quarta-feira, 16 de setembro de 2020

PL►Y: O Público

Emilio e Rhymefest: traído pela leveza. 

Emilio Estevez é filho de Martin Sheen (e irmão de Charlie Sheen) e além de ator também é diretor. Acho que sua maior conquista foi ver seu longa Bobby (2006) concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Filme dramático daquele ano. Quando assisti O Público, tive a ideia de que ele gostaria de ser lembrado novamente em alguma premiação importante, o que não aconteceu, embora o filme seja interessante e levante uma discussão relevante sobre a situação dos sem-teto nos Estados Unidos. Além de dirigir, Emilio também atua no filme, interpreta o bibliotecário Stuart Goodson, que trabalha em uma biblioteca pública de Cincinati, Ohio, que com a chegada de um inverno rigoroso, está cada vez mais cheia. Os funcionários percebem que os moradores de rua das redondezas aguardam ansiosos a abertura da biblioteca para cuidar da higiene e ter um lugar seguro para ficar durante o dia. Os funcionários parecem não se incomodar com isso, embora a situação renda alguns contratempos - como uma polêmica envolvendo Goodson que logo se torna uma plataforma política. No entanto, a coisa piora quando um morador de rua é encontrado morto na porta do prédio, congelado pelo frio. Por medo de que o mesmo possa acontecer aos demais, aquelas pessoas que não tem para onde ir decidem nãos sair da biblioteca após seu horário de funcionamento, promovendo uma ocupação para que não morram de frio do lado de fora. O que poderia ser um ato político de solidariedade, acaba se tornando um grande mal-entendido pelos olhos da mídia e dos administradores do local. O episódio acaba trazendo à tona fatos sobre o passado de Stuart e gerando algumas discussões sobre uma situação delicada. Fosse apenas sobre a ocupação o filme seria bem interessante, mas ele se dispersa em alguns pontos que são mal trabalhados, não por incompetência, mas porque não faria a mínima diferença se estas partes fossem cortadas do roteiro. A busca pelo filho do negociador vivido por Alec Baldwin ou o romance de Stuart com Angela (Taylor Schilling) não chegam a deixar o filme interessante, parecem estar sobrando mesmo. A opção de Emilio em criar uma narrativa leve e espirituosa também drena um bocado da tensão que poderia se esperar deste tipo de situação (que parece retirada de uma história real, mas que é pura ficção). Sorte que o elenco é bastante eficiente e constrói um filme a que se assiste até o final, mesmo que a ponta de receio de que as coisas possam sair do controle se dissolva pelo tom otimista do filme. O final é bastante inusitado (ainda mais se você imaginar que se trata da noite mais fria do ano) e rompe de vez com a ideia de que se trata de um filme comprometido com a realidade. Nas mãos de outro diretor, O Público viraria um filme pesadão, nas mãos de Estevez se torna uma crônica de costumes fácil de se assistir. 

O Público (The Public / EUA -2018) de Emilio Estevez com Emilio Estevez, Jena Malone, Michael Kenneth Williams, Taylor Schilling, Jeffrey Wright, Christian Slater, Jacob Vargas e Gabrielle Union. ☻☻☻

PL►Y: Rédeas da Redenção

Marquis e Matthias: amizade terapêutica. 

