domingo, 31 de julho de 2022

HIGH FI✌E: Julho

 Cinco filmes assistidos no mês que merecem destaque:

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PL►Y: Em Família

 
Wang e Trevor: pendenga familiar. 

Confesso que não conhecia o trabalho de Patrick Wang que está em cartaz na MUBI com todos os seus  filmes por tempo limitado, mas confesso que fiquei instigado com o que vi no seu sensível filme de estreia: Em Família. O filme poderia ser a história de um casal homoafetivo e sua rotina com a criação de um filho, mas o destino (ou o roteiro) prepara um acidente de carro para Cody (Trevor St. John) e deixa Joey (Patrick Wang) com a tarefa de criar o pequeno Chip (Sebastian Braodziak), ou pelo menos seria assim se vivêssemos num mundo ideal... como não estamos, Joey irá se meter numa verdadeira pendenga judicial com a irmã do companheiro, que não apenas quer a casa em que viveu até o falecimento de Cody, como também quer a guarda legal do menino que está prevista no testamento deixado pelo falecido. Acontece que a história desta família tem alguns detalhes que serão esclarecidos somente no decorrer da trama em cenas de flashback que contam como os dois se conheceram e passaram a formar um casal e gerou o estranho testamento - que nunca foi revisto pelo falecido. Lembrando que o filme é de 2011, espero que a perspectiva apresentada aqui tenha mudado, já que ela beira ainda mais o absurdo (mas não duvido que ainda aconteça por aí). Se todos sabiam que Cody e Joey eram um casal, seria óbvio que Joey era a pessoa mais indicada para cuidar de Chip (fruto do casamento de Cody com a esposa que pereceu no parto) é o viúvo. No entanto, a ideia de uma vontade sagrada do finado (respaldada por um conservadorismo tacanha) perpassa toda a discussão do filme. Assim, não bastasse a dor de ter perdido o parceiro, o protagonista ainda perderá tudo conquistado afetivamente na relação. Esta pendenga familiar rende até uma cena de audiência das mais constrangedoras em que uma série de insinuações sobre a vida particular de Joey são postas em julgamento, mas que não dissipa a pergunta enunciada por ele na reta final: em que momento ele deixou de ser o Joey para se tornar um completo estranho daquela família? Em Família fica mais interessante quando paramos de demonizar o papel de irmã e percebemos como às vezes as pessoas são capazes de crueldades impensáveis para silenciarem a sua própria dor. Obviamente que ela sente falta do irmão e o sobrinho simboliza o que resta dele e faz com que deseje que esteja sempre por perto, mas por outro lado, isso demonstra um egocentrismo que só acarreta situações em que o preconceitos variados emergem sem grande esforço. Embora eu considere a longa cena da audiência um tanto apelativa e melodramática, o efeito pesadão é dissipado magistralmente na cena final. Em Família é um drama familiar, mas bem que poderia ser visto como um filme de horror em família, assim como outro filme sobre amores entre iguais e suas famílias "amigáveis", o bom O Amor é Estranho (2014). Ambos os filmes parecem beber na mesma fonte e tocam em feridas que pareciam não existir em torno de seus personagens gays e seus parentes amorosos...  

Em Família (In the Family / EUA-2011) de Patrick Wang com Patrick Wang, Trevor St. John, Sebastian Broadziak, Lisa Altomare e Conan McCarty. ☻☻☻☻

PL►Y: Persuasão

 
Dakota: fazendo o que pode. 

