sábado, 31 de julho de 2021

HIGH FI✌E: julho

 Cinco filmes assistidos durante o mês que merecem destaque:

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PL►Y: A Maldição dos Esquecidos

Florence: aquele filme para pagar as contas. 

Florence Pugh é uma atriz que recebe cada vez mais destaque no cinema atual e nada mais natural que filmes menos conhecidos de sua carreira comecem a chegar ao público perante à sua fase de sucesso. Foi assim que encontrei Malevolent, ou melhor, A Maldição dos Esquecidos perdido por aí. No filme ela interpreta uma charlatã que ao lado do irmão e dois comparsas, ganham dinheiro enganando pessoas que acreditam que ela consegue se comunicar com os mortos. Desde o início você sabe que o quarteto é formado por um bando de picaretas, mas eis que um dia acontece algo diferente e a moça começa a perceber que talvez ela realmente tenha capacidade de se comunicar com o sobrenatural. Parece que o dom foi herdado da mãe a personagem, que faleceu em circunstâncias sinistras por não conseguir silenciar os espíritos que a assombravam a todo instante. Quando Angela (Pugh) começa a ver e ouvir mais do que deveria, ela resolve parar com os golpes e evitar que outros fantasmas cruzem o seu caminho. No entanto, o irmão a convence a fazer um último serviço e eles vão parar numa casa em que três crianças foram mortas e a habitante da casa não consegue mais dormir com os gritos que a perseguem a todo instante. No entanto, nada é o que parece e a coisa fica cada vez mais macabra da metade para o final. É sempre engraçado como os filmes de terror ingleses gostam de seguir por caminhos diferentes de Hollywood, aqui ele começa lento, com pendores dramáticos e se levando a sério, mas quando chega a hora de revelar seus segredos, não tem pudores em construir algumas das cenas mais asquerosas que assisti recentemente. O pior é que quando o filme revela sua alma gore ele exige um bocado de nervos e paciência do espectador para chegar ao final sem graça. Florence Pugh faz o que pode com uma personagem que lhe oferece pouco para trabalhar, mas ao menos consegue manter o interesse da plateia para saber se sua personagem irá sobreviver ao tiro que sai pela culatra. Outro destaque do elenco é a veterana Celia Imrie, que vive a moradora da casa assombrada e que pode ser mais assustadora do que os fantasmas que você viu em outros filmes. No entanto, o filme é para ser visto e esquecer (embora algumas cenas permaneçam insistentemente na minha cabeça). 

A Maldição dos Esquecidos (Malevolent / Reino Unido - 2018) de Olaf de Fleur Johannesson com Florence Pugh, Ben Lloyd-Hughes, Scott Chambers, Celia Imrie, Daniel Campbell e James Cosmo. ☻☻

PL►Y: Noite de Reis

Roman: narrativa pela vida. 

O cineasta marfinense Philippe Lacôte esteve muito perto de ter uma indicação ao Oscar por seu segundo longa metragem. O filme Noite de Reis passou por várias seletivas para representar a Costa do Marfim no Oscar deste ano, mas acabou ficando de fora da lista final - o que causou surpresa em muita gente.  A produção ganhou destaque em vários festivais (concorreu até ao Leão de Ouro no Festival de Veneza) e foi lembrado em premiações como o Independent Spirit e chama atenção pela enorme colagem de referências que apresenta ao espectador. O filme gira em torno do jovem Roman (Bakary Koné), um rapaz que acaba de chegar em Maca, um presídio isolado no meio de uma floresta e que é conhecido por ser governado por seus prisioneiros. Quem dita as ordens no local é Barba Negra (Steve Tientcheu), mas este esta muito doente e sua liderança deve durar pouco tempo - o que gera uma verdadeira disputa pelo poder local. O líder designa que Roman será um contador de histórias naquele microcosmos e, embora o rapaz não faça a mínima ideia do que contar, ele precisa improvisar alguma coisa para que na noite da Lua Vermelha possa cativar os demais prisioneiros evitando não apenas a sua morte, mas uma verdadeira guerra no local. Nesta variação de Sherazade no conto das Mil e Uma Noites, Roman constrói uma narrativa que mistura elementos sociais, políticos e mitológicos de seu país. Não bastasse a imaginação do rapaz, o filme ainda conta com encenações teatrais feitas pelos prisioneiros com base na história contada, evocando uma teatralidade que nem sempre se encaixa bem na tela. Existe muito aqui da importância das histórias orais para a Costa do Marfim e um bocado de referências cinematográficas ao filme brasileiro Cidade de Deus (2002), seja pela tensão marginal que perpassa o filme, a fotografia ou as digressões do roteiro, no entanto, a opção por construir um choque entre o real e o onírico, o filme em alguns momentos se torna bastante irregular (e em determinado momento até um personagem ressalta que nada faz muito sentido) e se prende tanto à narrativa de Roman que deixa de desenvolver os personagens interessantes que estão ao seu redor. Lacôte parece construir um verdadeiro universo paralelo em seu filme, mas de lado em nome da colagem promovida por seu protagonista. Talvez por isso o filme perca fôlego em sua metade, mas ainda permanece interessante para quem quer conhecer uma cinematografia diferente da que vemos estrear toda semana por aqui. O filme foi o escolhido para encerrar a parceria entre o Telecine e o Festival do Rio, que desde o dia 17 de julho apresentou um filme inédito por apenas um dia, alguns eu já tinha visto, outros não consegui ver, mas a iniciativa foi realmente louvável!

