sexta-feira, 22 de junho de 2018

10+: Toni Collette

Toni Collette
Nascida em Sidney no ano de 1972, a australiana Antonia Collett ingressou na escola de teatro na adolescência e surpreendeu seus pais ao escolher seguir a carreira de atriz.  A atriz do aclamado terror Hereditário é conhecida por sua simpatia em entrevistas e versatilidade diante da câmera. Camaleônica, ela já fez de tudo, comédias, dramas, musicais, filmes de época, romances, remakes, indies e terror (gênero que ela não gosta de assistir, mas que já marca a sua carreira há tempos). Ela nem esperava que o sucesso chegaria aos 22 anos em O Casamento de Muriel (1994), seu segundo filme - que lhe garantiu prêmios, visibilidade internacional e o posto de uma de minhas atrizes favoritas.  Com um Globo de Ouro na estante (pela série United States of Tara, que preferi deixar de fora da lista para destacar seus trabalhos apenas no cinema) e uma indicação ao Oscar, a atriz tem uma carreira cheia de bons trabalhos. Destaco aqui as que considero suas melhores atuações (e que não canso de ver em alguma reprise por aí). 

#10 "Emma" (1996) de Douglas McGrath
Você nem deve lembrar dela nesta adaptação da obra de Jane Austen, mas eu lembro com muito carinho! Ela acabava de se tornar famosa e interpretou Harriet, a amiga humilhada da protagonista que ganha uma sensibilidade notável com Toni. Este foi um dos quatro longas que ela lançou em 1996. 

#09 "Velvet Goldmine" (1998) de Todd Haynes
Ela apareceu completamente diferente na pele de Mandy Slade, a esposa do roqueiro Bryan Slade neste musical inspirado no glam rock dos anos 1970. Se Slade é inspirado em David Bowie, Toni é a primeira esposa do camaleão, Angela Bowie (a Angie em pessoa) em fases distintas de sua vida. 

#08 "Já Estou com Saudades" (2015) de Catherine Hardwicke
Não sou muito fã deste filme, mas a atuação de Toni - e sua química como a amiga de Drew Barrymore - o torna acima da média. Ela vive Milly, mulher bem-sucedida e muito ocupada que descobre uma grave doença e precisa de todo o apoio para sobreviver. A plateia costuma chorar.

#07 "Pequena Miss Sunshine" (2006) de Valerie Faris e J. Dayton 
Outro papel muito querido de Toni foi neste filme ganhador de dois Oscars, em que ela vive a mãe de uma família que faz de tudo para não ir ladeira abaixo - mas este lado mais dramático serve de pano de fundo quando a filha adorável que resolve participar de um concurso de beleza infantil. 

A atriz tem uma participação pequena marcante neste premiado filme. Ela vive Kitty, a vizinha de Laura Brown (Julianne Moore), e que após uma conversa simples acarreta uma das maiores revelações do filme. Em poucos minutos a personagem se torna fundamental para a trama. 

Toni vive a mãe de Nicholas Hoult quando ele era apenas um menino nesta comédia sobre o egocêntrico Will (Hugh Grant), marmanjo que aprende que ele está longe de ser uma ilha. A atriz é Fiona, a riponga deprimida que não vê com bons olhos a amizade do filho com este mal exemplo...  

#04 "Em Seu Lugar" (2005) de Curtis Hanson 
Rose (Toni) e Maggie (Cameron Diaz) são duas irmãs completamente diferentes - e com um relacionamento desastroso! Esta dramédia merecia ter feito mais sucesso quando foi lançada, Toni e Cameron estão ótimas em cena e o roteiro trata assuntos sérios com uma leveza inspiradora. 

#03 "O Sexto Sentido" (1999) de M. Night Shyamalan
Pelo filme ela foi lembrada em várias premiações, incluindo o Oscar - que a indicou a melhor atriz coadjuvante como a mãe do menino que vê gente morta. É a primeira e única indicação de Toni ao Oscar até agora - e tem um dos momentos mais marcantes de sua carreira (a antológica cena do carro).

