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domingo, 1 de maio de 2022

PL►Y: A Crônica Francesa

Tilda, Owen e a trupe de Wes: apenas bonitinho. 

Previsto para ser exibido no Festival de Cannes de 2020, o último filme de Wes Anderson teve que lidar com adiamentos e o crescimento da expectativa do público durante a pandemia até que entrasse em cartaz em 2021. Ser esnobado nas grandes premiações deixou claro que o filme não obteve o apelo que desejava, nem de público, nem de crítica. Seria até redundante elogiar toda a famosa estética do diretor mais uma vez. Seu gosto pelos tons pastéis, detalhes de cenário, simetria e figurinos permanecem intactos. Faltou apenas criar uma história que envolvesse a plateia que assiste tudo que surge na tela com um incômodo distanciamento. É verdade que o diretor ousa ao construir seu roteiro como se estivesse apresentando uma revista e seus autores, mas o conjunto de histórias costuradas parece mais um conjunto de curtas colados com a participação do Bill Murray, que interpreta o editor da publicação que dá título ao filme. Wes declara seu amor ao jornalismo contando a história de uma revista que nasceu no Kansas e se mudou para Enui, na França, mas que agora sofre com a morte de seu editor. Perante seu último desejo no testamento, a equipe da revista prepara sua edição de despedida. O filme é composto por cinco crônicas escritas por seus jornalistas, mas que são capazes de despertar emoções distintas no espectador. Na primeira, Herbsaint Sazerac (Owen Wilson) apresenta a cidade de Enui e as mudanças que sofreu nos últimos 250 anos (um deleite para quem curte o design de produção dos filmes do diretor), na terceira conhecemos a história de um artista (Benicio Del Toro) que está internado em um sanatório e faz de uma enfermeira (Léa Seydoux) sua grande musa, tudo contado com a narrativa inspirada de Tilda Swinton. Na terceira conhecemos um estudante (Timothée Chalamet) envolvido com o movimento estudantil dos anos 1960 e que se envolve com a jornalista vivida por Frances McDormand. Por último, um jornalista (Jeffrey Wright) conta o confuso sequestro do filho de um comissário. A irregularidade dos contos que surgem na tela comprometem o ritmo da narrativa e o texto mais truncado da carreira de Wes não ajuda. Quem acompanha os filmes do cineasta  conhece como ele sabe fazer graça da formalidade presente não apenas nos diálogos, como também nas interpretações  de seu elenco, mas aqui o resultado parece satisfatório somente na história do artista apaixonado por sua musa. Ali, o filme encontra o ponto certo entre o humor e a acidez ao contar as ironias das relações de poder e do mundo da arte, sendo original e divertido na medida certa. Quando o filme termina, ficamos com a impressão de ter visto um filme bonitinho, mas não muito mais do que isso. A Crônica Francesa é cheia de ideias, mas nem todas conseguem se conectar e construir uma conexão interessante.  

A Crônica Francesa (The French Dispatch / EUA-Alemanha / 2021) de Wes Anderson com Bill Murray, Owen Wilson, Tilda Swinton, Benicio Del Toro, Léa Seydoux, Jeffrey Wright, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Mathieu Almaric e Bob Balaban. ☻☻

sexta-feira, 27 de julho de 2018

FILMED+: Ilha dos Cachorros

Os cachorros e o menino Atari: o mundo cão da pós-verdade. 

