terça-feira, 9 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: O Despertar da Juventude

Alex e Sam: desejos e receios.

Conflituoso diáriw, sabe aquele filme que você não espera muita coisa e conforme ele se desenrola você percebe o quanto ele tem algo mais a oferecer? Senti isso ao assistir Minyan, ou como foi chamado por aqui: O Despertar da Juventude. O filme conta a história de David (Samuel H. Levine), um jovem de família imigrante russa que em meados dos anos 1980 vive em Nova York e começa a descobrir sua própria sexualidade enquanto altera seu olhar sobre o mundo que o cerca. Ele se sente deslocado na escola judaica em que estuda e deseja frequentar uma escola pública, ele também prefere morar com o avô (Ron Rifkin) do que permanecer na casa dos pais e lidar com as pressões familiares, mas além disso, David começa a perceber que seu interesse sexual por homens é crescente. Neste ponto, os dois homens idosos que vivem no apartamento ao lado de seu avô ajudam a fazê-lo perceber que talvez seu desejo não precisa silenciado. No entanto, para evitar problemas com a família, ele começa a ter encontros secretos com desconhecidos até ter um envolvimento mais pessoal com Bruno (Alex Hurt), um bonitão que trabalha num bar gay da cidade. O diretor Eric Steel consegue fazer um belo filme baseado no livro de David Bezmozgis, mas sua abordagem intimista perde a chance de aprofundar algumas questões como o advento da AIDS nos anos 1980, algo que é apresentado de forma tão sutil que gera menos impacto do que deveria. A presença contida de Levine também pode incomodar em um personagem que vivencia conflitos tão intensos entre o tradicional e o transgressor. O rapaz passa quase o filme todo com a mesma cara, com alguns bons momentos para além das cenas tórridas com o filho de John Hurt. Porém, o filme aborda tantas questões que termina parecendo ainda ter material para mais meia hora de projeção, o que pode soar um tanto frustrante ao espectador.

O Despertar da Juventude (Minyan/ EUA -2021) de Eric Steel com Samuel H. Levine, Ron Rifkin, Mark Margolis, Alex Hurt, Brooke Bloom, Gera Sandler, Richard Topol e Zane Pais. ☻☻☻

segunda-feira, 8 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADEXL: Os Tempos de Harvey Milk

Milk: exemplo de luta. 

Queerido diáriw, considero sempre uma boa ideia lembrar de Harvey Milk. Ele foi o primeiro homem assumidamente gay a ser eleito para um cargo político na Califórnia. Antes de ser eleito conselheiro de seu distrito na cidade de São Francisco, ele administrava uma loja de máquinas fotográficas ao lado do companheiro e era conhecido por se envolver nas causas das minorias locais. Querido por sua comunidade, seu apelo transcendia o universo LGBTQIAPN+ de seu tempo. Sua vitória e ingresso na vida política foi um marco ao colocar em pauta questões que antes não encontrava voz na esfera política. Sua trajetória se tornou um exemplo de porque devemos eleger minorias (ou excluídos) para cargos políticos de representatividade. Não por acaso, como demonstra este documentário premiado com o Oscar em 1985, sua presença política incomodava muita gente. Sem seu trabalho, percebia-se que entre a luta por direitos e o combate à discriminação, existia uma linha quase invisível. Também soa emblemático que a vida e a carreira política de Harvey tenha terminado por iniciativa de um homem de bem, hétero e "de família" que em um momento de "descontrole" resolveu atirar no prefeito da cidade e em Harvey que sorriu ao vê-lo entrar em seu escritório. O valor da vida desses dois homens rendeu somente cinco anos e alguns meses de prisão ao assassino que levou o júri às lágrimas ao contar como sua vida estava difícil devido às suas próprias escolhas. Os Tempos de Harvey Milk é mais do que um documentário, mas um registro histórico necessário para entender  as engrenagens de uma sociedade que trata os diferentes como anomalias a serem silenciadas. Para conhecer um pouco mais sobre Harvey Milk vale assistir ao filme de Gus Van Sant (Milk/2008) que rendeu o Oscar de roteiro original para Dustin Lance Black e de melhor ator para Sean Penn. 

