quinta-feira, 26 de março de 2020

PL►Y: 45 Dias sem Você

Rafael e Júlia: viajando para esquecer um amor perdido. 

Não sei se vocês já tiveram esta vontade, mas de vez em quando sinto vontade de ver um filme do qual nunca ouvi falar, que nunca li nada a respeito e que não faço a mínima ideia de onde ele saiu. Na época de serviços de streaming, encontrar um bom filme assim é como achar uma agulha no palheiro dando um tiro no escuro. Foi mais ou menos assim que encontrei o simpático 45 Dias sem Você. A ideia é bem simples: Rafael (Rafael De Bona que acaba de estrear na HBO com a série Todxs Nós) é abandonado pelo namorado sem maiores explicações e parte para visitar amigos em diferentes países. O diretor Marcelo Gomes conduz a história de forma que deixa bem claro que aquela situação pode acontecer com qualquer pessoa. Na primeira escala da viagem, fica na casa de Julia (Julia Corrêa) uma amiga atriz que está cheia de esperanças e dúvidas perante a chance de viver Ofélia em uma adaptação de Hamlet. Na segunda visita ele reencontra um amigo nervosinho (Flávio Lucindo) em Portugal, o amigo está atravessando uma fase estranha no namoro – o que rende situações ainda mais engraçadas do que no primeiro ato. Já voltando para a América, ele faz uma parada na Argentina para rever uma amiga (Mayara Constantino) que irá ajudar a colocar algumas coisas no lugar. A química entre os personagens é sempre presente e o humor do filme é esperto, lembra muito a agilidade que vemos em alguns seriados, mas quando revisita as dores de Rafael o filme fica mais sério, mas sem perder o tom. A edição é bastante eficiente, a trilha sonora também é agradável, a fotografia não tem pudores em demonstrar que foi realizada com uma câmera digital (e o manuseio dela também deixa bem evidente como é mais prática para captar locações e ângulos). Embora seja bastante discreto, Rafael de Bona constrói um protagonista do qual é fácil de gostar. Bem humorado em suas mazelas e sempre disposto a uma boa conversa com seus anfitriões, o filme caminha sem firulas em sua generosidade para deixar os coadjuvantes brilharem quando precisam. Os mais conservadores provavelmente ficarão desconfortáveis com alguns beijinhos e a pequena participação de Ícaro Silva (o rosto mais famoso do elenco) que deixa clara a sexualidade do personagem de forma bastante espontânea. 45 dias sem Você foi realizado com baixo orçamento e tem como maior virtude sua despretensão em contar uma história de amor e amizades com leveza e certa melancolia. Uma ótima surpresa!

45 Dias sem Você (Brasil/2019) de Marcelo Gomes com Rafael De Bona, Mayara Constantino, Júlia Corrêa, Flávio Lucindo, Cath Johnson e Ícaro Silva. ☻☻☻ 

PL►Y: Doutor Sono

Ewan: como causar sono na plateia.