Desde o início de sua carreira no cinema, Wes Anderson nunca conseguiu disfarçar que o estilo de seus filmes carrega fortes referências do cinema de animação. A forma como o visual é concebido, as atuações, figurinos e interpretações em Os Excêntricos Tenenbaums (2001) ou O Grande Hotel Budapeste (2014) tem muita semelhança com o tratamento dado aos bonecos que apareciam na animação O Fantástico Senhor Raposo (2009). Desde que começou a se aventurar pelo gênero, Wes deixou claro que pensa cinema live action e com bonecos da mesma forma. Portanto, a expectativa quando ele começou a trabalhar em Ilha de Cachorros só cresceu até seu recente lançamento. Já em cartaz no Brasil, o filme está em um circuito restrito, especialmente por não ser um filme voltado para a criançada (as piadas ácidas renderam classificação de 13 anos nos EUA), obviamente que as mais crescidas poderão curtir o filme, mas são os adultos que irão se divertir captando as referências que aparecem na tela. Inspirado na cinematografia japonesa, o filme é um verdadeiro deleite para olhos e ouvidos, conciliando o humor peculiar do diretor com um teor político que não lembro de ter percebido em outros filmes de Wes - um dos poucos que conseguiu criar um universo próprio, com fortes cores de fantasias dentro do cinema americano. Vale ressaltar que a história não ocorre no Japão, mas em Megasaki, uma cidade oriental fictícia que existirá no futuro. Um lugar que, como bem explica o epílogo, tem uma longa tradição na relação entre homens e cachorros, no entanto, com o aparecimento de uma gripe canina, os cães foram banidos para uma ilha que antes servia somente para depósito de lixo. Deixados à própria sorte pela política do prefeito Kobaiashy (voz de Konichi Nomura), que ama gatos e odeia cachorros, a ilha é habitada por cães das mais variadas histórias e grupos que lutam por comida e espalham boatos que ninguém sabe direito a origem. É nesta ilha que vive Chief (voz de Bryan Cranston) e seu bando, que tentam lidar de forma democrática com os desafios que aparecem na ilha (hilariante como tudo é resolvido com votações). O cotidiano destes cães muda quando chega à ilha um menino em busca de seu cachorro perdido, Spots. Os cães irão ajuda-lo a encontrar o bicho de estimação enquanto Kobaiashy inventa novas artimanhas para dizimar os bichos da ilha. A trama é simples, mas impressiona pela forma como o diretor a desenvolve com grande apuro visual, sem deixar de criar algumas analogias interessantes sobre a forma como se produz verdades que se propagam pela mídia (mesmo os fatos mais escabrosos aparecem seguidos de elogios no telejornal que aparece na trama). Obviamente que se trata de uma fantasia (estamos falando de um filme com cachorros falantes, oras!), mas que não dispensa um pé na realidade. Este detalhe consegue dar ainda mais substância a um filme que é tecnicamente impecável. A direção de arte é primorosa, a trilha sonora com tambores é bem marcante e o trabalho com os bonecos é sensacional! Enquanto personagens eles tem personalidades marcantes e vozes ainda mais (o elenco vocal do filme impressiona, contando ainda com Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton e muitos outros membros da já famosa patota do diretor). Ilha dos Cachorros é uma delícia de assistir (ainda que algumas pessoas se incomodem de muitos diálogos japoneses não serem traduzidos - para estes eu recomendo ver A Gangue/2014 que é sem legenda e todo em linguagem de sinais), carrega o humor inteligente de seu realizador e se encaixa perfeitamente bem no cenário conturbado de 2018 - sendo um forte concorrente ao próximo Oscar de animação (além de roteiro original e outras categorias se a Academia entender a brincadeira)!

Ilha de Cachorros (Isle of Dogs/EUA-Alemanha - 2018) de Wes Anderson com vozes de Bryan Cranston, Edward Norton, Jeff Goldblum, Bill Murray, Tilda Swinton, Scarlett Johansson, Koyu Rankin, Akira Takayama, Harvey Keitel e F. Murray Abraham. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 22 de julho de 2014

Na Tela: O Grande Hotel Budapeste

Gustave e Zero: um consierge e seu protegido aprendiz. 

O cineasta americano Wes Anderson sempre foi associado a um grupo restrito de fãs que curtem seus filmes de visual e humor bastante peculiares, sendo assim, houve grande surpresa quando O Grande Hotel Budapeste teve sua bilheteria engordando pouco a pouco e se tornando uma das grandes surpresas da bilheteria do primeiro semestre nos cinemas americanos (e o mais rentável do diretor). Ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Berlim (ou Urso de Prata - que corresponde ao segundo lugar da mostra competitiva), o longa metragem repete a maestria do diretor em lidar com seus personagens curiosos e o visual irrepreensível de sempre, no entanto, o longa traz novos elementos à filmografia do diretor, o que pode surpreender alguns. Trata-se da primeira vez que o diretor narra uma história com o pé fincado em fatos históricos, no caso, o período entre guerras vivenciado na Europa. Ambientado em 1932, o protagonista é o lendário consierge M. Gustave (Ralph Fiennes) que zela pela reputação do Hotel Budapeste em Zubrowka, uma república fictícia nos alpes europeus -  mas de perceptível influência soviética no pós-guerra. Antes de auxiliar o lobby boy Zero (Tony Revolori), a tarefa de Gustave é fazer com que tudo aconteça na mais sublime perfeição no Hotel - e isso inclui o atendimento preferencial às ricaças carentes e louras que (dizem) se hospedam no hotel para reencontrá-lo. Uma de suas hóspedes favoritas é Madame D. (Tilda Swinton debaixo de pesada maquiagem e, ainda assim, expressiva), que por um golpe do destino, morre de causas misteriosas. Entre as idas e vindas de um testamento cheio de remendos (e herdeiros), ela deixou para Gustave um quadro de valor inestimável (que ele leva para si sem maiores cerimônias antes do recomendado). Obviamente que tendo em vista o filho de Madame D, o ambicioso Dmitri (Adrien Brody), as coisas não serão fáceis, especialmente com a carranca de seu lacaio sanguinário vivido por Willem Dafoe. É notável como Wes Anderson insere violência e insinuações sexuais num universo que parecíamos conhecer tão bem. Para realizar a tarefa, o diretor utiliza como referência as comédias de Ernst Lubitsch (1892-1947), que utilizava diálogos pomposos para disfarçar o que seus personagens tinham de mais ofensivo, nesse quesito, a fleuma de Ralph Fiennes cai como uma luva num personagem que considera-se elegante, mas que fala palavrões e poderia ser facilmente confundido com um aproveitador de velhinhas ricas. Isso só aumenta o prazer de ver Fiennes degustar um papel desses depois de tanto tempo sendo coadjuvante - geralmente com ares vilanescos. A atuação de Fiennes é excepcional, mas, embora ele seja a alma do filme, seria uma injustiça com o elenco se lhe creditasse toda a graça do filme. Tony Revolori está perfeito como Zero, assim como seu par Saoirse Ronan (como a confeiteira Ágatha) - que juntos  irão ajudar Gustave a fugir das enrascadas em que se meteu. Além do trio de novatos no universo de Wes, o diretor coloca vários de seus atores favoritos em participações mais que especiais Jason Schwartzman, Owen Wilson, Bill Murray, Jeff Goldblum e Edward Norton tem bons momentos em cena. Ciente de que cada cena é capaz de definir um personagem e de que a cenografia faz toda a diferença ao demarcar as bordas de seu universo, Grande Hotel Budapeste tem fôlego para resistir na lembrança para a temporada de prêmios e mostra que, ao investir em novas tonalidades de narrativa, o universo de seu diretor está em ampla expansão criativa.

