sábado, 31 de outubro de 2026

4EVER: Patrick Stewart

13/07/1944✰ 28/10/2026 

Filho de uma tecelã e de um militar, Patrick Hewes Stewart ingressou na Royal Shakespeare Company em 1966, estreou na TV em 1967 e na Broadway em 1970. No entanto, seu maior reconhecimento chegou somente em 1987 quando encarnou o capitão Jean-Luc Picard na série Star Trek: The Next Generation (1987-1994). A fama do ator só aumentou quando no ano 2000 encarnou o mutante Professor Charles Xavier nos filmes dos X-Men. Seu trabalho antológico retornará no Universo Cinematográfico da Marvel este ano no novo filme dos Vingadores que estreia em dezembro. O ator faleceu após conviver com Alzheimer. 

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

PL►Y: Mother Mary

Hathaway: o nome dela é trabalho. 

Famoso diáriw, Anne Hathaway resolveu não ficar em casa nos últimos tempos e lançou cinco filmes ao longo de 2026. O primeiro deles foi um fracasso de bilheteria e recentemente chegou ao streaming. Mother Mary traz a assinatura ilustre de David Lowery, mas que avança pouco em sua relação entre estética e conteúdo. A atriz vive uma cantora pop que está em crise e procura uma antiga estilista (Michaela Coel) para ajudá-la a criar seu figurino para um show. Acontece que as duas tiveram desentendimentos no passado e voltar a trabalhar juntas pode se tornar uma verdadeira tortura psicológica para elas e... para a plateia. Repleto de simbologias e muitos diálogos sobre traumas e ressentimentos, a narrativa costura o reencontro das personagens com algumas cenas de palco que demonstram a transição de uma artista cultuada pelos fãs como uma verdadeira divindade para uma pessoa fragilizada e em crise com seu ofício. Se por um lado a parte estética com figurinos, direção de arte e trilha sonora caprichada (produzida por Jack Artonoff, Charli XCX, FKA Twigs e Daniel Hart, entre outros) que emolduram os dons vocais de Hathaway, o roteiro se enrola na tentativa de ser profundo, mas soa truncado e até banal. Um pouco mais de clareza no desenho do conflito entre as duas personagens cairia muito bem na história. Existe aqui um olhar curioso sobre o universo pop que concilia com uma interessante atmosfera gótica, mas a forma como é desenvolvida deixa a dramaticidade afetada, com muita pose e a necessidade de fazer o sofrimento soar sexy e envolvente. Quando o filme terminou eu fiquei imaginando onde ele queria chegar, já que tive a impressão que ficou parado em seu ponto de partida desde o início.  

Mother Mary (Reino Unido, Finlândia, Alemanha, EUA - 2026) de David Lowery com Anne Hathaway, Michaela Coel, Hunter Schafer, Sian Clifford e FKA Twigs. ☻☻

Na Tela: Cara de Barro

Tom: identidade transformada. 
Derretido diáriw, as coisas andam tão estranhas para o lado da DC nos cinemas que bastou ser lançado um filme mais modesto, com baixas expectativas que o público o abraçou na medida certa. Cara de Barro era um filme que ninguém esperava muita coisa, mas se pagou tranquilamente em seu fim de semana da estreia. O filme é uma história de origem de um dos vilões do Batman que já passou por várias versões nas HQs, aqui Matt Hagen deixa de ser um caçador de tesouros para se tornar um ator famoso que cai em desgraça quando se envolve com a mulher errada. Vivido com competência pelo galês Tom Rhys Harries, Hagen tem seu rosto destruído por um gângster e vê não apenas sua carreira entrar em declínio como sua reputação também. Desesperado, ele se oferece para ser cobaia de um experimento revolucionário com a doutora Caitlin Bates (Naomie Ackie), mas embora os resultados sejam promissores, aos poucos eles percebem que os efeitos não funcionam como os esperados. Aos poucos a pele de Hagen se torna cada vez mais instável, mas os problemas aos poucos se mostram habilidades que podem ajudá-lo em realizar uma vingança. Idealizado por Mike Flanagan como um body horror, a direção caiu nas mãos de James Watkins (responsável pelo remake horroroso de Não Fale Mal/2024) que se sai bem quando lida com a identidade em dissolução do protagonista junto com seu corpo em deterioração, mas encontra dificuldade de apresentar algo mais quando a vingança toma conta da narrativa. No entanto, com um protagonista bem desenhado e cenas marcantes com efeitos convincentes, o público parece ter aprovado o resultado. Fico curioso para saber o espaço que o personagem terá no Universo cinematográfico da DC que ainda soa disperso.

