sábado, 18 de julho de 2026

PL►Y: O Bom Bandido

Tatum: vida escondida.

Escondido diáriw, o diretor Derek Cianfrance é conhecido por suas obras deprimentes, seja no cinema (Blue Valentine/2010 e O Lugar onde tudo Termina/2012) ou na TV (I Know This Much is True/2020). Isso já lhe rendeu algumas críticas que vieram à minha cabeça enquanto assistia O Bom Bandido, filme que fez sucesso no Festival de Sundance do ano passado com uma história real que beira o inacreditável. O filme conta a história de Jeffrey Manchester (Channing Tatum), um ladrão que usa de modos, digamos, polidos quando executa seus crimes. Ele é preso e ao conseguir fugir da prisão, resolve se esconder até que seu rosto saia do noticiário. Eis que ele encontra refúgio em uma loja de departamentos e passa a viver semanas sem que sua presença seja notada por lá. Não sei até que ponto o que vemos no filme é real, mas o roteiro desenvolve de forma envolvente a forma como ele consegue articular sua vida durante aqueles dias. A coisa complica ainda mais quando ele se aproxima de uma funcionária (Kirsten Dunst), mãe de duas meninas, e o casal se envolve amorosamente. As mentiras que ele conta se tornam mais elaboradas e mais trabalhosas de serem mantidas, mas ele tem consciência de que quanto mais tempo ele permanecer por ali, maior é o risco de ser descoberto e preso novamente. O fato é que após fugir da prisão, ele acumula ainda mais crimes em sua lista e a tendência é piorar quando ele decidir fugir de vez. Cianfrance utiliza um tom cômico na medida certa para contar esta história e não perde a dimensão dramática do que tem em mãos. Ajuda bastante o entrosamento de sua dupla principal, que vivencia um romance fadado ao fracasso. Tatum tem mais um daqueles trabalhos em que demonstra que pode ser levado a sério nos papéis certos, revelando o que seu personagem tem de mais complexo por baixo de toda simpatia que pretende exalar. Dunst consegue ser comovente em uma personagem que acredita estar vivendo o romance de sua vida enquanto sabe que existe algo fora do eixo em tudo aquilo. O resultado é interessante. 

O Bom Bandido (Roofman / EUA - 2025) de Derek Cianfrance com Channing Tatum, Kirsten Dunst, LaKeith Stanfield, Juno Temple, Peter Dinklage, Uzo Aduba e Ben Meldensohn. ☻☻

PL►Y: Alpha

Mélissa: exclusão em cena. 

Apreensivo diáriw, era mais do que natural que após a Palma de Ouro por Titane (2021) o novo filme de Julia Ducournau fosse aguardado com plena expectativa. Por conta disso quando Alpha estreou em Cannes no ano passado, a empolgação foi modesta. Embora o filme esteja bem longe de causar a comoção do longa anterior da diretora, existem ideias interessantes que podem ser apreciadas, assim como a reafirmação do body horror como marca da cineasta. O filme conta a história da personagem do título, uma garota de 13 anos (vivida pela promissora Mélissa Boros de 19 anos) que ao ficar insonsciente em uma festa é marcada com a letra A no braço. A letra faz uma alusão não apenas ao nome dela, mas principalmente ao clássico A Letra Escarlate de Nathaniel Hawthorne lançado em 1850 pela forma que a menina será tratada a partir disso. Suspeita-se que ela possa ter sido contaminada com uma doença misteriosa que transforma o corpo das pessoas em estátuas de mármore. Existe aqui uma clara alusão à proliferação da AIDS nos anos 1980 e o fato de provocar o julgamento moral de suas vítimas. Alpha passa por este crivo moralista, assim como seu tio, Amin (Tahar Rahim que perdeu 40 quilos para o papel) que é dependente químico para o desespero da irmã médica (Golshifteh Farahani). Existe muita coisa a ser trabalhada em Alpha e Ducournau o faz com um desespero  que se torna cansativo no meio da sessão (haja gritos e diálogos ríspidos em cena), além de uma mistura temporal que gera mais confusão do que revela as intenções da cineasta em desvendar seus personagens. Achei a ideia das estátuas de mármore bem executada, mas todo o resto merecia ser melhor lapidado. Embora o elenco se esforce, o roteiro tenha ideias interessantes e a diretora seja habilidosa em cenas marcantes, Alpha não empolga por deixar suas ideias no meio do caminho. 