O Grande Hotel Budapeste (The Great Budapest Hotel/EUA-2014) de Wes Anderson com Ralph Fiennes, Tony Revolori, Adrien Brody, Willem Dafoe, Saoirse Ronan, Tilda Swinton, Jeff Goldblum e Owen Wilson. ☻☻☻☻

domingo, 13 de julho de 2014

FILMED+: Rushmore (Três é Demais)

Max Fischer: os problemas de ser um visionário precoce.

Se você conhece a obra de Wes Anderson e assiste seu primeiro longa metragem (Pura Adranalina/1996, nome sem noção de Bottle Rocket no Brasil) ficará difícil acreditar que trata-se de uma obra do diretor. O humor peculiar está presente, mas o diretor ainda se encontrava, digamos, "no mundo real" que, deixando que apenas alguns momentos permitisse que vissemos os lampejos do universo que criaria depois. Apesar de modesto, Bottle Rocket ganhou no MTV Movie Awards o prêmio de melhor diretor estrante de 1996. Diante desse reconhecimento o diretor viu que valia a pena extrapolar no que sua estreia tinha de melhor (como a cena de Owen Wilson de bicicleta e o assalto deliciosamente atrapalhado) e mostrar do que sua criatividade era capaz. Rushmore (desculpe, mas recuso-me a chamar o filme pelo seu aguado nome em português - Três é Demais) é um deleite! Trata-se do nascimento de um verdadeiro artista. Wes Anderson exibe aqui toda sua percepção de como cada música ou objeto em cena é fundamental para a construção de seus personagens, e por consequência, de sua história. O filme gira em torno de Max Fischer (a famigerada estreia de Jason Schwartzman, sobrinho de Coppola, filho de Talia Shire, primo de Sofia, Roman Coppola e Nicolas Cage), Max é aluno da prestigiada escola Rushmore. Quando o filme nos apresenta o personagem (de óculos e aparelho nos dentes) diante de uma equação matemática cabulosa, o diretor está pregando uma peça no espectador. Max está longe de ser um nerd (ou geek, como gostam de ser chamados), sua relação com a escola é menos presa aos conteúdos e mais com as atividades extra-curriculares. Max coleciona alguns títulos no universo Rushmore ao participar de várias atividades, entre elas é Mestre da equipe de Esgrima, Presidente do Clube de Caligrafia, Segunda Maestro do Coral, Capitão do time de Lacrosse, Vice-Presidente do Clube Filatélico e Numismático, Presidente do Clube de Francês, Editor da Revista Escolar Yankee, Fundador da Sociedade de Astrononomia, participante do Clube de Kung Fu (no qual é faixa amarela), participante da equipe de Decatlo Mirim, Presidente do Clube de Apicultura Rushmore e, o mais expressivo, diretor do Grupo de Teatro Max Fischer, onde realiza as produções mais inimagináveis da história de todas escolas do planeta (incluindo uma polêmica produção de Serpico), no entanto, é uma surpresa que todo esse currículo seja apresentado ao espectador logo depois que o diretor da escola (Brian Cox) anuncia que Max é um dos piores alunos da escola. É visível que, aos quinze anos, a vida de Max é a escola Rushmore. Ali que ele se torna um sujeito talentoso, ilustre e influente, ainda que não seja um tipo muito popular entre todos os alunos, por isso, a ameaça de ser expulso da escola pelo seu baixo rendimento nas disciplinas torna-se um grande problema. No entanto, torna-se um problema menor do que sua paixão por uma professora: Rosemary Cross (Olivia Williams). Por ela, Max construiria até um aquário gigante depois de descobrir que ela é admiradora de Jacques Cousteau. Ainda que Rushmore seja uma escola para ricos, Max está longe de ser um bem nascido. Filho de um barbeiro (que ele sempre diz ser um neurocirurgião), Max chama a atenção do empresário frustrado Herman Blume (Bill Murray), pai de duas amebas que estudam na mesma escola que Fischer. Herman e Max se tornam bons amigos (ou mais do que isso, já que Herman vê em Max tudo que seus filhos jamais serão, nem se comprarem cérebros novos), até que Herman também se apaixona por Rosemary. Apesar do nome brasileiro supervalorizar esse triângulo amoroso, é ele que marca a queda de Max. Da forma como descrevo a história parece um dramalhão sobre o "garoto pobre numa escola de ricos", mas Wes Anderson nos faz o favor de se afastar disso. Rushmore é sobre a mente de um gênio no corpo de um menino de quinze anos, um sujeito tão precoce que precisa aprender a lidar com seu talento para não afastar quem está ao seu redor. Existe um grande equilíbrio de humor e drama no filme, cada diálogo e cena surreal (a cena de Max agredido por crianças no Halloween é hilária, assim como o ataque de abelhas a Herman ou os diálogos assimétricos com Rosemary) colabora para criar a identidade de Max e de Wes como cineasta. A forma como as mudanças na vida de Max (ir para uma escola pública e recomeçar num universo totalmente novo) contribuem para a construção do seu caráter (inclusive na relação com o amigo assistente Dirk Calloway - vivido com precisão por Mason "Dennis, o Pimentinha/1998" Gamble) e de novas perspectivas longe do tom moralista que qualquer diretor poderia imprimir. Rushmore parece um conto sobre ritos de passagem, no caso de Max, o rito é a passagem de um mundo quase fantasioso para a realidade, algo que revela o quanto o personagem tem do diretor. A criatividade de Anderson aqui já se revela uma voz única, que começa a ecoar na "patota cinematográfica" que começou a consolidar. Do filme anterior trouxe o amigo Owen Wilson (que o ajuda nos roteiro) e Luke Wilson, além de encontrar seu ator assinatura (Bill Murray, que ressuscitou a a carreira com sua singela atuação na pele de Herman Blume) e outro cúmplice de peso (Jason Schwartzman, ótimo em cada cena), amigos que sempre aparecem nas obras seguintes do diretor. Não me admiro se num futuro distante, o diretor retomar num projeto futuro os personagens do Grupo de Teatro Max Fischer e cada um deles receber o nome dos membros de sua adorável patotinha (que hoje soma outros agregados do porte de Anjelica Huston, Adrien Brody, Edward Norton, Willem Dafoe, Tilda Swinton...).

