domingo, 27 de setembro de 2026

PL►Y: Sem Cortes

Kieron: entre personas. 

Polêmico diáriw, ao ser exibido em Festivais e lançado em circuito indie restrito nos Estados Unidos, Sem Cortes recebeu elogios pela ousadia com que constrói os temas em torno do encontro de seus dois personagens principais. Aaron (Kieron Moore) ganha a vida fazendo vídeos eróticos na internet. Uma noite ele é contratado por um dos seus admiradores (Hank Grant), mas o chegar no local do encontro, o homem encapuzado parece querer mais conversar do que fazer outras coisas. Ao longo da conversa, Aaron percebe que existe algo estranho no interesse daquele homem por ele e a coisa se torna ainda mais complexa quando descobre que aquele senhor de cabelos brancos é alguém do seu passado. Este é o longa de estreia de Elliot Tuttle que também assina o roteiro e merece atenção pela coragem com que demonstra interesse em desvendar a personalidade de um personagem tão perigoso quanto o cliente vivido pelo veterano Hank Grant. Ao longo dos diálogos travados entre os dois personagens vemos as camadas de desejo e solidão vividas por ambos, sendo que sempre sempre que o personagem mais velho está em questão, um arrepio percorre a mente do espectador. A produção aborda um tema pesado, mas o faz pelos olhos de Aaron que parecia tão seguro em sua persona online, mas que mostra-se vulnerável ao se reencontrar com seu passado. Sua curiosidade e tentativa de desvendar a mente de seu interlocutor gera situações e emoções que ele nem imaginava reviver. Embora o texto tenha um grande potencial para os palcos (somente dois atores, longos diálogos e somente uma locação), o diretor e o elenco espantam qualquer vestígio de teatro filmado. Embora o sexo seja algo presente desde a primeira cena, a forma como ele e tratado aqui é bastante diferente. Considero o filme uma grande surpresa.

Sem Cortes (Blue Film / EUA - 2025) de Elliot Tuttle com Kieron Moore e Hank Grant. ☻☻☻☻

PL►Y: Bom Garoto

Anson Boon: reabilitação forçada. 

Provocador diáriw, além de O Aniversário, o diretor polonês Jan Komasa lançou outro filme em língua inglesa que está disponível no streaming. Chamado por aqui de Bom Garoto (mais um... aff) o filme se tornou um dos mais controversos do ano passado. O longa conta a história de Tommy (um furioso Anson Boon, um daqueles jovens atores que merece atenção), um rapaz de 19 anos que vive uma rotina de drogas, bebida e violência até que em uma noite em que está completamente dopado, ele é sequestrado. Ele acorda em um porão, com uma coleira acorrentado à uma parede e será submetido a um processo de "reabilitação" forçada comandado por um estranho casal. Chris (Stephen Grahan) e Kathryn (Andrea Riseborough) demoram a demonstrar o que está por trás de suas intenções com o rapaz, mas aos poucos, Tommy e o espectador começam a entender o que está acontecendo. Obviamente que a situação absurda deixa Tommy com medo e revoltado, mas a presença do menino Jonathan (Kit Rakusen) e da diarista Rina (Monica Frajczyk) trarão outras nuances para a temporada em que o rapaz participa do estranho confinamento. Komasa capricha na estranheza da história e se de início concebe Tommy como uma variação do protagonista do aclamado Corpus Christi (2019), aos poucos o desenvolve por outros caminhos. O bom elenco capricha na bizarrice das relações daquela família e embora o filme se repita em algumas cenas, o diretor segura a tensão até o final quando apresenta ao espectador um final surpreendente. A trama que caminha entre dois extremos representada por Tommy e a família que o captura se perde um pouco quando precisa desenvolver o arco de Rina, mas nada que torne o filme menos interessante. 

Bom Garoto (Heel / Polônia - Reino Unido / 2026) de Jan Komasa com Anson Boon, Stephen Graham, Andrea Riseborough, Kit Rakusen, Monica Frajczyk e Savannah Steyn. ☻☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2026

PL►Y: O Aniversário

Kyle e Diane: família em apuros. 