Alpha (França / Bélgica - 2025) de Julia Ducournau com Mélissa Boros, Golshifteh Farahani, Tahar Rahim, Emma Mackey, Finnegan Oldfield, Louai El Amrousy e Jean-Charles Clichet. ☻☻

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pódio: Sam Neill

Bronze: o paleontólogo famoso.

3º Jurassic Park (1993) embora tenha começado a atuar no início dos anos 1970, o papel que se tornou icônico na carreira de Sam foi como o Dr. Allan Grant, um famoso paleontologista que é convidado a avaliar um parque inovador antes de sua inauguração. Grant não fazia ideia de que ficaria de frente com os seus objetos de estudo e que teria de lutar para manter-se vivo até o final da sessão. Neill fez de tudo em sua carreira e aqui encarna sua versão aventureira com um toque de Indiana Jones (o chapéu). O personagem se tornou querido do público e retornou em 2022 para uma participação em Jurassic World: Domínio (a quinta continuação que não chega aos pés do original). 

Prata: o pai sisudo.
2º Fuga Para a Liberdade (2016) ao longo da carreira Sam Neill participou de mais de 150 produções. Entre filmes para o cinema, produções para TV e até mesmo voz emprestada para animações e games, sua versatilidade lhe garantiu vários trabalhos interessantes. Um deles ficou de fora dessa lista por pouco (o papel do marido em O Piano/1993). Este aqui é num filme pouco conhecido de Taika Waititi, mas que lhe rende um dos seus papéis mais emocionais como o pai adotivo sisudo de um menino que decide fugir de casa. O episódio irá fortalecer os laços entre os dois em uma narrativa bem humorada e tocante ao mesmo tempo. Pelo papel Neill foi indicado a vários prêmios na Nova Zelândia. 

Ouro: ex-marido inconformado. 
1º Possessão (1981) Eu fiquei realmente assustado quando assisti este filme do polaco Andrzej Żuławski e percebi que ao lado da performance premiada de Isabelle Adjani estava Sam Neil dando o sangue (literalmente) para não ficar eclipsado por ela. A ideia do filme em si já é interessante ao abordar um casal em crise em que a intensidade dos sentimentos é a pura possessão. Embora tenha dividido opiniões na época o filme ganhou status de cult pela intensidade absurda que o diretor e o elenco imprime à trama. Há quem diga que é uma analogia com a própia história da Polônia, que é Andrzej exorcisando o próprio divórcio ou que é a versão body horror de Kramer vs Kramer (1979). O fato é que Adjani e Neill impressionam em cada cena. 

4EVER: Sam Neill

14/09/1947 ✰ 13/07/ 2026
 Nigel John Dermot Neill nasceu na Irlanda do Norte e ao longo da carreira foi indicado três vezes ao EMMY e duas ao Globo de Ouro. Seus primeiros trabalhos como ator aconteceram nos anos 1970, sendo sua estreia nos cinemas em 1975. A primeira vez em que chamou atenção dos críticos foi em Possessão (1981) e posteriormente se tornou conhecido do público com seu trabalho na franquia Jurassic Park (1993). Entre trabalhos para cinema e TV, Neill era conhecido por sua dedicação. Em tratamento contra um linfoma, o ator escreveu um livro de memórias publicado em 2023. O ator que já havia superado o câncer teve a causa de sua morte não revelada. 

domingo, 12 de julho de 2026

PL►Y: Devoradores de Estrelas

Ryan: professor no espaço. 

