domingo, 26 de abril de 2026

PL►Y: Thelma

June: caindo no golpe do telefone. 

Experiente diáriw, imagina que a June Squibb nasceu em Ilinois em 1929. Trabalhou no teatro por décadas e o cinema só abriu as portas para ela em 1985 em Simplesmente Alice (1990), embora tenha trabalhado em várias produções desde então, ela só foi reconhecida em 2013 por seu trabalho em Nebraska, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. Com uma energia impressionante, June se tornou um exemplo de que nunca é tarde para ter uma guinada na vida. Ciente de que nem sempre Hollywood lhe garantirá bons papéis, ela também assina a produção deste filme simpático Thelma, que poderia ter lhe rendido mais atenção nas premiações. Ela vive uma senhora que já passou dos 90 anos e recebe cuidados do neto (Fred Hechinger) após alguns problemas de saúde. Aplicada em aprender a lidar com tecnologia, ela fica indignada quando cai em um golpe e perde dez mil dólares acreditando que seu neto foi preso. Quando todos acreditam que tudo está resolvido, Thelma permanece indignada e pretende reaver a quantia. Ela parte então em busca de quem enganou encontrando velhos conhecidos pelo caminho e um sujeito amargo no desfecho. O melhor de Thelma é a forma como aborda com muito bom humor a postura de idosos diante da vida, os diálogos despretensiosos, a recusa da mente em lidar com um corpo que envelheceu e uma certa teimosia em perceber que sozinho a vida é mais complicada. Escrito e dirigido por Josh Margolin, o filme é uma daquelas produções que agradam sem fazer esforço com seu jeito despretensioso. O elenco de apoio está em plena sintonia e o roteiro tem ótimas sacadas, mas o que chama ainda mais atenção aqui é o olhar carinhoso sobre a protagonista que é valorizada pela atuação irresistível de June. 

Thelma (EUA-2024) de Josh Margolin com June Squibb, Fred Hechinger, Parker Posey, Clar Greg, Richard Roundtree, David Giuliani e Malcolm McDowell. ☻☻☻

.Doc: Celulóide Secreto

James e Sal: nas entrelinhas. 
Censurado diáriw, ainda lembro quando Celulóide Secreto chegou nos cinemas em 1995 e se tornou um dos documentários mais comentados daquela década. Com base no livro de Vitto Russo, o filme aborda como Hollywood lidou com a homossexualidade por muito tempo. Da forma como personagens homossexuais eram presentes de forma cômica no início do século XX (desde o cinema mudo), mas que com a censura décadas depois, mesmo este aspecto precisou ficar restrito às entrelinhas em clássicos como Rebecca (1944), Festim Diabólico (1948), Juventude Transviada (1955) e Ben-Hur (1959), ou aparecendo de forma um tanto mais sugestiva em clássicos esquecidos como Infâmia (1961). No geral, personagens queer eram (!?) punidos no desfecho após vivenciarem seus desejos com muita culpa. É engraçado ver Os Rapazes da Banda (1970) sendo revisto sentindo-se culpado em seu sarcasmo, como se não espelhasse o retrato de um tempo vindo de tanta censura, para depois Cabaret (1972) retratar homossexualidade com mais naturalidade (vale lembrar que levou o Oscar de melhor filme daquele ano) antes de toda uma onda de filmes violentos sobre o mundo queer (Parceiros da Noite/1980 que o diga). Interessante ver que nos anos 1990 houve uma mudança neste olhar que chegou ao mainstream, ainda que carregando marcas do passado como em  Tomates Verdes Fritos (1991), Filadelfia (1993) e até Priscila - A Rainha do Deserto (1994). Entre entrevistas, trechos de filmes e estrelas que se tornaram ícones gays no futuro, o legal  é ver como os roteiristas de diversos tempos lidam com o preconceito para retratar uma parcela do público (incluindo a si mesmos) e "agradar" a outra. Você jamais verá os clássicos do cinema do mesmo jeito. 

Celulóide Seccreto (The Celluloid Closet / EUA - Reino Unido - França - Alemanha / 1995) de Rob Epstein e Jeffrey Friedman com entrevistas com Lilly Tomlin, Shirley MacLaine, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Susan Sarandon, Tony Curtis, Harvey Fierstein e Gore Vidal. ☻☻☻☻

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pódio: Gwyneth Paltrow

Bronze: a noiva desconfiada.

3º O Talentoso Ripley (1999) filha da atriz Blythe Danner e do produtor/diretor Bruce Paltrow, Gwyneth estava com todos os holofotes voltados para ela após o Oscar de melhor atriz (aquele mesmo roubado da Fernanda Montenegro e que virou peso de porta) quando apareceu na telona como Maggie - a namorada do milionário Dickie Greenleaf (Jude Law) que percebe ter algo de muito errado com o Tom Ripley (Matt Damon). Considero a performance aqui melhor do que a que lhe rendeu o Oscar por Shakespeare Apaixonado/1998 (que está fora da lista porque ela nunca me convenceu com aquele bigodinho). Passando de mulher apaixonada à iludida, desconfiada e incompreendida ela está muito competente no papel. 

