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sexta-feira, 19 de maio de 2023

PL►Y: Air - A História por Trás do Logo

Affleck, Air Jordan e Damon: ideia de bilhões. 

Depois de uma maré baixa como diretor pode se dizer que Ben Affleck conseguiu voltar a ter reconhecimento com Air. Este é o quinto longa dirigido pelo moço que já chegou ao auge com o Oscar de melhor filme por seu terceiro longa, o celebrado  Argo/2012 - pena que logo depois desagradou com A Lei da Noite/2014, some isso ao naufrágio de sei projeto à frente do novo longa do Batman (apesar de eu gostar muito de sua concepção do homem morcego) e os últimos anos do Affleck diretor não foram fáceis. Foram nove anos até que ele lançasse Air. Apesar da bilheteria pouco acima do valor de custo, o fato de ter sido concebido para o Prime Video fez com que sua arrecadação nos cinemas se tornasse uma vitória para a produtora, além disso serviu para lembrar à Hollywood o quanto Affleck pode ser eficiente atrás das câmeras. Aqui ele se junta ao amigo Matt Damon (vale lembrar que os dois ganharam o Oscar de roteiro original por Gênio Indomável/1997) para contar a história por trás de uma das marcas mais sucedidas na história: o tênis Air Jordan da Nike (e eu escolhi a foto do post de uma matéria do The New Yorker só porque achei melhor do que qualquer foto de divulgação do filme). Alavancado pelo sucesso de Michael Jordan, o tênis se tornou o produto mais rentável da companhia e a colocou definitivamente no mapa em um período em que era uma marca sem muito prestígio no mercado. Gosto da forma como o Affleck localiza a história no tempo e no espaço com recortes históricos ligeiros, mas precisos logo nos minutos iniciais. Basta uma montagem acelerada para vermos o contexto do ano de 1984 (o mesmo recurso também é utilizado para mostrar o futuro, quando Jordan conhece o preço de se tornar uma celebridade). Em Air, Jordan ainda era a promessa da grande estrela do basquete que seria e enquanto outras marcas o desejavam para compor seu grupo de jogadores propaganda, foi o marketeiro da Sonny Vaccaro (Matt Damon) que viu no jovem jogador a potência do que ele seria. No entanto, sua ideia era mais do que usá-lo em propagandas, mas desenvolver um tênis que inspirado no atleta, para isso conta com a preciosa ajuda do designer Peter Moore (vivido com gosto por Matthew Maher, mas pena que ele aparece pouco). Porém, nem tudo foi fácil, demorou para convencer o chefe (Ben Affleck) de que a ideia era rentável, tinha que driblar o agente  de Jordan (Chris Messina) e convencer a mãe do atleta  (Viola Davis) de que a ideia era boa o suficiente para seu filho embarcar. Como em Argo, Air tem a narrativa fluente, você nem sente o tempo passar. O roteiro consegue dosar o humor na trama, o que não impede que a fotografia e toda a ambientação seja um tanto fria na criação de uma verdadeira bolha para seus personagens que não aparecem em vidas fora do trabalho. Particularmente senti falta de algo a mais para não vê-lo apenas como uma esperta aula de marketing, mas talvez isso seja um problema comigo, não com o filme. Fica fácil entender o fascínio provocado pelo  filme nos Estados Unidos e, provavelmente, ele receba uma campanha de lembrança nas premiações de fim de ano. 

Air - A História por Trás do Logo (Air / EUA -2023) de Ben Affleck com Matt Damon, Jason Bateman, Ben Affleck, Viola Davis, Chris Messina, Chris Tucker, Jay Mohr e Matthew Maher. ☻☻☻

segunda-feira, 12 de março de 2018

PL►Y: A Lei da Noite

Affleck: tropeço no quarto filme. 

