terça-feira, 27 de outubro de 2026

10+ Favoritos entre os Premiados da Mostra Internacional de SP

No início, a Mostra Internacional de São Paulo deixava a cargo do público a função de eleger o melhor filme da mostra. Décadas depois, começou a diversificar, deixando que a crítica e um júri também fizessem suas escolhas. Assim, mais filmes ganhavam projeção na mostra e depois com categorias de ficção e documentários, divididos em produções nacionais e internacionais deixaram as escolhas ainda mais diversificadas, deixando o público mais atento às centenas de filmes que passam todo ano pela mostra. Em 2026 o evento chega à sua 50ª edição e vários dos filmes exibidos por lá receberam postagens por aqui ao longo dos anos. A seguir dez dos meus filmes favoritos que foram premiados nas várias edições. Como é quase impossível classificar tantas obras-primas (já foi difícil escolher somente dez), eu preferi organizá-los por ordem cronológica:

Prêmio da Crítica

Prêmio do Público  

Prêmio do Júri

Prêmio do Júri e Prêmio do Público

Prêmio do Júri 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

Prêmio Especial da Crítica

Prêmio do Público 

Prêmio do Público

Prêmio do Público

NªTV: Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP

Cakoff: cinema é resistência!  

Cinéfilo diáriw, diante de toda a atmosfera tensa das eleições de 2026 resolvi me distrair com a minissérie documental Viva o Cinema! da HBO sobre a história da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Disponível no streaming, a produção conta a trajetória da Mostra idealizada por Leon Cakoff desde sua criação em 1977 no MASP e sua expansão pela cidade de São Paulo. Em quatro episódios, acompanhamos os desafios, as amizades, os participantes, os filmes que fizeram história com sua exibição nas edições e a forma como a paixão pelo cinema se mostrou um ato de resistência ao longo dos anos. Cakoff era crítico de cinema e ao idealizar a Mostra nunca teve a ideia de centra-se no glamour dos artistas. Sua ideia principal era valorizar os filmes dos mais variados lugares, das mais variadas culturas e temáticas e aproximar o público de filmes que geralmente não teria acessos nas salas de cinema convencionais. Diante deste ideal enfrentou problemas com a censura nos tempos da ditadura (e chega a ser engraçado quando forçou os censores a ver centenas de filmes a tempo da mostra e ajudou a pressionar pelo fim da censura) mais recentemente enfrentou problemas com perda de patrocínio diante do governo federal passado que olhava com desprezo para a cultura.  Dirigido pelo casal Marina Person e Gustavo Moura de Maria, o programa é uma declaração de amor ao cinema e à Mostra, que fica ainda mais evidente com o cuidado com que contextualiza as edições da Mostra e a relação dos filmes com a realidade do Brasil e do mundo. Dos golpes sofridos pela mostra (a falta de recursos, a morte de Cakoff, a edição online na pandemia...) aos fãs que colecionou ao longo da trajetória (da própria Marina à Quentin Tarantino), Viva o Cinema! é uma celebração à arte e ao cinema enquanto uma forma de olhar o mundo e refletir sobre ele. Só para lembrar, a edição deste ano termina na sexta-feira (29/10)! 

Viva o Cinema! Uma História da Mostra de SP (Brasil - 2024) de Marina Person e Gustavo Moura de Maria com Leon Cakoff, Marina Person, Gustavo Moura de Maria, Renata de Almeida, Daniela Thomas, Serginho Groissman e Jonas Chadarevian. ☻☻☻☻☻ 

NªTV: Tip Toe

Cumming: tempos sombrios. 

Temeroso diáriw, quando a série Tip Toe foi exibida no exterior, li muitas críticas sobre o quanto era sombria sobre a trama de um homem gay que termina assassinado pelo vizinho. Este é o ponto de partida para uma trama que assusta principalmente pela proximidade com a realidade. Ela torna-se ainda mais assustadora quando percebemos que o título (que traduzindo seria algo como "andando na ponta dos pés") se refere à forma como homossexuais sentem a necessidade de serem mais do que discretos para não chamarem atenção e não sofrerem algum tipo de agressão física ou psicológica em tempos em que existe o discurso de que você sair do armário não tem problema algum. Segundo um dos pontos da série, assumir a sexualidade se tornou um verdadeiro alvo com a ascensão de extremistas e seus discursos homofóbicos. Uma questão controversa, mas que faz pensar. A trama conta a história de Leo (Alan Cumming no papel de sua vida), um dono de pub gay e seu amargo vizinho Clive (David Morrissey). Clive é casado e pai de dois rapazes, um de 25 e outro de 16. Sua relação com Leo é pautada pela cordialidade em um nível de tolerância zero em que qualquer respiro pode fazer seus instintos mais primitivos transbordarem de preconceitos (mal sabe ele que seu filho mais velho ganha dinheiro com vídeos eróticos na internet e o caçula está doido para sair do armário). Ao longo dos cinco episódios vemos como a situação chegou ao nível de loucura para que Leo fosse morto diante da vizinhança em plena luz do dia. Tip Toe aborda temas complicados e o faz oscilando entre o trágico e o cômico com uma sucessão de erros que gera revelações que só destacam o quanto Clive está descolado da realidade na fragilidade de sua masculinidade tóxica. O último episódio é assustador e, por isso mesmo, soa bastante real com o ritmo impulsivo dos acontecimentos. 