Não deixa de ser surpreendente que o atual filme a ser massacrado a ser lançado pela Netflix seja uma adaptação da cultuada escritora inglesa Jane Austen. Venerada por plateias até hoje, a autora costuma render boas adaptações para o cinema e, como ela não possui tantos livros assim (seis romances publicados, uma peça de teatro, um conto, duas obras incompletas e alguns textos que escreveu antes de ser consagrada), chegou a hora das refilmagens começarem a ser tornar comuns. Assim, alguns diretores tendem a buscar um diferencial para suas obras, assim como as comparações se tornam inevitáveis. Persuasão é uma obra póstuma de Jane, publicada em 1818, um ano depois da morte da escritora aos 41 anos de idade. Neste livro estão lá a visão astuta da sociedade da época, uma sensibilidade especial para desenvolver a situação das mulheres naquele período e aquela refinada ironia na abordagem de convenções sociais e relações de classe. No filme da Netflix dirigido pela diretora Carrie Cracknell (famosa por seus trabalhos no teatro e versões televisionadas no programa National Theatre Live) o que existe é a tentativa de modernizar o que já é bom - e o resultado não agradou. A trama gira em torno de Anne Elliot (Dakota Johnson), mocinha que foi pedida em casamento pelo amor de sua vida, Wentworth (Cosmo Jarvis), mas que foi persuadida a não aceitar a proposta por conta da origem humilde do rapaz. Acontece que ele foi para as forças armadas e ela seguiu a vida. Oito anos depois ele está de volta e ela continua solteira... cogitando que ter aceitado aquela proposta não era uma ideia tão ruim assim. Da trama original de Austin, sobrou exatamente esta premissa, já que todo resto é uma versão diluída de todo o estilo e intenções da escritora. Para os fãs da escritora trata-se de um sacrilégio, para o resto dos mortais pode ser um passatempo aceitável, ainda que o filme soe cada vez mais sem graça no decorrer de suas quase duas horas de duração. Até mesmo o recurso que coloca Anne quebrando a dita quarta parede e conversando com o espectador não parece bem utilizada. Se o longa já sofria comparações com as versões anteriores da obra, a coisa piorou quando o uso deste recurso de falar para a câmera rendeu comparações com a cultuada série Fleabag, especialmente pela ausência da qualidade de escrita esperta de Phoebe Waller-Bridge. Resta ver o esforço de Dakota Johnson para entreter a plateia ao lado do charme de Cosmo Jarvis e Henry Golding (que vive Mr. Elliot). O fato é que para além de Fleabag eu vi traços de uma tentativa de inserir a história num universo próximo de outra série de sucesso, Bridgerton da própria Netflix. Como dá para perceber, este Persuasão parece com coisas demais para soar como Jane Austen. 

Persuasão (Persuasion/EUA - 2022) de Carrie Cracknell com Dakota Johnson, Richard E. Grant, Henry Golding, Cosmo Jarvis, Jordan Long, Simon Paisley Day. ☻☻

PL►Y: A Professora do Jardim de Infância

Sevak e Maggie: boas intenções obsessivas. 

Assistindo à interpretação de Maggie Gyllenhaal em A Professora do Jardim de Infância, eu só lembrava de sua estreia na direção com A Filha Perdida (2021). Se no antológico Secretária (2002) a atriz de rosto meigo já demonstrava sua atração por personagens complexos em seus trabalhos como atriz (o que deixa o contraste ainda mais interessante), com sua estreia atrás das câmeras, demonstrou também extrema habilidade narrativa emoldurando este tipo de protagonista (tanto que foi indicada ao Oscar pelo roteiro adaptado do livro de Helena Ferrante). Caso o roteiro caísse nas mãos dela hoje em dia, provavelmente a Maggie iria tentar fazer deste seu novo projeto na direção. Desculpe se daqui em diante possa aparecer alguns SPOILERS. Não sei se é apenas na minha cabeça, mas enxergo um bocado de semelhanças entre os dois filmes. A primeira delas é que ambas tratam de professoras. A segunda é que ambas estão visivelmente insatisfeitas. A terceira é que a relação que possuem com os filhos vai de mal a pior. A quarta é que eu não ficaria surpreso se a personagem de Olivia Colman fizesse exatamente o que a de Maggie neste aqui se tivesse a chance - e existem semelhanças nos desdobramentos reservados ao roteiro sobre o "sequestro" de algo importante. Vamos à história: Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhaal) é a professora do título que parece ter deixado de achar graça no trabalho. A vida em família também não anda muito empolgante. Por debaixo de toda a rotina, percebe-se que existia uma mulher com grandes ambições literárias que foram silenciadas ao longo do tempo e das obrigações que ele trouxe. Sua vida recebe uma luz diferente quando ela descobre em sua sala um menino de cinco anos capaz de fazer poesias espontaneamente. Lisa fica fascinada com a forma como o garotinho diz seus pensamentos de forma poética e tenta contar com a ajuda da babá dele para descobrir outras preciosidades que ele possa recitar ao longo do dia. Jimmy (Parker Sevak) é um menino comum, que não recebe muita atenção da família, mas que aos poucos Lisa começa a construir uma verdadeira obsessão. Admiradora das criações do menino, ela começa a ter atitudes cada vez mais radicais em nome do talento que enxerga nele, mesmo que isso possa custar tudo o que construiu até ali. A diretora Sara Colangelo utiliza o encontro destes dois personagens em fases de vida completamente diferentes em suas vidas para que a professora comece a entrar em conflito com o que construiu em sua vida e os desejos que tinha para si. Diante das suas atitudes cada vez mais desesperadas existe um tanto de fazer o que se pode para preservar o  talento do menino, mas também um tanto de medo de cair no abismo que ela mesmo construiu para si perante o pragmatismo da vida adulta. A Professora do Jardim de Infância é um destes filmes aparentemente simples que se torna mais interessante quando notamos o que está em suas entrelinhas, e estas são escritas com maestria por Maggie em um dos melhores trabalhos de sua carreira de atriz.  

