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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

FAVORITOS DO CINEMA 2020

Seria ingratidão dizer que no meio de todo o caos que foi 2020 não tivemos bons filmes passando por aí. Esta lista de favoritos tem um gosto especial se levarmos em conta a dificuldade que as produções tiveram para chegar até o espectador. Muitas estreias foram adiadas, algumas chegaram ao streaming e muitas foram agendadas para 2021. Lembrando que esta é uma lista pautada no gosto pessoal, os filmes que aparecem aqui chegaram ao Brasil em 2020 pelos canais oficiais. Em meio à toda loucura que sofremos nestes meses, estas produções ajudaram a passar o tempo durante os dias de isolamento social. Além disso, a busca por sugestões de filmes para assistir em casa fez com que o blog tivesse mais acessos do que em qualquer outro ano. Foram mais de 68 mil acessos desde que retomei os trabalhos por aqui em março deste ano. Esses são os trabalhos que deixaram meu ano cinéfilo mais interessante:

ARTISTA REVELAÇÃ✪

CINEASTA REVELAÇÃ✪

AT✪R COADJUVANTE

ATRIZ C✪ADJUVANTE

ELENC✪

ROTEIR✪

MELH✪R ATRIZ

MELHOR AT✪R

DIREÇÃ✪

FILME DO AN✪

E quais foram os seus favoritos do ano?
Feliz 2021!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

10+ (2 Bônus) Filmes Favoritos do Ano

Ano complicado este para o cinema. Com a pandemia mundial, as salas fecharam e os estúdios ficaram sem saber o que fazer, enquanto isso os serviços de streaming bombaram e ainda que depois de vários meses filmes tenham estreado na tela grande, ainda não se sabe o que acontecerá nos próximos anos. Muita gente que tinha filme agendado para este ano resolveu adiar para a reabertura plena das salas (sabe-se lá quando) e a diversão da maioria dos cinéfilos ficou por conta das possibilidades de ver filmes em casa. Esta é a minha lista de favoritos do ano! Vale dizer que uso como critério para os meus favoritos os filmes que foram disponibilizados no Brasil por canais oficiais ao longo de 2020 e, por conta disso, alguns filmes lançados no ano passado no exterior aparecem por aqui. Como o cinema teve um ano complicado e os filmes ajudaram muito a passar o tempo em nossos dias de isolamento social, eu me dei o direito de escolher doze filmes (um para cada mês do ano deste 2020 enlouquecedor) que estão listados em ordem alfabética:











terça-feira, 29 de dezembro de 2020

FAVORITOS DA TV - 2020

Em um ano tão estranho como 2020, o entretenimento ganhou um patamar ainda mais especial ao nos fazer companhia durante os períodos de isolamento social. Embora muitos de nossos programas favoritos tenham sido adiados por conta do Covid-19, houve aqueles que me fizeram companhia e estes são os meus favoritos do que assisti durante esta surpreendente volta em torno do sol:

MELHOR COMÉDIA

ATRIZ DE COMÉDIA

ATOR DE COMÉDIA

ATRIZ COADJUVANTE 

ATOR COADJUVANTE

ATRIZ DE DRAMA

ATOR DE DRAMA

MELHOR DRAMA

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

PL►Y: Sound of Metal - O Som do Silêncio

 
Ahmed: atuação magistral. 

Existe uma grande torcida para que Riz Ahmed consiga um lugar no páreo de melhor ator no Oscar do ano que vem, afinal, já faz um tempo que o ator inglês com raízes paquistanesas demonstra ser um ator interessante. A indicação por sua atuação no Gotham Awards por este Sound of Metal demonstra que ele tem chances de ser reconhecido pela Academia e em outros prêmios da temporada de ouro que se aproxima. Seu único problema é o fato do longa ser distribuído pela Amazon, que tem realizado um trabalho desastroso nas campanhas para seus filmes nos últimos anos. Aqui ele interpreta Ruben, um baterista de heavy-metal que toca junto com a namorada cantora (uma irreconhecível Olivia Cooke). Logo no início Ruben percebe que está perdendo a audição. Ele começa a fazer exames, busca se adequar à nova condição junto a um grupo de pessoas com deficiência auditiva e começa a criar esperanças sobre uma cirurgia que possa fazê-lo ouvir novamente. Nestes momentos, Ruben começa a mudar sua postura diante do mundo e das pessoas, dando à Riz um trabalho tão convincente como comovente. Sua expressão corporal e os grandes olhos expressivos tornam seus sentimentos palpáveis ao espectador. Em estilo cru e sem melodramas, o filme ganha nossa atenção logo nos momentos iniciais com uma atmosfera realista ancorada por um interessantíssimo mapa sonoro. Para além da atuação de Riz que alterna os momentos de negação, raiva, aceitação, esperança, desilusão e muito mais, a direção do estreante em longas de ficção Darius Marder (que assina o roteiro ao lado de Abraham Marder baseado na ideia de Derek Cianfrance) investe em uma narrativa sensorial bastante imersiva para o espectador. Ele ajusta a sonoridade do filme de forma que o espectador consiga ter a exata sensação do protagonista. O som aumenta, diminui, se distorce, mistura, se transforma em ruídos e consegue até nos fazer sentir falta do silêncio (e neste momento que personagem e espectador se conectam com perfeição que temos a sensação exata de que o filme alcançou plenamente seu objetivo). Além de nos fazer sentir toda sensação auditiva do personagem, o filme ainda aborda questões delicadas como a forma como lidamos com as expectativas e a mudança de rumo sobre o que projetamos para nós mesmos. Sound of Metal é facilmente um dos filmes mais interessantes do ano e bem que merecia pelo menos umas quatro indicações ao Oscar, resta ficar na torcida.     