Uma das minhas resoluções quando retomei as atividades aqui no blog foi que não perderia tempo escrevendo sobre filme que não valem a pena (eu me prometo isso várias vezes desde que comecei os trabalhos por aqui em 2010, mas vivo tendo recaídas). Como sei que não cumprirei a promessa, irei abrir raríssimas exceções para aqueles filmes que merecem comentários, nem que eles sejam ruins. Um deles é Doutor Sono, uma das obras mais decepcionantes que já assisti na vida! Na época que o filme estreou nos cinemas eu estava doido para assistir, afinal, era a história que acompanhava o menino de O Iluminado(1980) na fase adulta. Pois é, o protagonista é aquele garotinho que conversava com o dedo, andava de velocípede por um hotel mal assombrado, tinha visões com gêmeas macabras e via o pai pirar até perseguir a família com um machado. Confesso que nunca li o livro de Stephen King e que a lembrança que tenho da história é do clássico de Stanley Kubrick. Obviamente que é covardia comparar o trabalho de qualquer cineasta com o genial Kubrick. Basta perceber que O Iluminado está bem longe de ter a estética dos filmes de terror tradicionais. Sua atmosfera é mais sugestiva, sua fotografia é banhada de luz e a história acontece quase  nas entrelinhas do relacionamento daquela família. É famosa a história que Stephen King odeia a versão que Kubrick deu para o filme, principalmente por ter mudado vários elementos a despeito do que o escritor achasse. Ironicamente, o filme se tornou um clássico e uma das adaptações mais elogiadas da obra. Retomar esta relação complicada entre  filme e livro faz parte dos desafios desta continuação que fica pelo meio do caminho. Porém, o maior problema não é este, mas a verdadeira confusão que seu roteiro se transformou. Não se pode resgatar um personagem do quilate de Danny Torrance e transforma-lo em um quarentão perdido para ser mero coadjuvante. Quando escolheram Ewan McGregor, eu pensava até que ele estaria presente nas premiações de fim de ano... mas infelizmente seu icônico personagem é subaproveitado numa trama esquisita sobre pessoas que aspiram a alma de crianças. Dá até tristeza imaginando todo o potencial que a vida de Danny após aquele incidente poderia gerar na trama, mas o filme acha que coloca-lo em ambientes decadentes e colocar meia dúzia de cenas com referência ao seu passado já basta para entendermos sua complexidade. Ao invés de ser Doutor Sono, o filme deveria se chamar A Mulher da Cartola, provavelmente ele faria menos sucesso, mas seria mais honesto com as pessoas que pagaram ingresso para ver esta enganação. A tal Mulher da Cartola (Rebecca Ferguson tirando leite de pedra) é a pessoa que lidera o grupo que suga alma de crianças e não faz muito coisa além disso mesmo. Lá pelas tantas aparece uma garotinha na história e Danny tem menos importância ainda na história. Para tentar dar um jeito na propaganda enganosa, o filme leva Ewan para o hotel onde tudo começou e a batalha final acontece por lá. Com duas horas e meia de duração e décadas de espera, a plateia e o personagem do título mereciam maior consideração. O pior é que até a direção de Mike Flanagan (da série A Maldição da Residência Hill/2018), que já fez uma adaptação muito melhor de Stephen King em Jogo Perigoso/2017) me deixou esperançoso com este filme, mas  o resultado é uma grande perda de tempo. Reveja O Iluminado e crie uma fan-fic sobre o menino crescido, com certeza será mais interessante. 

Doutor Sono (Doctor Sleep/EUA-2019) de Mike Flanagan com Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran e Carl Lumbly. #

PL►Y: O Poço

Ivan e Zorion: presos na hierarquia da fome. 

Com os cinemas fechados durante a pandemia, era evidente que a atenção se voltaria para os filmes lançados em streaming e em poucos dias o espanhol O Poço se tornou o hit do momento. Alçado a filme mais visto da semana por conta dos vários comentários em redes sociais, a produção é uma grata surpresa por vários fatores. A primeira é que endossa como a Netflix diversificou o acesso do espectador a produções de vários países e, por conta disso, começamos a nos familiarizar com estéticas diferentes das grandes produções americanas. A segunda é um fruto também deste acesso a produções com diferentes pontos de vista na construção de uma narrativa. Embora ensaie uma explicaçãozinha aqui e outra ali, O Poço está bem longe de criar uma estética realista, pelo contrário, em sua parte final as conotações surreais são as que ganham mais força. O filme parece abordar um experimento social, uma espécie de  plataforma onde diversas pessoas habitam andares diferentes. Uma vez por dia, uma mesa desce a partir do andar mais alto com um verdadeiro banquete, no entanto, as pessoas que estão nos andares de baixo estão sujeitas a comerem o que as pessoas dos andares de cima deixarem. Ou seja, quanto mais os primeiros andares comerem, menos as pessoas dos andares de baixo terão para comer (são mais de duzentos andares). Vale destacar que as pessoas podem mudar de andar de uma hora para outra, passarem de um onde recebia comida para outro em que apenas restam copos e talheres vazios. Diante da fome, do desespero e um bocado de loucura tudo pode acontecer . Dirigido pelo estreante  Galder Gaztelu-Urrutia, o filme é bastante eficiente nas alegorias que utiliza - e estas caíram como uma luva na histeria coletiva que se espalhou pelo país, especialmente com relação às compras exageradas que comprometem a vida do outro que chegou depois (eu, por exemplo, faço parte do time que não consegue comprar álcool em gel e tenho somente meio frasco em minha cozinha, assim como tenho que dar conta de uma senhora de 78 anos que não consegue achar insulina com a mesma facilidade de antes). Com estética econômica e bem cuidada, trilha sonora que remete ao que Kronos Quartet fez para (o pesadelo) Réquiem para um Sonho (2000) e um punhado de cenas desagradáveis, o filme é separado em três atos. O primeiro talvez seja o mais bem resolvido ao apresentar aquele universo para o espectador através dos olhos de um novato (Ivan Massagué) diante da naturalização do horror pelo veterano (Zorion Eguileor) que considera tudo óbvio. No ato seguinte o filme recebe o acréscimo de uma atriz que fiquei muito feliz em rever, na pele de alguém que entende aquele mecanismo de outra forma,  a excepcional Antonia San Juan (a Agrado de Tudo Sobre Minha Mãe/1999) apresenta um ponto de vista diferente naquele universo. O terceiro ato foi o que considerei o mais cansativo, embora seja bastante enfático sobre como "uma causa" pode se diluir bastante em posturas que estão longe de serem as corretas e se mostra, por vezes, contraditórias na posturas de quem as defende. Suas ideias podem ser nobres, mas sua postura, nem tanto...  Não faltou gente ressaltando que o filme é uma grande metáfora ao capitalismo e suas classes sociais, na verdade o filme é bem mais do que isso. É sobre pessoas presas em seu egoísmo e a gigantesca dificuldade de criar empatia pelo outro. Obviamente que dentro de um sistema em que estes problemas encontram espaço para se propagar a coisa piora consideravelmente, no entanto, será que as pessoas querem realmente mudar a estrutura a que estão presos? Com esta pergunta O Poço mostra que o fundo está logo ali e, quando chegar nele, sempre se pode cavar mais um pouquinho.