Prata: a prodígio perdida. 
2º Os Excêntricos Tenenbaums (2001) Gwyneth já estava um tanto desanimada com a vida pós-Oscar, afinal, ninguém se torna a oscarizada mais jovem da categoria impunemente. Talvez por isso, ela tenha vivido Margot Tenenbaum com tanta desenvoltura. A menina prodígio que se torna uma menina complicada, casada com o terapeuta e apaixonada pelo irmão tem aquele estilo contido que Wes Anderson sabia imprimir tão bem aos seus personagens, a diferença é que Gwyneth imprime um calor à personagem que nunca está permitido de vir à tona. Com seu dedo de madeira e figurino que a tornou ícone fashion, Margot quase garantiu a medalha de ouro. Ainda lembro a decepção da atriz quando ela mesma anunciou o Oscar de roteiro original e viu os Tenenbaums perderem para Gosford Park

Ouro: a patricinha inglesa
1º Emma (1996) Sei que existe muito hate em torno de Gwyneth Paltrow, seja por sua empresa de produtos malucos, das pataquadas que ela diz em entrevista ou por conta da Fernandona mesmo, o fato é que houve um momento em que ela era uma jovem atriz promissora. O ponto de virada em sua carreira foi com esta adaptação do clássico de Jane Austen. Na pele da heroína imperfeita, Gwyneth personifica ao mesmo tempo a graça e a arrogância de uma personagem que domina com perfeição a casca de convenções sociais de seu tempo, mas que precisa descobrir sua própria leitura do mundo que a cerca. Embora muitos a achem sem sal, Gwyneth tinha 23 anos durante as filmagens e empresta muito de seus sonhos e ambições à Emma.  

PL►Y: Marty Supreme

Chalamet: foi por pouco...
Frenético diáriw, 2025 marcou a separação dos irmãos Josh e Ben Safdie após o sucesso de Bom Comportamento (2017). Cada um lançou seu filme para temporada a prêmios e restava saber a repercussão dos respectivos trabalhos, se Bem tinha o marketing de The Rock com (o fiasco) Coração de Lutador, Josh tinha Thimothée Chalamet rumo à terceira indicação (e doido para levar desta vez). Desde que estreou, Marty Supreme caiu nas graças da crítica e das premiações, muito por conta da forma surpreendente como conta a história de um rapaz obstinado a se tornar um campeão de tênis de mesa nos anos 1950. Marty Mauser (Chalamet) que também assina a produção ganha a vida vendendo sapatos, mas deseja ser algo mais, só que sua habilidade em se meter em encrencas só perde para sua total falta de escrúpulos para vencer na vida. Ele faz tantos trambiques, passa tanta gente para trás e cai em humilhações variáveis que o roteiro surpreende pela habilidade pop como conta esta história (embalada por hits dos anos 1980 e uma edição moderninha). Josh filma como se estivesse nos anos da nova Hollywood de 1970! É tudo tão visceral que você até esquece a inspiração em uma figura real, o jogador Marty Reisman (1946-2002) que empresta muito do folclore em torno de sua persona para a construção do roteiro. O elenco é espetacular e Chalamet bem que poderia ter levado a estatueta de melhor ator se sossegasse um cadinho. O rapaz parece um furacão que drena a vida de quem cruzar seu caminho, seja a vizinha Rachel (a ótima Odessa A'Zion), a estrela Kay Stone (Gwyneth Paltrow voltando às telas) ou o criminoso Ezra Mishkin (um assustador Abel Ferrara). Indicado a nove Oscars (e levando nenhum), foi merecidamente um dos destaques do ano passado. 

Marty Supreme (EUA - 2025) de Josh Safdie com Thimothée Chalamet, Odessa A'Zion, Gwyneth Paltrow, Abel Ferrara, Fran Drescher, Emory Cohen, Luke Manley, George Gervin e Sandra Bernhard. 

PL►Y: A Longa Marcha

David e Cooper: andar e surtar . 

Relutante diáriw, confesso que eu estava com preguiça de assistir A Longa Marcha. O que fez a diferença foi a recomendação de minha amiga Morgana, que me fez perceber que o filme era mais do que um bando de garotos caminhando mais de uma hora e meia diante da câmera. O fato de ter sido o primeiro livro escrito por Stephen King (nos tempos em que estava no primeiro ano da faculdade, embora só tenha sido lançado após o sucesso editorial de Carrie), traz para a trama uma atmosfera curiosa por conta da alegoria que um jovem dos EUA concebia na década de 1960. A contracultura já existia e deixa a história mais interessante. A trama é sobre um grupo de rapazes que são sorteados, para representar cada um o seu estado em uma longa caminhada que pode render a um deles uma fortuna capaz de mudar suas vidas em um país em tempos de crise. O grupo é escoltado por tanques e militares que são liderados por um autoritário major. Ao longo da caminhada as infrações geram advertências e se ultrapassar o número de infrações aceitáveis, você leva um tiro na cabeça. Durante a caminhada conhecemos um pouco mais sobre os personagens, com destaque para o solitário Peter (David Jonsson) e Garrett (Cooper Hoffman), que recebeu do pai uma educação... diferente e que possui um plano a realizar. Francis Lawrence traz para cá um pouco a atmosfera que utilizou em Jogos Vorazes (2013) em escala intimista e segura a longa caminhada com ângulos variados, montagem ágil e um grupo de atores dispostos a valorizar os diálogos e as surpresas que situam o espectador naquele universo que, embora absurdo, remete a situações atuais (o que valoriza ainda mais a criatividade de King). Se você entrar no clima, pode agradar. A empreitada valeu ao filme o prêmio Robert Altman no último Independent Spirit Awards. 

