terça-feira, 29 de setembro de 2026

PL►Y: Eu Já Fui Engraçada

Rachel: em busca de si. 
Traumatizado diáriw, este filme canadense chamou minha atenção pelo título incomum e pela presença de Rachel Sennott que é uma das jovens atrizes mais interessantes do cinema atual. Eu não sabia muito bem qual era a história e a sinopse sobre uma jovem comediante de stand up que tenta encontrar uma garota que ela tomava conta não ajuda muito. Aos poucos você começa a desvendar o tema do filme e quando ele terminou, só pensei que ele merecia mais atenção em sua época de lançamento. Primeiro por misturar temas bastante complicados e, ainda que por vezes os embole durante seu desenvolvimento, o resultado ainda consegue ser bastante acima da média, sobretudo pela sinceridade com que conduz a trama. Não existe uma redenção ou momento catártico que irá salvar as personagens, existe no centro uma relação de amizade que sofre um corte brusco e violento que causa cada vez mais desconforto enquanto não consegue ser confrontado. Rachel Sennott dá conta de uma personagem que transita entre as idas e vindas da narrativa, entre o passado em que se apresentava em shows de humor, se sustentava cuidando da adolescente  Brooke (Olga Petsa), namorava com Noah (Ennis Esmer) e se divertia com os amigos (Sabrina Jalees e Caleb Hearon), já no presente a personagem não sabe muito bem como lidar com um trauma que tirou toda sua vida dos trilhos. A atriz consegue elaborar a personagem nestes momentos distintos com bastante desenvoltura. Depois de dirigir curtas, clipes e séries de televisão, a diretora e roteirista Ally Pankiw faz uma estreia bastante promissora em longa-metragem e consegue estruturar o drama central como uma espécie de suspense que se desvenda aos poucos. Algumas situações do roteiro poderiam ser mais lapidadas, mas nada que comprometa o resultado final. 

Eu Já Fui Engraçada (I Used to Be Funny / Canadá -Reino Unido - 2024) de Ally Pankiw com Rachel Sennott, Olga Petsa, Jason Jones, Sabrina Jalees, Caleb Hearon e Ennis Esmer. ☻☻☻

FILMED+: Pulp - Até Onde Você Vai Por um Bis?

Jarvis: puro suco do britpop.
Amado diáriw, aguardei ansiosamente para a estreia do documentário Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis? na Mubi e assim que o documentário acabou, eu assisti tudo de novo. A produção acompanha o show de nº 566 da banda que foi realizado na lendária O2 Arena em Londres. O show fazia parte da turnê de volta de banda que lançou o álbum More em 2025 quebrando um hiato de 24 anos sem lançar material inédito. Eles até realizaram alguns show aqui e ali, mas os fãs acreditavam que o retorno da banda era cada vez mais incerto. O show ainda rendeu um (ótimo) álbum ao vivo e o documentário faz parte do pacote celebratório em torno da banda do mítico Jarvis Cocker, um dos vocalistas mais interessantes do universo. Dirigido or Garth Jennings, o filme traz cenas de palco entrelaçada com vários registros da banda desde o seu início em 1978 na cidade de Sheffield. A trajetória do Pulp é contada de forma bastante concisa e descontraída pelo vocalista, tornando a produção ainda mais envolvente pelo seu tom bem humorado. Cocker (e lógico que fazem piada com o sobrenome do moço) revisita os álbuns da banda, que inicia meio folk, passa pelo gótico, pela influência da música eletrônica até ganhar o público com toda essa mistura (que inclui Barry White também) no início dos anos 1990 até explodir no sucesso do álbum Different Class (1995). Eu conheci a banda nessa época (ouvindo Disco 2000 e Common People no Lado B da MTV. Bons tempos!). Durante pouco mais de hora e meia de duração, você entende o motivo do Pulp ter se tornado uma banda icônica do britpop. Enquanto Blur e Oasis se matavam por popularidade, a banda de Sheffield parecia estar mais preocupada com o visual retrô e suas esperiências sonoras inconfundíveis. Confesso que sou fã mas já está na minha lista de filmes favoritos do ano. 

Pulp: Até Onde Você Vai por Um Bis (Pulp: What Do You Do for an Encore / Reino Unido - 2026) de Garth Jennings com Jarvis Cocker, Nick Banks, Candida Doyle e Mark Webber e Mark Sainsbury. 
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domingo, 27 de setembro de 2026

PL►Y: Sem Cortes

Kieron: entre personas. 

