segunda-feira, 13 de abril de 2026

Na Tela: O Drama

Os noivos: fantasmas do passado. 
Comprometido diáriw, assisti O Drama não por ter nos créditos Robert Pattinson ou Zendaya, mas pela assinatura de Kristoffer Borgli na direção. Depois de ter assistido os dois filmes anteriores do norueguês  (Doente de Mim Mesma/2022 e O Homem dos Sonhos/2023 ambos citados em meus top10 de seus respectivos anos), era inevitável que seu novo projeto despertasse minha curiosidade. O filme conta a história de Emma (Zendaya) e Charlie (Pattinson), os dois se conhecem no maior clima de comédia romântica fofinha e três anos se passam até que resolvem se casar. Eis que uma noite junto a um casal de amigos, resolvem brincar de contar o que já fizeram de mais assustador em suas vidas e o horror paira sobre o que Emma planejou fazer quando era adolescente, mas (para o bem de todos) acabou desistindo. A confissão cai como uma bomba entre o quarteto - e a madrinha Rachel (Alana Haim), que se considera a pessoa mais evoluída da Terra (mesmo tendo confessado uma ação horrenda que praticou contra um menino) resolve execrar Emma. Paira então sobre Charlie o medo de não conhecer a mulher com quem irá se casar. Toda a imagem de mulher doce se desfaz e no lugar disso, paira infinitas desconfianças e inseguranças. Quem conhece o diretor sabe que ele ama um desconforto carregado de um humor maldoso, o que funciona como um tempero diferencial na estrutura do que seria uma comédia romântica. Adorei como Emma recebe um alvo na testa e serve de pretexto para todos errarem em torno dela.  O elenco está ótimo  e valoriza ainda mais as entrelinhas do roteiro que flerta com temas como cancelamento, hipocrisias, mídia, engajamento, militância, lacração e principalmente a necessidade de se reinventar para sobreviver (e sim, a cena final é sobre isso). 

O Drama (The Drama / EUA - 2026) de Kristoffer Borgli com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates, Jordyn Curet, Michael Abbott Jr e Sydney Lemon. 

domingo, 12 de abril de 2026

PL►Y: Arco

Arco e Íris: retrofuturismo. 

Colorido diáriw, todo ano uma animação alternativa consegue uma vaga entre os indicados a melhor animação no Oscar, este ano a vaga ficou com o francês Arco dirigido por Ugo Bienvenu. Eu tenho uma tendência a gostar mais destes indicados "diferentões" do que os que levam a estatueta (e o motivo por não ter uma resenha por aqui de Guerreiras do gay K-Pop é que não aguentei ver mais de dez minutos do filme da Netflix). O ponto de partida já desperta interesse: e se o arco-íris for na verdade o rastro de um viajante no tempo? Com um visual retrofuturista, o filme conta a história de Arco, um menino do ano 3000, filho de viajantes no tempo que desobedece a regra de só poder viajar no tempo após os doze anos. Inexperiente e doido para ver dinossauros, ele acaba no ano de 2075. Ali, ele conhece a menina Íris, que tenta lhe ajudar a voltar para casa. Conciliando uma história de aventura enquanto costura uma bela amizade, o filme se torna encantador conforme um certo estranhamento se desfaz. Vale destacar que a amizade não fica restrita às duas crianças, mas se amplia ao trio de adultos que perseguem Arco e que estão longe de ser os vilões da história. O trio surpreende por ser composto por crianças crescidas que não perderam a capacidade de enxergar a possibilidade de fantasia no mundo depois de adultos. Não deixa de ser interessante como o filme apresenta o futuro habitado por Arco como algo idílico, mas de Íris como ameaçador - mas o destaque são as salas de aula cheias de hologramas (que junto à biblioteca fechada e as viagens no tempo, traçam uma perspectiva bem interessante sobre nossa relação com o passado, presente e futuro). Com belos momentos  e um estilo que lembra muito as criações do Estúdio Ghibli, Arco é uma animação com mais a propor do que correria e gritaria para crianças e adultos. 