Os Tempos de Harvey Milk (The Times of Harvey Milk) de Rob Epstein com Harvey Milk, Harvey Fierstein, Anne Kronnenberg, Tory Hartmann, Tom Ammiano e Jim Elliott. ☻☻☻☻

quinta-feira, 4 de junho de 2026

4EVER: Marjane Satrapi

22/11/1969 ✰ 04/06/2026

Nascida em Rasht no Irã, Marjane Ebrahimi ficou famosa com o lançamento da graphic novel Persépolis que narrava sua infância em Terrã diante da Revolução Islâmica. O sucesso da HQ fez a história se tornar uma animação indicada ao Oscar em 2007 (a qual dirigiu ao lado de Vincent Paronnaud). Com o filme, Marjane dirigiu outros cinco filmes (o último permanece inédito por aqui) e firmou-se como cineasta junto à carreira de escritora. Familiares afirmam que Marjane não se recuperou após a morte do esposo no ano passado, alegando que a autora faleceu de tristeza.

PL►Y: Wicked Parte II

Ariana e Erivo: nem feitiço. 

Cantante diáriw, com certeza Wicked2 foi o maior decepcionado com o Oscar deste ano. O primeiro filme conseguiu dez indicações ao careca dourado (incluindo melhor filme e para sua dupla de atrizes) e cravou duas merecidas estatuetas (design de produção e figurinos). Diante de um sucesso estrondoso, quando o segundo filme estreou, o público e a crítica não demonstraram o mesmo entusiasmo do anterior. Algo já me dizia que o ponto em que o primeiro acabava, sobrava pouco para o segundo filme, já que diante dos boatos que transformavam Elphaba (Cinthya Erivo) em Bruxa Má - para desacreditar qualquer tentativa de desmascarar a farsa do mágico de Oz (Jeff Goldblum) - restava uma caça às bruxas para desenvolver. Ela é desenvolvida sem muito brilho, principalmente se comparado ao primeiro filme. Os momentos musicais não empolgam, as músicas não são legais, o desenvolvimento das personagens também não avança e deixa tanto Elphaba quanto Glinda (Ariana Grande) fazendo o que podem com o que lhes resta. Até mesmo aquele momento em que a história das bruxas de Oz se cruza com a clássica chegada de Dorothy fica de escanteio, tendo alguma graça quando descobrimos a origem do leão covarde, do Homem de Lata e do Espantalho, mas é pouco. Houvesse desenvolvido mais estes detalhes da trama conhecida talvez o filme ficasse mais interessante do que investir no triângulo amoroso formado pelas duas protagonistas com o príncipe Fiyero (Jonathan Bailey). Com uma trama que não empolga o suficiente para segurar mais de duas horas de exibição, resta o visual caprichado para passar o tempo e o esforço do elenco para prender a atenção. Acho que com jeitinho caberia os dois filmes em um longa de três horas, mas... o resultado acabou sendo dois filmes em que um se torna o oposto do outro. Difícil agradar o público com esta guinada (para baixo). 

Wicked Parte II (Wicked for Good / EUA - 2026) de John M. Chu com Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bailey, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Ethan Slater, Ethan Slater e Marissa Bode. ☻☻

PL►Y: Pai Mãe Irmão Irmã

Vicky: laços de família

Premiado diáriw, fiquei surpreso quando o novo filme de Jim Jarmush ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza. A torcida era muito maior para outros títulos ( os elogiados A Voz de Hind Hajab e A Única Saída por exemplo), mas o ícone do cinema indie teve mais força entre os votantes e o seu longa dividido em três histórias distintas levou o prêmio. A primeira história traz um casal de irmãos (Adam Driver e Mayim Bialik) que realiza sua visita anual ao pai (Tom Waits), mas o distanciamento permanece numa formalidade apática até quando o pai provoca os filhos afim de despertar-lhes alguma reação menos calculada. A segunda história é bastante semelhante com duas irmãs (Cate Blanchett e Vicky Krieps) visitando a mãe (Charlotte Rampling) para o chá da tarde anual e a conversa também nunca parece avançar. São duas histórias em que os filhos demonstram um distanciamento emocional dos pais que seria cômico se não fosse trágico. Entre silêncios constrangedores e assuntos que não fazem a mínima diferença seguem sem maiores sobressaltos deixando que o espectador preencha as entrelinhas daquelas famílias. O terceiro episódio segue uma estrutura diferente, com um casal de irmãos gêmeos (Indya Moore e Luka Sabbat) visitam o apartamento dos pais que faleceram recentemente e relembram fatos do passado. O encanto do filme reside justamente em ter um elenco famoso e filmá-los em um pequeno recorte da vida daqueles personagens tradados feito pessoas comuns. É um filme simples e que pode soar nada demais ou promover reflexões sobre laços familiares. Particularmente não vi nada demais no filme. É agradável de assistir, tem alguns detalhes interessantes que conferem um charme à narrativa, mas continuei surpreso com o prêmio em Veneza. 