Sound of Metal - O Som do Silêncio (Sound of Metal /Bélgica - EUA / 2020) de Darius Marder com Riz Ahmed, Olivia Cooke, Paul Raci, Mathieu Almaric e Lauren Ridloff. 
☻☻☻☻ 

sábado, 5 de dezembro de 2020

PL►Y: Mank

 
Amanda e Gary: rumo ao Oscar. 

Cidadão Kane é mais do que um clássico do cinema, tornou-se um verdadeiro marco histórico e desde o seu lançamento em 1941 é lembrado em todas as listas de melhores filmes da história (frequentemente ficando em primeiro lugar). No entanto, décadas de história lhe garantiram não apenas méritos, mas várias polêmicas, algumas lendárias como bem lembra este novo filme de David Fincher produzido pela Netflix. Mank é um filme inspirado nos bastidores da celebrada obra de Orson Welles e não se amedronta diante de vender a ideia de que o roteirista  Herman J. Mankiewicz, o Mank para os íntimos, foi uma figura injustiçada pela história. Embora eu compreenda que um filme batizado de Mank parta da leitura de seu personagem principal sobre a história é preciso cautela ao crer em tudo que aparece ali, já que Fincher tem toda a liberdade criativa para contar sua história e Cidadão Kane passou por tantas revisões e alterações que seria difícil imaginar que o roteiro de Herman tenha chegado imaculado à tela do cinema. Se você deixar de lado as discussões em torno do papel de Welles na escrita de Kane, você irá apreciar muito mais o filme. Mankiewicz (interpretado por Gary Oldman) era uma figura conhecida em Hollywood. O dramaturgo foi responsável por fazer ajustes em textos de vários roteiristas ao longo de sua carreira (o caso mais conhecido é de O Mágico de Oz/1939 que é citado várias vezes no filme). No filme, é após um acidente de carro que Mank é convidado para escrever o roteiro para o filme de estreia de Orson Welles (Tom Burke). Ele fica isolado em uma casa, com a ajuda de uma assessora (Monica Gossman) e uma secretária (Lilly Collins) que devem zelar por sua escrita e para que fique longe da bebida durante o trabalho. É neste período que Cidadão Kane ganha forma, muito inspirado pelas lembranças do escritor que aparecem no filme em forma de flashbacks. Quem assistiu ao clássico de 1941 é capaz de identificar várias relações com Mank, o que torna o trabalho de David Fincher ainda mais interessante. É interessante perceber a relação de Marion Davies (uma ótima Amanda Seyfried) e William Randolph Hearst (Charles Dance) com os personagens da obra de Welles, ver onde começa a ficção e onde termina a vida real, da mesma forma, o filme conta como nasceu a ideia de Mank de como um magnata da comunicação é capaz de moldar a percepção que as pessoas tem de mundo diante da credibilidade dos meios de comunicação. Fincher não deixa de enveredar pelo tema atual das Fake News em um outro contexto histórico, com o respaldo de ter nas mãos o roteiro escrito pelo seu pai, Jack Fincher, um jornalista que estudou muito sobre os anos retratados no filme. O cineasta consegue compor uma rede de acontecimentos hollywoodianos e políticos que se integram com bastante elegância, indo e vindo no tempo numa narrativa calcada nos padrões cinematográficos daquele tempo. Trilha sonora, fotografia, a dicção dos atores, tudo parece ter sido moldado em outro tempo (até as "queimaduras de cigarro" no canto direito aparecem - e nas mãos do diretor de Clube da Luta/1999 ganha um sabor ainda mais especial). O texto de Jack Fincher esperou mais de duas décadas para chegar às telas e embora possa soar datado sobre as discussões em torno da autoria de Orson Welles no texto de sua obra-prima, mostra-se um exercício cinematográfico interessante, embora esteja muito longe do tom que tornou David Fincher célebre. Famoso por suas minúcias nas filmagens, aqui ele faz aquele trabalho digno de cair nas graças do Oscar, mas não consegue disfarçar aquela sensação de que "aprendi a lição" para agradar os votantes da Academia. Gary Oldman também deve ser lembrado na categoria de melhor ator e Amanda Seyfried no páreo de atriz coadjuvante, também acho que Mank será o peso pesado na categoria de Melhor Filme (e considero seu maior concorrente Nomadland da Chloe Zhao) e fará bonito nas categorias técnicas. Para os brasileiros, Mank é o filme que abre de vez a corrida pelo Oscar neste ano atípico. 

Mank (EUA-2020) de David Fincher com Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collings, Charles Dance, Joseph Cross, Arliss Howard e Toby Leonard Moore. ☻☻☻☻

domingo, 1 de novembro de 2020

PL►Y: O Que Ficou Para Trás

 
Sope e Wunmi: refugiados com fantasmas pessoais. 

