaire / EUA-2020) de Miranda July com Evan Rachel Wood, Gina Rodriguez, Richard Jenkins e Debra Winger. ☻☻☻ 

sábado, 23 de outubro de 2021

PL►Y: Honey Boy - O Preço do Talento

 
Noah e Shia: relação complicada. 

Acho que não resta dúvidas de que Shia LaBeouf é um sujeito complicado. Nascido em 1986 e se tornando nos anos 1990 um dos mais promissores atores infantis de sua geração, ele ensaiou uma boa carreira no cinema no início do século XXI, mas se envolveu em complicações tão variadas que seu próximo passo sempre parece incerto. Por conta das polêmicas envolvendo sua vida pessoal, seus bons trabalhos no cinema sempre ficam eclipsados (o último em Pieces of a Woman poderia ter lhe rendido uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, mas denúncias de abuso de sua ex-namorada praticamente o baniram da divulgação do filme). Seria um exagero considerar que Honey Boy é um pedido de desculpas a todas as besteiras que Shia já fez na vida, mas ao menos serve para entender os elementos que fazem a cabeça do ator funcionar do que jeito que funciona. O longa marca a estreia do ator como roteirista e convence como uma espécie de diário realizado para exorcizar os demônios do passado, especialmente os ligados ao problemático relacionamento com o pai, um ex-palhaço de rodeio que o acompanhou a maior parte do tempo enquanto a carreira do astro mirim engatinhava. Não por acaso, o pai é vivido por LaBeouf (indicado ao Independent Spirit e com muito material para Freud explicar) enquanto o ator (rebatizado de Otis) é vivido na versão mirim pelo sempre ótimo Noah Jupe (também indicado ao Independent Spirit) e na fase adulta por Lucas Hedges. Por conta de problemas com a polícia que o levaram a fazer acompanhamento psicológico (além de internação em uma instituição), Otis acaba realizando um diários sobre os acontecimentos que marcaram sua infância e que, provavelmente, contribuíram para seu diagnóstico de estresse pós-traumático. Eu não sei se de fato o roteiro é baseado neste diário (isso se ele realmente existiu), mas o fato é que o filme se constrói de forma bastante eficiente com base neste argumento. A narrativa consegue ser bastante sincera e costurar realismo com toques de fantasia (por vezes amparada por referências à carreira do ator) alcançando um resultado envolvente, embora melancólico e tenso com base na relação entre pai e filho. Embora outros personagens apareçam com destaque no decorrer da história, o ponto nevrálgico da narrativa é o relacionamento complicado entre os dois que revela aos poucos camadas bastante sensíveis e agressivas desta convivência. A diretora Alma Har'el (famosa por seus trabalhos em vídeos e documentários nos Estados Unidos) realiza um um belo trabalho em sua estreia fora de sua zona de conforto. Ela filma de forma tão crua que o realismo daquela relação transborda da tela e incomoda o espectador, seja nas relações ásperas que vemos na tela ou pelas consequências que vieram depois. Embora caminhe de forma quase aleatória, o filme tem um trajeto bastante particular a seguir e termina quase como o início de sua razão de ser. Seja como for, Honey Boy (ou o Preço do Talento, como foi chamado por aqui) cumpre suas intenções da forma que deveria, ainda que em uma clara alusão ao perdão em tempos de cancelamento. 

Honey Boy: O Preço do Talento (Honey Boy - EUA/2019) de Alma Har'el com Lucas Hedges, Noah Jupe, Shia LaBeouf, Laura San Giacomo, FKA Twigs, Clifton Collins Jr., Martin Starr e Natasha Lyonne. ☻☻☻☻

PL►Y: The Trip

 
Aksel e Noomi: casamento em  crise sobrevivendo a assassinos.