Pai Mãe Irmão Irmã (Father Mother Brother Sister/ EUA - Irlanda - França - Japão / 2025) de Jim Jarmush com Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, Cate Blanchett, Luka Sabbat e Indya Moore. 

domingo, 31 de maio de 2026

PL►Y: Submarino

Jakob: rumo ao fundo. 
Fraterno diáriw, quando aparecem aqueles dois irmãos cuidando de um bebê enquanto todos são negligenciados pela mãe, surgiu como um estalo o motivo do dinamarquês Thomas Vinterberg batizar seu filme com este  título: um submarino foi feito para afundar. Mal conhecemos os meninos e o roteiro já nos apresenta a tragédia que os marcará para sempre. Dito isso, vemos o irmão mais velho Nick (Jakob Cedergren) tentando seguir a vida e colocá-la nos eixos, embora a fotografia azulada e as pessoas que cruzam seu caminho deixem claro que não existe coisa boa a acontecer. Entre o caso com uma vizinha e o reencontro com um ex-cunhado instável, o que representa alguma esperança para Nick é  encontrar o irmão (Peter Plaugborg), que tenta cuidar do filho (Gustav Fischer Kjærulf) enquanto lida com o vício em drogas e o envolvimento com o tráfico para conseguir dinheiro. Tudo neste filme de Vinterberg puxa os irmãos para o fundo do poço, resta saber como eles lidam com este trajeto e se algum deles se salvará da danação. A atmosfera densa deixa a morte sempre à espreita dos personagens, no entanto, curiosamente existe alguma esperança que paira sobre a narrativa. Vinterberg fragmenta a narrativa em três eixos para depois costurá-los e apresentar as linhas tortas, mas um tanto circulares nos arcos de seus personagens. Aqui ele pode não demonstrar a mesma genialidade que o fizeram um queridinho por Festa de Família (1998), um dos marcos do movimento Dogma95,  mas o pulso firme com que conduz a narrativa faz a diferença para prender a atenção do espectador e, em alguns momentos, manter a nossa respiração suspensa diante deste drama familiar com ótimos desempenhos de Jakob e Peter. Curiosidade: em 2010 houve outro filme com o mesmo título e totalmente diferente. 

Submarino (Dinamarca - Suécia / 2010) de Thomas Vinterberg com Jakob Cedergren, Peter Plaugborg, Gustav Fischer Kjærulf, Morten Rose, Helene Reingaard Neumann e Patricia Schumann. ☻☻☻

sábado, 30 de maio de 2026

NªTV: Pela Metade

Bell e Gadd: relação pesada. 

Traumatizado diáriw, depois do sucesso estrondoso de Bebê Rena é incrível perceber que o escocês Richard Gadd acertou mais uma vez com uma produção sobre outro relacionamento temperado com com traumas, saúde mental e uma dinâmica tóxica entre os personagens. Em Pela Metade (uma tradução bem menos interessante do que o literal Meio Homem do original) conhecemos Niall (Jamie Bell), que no dia de seu casamento recebe a visita do "irmão" Ruben (Richard Gadd) entre os convidados. Os dois tiveram que conviver devido ao relacionamento de as mães lésbicas, mas a passividade do primeiro se chocou com a agressividade do segundo desde a adolescência (e os atores Mitchell Robertson e Stuart Campbell são fundamentais para estabelecer a intoxicante relação entre os dois). Cada episódio revela um detalhe dos rumos da vida de ambos e paira nas entrelinhas uma tensão sexual latente, que se arrasta (ou os esmaga) ao longo de décadas enquanto tentam organizar suas vidas (e sempre voltam ao mesmo ponto mal resolvido). Lançada pela HBO e finalizada na noite de ontem, a minissérie é sufocante, mas não de um humor nervoso. A dinâmica entre Bell e Gadd (que está completamente diferente de seu sucesso anterior) sustenta a tensão dos episódios de forma assustadora, especialmente quando percebemos que a divisa entre mocinho e vilão são maleáveis. Gadd instaura na cabeça do espectador novamente a questão: "se uma relação é prejudicial, porque insistimos nela?" A respostas não é fácil, já que mexe em questões profundas de nós mesmos que tentamos nem pensar para evitar a desconstrução de como nos enxergamos. Após escrever, atuar e produzir mais um grande acerto, Richard Gadd desperta curiosidade sobre seus futuros projetos. 