Faz um tempo que o ator belga Matthias Schoenaerts foi descoberto por Hollywood, desde que Bullhead/2011 foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro e depois fez par com Marion Cotillard em Ferrugem e Osso/2013 vários produtores e diretores voltaram seus olhos para ele - e claro que o público também ficou atento. Embora já tenha realizado filmes em língua inglesa, o rapaz percebeu que conseguir figurar nas premiações é uma tarefa bem mais complicada quando se trata do cinema americano (ainda mais quando seus papéis ficam reduzidos ao de "europeu bonitão"). Pelo menos neste ano ele conseguiu uma indicação como melhor ator no Independent Spirit por seu trabalho em The Mustang, que aqui no Brasil recebeu o título inconcebível de Rédeas da Redenção (!!!). Aqui ele se despe de sua pinta de galã para viver um presidiário chamado Roman Coleman que é selecionado para um programa de reabilitação especial que consiste em ajudar na domesticação e treino de cavalos selvagens chamados Mustangues no estado de Nevada. O programa conta com a ajuda do treinador Myles (Bruce Dern) e acompanhamento de uma terapeuta (Connie Britton), mas mostra-se um desafio de via dupla, tanto para os cavalos quanto para os detentos. No caso de Roman Coleman, sempre calado e reticente, mas com um passado violento que revela-se aos poucos. Vemos suas explosões agressivas em alguns momentos, como o dia em que após uma visita ele distribui socos no cavalo como se estivesse praticando boxe - o que quase o afasta do programa definitivamente. É interessante como o roteiro se desenvolve demonstrando como aos poucos ele aprende a se relacionar com o bicho e com suas próprias emoções, revisitando seu passado e  suas reações violentas que o levaram para atrás das grades. Matthias tem aqui mais uma oportunidade de demonstrar sua habilidade de alternar brutalidade e sensibilidade, num equilíbrio raro de se ver, mas que o ator consegue executar com maestria. As guinadas de seu personagem nunca são bruscas, ao ponto de ao ser revelado o motivo de estar ali, você até se emocionar com sua culpa e dor. Este é o primeiro longa dirigido pela atriz francesa Laure de Clermont-Tonnerre, que demonstra segurança nos momentos mais crus da história e sensibilidade na hora de lidar com aquelas cenas que podem descambar para o melodrama sem o menor esforço. É interessante como para seu primeiro projeto ela tenha se interessado em contar uma história de personagens marginalizados que reencontram suas emoções mais nobres em um programa alternativo, o WHIP (Programa Cavalos Selvagens para Prisioneiros) que tem reduzido as taxas de reincidência de forma bastante significativa entre os envolvidos. Ambientado em paisagens secas e no ambiente hostil de uma prisão, The Mustang se torna ainda mais interessante pelo relacionamento que se estabelece entre Roman e Marquis, o cavalo acompanhado por ele, um processo que reconecta o protagonista a si mesmo. A química entre os dois já vale o filme!

Rédeas da Redenção (The Mustang / França - Bélgica / 2019) de Laure de Clermont-Tonnerre com Matthias Schoenaerts, Bruce Dern, Connie Britton, Jason Mitchell, Gideon Adlon, Josh  Stewart, Thomas Smittle e Noel Gugliemi. ☻☻☻

domingo, 13 de setembro de 2020

PL►Y: Origens Secretas

David, Verónica e Javier: o serial killer dos quadrinhos capitais. 

Desde que estreou na Netflix eu estou tentando ver Power com Jamie Foxx e Joseph Gordon-Levitt e ainda não consegui. Na verdade eu já comecei a ver, mas nas três vezes em que volto do ponto em que parei eu volto a dormir. A história é uma droga que dá superpoderes ao seu usuário e todo o formato do filme me fez imaginar que esta coisa de super-heróis e poderes já está ficando meio cansativa se você não tem habilidade para criar uma variável interessante sobre o tema. Talvez um dia eu consiga terminar de ver o longa da Netflix e até escreva sobre este feito. Foi numa tentativa destas que esbarrei com Origens Secretas, filme espanhol que consegue prender atenção até o final (que é puro clichê) e diverte. O roteiro e a direção são de David Galán Galindo e, curiosamente, este seu terceiro longa-metragem é baseado num livro escrito por ele mesmo e que fez algum sucesso na Espanha. A ideia é interessante e cria uma investigação com ares de filme noir, misturando com um vilão que se inspira na origem dos super-heróis clássicos. O protagonista é David Valentín (Javier Rey da caliente série Hache também da Netflix), um policial com pinta de galã e sério demais demasia por conta do assassinato dos seus pais quando ainda  era um menino. Ele demora um pouco para perceber o que estranhos crimes da cidade têm em comum, acho que não é por acaso que eles lembram os planos do serial killer de Se7en (1995) de David Fincher, só que aqui ao invés da inspiração nos crimes capitais o vilão se inspira em histórias em quadrinhos de Hulk, Tocha Humana e até Batman. Para ajudar a perceber as pistas e solucionar o caso está o nerd Jorge Elias (Brays Efe), filho de um policial prestes a se aposentar e dono de uma loja de quadrinhos cultuada por um bando de cosplayers. Repleto de humor, citações e ironias, Origens Secretas brinca com as histórias de super-heróis e uma transição propositalmente desajeitada para o mundo real. Com habilidade para construir o mistério em torno do vilão (que se revela no final em que o filme se rende ao estilo mais B de forma bastante despudorada), Origens Secretas é um filme que agrada quem procura apenas diversão sem maiores compromissos. 