A Professora do Jardim de Infância (The Kindergarten Teacher/ EUA - 2018) de Sara Colangelo com Maggie Gyllenhaal, Gael Garcia Bernal, Michael Chernus, Parker Sevak e Sam Jules. ☻☻☻☻

sábado, 30 de julho de 2022

4EVER: Nichelle Nichols

 
28 de dezembro de 1932✰ 30 de julho de 2022

Se ainda hoje precisamos falar sobre a importância da representatividade na composição de elencos - e muitas vezes segue um debate acalorada sobre isso e aquilo -, imagino quando surgiu a ideia de em 1966 (em meio às discussões sobre os direitos civis dos afro-americanos) escalar uma atriz diferente para viver a tenente Nyota Uhura em Star Trek. Nascia então mais do que uma musa, mas uma inspiração para milhares de garotas ao redor do mundo. Imagino Nichelle Nichols ouvindo Whoopi Goldberg dizendo que ao vê-la na TV gritou pelos seus pais para celebrar sua alegria em ver uma mulher negra sendo apresentada não como empregada ou escrava, mas como uma tenente enviada para missões no espaço. Nichelle nasceu em Illinois numa família de dez crianças e antes de se tornar atriz foi cantora e dançarina. Nos anos 1970 foi contratada pela NASA para campanhas de recrutamento de jovens astronautas e em 2016 ganhou um Satellite Awards pelo conjunto da carreira. Embora tenha feito inúmeros trabalhos para o cinema e a TV, foi no infinito universo de Star Trek que a atriz encontrava maior notoriedade e a devoção de milhares de fãs ao redor do mundo. A atriz faleceu de causas naturais aos 89 anos. 

Na Tela: Elvis

 
Butler: dá logo o Oscar para ele!