Tentei assistir o quarto filme de Ben Affleck na direção três vezes. Sempre que eu tentava vê-lo eu dormia. Imaginei que o filme dava azar por sempre cruzar o meu caminho quando estava mais cansado que de costume, mas... não é bem assim. Admiro muito o trabalho de Ben atrás das câmeras. Discuti horas com meus amigos quando eles não curtiram a versão que o livro de Dennis Lehanne rendeu em Medo da Verdade (2007), defendi os méritos de Atração Perigosa (2010) emular o clima do cinema policial dos anos 1970 (especialmente da atmosfera de Sidney Lumet) e achei uma sacanagem o Oscar não indica-lo ao prêmio de direção por Argo (2012). A Lei da Noite é o filme feito por Ben após Argo concorrer a sete Oscars e ganhar três (filme, roteiro adaptado e edição). Talvez por isso o filme Lei da Noite seja tão decepcionante. Um dos méritos de Affleck como cineasta era pegar um gênero que Hollywood já havia se acostumado e dar-lhes uma energia nova, seja na criação de tensão, nas atuações bem costuradas ou até em sua ambientação. Aqui ele parece seguir a cartilha dos filmes de gangster à risca. A fotografia (escura demais), os figurinos, os tipos que passam diante da câmera, tudo parece já ter sido visto antes em vários outros filmes. A história também é um tanto truncada ao contar a vida de Joe Coughlin (Affleck), um filho de policial que passou por más experiências na Primeira Guerra Mundial e volta para Boston. Não bastasse agir como gângster, ele segue passando mafiosos para trás até que quase perde a vida. É então que começa o segundo ato, onde ele vai para Flórida e começa uma nova fase no submundo da Lei Seca dos anos 1920. Ele se envolve com uma imigrante cubana (Zoe Saldana), tropeça em fanatismo religioso e até confusões envolvendo a Ku Kux Klan. São pontas demais para amarrar sem ter um roteiro bem lapidado (baseado em outro livro de Lehanne). O resultado é uma confusão narrativa desengonçada que não casa com a primeira parte do filme - e nem adianta gerar uma cena final para comover a plateia. Embora a câmera de Ben ainda tenha bons momentos (especialmente nas cenas de ação), A Lei da Noite resulta tão pretensioso quanto desengonçado e parte disso se deve ao próprio Ben - não cineasta, mas o ator (que não confere o carisma necessário para envolver a plateia como Joe) e o roteirista (que se enrola em temas que não domina). Fracasso nas bilheterias e rejeitado nas premiações, A Lei da Noite fracassou justamente quando a Warner havia concordado a dar para Ben a direção de The Batman. Decepcionada a Warner voltou atrás - sem falar que no mesmo ano, o irmão de Ben, Casey Affleck, levou o Oscar de melhor ator por Manchester à Beira Mar (2016) e a comparação entre a atuação de ambos entrou em debate novamente. Tropeço artístico e pessoal, A Lei da Noite serve ao cineasta para lembrar que ele não deve brincar de reproduzir o que outros diretores já fizeram. Siga sua própria voz, Ben. Ela é mais forte do que você imagina. 

A Lei da Noite (Live by Night/EUA-2016) de Ben Affleck com Ben Affleck, Sienna Miller, Brendan Gleeson, Chris Messina, Zoe Saldana, Chris Cooper, Elle Fanning e Matthew Maher. ☻☻

sábado, 23 de fevereiro de 2013

CATÁLOGO: Medo da Verdade

Amy, Casey e Michelle: promissora estreia de Ben Affleck na direção. 