O Poço (El Hoyo / Espanha - 2019) de Galder Gaztelu-Urrutia com Ivan Massagué, Sorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale e Mario Pardo. ☻☻☻☻ 

terça-feira, 24 de março de 2020

Combo: Taika Waititi

05 Boy (2010) é nome do menino que sonha com o retorno do pai que é idealizado como um dos caras mais legais do mundo (mas na realidade não é nada disso). Taika Waititi vive o pai do protagonista e capricha nos exageros para demonstrar o quanto ele está longe de ser exemplar! Este é o segundo longa-metragem do cineasta que tem uma origem incomum: é filho de um fazendeiro maori e uma professora judia. Esta origem multifacetada revela muito da forma como o diretor concebe suas histórias, seja na escolha do elenco, no senso de humor e uma certa nostalgia  na construção de uma atmosfera quase fantasiosa sobre busca das origens. 

04 Thor Ragnarok (2017) Dê milhões de dólares na mão de um diretor que sempre concebeu o cinema como divertimento (mas sempre teve restrições de orçamento), dê a ele liberdade para brincar com heróis de histórias em quadrinhos feitos de carne, osso e CGI e o resultado é o multicolorido Thor Ragnarok! Muita gente levou um susto ao ver o que Waititi fez com o que começou nos cinemas com aura shakesperiana. O filme é uma verdadeira ode ao momento mais psicodélico dos quadrinhos da Marvel e, ironicamente, trata justamente do fim do mundo do Deus do Trovão com muito humor. De onde tiraram a ideia de Waititi dirigir um filme da Marvel? Não sei, mas funciona. 

03 Fuga para Liberdade (2016) Um menino órfão que nunca consegue se adequar às famílias que cruzam seu caminho. Um homem rabugento que não faz a mínima ideia do motivo de sua esposa ter adotado um menino. Eis que o garoto decide fugir e começa uma aventura inusitada onde os dois são perseguidos pelas autoridades locais. O mundo ainda estava conhecendo o frescor do cinema de Waititi quando este filme estreou e fez o maior sucesso na Austrália. Com boas atuações do sumido Sam Neil (que tem aqui um dos seus melhores momentos) e do precoce Julian Dennison (que depois fez Deadpool2), o filme é uma boa pedida para uma sessão da tarde divertida e despretensiosa.

02 O Que Fazemos nas Sombras (2014) Um documentário sobre vampiros estrangeiros de épocas e lugares diferentes que vivem na Nova Zelândia? Quem mais poderia ter uma ideia dessas além de Taika Waititi? Ninguém, oras! Mostrando o cotidiano inusitado de um trio de vampiros, o filme é um dos mais divertidos que eu já assisti! Entre servos, vampiros novatos, lobisomens, caçadores de vampiros, A Besta em pessoa e brigas pela tarefa de casa ser feita, o filme se desenrola com delicioso ritmo fake e fez tanto sucesso que virou até série para a televisão no ano passado.

