sexta-feira, 7 de setembro de 2018

CICLO VERDE E AMARELO: Eu Sei que Vou te Amar

Fernanda e Thales: deliciosa discussão de relação. 

Atrevo-me a dizer que Eu Sei que Vou Te Amar é o filme mais conhecido de Arnaldo Jabor, aproveito também para arriscar que tem o seu melhor texto a ser levado para uma tela de cinema. Este foi o seu sétimo longa-metragem e guardava algumas semelhanças com o seu filme anterior (Eu Te Amo/1980 estrelado por Sonia Braga e Paulo Cesar Pereio) e também se tornou sucesso de bilheteria ao contar a história de um jovem casal, que recém separado, se reencontra e começa a lavar a roupa suja dentro de um apartamento. Na pele do casal estão Fernanda Torres e Thales Pan Chacon, que parecem bem a vontade com o texto que oscila entre o drama e a comédia com maestria. Os diálogos ainda são saborosos e demonstram como os fantasmas de uma relação ainda são muito semelhantes aos pobres mortais mais de trinta anos depois. Questões como desejo, infidelidade, inseguranças e sexo perpassam o roteiro a todo instante em um ritmo ágil embalado por uma montagem perfeita que busca o realismo ao mesmo tempo que o trai em vários momentos. Jabor exibe uma câmera bastante dinâmica, que persegue seus personagens como se fosse os olhos do espectador invadindo a privacidade do casal - e ainda utiliza closes e flashbacks para desvendar um pouco mais daquela relação desgastada ao longo do tempo, além de driblar uma certa teatralidade. Fernanda Torres tinha vinte anos quando fez o filme e seus olhos enormes  estão tão expressivos que lhe valeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes naquele ano. É fascinante como ela tritura as palavras do texto de uma forma bastante real, mesmo que saibamos que não existe casal travando diálogos tão geniais enquanto discutem a relação. O que poderia ser apenas uma recaída do casal, parece uma espécie de terapia, onde os dois trocam acusações sobre aquela união. Thales Pan Chacon também está muito bem, consegue ser sedutor e vulnerável sem fazer muito esforço, além do diretor saber como utilizar seu físico atlético - e habilidades de bailarino (sim, ele era bailarino e coreógrafo também) - em meio aos delírios de algumas cenas, pena que nunca mais o ator recebeu um personagem tão interessante em sua carreira (e faleceu em 1997 aos 40 anos). A química entre Fernanda e Thales é irresistível e consegue alcançar todas as notas que precisam entre os tons desta produção que marcou época. Quando vejo Eu Sei Que Vou Te Amar, penso como os anos 1980 conseguia criar roteiros tão inventivos em torno de um casal (outro exemplo é Sonho de Valsa/1987 de Ana Carolina), ousado e sem perder o fio condutor da história, detalhes como não nomear os personagens, torna a trama ainda mais universal. Embora seja ambientado em um apartamento durante toda a sua duração, a estética de Eu Sei Que Vou te Amar ainda impressiona, especialmente pelo trabalho de Oscar Nyemeyer na construção do cenário e as escolhas de Gloria Kalil para os figurinos. O filme é tão bem bolado que enxergo até uma relação com o fato de Jabor ter demorado vinte e quatro anos para lançar outro longa-metragem (desculpem, mas A Suprema Felicidade/2010 está muito distante de ser tão inesquecível quanto este aqui, mas acho que até Jabor não era mais o mesmo). Eu Sei Que Vou te Amar é um verdadeiro clássico do cinema brasileiro e que bem que merecia uma cópia restaurada para vermos numa telona.

Eu Sei que Vou te Amar (Brasil/1986) de Arnaldo Jabor com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon. ☻☻☻☻☻ 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