Ben Affleck estava numa fase tão ruim que os fãs de Dennis Lehanne tinham calafrios em imaginar o que ele poderia fazer com a adaptação cinematográfica de Gone Baby Gone. Os tempos em que era querido pelos indies por suas parcerias com Kevin Smith estava longe, muito longe. O namoro confuso com Jennifer Lopez também não ajudou - e suas atuações se tornavam cada vez mais canastronas. Quando começou o namoro com Jennifer Garner a vida pessoal parecia voltar aos eixos. Affleck nem parecia que havia recebido o Oscar de roteiro original pela parceria com Matt Damon em Gênio Indomável (1997), estava tão desacreditado por suas atuações claudicantes que sua carreira parecia ir para a gaveta. Ele até ficou otimista quando ganhou o (questionado) prêmio de ator em Veneza por Hollywoodland (2006), chegou a ser indicado ao Globo de Ouro por sua atuação como George Reeves, mas o Oscar achou que não era para tanto. Com algum crédito com o prêmio, ele resolveu encarar seu primeiro trabalho na direção de um longa metragem (antes já havia dirigido em 1993 o curta "I Killed my Lesbian Wife...") e o resultado pegou muita gente de surpresa. No filme, Affleck mostra-se bastante eficiente ao evitar soluções fáceis. Sua estreia tem tem ritmo lento e solene ao abordar o desaparecimento de uma garotinha. No centro da trama estava seu irmão, Casey Affleck, que sempre recebeu bastante simpatia da crítica (e estava no auge com a exibição de O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford em festivais, filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante). Casey é Patrick Kensie, um detetive que é contratado junto com a parceira Angela Gennaro (Michelle Monaghan) para encontrar uma menina de quatro anos que foi sequestrada. Ajudando a polícia nas investigações, Kensie tira proveito do fato de morar na região, no entanto, isso acaba tendo seus prós e contras durante o trabalho - já que seu envolvimento com os moradores coloca em risco seus valores éticos. Durante a investigação nem tudo é o que parece, especialmente quando descobrem que a mãe da garota desaparecida (numa aclamada atuação de Amy Ryan, indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel) é mais problemática do que imaginavam - especialmente pelas dívidas com traficantes. Ryan e Ed Harris - que interpreta o policial que instiga Kensie nas investigações -  roubam fácil a cena, já que Casey Affleck opta por uma atuação internalizada e Michelle Monagahn não tem muito o que fazer em cena. Outro rosto conhecido do elenco é Morgan Freeman, que não empolga mas consegue dar força ao final surpreendente. Ainda que no desenvolvimento dos personagens o diretor Affleck não alcance todas as notas que queria (não sei se é culpa dele ou do roteiro escrito em parceria com Aaron Scotckard), existem momentos que demonstram o quanto Affleck sente-se confortável na direção. O diretor consegue criar mudanças algumas mudanças de tom valiosos na narrativa, contrastando momentos arrastados com momentos de grande tensão (será de propósito?). Além do dilema moral ao final (que deixa o espectador com uma interrogação na cabeça por semanas), o filme tem um corte tão brusco na metade da sessão que a partir dali acompanhamos quase outro filme, mais rico e interessante. Além da explorar diferentes atmosferas em sua estreia, Affleck já demonstrava interesse por personagens complexos e a valorização do seu elenco. No entanto, o filme acabou tendo problemas de distribuição por ter muitas semelhanças com o desaparecimento (ainda insolúvel) da menina Madeline. O filme fez com que Affleck conseguisse mais respeito atrás do que diante das câmeras, notou-se que era um diretor preocupado em desenvolver um estilo próprio com ecos dos filmes policiais da década de 1970 - estilo que aprimorou em Atração Perigosa (2010) e chegou ao auge com o recente Argo (2012). 

Medo da Verdade (Gone Baby Gone/EUA-2007) de Ben Affleck com Casey Affleck, Ed Harris, Amy Ryan e Morgan Freeman. ☻☻☻

FILMED+: Argo

Affleck: diretor esnobado no Oscar, só no Oscar...