Origens Secretas (Orígenes Secretos / Espanha - Argentina / 2020) de David Galán Galindo com Javier Rey, Brays Efe, Verónica Echegui, Antonio Resines, Ernesto Alterio e Leonardo Sbaraglia. ☻☻☻   

FILMED+: Nico, 1988

Tryne: atuação vigorosa em personagem difícil. 

Filmes biográficos sobre artistas estão em alta (e até Madonna vai embarcar nesta tendência com ajuda da oscarizada Diablo Cody), mas poucas vezes se viu uma tão crua em sua sinceridade quanto Nico, 1988. A diretora italiana Susanna Nichiarelli resolveu contar a história da cantora alemã Christa Päffgen depois de seus anos como a mitológica Nico, ex-modelo que fez sucesso nos vocais do Velvet Underground em 1967 quando Andy Warhol se tornou empresário da banda. Foi Andy que criou o nome artístico de Christa (um anagrama da palavra Icon) e lhe abriu as portas no mundo da música. Considerada uma beldade na época e sua beleza germânica começava a chamar atenção de cineastas quando começou a se dedicar à música. Nico foi alçada ao posto de sex-symbol e logo foi reconhecida como dona de uma das vozes mais peculiares da história do rock. O timbre grave e com forte sotaque alemão lhe garantiu fama e reconhecimento, mas o sucesso se esvaiu aos poucos após a saída da banda em 1967 e, muita gente considera, que nestes anos seguintes a sonoridade da cantora ficou ainda mais impressionante. Nascida em 1938, Nico viu seu país ser devastado pela Segunda Guerra Mundial, se tornou modelo, se envolveu com vários artistas (Jim Morrison, Lou Reed, David Bowie, Alain Delon...) e passou suas últimas décadas de vida querendo se desvincular da imagem sedutora de antes. Nico, 1988 tem a proposta de recontar os dois últimos anos de vida cantora, reconstituindo seus últimos shows pela Europa e apresentando uma imagem desconstruída da roqueira loura que temos na memória. Para a diretora, foi na fase solo que a artista se tornou ela mesma, se distanciando da imagem que a mídia projetava sobre ela. O passado da cantora surge somente em duas cenas em que ela aparece ainda menina na Alemanha e em alguns flashes com cenas de arquivo que funcionam como contraste perante a mulher envelhecida, sem glamour, paranoica, egocêntrica e viciada em heroína que vemos na tela. Porém, longe de ser um retrato pejorativo, este conjunto de elementos contribui para deixar os números musicais ainda mas intensos e mórbidos (em determinado momento uma personagem confessa considerar sua música medonha), deixando a sensação que Nico (que prefere ser chamada o tempo inteiro de Christa) coleciona vários fantasmas que merecem ser exorcizados na mesma medida que a alimentam. Colabora muito para o pleno funcionamento do filme a atuação da dinamarquesa Tryne Dirholm, que mesmo não sendo parecida com a cantora em sua fase derradeira, atribui veracidade à personagem, especialmente o se aproximar do timbre único da cantora. Susanna Nichiarelli constrói um filme denso e interessantíssimo de assistir pela forma como explora o presenta da protagonista como um reflexo do passado. Entre as desventuras da turnê (que tem como destaque para no show proibido que faz na Rússia) o destaque fica por conta do relacionamento com o filho, Christian, um dos detalhes mais delicados de sua vida pessoa. Talvez Christian Aaron Bulogne, mais conhecido como Ari, receba no futuro um filme só para ele, já que é filho de Nico com o galã Alain Delon, que nunca reconheceu a paternidade do rapaz. Nico, com sua carreira e problemas para administrar também não dedicou muita atenção ao menino, que foi criado pela avó paterna. O filme deixa claro como este passado conturbado afetou o crescimento do menino, que aparece adolescente, com gosto pela fotografia e devastado por dentro. São nas cenas de Ari (vivido pelo ator ) com Nico que a personagem emerge de forma mais desarmada e afetuosa, ao mesmo tempo que se acentua a melancolia da personagem. Dono de uma precisão narrativa impressionante sobre uma artista controversa, Nico 1988 é um daqueles filmes que prende atenção do início ao fim (literalmente, já que termina no início do derradeiro passeio de bicicleta que vitimou a cantora em 1988 em Ibiza). 