Tip Toe (Reino Unido /  2026) de Russell T. Davies com Allan Cumming, David Morrissey, Elizabeth Berrington, Pooky Quesnel, Paul Rhys, Jackson Connor, Joseph Evans, Iz Hesketh e Gabriel Clark. ☻☻☻☻ 

domingo, 18 de outubro de 2026

PL►Y: Hit Para Dois

Paul Rudd: compositor roubado. 

Sonoro diáriw, o irlandês John Carney é um diretor de gênero bastante específico já que seus filmes são comédias envolvendo música. Se por um lado ele não ousa, ao menos produz filmes que são agradáveis de assistir (o ideal para se ver para aliviar a cabeça, ainda mais quando percebi que estava assistindo muitos filmes densos ultimamente). Hit Para Dois conta a história de Rick (Paul Rudd) um cantor de casamento que mora na Irlanda e que ao se apresentar em uma festa conhece um astro da música pop chamado Danny Wilson (Nick Jonas), que faz tempo que não lança um sucesso. Os dois se apresentam juntos na festa e depois de umas bebidas resolvem conversar sobre suas composições. Os dois parecem se entender bem e depois cada um segue sua vida... seria assim se Danny não usasse uma das composições de Rick para construir um novo hit. A música se torna um sucesso e o compositor é sequer mencionado. Rick tenta conversar com o moço, mas é evitado a todo custo, o que vira um verdadeiro inferno astral diante da injustiça ocorrida. Sem provas de que é o compositor original da canção, existem conflitos com seus colegas de trabalho, com a família, com a equipe de Danny... a coisa só complica mas de uma forma leve e cheia de gracinhas para não pesar o clima. O roteiro é simples e redondinho e o fato de contar com um bom elenco também ajuda a se envolver com a história com trilha sonora caprichada. Paul Rudd está bem no papel do cantor que deixou a carreira que não decolava para construir uma família - mas que vê naquela situação a chance de ter o reconhecimento que nunca conseguiu. Eu nunca tinha visto um filme com Nick Jonas e achei o moço convincente em seu mal caratismo. Vale destacar que a música que cria toda confusão é gostosinha de ouvir e pode estar no Oscar do ano que vem, especialmente por sua letra ambígua. 

Hit Para Dois (Power Ballad / EUA - Irlanda / 2026) de John Carney com Paul Rudd, Nick Jonas, Peter McDonald, Rory Keenan, Paul Reid, Keith McErlean, Beth Fallon e Marcella Plunkett. ☻☻☻

PL►Y: Suntan

Makis e Elli: paraíso corrompido. 

Ensolarado diáriw, Suntan é um filme que parece muito normal para pertencer ao movimento Estranha Onda Grega. Os personagens conversam normalmente, bebem, trabalham, vão em festas e quase sempre estão na praia. O que pode provocar algum estranhamento por aqui é como alguns frequentam a praia com roupas de banho e outros completamente nus sem maiores surpresas (mas dizem que por lá é assim mesmo dada à atitude liberal em relação ao corpo). No entanto, conforme o filme se aproxima do desfecho existe aquele uso do absurdo, do incômodo, da transição do cômico e do patético para o violento e bizarro de forma repentina. Lançado em 2016, o filme ilustra de forma contundente a confusão existente na mente do seu protagonista sobre o que é o amor e como vivê-lo.  O filme conta a história de Kostis (Makis Papadimitriou), um clínico geral de 42 anos que começa a trabalhar na ilha grega de Antiparos. No verão a ilha fica cheia de turistas que aproveitam as praias e festas locais. Nesse período, Kostis atende Anna (Elli Tringou), que está acampada na ilha junto com alguns amigos. Os dois se aproximam e ele fica animado com a possibilidade de romance com uma mulher com metade de sua idade. No entanto, o que era para ser algo prazeroso se torna uma verdadeira obsessão para Kostis, que mergulha em um declínio moral de consequências assustadoras. O diretor Argyris Papadimitropoulos  é bastante habilidoso em transformar o paraíso em um cenário tenso no decorrer do filme, assim como as atitudes de personagens se tornam cada vez mais humilhantes e desconfortáveis. Makis Papadimitriou cria com precisão a mistura de problemas de autoestima, rejeição e posse num resultado tóxico tornando um homem comum em um ser assustador. Achei que o filme trabalha de forma contundente um tema bastante atual. 