Rushmore - Três é Demais (Rushmore/EUA-1998) de Wes Anderson com Jason Schwartzman, Olivia Williams, Bill Murray, Brian Cox, Mason Gamble, Luke Wilson, Seymour Cassell, Stephen McxCole e Connie Nielsen. ☻☻☻☻☻

sábado, 12 de julho de 2014

CATÁLOGO: A Vida Marinha com Steve Zissou

Zissou (Murray): o pior de Wes Anderson. 

Quem acompanha o blog sabe que sou fã do trabalho de Wes Anderson desde que assisti a Os Excêntricos Tenenbaums (2001), seu terceiro filme, que o retirou do gueto do circuito independente. Depois da indicação ao Oscar pelo roteiro original de Tenenbaums (ao lado do amigo Owen Wilson), Anderson gerava uma expectativa absurda para seu novo filme. Esse deve ser o meu maior problema com A Vida Marinha com Steve Zissou. Antes que o filme fosse lançado, assisti Três é Demais (1998) - o segundo filme do diretor - e a expectativa cresceu ainda mais. Some isso aos atores que pertencem à patota de Wes que estava no elenco (Bill Murray, Owen Wilson e Anjelica Huston) e os outros que se jutnaram (Willem Dafoe, Cate Blanchett, Jeff Goldblum e até Seu Jorge!) e você só poderia esperar pelo melhor de um diretor cada vez mais seguro do seu estilo. Quando assisti ao filme fiquei bastante decepcionado. Parecia uma colagem de assuntos dos outros filmes (principalmente em sua abordagem quase obsessiva sobre a figura paterna), só que sem a inspiração sentida neles. A trama gira em torno de Steve Zissou (Murray, muso do diretor), personagem inspirado no explorador marinho Jacques Custeau. Zissou é um cineasta que estuda o fundo do mar e parte na aventura de encontrar o raro Tubarão Jaguar,  uma busca que é quase uma vingança  - já que o tubarão é o responsável pela morte de seu melhor amigo. Zissou ainda vê nessa jornada a chance de revitalizar sua carreira, depois que sua última obra foi um fracasso. No meio do caminho precisa lidar com o assédio de uma jornalista grávida (Cate Blanchett) que quer acompanhar a expedição e de um filho (Owen Wilson) que até então não conhecia. Esses são os elementos do roteiro que se desenvolve conforme Zissou tenta acertar os ponteiros com sua carreira e com o filho ressentido que acaba de conhecer. Com relação à estética não há o que reclamar (repare nos cardumes feitos em stop motion ou a cena final onde todos estão num yellow submarine), mas... ainda que a tripulação de Zissou seja composta por tipos curiosos - que inclui Seu Jorge praticamente sem falas cantando versões em português das músicas de David Bowie (?!) - a história não decola. O humor não consegue encontrar o tom certo, assim como a atuação de Bill Murray que deveria parecer um "gênio incompreendido", mas encarna mais um personagem entediado com a vida. Ao final da sessão, tive a impressão que era um conjunto de ideias nonsense que não foram costuradas como deveriam. Visto hoje percebo que o filme talvez seja uma grande provocação do diretor. Afinal, parte da crítica o acusava de ser superficial na abordagem de suas tramas, abusar da simetria de seus enquadramentos, caricaturar personagens e artificializar situações, bem, se o diretor realmente fazia isso, aqui ele extrapola essas considerações, tornando tudo mais exagerado, mais artificial, mais distante do mundo real. Mesmo incompreendido, A Vida Marinha de Steve Zissou é uma declaração de amor de Wes à sua identidade como autor. O filme simplesmente esfrega na cara do espectador que seus filmes não tem a mínima pretensão de representarem o mundo real, mas um universo muito particular existente na mente do cineasta. Wes fez quase a mesma coisa com Viagem à Darjeeling (2007) para depois adaptar o aclamado O Fantástico Sr. Raposo (2009) - que foi Indicado ao prêmio de Melhor Animação pela Academia e fez às pazes do público e da crítica com Wes. Talvez Raposo tenha feito mais do que isso, fez o mundo perceber que a maneira como o diretor conduz seus filmes live action é bastante semelhante ao que associamos à estética dos desenhos. Em cartaz nos cinemas com o elogiado O Grande Hotel Budapeste (2014) que deve aparecer no Oscar, assim como ocorreu com o anterior (o nostálgico Moonrise Kingdom/2012), Wes Anderson é um desses sujeitos que basta uma cena para percebermos sua assinatura, mesmo que você não goste dela.  