Nico, 1988 (Itália / Bélgica - 2017) de Susanna Nichiarelli  com Tryne Dirholm, John Gordon Sinclair,  Anamaria Marinca, Sandor Funtek, Thomas Tabacci, Karina Fernandez e Calvin Demba. ☻☻☻☻☻

CATÁLOGO: Veneno

Horror: misturando Genet com David Lynch

Quando fez seu primeiro longa metragem o diretor Todd Haynes não tinha ideia que ganharia a vida como diretor de cinema. Imaginava que se tornaria produtor ou professor de cinema e de vez em quando faria alguns filmes experimentais. O fato foi que após A Sua estreia em Veneno, a recepção de crítica e parte do público o fez repensar os rumos que tomaria na vida. Haynes acabou se tornando um dos cineastas icônicos do cinema indie dos anos 1990 e que nos anos seguintes foram absorvidos pelo mainstream de Hollywood. Com oito filmes no currículo e quatro deles caindo no radar do Oscar (Haynes foi até indicadado pelo roteiro do inebriante Longe do Paraíso/2001), seus fãs mais ardorosos até estranham a forma como seu cinema passou a buscar ousadias mais sutis do que as presentes em seus primeiros longas. Quem viu o recente O Preço da Verdade (2019) e assistir Veneno perceberá como as coisas mudaram. Veneno é uma adaptação de três contos do escritor Jean Genet e que são apresentados de forma misturada ao longo da sessão. Hero, Horror e Homo exploram histórias de narrativas e estéticas completamente distintas e provocam estranhamento no espectador, especialmente pela aparente ausência de articulação entre as histórias. Se atualmente o diretor ressalta constantemente a influência de Douglas Sirk em seu cinema, aqui o estilo lembra muito o estilo de David Lynch e a forma como constrói narrativas de linguagem clássica para provocar horror e estranhamento. Hero investe no tom documental a história do menino que mata o próprio pai e desaparece voando pela janela. As diversas entrevistas aparecem ao longo da sessão e compõem um painel sobre o caso que revela que uma  casa confortável, um bairro tranquilo e um lar aparentemente perfeito pode esconder segredos nunca imaginados. Já Horror é uma história de terror que remete aos filmes B dos anos 1950, com fotografia em preto e branco, muitos closes e a história que gira em torno de um cientista às voltas com a descoberta do que provoca o impulso sexual e acaba caindo em decadência física e social por acidentalmente ingeri-la, tudo por conta de um processo de deterioração que aos poucos se descobre contagioso. A história investe em tons de romance, suspense, mistura sonho, realidade, paranoia e remete diretamente aos clássicos dos filmes de horror, no entanto, é uma clara simbologia sobre a aversão do pensamento conservador à sexualidade. Embora Haynes não tenha investido novamente no gênero, fiquei curioso para ver o que ele poderia fazer com um longa de terror nas mãos (O Médico e o Monstro foi o primeiro que veio à minha cabeça. Algo me diz que ele faria muito bem!). Já em Homo o diretor radicaliza na construção de uma estética mais pessoal, que mistura filme de prisão com trechos oníricos na história de um rapaz homossexual que reencontra uma paixão dos tempos de reformatório na prisão. O reencontro é bem mais agressivo do que ele imagina, o que contribui ainda mais para o contraste das cenas escuras da prisão com outras idílicas do tempo de reformatório vivido pelos dois, que ganham uma aura de sonho que ao final se torna um pesadelo. Amor, desejo e abuso se misturam nesta história de cenas fortes e que comprova ainda mais a destreza do diretor em trabalhar com texturas narrativas diversificadas. Ao abraçar o texto de Genet e diversas facetas da estética Lynchiniana em sua estreia, Haynes compõe a costura de três histórias em que o desejo está sempre presente e se torna o ponto de virada de seus personagens, ele apresenta histórias em que os protagonistas traem a identidade que se espera deles, na busca por seus próprios caminhos diante de olhares que não os compreendem (algo recorrente nos filmes do diretor até hoje). Ainda que não seja uma narrativa fácil de assistir (pelo contrário, tem algumas cenas bastante desagradáveis), o resultado ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance, o Teddy no Festival de Berlim e indicações aos prêmios de melhor produção e direção no Independent Spirit. Nascia ali um dos cineastas mais interessantes do cinema americano.