Presente entre as produções mais vistas da Netflix, The Trip é um verdadeiro deboche à sanguinolência. Suas cenas de violência são tão absurdas que beiram o cômico. Some isso a um casamento em crise e três bandidos calhordas que não primam pela inteligência e você terá um prato cheio para uma comédia bastante obscura dirigida pelo senso de humor peculiar de Tommy Wirkola. O diretor de Zumbis na Neve (2009) que se aventurou por Hollywood em João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013) e se tornou parceiro da Netflix no hit Onde Está Segunda? (2017) volta à trabalhar com a gigante do streaming repetindo sua protagonista, a sueca Noomi Rapace. Rapace vive Lisa, uma atriz que ainda não alcançou o reconhecimento que almeja. Casada com  um diretor insatisfeito pelos trabalhos na tv, Lars (Aksel Hennie), os dois resolvem passar alguns dias em uma casa casa isolada do pai de Lars. O que poderia ser um período para viverem bons momentos, logo deixa claro que será um momento complicado já que o casamento esfriou já faz um tempinho. Só que, ninguém imaginava que Lars iria querer se livrar da esposa por conta do seguro de vida ou que Lisa está disposta a inverter este plano ou que três bandidos cruzariam o caminho do casal - e os dois terão que engolir as desavenças para escapar do trio que resolveu aparecer por ali. Demora para que o filme coloque na mesa todas as cartas que tem na manga, chega até a abusar do recurso de voltar no tempo toda vez que uma novidade acontece - o que cria o efeito colateral de quebras de ritmo que nem sempre funcionam como deveriam. O fato é que entre torturas, ameaças, furos, tiros, cortes e muitas outras sandices regadas com muito sangue, Wirkola conta uma história de amor que tenta entrar nos eixos já que a vida do casal precisa que este sentimento seja reaceso, ou, pelo menos, demonstrem alguma cumplicidade. Como nos outros filme do diretor, ele não tem interesse algum de se levar a sério ou abordar questões relevantes junto aos seus personagens, aqui o principal é a sobrevivência e ponto. Se você tem estômago sensível é melhor não assistir ao filme repleto de cenas de riso nervoso, que por vezes parece uma versão revisitada do cultuado (e arrepiante) Funny Games (1997) de Mikael Haneke. Misturando edição nervosa, violência e jorros de sangue, The Trip serve para para passar o tempo, mas não traz nada que fique na memória por muito tempo. 

The Trip (I Onde Dager / Noruega - 2021) de Tommy Wirkola com Aksel Hennie, Noomi Rapace, Atle Antonsen, Christian Rubeck e André Eriksen. ☻☻

terça-feira, 19 de outubro de 2021

NªTV: Maid

Margareth e Rylea: a vida é dura.

Algumas produções tem o mérito de estrearem no momento exato para alcançar o sucesso desejado. Com todas as discussões atuais sobre relacionamentos abusivos, a minissérie Maid - que está em cartaz na Netflix se mostra um grande acerto ao se adequar à uma temática bastante atual através da história de Alex (Margareth Qualley), uma jovem que sonhava se tornar escritora mas engravida do namorado e embarca em um relacionamento bastante complicado, afinal, enquanto Alex tenta fazer o melhor que pode com os rumos que sua vida tomou, Sean (Nick Robinson), seu namorado, costuma buscar refúgio na bebida e, conforme Alex observa, ele se torna cada vez mais agressivo. É justamente quando ele cruza os limites daquela relação (e a frase "não quero tirar cacos de vidro do cabelo de minha filha novamente" ecoa um bom tempo em nossa cabeça), que ela foge com a menina (a fofa Rylea Nevaeh Whittet) sem saber muito bem para onde ir. Afinal, Alex tem um relacionamento complicado com a mãe (Andie MacDowell, mãe de Margareth na vida real), o pai sumiu faz algum tempo e ela não possui formação para exercer uma profissão rentável. Logo ela estará no meio do labirinto burocrático do Serviço Social do Tio Sam - e os momentos em que ela tenta entender a (i)lógica do sistema são bem interessantes -, ela também frequentará um abrigo para mulheres que sofreram com relações abusivas e encontrará um emprego de diarista que parece uma grande exploração. Entre brigas pela guarda da filha, promessas de uma vida melhor e várias outras situações que cruzam o seu caminho, é quase um milagre a forma como Maid consegue prender nossa atenção com a sucessão de dramas que recaem sobre sua protagonista. No entanto, a sua cadência parece tão realista, honesta e, sobretudo, esperançosa que torna-se uma empreitada envolvente para o espectador. Não por acaso, a minissérie é baseada em uma história real retratada no livro homônimo de Stephanie Land sobre a sua própria trajetória, talvez por isso, entre uma faxina e outra, a personagem demonstre sua sensibilidade literária para escrever crônicas sobre seus clientes (como "A Casa Pornô") ou divagar sobre um adolescente procurado pela polícia (após crescer em uma casa cheia de cadeados e um sótão assustador - que muda os rumos da narrativa). No entanto, a costura dos episódios seria completamente diferente se não contasse com Margareth Qualley na pele da protagonista. A estadounidense de 26 anos mostra-se cada vez mais interessante em cena e aqui apresenta sua performance mais cheia de nuances - e deve figurar nas premiações que se aproximam (acho que sua mãe seguirá pelo mesmo caminho na pele da instável Paula, mas eu também gostaria de ver Anika Noni Rose sendo lembrada pelo papel de Regina, mulher que vivencia uma transição muito interessante na história). Maid pode até não trazer grandes novidades, mas se constrói de forma bastante  contundente perante os temas que aborda de forma sensível e realista.