#02 "O Casamento de Muriel" (1994) de P.J. Hogan
Clássico do cinema australiano (acho que vi umas sete vezes... mas já perdi a conta) - esta deliciosa comédia embalada pelas canções do Abba, conta a história de Muriel (Toni), garota com problemas de auto-estima que muda de vida ao  reencontrar uma velha amiga (Rachel Griffith) e... veja o filme!

#01 "Hereditário" (2018) de Ari Aster 
A crítica especializada é unânime em dizer que esta é a melhor atuação dela. No papel da mulher que descobre segredos de família que podem destruir tudo o que ela mais ama, a atriz transita por várias emoções e mistura horror com drama familiar. Será que o Oscar lembrará dela novamente? Esperamos que sim!

Na Tela: Hereditário

Wolff, Byrne, Toni e Milly: segredos de família.

Ouvi alguns críticos dizendo que passaram mal diante de Hereditário, longa de estreia de Ari Aster sobre uma família cheia de segredos revelados após o enterro da vovó. Durante o funeral não existem lágrimas, apenas o discurso um tanto ressentido de Annie (Toni Collette, num trabalho espetacular), a filha da falecida que já deixa claro que a mãe não era uma pessoa fácil. A serenidade de Steve (Gabriel Byrne) não revela incômodo com a perda da sogra, o filho adolescente, Peter (Alex Wolff, o irmão melhor ator de Natt Wolff do recente Death Note/2017) está zero comovido com o falecimento, restando apenas à caçula, Charlie (Milly Shapiro) lamentar a perda. Não demora muito para perceber que Charlie é uma menina estranha. Com conversas e gosto um tanto mórbido, ela ainda tem a mania de fazer um barulho que irá marcar os ouvidos de quem se aventurar pelo filme. Há algo de sombrio no ar desde que a casa é apresentada como uma das miniaturas criadas por Annie (Toni Collette), como se todos fossem pequenos diante de algo muito maior e frágeis perante o que irá devastá-los para sempre. Annie mal se recupera de uma perda e outra tragédia acontece, mas dessa vez existe muito choro e o abalo definitivo na relação entre mãe e filho, restando a Steve a desconfortável tarefa de tentar manter algum equilíbrio naquela casa. Diálogos ásperos surgem alimentados por revelações e ressentimentos que só pioram quando o passado da vovó começa a se revelar no roteiro (do próprio diretor) que mistura drama familiar com horror sobrenatural (e Aster ainda alimenta o folclore  em torno do filme afirmando que se inspirou em sua família para criar a história). O cineasta alcança um resultado que cresce gradativamente em angústia, mas não vale revelar muito sob o risco de de estragar a experiência. O tom é pausado, a atmosfera é de pesadelo e a fotografia faz questão de sublimar cada susto desconfortável que o filme constrói - especialmente com a ajuda de Toni Collette que está magnífica em cena. Ela constrói uma mulher cada vez mais desesperada com o peso de pagar pelas dívidas da mãe - o pior é que a dívida inclui toda a família. Alex Wolff também está bastante convincente e o veterano Gabriel Byrne está discreto, mas na medida para alguém que descobre ter se metido numa relação familiar complicada, mas o outro grande destaque do filme fica mesmo por conta de Milly Shapiro que cria uma menina arrepiante sem precisar fazer muita coisa em cena. Se você ficar desconfortável no meio do filme, você nem imagina o que acontece no final imprevisível, onde o drama cede lugar ao horror de sua estranheza sinistra - que rende comparações do filme aos clássicos O Exorcista (1973), O Bebê de Rosemary (1968) e o recente A Bruxa (2016). Ari Aster demonstra talento de veterano, especialmente lapidado nos seus curtas que chegaram a gerar polêmica por conta de explorar histórias familiares estranhas, mesmo sem apelar para o sobrenatural. O diabólico Hereditário já é considerado o melhor terror do ano, lugar que antes era ocupado por Um Lugar Silencioso e que ainda pode ser ocupado por Mandy (longa de Panos Cosmatos a ser lançado no segundo semestre). Como podemos perceber, 2018 confirma que os filmes de terror voltaram a ficar interessantes (e a campanha para Toni Collette concorrer ao Oscar está grande). 