Cara de Barro (Clayface / EUA - 2026) de James Watkins com Tom Rhys Harries, Naomie Ackie, Max Minghella, Nany Carroll, Eddie Marsan, Joana Ribeiro, David Dencik e Joshua James. ☻☻☻

terça-feira, 27 de outubro de 2026

10+ Favoritos entre os Premiados da Mostra Internacional de SP

No início, a Mostra Internacional de São Paulo deixava a cargo do público a função de eleger o melhor filme da mostra. Décadas depois, começou a diversificar, deixando que a crítica e um júri também fizessem suas escolhas. Assim, mais filmes ganhavam projeção na mostra e depois com categorias de ficção e documentários, divididos em produções nacionais e internacionais deixaram as escolhas ainda mais diversificadas, deixando o público mais atento às centenas de filmes que passam todo ano pela mostra. Em 2026 o evento chega à sua 50ª edição e vários dos filmes exibidos por lá receberam postagens por aqui ao longo dos anos. A seguir dez dos meus filmes favoritos que foram premiados nas várias edições. Como é quase impossível classificar tantas obras-primas (já foi difícil escolher somente dez), eu preferi organizá-los por ordem cronológica:

Prêmio da Crítica

Prêmio do Público  

Prêmio do Júri

Prêmio do Júri e Prêmio do Público

Prêmio do Júri 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

Prêmio Especial da Crítica

Prêmio do Público 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

NªTV: Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP

Cakoff: cinema é resistência!  

Cinéfilo diáriw, diante de toda a atmosfera tensa das eleições de 2026 resolvi me distrair com a minissérie documental Viva o Cinema! da HBO sobre a história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Disponível no streaming, a produção conta a trajetória da Mostra idealizada por Leon Cakoff desde sua criação em 1977 no MASP e sua expansão pela cidade de São Paulo. Em quatro episódios, acompanhamos os desafios, as amizades, os participantes, os filmes que fizeram história com sua exibição nas edições e a forma como a paixão pelo cinema se mostrou um ato de resistência ao longo dos anos. Cakoff era crítico de cinema e ao idealizar a Mostra nunca teve a ideia de centra-se no glamour dos artistas. Sua ideia principal era valorizar os filmes dos mais variados lugares, das mais variadas culturas e temáticas e aproximar o público de filmes que geralmente não teria acessos nas salas de cinema convencionais. Diante deste ideal enfrentou problemas com a censura nos tempos da ditadura (e chega a ser engraçado quando forçou os censores a ver centenas de filmes a tempo da mostra e ajudou a pressionar pelo fim da censura) mais recentemente enfrentou problemas com perda de patrocínio diante do governo federal passado que olhava com desprezo para a cultura.  Dirigido pelo casal Marina Person e Gustavo Moura de Maria, o programa é uma declaração de amor ao cinema e à Mostra, que fica ainda mais evidente com o cuidado com que contextualiza as edições da Mostra e a relação dos filmes com a realidade do Brasil e do mundo. Dos golpes sofridos pela mostra (a falta de recursos, a morte de Cakoff, a edição online na pandemia...) aos fãs que colecionou ao longo da trajetória (da própria Marina à Quentin Tarantino), Viva o Cinema! é uma celebração à arte e ao cinema enquanto uma forma de olhar o mundo e refletir sobre ele. Só para lembrar, a edição deste ano termina na sexta-feira (29/10)! 

Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP (Brasil - 2024) de Marina Person e Gustavo Moura de Maria com Leon Cakoff, Marina Person, Gustavo Moura de Maria, Renata de Almeida, Daniela Thomas, Serginho Groissman e Jonas Chadarevian. ☻☻☻☻☻ 

NªTV: Tip Toe

Cumming: tempos sombrios. 

