segunda-feira, 25 de maio de 2026

PL►Y: O Dia de Peter Hujar

Ben: figura histórica.
Gravado diáriw, várias obras da cinematografia de Ira Sachs são marcadas por personagens queer (incluindo sua obra-prima O Amor é Estranho/2014) e com este aqui não é diferente. Peter Hujar (1934-1987) foi um importante fotógrafo dos EUA. Nascido em Nova Jersey, Peter foi criado pelos avós imigrantes ucranianos e depois foi viver com a mãe em Nova York. Sensível ao capturar a imagem de seus retratados, sua obra documentou a efervescente cultura underground dos anos 1970 e 1980 em NY até seu falecimento em decorrência da AIDS. Em tempos de cinebiografias que seguem uma cartilha pouco inventiva, Sachs opta por resgatar uma entrevista de Hujar para a amiga jornalista Linda Rosenkrantz que seria parte de um livro que nunca foi publicado. A entrevista tem como objetivo ser um relato de tudo que Peter fez durante um dia de sua vida. O longa não pretende fazer muito mais do que dramatizar a tal entrevista, colocando dois ótimos atores em cena para reproduzir o que foi registrado por Linda. Ben Wishaw  e Rebecca Hall conseguem prender a atenção do espectador que topar a ideia do que seria apenas uma conversa de oitenta minutos. Enquanto Hujar passa a maior parte do tempo relatando o encontro com o desconfiado Allen Ginsberg, entre fatos prosaicos do cotidiano, a dupla consegue transparecer o carinho de um personagem pelo outro. Apesar o formato inusitado, o trabalho de Wishaw evidencia alguns traços da personalidade do biografado, como sua eloquência, sensibilidade, descaso com a alimentação e o olhar sob a profissão. Outro ponto interessante é como a fotografia ressalta a passagem do tempo durante a entrevista. Muita gente irá considerar um filme arrastado e com poucos atrativos, mas vale pelo resgate de um artista que precisa ser lembrado pelo seu legado. 

O Dia de Peter Hujar (Peter Hujar's day / EUA - Alemanha - Reino Unido - Espanha/2025) de Ira Sachs com Ben Wishaw e Rebecca Hall. 

domingo, 24 de maio de 2026

NªTV: Kylie

Kylie: vida e música pop.

Querido diáriw, vendo o documentário de três episódios da Netflix sobre a australiana Kylie Minogue lembrei de quando a vi no provocativo Holy Motors (2012) de Leos Carax e seu trabalho como atriz era simplesmente sensacional. A minissérie serviu para lembrar que antes de ser uma estrela da música pop, Kylie começou como atriz adolescente em uma série de TV que se tornou mania na Austrália e na Inglaterra. Neighbours a lançou ao estrelato, mas ela queria mesmo era ser cantora. Ela sabia que sua voz não era grandiosa, mas tinha disposição suficiente para se tornar um dos poucos casos de artista que atravessa décadas na música pop. A produção serve para conhecer um pouco mais de uma artista que começou com o hit I Should be so Lucky e depois virou chacota da imprensa. Quem vê Kylie hoje com seus Grammys na estante nem imagina a crise em que mergulhou quando optou por ser indie ou quando viu o mundo das turnês mundiais levar seu romance com Michael Hutchance do INXS ao fim. Abordando diversos momentos da cantora, há espaço para o fracasso de sua fase indie, seu retorno triunfal com Spinning Around, o hit mundial de Can't Get You out of my Head e  até mesmo o assustador diagnóstico de câncer que recebeu pela primeira vez em 2005. Dentre vários momentos importantes da carreira e da vida pessoal, fiquei impressionado no desenvolvimento da amizade de uma figura tão solar com seu total oposto encarnado chamado Nick Cave. Os dois fizeram uma parceria inusitada na fúnebre Where the Wild Roses Grow (em 1995) e ele pareceu ter um papel importante para a diva se redescobrir enquanto diva pop (a cena dela no concurso de poesia apresentado por ele é um dos momentos mais emocionantes do programa). Confesso que sorri e chorei vendo o documentário. Senti falta de destacarem minha música favorita dela, Slow - mas tá perdoado. 