Bol (Sope Dirisu) e Rial (Wunmi Mosaku) formam um casal cansado da devastação da guerra no Sudão do Sul e resolvem fugir para a Inglaterra, mas conforme as cenas iniciais apresentam, a perda da pequena Nyagak (Malaika Wakoli-Abigaba) ainda paira sobre eles. Embora sejam aceitos no novo país, fica bem claro que ainda não são cidadãos, mas refugiados e, portanto, possuem restrições naquele território. Receberão um auxílio de 76 libras, não podem exercer qualquer atividade remunerada, serão acompanhados com visitas semanais por assistentes sociais e encaminhados para uma casa. A casa é grande para os dois e a vizinhança não é das mais simpáticas. A ideia de que estão deslocados não desanima Bol, que acredita que a vida deles irá melhorar e lhe enche de esperança para reconstruir a família por ali. Já Rial é menos otimista. Percebendo que são vistos como "pessoas exóticas de outro país e hostilizada por adolescentes das redondezas, seu olhar sobre viver em outro país não parece ser repleto de sonhos, mas de uma outra dura realidade. Assombrados por toda a história que viveram, logo estranhos barulhos na casa e visões esquisitas começam a aparecer, revelando que talvez exista mais alguém naquela casa, seja deste mundo ou do outro. O diretor Remi Weekes faz aqui sua bela estreia no cinema. Ele constrói uma bela trama de terror psicológico, sobrepondo os horrores da guerra com seus fantasmas e o medo de estar num país desconhecido. Weekes é tão seguro que nem faz sensacionalismo com um segredo que o casal carrega (embora esteja sugerido deste o início) e os preenche de certa culpa personificada no horror que trouxeram para aquela casa. Esta culpa, misturada com a ideia de estar fora do lugar de origem e a incompreensão dos demais perante sua realidade faz de O Que Ficou Para Trás um filme que costura drama e terror com bastante eficiência, especialmente na forma como constrói cenas assustadoras através de detalhes que funcionam muito bem. O filme só escorrega um pouquinho no final, quando se torna bastante parecido com a maioria das fitas de terror que tem por aí. O rosto mais famoso do elenco é Matt Smith (das séries Doctor Who e The Crown), mas sua participação é pequena, o destaque fica para o casal principal, especialmente para Wunmi Mosaku que é o grande destaque em cena. A atriz que já trabalhou na série Luther e na recente Lovecraft Country tem um trabalho digno de prêmios nesta atuação. Seus olhos  brilhantes falam mais que mil palavras e vejo que seu trabalho que maximiza o grande fantasma que paira sobre aquele casal.  Elogiado em Sundance e lançado na Netflix sem muita divulgação, O Que Ficou Para Trás merece  nossa atenção. 

O Que Ficou Para Trás (His House / Reino Unido - 2020) de Remi Weekes com Sope Dirisu, Wunmi Mosaku, Matt Smith, Malaika Wakoli-Abigaba e Vivien Bridson. ☻☻☻☻

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

FILMED+: Corpus Christi

Bartosz: atuação desconcertante. 
 
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, o polonês Corpus Christi surpreendeu muita gente ao figurar na lista de cinco concorrentes. Primeiro que possui elementos polêmicos suficientes para afugentar a Academia, segundo que a ninguém estava muito atento ao filme no período de votação, os distribuidores americanos não tinham muito dinheiro para divulga-lo e então aconteceu um verdadeiro milagre. Nem o diretor Jan Komasa estava atento na divulgação dos indicados e ficou surpreso quando seu celular só lhe perguntava sobre este momento. Ao ver o filme fica claro o motivo para que se destacasse entre os concorrentes, a história é forte e conduzida na medida exata pelo diretor, de forma que suas quase duas horas sobre um rapaz que finge ser padre passam num piscar de olhos. Colabora muito para esta fluência impactante a atuação do impressionante Bartosz Bielenia, o ator que vive Daniel, jovem presidiário que se aproxima do padre que atende os presos locais para atenuar o peso de viver naquele local. Daniel é dado a atos violentos, mas também canta lindamente nas missas e gostaria de mudar de vida ao tornar-se padre, mas desiludido pelo padre Tomasz (Lukasz Simlat) ele parte para prestar serviços na marcenaria de uma cidadezinha do interior polonês. Claro que ao ver-se fora dos olhos vigilantes dos guardas, Daniel se entrega a todos os excessos mundanos, mas ao chegar na cidade uma mentira ganha proporções que fogem ao seu controle. Uma série de acasos faz com que Daniel se transforme no padre daquela paróquia. Seus sermões incomuns são cheios de energia, mas o olhar atento para o que acontece abaixo da superfície lhe trarão problemas, especialmente quando se depara com as dores de uma tragédia que os moradores não sabem lidar. Debaixo da tranquilidade, da juventude silenciada e das orações se esconde um bocado de ódio e intolerância que não consegue ser contornada. Neste ponto que o filme se mostra ainda mais contundente sobre um mundo  que se diz religioso mas que não sabe perdoar - e esta mistura fermenta mais do que se imagina. Enquanto tenta mudar os olhares daqueles moradores, Daniel começa a ter problemas para manter seu segredo e sua situação se complica ainda mais rumo ao desfecho. Ter Bartosz na pele de Daniel é um verdadeiro deleite, seu tipo franzino de olhos vibrantes confere ao personagem uma ambiguidade que funciona em todas as camadas que o filme sugere. Convencendo em seus conflitos entre o bem e o mal, nunca se sabe ao certo o que o rapaz fará para manter seu segredo guardado. Mais afeito aos trabalhos no teatro, Bartosz quase perdeu o papel, já que os produtores preferiam um ator mais conhecido e com um tipo mais inofensivo. Sorte que o diretor insistiu em sua escalação. O rapaz está perfeito! Outro destaque do elenco é Aleksandra Konieczna, que impressiona como a secretária da casa paroquial, que não precisa de palavras para expressar sua dor ou descontentamento. Jan Komasa é um diretor de 29 anos com quatro filmes expressivos no currículo, Komasa demonstra saber captar o espírito de seu tempo, tanto que quase entrou na mira do Oscar novamente com o ótimo Rede de Ódio (2020) que acabou perdendo a indicação da Polônia para Never Gonna Snow Again, de conteúdo bem mais palatável. Em Corpus Christi ele mergulha num fenômeno social de destaque na Polônia: os falsos padres. Ao se deparar com o roteiro, Bartosz acrescentou elementos que tornassem a história ainda mais enfática: revela aos poucos o passado criminal do seu personagem e o peso do luto convertido em vingança que paira sobre a cidade. Com as cores de sua fotografia se tornando mais intensas até a última cena, Corpus Christi é mais do que uma história de busca de redenção, torna-se uma história de renascimento.