Às vezes eu demoro para escrever o comentário sobre um filme (só para você ter ideia, a minha lista de filmes vistos e esperando um comentário ultrapassa, atualmente, dez títulos). Alguns se perdem em algum canto da memória e quando revejo escrevo sobre ele. Outros quando vejo eu preciso de um tempo para digerir até que um texto seja produzido. Também existem aqueles que prefiro dar uma outra olhada para ter certeza que não estou sendo vítima de alguma campanha de marketing. Deve ser por isso que somente agora me sinto preparado para escrever sobre Argo, o terceiro longa de Ben Affleck na direção e um dos mais celebrados do ano. Se você perceber, ele entrou na minha lista de dez melhores filmes de 2012 e quase desbancou Drive ao título de meu favorito entre os lançamentos do ano passado em terras brasileiras. O fato é que nunca duvidei que Ben Affleck houvesse construído um ótimo filme. Desde que apareceu o primeiro lampejo sobre Argo na imprensa, o filme recebeu minha atenção com sua trama inacreditável. É visível como em cada filme Affleck tornava-se cada vez mais seguro ao conduzir a trama enquanto manteve firme sua astúcia para escalação de elenco. Affleck sabe como uma estrela sofre para ser levada a sério e, por isso mesmo, gosta de escalar bons atores que nem sempre tem um vasto fã clube. Mais que eficiente na condução das atuações, Ben sempre garantiu uma vaga para seu elenco entre os favoritos da Academia. Foi assim em sua estreia com Medo da Verdade/2007 (onde a mãe maluquete de Amy Ryan lhe valeu vários prêmios e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante), o feito se repetiu com Atração Perigosa/2010 (que confirmou Jeremy Renner como um ator respeitável - indicado ao prêmio de ator coadjuvante) e agora Alan Arkin como uma raposa de Hollywood sendo indicado ao prêmio de ator coadjuvante. Nem vou comentar que o filme levou para a casa o Prêmio do Sindicato dos Atores de Melhor Elenco, prêmio que acabou ofuscado diante do Globo de Ouro de Melhor Filme e diretor (dobradinha que se repetiu no BAFTA e no prêmio da Crítica Americana). Ben Affleck pode se gabar de criar um dos filmes mais tensos dos últimos anos, com uma narrativa espetacular que mescla drama e humor com uma eficiência raramente vista - auxiliado pela edição absurda de William Goldenberg e um senso estético apurado que recria o final dos anos 1970 e início dos 1980 com precisão. Argo conta a história de uma missão quase suicida de CIA em 1980 para libertar seis funcionários da embaixada americana no Irã depois que esta foi invadida por uma multidão enfurecida. A multidão queria que os EUA devolvesse o exilado xá Reza Pahlevi, que era acusado de cometer crimes contra a população e foi deposto por Aiatolá Khomeine e sua visão conservadora. O filme, obviamente arranha questões políticas, mas deixa essa parte em segundo plano para se dedicar à missão de resgate orquestrada por Tony Mendez (Affleck, num bom momento diante das câmeras). Os seis funcionários fugiram da embaixada do Tio Sam pouco  antes que os manifestantes a invadissem e tomassem cinquenta pessoas como reféns. Os seis funcionários se esconderam na embaixada canadense e era uma questão de tempo para que fossem descobertos. Correndo contra o tempo, Mendez tem a ideia mirabolante de criar um filme de ficção científica a ser filmado no Irã e com locações a serem estudadas. Disfarçado de produtor canadense, Mendez transformaria os "hóspedes" da embaixada canadense em sua equipe de produção e, não fosse esse o plano, os seis teriam que pedalar para fora do país... literalmente! Curioso é como Affleck consegue misturar críticas ao sistema (os altos e baixos da missão devido ao alto escalão do governo americano) e à própria indústria do cinema (com auxílio luxuoso de Alan Arkin e John Goodman que são os consultores para que o filme de ficção científica seja capaz de convencer até mais xiita dos habitantes iranianos). Argo é o nome do filme que serve de disfarce para o resgate, e de fato, seu roteiro existiu nos bastidores de Hollywood (sendo visto como uma cópia descarada de Star Wars), mas nunca saiu do papel. Apesar do humor (que quando parece que vai cair no exagero serve de contraste para alguma cena assustadora), Affleck consegue gerar uma tensão absurda durante o filme e conta com um trabalho de montagem magistral que mescla cenas que, aparentemente, não teriam relação (como a leitura do roteiro estapafúrdio e o telejornal). Sem nunca perder de vista o drama de seus personagens, o filme remete diretamente aos filmes políticos da década de 1970, tanto em sua estética retrô como em seu estilo de narrativa. Indicado a sete Oscars, o filme foi lançado em setembro e manteve sua força para a cerimonia do Oscar que acontece no próximo domingo. Se ganhar será o meu ganhador favorito desde Beleza Americana (1999). Só para terminar, eu queria dizer que sempre achei engraçado as caras que Affleck fazia quando descobria que ganhava um prêmio de Melhor Diretor por Argo, acho que no fundo ele sabe que o que custou sua indicação ao Oscar de diretor foi aquela piadinha do roteiro que compara um diretor a um macaco. Que falta de senso de humor, camaradas...