Suntan (Grécia / Alemanha - 2016) de Argyris Papadimitropoulos com , Makis Papadimitriou, Elli Tringou, Hara Kotsali, Milou Van Groesen, Dimi Hart, Marcus Collen e Pavlos Orkopoulos. ☻☻☻

PL►Y: Zonas Úmidas

Christoph e Carla: sem higiene.  

Desagradável diáriw, acredito que este seja o filme mais nojento já realizado. É verdade que você já deve ter visto filmes de terror que possam revirar o estômago, mas este aqui se apresenta como uma comédia dramática ácida que leva a escatologia para onde ninguém ousou ir. Tem tiradas bem humoradas, doses de drama, fotografia límpida e uma edição esperta para envolver o espectador enquanto sua protagonista desafia qualquer padrão de higiene. Se a ideia era  quebrar tabus e causar ojeriza e ainda assim ser interessante (!!), o objetivo é alcançado por dois terços do filme, já que conforme se aproxima do desfecho a coisa fica cada vez mais gratuita, repetitiva e desinteressante. O filme conta a história de Ellen (Carla Juri), uma jovem que tem uma relação problemática com os pais e deixa que isso se reflita em sua relação com o próprio corpo. Se por um lado ela parece ter fetiche por, digamos, fluídos corporais variados, por outro a total ausência de higiene reflete uma personalidade autodestrutiva. Alguns dirão que ela percebe tudo com naturalidade sobre seu corpo, mas isso não evita que ela se corte em uma depilação íntima e caminhe para escola com o sangue escorrendo pelas pernas como se nada estivesse acontecendo. Por conta disso ela vai parar num hospital e parece finalmente receber alguma atenção após anos lidando com pais negligentes. O filme é baseado no livro homônimo de Charlotte Roche e testa os limites do espectador e do próprio cinema com algumas cenas asquerosas. Ao longo da sessão, o destaque é da atriz Carla Juri que aos 28 anos convence na pele de uma adolescente! Dá para perceber que o diretor David Wnendt não tem medo de ousadias e depois adaptou para o cinema o best-seller Ele Está de Volta (2015) - filme obrigatório para os dias atuais. 

Zonas Úmidas (Feuchtgebiete / Alemanha - 2023)  de David Wnendt com Carla Juri, Meret Becker, Christoph Letkowski, Marlen Kruse, Selam Tadese, Axel Milberg e Edgar Selge. ☻☻

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PL►Y: Uma Infância Alemã

Nanning e o tio:  perdendo a inocência. 
Assombrado diáriw, o consagrado diretor Fatih Akin escreveu o roteiro deste filme baseado no livro de memórias do Hark Bohm, filho de um oficial do exército do führer na Segunda Guerra Mundial. Akin e Bohm dividem o texto e realizam um dos filmes mais precisos do ano ao expor as bordas do final da Guerra em um microuniverso que reflete com precisão a realidade daquele país. Nanning (Jasper Billerbeck) tem doze anos e vive com a mãe grávida, o irmão e a tia em uma casa na ilha de Amrum no ano de 1945. O contato com o continente acontece quando a maré fica baixa, mas a cena em que os aviões ingleses bombardeiam  o mar e o menino diz que é para descarregar o peso, ilustram bem o desconhecimento da realidade. Ao longo do filme o menino descobre um pouco mais sobre que está acontecendo, percebe que sua mãe não é a pessoa legal que ele imaginava e que seu pai oficial não é um herói de guerra. Nanning percebe que a situação ao seu redor é estranha quando o simples comentário feliz sobre o retorno do pai para o lar mediante o fim da guerra pode gerar a punição de uma vizinha. A situação das relações são tensas, os mantimentos são escassos e o fio condutor da narrativa é a tentativa do menino conseguir um pão branco, com manteiga e mel para o lanche de sua mãe. Enquanto tenta encontrar os ingredientes para satisfazer aquele desejo, o menino se depara com vários personagens que compõem um universo periférico ao Holocausto na Alemanha. Este universo é composto por pessoas comuns que ajudaram na construção dos horrores que o país atravessou - e as vozes dissonantes estão sempre sob vigilância. São as narrativas e ações destes personagens que fazem o cotidiano de Nanning ser repleto de crueldades em um mundo que nunca mais seria o mesmo (e que de vez em quando teima em voltar ao seu pior estado). 