Corpus Christi (Boze Cialo / Polônia - França / 2019) de Jan Komasa com Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Romasz Zietek, Barbaara Kursaj e Lukasz Simlat. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FILMED+: Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo

Jessie e Jesse: viagem ao mundo dos pensamentos inseguros. 

Sempre acho engraçado quando a internet é invadida por um bando de vídeos dizendo "final explicado" de determinado filme. Acho que o problema foi eu ter começado a ver filmes de David Lynch na adolescência (e vê-lo repetindo em entrevistas que não explicaria filme algum). O cinema americano tem um compromisso com o realismo que por vezes atrapalha os espectadores que ficam acostumados a histórias com início, meio e fim e quando se deparam com algo que foge desta cartilha costuma classificar o filme como ruim. Embora esteja longe de ser um David Lynch, o que é muito bom, Charlie Kaufman tem explorado em seu cinema esta ousadia de romper com o realismo. No início foi como roteirista de Natureza Quase Humana/2001, Quero Ser John Malkovich/1999 (indicado ao Oscar de roetiro original) e Adaptação/2002 (indicado ao Oscar de roteiro adaptado), filme que quebravam a ideia de que a narrativa deve acontecer somente no plano real. Acabou ganhando um Oscar por seu trabalho em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças/2004 onde um casal resolve apagar o outro da memória através de um tratamento revolucionário. Depois migrou para a direção gerando mais estranhamento do que aplausos em Sinedóque, Nova York (2008) e com a animação inovadora Anomalisa (2016). Agora ele resolve adaptar um roteiro que é um prato cheio pelo apreço ao que se passa dentro da mente humana. Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo é baseado no livro de  Ian Reid e encontrou na Netflix o terreno fértil que precisava para ser produzido.  A premissa é bastante simples: a primeira visita aos pais do namorado no natal. Basta este ponto de partida para que Kaufman viaje na proposta do livro criando um road movie diferente que transcende a estrada para explorar o trajeto na mente dos personagens. Todas as inseguranças, paranoias e conflitos de um relacionamento que está começando aparecem ali, sejam nos diálogos tensos, nos pensamentos ou na chegada à casa de uma família desconhecida de quem, até semanas atrás, era um estranho. Kaufman constrói então uma amálgama incômoda, que mistura o que parecia ser uma comédia romântica com atmosfera de suspense. Quando a protagonista (a ótima Jessie Buckley) chega à casa dos pais do namorado (Jesse Plemons cada vez mais craque em viver tipos estranhos) a coisa se expande em sua percepção sobre aqueles personagens, ora parecem mais jovens, ora mais velhos, por vezes são desagradáveis, simpáticos e até bizarros (ponto para os excelentes trabalhos de David Thewlis e especialmente Toni Collette). Mas a coisa não termina por aí, eles precisam voltar para casa e as paradas pelo caminho só intensificam os pensamentos da moça. Ou não seria nada disso? Já que diante do livro há quem afirme que tudo acontece na mente de outro personagem. Kaufman pode ter mudado o foco do livro, mas isso não impede que se deleite nas possibilidades que a história possui. Muitos vão achar um exagero o que ele faz com aqueles longos diálogos dentro do carro ou com o casal de dançarinos que podem representar o desfecho daquele romance ou naquele discurso do final (que repete os clichês tão criticados pela protagonista dentro do carro). Diante de uma plateia envelhecida por maquiagens caricatas o efeito é propositalmente postiço e estranho. Embora muitos estejam criticando o filme por sua estrutura surreal trata-se de uma obra que espanta a mesmice e resulta (acredite!) no filme menos complicado de seu diretor. Charlie Kaufman faz aqui seu filme mais redondo, embora, para muitos, ele ainda pareça um poliedro quebrado. 

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things/EUA - 2020) de Charlie Kauffman com Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Abby Quinn e Oliver Platt. ☻☻☻☻☻

domingo, 16 de agosto de 2020

PL►Y: Rede de Ódio

Maciej: um rosto por trás das fake news. 

Lançado na Europa pouco antes da pandemia, o polonês Rede de Ódio chegou à Netflix disposto a ser um dos filmes mais falados do ano. A trama é ancorada numa temática bastante atual: a troca da vida real pela vida digital. Em tempos em que a "verdade" é construída pela internet, a proliferação da desinformação e o uso de fake news faz a festa em campanhas de difamação. Embora seja fictício (até certo ponto) aqui você conhecerá um personagem responsável por este "trabalho" que ganhou força no século XXI. Quando o filme começa, o jovem Tomasz (Maciej Musialowski) está prestes a ser expulso da faculdade de Direito por plágio. A faculdade é paga por um casal, pais de Gabi (Vanessa Aleksander), uma garota pelo qual nutre interesse - mas que apenas o rejeita. Sem dinheiro e sem coragem de contar a verdade ao casal, ele tenta arranjar um emprego para conseguir se manter sem estabelecer muito critério. No início ele quer apenas impressionar Gabi, mas a coisa complica.  Na primeira parte acompanhamos como funciona a mente do personagem, a forma como lida com dores e ressentimentos e mais tarde como as transforma em combustível para o trabalho em uma empresa especialista em propagar informações falsas na internet. A ética logo evapora neste ambiente com o objetivo de determinados clientes neutralizarem seus concorrentes. Campanhas bancadas por perfis falsos, notícias mentirosas e um verdadeiro bombardeio de desinformação é capaz de destruir a reputação de qualquer um. Não demora muito para que a política atravesse o caminho de Tomasz e neste instante a situação de torne mais complicada. Na polarização entre dois candidatos a situação sai do controle e a violência começa a se desenhar longo da história. Neste trajeto, o rapaz começa a se expor cada vez mais, realiza atitudes cada vez mais dissimuladas e chega a instigar um personagem instável emocionalmente para promover uma verdadeira atrocidade. O cineasta Jan Komasa (recentemente indicado ao Oscar por Corpus Christi/2019 e que chama cada vez mais atenção desde sua estreia com Sala Samobójców/2011) desenvolve seu filme sem pressa por mais de duas horas e constrói um cenário tão rico quanto assustador sobre um mundo vê nas redes sociais o palco e a janela para enxergar suas intolerâncias e preconceitos. Em Rede de Ódio quem ajuda a ornamentar esta percepção distorcida do mundo é um garoto inescrupuloso interpretado com grande desenvoltura por Maciej Musialowski. Seguro em sua realização e com um último ato devastador (e um tanto revoltante), Rede de Ódio fica na cabeça como um pesadelo cinematográfico sobre o mundo real desenfreado do século XXI. 