 Assustador diáriw, ouvi muitos comentários sobre este filme que está em cartaz no Prime Video e fiquei muito contente em saber que é dirigido pelo polonês Jan Komasa que dirigiu o excepcional Corpus Christi (2019), que foi indicado ao Oscar no mesmo ano em que lançou o ótimo Rede de Ódio (2020) - façanha que rendeu a ele o título de melhor diretor aqui no blog em 2020. Komasa permanece com sua verve contundente para abordar temas atuais, aqui ele usa o microcosmo de uma família para apresentar ao longo de anos os efeitos de uma sociedade que se permite seduzir pelo discurso antidemocrático. Ellen Taylor (Diane Lane) é uma professora universitária que está prestes a completa 25 anos de casamento com o esposo, Paul Taylor (Kyle Chandler). O casal feliz e unido compartilha a vida com três filhas e um filho (Dylan O'Bryen) que aproveita a comemoração para apresentar a namorada, Elizabeth (Phoebe Dynevor). Acontece que Ellen reconhece Elizabeth como uma de suas ex-alunas, especialmente por conta de um controverso trabalho apresentado durante o curso. A suspeita de que a moça não se aproximou de seu filho por acaso só cresce e a coisa piora conforme o tal trabalho mostra-se o alicerce para uma mudança sócio-política no país. Komasa conta a dissolução desta família em uma sociedade que persegue qualquer pensamento divergente. Se a ideia parece a gênese de uma distopia, ela se torna ainda mais arrepiante quando percebemos semelhanças com o mundo em que vivemos atualmente. Komasa conta esta história com atmosfera novelesca que ganha contornos cada vez mais assustadores. Embora peque pela falta de sutileza, o filme funciona como uma alegoria sem firulas sobre rumos não tão distantes do mundo atual. 

O Aniversário (The Aniversary / EUA -2025) de Jan Komasa com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Bryen, Zoey Deutch, Madeline Brewer, McKenna Grace e Daryl McCormack. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Pais

Søren e Bodil: jovens de novo. 
Complexo diáriw, faz tempo que estava em busca do filme de estreia do dinamarquês Christian Tafdrup na direção. Christian começou a carreira como ator e alcançou prestígio com seu terceiro longa, Speak no Evil (2022) que recebeu até uma versão hollywoodiana (pavorosa) em  2024. Levando em conta a cronologia dos seus filmes, podemos dizer que ele buscou aprimorar sua capacidade de provocar desconforto na plateia, especialmente na forma como apresenta seus personagens aparentemente comuns até que explore suas relações de forma inusitada. Em Pais ele inicia isso ao apresentar um casal maduro que acaba de ver o filho ir para faculdade. Com a vida universitária, o rapaz se distancia cada vez mais dos pais, principalmente quando encontra uma namorada e a rotina de festas e compromissos se torna constante. A mãe é quem mais sofre com a "síndrome do ninho vazio" e na busca de melhorar a rotina, o casal resolve voltar para o apartamento em que viviam antes do nascimento do filho. É um lugar pequeno (se comparado com a casa que ficou grande demais) e que passa a ser ajeitado para evocar o passado. Eis que os dois acordam jovens novamente e as relações familiares se alteram perante a inconsequência da juventude. Tafdrup afirma que a trama é inspirada em um sonho (ou seria pesadelo?) e a ideia surreal ganha atmosfera onírica em suas mãos. Achei muito interessante a forma como o diretor aborda a mudança na postura dos pais quando rejuvenescem como se perdessem as referências de si mesmos e de tudo o que construíram até ali, mas a ideia perde força quando se esquiva de aprofundar os aspectos mais polêmicos da relação entres os personagens deixando que o espectador crie sua própria leitura rumo ao desfecho. 

Pais (Forældre / Dinamarca - 2015) de Christian Tafdup com Søren Malling, Bodil Jorgensen, Elliott Crosset Hove, Miri Ann Beuschel, Anton Honik e Christian Tafdrup. ☻☻☻

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: De Volta ao Mar

Saoirse: talento em filme caótico.  