Veneno (Poison / EUA -1991) de Todd Haynes com Edith Meeks, Millie White, Buck Smith, Anne Giotta, Lydia Lafleur, Ian Nemser, Rob LaBelle, Evan Dunsky e Marina Lutz. ☻☻☻

sábado, 12 de setembro de 2020

FESTIVAL DE VENEZA 2020

Frances McDormand em "Nomadland": Leão de Ouro de Melhor Filme

Em um ano cruel para o cinema, os festivais tiveram que se virar para cumprirem seu papel na exibição, premiação e, especialmente, compra e venda de filmes aos distribuidores. Se o Festival de  Cannes cancelou sua edição 2020 (resolveu marcar somente com um selo os filmes selecionados por sua curadoria), o Festival de Tribeca resolveu criar uma exibição somente online e O Festival de Toronto (que começou dia 10 de setembro) preferiu utilizar exibições online com outras presenciais. O Festival de Veneza, realizado em um país que já foi o epicentro da doença e parece ter superado a pior fase da pandemia resolveu realizar sua 77ª edição presencialmente com longos protocolos de segurança antes dos filmes, lotação das salas pela metade, ingressos online, álcool gel, uso de máscara obrigatório e nada de aglomeração em tapetes vermelhos. O júri foi presidido por Cate Blanchett e contava com a cineasta britânica Joanna Hogg, a diretora austríaca Veronica Franz, o ator Matt Dillon, a romancista italiana Nicola Lagioia, o cineasta alemão Christian Petzold e a atriz francesa Ludivine Sagnier. Foi sem dúvida um grande desafio manter o cronograma do Festival e seu grande premiado já desponta como um dos títulos favoritos para a próxima temporada de prêmios que terá um enorme complicador pela frente. A seguir os premiados: 

LEÃO DE OURO - Melhor Filme
"Nomadland" de Chloé Zhao

LEÃO DE PRATA - Prêmio do Grande Júri
"New Order" de Michel Franco

LEÃO DE PRATA - Melhor Diretor
Kiyoshi Kurosawa por “Wife of a Spy”