Maid (EUA-2021) de Molly Smith Metzler com Margareth Qualley, Andie MacDowell, Nick Robinson, Tracy Villar, Billy Burke, Raymond Abblack, Rylea Nevaeh Whittet, BJ Harrison e Anika Noni Rose. ☻☻☻☻

NªTV: Cenas de Um Casamento

 
Oscar e Jessica: amigos na vida real em crise na telinha. 

É preciso mais do que coragem para refazer um texto já filmado pelo mestre Ingmar Bergman, é preciso também um tantinho de cara de pau para lidar com todas as expectativas e a ampla disponibilidade geral de falar mal de sua obra que, jamais chegará aos pés do original. Afinal, poucos cineastas são capazes de construir atmosferas tão dramaticamente densas como Bergman, por vezes, tenho a impressão que seus dramas constroem verdadeiros filmes de terror psicológico dada a precisão da complexidade apresentada por eles. Não por acaso, vários diretores tentam imitar seu estilo e, por vezes, colhem até elogios. Nada do que escrevi até agora deve ser novidade para o israelense Hagai Levi, produtor, diretor e roteirista mais do que calejado, mas que resolveu fazer uma releitura atualizada do clássico Cenas de um Casamento do cultuado diretor sueco. Se a obra de Bergman foi concebida como minissérie de TV em seis episódios no ano de 1973, depois a obra foi estruturada como um longa com quase três horas de duração em 1974 (que levou para casa o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro daquele ano). Vale ressaltar também que o mergulho de Bergman pelos meandros de um casamento em crise deu origem a montagens teatrais pelo mundo (incluindo várias no Brasil), dito isso, é preciso ver esta minissérie da HBO com a clareza de que ela não ambiciona superar a obra de Bergman, mas construir uma releitura para os tempos atuais do clássico sueco. Dito isso é divertido notar que com todo o esmero da produção as maiores atenções recaiam mesmo sobre Jessica Chastain e Oscar Isaac, algo que parecia profetizado desde que os dois divulgaram o programa no último Festival de Veneza rendendo aquele vídeo comentado mundialmente - que se mostrou um verdadeiro triunfo marketeiro. Pena que durante a exibição dos cinco episódios na HBO (e sua disposição semanal no HBOMAX) a série tenha rendido mais comentários pela cena de nudez frontal de Oscar (dizem que por uma cláusula contratual em que Jessica solicitava à produção que seu corpo fosse exposto na mesma medida que de seu colega de elenco). Além de terem trabalhado juntos no magnífico O Ano Mais Violento (2014), Oscar e Jessica são amigos desde o tempo da escola de arte dramática (a renomada Juilliard School) e a intimidade de ambos é palpável em cada episódio, seja quando estão em crise ou quando se deparam com um laço afetivo mais forte do que imaginam. Aqui, Hagai mantém a espinha dorsal da história, faz uma alteração aqui e ali, mas principalmente insere muitas atualizações sobre as relações de gênero ocorridas nas quase cinco décadas que separa a minissérie da produção original. Mira (Jessica) e Jonathan (Oscar) são casados, possuem uma vida confortável, uma casa aconchegante e uma filha pequena, mas basta ver a entrevista presente no primeiro episódio para percebermos que aquele relacionamento começa a ruir. A partir daí o texto segue a rotina do casal, com cortes temporais a cada episódio de momentos específicos desta relação complicada. Entre a crise, uma traição, um divórcio, agressões (verbais e físicas), tentativas de reconciliação e desilusões variadas  a série se sustenta especialmente pelo trabalho da dupla que já provou ser das mais talentosas do cinema atual (embora nem sempre consigam papéis à altura de suas habilidades). Hagai ainda brinca com o fato de ser uma obra de ficção, iniciando os quatro primeiros episódios com cena de bastidores (em uma delas Oscar até comenta sobre o original, sinalizando uma das principais alterações feitas na dinâmica entre o casal). No entanto, a estrutura dos episódios cria um verdadeiro problema, já que o primeiro funciona muito bem ao apresentar os personagens, o segundo instaura a crise, o terceiro e o quarto se tornam o ápice da tensão deixando o quinto episódio meio sem graça em uma certa repetição cênica, o que faz do desfecho sem graça um verdadeiro pecado para a ambiciosa produção. 