01 Jojo Rabbit (2019) Quase que este filme fica em segundo lugar, mas quando me dou conta da coragem e do perigo que Taika Waititi assumiu ao criar este projeto... ele merece o primeiro lugar. O reconhecimento pelo equilíbrio que o filme busca entre o humor e a seriedade é ligada com a acidez típica do diretor! O resultado foi premiado no Festival de Toronto e levou para casa o Oscar de Roteiro Adaptado. Quem poderia contar uma história sobre um menino que tem Hitler como amigo imaginário em meio a Segunda Guerra Mundial? Quem além de Taika Waititi levaria uma sandice dessas adiante? Ninguém, oras!

Na Tela: Jojo Rabbit

Taika e Roman: amigo imaginário perigoso. 

Faz um tempo que acompanho a carreira do neozelandês Taika Waititi, tempo suficiente para saber que ele tem uma ideias muito estranhas, mas que casam com seu senso de humor ácido e sem firulas. Quando descobri que depois de ganhar fama mundial com Thor Ragnarok (2017) o novo projeto de Waititi era levar para as telas uma história sobre um garotinho que tem como amigo imaginário Adolf Hitler... juro que pensei que ele havia surtado de vez. Todo mundo deve ter dito isso para ele. Com o roteiro pronto e embaixo do braço, foi difícil conseguir dinheiro para bancar a produção, assim como convencer o elenco a entrar nesta sandice. Embora o mundo hoje esteja vivendo um clima extremista polarizado assustador, o livro que inspirou o filme foi lançado em 2004 e somente uma mente como de Taika poderia imaginar um longa baseado nele para lançar em tempos perigosos. Obviamente que polêmicas em torno do filme não faltam, mas penso que ele foi concebido para ser do jeito que é, incluindo suas provocações. A começar que o Hitler do filme (vivido pelo próprio diretor de origem judaica) não é aquele que conhecemos nos livros de História, mas uma fantasia criada por um menino que sonha em ser um pequeno soldado nazista. Se você considera isso ridículo, basta lembrar de quem idolatra líderes que vivem dizendo sandices por aí com um bando de gente para dar razão ainda. O amigo imaginário do pequeno Jojo pelo menos é feito de forma quase Chapliana por Taika, mas as falas hediondas estão todas ali e, por incrível que pareça, a postura de muitos seguidores na Alemanha da Segunda Guerra Mundial não era diferente do que se vê no filme. É verdade que aqui o apelo cômico está presente através do exagero caricatural, mas que só ressalta o que já foi real. Não podemos esquecer que Hitler não chegou ao poder sozinho e se conseguiu fazer o que fez foi por conta dos fieis seguidores que abraçaram suas ideias questionáveis. Jojo (o ótimo estreante Roman Griffin Davis) é um deles, assim como seu amigo irresistível Yorki (Archie Yates), como freio para as ambições do desastrado Jojo está sua mãe (Scarlett Johansson indicada ao Oscar de coadjuvante), que sabe o filho que tem e, mesmo assim, abriga uma menina judia (Thomasin McKenzie) em segredo enquanto os campos de concentração já existem. É nesta relação entre Jojo e a menina que o discurso em que o menino acredita se desmonta aos poucos. Esta relação já foi vista sob outro prisma em O Menino do Pijama Listrado (2008) e aqui o resultado chega ao mesmo objetivo por caminhos diferentes. Houve gente que reclamou que o filme enquanto comédia "incomoda" - como se isso fosse um defeito, a intenção de Waititi é esta mesma, basta ver a origem da comédia clássica para perceber que o objetivo é este: desmontar o espectador pelo riso para tocar em assuntos sérios minutos depois.  Assistir Jojo Rabbit é perceber um diretor ousando tocar num vespeiro e buscar o equilíbrio o tempo inteiro com o que tem em mãos. Não é uma tarefa fácil e só ajuda o espectador a ficar apreensivo com o que vê na tela. Se nem o Oscar de roteiro adaptado te motiva a ver o filme, vá assistir pelo excelente trabalho de Roman e Archie, os meninos são espetaculares e valem o ingresso!