Arco (França - EUA - Reino Unido / 2025) de Ugo Bienvenu com vozes de Margot Ringard Odra, Oscar Tresanini, Nathanaël Perrot, Alma Jodorowsky, Louis Garrell e Vincent Macaigne. 

sábado, 11 de abril de 2026

FESTIVAL DE CANNES 2026

Finalmente foi divulgada a seleção oficial do Festival de Cannes de 2026! Acho que nem precisa dizer que Cannes se confirmou cada vez mais como o maior Festival de Cinema do mundo, já que os filmes selecionados costumam ser comentados ao longo de todo ano! Basta ver os selecionados (seja na competição ou nas mostras paralelas) para apostar em quem dará o que falar ao longo do ano (e nem precisa ganhar o prêmio principal para isso). A programação conta com filmes novos de Almodóvar, Nicolas Winding Refn, Ira Sachs, Ryûsuke Hamaguchi, Agnès Jaoui, Asghar Farhadi, Paweł Pawlikowski, Hirokazu Koreeda, Lukas Dhont e o que dizer de ter o novo filme de Jane Schoenbrun como filme de abertura? Um deleite para os cinéfilos. A seguir os filmes selecionados para o Festival:

EM COMPETIÇÃO

Minotaur / Andrey Zvyagintsev

El ser querido / Rodrigo Sorogoyen

The Man I Love / Ira Sachs

Fatherland / Paweł Pawlikowski

Moulin / László Nemes

Histoires de la nuit / Léa Mysius

Fjord / Cristian Mungiu

Notre Salut / Emmanuel Marre

Gentle Monster / Marie Kreutzer

Nagi Notes / Hiroshi Fukada

Hope / Na Hong-jin

Sheep in the Box / Hirokazu Koreeda

The Unknown / Arthur Harari

All of a Sudden / Ryûsuke Hamaguchi

The Dreamed Adventure / Valeska Grisebach

Coward / Lukas Dhont

The Black Ball / Javier Ambrossi and Javier Calvo

Life of a Woman / Charline Bourgeois-Taquet

Parallel Tales / Asghar Farhadi

Natal Amargo / Pedro Almodóvar


FORA DE COMPETIÇÃO

Her Private Hell / Nicolas Winding Refn

L’Abandon / Vincent Garenq

L’objet du délit / Agnès Jaoui

La bataille de Gaulle: L’âge de fer / Antonin Baudry

Karma / Guillaume Canet

The Electric Kiss / Pierre Salvadori (Filme de Abertura)

Diamond / Andy Garcia


UM CERTO OLHAR

All the Lovers in the Night / Yukiko Sode

Teenage Sex and Death at Camp Miasma / Jane Schoenbrun

Everytime / Sandra Wollner

Club Kid / Jordan Firstman

I’ll Be Gone in June / Katharina Rivilis

Yesterday the Eye Didn’t Sleep / Rakan Mayasi

The Meltdown / Manuela Martelli

Elephants in the Fog / Abinash Bikram Shah

Iron Boy / Louis Clichy

Ben’imana / Marie-Clémentine Dusabejambo

Congo Boy / Rafiki Farial

Uļa / Viesturs Kairišs

Strawberries / Laïla Marrakchi

Forever Your Maternal Animal / Valentina Maurel

Words of Love / Rudi Rosenberg


CANNES PREMIERE

Visitation / Volker Schlöndorff

Propeller One-Way Night Coach / John Travolta

Kokurojo: The Samurai and the Prisoner / Kiyoshi Kurosawa

The Third Night / Daniel Auteuil

The Match / Juan Cabral e Santiago Franco

PL►Y: À Paisana

Tom e Russell: de aparências.

