segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Na Tela: Lady Bird

Saoirse e Laurie: filha e mãe nos melhores momentos do filme. 

Acompanho a carreira de Greta Gerwig desde que ela se tornou a melhor coisa do insuportável Greenberg (2010), filme que considero o pior da carreira do diretor Noah Baumbach. Curiosamente a partir deste filme os dois engataram uma parceria dentro e fora da telona. Logo depois os dois assinaram juntos o roteiro do cult Frances Ha (2012) - que ela protagonizou e foi indicada ao Globo de Ouro pelo papel principal. Com menos sucesso os dois assinaram Mistress America (2015), que confirmava que a atriz havia se tornado a musa do diretor e injetado um olhar mais otimista em sua obra. Obviamente que Greta continuou trabalhando com a nata do cinema independente (incluindo Rebecca Miller, Pablo Larraín e Mike Mills), mas era visível que a californiana nascida em Sacramento queria mais do que ser vista como a musa indie do momento. Quando começaram a falar que ela assinaria a direção de Lady Bird, vi que era algo inevitável - o que eu não imaginava é que seu filme se tornaria tão querido e a tornaria a quinta diretora a ser indicada ao Oscar de direção (a terceira norte-americana a disputar a categoria, anteriormente somente Sofia Coppola e a premiada Kathryn Bigelow alcançaram este reconhecimento). Em cartaz em algumas pré-estreias por conta das  cinco indicações ao Oscar (ele também concorre aos prêmios de melhor filme, atriz, atriz coadjuvante e roteiro original), Lady Bird é um filme sobre crescimento, mas tem algo mais debaixo disso. Existem questões ligadas ao relacionamento de mãe e filha, a necessidade de ver que o mundo é maior do que o mundinho em que crescemos e aquela inquietação de que na adolescência ainda não começamos a ser nós mesmos. Lady Bird McPherson começa a fazer aulas de teatro, sonha em fazer faculdade em Nova York para fugir da cidade natal que ela despreza e, de vez em quando,  até briga com sua fiel escudeira (a ótima Beanie Feldstein) Coube a Saoirse Ronan (de 23 anos) defender a protagonista adolescente que, ao contrário do que ela pensa, nem sempre está certa. Cheia de altos e baixos, qualidades e defeitos, Saoirse consegue dar à personagem contornos deliciosamente humanos (e já ganhou o Globo de Ouro pelo papel e está, inevitavelmente, indicada ao Oscar). Não é por acaso que ver seu relacionamento com seus pretendentes, o carinhoso  Danny (Lucas Hedges) e o chato Kyle (Timothée Chalamet) é menos interessante do que vê-la às turras com a mãe (Laurie Metcalt). No entanto, a química entre as duas atrizes é tão sensacional que o amor entre as duas está sempre nas entrelinhas de cada discussão ou conflito. Greta também assina o roteiro e o transporta para tela com ritmo ágil, numa sucessão de acontecimentos de ritmo urgente como as sensações da adolescência (e em vários momentos a edição trabalha com um tom jocoso irresistível), assim como o tom é marcado pelo olhar de sua protagonista (o que deixa alguns personagens abandonados pelo caminho quando poderiam render muito mais - o que não se trata de um defeito, mas uma opção da narrativa). Lady Bird rende risadas e tem seus momentos comoventes, mas o mais interessante é que possui um olhar profundamente carinhoso sobre a sua personagem, o que só revela que Greta tem muito a dizer com uma câmera na mão. Curiosamente, a cineasta já assinou outro filme antes de se tornar conhecida,  era Nights And Weekends (2008), que teve distribuição modesta somente nos Estados Unidos e apareceu em vários festivais, mas ninguém deu muita bola para seu debut ao lado de Joe Swanberg.  Pelo voo solo Lady Bird pode ser realmente considerado seu filme de estreia - e espero que venham muitos outros.  

Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird/EUA-2017) de Greta Gerwig com Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Lucas Hedges, Thimothée Chalamet, Beanie Feldstein e Tracy Letts. ☻☻

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