Jojo Rabbit (Nova Zelândia / EUA / República Tcheca - 2019) de Taika Waititi com Roman Griffin Davis, Taika Waititi, Scarlett Johansson, Archie Yates, Thomasin McKenzie, Sam Rockwell, Rebel Wilson e Stephen Merchant. ☻☻☻☻         

FILMED+: O Farol

Robert e Willem: à beira da loucura. 

Depois da estreia com o elogiado A Bruxa (2015), o cineasta Robert Eggers segue em seu caminho para se tornar o mestre do terror do século XXI. O Farol é a confirmação de que estamos diante de um talento cheio de estilo e que prefere sutilezas e simbologias do que causar sustos fáceis na plateia. Aqui, mais uma vez, ele prefere construir a tensão cuidadosamente entre os seus personagens, numa espécie de tortura psicológica para quem está na tela ou diante dela. Para esta tarefa ele conta com dois atores inspirados em fases distintas de suas carreiras. Um deles é Willem Dafoe, ator consagrado e que parece se encaixar em qualquer coisa que lhe entreguem para fazer. Apesar de ser um rosto bastante conhecido e aparecer em superproduções hollywoodianas, nota-se que é no cinema independente que Dafoe encontra seu refúgio, prova disso é que o ator foi lembrado no Oscar por dois anos seguidos por seus irrepreensíveis trabalhos em  Projeto Flórida (2017) e O Portal da Eternidade (2018). No primeiro ele vivia um cuidadoso zelador de um hotel precário nos arredores da Disney, no segundo ele vivia o artista Van Gogh no período mais complicado de sua vida. Neste ano, bem que a Academia poderia ter lembrado dele como o experiente faroleiro prestes a surtar com a chegada de um parceiro. Vai entender o motivo de todo mundo ter se rendido ao Brad Pitt em Era Uma Vez em Hollywood (2019) e esquecer da força que Dafoe empresta à narrativa de O Farol. O veterano é seguido de perto pelo trabalho de Robert Pattinson, que todo cinéfilo bem informado já percebeu que está cada vez mais distante do vampiro brilhoso de Crepúsculo (2008). Colecionando bons trabalhos nos últimos anos (vou citar Bom Comportamento/2017 e High Life/2018 só para ficar nos mais recentes), o rapaz demonstra aqui que é preciso leva-lo a sério, já que (assim como seu parceiro de cena) está impecável perante a loucura que o consome vagarosamente diante do isolamento que aquele lugar provoca. Zeggers insere aqui um tom bastante pesadelesco e um tanto surreal na mistura  de referências que utiliza sobre as mitologias em torno da vida no mar (sereias, maremotos, maus presságios...) e esgarça cada vez mais a relação da dupla ao longo da sessão. O estresse chega a um nível insuportável e aquela cena raivosa de Willem Dafoe clamando uma punição ao parceiro é um daqueles momentos que você não consegue nem piscar diante da tela. Feito em belíssima fotografia em preto e branco (única indicação do filme ao Oscar), usando aquele formato de tela quadradamente claustrofóbico, calcado em atuações carregadas do elenco em uma estética que lembra filmes expressionistas alemães o resultado é impressionante. O Farol parece concebido para ser um clássico do horror psicológico e, por sorte, alcança seu objetivo com louvor! Se Zeggers queria nos deixar cada vez mais curiosos com seus projetos futuros, o cara conseguiu. 

O Farol (The Lighthouse / Canadá - EUA / 2019) de Robert Eggers com Robert Pattinson e Willem Dafoe. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 23 de março de 2020

PL►Y: História de Um Casamento

Scarlett, Azhy e Adam: palavras afiadas. 