A Vida Marinha com Steve Zissou (Life Aquatic with Steve Zissou/EUA-2004) de Wes Anderson com Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Willem Dafoe, Anjelica Huston e Seu Jorge. ☻☻

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

FILMED+: Moonrise Kingdom

Sam e Suzy: o primeiro amor com a lente do Fantástico Senhor Wes Anderson. 

Tenho uma atração especial pelas obras de Wes Anderson, tem gente que acha seus filmes uma chatice, esquisitos e sem emoção. Bem, eu não me enquadro nesse grupo. Anderson construiu uma filmografia que possui um estilo próprio, com visual arrebatador, atuações contidas em um universo bastante peculiar. Depois de dois filmes irregulares (o chato A Vida Marinha com Steve Zissou/2004 e o melhorzinho Viagem à Darjeeling/2007) ele voltou às origens ao realizar a animação O Fantástico Sr. Raposo (2009) que o fez voltar ao ponto do qual nunca deveria ter saído. É como se ao ter contato com a obra clássica de Roald Dahl ele voltasse ao que fez de Três é Demais/1998 e Os Excêntricos Tennenbaums/2001 as obras tão especiais que se tornaram. Em Moonrise Kingdom o diretor privilegia a forma como os não adultos enxergam o mundo, ampliando o que já aparecia em Três e Tennenbaums. Em 1965 o escoteiro cáqui  Sam (o irresistível Jared Gilman) foge de seu acampamento (liderado por um cômico Edward Norton) criando um grande problema para a tropa, até que eles descobrem que ele fugiu para viver numa ilha com Suzy (Kara Hayard). Ele passa a ser perseguido pela polícia (personificado por Bruce Willis)  e  escoteiros, enquanto Suzy causa preocuapação em seus pais psicólogos (Frances McDormand e Bill Murray). O roteiro (escrito por Anderson e Roman Coppola) explora os inusitados desdobramentos dessa situação, sem nunca perder a ingenuidade de seus personagens - não por acaso o filme acontece pouco antes da Guerra do Vietnã e, talvez por isso, Wes trate seus escoteiros como os soldados mais bem intencionados do mundo quando descobrem as punições que Sam irá sofrer após sua aventura amorosa (que envolve até uma funcionária do Serviço Social vivida por Tilda Swinton, já que descobrem que o garoto é adotado). Em sua trama, Anderson trata escoteiros como se fossem do exército (a cena do dilúvio é o ápice da maluquice) e seus dois protagonistas como se fossem Romeu e Julieta em miniatura (a cena em que Bill Murray os surpreende na barraca é antológica), no entanto, todo senso de humor fala muito sobre os adultos da plateia ao nos fazer pensar sobre onde foi que perdemos a sensação de que o primeiro amor nos tornava invencíveis e habitantes de um mundo diferente. É curioso como Anderson borra as fronteiras entre o comportamento infanto-juvenil e o adulto de uma forma bastante peculiar - e espero que continue investindo nisso com a mesma desenvoltura apresentada aqui. Selecionado para abrir o Festival de Cannes e indicado ao Globo de Ouro de melhor comédia do ano, Moonrise Kingdon deve aparecer em várias listas de melhores do ano e é merecido! Wes Anderson comprova aqui que se sai muito melhor quando tem uma trama ultraviajante nas mãos, além disso ele conseguiu agregados que tornaram a sua patota cinematográfica ainda mais interessante (McDormand, Swinton, Norton, Willis, Harvey Keitel, todos aparecem totalmente a vontade no universo do diretor) e ainda tem aquela estética que já é notória na carreira do cineasta. Vendo Moonrise Kingdom eu lembrei das brincadeiras malucas que eu criava com meus amigos quando era criança - e esta sensação é o máximo que eu posso esperar de um filme como esse. 