Noite de Reis (La Nuit dos Rois / Costa do Marfim - França - Canadá - Senegal) de  Philippe Lacôte com Bakary Koné, Steve Tientcheu, Issaka Nawadogo, Laettittia Ky e Macel Anzian. ☻☻☻

sexta-feira, 30 de julho de 2021

PL►Y: A Arte de Ser Adulto

 
Pete Davidson: do Saturday Night Live para a tela grande. 

Eu nunca tinha ouvido falar de Pete Davidson. A primeira referência que tive sobre ele foi quando assisti recentemente Amizade Adolescente (2019) e pesquisei um pouco mais sobre sua carreira. Fiquei sabendo que ele trabalhou no Saturday Night Live e que está em ascensão em Hollywood. O mais engraçado é que no meio da pandemia ouvi comentários positivos sobre o novo filme de Judd Apatow e ao vê-lo disponível  no streaming, descobri que o protagonista era o próprio Pete. Depois que o filme terminou me dei conta de que parte da história é inspirada na própria vida do rapaz... De certa forma toda a minha desinformação colaborou bastante para que eu embarcasse nesta comédia dramática do diretor de Ligeiramente Grávidos (2007) e Bem Vindo aos 40 (2012) que tem temperado seus filmes com doses dramáticas. Considero que aqui ele alcançou seu melhor resultado, embora ele ainda tenha dificuldades de realizar cortes para deixar o filme mais enxuto, um corte de trinta minutos poderia fazer milagres em A Arte de Ser Adulto, mas do jeito que está já é bastante interessante. A trama gira em torno de Scott (Pete Davidson), um rapaz que não terminou o Ensino Médio e a irmã está prestes a ir para a faculdade. Scott também não trabalha e passa a maior parte do tempo vendo televisão e fumando maconha com os amigos. Scott mora com a mãe (Marisa Tomei, ótima) que se desdobra em dois trabalhos para dar conta das despesas da casa. O moço tem um "projeto" de relacionamento com uma amiga (Bel Powley bem diferente do habitual) que nunca é assumido como compromisso. A vida de Scott está simplesmente estagnada e sua mãe atribui isso ao fato dele ter TDA (Transtorno de Déficit de Atenção), mas ele considera que sua vida piorou muito depois que o pai, que era bombeiro, morreu em serviço quando ele tinha sete anos de idade.  O fato é que embora o filme seja uma comédia com pendores dramáticos, Scott tem um olhar bastante sombrio sobre a vida. É verdade que todo jovem passa por esta fase, mas enquanto a maioria faz disso a chance de fazer diferente, pessoas como Scott preferem cruzar os braços e ver a vida passar. Por ele, a vida continuaria do jeito que está para sempre e não teria problema algum. Se a irmã tenta lhe abrir os olhos (inutilmente) é quando a mãe arranja um namorado (que acaba conhecendo por consequência de uma inconsequência do filho), a vida dele recebe a oportunidade brusca de mudança. É então que surge o conflito entre Scott e o futuro padrasto, Ray (Bill Burr) e mudanças começam a acontecer na vida do rapaz. Muita gente irá estranhar a cadência desacelerada do filme e o desenvolvimento quase episódico da trama, mas confesso que eu gostei da forma como Appatow costura sua história que se torna até imprevisível diante do relacionamento que constrói entre os personagens (defendidos de forma inspirada por todo o elenco). Aos poucos A Arte de Ser Adulto se distancia das mazelas que a comédia americana tem feito com este tipo de protagonista e busca camadas mais elaboradas para se desenvolver. Seguindo por caminhos diferentes do habitual, o filme consegue ser original e envolvente, se tornando uma grata surpresa que foi até lembrada em algumas premiações. 