Rede de Ódio (Hajten / Polônia - 2020) de Jan Komasa com Maciej Musialowski, Vanessa Aleksander, Danuta Stenka, Jacek Koman, Maciej Stuhr e Piotr Biedron. ☻☻☻☻

terça-feira, 4 de agosto de 2020

FILMED+: Border

Vore e Tina: descobrindo as origens incomuns. 

Sabe aquele tipo de filme que ao assistir você sente que nunca viu algo parecido - e quando termina você não consegue falar muito sobre ele? Foi isso que senti com relação a Border, filme sueco dirigido por um iraniano e que conseguiu uma indicação ao Oscar de melhor maquiagem no ano passado. O filme poderia ter recebido outras indicações ao prêmio mais famoso do cinema, mas acredito que muitos ficaram sem reação diante do que assistiram. A fama do filme já começou quando foi exibido na mostra paralela Un Certain Regard no Festival de Cannes, de onde saiu premiado pela forma madura como mistura gêneros e explora climas com uma segurança absurda para um roteiro que a maioria dos realizadores deixaria cair no ridículo. Nas mãos de Ali Abbasi ele transforma uma história assustadora com elementos fantásticos num misto de romance, filme policial e fantasia. O filme começa nos apresentando a policial Tina (Eva Melander), mulher de características físicas bastante peculiares creditadas à particularidade de seus cromossomos. No entanto, a aparência não é o que há de mais fantástico na personagem, já que com um olfato super desenvolvido, ela é capaz de reconhecer os cheiros das emoções das pessoas, o que ajuda muito em seu trabalho no aeroporto. Ela é capaz de perceber quando a pessoa está com medo, com angústia ou culpa por algo que estão fazendo de errado. Por conta disso, acaba se deparando com uma organização criminosa que terá desdobramentos no decorrer da trama. Um certo dia, ela se depara com um homem muito parecido com ela. Vore (Eero Milonoff) parece sua versão masculina, mas logo ela irá perceber que ele não é exatamente o que parece e, diante da identificação imediata que acontece entre os dois, Tina começará a pensar um pouco mais sobre seus gostos, origens e até identidade de gênero. Nasce daquele encontro um romance incomum sobre dois personagens que se descobrem mais do que almas gêmeas, mas realmente semelhantes. A forma como roteiro, os atores e o diretor constroem esta descoberta é bastante envolvente e se desenvolve de forma desconcertante ao longo da história, com segredos e acontecimentos que deixam a plateia tão perplexa quanto a protagonista. A forma como a história insere elementos de mitologia nórdica na história é impressionante e convincente na construção de um filme único, que promove o encontro entre o que há de mais asqueroso no mundo real com outro até então restrito à fantasia. Com muitas paisagens naturais e uma variedade de temas bastante rica, o filme é ainda mais valorizado pelos trabalhos excepcionais de Eva Melander e Eero Milonoff que sustentam uma história que flerta a todo instante com o absurdo sem cair no ridículo. Lançado em DVD por aqui no finalzinho de 2019, Border é um dos filmes mais originais que assisti neste ano e merece ser descoberto. 

Border (Gräns / Suécia - 2019) de Ali Abbasi com Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson, Ann Petrén e Andreas Kundler. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 3 de julho de 2020

PL►Y: A Despedida

Awkwafina (ao centro): humor e drama na medida certa. 

