sexta-feira, 1 de maio de 2026

Pódio: Sergi López

Bronze: o amante descompromissado. 

3º Uma Relação Pornográfica (1999) Fazendo cinema desde 1991 é curioso perceber que aos poucos, o ator passou a ser conhecido pelos vários papéis de vilão que interpretou.  Como acompanho a carreira de Sergi faz tempo, sei como ele é bastante versátil em papéis mais dramáticos, cômicos e até românticos como neste filme. Basta lembrar seu personagem que responde ao anúncio de uma mulher que procura um homem para viver um relacionamento descompromissado, pornográfico e anônimo. De encontro em encontro a curiosidade sobre um e do outro se torna inevitável, assim como os sentimentos que começam a aparecer entre eles. O filme concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza, mas foi Sergi que saiu de lá com o prêmio de melhor ator e sua parceira em cena, Nathalie Baye, com o prêmio de melhor atriz. Merecidíssimo!  

Prata: o vilão sanguinário. 
2º O Labirinto do Fauno (2006) Muita gente conheceu o trabalho do ator por conta de sua performance como o vilão deste sucesso assinado por Guillermo Del Toro. Na pele de Capitão Vidal, muita gente cogitou que o ator merecia uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por sua performance assustadora (e um tanto sedutora) como um fascista sanguinário. Ambientado na Espanha falangista de 1944, ele vive o novo padrasto da protagonista que não mede esforços para conter grupos rebeldes que atuam na região. Se você ainda não assistiu a esta obra-prima, não perca tempo e descubra o melhor trabalho do prestigiado Del Toro. Uma mistura de realidade e fantasia que poucas vezes alcançou um nível tão sublime na história do cinema. 

Ouro: o amigo obsessivo. 
1º Harry Chegou para Ajudar (2000) Este foi o primeiro filme que assisti com Sergi López e me fez fã de seu trabalho. Ele interpreta Harold Balestoro, que reencontra um amigo do Ensino Médio e provoca uma reaproximação. Acontece que o Harry do título tinha uma verdadeira obsessão pelo amigo e ela se reacende. O diretor Dominik Moll usa referências hitchockianas para construir uma narrativa que evolui gradativamente e que depende muito da habilidade de Sergi transitar entre o simpático e o arrepiante em um personagem complicado de tão escorregadio. O filme rendeu ao espanhol o prêmio de melhor ator no Cesar (o Oscar francês) daquele ano e o colocou entre os melhores atores europeus de sua geração. Nascido em 1965, Sergi seque aos 60 anos ativo nas telonas. 

PL►Y: Sirât

Bruno e Sergi: leite de pedra. 
Confuso diáriw, pode me explicar como Sirât cravou sua indicação ao Oscar de melhor filme internacional no Oscar deste ano? Eu já sabia (devido as críticas de suas passagens em festivais) que dentre os cinco indicados ele era o filme mais controverso (mas sinceramente, não me importo com isso). Por aqui, o filme já recebeu uma antipatia bônus devido ao comentário infeliz do diretor Oliver Laxe sobre o Brasil ter muitos votantes no Oscar e, por isso ,qualquer coisa consegue ser indicada (oi? ele sabe quantos Oscars e indicações a Espanha já teve?). O comentário soa ainda mais irônico quando durante as quase duas horas de personagens vagando no deserto em seu filme eu me perguntei: onde está a história? O ponto de partida é um pai (Sergi López tirando leite de pedra), com o filho caçula (Bruno Núñez), chega em uma rave no meio do deserto do Marrocos procurando pela filha desaparecida. Embalado por música eletrônica por uns vinte minutos, o exército chega e  eles e a multidão conduz para fora dali, mas um grupo foge pelo deserto. Seguindo pelo meio do nada, com comida e água escassas, eles passam por adversidades enquanto a Terceira Guerra Mundial se aproxima. As dificuldades do grupo só aumenta entre um cachorro que come excrementos com LSD e um trágico acidente. O cuidado com a estética não consegue disfarçar a falta de assunto e ausência de desenvolvimento de personagens em um road movie que é uma verdadeira peregrinação (até para o público que não entende o objetivo da produção). Haja paciência para presenciar os acontecimentos ruins que recaem sobre o protagonista para fingir que existe um desenvolvimento de narrativa. O sentido do título (que na mitologia islâmica é uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma navalha situada sob o inferno) é muito mais interessante do que o filme em si. 