Vendo Elvis de Baz Luhrman, lembrei quando ouvi aquele CD, o #1Hits (a famigerada coletânea com os maiores hits do Rei do Rock) e minha irmã caçula disse que preferia ver as apresentações dele cantando. Na hora eu disse que não tinha entendido, ela sabiamente respondeu "você acha que a gente gosta dele só por causa da voz?". Este é o espírito que esta cinebiografia dirigida pelo australiano Baz Luhrman consegue captar com perfeição. Embora as músicas do cantor esteja imortalizada em um legado inquestionável, o filme tenta reproduzir o impacto da figura de um branco cantando músicas de inspiração na música negra americana com toda a ginga, rebolado e entonações vocais numa época em que segregação e conservadorismo eram [sic?] palavras de ordem.  Quem conhece Baz Lurhman sabe que ele sempre capricha no visual, mas seu cinema não se conectava com o público desde Moulin Rouge (2001). Suas andanças pela seara dos épicos românticos (Austrália/2008) e das refilmagens (O Grande Gatsby/2013) não agradaram os críticos ou as plateias com seus resultados fora do tom. Aqui, com o perdão do trocadilho, nada está fora do tom. Baz demonstra principalmente ser um expert em construir uma narrativa musical de forma inebriante (vale lembrar que seu primeiro grande sucesso, Vem Dançar Comigo/1992 também tinha nas músicas um instrumento narrativo fundamental). Aqui, ele conta a história do garoto de Memphis nascido em 1935 e o impacto da música negra em sua vida desde pequeno. Se você acha a tensão racial nos Estados Unidos hoje acirrada, você não faz ideia de como era naquele tempo. O filme deixa claro como tirou a sonoridade que seria conhecida como rock do gueto especialmente pelo impacto de sua figura sobre as plateias femininas (e masculinas, já que mexia com as fantasias de ambos os lados). Nesta empreitada, Baz controla sua tradicional montagem picotada para que possamos apreciar ainda mais seu visual irresistível, tão colorido e luminoso quanto sedutor. No entanto, quem bilha mesmo é o pouco conhecido Austin Butler (e o fato de deixar seus cabelos louros em tons negros para o filme o torna ainda mais difícil de ser reconhecido). Butler é mais conhecido por fãs dos seriados Arrow e Carrie Diaries, mas até então não havia realizado nada tão grandioso quanto a sua encarnação de Elvis Presley, porém, parece que Baz Luhrman encontrou o ator num centro espírita da Califórnia e o escalou para personificar o protagonista. Butler faz um trabalho fenomenal de expressão facial e corporal, de forma que em poucos instantes você acredita que Elvis não morreu! Dando conta dos momentos mais dramáticos e mais, digamos, incandescentes do personagem sobre um palco, o ator já está cotado para o Oscar do ano que vem (e com chances verdadeiras de levar a estatueta para casa). Repleto de sucessos do Rei e números de palco, o filme pega leve no lado sombrio do astro (o vício em drogas, as traições, a crise no casamento e a decadência) para homenagear  a importância do artista, mas destaca bastante sua conflituosa relação com o misterioso Coronel Tom Parker (Tom Hanks),  um oportunista que percebeu todo o potencial do rapaz quando ele ainda era desconhecido. Embora muita gente considere que Hanks esteja caricato no papel e que a narrativa seja chapa branca demais, o que mais me incomodou foi alguns aspectos cafonas do roteiro quando resolve falar do amor dos fãs por Elvis, especialmente naquela parte final. O ideal era que o filme terminasse naquela última cena do cantor se despedindo da esposa Priscilla (Olivia DeJonge) que daria conta da emoção necessária para ficar na memória da plateia que sai animada do cinema. P.S.: fiquei com vontade de enviar uma carta para Baz Luhrman e sugerir mais três biopics, as próximas seriam de David Bowie, Bob Fosse e Cher. Acho que o visual do diretor faria a diferença para contar estas carreiras extraordinárias!

Elvis (EUA - Austrália) de Baz Luhrman com Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Kodi Smit-McPhee, David Wenham, Luke Bracey, Helen Thomson e Richard Rocburgh. ☻☻☻☻

PL►Y: Psychobitch

Elle e Tidemann: pena que o filme acaba...