4EVER: Burt Reynolds

11 de fevereiro de 1936 ✰ 06 de setembro de 2018 

Burton Leon Reyonolds Jr. nasceu na Flórida em uma família que misturava sangue indígena com irlandês. Burton pensou que seguiria carreira no esporte após ser o melhor jogador de futebol da escola no colegial. Por conta disto, recebeu uma bolsa para estudar na Universidade da Flórida, mas um acidente de carro o fez repensar em seus rumos profissionais. Burt cogitou seguir carreira na polícia, feito o pai, mas por influência de um professor passou a se dedicar ao teatro. Reynolds acabou recebendo seu primeiro prêmio de atuação em 1956, aos vinte anos de idade. A premiação incluía cursar teatro em Nova York, o que se tornou um passo decisivo em sua vida. Ele estreou no cinema em 1961 e desde então não parou de atuar. Em sua trajetória colecionou sucessos e fracassos que sempre exploraram seu estilo cheio de testosterona. Somente nos anos 1990 o ator foi descoberto pelas grandes premiações, sendo indicado ao Emmy e ao Globo de Ouro (e sendo premiado em ambos) pelo seu trabalho na série Evening Shade. Outro trabalho premiado do ator foi como o diretor de filmes pornográficos de Boogie Nights (1998), que lhe rendeu um Globo de Ouro de ator coadjuvante e indicações ao BAFTA e Oscar (e bem que ele merecia). O ator faleceu em decorrência de um ataque cardíaco após enfrentar vários problemas de saúde nos últimos anos. 

CICLO VERDE E AMARELO: As Boas Maneiras

Izabél e Marjorie: como gerar um lobisomem.

O Ministério da Cultura divulgou recentemente quais são os vinte e dois filmes que estão na disputa para concorrer à vaga de representante brasileiro entre os cinco selecionados ao Oscar de filme estrangeiro no ano que vem. Entre os concorrentes chama a atenção este filme da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, uma mistura de drama, terror e fantasia na composição de um dos filmes brasileiros mais comentados do ano. Acho que não é um SPOILER dizer que este é um filme de lobisomem, só que com um tratamento diferente, bem fora da caixinha - o que já se tornou a marca registrada da dupla. Houve muitos debates acerca das duas partes que compõem o filme, partes que se complementam, mas que provoca um certo estranhamento pelo corte narrativo que provoca. A primeira parte conta a relação entre a grávida Ana (Marjorie Estiano) e a empregada Clara (Izabél Zuaa), as duas convivem boa parte do tempo sempre com reservas até que o relacionamento ganha novos contornos - e Clara conta um pouco mais sobre a história do pai do bebê que está esperando. Nesta parte o filme mescla alguns elementos realistas (as ambientações internas, as músicas e roupas) com outros de contos de fadas (as letras que aparecem em todas as cenas) e fantasias (as cores nas cenas externas e os fundos sempre remetendo a ilustrações), estes pontos ajudam a dar o tom do filme sem maiores problemas. As atuações são boas, especialmente da pouco conhecida Izabél Zuaa que segue contida num misto de curiosidade, horror e uma certa devoção às vontades de Ana (que como de toda grávida "devem ser satisfeitas") . Embora o envolvimento sexual entre as personagens soe um tanto forçado, a primeira parte da história é bastante instigante e deixa a expectativa bem alta quando chega a segunda parte. Por conta do novo ato, que se revela quase um novo filme, o filme precisa retroceder em sua tensão e começa a construir tudo de novo, mostra o filho de Ana, Joel (Miguel Lobo... !!!) e os cuidados de Clara para que ele se controle a cada dia - e algumas de suas medidas são realmente drásticas. O relacionamento entre os personagens é novamente bem conduzido, mas o tom demora a ganhar forma novamente (e em dois momentos cria até cenas de musical - a primeira funciona, já a segundo, cria um anticlímax bastante problemático). Sorte que o final consegue ser interessante com os dilemas de Clara e as escolhas que precisará fazer. O final é o horror mais clássico possível do gênero, mas até lá, o texto de Rojas e Dutra terão juntado elementos do folclore brasileiro e outros pontos relevantes. Embora ouse na quebra de sua narrativa, derrape aqui e ali (e os efeitos especiais nem sempre soem convincentes) o filme reforça mais uma vez o estilo dos cineastas. Nos últimos anos, os dois trabalharam sozinhos (ele fez o arrepiante Quando Eu Era Vivo/2014 e o suspense meio chileno O Silêncio do Céu/2016 e ela fez o musical divertidamente fúnebre Sinfonia da Necrópole/2014), mas demonstram que existe uma química ainda mais interessante quando estão juntos - assim como vimos na estreia Trabalhar Cansa (2011). Não por acaso, enquanto fã da dupla, percebo neste As Boas Maneiras uma prequel do maior mistério do primeiro longa-metragem da dupla. As Boas Maneiras não é perfeito e pode não ser o escolhido para a vaga do Oscar, mas ganha pontos por ser diferente da maioria dos filmes que passaram no cinema neste ano. 