Hereditário (Hereditary/EUA-2018) de Ari Aster com Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Morgan Lund e Jake Brown. ☻☻

quinta-feira, 21 de junho de 2018

PL►Y: Outside In

Eddie e Jay: atuações memoráveis. 

Lynn Shelton é uma das diretoras independentes mais ativas do cinema americano. Além de fazer cinema, ela também é convidada para trabalhos em várias séries (já dirigiu episódios para New Girl, Mad Men, Master of None, GLOW, Love, Shameless...), arrisco que seu maior talento é a capacidade de gerar atuações bastante espontâneas do seu elenco. Ainda que alguns possam considerar a sua obra irregular (nem sempre seus filmes alcançam o resultado desejado na tela), Lynn é uma cineasta que merece atenção. Basta ver o que ela faz neste Outside In, que surpreende pela habilidade com que se distancia do humor presente na maioria dos filmes da diretora e constrói um drama envolvente sobre dois personagens em momentos bem diferentes de suas vidas. Chris (Jay Duplass, em sua melhor atuação) é um rapaz que está em condicional após vinte anos na prisão. Ao invés de entregar logo a história do personagem, o filme prefere dar pistas sobre com ele, assim surge um desentendimento com a família aqui, uma lembrança ali, um visitante indesejado... o fato é que desde a primeira cena em que aparece sabemos que o rapaz é inofensivo e parece bem mais deslocado do que ameaçador. Existe um desconforto palpável, uma verdadeira inadequação no retorno à cidade onde cresceu e nem ele sabe explicar direito - some isso à dificuldade para arranjar emprego, o relacionamento fragilizado com o irmão (Ben Schwartz) e a desconfortável inércia em que se sua vida se encontra e você entenderá sua aproximação cada vez maior com Carol (a sempre ótima Edie Falco). Carol foi professora de Christopher e se correspondeu com ele durante os anos em que ficou na prisão. Por quase vinte anos, ela foi a única pessoa que se correspondeu com ele e este fato construiu um laço vigoroso entre os dois... na verdade Chris está apaixonado por Carol, mas ela está presa a um casamento que já perdeu a graça faz tempo e tem uma filha adolescente (Kaitlyn Dever), que está cada vez mais distante. Jay e Edie realizam aqui um belíssimo trabalho em defesa de seus personagens, a cada instante o casal ressalta o que está em jogo na vida dos dois personagens, sem que precisem necessariamente expressar isso em diálogos. Edie Falco (que ficou mundialmente conhecida como Carmela, a esposa exemplar de mafioso em Família Soprano) está ótima em cada cena, revelando não apenas a vaidade esquecida de ser desejada (e este ainda é algumas décadas mais jovem que ela), mas especialmente, como ela pode ser mais determinada do que imaginava. Seu parceiro de cena, Jay Duplass (irmão do mais conhecido Mark Duplass) também está irresistível em cena, tornando fácil torcer para que tudo se acerte na vida deste homem de destino um tanto atrapalhado. Diante do trabalho dos atores, não há como esquecer o talento de Lynn  Shelton, utilizando a espontaneidade de sua direção para sensibilizar a plateia diante do romance de uma "aultera" e um "ex-presidiário", dois estigmas que são tratados com grande sensibilidade pelo roteiro. assinado por ela e Jay.  O único problema do filme está no desfecho, que destoa do anúncio de um arremate bem mais romântico para a história do casal,  no entanto, Shelton e Jay sempre penderam mais para o realismo do que para o romantismo em suas carreiras, mas nada impede que a mente do espectador crie novos encontros para Chris e Carol após o término deste ótimo filme em cartaz na Netflix.

Outside In (EUA/2018) de Lynn Shelton, com Edie Falco, Jay Duplass, Ben Schwartz, Kaitlyn Dever e Aaron Blakely. ☻☻☻☻

segunda-feira, 18 de junho de 2018

PL►Y: Ingrid Vai Para o Oeste

Olsen e Plaza: a vida é uma selfie. 