Kylie (Reino Unido / 2026) de Michael Harte com Kylie Minogue, Danii Minogue, Jason Donovan, Nick Cave e Lino Carbosiero. ☻☻☻☻

quinta-feira, 21 de maio de 2026

PL►Y: O Estranho

Stamp: exercício neonoir

Misterioso diáriw, Steve Soderbergh lançou tantos filmes nos últimos anos que viveu ocupado demais para se preocupar com o fato das premiações o ignorarem solenemente nos últimos vinte anos. Quando ganhou a Palma de Ouro em Cannes por sua estreia em Sexo, Mentiras e Videotape (1989), ele disse que dali em diante era tudo ladeira abaixo. Ele acertou. Seus filmes foram mal de bilheteria e ele só foi levado a sério novamente quando lançou este O Estranho, alguns anos antes de receber o Oscar de direção por Traffic (2000). Com uma história simples nas mãos, o que Steven queria era provar ser capaz de prender a atenção da plateia com uma narrativa envolvente no que podemos considerar como um exercício neonoir, já que os personagens embaçados aqui fazem muita alusão ao clássico gênero de filmes policiais. Só que o personagem principal não é um detetive, mas um pai em busca do assassino de sua filha. Vale dizer que Wilson (Terence Stamp) está longe de ser um pai exemplar, até porque passou os últimos anos na prisão após uma longa trajetória no mundo do crime.  Este currículo o torna imprevisível, até mais do que o provável assassino, um executivo do ramo da música (vivido por Peter Fonda). Soderbergh constrói um quebra cabeça juntando os personagens que Wilson encontra pelo caminho e costura cada pista com um pouco da relação de uma família que se perdeu pelo caminho. A edição é um dos destaques da produção (que apresenta cenas com antecedência como se fosse o título de um capítulo de livro além de cenas de A Lágrima Secreta/1967 como se fosse o passado de Wilson).  Com este filme, o diretor demonstrou ter fôlego para mais algumas décadas de carreira e caiu nas graças dos atores que até hoje fazem fila para trabalhar com ele.

O Estranho (The Limey - EUA /1999) de Steven Soderbergh com Terence Stamp, Peter Fonda, Lesley Ann Warren, Luiz Guzmán, Barry Newman e Nicky Katt. ☻☻☻

PL►Y: O Morro dos Ventos Uivantes

O casal: Matando um Clássico

Literato diáriw, deve fazer uns seis anos que li O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë. Confesso que não está entre os meus favoritos, o que não impede que eu reconheça a importância do livro e o que o torna um clássico da literatura mundial. Os personagens complicados, os diálogos cheios de atrito e as relações cheias de conflitos fazem dele um verdadeiro marco literário. Lançado em 1847 a o obra é cultuada até hoje por uma legião de fãs e conta com umas treze versões para o cinema. A primeira é de 1920 (ainda na época do cinema mudo), mas a que carrego na mente é a de 1992 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes. Esta última é dirigida por Emerald Fennell, a diretora e roteirista tem um Oscar na estante por Bela Vingança (2020), filme que a tornou uma das poucas mulheres a concorrer ao Oscar de melhor direção. Talento a moça tem, assim como gosto pela controvérsia (basta ver seu filme seguinte, Saltburn/2023 que eu adoro), mas o que ela faz aqui é uma grande bobagem. Para além de todas as mudanças sobre classes sociais e personagens secundários no filme, tenho a impressão que toda a tensão entre Catherine (Margot Robbie) e Heahcliff (Jacob Elordi) se torna pretexto para um filme tão pretensioso quanto sem alma. Os dois são personagens complicados, que fervem de desejo, mas deixam convenções sociais e sentimentos sombrios se sobreporem a todo amor que possam vivenciar. Nesta nova versão, ambos parecem perdidos na escalada das emoções (e repetidas cenas de sexo com roupa não diminuem esta sensação). Margot e Jacob fazem o que podem, mas o filme não decola. É arrastado, chato e desencontrado - mas para Emerald ele deve ser ousado e incompreendido. Não é. Tem como desver isso? Única coisa que salva é a performance de Hong Chau como Nelly. Decepcionante.  

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights / Reino Unido - EUA / 2026) de Emerald Fennell com Margot Robbie, Jacob Elordio, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Ewan Mitchell e Martin Clunes. 

domingo, 17 de maio de 2026

PL►Y: Socorro!