Sirât (Espanha - França / 2025) de Oliver Laxe com Sergi Lopez, Bruno Núñez, Steffania Gadda, Joshua Lian Henderson, Tonin Janvier e Jade Oukid. 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

PL►Y: Kill Bill - Volume I e II

Uma: a Mamba Negra. 
Saudoso diáriw, recentemente chegou aos cinemas uma nova versão de Kill Bill em que a montagem transforma os dois volumes dos filmes de 2003 em apenas um, ou seja, faz o que Tarantino não conseguiu fazer na época do lançamento. A ideia da nova versão é costurar tudo com alguns extras e correlações entre fatos dos volumes de forma mais orgânica. Na época diziam que um filme representava o ocidente e o outro o oriente, talvez por isso tanta gente curta mais um do que o outro. Quentin Tarantino estava em baixa quando lançou a história da noiva com sede de vingança, ela após quase morreu no dia de seu casamento pelas mãos da mesma gangue de mercenários da qual fazia parte. Uma Thurman ganhou o papel mais famoso de sua carreira e foi até indicada ao Globo de Ouro pelo papel por viver a assassina de traje amarelo e hattori hanzo na mão. Tarantino fez a festa com sangue jorrando da tela, diálogos absurdos e cenas de ação elaboradas (algo até então inédito em sua carreira). A violência desenfreada o redimiu nas bilheterias depois que ele tentou ser mais sério em Jackie Brown (1997). A trama é um fiapo e puro pretexto para a plasticidade estética e a violência estilizada cheia de referências batidas no liquidificador pop do diretor. Não existe subtexto, reflexões intelectuais em torno da noiva, apenas uma trama de vingança, crua e cheia de cenas memoráveis para ficar na cabeça dos fãs. O encontro da noiva com cada um de seus algozes sempre rende algo interessante até o desfecho derradeiro em que o título se torna inevitável. O "I'm Gonna Kill Bill" só deve ser menos famoso do que o assobio de Daryl Hannah (de tapa olho) no corredor do hospital. Quentin disse que lançaria uma continuação da saga com uma nova vingança, mas acho que mudou e ideia já que criou para si a maldição de criar seu último filme em breve. 

Kill Bill - Volume I e II (Kill Bill - Vol I & II / EUA - 2003) de Quentin Tarantino com Uma Thurman, Lucy Liu, Michael Madsen, Daryl Hannah, David Carradine, Vivica A. Fox, Chiaki Kuryiama e Sonny Chiba. ☻☻☻

PL►Y: Lírios Não são Para Mim

Louis e Fionn: cura gay? 

Assustado diáriw, este filme foi bastante comentado quando começou  ser exibido no exterior, mas eu não fazia ideia de como um romance de época poderia servir de disfarce para um verdadeiro filme de terror. Acho bastante interessante quando utilizam os elementos do gênero para abordar preconceitos e acho que funciona muito bem quando o diretor sabe exatamente até onde ir . O diretor estreante Will Seefried me deixou um tanto perturbado ao levar a "cura gay" para uma instância, digamos, cirúrgica (sem trocadilhos). A trama se passa na Inglaterra de 1920 e acompanha Owen (Fionn O'Shea), um jovem que deseja se tornar escritor e está internado para tratar sua homossexualidade. É bom lembrar que até 1967 ser gay era considerado crime naquele país, portanto, ao vermos o relacionamento de Owen com o médico Phillip (Robert Aramayo) entendemos que ambos correm um risco grande de serem descobertos. Se Owen não apresenta problemas com sua sexualidade, o mesmo não pode se dizer do seu parceiro, já que acredita que uma cirurgia seja capaz de mudar seus desejos. Se a coisa fica estranha com Owen ajudando o moço a ser cobaia da própria teoria (argumentando que a mente dele não é gay, por saber que é errado, o problema está no corpo que é desobediente), a coisa piora ainda mais quando Charles (Louis Hofmann da série Dark) aparece caindo de amores por Owen. Com aquela estética de filme inglês bem produzido e com elenco competente, o filme se torna cada vez mais sufocante, instaurando uma atmosfera de thriller queer que prende a atenção e gera o incômodo necessário para imaginar o quão nocivo é o preconceito. De nada serve o final poético (alusão ao título) para mais um gay cinematográfico sofrido. Nada de bom pode nascer de uma mentalidade excludente. Já a sociedade insiste em seu próprio câncer preconceituoso. 