Temeroso diáriw, quando a série Tip Toe foi exibida no exterior, li muitas críticas sobre o quanto era sombria sobre a trama de um homem gay que termina assassinado pelo vizinho. Este é o ponto de partida para uma trama que assusta principalmente pela proximidade com a realidade. Ela torna-se ainda mais assustadora quando percebemos que o título (que traduzindo seria algo como "andando na ponta dos pés") se refere à forma como homossexuais sentem a necessidade de serem mais do que discretos para não chamarem atenção e não sofrerem algum tipo de agressão física ou psicológica em tempos em que existe o discurso de que você sair do armário não tem problema algum. Segundo um dos pontos da série, assumir a sexualidade se tornou um verdadeiro alvo com a ascensão de extremistas e seus discursos homofóbicos. Uma questão controversa, mas que faz pensar. A trama conta a história de Leo (Alan Cumming no papel de sua vida), um dono de pub gay e seu amargo vizinho Clive (David Morrissey). Clive é casado e pai de dois rapazes, um de 25 e outro de 16. Sua relação com Leo é pautada pela cordialidade em um nível de tolerância zero em que qualquer respiro pode fazer seus instintos mais primitivos transbordarem de preconceitos (mal sabe ele que seu filho mais velho ganha dinheiro com vídeos eróticos na internet e o caçula está doido para sair do armário). Ao longo dos cinco episódios vemos como a situação chegou ao nível de loucura para que Leo fosse morto diante da vizinhança em plena luz do dia. Tip Toe aborda temas complicados e o faz oscilando entre o trágico e o cômico com uma sucessão de erros que gera revelações que só destacam o quanto Clive está descolado da realidade na fragilidade de sua masculinidade tóxica. O último episódio é assustador e, por isso mesmo, soa bastante real com o ritmo impulsivo dos acontecimentos. 

Tip Toe (Reino Unido /  2026) de Russell T. Davies com Allan Cumming, David Morrissey, Elizabeth Berrington, Pooky Quesnel, Paul Rhys, Jackson Connor, Joseph Evans, Iz Hesketh e Gabriel Clark. ☻☻☻☻ 

domingo, 18 de outubro de 2026

PL►Y: Hit Para Dois

Paul Rudd: compositor roubado. 

Sonoro diáriw, o irlandês John Carney é um diretor de gênero bastante específico já que seus filmes são comédias envolvendo música. Se por um lado ele não ousa, ao menos produz filmes que são agradáveis de assistir (o ideal para se ver para aliviar a cabeça, ainda mais quando percebi que estava assistindo muitos filmes densos ultimamente). Hit Para Dois conta a história de Rick (Paul Rudd) um cantor de casamento que mora na Irlanda e que ao se apresentar em uma festa conhece um astro da música pop chamado Danny Wilson (Nick Jonas), que faz tempo que não lança um sucesso. Os dois se apresentam juntos na festa e depois de umas bebidas resolvem conversar sobre suas composições. Os dois parecem se entender bem e depois cada um segue sua vida... seria assim se Danny não usasse uma das composições de Rick para construir um novo hit. A música se torna um sucesso e o compositor é sequer mencionado. Rick tenta conversar com o moço, mas é evitado a todo custo, o que vira um verdadeiro inferno astral diante da injustiça ocorrida. Sem provas de que é o compositor original da canção, existem conflitos com seus colegas de trabalho, com a família, com a equipe de Danny... a coisa só complica mas de uma forma leve e cheia de gracinhas para não pesar o clima. O roteiro é simples e redondinho e o fato de contar com um bom elenco também ajuda a se envolver com a história com trilha sonora caprichada. Paul Rudd está bem no papel do cantor que deixou a carreira que não decolava para construir uma família - mas que vê naquela situação a chance de ter o reconhecimento que nunca conseguiu. Eu nunca tinha visto um filme com Nick Jonas e achei o moço convincente em seu mal caratismo. Vale destacar que a música que cria toda confusão é gostosinha de ouvir e pode estar no Oscar do ano que vem, especialmente por sua letra ambígua. 

Hit Para Dois (Power Ballad / EUA - Irlanda / 2026) de John Carney com Paul Rudd, Nick Jonas, Peter McDonald, Rory Keenan, Paul Reid, Keith McErlean, Beth Fallon e Marcella Plunkett. ☻☻☻

PL►Y: Suntan

Makis e Elli: paraíso corrompido. 