O cineasta Noah Baumbach caiu nas graças da crítica com seu terceiro filme, A Lula e a Baleia (2005) que marcou sua estreia no cinema autoral e rendeu sua primeira indicação ao Oscar pelo roteiro original de uma família que tenta juntar os cacos após o divórcio. Elogiado pelo frescor de seu filme (embora o tom fosse bastante pessimista), o cinema de Baumbach ficou ainda mais denso em suas obras seguintes, embora eu goste bastante de Margot e o Casamento/2007, considero O Solteirão/2010 um dos filmes mais insuportáveis da história - pelo menos este filme serviu para colocar Greta Gerwig no caminho de Noah. Depois que Greta se tornou sua musa, seja na tela ou fora dela, com Frances Ha (2012) o cinema de Noah seguiu por outros caminhos e, embora sua ironia permaneça a mesma, agora ela está mais colorida. Portanto é ainda mais interessante que ao revisitar o tema da separação, desta vez o tom é completamente diferente e até mais verdadeiro. Em sua segunda parceria com a Netflix (a anterior foi Os Meyerowitz/2017), Noah conta a história de um casamento com os dias contados. Charlie (Adam Driver) é um consagrado diretor de teatro em Nova York e Nicole (Scarlett Johansson) é sua esposa e atriz de suas peças já faz algum tempo. No começo do filme os dois estão numa sessão de terapia e este é o ponto de partida para o espectador conhecer um relacionamento que está desgastado. Aos poucos conhecemos os sentimentos que começaram a tomar conta daquela relação, as renúncias, as mágoas, os desentendimentos e aqueles pontinhos que vão se juntando e contaminando a rotina até que ela não faz mais sentido. No princípio os dois tentam se separar amigavelmente, mas tão logo a justiça aparece num complicado processo de divórcio aguçado ainda mais pela guarda do filho do casal (Azhy Robertson), a situação vira uma verdadeira guerra. Nas atuações precisas de Scarlett e Adam vemos a dissolução daquele relacionamento, mas sem perder de vista os detalhes que demonstram que o afeto permanece ali, ainda que soterrados por toneladas de mágoas e diálogos pesados. Baumbach cria aqui o seu melhor texto. Os diálogos espertos sempre foram sua marca, mas aqui ele constrói um encaixe perfeito das tensões entre os personagens, não apenas entre o casal protagonista, mas também em quem está ao redor (com destaque especial para a soberba atuação de Laura Dern que levou para casa os prêmios mais importantes de atriz coadjuvante da temporada pela advogada de Nicole). A coisa funciona tão bem que em vários momentos parece que estamos diante da destruição de um casal de verdade. Dói. Incomoda e comove com os momentos mais ternos que Baumbach já concebeu. Scarlett e Adam mereceram suas indicações ao Oscar e poderiam até ter levado para casa suas cobiçadas estatuetas, assim como Baumbach poderia ter sido lembrado na categoria de melhor diretor. Aqui ele demonstra personalidade e, se em alguns momentos seus roteiros lembram muito a escrita de Woody Allen, aqui ele incorpora um pouco de Ingmar Bergman também com muito discernimento na profundidade de seus personagens. História de um Casamento é o filme mais maduro do cineasta, ouso dizer que é sua obra-prima. 

História de Um Casamento (Marriage Story/EUa-2019) de Noah Baumbach, com Adam Driver, Scarlett Johansson, Laura Dern, Azhy Robertson, Alan Alda, Merritt Wever e Ray Liotta. ☻☻☻☻

FILMED+: Parasita

Os Kims: o que você faria para mudar de vida?