COLPA VOLPI - Melhor Atriz
Vanessa Kirby por “Pieces of Woman”

COLPA VOLPI - Melhor Ator
Pierfrancesco Favino por “Padrenostro”

MELHOR ROTEIRO
"The Disciple" de Chaitanya Tamhane

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
"Dear Comrades!" de Andrei Konchalovsky

PRÊMIO MARCELLO MASTROIANNI - Melhor Ator Jovem
Rouhollah Zamani por “Sun Children”


MOSTRA HORIZONTES
Melhor Filme
"The Wasteland" de Ahmad Bahrami (Irã)

Melhor Diretor
Lav Diaz por “Lahi, Hayop (Genus Pan)” (Filipinas)

Prêmio Especial do Júri
"Escuta" de Ana Rocha de Souza (Portugal)

Melhor Atriz
Khansa Batma por “Zanka Contact” (Marrocos)

Melhor Ator
Yahya Mahayni por “The Man Who Sold His Skin” (Tunísia)

Melhor Roteiro
"I Predatori" de Pietro Castellitto (Itália)

Melhor Curta-Metragem
"Entre Tú y Milagros" de Mariana Safron (Colômbia)

LEÃO DO FUTURO
PRÊMIO LUIGI DE LAURENTTIS - Melhor Filme de Estreia
"Escuta" de Ana Rocha de Souza

COMPETIÇÃO DE REALIDADE VIRTUAL
Melhor RV
Michelle e Uri Kranot por “The Hangman at Home: An Immersive Single User Experience”

Melhor Experiência de RV
Kiira Benzing por “Finding Pandora X”

Melhor História de RV
FanFan por “Killing a Superstar”

O júri com Cate Blanchett ao centro: desafio em tempos de pandemia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FILMED+: Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo

Jessie e Jesse: viagem ao mundo dos pensamentos inseguros. 

Sempre acho engraçado quando a internet é invadida por um bando de vídeos dizendo "final explicado" de determinado filme. Acho que o problema foi eu ter começado a ver filmes de David Lynch na adolescência (e vê-lo repetindo em entrevistas que não explicaria filme algum). O cinema americano tem um compromisso com o realismo que por vezes atrapalha os espectadores que ficam acostumados a histórias com início, meio e fim e quando se deparam com algo que foge desta cartilha costuma classificar o filme como ruim. Embora esteja longe de ser um David Lynch, o que é muito bom, Charlie Kaufman tem explorado em seu cinema esta ousadia de romper com o realismo. No início foi como roteirista de Natureza Quase Humana/2001, Quero Ser John Malkovich/1999 (indicado ao Oscar de roetiro original) e Adaptação/2002 (indicado ao Oscar de roteiro adaptado), filme que quebravam a ideia de que a narrativa deve acontecer somente no plano real. Acabou ganhando um Oscar por seu trabalho em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças/2004 onde um casal resolve apagar o outro da memória através de um tratamento revolucionário. Depois migrou para a direção gerando mais estranhamento do que aplausos em Sinedóque, Nova York (2008) e com a animação inovadora Anomalisa (2016). Agora ele resolve adaptar um roteiro que é um prato cheio pelo apreço ao que se passa dentro da mente humana. Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo é baseado no livro de  Ian Reid e encontrou na Netflix o terreno fértil que precisava para ser produzido.  A premissa é bastante simples: a primeira visita aos pais do namorado no natal. Basta este ponto de partida para que Kaufman viaje na proposta do livro criando um road movie diferente que transcende a estrada para explorar o trajeto na mente dos personagens. Todas as inseguranças, paranoias e conflitos de um relacionamento que está começando aparecem ali, sejam nos diálogos tensos, nos pensamentos ou na chegada à casa de uma família desconhecida de quem, até semanas atrás, era um estranho. Kaufman constrói então uma amálgama incômoda, que mistura o que parecia ser uma comédia romântica com atmosfera de suspense. Quando a protagonista (a ótima Jessie Buckley) chega à casa dos pais do namorado (Jesse Plemons cada vez mais craque em viver tipos estranhos) a coisa se expande em sua percepção sobre aqueles personagens, ora parecem mais jovens, ora mais velhos, por vezes são desagradáveis, simpáticos e até bizarros (ponto para os excelentes trabalhos de David Thewlis e especialmente Toni Collette). Mas a coisa não termina por aí, eles precisam voltar para casa e as paradas pelo caminho só intensificam os pensamentos da moça. Ou não seria nada disso? Já que diante do livro há quem afirme que tudo acontece na mente de outro personagem. Kaufman pode ter mudado o foco do livro, mas isso não impede que se deleite nas possibilidades que a história possui. Muitos vão achar um exagero o que ele faz com aqueles longos diálogos dentro do carro ou com o casal de dançarinos que podem representar o desfecho daquele romance ou naquele discurso do final (que repete os clichês tão criticados pela protagonista dentro do carro). Diante de uma plateia envelhecida por maquiagens caricatas o efeito é propositalmente postiço e estranho. Embora muitos estejam criticando o filme por sua estrutura surreal trata-se de uma obra que espanta a mesmice e resulta (acredite!) no filme menos complicado de seu diretor. Charlie Kaufman faz aqui seu filme mais redondo, embora, para muitos, ele ainda pareça um poliedro quebrado. 