As Boas Maneiras (Brasil/2018) de Marco Dutra e Juliana Rojas com Marjorie Estiano, Izabel Zuáa, Miguel Lobo, Cia Moreira e Nina Medeiros. ☻☻☻☻

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

4EVER: Beatriz Segall

25 de julho de 1926  ✰ 05 de setembro de 2018

Nascida no Rio de Janeiro, Beatriz de Toledo Segall ficou famosa por seus trabalhos no teatro, no cinema e na televisão. Ainda que tenha recebido vários prêmios por trabalhos, a atriz ficou mais conhecida por seu trabalho como a vilã Odete Roitman, da novela Vale Tudo (1989), novela de sucesso gigantesco escrita por Gilberto Braga. Odete era famosa por suas frases de efeito e seu total desprezo a quem estivesse por perto. Beatriz revelava não gostar de falar sobre a personagem em entrevistas, já que o tempo passou e seus outros trabalhos foram eclipsados pelo apelo de Roitman. No cinema a atriz fez somente onze trabalhos, entre eles Pixote (1981) de Hector Babenco e Desmundo (2003) de Alain Fresnot - que lhe valeu o GP Cinema Brasileiro de atriz coadjuvante. Seu último trabalho foi na série Os Experientes (2015) da Rede Globo, mesmo ano em que atuou na versão brasileira do musical Nine no teatro. Nos últimos anos, Beatriz se dedicava a dar aulas de interpretação e buscava novos trabalhos. A causa da morte ainda não foi divulgada. 

CICLO VERDE E AMARELO: Todos os Paulos do Mundo

Paulo José: a arte de ser comum. 

Lançado em maio deste ano, o documentário Todos os Paulos do Mundo tem como objetivo ser muito mais do que um relato sobre a vida de um dos atores mais populares de nosso país, afinal, o filme procura construir a partir da edição inventiva um retrato sobre o artista, um verdadeiro quadro em movimento do que Paulo José Gomes de Souza representa para o patrimônio cultural brasileiro. Nascido em Lavras no Rio Grande do Sul, Paulo José se tornou famoso por seus trabalhos no teatro, no cinema e na televisão e são muitos destes momentos que compõem o filme da dupla Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira. No meio de tantos homens que Paulo encarnou, não deixa de ser uma ousadia reservar pouco espaço para a vida pessoal do próprio ator, optando por narrativas em off ilustrando as imagens que vemos. Com mais de trinta peças de teatro, quarenta trabalhos para a televisão e mais de cinquenta filmes, o documentário estabelece uma rede com base destas cenas, revelando relações entre a identidade do artista, semelhanças entre seus personagens e pontos de inferência com a vida real (especialmente quando se refere ao seu relacionamento com a primeira esposa, a atriz Dina Sfat). Ao longo do filme, aparecem suas parcerias com Dina, com Grande Otelo, Leila Diniz e quem curte cinema nacional identificará fácil seus trabalhos nos clássicos Todas As Mulheres do Mundo (1967), Macunaíma (1969) e o recente O Palhaço (2011), sem perder de vista como o artista conseguia transitar entre a comédia e o drama, existe sempre sua busca por retratar o homem comum, para além da construção de um personagem. Paulo buscava a construção de pessoas de carne e osso, um ser verdadeiro em seus sentimentos simplesmente humanos - este é seu objetivo desde que se juntou ao Teatro de Arena, mas, na trajetória de Paulo, pode-se perceber muito da história da dramaturgia no Brasil em meados do século XX com a ascensão do cinema, os tempos difíceis com o regime militar e sua ida para a televisão, além do seu gosto pelo teatro. As palavras de Paulo por vezes estão em sua própria voz, em outras, estão emolduradas pela voz de Selton Mello, Fernanda Montenegro ou pela filha Bel Kutner, sempre de forma bastante emocional. Para além disso, vale lembrar que faz 25 anos que o ator convive com o mal de Parkinson - e que durante boa parte deste período continuou atuando com maestria diante de todas as limitações impostas pela doença. Nos últimos quatro anos seu quadro tornou-se mais severo, sendo ainda mais pertinente esta homenagem em vida a um dos atores responsáveis por construir a cara do cinema nacional nos anos 1960 e 1970. Todos os Paulos do Mundo é um filme ainda mais emocionante para quem curte cinema brasileiro, especialmente pelos seus momentos finais, com direito a bolo e casa cheia de amigos. 

Todos os Paulos do Mundo (Brasil/2018) de Gustavo Ribeiro e Rodrigo de Oliveira com Paulo José, Leila Diniz, Dina Sfat, Grande Otelo, Selton Mello, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Bel Kutner e Marília Pêra. ☻☻☻☻

terça-feira, 4 de setembro de 2018

CICLO VERDE E AMARELO: Todas as Razões para Esquecer

Johnny e Bianca: amor eterno dure a dor de cotovelo. 