A Despedida é um daqueles filmes independentes bem modestos em orçamento. Despretensioso,  mistura comédia e drama de forma quase descompromissada e conquista justamente por isso - além de misturar em sua dois pontos que causam uma identificação quase imediata na plateia: família e morte. No entanto, esqueça os dramas pesadões, chorosos e melodramáticos, o tom aqui é outro: espirituoso, bem humorado e sutil, A Despedida remete diretamente ao cinema oriental (especialmente às obras do taiwanês Ang Lee antes de ir para Hollywood) mas com a personalidade da diretora Lulu Wang. Nascida em Pequim, seu primeiro longa metragem (Póstumo/2014) não chamou atenção, mas aqui ela parte para um projeto que transpira sua subjetividade (e de fato, ela se inspirou em um fato da própria família). O ponto de partida é a descoberta que Nai Nai (Shuzhen Zao), a avó da família, irá morrer. Ciente de que resta poucos meses de vida para Nai Nai, os parentes mais próximos decidem não contar para ela o que está por vir e aproveitam o namoro recente do neto para criar uma festa de casamento que reunirá todos os familiares - assim, terão a chance de se  "despedir" todos juntos sem que ela descubra. Vivendo na China e com parentes espalhados pelo mundo, o protagonismo da história recai sobre sua neta, Billi (Awkwafina), que considera um absurdo não contar para a avó o que está acontecendo -  e, por isso mesmo, seus pais não julgam uma boa ideia ela ir ao tal casamento. Levada aos Estados Unidos quando era pequena, Billi contraria a opinião de todos e vai até a China, neste ponto, o trabalho de Awkwafina é fascinante ao oscilar nas emoções da personagem. Ela começa alegre, seu olhar entristece e, por mais que o reencontro com Nai Nai lhe proporcione momentos felizes, em momento algum a atriz nos faz esquecer a inevitabilidade do que acontecerá nos próximos meses. O roteiro (também assinado por Wang) é sensível na medida certa e evita compor uma família de estereótipos - é verdade que não são todos que recebem profundidade, mas cada um possui momentos em que percebemos suas personalidades (mesmo o noivo e a noiva que quase não falam cientes da conspiração em que se meteram). Para além da esfera emocional familiar, o filme se enriquece ao abordar questões sobre origens e choques culturais que parecem inevitáveis. Embora amparada por bons coadjuvantes, a espinha dorsal do filme é a atuação de Awkwafina. A atriz (e rapper) já havia chamado atenção em 8 Mulheres e Um Segredo (2018) e roubado a cena no insosso Podres de Ricos (2018), mas aqui ela tem a chance de ser mais do que ser o alívio cômico da história. Pelo trabalho ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia e bem que merecia ter uma vaga no Oscar deste ano, assim como a doce Shuzen Zhao (e o filme bem que merecia outras indicações). Celebrado no Independent Spirit como melhor filme de 2019, A Despedida é uma verdadeiro tesouro a ser descoberto. 

A Despedida (The Farewell / EUA - China /2019) de Lulu Wang com Awkwafina, Shuzhen Zhao, X Mayo, Hong Lu, Hong Lin, Tzi Ma e Diana Lin. ☻☻☻☻

terça-feira, 28 de abril de 2020

FILMED+: Má Educação

Jackman e Jeanney: frágil fachada. 

Diante a pandemia mundial do Corona Vírus, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos fez uma revisão de seus critérios para que os filmes sejam candidatos ao Oscar. Sendo assim, filmes que tinham previsão de lançamento nas telonas e foram direto para os serviços de streaming devido ao fechamento dos cinemas se tornaram candidatos em potencial para as estatuetas. Infelizmente este critério deixa de fora este Má Educação, que foi comprado pela HBO após sua exibição no Festival de Toronto. Sem pretensão de chegar às telonas, Má Educação é um belo filme que não faria feio entre os melhores do cinema neste ano conturbado. Este é o segundo filme de Cory Finley, jovem cineasta que estreou nos cinemas americanos com o maldoso Puro Sangue (2018), que fez sucesso no circuito independente, concorreu ao prêmio de Melhor Roteiro no Independent Spirit e que praticamente ninguém viu. Provavelmente a venda para um canal com o prestígio da HBO ocorreu para que seu segundo trabalho tivesse maior audiência, lhe dar maior visibilidade e amparar seus novos projetos. O fato é que Cory é muito bom mesmo! Tanto que conseguiu um astro do porte de Hugh Jackman e da oscarizada Allisson Janney para os papéis principais deste filme. Se em seu primeiro trabalho ele buscava equilibrar humor com uma trama sinistra sobre  duas adolescentes malévolas, aqui ele utiliza o humor para contar uma história verdadeira que consegue ser assustadora. A trama tem como cenário principal uma escola pública que se torna referência em sua região. Com altos índices de aprovação nas melhores universidades dos Estados Unidos, a Roslyn School em Nova York é fruto de muito trabalho de seus administradores e do corpo docente. Os maiores méritos parecem ser do superintendente Frank Tassone (Hugh Jackman), que está sempre atento ao que pode fazer para melhorar a escola. Ele trabalha ao lado de Pam Gluckin (Allisson Jeanney) que cuida das finanças da escola e está prestes a implementar uma obra ambiciosa. A coisa começa a complicar quando a jovem Rachel (Geraldine Viswanathan) começa a fazer uma matéria para o jornal da escola sobre a tal obra e algumas suspeitas começam a aparecer. Não demora muito para que a escola se envolva em um verdadeiro escândalo financeiro com mais gente envolvida do que qualquer um poderia imaginar. Com isso, começam a surgir alguns segredos que só colaboram para construir um painel interessantíssimo sobre um mundo de aparências que custa muito caro aos personagens (e aqui eu não falo só de dinheiro sob a ótica do roteiro muitíssimo bem amarrado de Mike Makowsky, que antes só escrevera outro filme inédito por aqui, Eu Acho que Estamos Sozinhos/2018 com Peter Dinklage e Elle Fanning). Cory Finley já havia trabalhado com a ideia desta fachada admirada em seu filme anterior, mas deixava o espectador seguro no distanciamento que estabelecia com aqueles personagens, aqui a coisa se mistura e o resultado é ainda mais envolvente. Embora você considere as atitudes daqueles personagens bastante condenáveis, eu senti compaixão daquelas pessoas que se perderam cada vez mais em suas ambições mais materialistas. Acho que não precisa dizer que Jeanney e Jackman estão sensacionais em todas as cenas e desenvolvem personalidades bastante complexas para Pam e Frank, não duvido que sejam indicados e até premiados no Emmy e no Globo de Ouro. No entanto, mas o maior elogio vai mesmo para Hugh Jackman em mais um esforço para que as pessoas deixem de vê-lo como o Wolverine. Envelhecido, mas com o mesmo charme habitual, é fácil simpatizar com o ator na pele de Tassone, não por acaso, isso intensifica o gosto amargo que vem logo depois.   