Cenas de Um Casamento (Scenes of a Marriage / EUA - 2021) de Hagai Levy com Oscar Isaac, Jessica Chastain, Corey Stoll, Nicole Beharie e Sophia Kopera. ☻☻☻☻ 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

PL►Y: Interrompemos a Programação

 
Bartosz (à esquerda): um motivo para ver o filme. 

Assisti ao polonês Interrompemos a Programação por conta de Bartosz Bielenia (Corpus Christi/2019), sem saber muito sobre a história ou ter lido críticas sobre a produção. Assim que vi o rosto do ator na Netflix eu assisti ao filme. O mais engraçado por perceber que o filme é muito parecido com o americano Jogo do Dinheiro (2016), dirigido por Jodie Foster e estrelado por George Clooney e Julia Roberts. Curiosamente, o filme perde ritmo na segunda metade, assim como americano, apesar de optar por um caminho diferente, mas que não aprofunda muito as questões que deseja abordar. Interrompemos a Programação almeja ampliar o leque em torno da história de um rapaz que invade armado um estúdio de TV para vincular sua mensagem em rede nacional. O filme de Jakub Piatek tenta radicalizar algumas questões, se torna mais agressivo e até chocante em alguns momentos, mas por vezes derrapa na gratuidade e na pressa em finalizar algumas questões que sinaliza sobre os conflitos de seus personagens, sobretudo do protagonista cheio de possibilidades e defendido com talento por Bartosz. Na pele de Sebastian podemos perceber sua urgência, angústia e um tanto de vulnerabilidade, construindo um contraste interessante nas cenas mais agressivas ao lado da apresentadora que se torna refém (Magdalena Poplawska) e do segurança que entendeu as demandas do rapaz, mas que também é vítima da situação. A tensão está lá no ponto de partida, as atuações também são competentes, mas o texto começa a se perder nas intenções e se torna apenas repetitivo conforme avançam as negociações e dos contornos da cabeça quente de Sebastian. Até a atmosfera claustrofóbica amparada pela locação única em um estúdio, aos poucos se dilui e perde a chance de compor o filme ambicioso que queria ser. Se não houvesse seu anterior americano, talvez o filme impressionasse até um pouco mais, mas ao desviar para espantar a sensação de déjà-vu, acaba tomando um caminho mais cerebral que não consegue dar conta. O resultado deixa o gosto da decepção. 

Interrompemos a Programação (Prime Time / Polônia - 2021) de Jakub Piatek com Bartosz Bielenia, Magdalena Poplawska, Andrzej Klak, Cezary Kosinski e Pola Blasik. ☻☻

PL►Y: Piratas da Somália

 
Peters na Somália: a verdade por trás de uma notícia. 