Moonrise Kingdom (EUA/2012) de Wes Anderson com Jared Gilman, Kara Hayard, Edward Norton, Bruce Willis, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton e Harvey Keitel. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CATÁLOGO: Viagem à Darjeeling


Os manos em Darjeeling: road movie familiar. 

Que tipo de diretor coloca seu ator favorito correndo atrás de um trem somente para perdê-lo e não participar do filme? O tipo Wes Anderson. Essa é a primeira piada auto-referencial que aparece em Viagem à Darjeeling, o quinto longa metragem do cineasta. Além do estilo próprio, o diretor ainda tem uma série de manias que os críticos sempre reparam. Um deles é a fixação com a figura paterna, que aqui ele parece deixar de lado para explorar mais a relação de três irmãos em busca da mãe que resolveu ser missionária na Índia. Mera ilusão, já que um dos motivos para procurarem a progenitora é encontrar uma justificativa para ela não ter aparecido no funeral do marido - isso sem falar que no caminho sempre retomam a velha temática de quem era o filho favorito. Lançado depois do criticado A Vida Marinha com Steve Sizou (2004), Darjeeling foi elogiado pela crítica, embora esteja longe de ser o melhor momento do cineasta. Embora tenha alguns momentos divertidos e interessantes, existem tantos outros em que o diretor parece perdido em ditar os rumos de seus personagens - que são apresentados com tanta empatia que até perdoamos esse deslize. Francis (Owen Wilson) sofreu um acidente e considera que o fato de ter sobrevivido foi uma espécie de oportunidade para melhorar seu relacionamento familiar. Em busca de uma espiritualidade que até então desconhecia, convida seus dois irmãos, Jack (Jason Schwartzman) e Peter (Adrien Brody) para uma viagem pela Índia. A jornada em busca de crescimento espiritual serve mesmo é para que se aproximem e compartilhem suas intimidades. É assim que Francis descobre que Peter tenta lidar com o fantasma da paternidade mesmo distante da esposa grávida e com o fato de Jack não conseguir lidar com o fim de seu namoro (conferindo sempre os recados da secretária eletrônica de sua ex). Obviamente que a Índia mostrada por Wes Anderson é mais fantasiosa do que realista, de forma que o primeiro terço do filme passa quase que exclusivamente de um trem colorido que atravessa paisagens áridas, nele os três irmãos se metem em confusões até serem expulsos. Depois quando a fraternidade está em frangalhos acabam se envolvendo no resgate de três meninos vítimas de um acidente e revivem um momento crucial de suas vidas. Depois entram em contato com um rito fúnebre num vilarejo até que se reencontrem com a mãe (Anjelica Huston) que está mais preocupada com um tigre que assombra a região do que em afagar os herdeiros.  Sei que para a maioria da humanidade o humor de Wes Anderson é no máximo esquisito, mas é interessante a forma como explora a personalidade de seus personagens, especialmente de Francis, que mesmo com as melhores intenções mostra-se um grande chato, impondo aos irmãos as condições que considera as ideais para que possam ser mais próximos. Entre os diálogos podemos perceber pérolas como "Se não fossemos irmãos, será que seríamos amigos?" ou "Será que ela [a mãe] quer nos ver?" que evidenciam que debaixo de todo estilo e cores impressas por Anderson podemos perceber mais uma alegoria sobre as relações familiares que tanto lhe fascinam. Embora não esteja entre os meus filmes favoritos de Wes, o cuidado com a trilha sonora (sempre impecável), figurinos e direção de arte trazem a marca identitária do diretor, mas, devo admitir, que aquela sequência final onde a vida de todos os personagens são apresentadas em vagões de trem é simplesmente genial - e supera qualquer irregularidade na narrativa. Na tela e em DVD o filme contou com a exibição prévia do curta Hotel Chevalier que é uma espécie de epílogo para a trama de Darjeeling - e que causou grande repercussão por contar com a participação de Natalie Portman sem roupa e cheia de hematomas. Provando que tem um fã clube devotado, o filme rendeu o dobro de seu custo na arrecadação mundial nas bilheterias.