Pela Metade (Half Man / Reino Unido - 2026) de Richard Gadd com Jamie Bell, Richard Gadd, Mitchell Robertson, Stuart Campbell, Neve McIntosh, Charlie de Melo, Amy Mason e Anjli Mohindra. ☻☻☻☻

segunda-feira, 25 de maio de 2026

PL►Y: O Dia de Peter Hujar

Ben: figura histórica.
Gravado diáriw, várias obras da cinematografia de Ira Sachs são marcadas por personagens queer (incluindo sua obra-prima O Amor é Estranho/2014) e com este aqui não é diferente. Peter Hujar (1934-1987) foi um importante fotógrafo dos EUA. Nascido em Nova Jersey, Peter foi criado pelos avós imigrantes ucranianos e depois foi viver com a mãe em Nova York. Sensível ao capturar a imagem de seus retratados, sua obra documentou a efervescente cultura underground dos anos 1970 e 1980 em NY até seu falecimento em decorrência da AIDS. Em tempos de cinebiografias que seguem uma cartilha pouco inventiva, Sachs opta por resgatar uma entrevista de Hujar para a amiga jornalista Linda Rosenkrantz que seria parte de um livro que nunca foi publicado. A entrevista tem como objetivo ser um relato de tudo que Peter fez durante um dia de sua vida. O longa não pretende fazer muito mais do que dramatizar a tal entrevista, colocando dois ótimos atores em cena para reproduzir o que foi registrado por Linda. Ben Wishaw  e Rebecca Hall conseguem prender a atenção do espectador que topar a ideia do que seria apenas uma conversa de oitenta minutos. Enquanto Hujar passa a maior parte do tempo relatando o encontro com o desconfiado Allen Ginsberg, entre fatos prosaicos do cotidiano, a dupla consegue transparecer o carinho de um personagem pelo outro. Apesar o formato inusitado, o trabalho de Wishaw evidencia alguns traços da personalidade do biografado, como sua eloquência, sensibilidade, descaso com a alimentação e o olhar sob a profissão. Outro ponto interessante é como a fotografia ressalta a passagem do tempo durante a entrevista. Muita gente irá considerar um filme arrastado e com poucos atrativos, mas vale pelo resgate de um artista que precisa ser lembrado pelo seu legado. 

O Dia de Peter Hujar (Peter Hujar's day / EUA - Alemanha - Reino Unido - Espanha/2025) de Ira Sachs com Ben Wishaw e Rebecca Hall. 

domingo, 24 de maio de 2026

Premiados Festival de Cannes 2026

O premiado de Cannes2026
Acho que ver Cristian Mungiu levar sua segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes (a primeira foi por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias/2007) pegou muita gente de surpresa, especialmente porque outros filmes eram apontados como favoritos ao prêmio e acabaram recebendo outros pelo caminho. No geral consideraram que foi uma seleção mais fraca do que nos últimos anos e as vaias na exibição de dois filmes em competição no último dia só ressaltou a impaciência perante o que era exibido. No entanto, alguns filmes já se firmaram como favoritos para a próxima temporada de prêmios. O polonês "Fatherland" de Paweł Pawlikowski e o espanhol La Bola Negra de Javier Calvo e Javier Ambrossi devem dar o que falar, assim como o estadounidense  "Teenage Sex And Death at Camp Miasma" de Jane Schoenbrun. O mais curioso foi ver o juri presidido por Park Chan-Wook promover um monte de empates entre os premiados. A seguir os filmes premiados no Festival de Cinema mais badalado do mundo:

Palma de Ouro
"Fjord" de  Cristian Mungiu 

Grand Prix
"Minotaur" de Andrey Zvyagintsev

Prêmio do Júri 
"The Dreamed Adventure" de Valeska Grisebach

Melhor Diretor
Javier Calvo e Javier Ambrossi | "La Bola Negra"
Paweł Pawlikowski | "Fatherland"

Melhor Ator
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne | "Coward"

Melhor Atriz
Virginie Efira e Tao Okamoto | "All of a Sudden"

Prêmio Fipresci
"Fjord"

Júri Ecumênico
"Fjord"

Melhor Roteiro
"Notre Salut" 

Queer Palm
"Teenage Sex And Death at Camp Miasma" de Jane Schoenbrun.

Câmera de Ouro
"Ben'imana" de Marie Clémentine Dusabejambo

Prêmio Un Certain Regard
"Everytime" de Sandra Wollner

Prêmio do Júri 
"Elefantes na Névoa" de Abinash Bikram Shah

Prêmio Especial do Júri
"Iron Boy" de Louis Clichy

Melhor Ator
Bradley Fiomona Dembeasset de "Congo Boy"

Melhor Atriz
Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas | "Siempre Soy Tu Animal Materno" 

Palma Dog
Yuri | "La Perra"