Uma Infância Alemã (Amrum/ Alemanha - 2025) de Fatih Akin com Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke e Diane Kruger. ☻☻☻☻

Pódio: Kyle Chandler

Bronze: o primeiro Lanterna.
3º Lanternas (2026) Embora tenha realizado alguns trabalhos importantes no cinema (como o oscarizado Manchester a Beira-Mar/2016 e no recente O Aniversário/2025), a televisão parece ser o território ideal para os melhores trabalhos do ator nascido no estado de Nova York. Eu fiquei muito feliz quando soube que ele viveria o Lanterna Verde Hal Jordan na série dedicada aos heróis da DC, imaginei que por pior que a produção pudesse ser, ele não decepcionaria. Dito e feito. Embora Lanternas seja um programa problemático de sua concepção até a execução, Kyle está bastante convincente como o super-herói desiludido com toda a estrutura por trás do seu anel de poderes incríveis. Nas cenas em que aparece em sua versão gente boa em holograma, ele demonstra que o problema da série não é sua atuação. 

Prata: o Bom Samaritano. 
2º Early Edition (1996-2000) Foi com esta carinha de menino com pinta de galã da era de ouro de Hollywood que o ator conseguiu seu primeiro papel de grande destaque na TV. Embora atuasse desde os anos 1980, foi no seu papel de homem comum que recebe todas as manhãs um jornal do dia seguinte (e tenta evitar que coisas ruins aconteçam) que o ator demonstrou sua versatilidade em situações cômicas e dramáticas ao longo de quatro temporadas. Pelo papel de Gary, ele foi premiado com o Saturn Awards de melhor ator de televisão. Confesso que eu não perdia um episódio quando a série passava na TV aberta com o nome de Edição de Amanhã. O papel lhe rendeu destaque e  convites para trabalhos no cinema e outras séries.

Ouro: o Treinador Paternal. 
1º Friday Night Lights (2006-2011) o ator se tornou uma celebridade nacional nos Estados Unidos pelo seu papel nesta série querida pelo público americano que acompanha os Dillon Panthers, um dos melhores times de futebol do país, mas o destaque fica com o treinador, Eric Taylor (Chandler) que além de treinar os atletas, também faz hora extra como figura paterna que ajuda os jovens atletas a enfrentarem todos os dilemas que perpassam as temporadas. Aclamado pela crítica e o público, o papel rendeu indicações a vários prêmios ao longo das temporadas e garantiu o Emmy de melhor ator principal em série dramática para Kyle. Hoje aos 61 anos, Kyle se tornou um dos rostos mais populares para os amantes de séries de TV. 

NªTV: Lanternas

Kyle e Aaron: ruim de doer. 
Decepcionado diáriw, a situação para o James Gunn no DCU da Warner deve estar complicada, não apenas pelas mudanças que estão prestes a acontecer no estúdio, mas por conta das produções com o selo DC que foram lançadas este ano. Supergirl se tornou um dos maiores fracassos do ano e a série Lanternas é uma das coisas mais sonolentas que assisti recentemente. Todo universo do Lanterna Verde é um dos mais interessantes da editora, mas tiveram a ideia brilhante de jogar tudo no lixo e repaginar os personagens como dois policiais investigando um crime. O fato de estar na HBO fez tudo ainda mais parecido com True Detective (e não duvidaria que o roteiro fosse originalmente uma nova temporada da antologia que foi mexida para se tornar uma produção com selo DC). A série aborda o período em que o veterano Hal Jordan (Kyle Chandler), o Lanterna Verde original, é designado a orientar o novato John Stewart (Aaron Pierre) enquanto investigam um brutal assassinato na cidadezinha de Rushville. Hal percebe que aquele não é um crime comum e suspeita de ter indícios alienígenas no caso. Com uma premissa dessas a série poderia ser envolvente se caprichasse na relação entre os dois personagens, mas as tretas entre os dois se arrastam ao longo de oito episódios que se arrastam em uma costura ruim cheia de idas e vindas no tempo. Haja paciência para ver a trama rodar em torno do próprio rabo lembrando quase nada dos personagens dos quadrinhos. Nada contra apresentar um Hal Jordan desiludido, mas custava dizer o motivo dele ter ficado ao ponto de tratar John com total desprezo o tempo inteiro? Os Guardiões, Sinestro (Ulrich Thomsen) e Guy Gardner (Nathan Fillion)  aparecem pouco e não acrescentam muita coisa à trama que parece juntar dois programas que não conseguem conversar entre si. A série começa com a sensação de que vai melhorar e termina com o sabor de uma grande perda de tempo. Custava ser só uma série de super-herói?    

Lanternas (EUA-2026) de Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King com Aaron Pierre, Kyle Chandler, Kelly MacDonald, Poorna Jagannathan, Laura Linney, Garret Dillahunt, Chris Coy e Sherman Augustus. ☻