Polêmico diáriw, ao ser exibido em Festivais e lançado em circuito indie restrito nos Estados Unidos, Sem Cortes recebeu elogios pela ousadia com que constrói os temas em torno do encontro de seus dois personagens principais. Aaron (Kieron Moore) ganha a vida fazendo vídeos eróticos na internet. Uma noite ele é contratado por um dos seus admiradores (Hank Grant), mas o chegar no local do encontro, o homem encapuzado parece querer mais conversar do que fazer outras coisas. Ao longo da conversa, Aaron percebe que existe algo estranho no interesse daquele homem por ele e a coisa se torna ainda mais complexa quando descobre que aquele senhor de cabelos brancos é alguém do seu passado. Este é o longa de estreia de Elliot Tuttle que também assina o roteiro e merece atenção pela coragem com que demonstra interesse em desvendar a personalidade de um personagem tão perigoso quanto o cliente vivido pelo veterano Hank Grant. Ao longo dos diálogos travados entre os dois personagens vemos as camadas de desejo e solidão vividas por ambos, sendo que sempre sempre que o personagem mais velho está em questão, um arrepio percorre a mente do espectador. A produção aborda um tema pesado, mas o faz pelos olhos de Aaron que parecia tão seguro em sua persona online, mas que mostra-se vulnerável ao se reencontrar com seu passado. Sua curiosidade e tentativa de desvendar a mente de seu interlocutor gera situações e emoções que ele nem imaginava reviver. Embora o texto tenha um grande potencial para os palcos (somente dois atores, longos diálogos e somente uma locação), o diretor e o elenco espantam qualquer vestígio de teatro filmado. Embora o sexo seja algo presente desde a primeira cena, a forma como ele e tratado aqui é bastante diferente. Considero o filme uma grande surpresa.

Sem Cortes (Blue Film / EUA - 2025) de Elliot Tuttle com Kieron Moore e Hank Grant. ☻☻☻☻

PL►Y: Bom Garoto

Anson Boon: reabilitação forçada. 

Provocador diáriw, além de O Aniversário, o diretor polonês Jan Komasa lançou outro filme em língua inglesa que está disponível no streaming. Chamado por aqui de Bom Garoto (mais um... aff) o filme se tornou um dos mais controversos do ano passado. O longa conta a história de Tommy (um furioso Anson Boon, um daqueles jovens atores que merece atenção), um rapaz de 19 anos que vive uma rotina de drogas, bebida e violência até que em uma noite em que está completamente dopado, ele é sequestrado. Ele acorda em um porão, com uma coleira acorrentado à uma parede e será submetido a um processo de "reabilitação" forçada comandado por um estranho casal. Chris (Stephen Grahan) e Kathryn (Andrea Riseborough) demoram a demonstrar o que está por trás de suas intenções com o rapaz, mas aos poucos, Tommy e o espectador começam a entender o que está acontecendo. Obviamente que a situação absurda deixa Tommy com medo e revoltado, mas a presença do menino Jonathan (Kit Rakusen) e da diarista Rina (Monica Frajczyk) trarão outras nuances para a temporada em que o rapaz participa do estranho confinamento. Komasa capricha na estranheza da história e se de início concebe Tommy como uma variação do protagonista do aclamado Corpus Christi (2019), aos poucos o desenvolve por outros caminhos. O bom elenco capricha na bizarrice das relações daquela família e embora o filme se repita em algumas cenas, o diretor segura a tensão até o final quando apresenta ao espectador um final surpreendente. A trama que caminha entre dois extremos representada por Tommy e a família que o captura se perde um pouco quando precisa desenvolver o arco de Rina, mas nada que torne o filme menos interessante. 

Bom Garoto (Heel / Polônia - Reino Unido / 2026) de Jan Komasa com Anson Boon, Stephen Graham, Andrea Riseborough, Kit Rakusen, Monica Frajczyk e Savannah Steyn. ☻☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2026

PL►Y: O Aniversário

Kyle e Diane: família em apuros. 

 Assustador diáriw, ouvi muitos comentários sobre este filme que está em cartaz no Prime Video e fiquei muito contente em saber que é dirigido pelo polonês Jan Komasa que dirigiu o excepcional Corpus Christi (2019), que foi indicado ao Oscar no mesmo ano em que lançou o ótimo Rede de Ódio (2020) - façanha que rendeu a ele o título de melhor diretor aqui no blog em 2020. Komasa permanece com sua verve contundente para abordar temas atuais, aqui ele usa o microcosmo de uma família para apresentar ao longo de anos os efeitos de uma sociedade que se permite seduzir pelo discurso antidemocrático. Ellen Taylor (Diane Lane) é uma professora universitária que está prestes a completa 25 anos de casamento com o esposo, Paul Taylor (Kyle Chandler). O casal feliz e unido compartilha a vida com três filhas e um filho (Dylan O'Bryen) que aproveita a comemoração para apresentar a namorada, Elizabeth (Phoebe Dynevor). Acontece que Ellen reconhece Elizabeth como uma de suas ex-alunas, especialmente por conta de um controverso trabalho apresentado durante o curso. A suspeita de que a moça não se aproximou de seu filho por acaso só cresce e a coisa piora conforme o tal trabalho mostra-se o alicerce para uma mudança sócio-política no país. Komasa conta a dissolução desta família em uma sociedade que persegue qualquer pensamento divergente. Se a ideia parece a gênese de uma distopia, ela se torna ainda mais arrepiante quando percebemos semelhanças com o mundo em que vivemos atualmente. Komasa conta esta história com atmosfera novelesca que ganha contornos cada vez mais assustadores. Embora peque pela falta de sutileza, o filme funciona como uma alegoria sem firulas sobre rumos não tão distantes do mundo atual. 