Má Educação (Bad Education / EUA -2019) de Cory Finley com Hugh Jackman, Allisson Jeanney, Ray Romano, Annaleigh Ashford, Geraldine Viswanathan, Rafael Casal e Alex Wolff. ☻☻☻☻☻

sábado, 4 de abril de 2020

FILMED+: 1917

MacKay: a guerra imersiva de Sam Mendes. 

Antes da surpresa de ver Parasita (2019) ser premiado nas categorias de melhor filme e melhor diretor no Oscar desse ano, havia a certeza de que a produção que levaria estes dois prêmios para casa seria 1917 de Sam Mendes. O filme ambientado na Primeira Guerra Mundial onde dois soldados precisam levar uma carta para um pelotão que encontra-se afastado (e prestes a encontrar um massacre) parte de uma premissa simples, mesmo levando em conta que o irmão de um dos soldados está no tal pelotão fadado ao fracasso. A diferença toda está no trato que Mendes oferece para esta jornada clássica do herói ao recriar um plano sequência, sem cortes, com a câmera transmitindo a sensação de estarmos ao lado destes dois rapazes o tempo inteiro. A ideia (e Mendes disse várias vezes que o filme tem cortes e emendas a cada sete ou oito minutos) não parece aqui ser apenas uma questão autoral ou de virtuosismo, mas de enriquecer ainda mais a experiência cinematográfica que sente estar realmente ao lado dos personagens em seus medos e emoções. Se em Dunkirk (2017) Christopher Nolan enveredou pelo caminho imersivo com o som ensurdecedor de aviões e bombardeios, mas picotou as narrativas do filme ao limite, Mendes imaginou o oposto com a ausência de cortes perceptíveis. O diretor ainda demonstra toda a sua capacidade de imprimir ritmo com movimentos de câmera e com as boas atuações de seu elenco, neste ponto o destaque vai mesmo para o inglês George MacKay que faz tempo demonstrou ser talentoso (basta vê-lo  em Os Garotos Estão de Volta/2009, no engajado Orgulho e Esperança/2014 ou o recente Capitão Fantástico/2016). Atuando desde os dez anos de idade, George sabe exatamente o que precisa fazer para manter nossos olhos grudados nele, além de conseguir dar densidade a um personagem que não tem muito mais do que uma missão a cumprir. Apesar da carinha de garoto, George já tem 28 anos e bem que merecia ser reconhecido nas premiações pela tarefa de carregar a emoção do filme nas costas. Mendes também capricha e cria cenas belíssimas no decorrer de sua narrativa, desde Além da Linha Vermelha (1998) acho que não houve um filme de guerra tão poético na construção de suas imagens. O filme ainda fez as pazes da academia com Sam Mendes, que foi premiado com estatueta de melhor diretor pela sua estreia no magistral Beleza Americana (1999) e desde então foi ignorado pela Academia. Depois que Mendes fez o melhor filme de James Bond de todos os tempos (Operação Skyfall/2012) parece que os olhos se voltaram para ele novamente - e ele soube aproveitar o momento com mais um filme que une emoção, ação e invejável técnica cinematográfica. O filme pode não ter levado o Oscar de Melhor Filme para casa  (conquistou os de Fotografia, efeitos especiais e mixagem de som), mas conquistou um honroso segundo lugar no imaginário de quem assistiu o Oscar deste ano.  

1917 (EUA - Reino Unido - Canadá / 2019) de Sam Mendes com Goerge MacKay, Dean-Charles Chapman, Daniel Mays, Collin Firth, Andrew Scott, Paul Tinto, Billy Postlethwaite e Benedict Cumberbatch. ☻☻☻☻☻

quinta-feira, 26 de março de 2020

PL►Y: O Poço

Ivan e Zorion: presos na hierarquia da fome. 

Com os cinemas fechados durante a pandemia, era evidente que a atenção se voltaria para os filmes lançados em streaming e em poucos dias o espanhol O Poço se tornou o hit do momento. Alçado a filme mais visto da semana por conta dos vários comentários em redes sociais, a produção é uma grata surpresa por vários fatores. A primeira é que endossa como a Netflix diversificou o acesso do espectador a produções de vários países e, por conta disso, começamos a nos familiarizar com estéticas diferentes das grandes produções americanas. A segunda é um fruto também deste acesso a produções com diferentes pontos de vista na construção de uma narrativa. Embora ensaie uma explicaçãozinha aqui e outra ali, O Poço está bem longe de criar uma estética realista, pelo contrário, em sua parte final as conotações surreais são as que ganham mais força. O filme parece abordar um experimento social, uma espécie de  plataforma onde diversas pessoas habitam andares diferentes. Uma vez por dia, uma mesa desce a partir do andar mais alto com um verdadeiro banquete, no entanto, as pessoas que estão nos andares de baixo estão sujeitas a comerem o que as pessoas dos andares de cima deixarem. Ou seja, quanto mais os primeiros andares comerem, menos as pessoas dos andares de baixo terão para comer (são mais de duzentos andares). Vale destacar que as pessoas podem mudar de andar de uma hora para outra, passarem de um onde recebia comida para outro em que apenas restam copos e talheres vazios. Diante da fome, do desespero e um bocado de loucura tudo pode acontecer . Dirigido pelo estreante  Galder Gaztelu-Urrutia, o filme é bastante eficiente nas alegorias que utiliza - e estas caíram como uma luva na histeria coletiva que se espalhou pelo país, especialmente com relação às compras exageradas que comprometem a vida do outro que chegou depois (eu, por exemplo, faço parte do time que não consegue comprar álcool em gel e tenho somente meio frasco em minha cozinha, assim como tenho que dar conta de uma senhora de 78 anos que não consegue achar insulina com a mesma facilidade de antes). Com estética econômica e bem cuidada, trilha sonora que remete ao que Kronos Quartet fez para (o pesadelo) Réquiem para um Sonho (2000) e um punhado de cenas desagradáveis, o filme é separado em três atos. O primeiro talvez seja o mais bem resolvido ao apresentar aquele universo para o espectador através dos olhos de um novato (Ivan Massagué) diante da naturalização do horror pelo veterano (Zorion Eguileor) que considera tudo óbvio. No ato seguinte o filme recebe o acréscimo de uma atriz que fiquei muito feliz em rever, na pele de alguém que entende aquele mecanismo de outra forma,  a excepcional Antonia San Juan (a Agrado de Tudo Sobre Minha Mãe/1999) apresenta um ponto de vista diferente naquele universo. O terceiro ato foi o que considerei o mais cansativo, embora seja bastante enfático sobre como "uma causa" pode se diluir bastante em posturas que estão longe de serem as corretas e se mostra, por vezes, contraditórias na posturas de quem as defende. Suas ideias podem ser nobres, mas sua postura, nem tanto...  Não faltou gente ressaltando que o filme é uma grande metáfora ao capitalismo e suas classes sociais, na verdade o filme é bem mais do que isso. É sobre pessoas presas em seu egoísmo e a gigantesca dificuldade de criar empatia pelo outro. Obviamente que dentro de um sistema em que estes problemas encontram espaço para se propagar a coisa piora consideravelmente, no entanto, será que as pessoas querem realmente mudar a estrutura a que estão presos? Com esta pergunta O Poço mostra que o fundo está logo ali e, quando chegar nele, sempre se pode cavar mais um pouquinho.