Ensolarado diáriw, Suntan é um filme que parece muito normal para pertencer ao movimento Estranha Onda Grega. Os personagens conversam normalmente, bebem, trabalham, vão em festas e quase sempre estão na praia. O que pode provocar algum estranhamento por aqui é como alguns frequentam a praia com roupas de banho e outros completamente nus sem maiores surpresas (mas dizem que por lá é assim mesmo dada à atitude liberal em relação ao corpo). No entanto, conforme o filme se aproxima do desfecho existe aquele uso do absurdo, do incômodo, da transição do cômico e do patético para o violento e bizarro de forma repentina. Lançado em 2016, o filme ilustra de forma contundente a confusão existente na mente do seu protagonista sobre o que é o amor e como vivê-lo.  O filme conta a história de Kostis (Makis Papadimitriou), um clínico geral de 42 anos que começa a trabalhar na ilha grega de Antiparos. No verão a ilha fica cheia de turistas que aproveitam as praias e festas locais. Nesse período, Kostis atende Anna (Elli Tringou), que está acampada na ilha junto com alguns amigos. Os dois se aproximam e ele fica animado com a possibilidade de romance com uma mulher com metade de sua idade. No entanto, o que era para ser algo prazeroso se torna uma verdadeira obsessão para Kostis, que mergulha em um declínio moral de consequências assustadoras. O diretor Argyris Papadimitropoulos  é bastante habilidoso em transformar o paraíso em um cenário tenso no decorrer do filme, assim como as atitudes de personagens se tornam cada vez mais humilhantes e desconfortáveis. Makis Papadimitriou cria com precisão a mistura de problemas de autoestima, rejeição e posse num resultado tóxico tornando um homem comum em um ser assustador. Achei que o filme trabalha de forma contundente um tema bastante atual. 

Suntan (Grécia / Alemanha - 2016) de Argyris Papadimitropoulos com , Makis Papadimitriou, Elli Tringou, Hara Kotsali, Milou Van Groesen, Dimi Hart, Marcus Collen e Pavlos Orkopoulos. ☻☻☻

PL►Y: Zonas Úmidas

Christoph e Carla: sem higiene.  

Desagradável diáriw, acredito que este seja o filme mais nojento já realizado. É verdade que você já deve ter visto filmes de terror que possam revirar o estômago, mas este aqui se apresenta como uma comédia dramática ácida que leva a escatologia para onde ninguém ousou ir. Tem tiradas bem humoradas, doses de drama, fotografia límpida e uma edição esperta para envolver o espectador enquanto sua protagonista desafia qualquer padrão de higiene. Se a ideia era  quebrar tabus e causar ojeriza e ainda assim ser interessante (!!), o objetivo é alcançado por dois terços do filme, já que conforme se aproxima do desfecho a coisa fica cada vez mais gratuita, repetitiva e desinteressante. O filme conta a história de Ellen (Carla Juri), uma jovem que tem uma relação problemática com os pais e deixa que isso se reflita em sua relação com o próprio corpo. Se por um lado ela parece ter fetiche por, digamos, fluídos corporais variados, por outro a total ausência de higiene reflete uma personalidade autodestrutiva. Alguns dirão que ela percebe tudo com naturalidade sobre seu corpo, mas isso não evita que ela se corte em uma depilação íntima e caminhe para escola com o sangue escorrendo pelas pernas como se nada estivesse acontecendo. Por conta disso ela vai parar num hospital e parece finalmente receber alguma atenção após anos lidando com pais negligentes. O filme é baseado no livro homônimo de Charlotte Roche e testa os limites do espectador e do próprio cinema com algumas cenas asquerosas. Ao longo da sessão, o destaque é da atriz Carla Juri que aos 28 anos convence na pele de uma adolescente! Dá para perceber que o diretor David Wnendt não tem medo de ousadias e depois adaptou para o cinema o best-seller Ele Está de Volta (2015) - filme obrigatório para os dias atuais. 

Zonas Úmidas (Feuchtgebiete / Alemanha - 2023)  de David Wnendt com Carla Juri, Meret Becker, Christoph Letkowski, Marlen Kruse, Selam Tadese, Axel Milberg e Edgar Selge. ☻☻