Censurado diáriw, de vez em quando um filme de temática queer ganha os holofotes no exterior e gera expectativa no público ao redor do mundo. Neste início de ano, este espaço foi ocupado por À Paisana, longa estrelado por Russell Tovey, um ator assumidamente gay e que já apareceu em várias produções sob a temática. No filme ele interpreta Andrew, um homem maduro que costuma ter encontros sexuais em um shopping da cidade. O shopping aliás deve ser o point de pegação mais manjado dali, já que tem até um policial disfarçado para atrair e deter homossexuais que usam o banheiro para outros fins. O policial em questão é Lucas (Tom Blyth), que de início tem naquela missão uma forma de sentir-se desejado por outros homens, já que é incapaz de assumir que não é hétero para a namorada ou família. A coisa se torna um tanto mais complicada quando ele sente forte atração por Andrew. Os dois vão se encontrar alguma vezes e descobrir que são mais parecidos do que imaginam na repressão dos desejos e lidar com uma vida de aparências. Resta saber quem irá resistir mais tempo para não deixar tudo desmoronar. Os atores estão bem em cena e o roteiro é simples, mas eficiente em suas intenções. A montagem escorrega um pouquinho quando recorta a narrativa com cenas granuladas um tanto picotadas.. A diretora Carmem Emini também escreveu o roteiro e demonstra sensibilidade na condução dos conflitos dos personagens, reservando ao menos uma cena picante para os dois amantes. Com duas reviravoltas no meio do caminho, ela consegue conduzir o desfecho para o limite de um personagem que percebe que se não tomar as rédeas de seus desejos, perdera o rumo da própria vida. Destaque para a carta (quase um testamento) e o título em alusão ao estilo discreto, praticamente camuflado de ambos. 

À Paisana (Painclothes / EUA - Reino Unido / 2025) de Carmen Emmi com Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Christian Cooke, Gabe Fazio e Amy Forsyth. 

PL►Y: Sorry, Baby

Eva: estreia promissora.
Promissor diáriw, vale a pena registrar o nome de Eva Victor como alguém para se ficar de olho nos próximos anos. A atriz fez sua estreia como diretora com Sorry, Baby e foi lembrada na categoria de melhor atriz em várias premiações independentes e até no Globo de Ouro. No filme, ela dirige, atua e assina o roteiro (que esteve até cotado para o Oscar). Ela vive Agnes (Eva Victor), uma professora e estudante de literatura que está prestes a terminar sua tese. Sua vida seguiria normalmente entre as responsabilidades e as conversas com a amiga Lydie (Naomie Ackie), até que um dia ela vivencia uma situação de abuso sexual com seu orientador. O roteiro de Eva retira tudo que há de apelativo nisso e está mais preocupado nos sentimentos de sua personagem perante a situação e, com isso, subverte expectativas. Agnes prefere tentar superar o trauma e seguir a vida, embora toda a situação se complique enquanto tenta superar o acontecido. Seja nos momentos em que aquela ferida precisa ser tocada (como no momento em que está prestes a se tornar jurada, quando tenta investir em um relacionamento amoroso ou quando alguém menciona o nome de seu abusador) ou quando reflete sobre a vida. Narrado em episódios ambientados um ano após o outro, Sorry, Baby evolui sem grandes explosões emocionais ou maiores surpresas. Pode ser visto como um filme de superação intimista, com as maiores alterações ocorrendo no interior da personagem defendida de forma bastante realista pela diretora. O elenco de apoio também ajuda bastante, especialmente Naomie e Lucas Hedges (estava com saudade dele) no papel de um vizinho que deseja ser algo mais. Mesmo com toda sinceridade impressa na produção, um desfecho mais elaborado fez falta. 

Sorry Baby (EUA-2026) de Eva Victor com Eva Victor, Naomie Ackie, Lucas Hedges, Kellu McKormack, Louis Cancelmi, John Carroll Lynch e Jordan Mendoza.  

domingo, 5 de abril de 2026

Pódio: Selton Mello

Bronze: o palhaço em crise.
3º O Palhaço (2011) o mineiro Selton Mello estreou como ator aos oito anos de idade na novela Dona Santa (1981) da Bandeirantes e desde então acumulou trabalhos que o fizeram ser um dos raros casos de artista mirim que continua a carreira sem maiores percalços na vida adulta. Consagrado no teatro, na televisão e no cinema, ele também investiu na carreira de roteirista e cineasta. Entre seus trabalhos como diretor, merece destaque seu trabalho como o protagonista Benjamin, que é filho de palhaço (vivido por Paulo José), que cresceu num circo, mas que entra em crise com a profissão que o destino teima em lhe reservar. Um trabalho bastante sutil e discreto que lhe valeu o GP Cinema Brasil de melhor ator e diretor. O longa também foi considerado o melhor filme daquele ano. 