Indicado aos prêmios de melhor filme de estreia e melhor roteiro no Independent Spirit deste ano, Ingrid Vai Para o Oeste é uma grande surpresa. Primeiro por falar de assuntos sérios quando se faz de comediota. Outro fator surpresa é a atuação de Aubrey Plaza, que comprova ter cansado de fazer sempre a mesma personagem entediada em comédias americanas. Aqui, parece que o diretor Matt Spicer se apropria do histórico da atriz para dar-lhe uma personagem bem mais complexa e, o melhor, Aubrey cumpre a tarefa com louvor! Aubrey interpreta a personagem do título, uma mulher completamente dependente do celular, não... ela é completamente dependente das redes sociais mesmo. Por conta disso ela acabou tendo problemas com a justiça, sendo internada numa instituição psiquiátrica e recebendo uma ordem de restrição com relação a uma garota a qual era seguidora. Ingrid não tem emprego (e nem precisa, já que com a morte de sua mãe ela recebeu uma boa indenização), não tem namorado e não tem uma vida fora das redes. Quando ela recebe alta da tal instituição ela fica numa espécie de limbo, até encontrar outra garota badalada para seguir. A nova eleita ela conhece numa revista e se chama Taylor Sloane (Elizabeth Olsen em um papel bem mais leve que de costume), fotógrafa, moradora da Califórnia e que se tornou especialista em transparecer uma vida de sonho nas fotos que na internet. Tudo que Taylor faz é super descolado! Tudo que ela frequenta é o melhor! O melhor restaurante! A melhor loja! A melhor livraria! O melhor pet! O melhor!  Não demora para Ingrid ir morar na Califórnia e seguir os passos de seu novo modelo de comportamento e até criar uma situação para se aproximar de Taylor e o namorado, o artista Ezra (Wyatt Russell). São nestes momentos que percebemos que Ingrid não é uma garota má, mas tem uma mente distorcida ao ponto de não perceber o quanto a amizade está bem longe de ser o que acontece entre ela e o casal. Ela faz de tudo para agradar os dois e, quanto mais se aproxima, mais se torna perigosa a relação que se estabelece. Neste ponto dois personagens ganham espaço na trama, um é o senhorio de Ingrid, Dan (o bom O'Shea Jackson Jr. que torna a e a obsessão pelos filmes do Batman um dos pontos mais divertidos do filme) e o insuportável irmão de Taylor, Nicky (Billy Magnussen (que ainda é meu ator favorito para viver Adam Warlock nos filmes da Marvel), que serão importantes numa mudança brusca na vida de Ingrid. No roteiro esperto (premiado em Sundance), a protagonista irá aprender da pior forma que a vida apresentada nas redes sociais está bem longe de ser a real - assim como as versões que as pessoas apresentam ali são bem diferente da realidade. Equilibrando drama e comédia, Ingrid vai para o Oeste radicaliza no desfecho a ambivalência das redes sociais, que pode render leituras bem diferentes aos mais céticos e aos otimistas, mas que traz uma satisfação catártica à protagonista. Ingrid Vai Para o Oeste faz rir, mas também assusta ao nos fazer lembrar como algumas pessoas se tornam cada vez mais dependentes da popularidade virtual - mas é a atuação de Aubrey Plaza que revela o quanto pode haver de solidão em cada foto postada ou curtida. 

Ingrid Vai Para o Oeste (Ingrid Goes West/EUA-2017) de Matt Spicer com Aubrey Plaza, Elizabeth Olsen, Wyatt Russell, O'Shea Jackson Jr., Billy Magnussen e Pom Klementieff. ☻☻☻☻

domingo, 17 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Heartstone

Baldur e Blaer: amizade sob ameaça. 