Científico diáriw, eu ouvi tantos comentários positivos em torno de Devoradores de Estrelas que confesso ter ficado receoso de ver no cinema. Chegado ao Prime Video, estava na hora de conferir esta sci-fi estrelada por Ryan Gosling. Ele vive um professor que sem se dar conta fez uma descoberta que pode ajudar a resolver um problema sério: existe uma forma de vida que está devorando Sol e que irá comprometer a vida na Terra em breve. Ele é enviado para o espaço para resolver esta situação e, devido a alguns problemas de percurso se vê sozinho para salvar a humanidade. Vale dizer que ele não fica sozinho por muito tempo, já que contará com a ajuda de... melhor não estragar a melhor surpresa que tive durante a sessão. O filme tenta explicar cientificamente seus argumentos ao longo do filme e torna tudo um pouco cansativo enquanto vai e volta no tempo mostrando como o Professor Ryland Grace foi parar naquela nave em missão claramente suicida. Baseado no livro de Andy Weir (o mesmo de Perdido em Marte/2015) o longa quer ser um entretenimento bem feito e sem maiores divagações, tem no meio uma história de amizade boa de assistir, mas chama atenção mesmo pelos efeitos especiais que devem ser indicados ao próximo Oscar. Ryan Gosling carrega maior parte do (longo) filme nas costas e prova que está com o carisma em alta para realizar este tipo de filme (logo lembrei de quando viveu outro professor, no sombrio Half Nelson/2006 e foi indicado ao Oscar pela primeira vez). Destaque também para a presença sempre interessante da alemã Sandra Hüller em cena (cantando até música de Harry Styles). Embora não considero o filme tão extraordinário quanto dizem, ele fica mais interessante quanto constrói um laço inusitado e rende um final que realmente me surpreendeu. 

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary / EUA - 2026) de Phil Lord e Christopher Miller com Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Ken Leung, Milana Vayntrub e Lionel Boyce. ☻☻☻

sábado, 11 de julho de 2026

NªTV: O Segredo de Widow's Bay

Rhys: maldição turística.

Misterioso diáriw, tive a impressão que todo mundo repentinamente começou a falar da série O Segredo de Widow's Bay e fui tomado por uma curiosidade súbita, ainda que tardia (já que o último episódio foi ao ar no dia 24 de junho e desde então está completa na AppleTV). A produção criada pela roteirista Katie Dippold é um verdadeiro deleite para os fãs de mistério e terror, sendo que, carrega um tempero delicioso de humor a cada episódio. Nem sei se o termo terrir ainda existe ou é usado, mas desde o primeiro episódio vemos que é exatamente este o interesse da diretora. Embora faça graça aqui e ali e tenha um irresistível timing cômico em meio às situações, a trama prende a atenção por deixar o espectador esperto para entender o que está acontecendo. Widow's Bay é uma ilha que fica isolada à costa da Nova Inglaterra. Aparentemente é um lugar muito agradável de se viver, pelo menos até o prefeito (o ótimo Matthew Rhys) inventar de promover o turismo por ali. Descrente de todos os comentários de que a ilha é amaldiçoada, ele insiste em atrair turistas para o local e... não dará certo. Entre uma pousada mal assombrada, almas penadas na praia, mortos que são desenterrados com vida, serial killers lendários, moradores que não podem sair da cidade e uma tempestade que promete acabar com tudo, Dippold dá uma aula de como construir um roteiro cheio de referências em episódios amarradinhos sem perder o charme próprio. Quem costura tudo é Matthew Rhys que vê a tragédia local cair literalmente no seu colo e precisa tentar resolver os mistérios que rondam a localidade. Com ótimo elenco, trilha sonora marcante e atmosfera bem construída, a série mistura de diferentes gêneros de terror e demonstra fôlego para mais algumas temporadas. Já está entre minhas favoritas do ano. 