Viagem à Darjeeling (The Darjeeling Limited/EUA-2007) de Wes Anderson com Owen Wilson, Jason Schwartzman, Adrien Brody, Anjelica Huston, Bill Murray, Amara Karan e Natalie Portman. ☻☻☻

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

CATÁLOGO: Pura Adrenalina

Owen e Luke: mano a mano na estreia de Wes Anderson. 

É até engraçado imaginar que Wes Anderson estreou na direção com um filme como esse Pura Adrenalina (o nome recebido em terras tupiniquins é um grande mistério, já que não tem grande relação com a história - e todo mundo que conhece a cadência do cinema de Wes Anderson deve estranhar). O filme é baseado num curta metragem dirigido pelo diretor em 1994 sobre dois amigos que pretendem seguir carreira no mundo do crime, Anderson deu uma anabolizada na história e o resultado virou este longa em 1996. O mais bacana é que chamou atenção da crítica, mas o prêmio mais badalado que recebeu foi o MTV Movie Awards de diretor estreante! O diretor ainda não apresentava o alto nível do senso estético de seus filmes posteriores, mas já apresentava o seu gosto por personagens anticonvencionais, alegria melancólica e histórias de temática juvenil. Foi aqui também que o diretor inaugurou sua parceria com Owen Wilson (dois filmes depois eles dividiriam uma indicação ao Oscar pelo roteiro de Os Excêntricos Tennenbaums/2001). Feito na camaradagem, com a ajuda de vários amigos na produção deste longa de cinco milhões de dólares (e rendeu menos de um milhão em bilheteria), o filme conta a história  Digman (Owen Wilson) um aprendiz de ladrão que sonha em se tornar um grande bandido, por isso gasta a maior parte do seu tempo articulando ideias mirabolantes que só podiam sair da mente de quem pensa que roubar é uma arte. Para ajudar nos seus golpes ele convida o amigo Anthony (Luke Wilson, irmão de Owen) que acabou de sair de uma temporada (voluntária) de internação num hospital psiquiátrico. Depois de alguns pequenos golpes eles conhecem Mr. Hernry (James Caan), um malandro que confia a eles um grande assalto à uma fábrica, mas aí começam a aparecer algumas crises no relacionamento dos dois amigos (especialmente quando Anthony parece encontrar a sua cara metade). Para quem conhece o trabalho do cineasta o melhor é encontrar algumas referências sobre o caminho que o cinema de Anderson seguiria. Embora o clima cool dos diálogos pareça apenas um esboço do que ele faria depois, existem cenas em que o diretor ensaia o humor peculiar que se tornaria sua marca registrada (em especial a cena de Digman andando de bicicleta, o apelo dos macacões amarelos e o grande assalto que parece saído de um dos melhores filmes dos Trapalhões). Embora não figure entre os melhores filmes do diretor (não sei se vocês percebem, mas acho que ele não é chegado a armas nem para fazer piada) aqui já podemos perceber que estavamos diante de um artista disposto a enxergar fora dos padrões se arriscando numa trama onde os personagens são desenvolvidos como se fosse uma história em quadrinhos. Podem falar que o filme é uma alegoria sobre as amizade, sobre a alienação juvenil ou até uma paródia dos filmes de Tarantino, o fato é que misturando gêneros e referências o filme chamou atenção de alguns produtores e abriu o caminho para que Wes realizasse o seu primeiro grande sucesso: Rushmore (chamado por aqui de Três é Demais/1998 - será que ele nunca vão acertar nos títulos?), que aprofundava as cores mais interessantes de seu imaginário criativamente delirante.

Pura Adrenalina (EUA-1996) de Wes Anderson com Owen Wilson, Luke Wilson, James Caan, Lumi Cavazos e Andrew Wilson. ☻☻☻