Rachel: o survivor de Raimi.
Prezado diáriw, Sam Raimi é um tipo de diretor interessante que começou no cinema indie com filmes inspiradamente B e que quase foi absorvido pelo mainstream, mas tem um estilo muito próprio para deixar se levar pelos modismos de grandes estúdios (prova disso foi o rumo do Homem Aranha de Tobey Maguire) Com gosto pelo humor macabro, o gore e o terror, Raimi sempre demonstra estar mais a vontade quando pode soltar as rédeas do previsível e levar seus personagens para além do que esperamos. É isso que ele faz em Socorro! ao colocar Rachel McAdams como a funcionária exemplar competente que espera sua promoção há tempos e vê tudo indo por água abaixo quando o dono da empresa morre - e o filho playboy (Dylan O'Brien) assume o comando. Sem saber do risco de demissão iminente ela aceita até ir em uma viagem com um bando de jovens engravatados que adoram debochar dela. Eis que um acidente deixa somente ela e o jovem herdeiro em uma ilha deserta. Obcecada pelo programa Survivor, ela demonstra bastante habilidade para manter-se viva e cuidar do jovem patrão. O problema é que ele não percebe que as hierarquias sociais não valem por ali e que ela não é tão ingênua quanto imagina. Começa uma guerra entre dois personagens que não estão dispostos a facilitar o espectador a rotular quem é bonzinho e quem é malvado na trama. Cada vez que achamos que entendemos a dinâmica entre os dois a coisa muda de formas absurdas. Rachel e Dylan tornam tudo tão divertido quanto assustador e o jogo de cena se torna imprevisível. Disposto a demonstrar o lado obscuro dos personagens naquela situação, tive a impressão que o filme partiu da ideia de um Triângulo da Tristeza (2022) em menor escala . Para além dos atores se divertindo em cena, o destaque vai para um javali que rouba uma cena. 

Socorro" (Send Help / EUA - 2026) de Sam Raimi com Rachel McAdams, Dylan O'Brien, Xavier Samuel e Edyll Smail. ☻☻☻

10+: Meryl Streep

 Faz tempo que eu devia minha lista com trabalhos favoritos de Maria Louise Streep, ou melhor Meryl Streep, a atriz nascida em Nova Jersey e 1949 e que se tornou uma lenda em Hollywood com suas vinte e uma indicações ao Oscar (e poderia ter recebido muitas outras, imagine...). Com três carecas dourados na estante, não faltam trabalhos icônicos na carreira desta lendária atriz. Dito isso, aos 72 anos, ela se tornou o principal motivo para as pessoas irem aos cinemas verem O Diabo Veste Prada2 e fazer do filme um sucesso. A seguir, as dez performances desta atriz incrível na minha modesta opinião:

10 "Lembranças de Hollywood" de Mike Nicholls (1990)



07 "Kramer Vs Kramer" de Robert Benton (1979)



04 "As Pontes de Madison" de Clint Eastwood (1995)


02 "A Escolha de Sofia" de Alan J. Pakula (1982) 

Na Tela: O Diabo Veste Prada2

Meryl: Miranda de volta. 

 Icônico diáriw, baseado no best-seller de Lauren Weisberg, O Diabo Veste Prada se tornou um filme pop que ecoa até hoje, vinte anos após o seu lançamento. Existe de fato uma magia quase hipnótica no filme sobre os conflitos da jovem Andrea Sachs (Anne Hathaway) ao ir trabalhar com a lendária Anna Wintour Miranda Pristley (Meryl Streep) na mítica revista Vogue Runway. No fim das contas, Andrea resolve seguir outros caminhos no jornalismo, mas o destino resolve fazê-la reencontrar Miranda. Acontece que muita coisa mudou, a revista impressa agoniza nas bancas e tudo se resume a visualizações online e viralizar nas redes. A postura de Miranda passou a ser alvo de repressões e tudo que é dito é julgado pelos internautas e influenciadores. O medo do cancelamento ironicamente coincide com a dificuldade de estabelecer um jornalismo sério na era digital. Para dar uma repaginada na Runway, Andrea é chamada de volta e reencontra uma Miranda mais acuada ao lado de seu fiel escudeiro Nigel (Stanley Tucci) - e eles nem imaginam que novas guinadas virão pela frente. É interessante como o filme oferece uma atualizada no olhar sobre aquela cultuada revista e a figura mítica que está por trás dela, mas o resultado soa mais melancólico do que glamouroso. A embalagem é a mesma, muita roupa de grife, trilha sonora envolvente e atores afiados (mesmo que o texto não seja tanto), mas o tom é outro. Mesmo a cenografia me parece evocar algo decadente com seus espaços apertados, isso retira do filme a aura hipnótica do anterior mas imprime um pouco mais de realidade- que parece assombrada pela extinção do que Miranda ressalta defender em uma das cenas mais emblemáticas. Interessante que o desfecho ainda consegue ser otimista, afinal, o longa é para divertir e não para sair triste do cinema.