Lírios Não São Para Mim (Lilies Not For Me / 2024 - Reino Unido - França - EUA - África do Sul) de Will Seefried com Fionn O'Shea, Robert Aramayo, Erin Kellyman e Jodi Balfour. ☻☻☻☻

domingo, 26 de abril de 2026

PL►Y: Thelma

June: caindo no golpe do telefone. 

Experiente diáriw, imagina que a June Squibb nasceu em Ilinois em 1929. Trabalhou no teatro por décadas e o cinema só abriu as portas para ela em 1985 em Simplesmente Alice (1990), embora tenha trabalhado em várias produções desde então, ela só foi reconhecida em 2013 por seu trabalho em Nebraska, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. Com uma energia impressionante, June se tornou um exemplo de que nunca é tarde para ter uma guinada na vida. Ciente de que nem sempre Hollywood lhe garantirá bons papéis, ela também assina a produção deste filme simpático Thelma, que poderia ter lhe rendido mais atenção nas premiações. Ela vive uma senhora que já passou dos 90 anos e recebe cuidados do neto (Fred Hechinger) após alguns problemas de saúde. Aplicada em aprender a lidar com tecnologia, ela fica indignada quando cai em um golpe e perde dez mil dólares acreditando que seu neto foi preso. Quando todos acreditam que tudo está resolvido, Thelma permanece indignada e pretende reaver a quantia. Ela parte então em busca de quem enganou encontrando velhos conhecidos pelo caminho e um sujeito amargo no desfecho. O melhor de Thelma é a forma como aborda com muito bom humor a postura de idosos diante da vida, os diálogos despretensiosos, a recusa da mente em lidar com um corpo que envelheceu e uma certa teimosia em perceber que sozinho a vida é mais complicada. Escrito e dirigido por Josh Margolin, o filme é uma daquelas produções que agradam sem fazer esforço com seu jeito despretensioso. O elenco de apoio está em plena sintonia e o roteiro tem ótimas sacadas, mas o que chama ainda mais atenção aqui é o olhar carinhoso sobre a protagonista que é valorizada pela atuação irresistível de June. 

Thelma (EUA-2024) de Josh Margolin com June Squibb, Fred Hechinger, Parker Posey, Clar Greg, Richard Roundtree, David Giuliani e Malcolm McDowell. ☻☻☻