O Aniversário (The Aniversary / EUA -2025) de Jan Komasa com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Bryen, Zoey Deutch, Madeline Brewer, McKenna Grace e Daryl McCormack. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Pais

Søren e Bodil: jovens de novo. 
Complexo diáriw, faz tempo que estava em busca do filme de estreia do dinamarquês Christian Tafdrup na direção. Christian começou a carreira como ator e alcançou prestígio com seu terceiro longa, Speak no Evil (2022) que recebeu até uma versão hollywoodiana (pavorosa) em  2024. Levando em conta a cronologia dos seus filmes, podemos dizer que ele buscou aprimorar sua capacidade de provocar desconforto na plateia, especialmente na forma como apresenta seus personagens aparentemente comuns até que explore suas relações de forma inusitada. Em Pais ele inicia isso ao apresentar um casal maduro que acaba de ver o filho ir para faculdade. Com a vida universitária, o rapaz se distancia cada vez mais dos pais, principalmente quando encontra uma namorada e a rotina de festas e compromissos se torna constante. A mãe é quem mais sofre com a "síndrome do ninho vazio" e na busca de melhorar a rotina, o casal resolve voltar para o apartamento em que viviam antes do nascimento do filho. É um lugar pequeno (se comparado com a casa que ficou grande demais) e que passa a ser ajeitado para evocar o passado. Eis que os dois acordam jovens novamente e as relações familiares se alteram perante a inconsequência da juventude. Tafdrup afirma que a trama é inspirada em um sonho (ou seria pesadelo?) e a ideia surreal ganha atmosfera onírica em suas mãos. Achei muito interessante a forma como o diretor aborda a mudança na postura dos pais quando rejuvenescem como se perdessem as referências de si mesmos e de tudo o que construíram até ali, mas a ideia perde força quando se esquiva de aprofundar os aspectos mais polêmicos da relação entres os personagens deixando que o espectador crie sua própria leitura rumo ao desfecho. 

Pais (Forældre / Dinamarca - 2015) de Christian Tafdup com Søren Malling, Bodil Jorgensen, Elliott Crosset Hove, Miri Ann Beuschel, Anton Honik e Christian Tafdrup. ☻☻☻

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: De Volta ao Mar

Saoirse: talento em filme caótico.  

Picotado diáriw, acho que existe um consenso de que a irlandesa Saoirse Ronan é uma grande atriz. Com 32 anos de idade e 23 anos de carreira, ela já possui quatro indicações ao Oscar e todo filme que ela aparece cogitam que outra indicação acontecerá. Foi o que aconteceu com este De Volta ao Mar, em que vive uma jovem alcóolica que tenta colocar a vida novamente nos eixos. Saoirse foi muito elogiada pelo seu trabalho, mas o fato de ser um filme europeu independente e sem muito apelo junto ao público dos Estados Unidos acabou a deixando de fora das grandes premiações. O fato da diretora alemã Nora Fingscheidt optar por contar sua história embaralhando o tempo, com idas e vindas entre passado e presente, também dificulta apreciar o desenvolvimento da personagem, que hora está bem, hora está em crise, hora tem recaída... entender em que fase a personagem está guiado pela cor do seu cabelo é um exercício que cansa antes da metade da sessão. Entre a relação com a família, com o namorado, com os amigos e com a reabilitação, o roteiro ainda costura toda a narrativa com algumas curiosidades gerais que funcionam como analogias à situação da personagem durante as fases de sua vida. Embora Saoirse esteja ótima em cena e conte com "pais" do porte de Stephen Dillane e Saskia Reeves, acompanhar as duas horas de montagem aleatória transforma o filme em uma jornada árdua. É um daqueles casos em que me pergunto se o filme não seria melhor se seguisse uma narrativa linear. Baseado no livro de memórias da jornalista e escritora escocesa Amy Liptrot (será que a narrativa do livro é um fluxo de consciência e o filme tentou fazer o mesmo?) o que achei mais interessante foi a ambientação nas Ilhas Órcades localizadas na Escócia. 

De Volta ao Mar (The Outrun / Reino Unido - Alemanha / 2024) de Nora Fingscheidt com Saoirse Ronan, Paapa Essiedu, Saskia Reeves, Stephen Dillane, Nabil Elouahabi, David Garrick e Izuka Hoyle. ☻☻

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