Picotado diáriw, acho que existe um consenso de que a irlandesa Saoirse Ronan é uma grande atriz. Com 32 anos de idade e 23 anos de carreira, ela já possui quatro indicações ao Oscar e todo filme que ela aparece cogitam que outra indicação acontecerá. Foi o que aconteceu com este De Volta ao Mar, em que vive uma jovem alcóolica que tenta colocar a vida novamente nos eixos. Saoirse foi muito elogiada pelo seu trabalho, mas o fato de ser um filme europeu independente e sem muito apelo junto ao público dos Estados Unidos acabou a deixando de fora das grandes premiações. O fato da diretora alemã Nora Fingscheidt optar por contar sua história embaralhando o tempo, com idas e vindas entre passado e presente, também dificulta apreciar o desenvolvimento da personagem, que hora está bem, hora está em crise, hora tem recaída... entender em que fase a personagem está guiado pela cor do seu cabelo é um exercício que cansa antes da metade da sessão. Entre a relação com a família, com o namorado, com os amigos e com a reabilitação, o roteiro ainda costura toda a narrativa com algumas curiosidades gerais que funcionam como analogias à situação da personagem durante as fases de sua vida. Embora Saoirse esteja ótima em cena e conte com "pais" do porte de Stephen Dillane e Saskia Reeves, acompanhar as duas horas de montagem aleatória transforma o filme em uma jornada árdua. É um daqueles casos em que me pergunto se o filme não seria melhor se seguisse uma narrativa linear. Baseado no livro de memórias da jornalista e escritora escocesa Amy Liptrot (será que a narrativa do livro é um fluxo de consciência e o filme tentou fazer o mesmo?) o que achei mais interessante foi a ambientação nas Ilhas Órcades localizadas na Escócia. 

De Volta ao Mar (The Outrun / Reino Unido - Alemanha / 2024) de Nora Fingscheidt com Saoirse Ronan, Paapa Essiedu, Saskia Reeves, Stephen Dillane, Nabil Elouahabi, David Garrick e Izuka Hoyle. ☻☻

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

PL►Y: Supergirl

Milly: garota esforçada. 

Flopado diáriw, Supergirl se tornou uma decepção arrecadando menos do que custou nas bilheterias. O motivo para isso? Talvez seja toda a expectativa em torno do segundo longa-metragem do DCU capitaneado pelo James Gunn. É verdade que ele ficou meio sem opção quando desejou fugir dos nomes dos heróis que ganharam filmes-solo na era Zack Snyder, mas logo depois de levar Superman para as telas investir em um longa da prima do kryptoniano parece mais do mesmo. Embora o filme seja baseado na cultuada HQ A Mulher do Amanhã de Tom King, talvez o espectador aguardasse algo mais robusto do que uma aventura trivial como segundo longa-metragem do famigerado universo. No filme, Kara Zor-El (Milly Alcock) resolve comemorar seu aniversário viajando pelo espaço até que uma órfã com sede de vingança (Eve Ridley) cruza seu caminho e propõe que a ajude a encontrar um grupo de bandidos espaciais que mataram sua família. Kara rejeita a proposta, mas quando sua nave é roubada e a vida de seu cãozinho Krypto é colocada em risco, ela resolve partir em busca dos vilões da história. O diretor Craig Gillespie é craque em lidar com personagens femininas fora da caixinha (basta ver Eu, Tonya/2017 ou Cruella/2021), mas aqui o roteiro não ajuda com a protagonista sempre bêbada, apanhando e usando o famoso uniforme só no finalzinho. A trama roda, roda, roda e não sai do lugar numa aposta arriscada de engajar o público. A bilheteria murcha deve ter soado o alarme e a venda da Warner só complica mais as coisas. Se você olhar o cronograma da DC no cinema a coisa fica ainda mais complicada: Cara de Barro estreia mês que vem e o resto são séries e animações para a TV. Animados?

Supergirl (EUA-2026) de Craig Gillespie com Milly Alcock, Eve Ridley, David Corensweat, Matthias Schoenaerts, Ferdinand Kingsley, Diarmaid Murtagh e David Krumholtz. ☻☻☻