A Arte de Ser Adulto (The King of Staten Island / EUA -2020) de Judd Apatow com Pete  Davidson, Marisa Tomei, Bill Burr, Maude Apatow, Ricky Velez, Lou Wilson, Moises Arias e Pauline Chalamet. ☻☻☻☻

PL►Y: Verão de 85

 
Felix e Benjamin: me chama pelo meu nome. 

O cineasta François Ozon é o o cineasta europeu mais prolífico em atividade atualmente, chegando a lançar quase um filme por ano - e tenta fazer isso desde que estreou no cinema com o documentário Jospin s'eclaire (1995). De lá para cá já lançou de tudo: dramas, comédias, suspenses, melodramas, musicais, tragédias... é verdade que o preço da produtividade é manter a irregularidade do resultado, fazendo com que cada lançamento seja uma caixinha de surpresas: pode ser algo genial ou algo que você esquece no dia seguinte. No entanto, Ozon filma bem, traz quase sempre fluência para a sua história e, principalmente, costuma envolver seus personagens em um charme difícil de explicar (o que os torna tão sedutores para os demais sujeitos da trama como para a plateia). Em Verão de 85 este fator faz toda a diferença, já que é fácil se envolver com seus belos protagonistas. Aléxis (Felix Lefevbre) é o jovem protagonista de 16 anos que vive no litoral da Normandia e que um dia ao sair com o barco de um amigo, sofre um acidente e é resgatado por David (Benjamin Voisin), que não por acaso aparece para salvá-lo. O resgate logo se torna amizade e acaba até rendendo um emprego na loja que a mãe de David gerencia (vivida com o comprometimento habitual de Valeria Bruni Tedeschi). Os dois ficam cada vez mais próximos em um relacionamento cada vez mais intenso e poderia ser só mais uma história de amor entre dois rapazes, mas estamos falando de um filme de François Ozon. Tanto a beleza da fotografia emoldurando dois jovens atores quanto as locações belíssimas me fizeram imaginar no trailer que François Ozon queria fazer o seu Me Chame Pelo Nome (2017), mas desde o início (ou no trailer), deixava claro que existiria uma tensão na relação entre os dois rapazes - e colabora muito para isso que Alex seja tão ingênuo quanto David sabe como se aproveitar disso. No entanto, o que poderia dar um tom de suspense ao filme, acaba se diluindo gradativamente nos acontecimentos que são apresentados. Se paira no início a ideia de que Alex cometeu um crime, ela se dissolve de maneira bastante tola, deixando a sensação que o filme vendeu algo que não existia. O resultado é que na sua segunda parte o filme perde muito do seu ritmo envolvente e compromete a sessão em uma série de situações que parecem estar ali só para desmontar a funcionalidade da primeira parte. Nesta quebra brusca, quem mais sofre é a coerência da mãe de David, que parecia compreender tudo o que se passava ao seu redor e depois perde toda a lógica na trama e nem vou citar o péssimo aproveitamento de Kate (Philipine Velge) na trama. O filme é baseado no romance Dance on my Grave de Adam Chambers lançado em 1982, o que explica um pouco do clima próximo do oscarizado filme de Lucas Guadagnino, mas a impressão é que Ozon gostou do filme do colega e tentou incrementar o clima entre Oliver e Elio. A ideia funciona em sua primeira metade, mas desanda quando tenta seguir por outros caminhos. 

Verão de 85 (Été 85 / França - Bélgica / 2020) de François Ozon com Félix Lefevbre, Philipine Velge, Valeria Bruni Tedeschi, Melvil Poupaud e Bruno Lochet. ☻☻☻

quinta-feira, 29 de julho de 2021

PL►Y: A Guerra do Amanhã

 
Pratt: a fofura de sempre. 