Acompanho a carreira de Evan Peters já faz algum tempo, mas só recentemente me dei conta que o moço já tem 34 anos e deixou de ter aquela cara de menino melhor amigo do Kick-Ass (2010), parece que finalmente sua transição para a fase adulta foi legitimada com o Emmy de ator coadjuvante pelo trabalho na minissérie Mare of Easttown (que ainda não assisti). Antes ele já tinha feito um trabalho que provava sua disposição de deixar o papel de adolescentes no passado. Em Piratas da Somália, em cartaz na Netflix, ele começa com aquele jeitão adolescente sem rumo que já vimos em trabalhos anteriores (como no ótimo Animais Americanos/2018) e termina barbudo, como se a cara de menino devesse ficar de vez para trás. Aqui ele interpreta Jay Bahadur, um rapaz que ambicionava se tornar um jornalista renomado, mas que não vê sinais de ter o sonho realizado. Apesar de ter no quarto o pôster do clássico Todos os Homens do Presidente (1975) - que já estabelece o tipo de jornalismo em que acredita - sua vida segue um caminho completamente diferente. Ele trabalha para uma empresa que pesquisa lenços de papel em supermercados, mora no porão na casa dos pais e ainda amarga o rompimento com a namorada que se mudou para várias milhas de lá. Eis que uma crise de coluna acaba dando início a um divisor de águas em sua vida, afinal ele conhece um jornalista renomado (participação especial de Al Pacino) que acredita que para ser um bom jornalista não precisa de um diploma, mas de características inatas para se impor perante a demanda por notícias. Ao assistir uma matéria em um telejornal (sobre o que o título anuncia), Jay decide partir para Somália por conta própria (financiado pela família) e conhecer a realidade local para vender as informações a quem possa interessar - pelo menos esta é a ideia inicial até que ele resolva escrever um livro sobre seu contato com o país. O que dá graça ao filme é justamente a forma como Jay dribla o total desamparo e inexperiência para conseguir atingir seus objetivos. Em sua jornada ele conta com a ajuda de Abdi (Barkhad Abdi), que lhe serve de guia, tradutor e espécie de mentor para sobreviver naquela realidade. Aos poucos Jay consegue conhecer um pouco daquela realidade e ter uma visão bem mais ampla do país, seus piratas e problemas sociais. Escrito e dirigido por Bryan Buckley, o filme pode não ser uma obra-prima (a parte final tem uma queda de ritmo bastante brusca), mas consegue manter o interesse do espectador ao apresentar uma visão mais tridimensional do que  costumamos ver na imprensa sobre aquele país. Bem cuidado e com doses de humor temperando sua simpatia, Piratas da Somália é baseado em uma história real que gerou um livro de sucesso e cita até o fato que gerou o filme Capitão Phillips (2013) que rendeu para Barkhad Abdi uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, pelo papel do chefe dos piratas daquele filme (e aqui ele faz um papel completamente diferente se tornando um dos destaques da produção). 

Piratas da Somália (The Pirates of Somalia / Somália - Quênia - Sudão - África do Sul - EUA / 2017) de Bryan Buckley com Evan Peters, Barkhad Abdi, Al Pacino, Melanie Grifitth, Coral Peña e Robert Hobbs. ☻☻☻☻

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

PL►Y: Caminhos da Memória

 
Jackman: memórias sofridas...

Vou começar dizendo que não tenho dúvidas de que Hugh Jackman é um ator talentoso. Apesar de muita gente considerar que é na pele de Wolverine que o australiano tem seu melhor trabalho, o moço já demonstrou várias vezes que é capaz de muito mais. Talvez isso seja o que mais tenha pesado na hora de ter decretado a sua despedida do personagem junto ao avanço da idade (afinal, Hugh já completa 53 anos, 21 somados à idade apresentada no primeiro filme dos X-Men). No entanto, tenho pena do que ele fará da carreira daqui para frente, basta ver este Caminhos da Memória, sob um título que mais parece um documentário sobre neurociência esconde um filme cheio de ideias, mas que nem todo o talento envolvido é capaz de fazer decolar. Com roteiro e direção assinados por Lisa Joy (roteirista de Westworld) a história parece promissora com sua ambientação em uma Miami futurista inundada por conta do aquecimento global. Por conta desta catástrofe natural de escala mundial, muita gente perdeu a vida, além de amigos e entes queridos, de forma que surge um negócio bastante promissor que é revirar as memórias em busca dos momentos que deseja reviver. A trama gira em torno de Nick Bannister (Hugh Jackman) que utiliza uma parafernália tecnológica para que as pessoas tragam as lembranças desejadas novamente à tona. Se alguns o fazem por pura nostalgia, outros utilizam para lembrar acontecimentos importantes e até solucionar crimes.  Diante destas possibilidades, Lisa Joy constrói um cenário interessante para uma trama noir futurista, mas descamba logo para o romance mais tosco com pitadas de investigação policial, afinal de contas, Nick se apaixona por uma cliente (Rebecca Ferguson) que desaparece e a partir daí ele revira suas próprias lembranças para encontrar alguma pista sobre o que pode ter acontecido.  Conforme ele revira as memórias, o filme se torna cada vez mais sonolento. Com tantos recortes, idas e vindas, reviravoltas, surpresas e tudo mais o que você possa imaginar, o filme só esqueceu do principal que foi construir uma sustentação para o romance que lhe serviria de base. O clima entre o casal é construído de forma tão apressada que em momento algum eu fiquei interessado em saber que rumo aquela situação daria. Desperdiçando a estética original em sua costura (afinal, mistura referências de uma penca de filmes com eficiência), o filme confirma os cacoetes estilísticos de Westworld que cada vez mais depende dos truques narrativos para fazer de conta que tem uma história genial. Caminhos da Memória vai pelo mesmo trajeto, só que em quase duas horas de duração já deixa claro que não tem muita coisa para contar (só precisa se contorcer no que já foi dito e vivido várias vezes). 