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

FILMED+: Os Excêntricos Tenenbaums

Tenenbaums: o curioso olhar de Wes Anderson numa fábula urbana familiar.
Wes Anderson já havia mostrado inspiração na literatura infantil quando criou seus Tenenbaums, filme do ano 2001 que concorreu ao Oscar de roteiro original (escrito por Wes e o amigo ator Owen Wilson) - mas o filme merecia estar em pelo menos mais umas cinco categorias da premiação. Anderson já possuía outros dois filmes no currículo quando construiu o que muitos consideram sua obra-prima (antes fez seu Rushmore, que devo comentar mais tarde). O filme conta a história de uma família de gênios, tendo como matriarca Etheline Tenenbaum (Anjelica Houston, a musa de Wes) e o trambiqueiro Royal (Gene Hackman, em uma atuação saborosamente inspirada). Os dois possuem filhos, um empresário precoce chamado Chas (vivido por Ben Stiller na idade adulta, acho que Stiller tentou repetir o tom tragicômico em Greenberg e não conseguiu), um tenista promissor chamado Ritchie (vivido por Luke Wilson quando adulto) e a jovem dramaturga Margot (que quando adulta se torna Gwyneth Paltrow em atuação muito bem construída), filha adotiva do clã. Mas nada é convencional nessa trama, já que o roteiro se concentra no momento pós-genialidade, o ponto seguinte ao momento em que tudo sai dos trilhos para essa família e o que era promissor parece frustrante. Com o divórcio de Royal e Etheline somos apresentados, sem dramalhão, aos membros dessa família em seus amores e problemas com muito senso de humor e estilo. Outros personagens animam a sessão como o psicólogo casado com Margot (Bill Murray, o muso do diretor), o namorado de Etheline (vivido por Danny Glover), Eli Cash - o amigo de infância do trio de irmãos (Owen Wilson) - e o fiel escudeiro de Royal, Dusty (Seymour Cassel). Sem pressa e de forma episódica (afinal, as partes são apresentadas como parte de um livro infantil com desenhos e tudo o mais) descobrimos a paixão de Ritchie por Margot, o caso que esta mantêm com Eli (que sempre quis ser genial como seus amigos, ou pelo menos ser parte da família), o plano bobinho de Royal para voltar para a família (ao ponto de usar doces como remédio), a síndrome do pânico de Chas (que assim como seus filhos sempre veste um conjunto vermelho da Adidas) entre outros momentos levados curiosamente por Wes (já viram uma cena de suicídio ser tratada de forma cômica sem ser ofensiva? ou um acidente de avião em que só sobrevive o cachorro?). Wes cuida de toda a moldura em torno de seus personagens com o maior cuidado. Cada peça do cenário, cada roupa, cada música de sua exuberante trilha sonora só serve para reforçar os sentimentos de seus personagens. O melhor de toda a sessão é sentir o carinho com que Wes trata seus personagens transbordar da tela, muitos consideram seu estilo meio frio e travadão,  mas talvez por isso eu o considere tão interessante. Nos silêncios de seus personagens eu consigo depositar minhas sensações e fazer com que um filme que já é bom ser ainda melhor!
Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaum's/EUA-2001) de Wes Anderson, com Gene Hackman, Anjelica Houston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson e Danny Glover. ☻☻☻☻☻

DVD: O Fantástico Sr. Raposo

Sr Raposo e sua turma: belo filme do fabuloso Sr. Wes Anderson.

Engraçado é que antes de cometer Greenberg o nome de Noah Baumbach apareceu nos créditos de um filme deliciosamente espirituoso recomendado para todas as idades. O Fantástico Senhor Raposo, adaptação do saboroso livro de Roald Dahl recebeu até uma indicação ao Oscar de animação no ano passado. Embora Noah não assine a direção do filme seu nome consta na feitura do roteiro ao lado do diretor Wes Anderson. O Fantástico Senhor Raposo foi um dos melhores lançamentos do ano passado e mostrou que a habilidade de Anderson para tocar uma história permanecia intacta, apesar de seus longas anteriores soarem meio mornos. Anderson e Baumbach assinam um roteiro onde suas obsessões estilísticas estão presentes: a família de tipos problemáticos aparece aqui com uma doçura muito mais agradável e verdadeira, talvez por todo o elenco ser formado por bonecos peludos. Sr. Raposo (voz de George Clooney) é um autêntico ladrão de galinhas que tenta ganhar a vida escrevendo crônicas para um jornal. Assim, tenta deixar Dona Raposa (voz de Meryl Streep) satisfeita em pensar que ele aprendeu a controlar seus impulsos mais selvagens, principalmente porque enquanto pai de família (no caso do raposinho com voz de Jason Schwartzman) ele precisa dar o exemplo. As coisas complicam quando se instaura o ciúme com a presença de um sobrinho cheio de habilidades (voz de Owen Wilson) que é convidado a participar das contravenções do tio raposo. O pior é quando as coisas saem do controle e todos os animais da floresta são perseguidos pelos três fazendeiros da região. Claro que a dupla de roteiristas mudou muita coisa (deram contornos mais humanos para os bichinhos do longa e até incrementaram o final), mas conseguiram deixar sua marca durante toda a narrativa – especialmente Anderson que conduz seu elenco como se fosse fortmado por atores de carne e osso (enquanto Baumbach parece acreditar que só os animais tem bondade no coração). A direção de arte é espetacular (como em todos os filmes de Wes Anderson), a trilha sonora é ótima (como em todos os filmes de Wes Anderson) e tem aquele humor ingênuo que nos faz muito bem ver de vez em quando. Curioso notar que Wes e Noah parecem tratar das duas faces de uma mesma moeda: a família. Enquanto o primeiro é espirituoso e carinhoso com as problemáticas desse grupo social, Noah prefere se concentrar no lado mais obscuro de frustrações e ressentimentos desse grupo - sorte que nessa animação essas duas forças se equilibram com perfeição.


O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox/EUA-2009) de Wes Anderson com vozes de George Clooney, Meryl Streep, Jason  Schwartzman, Owen Wilson e Bill Murray. ☻☻☻☻