Li várias críticas positivas destinadas a este filme islandês, mas, ainda assim, fui assistir com um pouco de desconfiança. Sorte que ela logo se dissipou diante da bela construção realizada pelo diretor e os atores, com ajuda de bucólicas locações emolduradas por uma bela fotografia. Talvez Heartstone pudesse ser um pouco mais curto, mas ainda consegue ser uma história envolvente sobre dois amigos que começam a ter suas primeiras aventuras amorosas - e tudo se complica quando um deles se descobre apaixonado pelo outro. O filme lida de forma bastante delicada e respeitosa com a situação, obtendo um resultado bastante sincero sobre a amizade dos dois meninos. Thor (Baldur Einarsson) é o melhor amigo de Kristján (Blaer Hinriksson), os dois vivem num vilarejo perto da gélida costa da Islândia e não há muita coisa o que se fazer por lá além de passar o tempo brincando com outras pessoas de sua idade ou arrumando encrenca com quem não pertence à mesma turma. De vez em quando os dois flertam com duas garotas da vizinhança e aprendem a lidar com os primeiros jogos de sedução de forma muito mais desastrada do que propriamente sensual. São em algumas brincadeiras que Thor começa a desconfiar que Kristján sente algo mais do que amizade. Seja por conta de um comentário, um toque ou um olhar, talvez o próprio lourinho esteja perdido entre os sentimentos que nutre pelo amigo. Também não ajuda muito o fato de recentemente um homem da vizinhança ter sido alvo de agressões pelo fato de ser homossexual - o que passa a povoar a mente dos moradores como um verdadeiro fantasma. Os adultos da região também não ajudam muito, são carrancudos e não costuma conversar muito com os filhos que estão com os hormônios a flor da pele, a própria mãe de Thor não parece entender  que o filho está crescendo - e as irmãs costumam implicar com ele o tempo todo. Com tantas relações ásperas, fica fácil entender as emoções de Kristján - que podem gerar decisões extremas. O filme constrói sua história vagarosamente, entre uma festinha aqui, uma briga ali, uma travessura, alguns desentendimentos, flertes entre meninos e meninas das redondezas, mas deixa Kristján cada vez mais desconfortável. Embora possa exagerar na melancolia, Heartstone é bonito de assistir, mescla as emoções de seus personagens às paisagens locais e funciona bem como um rito de passagem, um período de descoberta que pode mudar a forma como nos relacionamos com o mundo e como o próprio mundo se relaciona conosco. Ganhador de mais de trinta prêmios internacionais (incluindo no Festival de Veneza), Heartstone merece atenção pela sua sutileza. 

Heartstone (Hjartasteinn / Islândia - Dinamarca / 2016) de Guðmundur Arnar Guðmundsson com  Baldur Einarsson, Blær Hinriksson, Diljá Valsdóttir e Soren Mallig. ☻☻☻☻

sábado, 16 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Meu Nome é Ray

Elle, Naomi e Susan: talentos desperdiçados. 

Elle Fanning completa vinte e um anos em 2019, mas já tem currículo de veterana. Com dezessete anos de carreira (sim, ela começou a atuar aos três anos de idade, fazendo a versão mais nova de sua irmã, Dakota, em Uma Lição de Amor/2001), ela já trabalhou com diretores renomados como Sofia Coppola, JJ Abrams, Nicolas Winding Refn e John Cameron Mitchell. Mantendo o ritmo de quatro filmes por ano, Elle é uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Agora, imagine colocar a atriz no papel de um transexual, acompanhada de duas atrizes do cacife de Susan Sarandon e Naomi Watts e você terá um projeto bastante promissor. Enquanto era filmado, Meu Nome é Ray era um dos filmes mais aguardados de 2015, todos estavam de olho no filme da inglesa Gaby Dellal, mas bastou o filme ser exibido para que todo mundo o esquecesse automaticamente. A decepção aconteceu quando perceberam que o protagonismo da história não é de Ray (Elle Fanning), mas de sua mãe, Maggie (Naomi Watts), que por conta dos procedimentos para a mudança de sexo da filha terá que passar a limpo alguns detalhes de seu passado. Maggie trabalha como ilustradora e ainda mora com a mãe, Dolly (Susan Sarandon), uma lésbica bem resolvida que mora há décadas com Frances (Linda Emond). Dolly ainda tem um pouco de dificuldade em lidar com as inseguranças da filha e também não entende muito bem a transexualidade de Ray, no entanto, as três personagens dividem várias cenas que geralmente descambam para um humor que nem sempre funciona. O maior problema da história é que nenhuma das personagens são bem desenvolvidas, sendo apenas esboços de pessoas que poderiam ser reais. O roteiro gasta tempo demais abordando a necessidade de fazer o pai de Ray assinar os papéis para ajustar o corpo feminino de Ray para sua mente de menino. Essa transição poderia ser o grande trunfo do filme, mas o roteiro da diretora e da parceira Nikole Beckwith encontram uma grande dificuldade em tornar Ray em um personagem interessante. Para trabalhar a identidade do personagem o filme opta por registros documentais da vida do personagem, que servem apenas para torná-lo ainda mais distante do andamento da trama. A abordagem da transexualidade aparece sempre superficialmente, usando meia-dúzia de frases manjadas e abudando do número de vezes com que os personagens ficam se corrigindo em torno do gênero de Ray. Elle Fanning se esforça em cena, torna a voz mais grave, tem um trabalho gestual para se tornar mais masculina e fica mal humorada o filme quase inteiro... mas a garota não consegue fazer milagre com um roteiro tão simplista. Ray poderia tornar o filme uma obra muito mais interessante,  mas o roteiro prefere dar mais atenção às trapalhadas amorosas de sua mãe. Meu Nome é Ray perde a oportunidade de trabalhar um tema bastante atual com um ótimo elenco feminino, alcançando um resultado apenas mediano. 