É sempre interessante quando você começa a ver um filme e ele te surpreende por tocar em alguns assuntos que você nem imaginava. Foi assim com Todas as Razões para Esquecer, bom filme de estreia do cineasta Pedro Coutinho que brinca com o fim de um relacionamento do século XXI. Quando o filme começa, Antonio (Johnny Massaro, que já tem o seu lugar entre meus jovens atores favoritos desde que o vi em O Filme da Minha Vida/2017) enfrenta o fim do relacionamento com Sofia (Bianca Comparato). Nenhum dos dois sabe explicar muito bem o motivo do relacionamento ter desandado e talvez nasça daí o desespero de Antonio, que fica desnorteado com a separação. Sem ter para onde ir, ele vai para a casa da prima e descobre que ela e o esposo estão fazendo terapia - e o próprio protagonista usará o mesmo recurso para esquecer Sofia. Neste ponto, vale tudo: aplicativos de relacionamento (é até engraçado como este elemento se encaixa bem na história como ponto de ironia), antidepressivos e diálogos que fazem tudo isso parecer uma grande modinha para uma sociedade que tenta não lidar com sentimentos como solidão e frustração. Também existem vários detalhes muito bem humorados no decorrer da história (como a mania do rapaz beijar as garotas que cruzam o seu caminho, o efeito colateral dos medicamentos e até o tom cômico de sua autopiedade cheia de deboche), porém, o mais interessante da história é o olhar sobre quem está por volta dos trinta anos - e que ainda tem problemas para lidar com a vida adulta, ou pelo menos com alguns aspectos dela. Embora o filme se prolongue um pouco mais do que o necessário, a narrativa tem segurança e um bom ritmo, além de manter um olhar bastante carinhoso para os personagens, mesmo quando capricha na ironia (a personagem de Regina Braga é um belo exemplo desta capacidade do jovem cineasta), além disso, consegue construir personagens que provocam uma simpatia quase imediata - reparem como o vizinho de Antonio, Deco (Thiago Amaral) nos conquista cada vez mais em seu tom humanista. Fazendo comédia romântica sem perder de vista o desenvolvimento dos seus personagens, Todas as Razões para Esquecer foge de idiotices e se torna uma bela surpresa que chegou aos cinemas neste ano. 

Todas as Razões Para Esquecer (Brasil/2018) de Pedro Coutinho com Johnny Massaro, Bianca Comparato, Regina Braga, Thiago Amaral, Rita Batata e Rafael Primot. ☻☻☻

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CICLO VERDE E AMARELO: Soundtrack

Selton e Ralph: amizade abaixo de zero. 

Quando eu era adolescente, lembro de ter assistido uma palestra de uma bióloga (amiga de minha mãe) em que ela contava um pouco de sua temporada em uma base de pesquisa na Antártida. Ela apresentava dados, mapas e fotos de forma tão fascinada que tornava impossível não sentir vontade de algum dia vivenciar uma experiência semelhante. Talvez por isso eu tenha me identificado com o personagem de Selton Mello neste Soundtrack, filme da dupla Bernardo Dutra e Manitou Felipe sobre um fotógrafo que se aventura por uma base habitada por cientistas na Antártida. Cris é visivelmente um artista em busca de um lugar ao sol e fica entusiasmado quando recebe permissão do governo brasileiro para ir até lá. Seu projeto de fotografar a si mesmo naquele ambiente sob o efeito de trilhas sonoras específicas destoa bastante dos interesses dos outros personagens que habitam o lugar - em sua maioria cientistas que pesquisam áreas diferentes e que tiveram sua cota de renúncias para estar ali. No início Cris terá que lidar com uma certa rejeição dos outros personagens que nunca entendem muito bem a motivação daquele artista estar ali - e neste ponto o filme instiga algumas reflexões do lugar da arte em um mundo dominado pela ciência. Aos poucos, Cris desenvolve maior proximidade com Mark (o ótimo Ralph Ineson, o pai de A Bruxa/2016), seu parceiro de alojamento, numa relação que se torna fio condutor da história. Na trama existe outro personagem brasileiro, Cao (Seu Jorge) que não tem maior destaque do que os outros dois personagens gringos do filme, um pesquisador dinamarquês chamado Rafnar (Logan Loughran) e o chinês Huang (Thomas Chaanhing). A direção e o roteiro de Dutra e Manitou tem ritmos bastante próprios, que caem como luva na ambientação contemplativa de muito branco (em ótima fotografia) que possui grande beleza mas também consegue ser um tanto intimidadora. Os diálogos em inglês explora a ênfase de que Cris está em um território diferente do que estava acostumado, como se de fato ele falasse uma linguagem diferente dos cientistas ao seu redor. O tom intimista da narrativa valoriza ainda mais as catárticas fotos de Cris e os momentos de perigo iminente - que são realmente angustiantes e reforçadas pela trilha sonora bastante pontual. O mais interessante é que ao chegar ao seu desfecho, todo aquele branco reflete um pouco da personalidade do próprio protagonista que nunca se revela por completo dentro da história (talvez somente pela sua arte). Interessante e original, Soundtrack é a segunda parceria de Selton e Jorge com os diretores, já que os dois formam a dupla 300ml que rendeu o delicioso curta O Código Tarantino (2006) que fez sucesso ao ser disponibilizado no Youtube com suas teorias de que os filmes do diretor americano estão interligados. Soundtrack pode não ter a mesma pegada pop do curta, mas faz mágica ao nos transportar para sua gélida geografia, que foi filmada em um estúdio em Jacarepaguá com fundo verde e efeitos especiais. 