Sabe aquele tipo de filme que para assistir você precisa desligar o cérebro? Pois é, sou daqueles que se eu desligar o cérebro e o filme for divertido ainda vale a pena. Mas tem aquele outro que desligar não é suficiente e você tem quase que arrancar o cérebro fora ou então sentir que ele derrete com a bobajada que ousaram torrar alguns milhões de dólares para filmar. Vou deixar a seu critério escolher em qual destas duas categorias A Guerra do Amanhã se encaixa. Eis que na atual frente fria eu resolvi ver um filme de ação para esquentar os ânimos (e acho que já mencionei por aqui que filmes de ação são excelentes soníferos para mim, não me pergunte o motivo... simplesmente acontece... e se eu acordar e continuar entendendo o filme, este ganha um lugar no meu coração pelo respeito ao meu cansaço de mero mortal proletariado). Admito que o motivo da minha escolha de assistir ao filme foi Chris Pratt, o ex-gordinho que virou astro com Guardiões da Galáxia (2014) e que anda precisando rever seus conceitos na hora de escolher projetos desde então. No entanto, não importa, ele é a prova viva de que para se fofo não precisa ser obeso, você pode ser sarado e te colocarem para bancar o brucutu, mas a fofura sempre estará lá. O pior é quando usam isso para prender sua atenção em filmes que não valeriam duas horas de sua vida. Enfim, Pratt interpreta Dan Forester, um ex-militar, casado e com uma filha pequena que atualmente ganha a vida como professor de Ensino Médio. Sua frustração é tentar retomar a carreira de cientista, mas nunca consegue. Eis que um dia ele está com os amigos reunidos para ver a final da Copa do Mundo (com direito a jogo do Brasil e seu craque Peralta...) e o campo é invadido por soldados vindos do futuro. Passado o susto inicial a coisa só piora... eles anunciam que vieram recrutar novos soldados para combater criaturas misteriosas que irão dizimar a humanidade no futuro. A premissa que já é absurda (nem vou entrar no mérito dos efeitos que isso pode gerar no futuro daquela gente, mas...) e se enrola ainda mais quando os recrutados são enviados para o futuro sem treino adequado em uma viagem no tempo desastrosa. Claro que os fãs deste tipo de produção não se preocupam muito com a coerência, mas o roteiro de Zach Dean capricha na baderna com a linha do tempo. Embora tenha criaturas realmente assustadoras, bons efeitos e cenas de ação frenéticas conjugadas com sentimentalismo rasteiro, o filme tem como ponto fraco o roteiro completamente estapafúrdio, mas que tem o mérito de convencer os produtores de que aquilo poderia funcionar ao ponto de ter um ator oscarizado (J.K Simmons parrudão) num papelzinho ingrato. Como já disse, está na hora de Chris Pratt ser mais criterioso com os textos que escolhe, ou então seria melhor ficar gordinho de novo e ser convidado para viver personagens mais interessantes do que o fortão de bom coração em todo filme que aparece. Aqui ele parece ter feito um favor para Chris McKay, que fez o divertido Lego: Batman (2017). Melhor seria ele não brincar mais com personagens de carne e osso da próxima vez. 

A Guerra do Amanhã (The Tomorrow War/EUA-2021) de Chris McKay com Chris Pratt, Yvonne Strahovski, Betty Gilpin, Sam Richardson, JK Simmonds, Jasmine Mathews e Edwin Hodge. ☻☻

terça-feira, 27 de julho de 2021

4EVER: Orlando Drummond

 
19 de outubro de 1919 ✰ 27 de julho de 2021

Orlando Drummond Cardoso nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1919. Se tornou ator, dublador e radialista. Ele começou a trabalhar como radialista nos anos 1940, iniciando seus trabalhos como ator na década seguinte em filmes como Rei do Movimento (1954) e Angu de Caroço (1955). Embora tenha realizado vários trabalhos na televisão a partir dos anos 1960, foi somente na versão televisiva da Escolinha do Professor Raimundo dos anos 1990 em que se tornou um rosto conhecido. Orlando ficou imortalizado na memória dos brasileiros como Seu Peru, personagem que havia criado em 1952 para a versão radiofônica do programa de Chico Anysio. O personagem fez com que o público reconhecesse o dono de uma voz que ficou célebre em vários personagens televisivos, era de Orlando a voz de Scooby Doo, Gargamel, Vingador, Tartaruga Touche, Vingador, Popeye, entre outros. O ator faleceu em decorrência de falência múltipla dos órgãos em sua cidade natal.  

PL►Y: Frequencies

 
Daniel Fraser e Eleanor: confundindo frequências. 