O Segredo de Widow's Bay (EUA-2026) de Katie Dippold com Matthew Rhys, Kate O'Flynn, Stephen Root, Hamish Linklater, Kevin Carroll, Kingston Rumi Southwick, Dale Dickey, Jeff Hiller e K Callan. ☻☻☻☻ 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

4EVER: Bonnie Tyler

08/06/1951 ✰ 08/07/2026

Gaynor Hopkins nasceu no País de Gales e se tornou famosa com o nome de Bonnie Tyler, dona de um timbre áspero, potente e que imprimia traços melancólicos em músicas como It's a Heartache e Total Eclipse of the Heart (que está na trilha do filme brasileiro Deserto Particular/2021). Seu estilo misturava pop, rock e country desde o final dos anos 1970. Indicada a 3 Grammys, seu timbre foi resultado de não ter respeitado o repouso para as cordas vocais após um cirurgia para retirada de nódulos nas cordas vocais em 1977. Após uma internação por problemas de saúde, ela faleceu em decorrência de uma infecção. 

terça-feira, 7 de julho de 2026

4EVER: Benedito Ruy Barbosa

17/04/1931  07/07/2026
Benedito Ruy Barbosa nasceu em Gália em São Paulo. Jornalista e publicitário, sua carreira na dramaturgia teve início com a peça Fogo Frio (1959), mas a estreia como autor de novelas aconteceu com Somos todos Irmãos (1966) na TV Tupi. Sua obra é marcada pela representação da vida rural e interiorana, com interesse pela imigração portuguesa e italiana no Brasil. De origem humilde, o autor escreveu novelas de grande sucesso,como Pantanal (1990), Renascer (1993), Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999). O autor faleceu em decorrência de uma doença renal crônica. 

sábado, 4 de julho de 2026

CATÁLOGO: Johns

David: antes de Dewey. 

Curioso diáriw, é estranho como a mente de um cinéfilo funciona. Enquanto eu assistia Spider-Noir eu reconheci o Lukas Haas (que era aquele garotinho do clássico A Testemunha/1985, único filme que indicou Harrison Ford ao Oscar) e lembrei de outro filme protagonizado por Haas: Johns. Eu só o assisti recentemente ao encontrar no Youtube. O longa marcou a estreia de Scott Silver no cinema (depois ele dirigiu o fracassado Mod Squad/1999 e preferiu ser apenas roteirista de filmes badalados como 8Mile/2002 e ser indicado ao Oscar por O Vencedor/2010 e Coringa/2019. Seu filme de estreia conta a história de dois amigos que ganham a vida como garotos de programa nas ruas de Los Angeles. John (David Arquette no papel que deu destaque suficiente para conseguir um papel como o policial Dewey de Pânico/1996) está prestes a completar 21 anos nas vésperas do natal. Ele sonha passar aquela noite no elegante Park Plaza Hotel, mas para isso ele precisa atender alguns clientes e juntar dinheiro. Acontece que ele também tem uma dívida a ser paga com o violento Jimmy (Terrence Howard) e vive brigando com a namorada, Nikki (Allana Ubach). Seu alento parece ser a amizade com Donner (Lukas Haas) que sonha ser ator, mas também ganha a vida nos perigos das ruas de Los Angeles. Entre policiais e clientes perigosos, os dois pensam em largar aquela vida, mas o risco que correm pode tornar já tarde demais.  Apesar do ritmo nervosinho e da fotografia poderiam sugerir uma comédia, Johns é um filme bastante melancólico. Apesar do diretor filmar sem muita personalidade, o elenco e os situações que parecem improvisadas prendem a atenção. Não espere nudez ou cenas de sexo, o interesse de Silver é outro. Vale ressaltar que o diretor escreveu o roteiro baseado em relatos de vários garotos de programa que venderam suas histórias por vinte dólares. 

Johns (EUA - 1996) de Scott Silver com David Arquette, Lukas Haas, Keith David, Wilson Cruz, Alanna Ubach, Richard Kind, Terrence Howard, Elliot Gould e Nicky Katt.