Soundtrack (Brasil/2017) de Bernardo Dutra e Manitou Felipe com Selton Mello, Ralph Ineson,  Seu Jorge, Logan Loughran e Thomas Chaanhing. ☻☻☻☻

domingo, 2 de setembro de 2018

CICLO VERDE E AMARELO: Ação Entre Amigos

Zé Carlos e seus amigos: sabor de vingança. 

Lançado há vinte anos, Ação Entre Amigos, o segundo filme do cineasta paulista Beto Brant precisa ser redescoberto. O mais interessante é que todo mundo ainda comentava o êxito de Os Matadores (1997), quando o diretor retornou aos cinemas com outro filme de baixo orçamento, enxuto e envolvente e desta vez tocando em um dos episódios mais delicados da história de nosso país: a ditadura militar. No entanto, quando Beto lançou seu segundo filme, ele não poupou a plateia dos horrores da tortura e do desaparecimento de civis envolvidos na militância, mas também não apresentou uma visão romanceada da postura dos militantes, o que gerou um tanto de polêmica e críticas para o diretor, no entanto, a história escrita por Marçal Aquino permanece envolvente e até atual por explorar como as feridas daquele período continuam mal cicatrizadas, simuladas por uma fina camada de pele que nunca expõe por completo as mazelas daquele período - e o resultado nós podemos ver nas eleições polarizadas que se aproximam. Se nos apegarmos ao que vemos na tela, o filme parece pronto para gerar debates e discussões sobre isso ou aquilo, mas se pegarmos o que está nas entrelinhas, o que temos é a ideia de que a violência não é capaz de gerar nada além de mais violência (e aqui ela está em ambos os lados, embora com intenções diferentes). Ação Entre Amigos é em sua essência um filme de vingança sobre um grupo de senhores ex-militantes que já foram prisioneiros políticos repletos de más lembranças daquela época, mas que nos dias atuais se deparam com o paradeiro do homem que os torturou por vários meses. Quem descobre o paredeiro do torturador é Miguel (o bom Zé Carlos Machado quando adulto), que com contados no meio político percebe que a morte de um certo Corrêa (Leonardo Villar) pode ter sido simulada para que pudesse viver em paz, longe dos fantasmas do passado. Miguel ainda tem contado com seus companheiros de militância, Elói (Caca Amaral), Paulo (Carlos Meceni) e Osvaldo (Genésio de Barros), mas terá que convencê-los a partir em busca do antagonista do quarteto. Enquanto o tempo presente transcorre, somos apresentados a alguns flashbacks que apresentam o passado dos personagens, passado que alguns tentam esquecer no novo rumo que suas vidas seguiram, no entanto, diante das perdas que sofreu, Miguel é irredutível em encontrar o homem que mudou o rumo de sua vida para sempre. Ação Entre Amigos não poupa seu grupo de amigos de conflitos, numa espécie de reflexo do Brasil sobre um efeito ainda anestesiado pela anistia dos envolvidos de um lado e do outro - que deixou a História ainda mais escondida num inquietação que ganha bom reflexo no filme. Beto Brant borra as verdades dos personagens e revela que ela é bem mais complicada de lidar do que um primeiro olhar é capaz de explicar. Curto e de narrativa urgente, o filme pertence à época que Brant ainda era um diretor cheio de energia, antes de se aventurar por histórias mais românticas e intimistas. A trilha sonora de André Abujamra tem ótimos momentos (especialmente na abertura e na cena final) e revela o quanto cinema nacional retornava com fôlego nos anos 1990! Vinte anos depois, a história em que mocinhos e bandidos oscilam e se misturam entre memórias e traições ainda faz de Ação Entre Amigos um filme interessantíssimo e melhor do que muito filme que se considera politizado no século XXI. 