Uma das sensações mais deliciosas do universo (e sempre que escrevo isso, penso em fazer uma lista prosaica listando as dez mais na minha humilde opinião) é você encontrar um filme do qual você nunca ouviu falar, assistir e perceber que ele é um verdadeiro tesouro. Tive esta sensação esta semana com Psychobitch, dramédia romântica adolescente norueguesa que estava prestes a sair da MUBI  - o que me fez correr para assistir na minha lista. O filme se passa quase o tempo todo dentro de uma escola em meio às situações mais corriqueiras da adolescência. A trama gira em torno do garoto exemplar Marius (Jonas Tidemann), que tem ótimo comportamento, tem boas notas, é esportista e precisa lidar com seu total oposto: Frida (Elli Rhiannon Müller Osborne), uma garota instável com fama de temperamental, irresponsável e um tanto doidinha (pois é, o título do filme é em sua homenagem). Eis que um professor resolve juntar os dois para fazerem um trabalho (e com isso melhorar as notas da menina) e, os dois começam a se estranhar até que começam a perceber que os sentimentos que começam a nascer entre ambos podem ser bastante transformadores para ambos. Este é o terceiro filme do diretor Martin Lund que demonstra aqui o quanto é esperto para saber que o melhor do cinema é compor uma cena e não ficar descrevendo para o espectador o que se vê na tela. Aqui os personagens não precisam ficar ressaltando oralmente as suas características para nos fazer entender o que se passa na cabeça de cada um deles (e estamos falando de adolescentes, o que torna tudo ainda mais complicado). Desde o início sabemos que Marius é um bom moço, assim como percebemos que existe um bocado de dor e ação defensiva no comportamento de Frida (que tem sua cota de fantasmas para exorcizar). O mais legal é a forma como o laço entre o jovem casal de fortalece e mexe um bocado com a estrutura das relações que os cercam, seja com os pais, com os colegas, com a pretendente que nunca sabe direito o que quer fazer... o fato é que Lund parece manjar bem sobre este universo e faz com que o filme cresça com as inseguranças de seus personagens, os medos, as pretensões e os conflitos com aquele momento em que você se vê diante da escolha de deixar de ser o que os outros esperam de você e ser o que você deseja. Psychobitch pode até ser previsível, mas é conduzido de forma impecável e bastante sensível sobre as dores da adolescência e os amores que serão eternos enquanto durem. É precisa ressaltar a importância da trilha sonora e o trabalho dos jovens atores no resultado final. Elli consegue nos fazer simpatizar gradativamente com sua personagem conforme o roteiro lhe oferece novas camadas, assim como Marius que por vezes tem algumas atitudes questionáveis em nome de uma reputação que nem ele sabe se quer continuar mantendo. Uma verdadeira pérola que se tornará um clássico juvenil europeu no meu calejado imaginário cinéfilo. 

Psycobitch (Noruega/2019) de Martin Lund com Jonas Tidemann, Elli Rhiannon Müller Osborne, Saara Sipila-Kristoffersen, Bethina Nærby e Eilov Gravdal. ☻☻☻☻

PL►Y: Eduardo e Mônica

Gabriel e Alice: outra versão de Eduardo e Mônica. 

Eduardo e Mônica é um clássico do rock nacional, além disso é uma das músicas mais populares (e fofas) da Legião Urbana. Aquele tipo de música que conta a história de personagens, mas que ao invés de toda a densidade da famosa Faroeste Caboclo (que virou filme em 2013 pelas mãos de René Sampaio), aqui a sensação é de leveza, descontração e alegria proporcionada pelo encontro com sua alma gêmea - ainda que por vezes, pareça que são diferentes demais para dar certo. Existe uma simpatia tão grande pela música que é como se aqueles personagens fossem velhos conhecidos que, sempre que ouvimos a música, lembramos que existem e a história de ambos se passa na nossa cabeça feito um filme. Levar uma história destas ao cinema era uma ideia que já parecia ter metade do apelo perante o público garantido. A outra metade ficaria por conta da capacidade do cineasta e a equipe honrarem o legado da canção em tom leve e despretensioso. No entanto, mais uma vez, tenho a sensação que René Sampaio escuta outras versões das músicas da Legião quando resolve fazer um filme sobre elas. No caso, a versão que ele ouviu de Eduardo e Mônica deveria ser um LP arranhado que e sem a parte final da faixa. Se tenho minhas reclamações sobre o filme de Faroeste Caboclo, aqui elas são maiores ainda. Em Faroeste pelo menos havia a proximidade com a atmosfera da composição de Renato Russo, aqui, ele filma o que poderia ser uma despretensiosa comédia romântica como se fosse criar um drama denso baseado em Pais e Filhos. Não combina. Pouca coisa combina para falar a verdade. Os anos 1980 parecem presentes somente na trilha sonora de hits daquele época (embora misture punks ouvindo B52's), tem muita festa estranha com gente (não tão) esquisita (este deve ser o trecho favorito do diretor sobre a história do casal). Ele também lembrou que Eduardo jogava futebol de botão com seu avô, mas desperdiça todas as chances de diálogos e assuntos que a canção oferece para as conversas entre os dois. Chega a dar raiva como as preferências de ambos é simplesmente jogada no meio das conversas até que eles comecem um romance que não ata, desata ou empolga. O Gabriel Leone está bem como Eduardo e o torna convincente com o que o roteiro capenga lhe oferece. O maior problema está na escalação de Alice Braga para viver a Mônica. Desde que soube de sua escolha achei algo bastante problemático. Todo mundo sabe que ela a personagem é mais velha que sua cara metade, mas Alice já está beirando os quarenta e está longe de ter a leveza que a personagem pediria para convencer ao lado de um garoto que "tinha dezesseis". Na sua concepção, a Mônica é uma chata prestes a ficar velha e sozinha. Assim, a diferença entre os dois aparece principalmente porque ela e Gabriel estão em filmes diferentes que teimam em se misturar por alguma magia estranha da montagem final. Difícil convencer que os dois são caras metades destinadas a passar a vida juntos, acho que nem um, nem outro são apaixonados para isso.  Para completar a estranha sensação que o filme oferece, no final surge todo o elenco cantando a música com uma animação que ficou fora de todas as cenas do filme. Sendo mais denso do que precisava (ele começa com cinzas de alguém sendo jogadas ao vento e termina com o clássico verso "quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração" exposta de forma, digamos... "tão criativa"), a pretensão pesou sobre o projeto.  Prefiro botar meu LP (anos oitenta, tá pessoal) e ouvir a música fazendo o filme na minha cabeça. É muito mais divertido. 