Meu Nome é Ray (3 Generations / EUA - 2015) de Gaby Dellal, com Naomi Watts, Elle Fanning, Susan Sarandon, Linda Emond, Tate Donovan e Sam Trammell. ☻☻

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Jonathan

Pai e filho: catarse sempre adiada. 

Jonathan (Jannis Niewöhner) passou os últimos anos se dividindo entre o trabalho na fazenda da família e os cuidados com o pai, que atravessa estado avançado de um câncer de pele que já se espalha pelo cérebro. Por conta do avanço da doença, Burghardt (André Hennicke) não vê muito sentido em continuar vivo e o fato dele não manter um bom relacionamento com a irmã (Barbara Auer) piora ainda mais seus dias. Burghardt também se incomoda quando o filho lhe pergunta sobre o acidente que levou a sua esposa á morte, na verdade, sempre que aparece alguma questão relacionada ao passado da família, o patriarca se esquiva de qualquer explicação ou resposta elaborada. Pelo menos, diante da situação, a chegada de uma enfermeira (Julia Koschitz) para ajudar a cuidar do enfermo, trará um pouco mais de alegria para Jonathan, que irá aos poucos se aproximar dela e viver um tórrido romance. Metade da duração do filme é sobre o jovem personagem tentando lidar com o peso das responsabilidades que a vida lhe reservou tão cedo, além da inquietação sobre as histórias que sua família evita lhe contar, em sua outra metade, o filme revela o que havia de tão secreto na história de Burghardt, principalmente com a presença cada vez maior de Ron (Thomas Sarbacher), um velho amigo de Burghardt que aparece após muito tempo para ficar ao lado do amigo que está definhando dia após dia. A presença de Ron incomoda alguns personagens, mas deixa Burghaudt mais animado, ao ponto de se tornar insustentáveis as histórias que sempre contou para o filho  - que não irá demorar para perceber que existe algo mais entre o pai e o amigo cada vez mais carinhoso. Jonathan é um filme a que se assiste sem dificuldade e consegue misturar melodrama e erotismo com uma desenvoltura invejável, porém, tem uma dificuldade enorme para lidar com os segredos que habitam a família de Jonathan. O filme demora muito para abordar o impacto da verdade naquele universo e, quando o faz, se apressa para lidar com os dilemas dos personagens. O filme tenta não representar Burghaudt como um vilão, mas patina quando tem que abordar as escolhas diante da atração que os dois amigos sentiam um pelo outro, a responsabilidade com o casamento e a paternidade, assim como a decisão de silenciar seus sentimentos por tanto tempo. Embora tenha um material rico em mãos, além de um elenco bastante dedicado, o diretor Piotr J. Lewandowski também se esquiva da história em torno da família de Jonathan. Assim, o filme toca em algumas questões apenas superficialmente (preconceito, mentiras, segredos, vergonha, culpa...) e adia a catarse de Burghaudt até o último momento. O desenvolvimento deste drama familiar poderia ser ainda mais intenso e interessante, mas prefere não tornar ainda mais densa a relação entre seus personagens. 

Jonathan (Alemanha-2016) de Piotr J. Lewandowski com Jannis Niewöhner, André Hennicke, Julia Koschitz, Barbara Auer e Max Mauff. ☻☻☻