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things/EUA - 2020) de Charlie Kauffman com Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Abby Quinn e Oliver Platt. ☻☻☻☻☻

NªTV: Normal People

Paul e Daisy: dores, amores e crescimento. 

Terminei de ler o livro Pessoas Normais de  Sally Rooney no mesmo dia em que comecei a ver a série em cartaz no Starzplay aqui no Brasil (que você pode ver através de uma adição no Prime Video, aproveita que está em promoção). Se o livro de Sally já rendeu uma febre em alguns países, a série produzida pela BBC se tornou um fenômeno na Europa ao contar  história de amor cheia de idas e vindas de Marianne (Daisy Edgar-Jones) e Connell (Paul Mescal). Os dois moram numa cidadezinha na Irlanda e estudam na mesma escola, mas existe uma proximidade entre os dois por conta dos dias em que Connell busca a mãe que trabalha na casa de Marianne duas vezes na semana.  Ao invés de investir num romance proibido entre pessoas de classes sociais diferentes, a obra vai mais longe, aprofundando cada vez mais as incertezas perante seus sentimentos, seja um com o outro, seja consigo mesmo ou com quem está por perto. Some isso aos dramas pessoais de cada um e o que se vê é um casal que se ama, mas diante dos tropeços da vida ficam separados. Se os dois mantem os encontros em segredo no tempo da escola, a coisa desanda pela primeira vez pouco antes da formatura e dali em diante as feridas parecem nunca mais se cicatrizarem. Eles vão para a faculdade, vivem novos amores, procuram se manter, fazem novos amigos e sempre se esbarram no que sentem um pelo outro. É uma obra que vai além do romance com frases de efeito e cenas clichês das comédias românticas, falando nisso, Normal People não possui nada de comédia romântica, pelo contrário, aos poucos se aprofunda em temas bastante pesados, como relacionamentos abusivos (seja amorosos ou familiares), sentimento de inadequação, depressão e aquelas inseguranças que são capazes de nos fazer colocar tudo a perder. Com relação ao livro, a série apara algumas arestas e o resultado torna-se ainda mais fluído, demonstrando o crescimento gradativo dos personagens. Ponto alto do programa é a direção de Lenny Abrahamson (indicado ao Oscar pelo ótimo trabalho de O Quarto de Jack/2016 e imprime aqui a mesma estética cinematográficas sem firulas) que é tão discreta quanto emocional, conseguindo ótimos momentos de todo o seu elenco, especialmente de Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal que convencem como casal apaixonado nos melhores (as cenas de sexo causaram furor na audiência) e piores momentos. O resultado é que além do sucesso de audiência o programa está indicado a 4 EMMYs: melhor direção, melhor roteiro dramático, melhor escalação de elenco e melhor ator (Paul Mescal). Senti falta de uma indicação para Daisy, já que ela tem um papel bastante complicado para lidar, seja pelos estranhos relacionamentos que  possui e pela forma como sua personagem se enxerga perante tudo isso (a perda do pai, a agressividade do irmão, a mãe...). Normal People é uma minissérie que emociona por parecer real e, se você leu o livro, ficará com ainda mais vontade de ter uma nova temporada (mas pelo que vejo até agora, será difícil).  