Eduardo e Mônica (Brasil - 2022) de René Sampaio com Gabriel Leone, Alice Braga, Juliana Carneiro da Cunha, Otávio Augusto e Victor Lamoglia. ☻☻

domingo, 24 de julho de 2022

Pódio: Michelle Yeoh

Bronze: A Sogra Milionária. 

3º Podres de Ricos (2018) Nascida na Malásia em 1962, Michelle Yeoh estudou balé desde os quatro anos de idade e foi para Londres estudar na Royal Academy quando era adolescente. Pouco depois, foi premiada como Miss Malásia e desde que chegou em Hollywood com 007 - O Amanhã nunca Morre (1997) a ideia de viver personagens femininas empoderadas se tornou constante em sua carreira. Falta só uma indicação ao Oscar para consagrar de vez sua carreira  - e ela passou bem perto como a milionária Eleanor Young que fará de tudo para seu filho não correr o risco de sofrer um golpe do baú. Michelle é pura elegância na pele de uma sogra bastante desconfiada. 

Prata. A Guerreira Destemida. 
2º O Tigre e o Dragão (2000) Não sou grande fã deste filme de Ang Lee, mas é inegável o apelo que o filme ostenta ao redor do mundo com sua plasticidade e lutas hipnóticas. No meio de tudo isso, Michelle Yeoh brilha como Yu Shu Lien, uma guerreira responsável por entregar uma espada lendária ao governador Yu, mas nem tudo corre como o esperado. Yeoh é uma das responsáveis por temperar toda a ação do filme com doses generosas de obstinação e paixão, gerando algumas das melhores cenas da produção. O filme ganhou 4 Oscars (filme estrangeiro, fotografia, trilha sonora e direção de arte), mas faltou indicar a atriz por seu trabalho fascinante (que foi lembrada somente no BAFTA). 

Ouro: A Mulher no Multiverso. 
1º Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022) Depois de passar os últimos anos servindo de coadjuvante de luxo em todo tipo de produção, a atriz ganhou finalmente um papel capaz de fazer com que todo o seu talento seja explorado. Na pele da imigrante chinesa que se vê envolvida numa verdadeira conspiração no multiverso, Michelle faz de tudo. Faz drama, comédia, romance, luta Kung Fu e guia a plateia em uma narrativa tão frenética quanto ramificada. O mais legal é que em momento algum o filme perde seu ritmo ao conduzir a plateia nesta deliciosa sandice. Posto entre os melhores lançamentos do ano, a torcida para o Oscar finalmente lembrar da atriz é grande!