Retomando as resenhas aqui no blog após longa ausência, não posso deixar de reiniciar os trabalhos falando de um dos melhores filmes a que assisti nos últimos tempos: Parasita. Muito antes dos burburinhos das premiações de fim de ano, o filme de Bong Joon-Ho já era o meu favorito de 2019 desde que entrou em cartaz aqui no Brasil. Ganhador de Palma de Ouro em Cannes, o filme Sul Coreano viu seu prestígio aumentar em escala mundial e, quem o assistiu, sabia exatamente o motivo dele figurar entre os favoritos do Oscar deste ano. Obviamente que a grande maioria imaginava que o filme levaria (fácil) o Oscar de Filme Estrangeiro, talvez levasse mais um (roteiro original na melhor das hipóteses), mas nem o fã mais otimista poderia imaginar que das seis indicações, o filme levaria algumas das mais cobiçadas da noite: filme, direção, roteiro original e filme estrangeiro (a única que era garantida). O filme fez história, obviamente que um bando de gente que não percebe a importância do que aconteceu irá dizer que não era para tanto. Era para tanto sim e demonstra o claro reflexo do que quanto à renovação dos votantes do Oscar foi muito bem vinda! Faz algum tempo que Joon-Ho faz filmes com fortes causas bem demarcadas, basta ver o que ele fez com o espetacular O Expresso do Amanhã (2014) ou a emoção de Okja (2017 um tanto ofuscada por toda aquela polêmica besta de Cannes com um filme feito para a Netflix). Em Parasita ele mantém o cuidado com a estética, o design de produção é um primor com suas escalas de "cima e embaixo" na construção de uma relação espelhada entre as famílias, ela ajuda a construir uma simetria torta fundamental para a história. O cineasta em momento algum perde de vista as atuações para extrair o máximo que pode de um roteiro redondinho e surpreendente (o que para muito roteiristas ainda é um grande desafio). Para além de seus subtextos, Parasita é puro cinema. O poder de sugestão sob a plateia, a edição de cortes precisos, o uso da luz, a forma como muda de tom em uma sinfonia perfeita com todos os elementos que o cinema agrega. A história parece simples no início com o filho de uma família de poucos recursos descobrindo a chance de ganhar algum dinheiro dando aulas de reforço para uma menina de família rica. Logo ele vê a oportunidade de empregar outros membros de sua família na casa, mesmo que para isso tenha que mentir e prejudicar outros empregados da casa. Sim, existe um dilema moral na história ou seriam dois, ou três... quatro talvez. O fato é que a história começa a se misturar com nosso olhar sobre o mundo, a sociedade, suas hierarquias e preconceitos e a lógica perversa do "farinha pouca, meu pirão primeiro", não por acaso é justamente nesta hora que tudo se complica e o que era possibilidade vira o risco de se perder até o pouco que se tinha. Parasita começa um tanto cômico em seus cortes e intenções, apresenta uma agilidade invejável de ritmo preciso, mas depois o clima pesa, se torna um suspense que se rende à tragédia lenta e certeira. Ser invisível ou não ser, ousar querer mais nas limitações existentes, escolher os caminhos para isso e do que se é capaz quando tudo parece perdido... Parasita é sobre tudo isso e muito mais, por isso mesmo é o tipo de filme que se vê várias vezes e promete ser cada vez melhor. Simplesmente Magnífico!

Parasita (Gisaengchung / Coreia do Sul - 2019) de Bong Joon-Ho com Song Kang-Ho, Lee Sun-Kyun, Jo Ye-Jeong, Choi Woo-Sik,  Park So-dam, Jang Hye-jin e Song Ji-So.  ☻☻☻☻☻

N@ Capa: Joker

Na Capa: Joker pop. 

Para começar os trabalhos oficialmente em 2020, hora de mudar a  capa do blog desde outubro do ano passado! Esta mistura pop art dos icônicos atores que viveram o Coringa no cinema e na TV (desculpa, Jared Leto, mas você acabou ficando de fora por algum motivo subjetivo do artista que bolou isso...). Cesar Romero que viveu o vilão na multicolorida, onomatopéica e antológica série do Batman dos anos 1960 não poderia ficar de fora - e foi só no ano passado que descobri que o ator usava maquiagem em cima do bigode, uma vez que não cogitou retirar sua marca registrada. Jack Nicholson foi o primeiro ator a viver o vilão no cinema (Batman/1989 de Tim Burton) e sempre disse que viver o Coringa não era fácil. Embora seu estilo seja mais satírico, ele marcou época e chegou a aconselhar Heath Ledger para tomar cuidado com o palhaço do crime. O jovem ator australiano gerou polêmica ao ser ao ser o escolhido de Christopher Nolan para encarnar o arquiinimigo do Homem-Morcego em O Cavaleiro das Trevas (2008). Tão logo o filme estreou, público e crítica se renderam ao talento do rapaz que recheou o vilão de complexidade, pena que Heath faleceu antes de receber seu merecido Oscar de Coadjuvante. Anos depois, com toda a crise que os filmes da DC enfrentariam nos cinemas (quem diria, culpa da Marvel e sua mudança de paradigma em fazer filmes de super-heróis?) foi a vez de Joaquin Phoenix encarnar Arthur Fleck, a identidade secreta do vilão concebida por Todd Phillips em Coringa (2019) num filme diferente de tudo que o personagem já apareceu. Num estudo de personagem que reflete muito do mundo em que vivemos hoje,  Phoenix deu show na estética chupada de clássicos de Martin Scorsese. O resultado? Mais de um bilhão de bilheteria mundial, 192 indicações a prêmios (87 ganhos) e muitos deles para a performance ambivalente de Phoenix. Com onze indicações ao Oscar (dois na estante: melhor ator e melhor trilha sonora) o nosso olhar sobre Joker jamais será o mesmo. 

 
Phoenix, Ledger, Jack e Cesar: nada será como antes.