Caminhos da Memória (Reminiscence / EUA -2021) de Lisa Joy com Hugh Jackman, Thandiwe Newton, Rebecca Ferguson e Natalie Martinez. ☻☻ 

NªTV: Round 6

Lee Jung-Jae (ao centro) e seus parceiros: topa tudo por dinheiro.

Eu estava devendo um comentário sobre Round 6 faz um tempo, mas tive problemas com meu notebook (companheiro de guerra há onze anos que desistiu de prosseguir os trabalhos neste mundo pandêmico). Cansado de muitas horas de home office, ele sucumbiu ao cansaço e eu fiquei em apuros pelo tempo que tentei ressuscitá-lo. Enfim, descanse em paz. Por conta disso meu post sobre a série sul coreana que virou febre mundial (e que ainda habita o posto das produções mais vistas da Netflix) sai somente agora porque é simplesmente impossível ficar indiferente à série. Nem vou entrar no mérito das pessoas querendo polemizar o malefício que o programa pode fazer às crianças, afinal de contas, está bem claro que o programa é destinado a maiores de dezesseis anos (e se uma criança tem acesso ao programa na plataforma, ela pode muito bem ver o filme 365 Dias numa tarde tediosa de outubro). No mais, se seu pequeno pedir para ver a série, vale dizer que quando crescer ele terá a vida toda para assistir, pede para ele esperar...por mais que ele tenha sido seduzido por aquela boneca gigante que ficou famosa nas redes sociais. Ela é a responsável pelo massacre do primeiro episódio que constrói a atmosfera do que estamos prestes a assistir nos nove episódios que compõem o programa sobre um grupo de endividados que topam entrar numa gincana sombria para apenas um se tornar milionário. Ganhar a grana parece fácil, já que as provas são inspiradas em brincadeiras infantis, a da tal boneca é da clássica "batatinha frita, 1, 2, 3", mas aqui quem ousar se mexer ou não cumprir a prova no tempo certo está eliminado, não apenas da  brincadeira, mas do mundo dos vivos. Seguem assim outras brincadeiras (a que me deixou mais tenso foi do cabo de guerra e depois do piso de vidro) que mais do que revelar os eliminados, aos poucos descasca a índole dos seus jogadores. Claro que não demora para que os jogadores questionem a loucura daquela situação, mas logo depois começam a imaginar que ganhar toda aquela grana (contabilizada pelo número de mortos a cada prova) pode valer a pena, assim, cabe ao espectador escolher os seus favoritos e roer as unhas sempre que a vida dele, ou dela, é colocada em risco. Entre endividados de estirpes variadas nós temos um rapaz bem sucedido que se afundou em dívidas, um viciado em jogo, um velhinho com tumor no cérebro, um paquistanês que precisa do dinheiro para voltar para casa, uma refugiada da coreia do norte que quer trazer seus familiares para perto e todo tipo de outros dramas. Os dramas são justamente os elementos que dão sustentação para a série, que aqui e ali tenta ampliar aquele universo secreto para além dos seus competidores (mas confesso que as histórias periféricas não me pareceram muito envolventes dada a resolução rapidinha de todas elas). De qualquer forma, Round 6 é a prova que a construção audiovisual da Coreia do Sul está no auge, especialmente pela forma como consegue criar uma alegoria social mesmo no cenário mais absurdo. Se o conterrâneo Parasita (2019) levou 4 Oscars para casa no ano passado, não duvido que Round 6 faça bonito nas premiações televisivas em breve. 

Round 6 (Squid Game  - Coreia do Sul / 2021) de  Hwang Dong-hyuk com Lee Jung-Jae, Park Hae-Soo, Wi Ha-Joon, Jung Hoyeon, Oh Yeoung-Su e Anupam Tripathi. ☻☻☻☻