.Doc: Celulóide Secreto

James e Sal: nas entrelinhas. 
Censurado diáriw, ainda lembro quando Celulóide Secreto chegou nos cinemas em 1995 e se tornou um dos documentários mais comentados daquela década. Com base no livro de Vitto Russo, o filme aborda como Hollywood lidou com a homossexualidade por muito tempo. Da forma como personagens homossexuais eram presentes de forma cômica no início do século XX (desde o cinema mudo), mas que com a censura décadas depois, mesmo este aspecto precisou ficar restrito às entrelinhas em clássicos como Rebecca (1944), Festim Diabólico (1948), Juventude Transviada (1955) e Ben-Hur (1959), ou aparecendo de forma um tanto mais sugestiva em clássicos esquecidos como Infâmia (1961). No geral, personagens queer eram (!?) punidos no desfecho após vivenciarem seus desejos com muita culpa. É engraçado ver Os Rapazes da Banda (1970) sendo revisto sentindo-se culpado em seu sarcasmo, como se não espelhasse o retrato de um tempo vindo de tanta censura, para depois Cabaret (1972) retratar homossexualidade com mais naturalidade (vale lembrar que levou o Oscar de melhor filme daquele ano) antes de toda uma onda de filmes violentos sobre o mundo queer (Parceiros da Noite/1980 que o diga). Interessante ver que nos anos 1990 houve uma mudança neste olhar que chegou ao mainstream, ainda que carregando marcas do passado como em  Tomates Verdes Fritos (1991), Filadelfia (1993) e até Priscila - A Rainha do Deserto (1994). Entre entrevistas, trechos de filmes e estrelas que se tornaram ícones gays no futuro, o legal  é ver como os roteiristas de diversos tempos lidam com o preconceito para retratar uma parcela do público (incluindo a si mesmos) e "agradar" a outra. Você jamais verá os clássicos do cinema do mesmo jeito. 

Celulóide Seccreto (The Celluloid Closet / EUA - Reino Unido - França - Alemanha / 1995) de Rob Epstein e Jeffrey Friedman com entrevistas com Lilly Tomlin, Shirley MacLaine, Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Susan Sarandon, Tony Curtis, Harvey Fierstein e Gore Vidal. ☻☻☻☻

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pódio: Gwyneth Paltrow

Bronze: a noiva desconfiada.

3º O Talentoso Ripley (1999) filha da atriz Blythe Danner e do produtor/diretor Bruce Paltrow, Gwyneth estava com todos os holofotes voltados para ela após o Oscar de melhor atriz (aquele mesmo roubado da Fernanda Montenegro e que virou peso de porta) quando apareceu na telona como Maggie - a namorada do milionário Dickie Greenleaf (Jude Law) que percebe ter algo de muito errado com o Tom Ripley (Matt Damon). Considero a performance aqui melhor do que a que lhe rendeu o Oscar por Shakespeare Apaixonado/1998 (que está fora da lista porque ela nunca me convenceu com aquele bigodinho). Passando de mulher apaixonada à iludida, desconfiada e incompreendida ela está muito competente no papel. 

Prata: a prodígio perdida. 
2º Os Excêntricos Tenenbaums (2001) Gwyneth já estava um tanto desanimada com a vida pós-Oscar, afinal, ninguém se torna a oscarizada mais jovem da categoria impunemente. Talvez por isso, ela tenha vivido Margot Tenenbaum com tanta desenvoltura. A menina prodígio que se torna uma menina complicada, casada com o terapeuta e apaixonada pelo irmão tem aquele estilo contido que Wes Anderson sabia imprimir tão bem aos seus personagens, a diferença é que Gwyneth imprime um calor à personagem que nunca está permitido de vir à tona. Com seu dedo de madeira e figurino que a tornou ícone fashion, Margot quase garantiu a medalha de ouro. Ainda lembro a decepção da atriz quando ela mesma anunciou o Oscar de roteiro original e viu os Tenenbaums perderem para Gosford Park

Ouro: a patricinha inglesa
1º Emma (1996) Sei que existe muito hate em torno de Gwyneth Paltrow, seja por sua empresa de produtos malucos, das pataquadas que ela diz em entrevista ou por conta da Fernandona mesmo, o fato é que houve um momento em que ela era uma jovem atriz promissora. O ponto de virada em sua carreira foi com esta adaptação do clássico de Jane Austen. Na pele da heroína imperfeita, Gwyneth personifica ao mesmo tempo a graça e a arrogância de uma personagem que domina com perfeição a casca de convenções sociais de seu tempo, mas que precisa descobrir sua própria leitura do mundo que a cerca. Embora muitos a achem sem sal, Gwyneth tinha 23 anos durante as filmagens e empresta muito de seus sonhos e ambições à Emma.