O Poço (El Hoyo / Espanha - 2019) de Galder Gaztelu-Urrutia com Ivan Massagué, Sorion Eguileor, Antonia San Juan, Emilio Buale e Mario Pardo. ☻☻☻☻ 

terça-feira, 24 de março de 2020

Na Tela: Jojo Rabbit

Taika e Roman: amigo imaginário perigoso. 

Faz um tempo que acompanho a carreira do neozelandês Taika Waititi, tempo suficiente para saber que ele tem uma ideias muito estranhas, mas que casam com seu senso de humor ácido e sem firulas. Quando descobri que depois de ganhar fama mundial com Thor Ragnarok (2017) o novo projeto de Waititi era levar para as telas uma história sobre um garotinho que tem como amigo imaginário Adolf Hitler... juro que pensei que ele havia surtado de vez. Todo mundo deve ter dito isso para ele. Com o roteiro pronto e embaixo do braço, foi difícil conseguir dinheiro para bancar a produção, assim como convencer o elenco a entrar nesta sandice. Embora o mundo hoje esteja vivendo um clima extremista polarizado assustador, o livro que inspirou o filme foi lançado em 2004 e somente uma mente como de Taika poderia imaginar um longa baseado nele para lançar em tempos perigosos. Obviamente que polêmicas em torno do filme não faltam, mas penso que ele foi concebido para ser do jeito que é, incluindo suas provocações. A começar que o Hitler do filme (vivido pelo próprio diretor de origem judaica) não é aquele que conhecemos nos livros de História, mas uma fantasia criada por um menino que sonha em ser um pequeno soldado nazista. Se você considera isso ridículo, basta lembrar de quem idolatra líderes que vivem dizendo sandices por aí com um bando de gente para dar razão ainda. O amigo imaginário do pequeno Jojo pelo menos é feito de forma quase Chapliana por Taika, mas as falas hediondas estão todas ali e, por incrível que pareça, a postura de muitos seguidores na Alemanha da Segunda Guerra Mundial não era diferente do que se vê no filme. É verdade que aqui o apelo cômico está presente através do exagero caricatural, mas que só ressalta o que já foi real. Não podemos esquecer que Hitler não chegou ao poder sozinho e se conseguiu fazer o que fez foi por conta dos fieis seguidores que abraçaram suas ideias questionáveis. Jojo (o ótimo estreante Roman Griffin Davis) é um deles, assim como seu amigo irresistível Yorki (Archie Yates), como freio para as ambições do desastrado Jojo está sua mãe (Scarlett Johansson indicada ao Oscar de coadjuvante), que sabe o filho que tem e, mesmo assim, abriga uma menina judia (Thomasin McKenzie) em segredo enquanto os campos de concentração já existem. É nesta relação entre Jojo e a menina que o discurso em que o menino acredita se desmonta aos poucos. Esta relação já foi vista sob outro prisma em O Menino do Pijama Listrado (2008) e aqui o resultado chega ao mesmo objetivo por caminhos diferentes. Houve gente que reclamou que o filme enquanto comédia "incomoda" - como se isso fosse um defeito, a intenção de Waititi é esta mesma, basta ver a origem da comédia clássica para perceber que o objetivo é este: desmontar o espectador pelo riso para tocar em assuntos sérios minutos depois.  Assistir Jojo Rabbit é perceber um diretor ousando tocar num vespeiro e buscar o equilíbrio o tempo inteiro com o que tem em mãos. Não é uma tarefa fácil e só ajuda o espectador a ficar apreensivo com o que vê na tela. Se nem o Oscar de roteiro adaptado te motiva a ver o filme, vá assistir pelo excelente trabalho de Roman e Archie, os meninos são espetaculares e valem o ingresso!

Jojo Rabbit (Nova Zelândia / EUA / República Tcheca - 2019) de Taika Waititi com Roman Griffin Davis, Taika Waititi, Scarlett Johansson, Archie Yates, Thomasin McKenzie, Sam Rockwell, Rebel Wilson e Stephen Merchant. ☻☻☻☻