O Diabo Veste Prada 2 (Devil wears Prada 2 / EUA -2026) de David Frankel com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, Simone Ashley, Patrick Brammall e Lucy Liu. ☻☻☻ 

PL►Y: Eddington

Phoenix: herói de barro.

Desgovernado diáriw, me deparei com críticas muito ruins ao novo filme de Ari Aster. O diretor que fez dois filmes de terror dignos de nota com Hereditário (2018) e Midsommar (2019), teve problemas com Beau tem Medo (2023) e agora com Eddington constrói uma sátira política numa cidadezinha no meio do nada e ainda mais isolada em 2020, tempos de pandemia. Lá o embate entre o xerife da cidade (Joaquin Phoenix) e o prefeito (Pedro Pascal) renderá acontecimentos que tornarão as relações ainda mais polarizadas. O que poderia ser apenas o debate sobre o uso de máscaras, logo vira algo mais por conta das complicações envolvendo os traumas da esposa do xerife (vivida por Emma Stone). Mas não é só isso, o isolamento e busca de conexões com o mundo via internet, motivam ainda mais o caos na cidade com discursos que  viram modismo e caminham para a mais completa desordem. Aster constrói uma massaroca de referências sobre o mundo atual e toda a confusão em que mergulha com falsos gurus e fake news. Celulares parecem armas e vídeos parecem mais relevantes do que os fatos que registram. Diante de todo o caos que se instaura, parece que a solução encontrada para o desfecho é um tiroteio que me fez pensar que Aster viu Bacurau (2019). As conclusões ficam pela metade, os discursos são jogados para o alto e a realidade parece pronta para quem quiser colocar fogo nela. O cineasta demonstra continuar ambicioso e assumindo riscos para não ficar preso a um gênero cinematográfico. Aqui ele faz drama, faz comédia, faz um faroeste virado do avesso, escorrega no humor ao lidar com temas cuidadosos e, como seus personagens fazem, atira para todos os lados. O resultado é interessante, incômodo e com uma ótima atuação de Joaquin Phoenix como um daqueles heróis de barro que adoram cultuar. 

Eddington (EUA - Reino Unido - Finlândia / 2025) de Ari Aster com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal, Emma Stone, Cameron Mann, Michael Ward, Clifton Collins Jr e Austin Butler. ☻☻☻

domingo, 3 de maio de 2026

PL►Y: Twinless

O'Brien: sem o irmão. 

Surpreso diáriw, acho que Twinless é um dos filmes com roteiro mais original que assisti nos últimos tempos. Indie e sem grana para campanhas milionárias, a produção ficou de fora do Oscar na categoria de roteiro original. Foi indicado ao Independent Spirit de roteiro, de melhor ator (Dylan O'Brien) e de melhor filme. Em Sundance ganhou o prêmio de melhor filme dramático, melhor ator (pro Dylan) e o prêmio do júri na categoria de drama. Além destas credenciais, foi lembrado em várias listas de críticos como um dos melhores lançamentos do ano passado. Considero a celebração bastante justa, já que James Sweeney faz um ótimo trabalho em seu segundo longa-metragem, sendo também responsável pelo texto e por carregar metade do filme nas costas interpretando Dennis. Dennis conhece Roman (O'Brien, que está ótimo) em um grupo de suporte para pessoas que perderam o irmão gêmeo. Dylan ainda amarga o luto recente pelo irmão Rocky, que faleceu em um acidente. Ambos estão inundados por uma sensação de vazio e, complementa ainda mais a amizade que se instaura entre os dois, o fato de Roman ser hetero e Dennis ser gay - assim como Rocky. Os dois estabelecem um laço que oferece suporte de um para o outro e tudo vai bem até que o roteiro resolve demonstrar que existe algo mais por trás disso tudo. O roteiro é bastante engenhoso e faz tudo se (embolar e) encaixar com perfeição, funcionando de forma bastante convincente, especialmente pela mistura de drama com o senso de humor perigoso - que funciona surpreendentemente bem com a habilidade do diretor e das atuações. A montagem do filme realça ainda mais as nuances presentes entre os personagens (que inclui ainda a mãe de Roman e uma colega de trabalho de Dennis). O filme é uma pérola que merece ser descoberta no streaming e já está no meu top10 do ano. 

Twinless: Um irmão a Menos (Twinless - EUA /2026) de James Sweeney com Dylan O'Brien, James Sweeney, Lauren Graham, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. ☻☻☻☻