É sempre bom quando aparece um filme cheio de ideias e constrói uma história cheia de camadas, mesmo que nem sempre o diretor dê conta de tudo o que promete. Este é o caso de Frequencies (ou OXV - The Manual em seu título original esdrúxulo), longa de orçamento modesto, sem nomes conhecidos, mas que amplia tanto seus objetivos que quando termina alcança somente a metade do que desejava, mas ainda assim, fez mais do que noventa por cento dos filmes com que nos deparamos toda semana. Eu acho uma chatice quando um filme se anuncia ambientado num "futuro distópico" e talvez por isso, este seja uma grata surpresa, já que sabe tirar bom proveito do universo em que constrói para si ao fazê-lo um reflexo da nossa realidade de forma criativa. Aqui o diretor Darren Paul Fisher nos apresenta um mundo em que o destino das pessoas é marcado por sua "frequência". Os que possuem uma alta frequência estão destinados a grandes feitos em trajetória de vitórias e sucessos, uma vez que se acredita que sua própria natureza colabora para isso. Já os que possuem uma baixa frequência estão destinados a uma vida comum e quase irrelevante - e nunca se espera muito deles, já que a "natureza" quis assim. Neste mundo onde as crianças são batizadas com nomes de cientistas a estratificação social é marcada por castas demarcadas pela frequência e misturar pessoas de frequências diferentes pode gerar consequências irreversíveis. É neste ambiente que Marie e Zak se conhecem desde pequenos e, embora sejam relativamente próximos, existe uma linha que nunca pode ser cruzada no contato entre os dois. Vale ressaltar que a postura de Marie reflete muito a frieza deste mundo, embora ela demonstre emoções ao interagir socialmente, sempre fica claro o tom farsesco de sua postura. Enquanto Zak é uma simpatia, ela é o oposto, pelo menos até que ele a contamine com sua baixeza frequencial. O roteiro tenta explorar esta relação entre o que é elevado e o que é baixo, o que é nobre e o que é vulgar, o que é bom e ruim, deixando claro que estas classificações são estabelecidas com uma carga maior de subjetividade do que gostariam que fosse. Óbvio que é pura questão de tempo que os dois se apaixonem e vivam um amor proibido, que colocará à prova às convicções de um universo tão regrado. Embora o filme consiga lidar bem com as metáforas sociais e econômicas presentes em seu texto, além da interessante dicotomia entre a racionalidade e empatia, o longa tropeça quando insere elementos conspiratórios desnecessários em sua trama. Visualmente o filme é correto em sua fotografia de cores desbotadas e prevalência da cor branca emoldurando uma sociedade asséptica e sem cores vibrantes. O elenco também faz o trabalho direitinho numa sintonia que evita maiores destaques. Embora a maioria do elenco seja desconhecida, quem assiste a hilária série Derry Girls irá reconhecer o bendito fruto Dylan Llewellyn que vive o  Zak quando adolescente. Frequencies é um filme difícil de encontrar, mas vale a pena garimpá-lo por aí. 

Frequencies (OXV - The Manual / Austrália - Reino Unido / 2013) de Darren Paul Fisher com Daniel Fraser, Eleanor Wyld, Owen Pugh, Tom England, Ethan Turton, Dylan Leewellyn e Lily Laight. ☻☻☻

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Pódio: Florence Pugh

Bronze: a irmã caçula. 

3º Adoráveis Mulheres (2019) A estreia no cinema foi em 2014 e não demorou muito para que a inglesa Florence Pugh se tornasse uma das atrizes mais celebradas do cinema recente, tanto que aos vinte e três anos deixou muita atriz favorita para trás e cravou sua primeira indicação ao Oscar por seu trabalho como coadjuvante nesta esperta adaptação de Greta Gerwig. Pugh está irresistível como a caçula Amy March e faz bonito ao viver as duas fases da personagem com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo! Seu trabalho faz Amy ser ainda mais apaixonante que a protagonista Jo March de Saoirse Ronan. 

Prata: a musa pagã. 
2º Midsommar (2019) Muita gente acha que Florence merecia sua primeira indicação ao prêmio da Academia por ser a protagonista deste terror bizarro do diretor Ari Aster. Aqui ela vive uma jovem que acaba de passar por uma tragédia pessoal e está um tanto deprimida - e ela nem imagina que o namorado está doido para terminar o relacionamento. Se as coisas não vão bem, a ideia de fazer uma espécie de retiro espiritual parecia uma boa ideia até que... nada é exatamente o que parece. Na pele de Dani, Florence prova mais uma vez que tira de letra personagens complexas e é capaz de provocar arrepios com aquela cena final. 

Ouro: a esposa frustrada. 
1º Lady MacBeth (2016) Vendo a desenvoltura de Pugh neste aclamado drama independente, fica difícil acreditar que este é apenas o seu segundo filme para o cinema. Encarnando uma jovem que é enviada para um casamento infeliz e se envolve em uma série de situações inimagináveis para uma moça romântica e sonhadora, Florence faz bonito ao revelar gradativamente as camadas mais sombrias de sua personagem. Entre crimes, ameaças e um amante, esta Lady Macbeth baseada na ópera de  Dmitri Shostakovitch é aquele tipo de papel que é capaz de revelar uma grande atriz. Dito e feito - e ainda acho que ela merecia sua primeira indicação ao Oscar por este trabalho magnífico.