Ação Entre Amigos (Brasil/1998) de  Beto Brant com Zé Carlos Machado, Rodrigo Brassoloto, Cacá Amaral, Carlos Meceni, Genésio de Barros, Melina Anthís, Sergio Cavalcante, Herberson Hoerbe, Douglas Simon e Leonardo Villar. ☻☻☻☻

sábado, 1 de setembro de 2018

CICLO VERDE E AMARELO: Vazante

Luana e Adriano: lacunas demais. 

É curioso o caso de Vazante, filme solo da diretora Daniela Thomas que ficou bastante conhecida nos anos 1990 por conta de sua parceria com Walter Salles (falando nisso, quando ele lançará um filme novo?). Vazante recebeu elogios em suas exibições no exterior, mas quando foi exibido no Festival de Brasília recebeu duras críticas pela forma como a diretora conta sua história ambientada durante a escravidão no Brasil. Em Brasília, a diretora se viu no meio de uma sabatina que questionava a forma como ela retrata o negro em sua história, o que rendeu até comentários de que ela teria dito que se houvesse pensado em todas aquelas questões, não teria feito o longa. Tantas críticas acabaram rendendo um outro debate sobre o público de festivais e os filmes que são exibidos,  uma vez que muitas vezes os filmes são apreciados e questionados mais pelo tom político de suas narrativas do que pelos seus méritos cinematográficos. As duas discussões são interessantes, principalmente por conta do longa buscar o tempo inteiro este equilíbrio entre a estética e a história que tem para contar. Em termos artísticos o filme é um primor, Thomas tem cuidado na escolha dos ângulos, sabe exatamente o que mostrar para aumentar as sensações de melancolia e isolamento, além disso o uso de luzes e sombras é magnificamente trabalhado pela fotografia em preto e branco - o que torna visualmente atraente até as cenas mais escabrosas (o que para alguns será um defeito). Daniela Thomas também utiliza muitos silêncios e uma narrativa quase arrastada, com uma edição sugestiva e que deixa várias lacunas para o espectador preencher da maneira que considerar mais relevante. Considero que é justamente destas lacunas que surgiram as maiores críticas ao filme. Com poucos diálogos e personagens que quase sem identidade definida, o destaque fica por conta da jovem Beatriz (Luana Nastas), que é forçada a se casar com um jovem viúvo português no ano de 1821. Sem afeição e com a constante sensação de solidão, ela acaba se aproximando de alguns escravos da fazenda, o que causará consequências trágicas para a história. Em termos de roteiro, o arco de Beatriz e seu esposo, António (Adriano Carvalho) é o único que recebe um desenho mais definido, já que todos os outros não recebem igual tratamento, dando realmente uma coisificada sobre os escravos que aparecem no decorrer da história (que se revelam um amálgama de situações que já vimos várias outras vezes no cinema e na televisão brasileira). Eles trabalham, fogem, se rebelam, comem lama, mas não chegam a ter grande importância na história - e mesmo aqueles que tem algum destaque (caso da ótima Jai Baptista e o famoso Fabrício Boliveira) deixam a sensação de que não são aproveitados como deveriam (o mesmo acontece com as personagens das renomadas Sandra Corveloni e Juliana Carneiro da Cunha em personagens que são verdadeiros clichês ambulantes). A ideia de ter um roteiro mais aberto para gerar várias interpretações, acabou gerando um filme oco, sem novidades e até superficial ao abordar um período sempre em voga em nossa história. Vazante é um filme esteticamente irretocável, só faltou um roteiro consistente para explorar as possibilidades de seus personagens e aproveitar o bom elenco que tem em mãos.

Vazante (Brasil-Portugal/2017) de Daniela Thomas com Luana Nastas, Adriano Carvalho, Juliana Carneiro da Cunha, Sandra Corveloni, Jai Baptista e Fabrício Boliveira. ☻☻