A Longa Marcha (The Long Walk / EUA -2025) de Francis Lawrence com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Judy Greer, Charlie Pummer, Garrett Wareign, Ben Wang, Joshua Odjick, Jordan Gonzalez e Roman Griffin Davis. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Na Tela: O Drama

Os noivos: fantasmas do passado. 
Comprometido diáriw, assisti O Drama não por ter nos créditos Robert Pattinson ou Zendaya, mas pela assinatura de Kristoffer Borgli na direção. Depois de ter assistido os dois filmes anteriores do norueguês  (Doente de Mim Mesma/2022 e O Homem dos Sonhos/2023 ambos citados em meus top10 de seus respectivos anos), era inevitável que seu novo projeto despertasse minha curiosidade. O filme conta a história de Emma (Zendaya) e Charlie (Pattinson), os dois se conhecem no maior clima de comédia romântica fofinha e três anos se passam até que resolvem se casar. Eis que uma noite junto a um casal de amigos, resolvem brincar de contar o que já fizeram de mais assustador em suas vidas e o horror paira sobre o que Emma planejou fazer quando era adolescente, mas (para o bem de todos) acabou desistindo. A confissão cai como uma bomba entre o quarteto - e a madrinha Rachel (Alana Haim), que se considera a pessoa mais evoluída da Terra (mesmo tendo confessado uma ação horrenda que praticou contra um menino) resolve execrar Emma. Paira então sobre Charlie o medo de não conhecer a mulher com quem irá se casar. Toda a imagem de mulher doce se desfaz e no lugar disso, paira infinitas desconfianças e inseguranças. Quem conhece o diretor sabe que ele ama um desconforto carregado de um humor maldoso, o que funciona como um tempero diferencial na estrutura do que seria uma comédia romântica. Adorei como Emma recebe um alvo na testa e serve de pretexto para todos errarem em torno dela.  O elenco está ótimo  e valoriza ainda mais as entrelinhas do roteiro que flerta com temas como cancelamento, hipocrisias, mídia, engajamento, militância, lacração e principalmente a necessidade de se reinventar para sobreviver (e sim, a cena final é sobre isso). 

O Drama (The Drama / EUA - 2026) de Kristoffer Borgli com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates, Jordyn Curet, Michael Abbott Jr e Sydney Lemon. 

domingo, 12 de abril de 2026

PL►Y: Arco

Arco e Íris: retrofuturismo. 

Colorido diáriw, todo ano uma animação alternativa consegue uma vaga entre os indicados a melhor animação no Oscar, este ano a vaga ficou com o francês Arco dirigido por Ugo Bienvenu. Eu tenho uma tendência a gostar mais destes indicados "diferentões" do que os que levam a estatueta (e o motivo por não ter uma resenha por aqui de Guerreiras do gay K-Pop é que não aguentei ver mais de dez minutos do filme da Netflix). O ponto de partida já desperta interesse: e se o arco-íris for na verdade o rastro de um viajante no tempo? Com um visual retrofuturista, o filme conta a história de Arco, um menino do ano 3000, filho de viajantes no tempo que desobedece a regra de só poder viajar no tempo após os doze anos. Inexperiente e doido para ver dinossauros, ele acaba no ano de 2075. Ali, ele conhece a menina Íris, que tenta lhe ajudar a voltar para casa. Conciliando uma história de aventura enquanto costura uma bela amizade, o filme se torna encantador conforme um certo estranhamento se desfaz. Vale destacar que a amizade não fica restrita às duas crianças, mas se amplia ao trio de adultos que perseguem Arco e que estão longe de ser os vilões da história. O trio surpreende por ser composto por crianças crescidas que não perderam a capacidade de enxergar a possibilidade de fantasia no mundo depois de adultos. Não deixa de ser interessante como o filme apresenta o futuro habitado por Arco como algo idílico, mas de Íris como ameaçador - mas o destaque são as salas de aula cheias de hologramas (que junto à biblioteca fechada e as viagens no tempo, traçam uma perspectiva bem interessante sobre nossa relação com o passado, presente e futuro). Com belos momentos  e um estilo que lembra muito as criações do Estúdio Ghibli, Arco é uma animação com mais a propor do que correria e gritaria para crianças e adultos. 

Arco (França - EUA - Reino Unido / 2025) de Ugo Bienvenu com vozes de Margot Ringard Odra, Oscar Tresanini, Nathanaël Perrot, Alma Jodorowsky, Louis Garrell e Vincent Macaigne.