Prata: O homem estranho
2º O Cheiro do Ralo (2006) Selton tem tantos trabalhos interessantes no cinema e na TV que fica até difícil escolher somente três (e justo por ser concebido originalmente para a TV que o Chicó do Auto da Compadecida/2000 ficou de fora). Transitando com maestria entre a comédia e o drama, o papel de Lourenço neste filme de Heitor Dhalia lhe caiu como uma luva. O humor bastante peculiar do personagem cheio de manias se tornou um dos grandes destaques da carreira do ator na pele de um sujeito dono de uma loja de empenhos e que realiza jogos de poder bastante cruéis com quem lhe procura. O roteiro adaptado da obra de Lourenço Mutarelli é um verdadeiro achado e recebeu vários prêmios. 

Ouro: O filho pródigo 
1º Lavoura Arcaica (20001) Eu sei que provavelmente você tem outros papéis favoritos do Selton para lembrar, seja do cinema com o oscarizado Ainda Estou Aqui (2024) ou na televisão por seus trabalhos impecáveis como na minissérie Ligações Perigosas (2016), mas eu ainda considero o trabalho dele nesta adaptação de Luiz Fernando Carvalho para a obra de Raduan Nassar um verdadeiro divisor de águas na carreira do ator. André (Selton) é um jovem que abandona a vida ao lado de sua família no interior para buscar outros caminhos. O que seria uma analogia sobre a parábola do filho pródigo recebe outras camadas quando ele retorna para casa dos pais e temas como autoritarismo, rigidez moral e incesto entram em choque em um dos filme mais densos do cinema brasileiro. Um clássico. 

PL►Y: Enterre seus Mortos

Selton: no fim dos tempos. 
Apocalíptico diáriw, o cineasta Marco Dutra assina um dos meus filmes de terror favoritos, Quando eu Era Vivo (2014) e tem em seu currículo outros filme muito interessantes. Não é novidade que ele é apaixonado por histórias de terror e posso dizer que sua assinatura sempre me deixa curioso. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com sua nova obra: Enterre seus Mortos que é baseado o livro de Ana Paula Maia. A trama é ambientada em um período em que o fim do mundo se aproxima. Entre chuva de pedras, céu vermelho e uma nova religião que promete a salvação no fim dos tempos, existem crianças enviadas para ilhas de isolamento e uma síndrome que ninguém sabe explicar de onde veio. Nestes tempos sombrios, temos Edgar (Selton Mello), um homem calado e com traumas no passado que trabalha com resgate de animais mortos nas estradas. Ele tem como colega de trabalho o padre excomungado Tomás (Danilo Grangheia) e tem um caso com sua chefe Nete (Marjorie Estiano). Todos vivem na cidade de Abalurdes, que virou cenário de situações tão estranhas quanto os pesadelos de Edgar. São tantos elementos para lidar que o filme se tornou bastante confuso. Antes houvesse se concentrado nos fantasmas pessoais de Edgar, que só se revelam mesmo perto do final. Tomás também tem os seus demônios para exorcizar, mas nem teve tempo com o desfecho que seu personagem recebe. Com seus personagens destinados à danação, o filme é ambicioso com seus diálogos em atrito e abraça uma estética de filme B, mas faltou foco na trama ambientada em um universo bastante rico e particular.  Tive a impressão que ficaria melhor se fosse uma minissérie. 

Enterre Seus Mortos (Brasil - 2025) de Marco Dutra com Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria, Maria Manoella e Gilda Nomacce.