Normal People (Irlanda / 2020) de Lenny Abrahamson com Daisy Edgar-Jones, Paul Mescal, Desmond Eastwood, Aislín McGuckin, Sarah Greene, Frank Blake e Fionn O'Shea. ☻☻☻☻☻

Pódio: Andréa Beltrão

A história da carioca Andréa Beltrão com o cinema nacional é antiga. Nos anos 1980, antes de ficar conhecida nacionalmente como Zelda Scott na série Armação Ilimitada (1986), ela já tinha havia aparecido em Bete Balanço (1984), Garota Dourada (1984), O Rei do Rio (1984) e mais tarde com As Sete Vampiras (1986) e Rock Estrela (1986). Então o cinema em nosso país entrou em crise e os títulos ficaram escassos (esteve em O Escorpião Escarlate/1990 e Vai Trabalhar Vagabundo II /1991 . No período da retomada ela estava à frente do sucesso Pequeno Dicionário Amoroso/1997 que quase apareceu aqui na lista (assim como a versão para a telona de Som & Fúria/2009) se Andrea não houvesse colecionado tantos títulos cinematográficos com atuações inesquecíveis em seu currículo. A seguir as três atuações mais marcantes na telona em minha humilde opinião:

Bronze: A irmã esotérica. 
3º A Partilha (2001)
Muita gente torceu o nariz para esta versão da peça de Miguel Fallabella dirigida por Daniel Filho, acusaram de ser muito novela da Globo e tal. Ok. Tem partes que fazem parecer realmente um especial da emissora que está prestes a virar um seriado, mas com um elenco estelar defendendo um roteiro delicioso sobre quatro irmãs que discutem a partilha dos bens da família fica difícil não gostar. Andréa interpreta Regina, a irmã liberada, esotérica e que não costuma se reprimir, mas por debaixo de tanto alto astral ela também guarda seus problemas e Andréa da conta direitinho destas camadas da personagem. 

Prata: A atriz verídica
É até estranho colocar como melhor interpretação o trabalho realizado em um documentário, mas quem assiste esta obra-prima de Eduardo Coutinho entende exatamente o motivo. A ideia é colocar atrizes e pessoas comuns contando suas histórias de vida, no meio do caminho vemos artistas conhecidas repetindo aquelas histórias e entendemos um pouco mais do processo criativo de interpretar. No caso de Andréa, torna-se comovente como ela se emociona aos prantos ao contar a história de uma mulher que não  se chora diante da câmera ao contar seus dramas. Andréa expõe as vísceras do seu trabalho com uma coragem impressionante. 

Ouro: Hebe Camargo
Também é preciso muita coragem para viver uma das personagens mais famosas da história da nossa televisão e, mais ainda se você não se parecem em nada com ela. Andréa recebeu o desafio do esposo (o diretor Maurício Farias) de encarnar a apresentadora Hebe Camargo e sua atuação foi a única unanimidade do filme. Andréa capta a essência da famosa personalidade seja entre a vida particular ou artística, Andréa transita com desenvoltura por estas esferas e concorre ao Grande Prêmio Cinema Brasil deste ano como melhor atriz (os outros dois citados aqui também lhe renderam indicações. Esta é sua décima indicação e a quinta como Melhor Atriz). Será que ela leva desta vez?