Argo (EUA-2012) de Ben Affleck com Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Tate Donovan, Clea DuVall, Kyle Chandler, Chris Messina e Scoot McNairy. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 22 de março de 2011

DVD: ATRAÇÃO PERIGOSA

Ben e Jeremy: precisão oposta.

Fiquei tão desconfiado com todos os elogios do novo filme de Ben Affleck na direção que preferi nem vê-lo. Vi todas aquelas expectativas para prêmios ganharem forma, ouvi todas as reclamações quando todas as expectativas se converteram somente na indicação de Jeremy Renner na categoria de coadjuvante no Oscar. Enfim, o filme passou em branco nas premiações mas tem um grupo de seguidores fiéis. Chegando em DVD devo admitir que o filme é realmente competente. De fato é impressionante como Ben Affleck se defende muito melhor atrás da câmera do que diante dela (basta lembrar que o cara tem um Oscar na estante pelo roteiro do supervalorizado Gênio Indomável/1997 - que não é nenhuma Brastemp, mas que colocou ele e o parceiro Matt Damon no mapa hollywoodiano), depois de sua estreia promissora com Medo da Verdade (2007), ele se aprimorou na condução de uma trama densa e que não perde de vista o desenvolvimento dos personagens. Prova de que é um bom diretor é que seus atores costumam ser lembrados nas premiações da temporada de ouro. Se em Medo da Verdade foi Amy Ryan que roubou a cena, desta vez, Renner também não fez feio e as premiações deixaram espaço até espaço para o finado Pete Posthlewaite (que em menos de dez minutos em cena foi lembrado no BAFTA). Como ninguém é perfeito, o Affleck protagonista continua demonstrando suas limitações. No entanto, essa característica até que cai bem ao interpretar o papel de ex-viciado em drogas decepcionado com os rumos da vida e relações. Affleck é o cérebro de um grupo de ladrões de banco - o grupo ainda conta com seu amigo (Renner) que tem grande tendência para perder o controle -, mas o personagem acaba se apaixonando, meio que involuntariamente, pela gerente de uma agência assaltada (a charmosa Rebecca Hall). Affleck desenvolve o relacionamento entre o casal sem pressa, deixando que um revele ao outro que possuem mais coisas em comum do que poderiam imaginar - mas, enquanto isso, prepara a trama para as decisões que terão que tomar rumo ao último ato. Obviamente que sabemos como tudo vai terminar, mas o roteiro (assinado por Affleck, Peter Craig e Aaron Stockhard baseado no livro de Chuck Hogan) se empenha em lidar com as soluções de forma coerente e sem cair no ridículo, sem perder o tom seco impressa pelo diretor. Se o protagonista por vezes parece um cubo de gelo a coisa funciona de forma equilibrada quando tememos cada vez que o personagem de Renner aparece na tela, o cara parece um vulcão prestes a explodir em sua fúria que vem não se sabe de onde. Affleck, o diretor, foi esperto o suficiente para saber que para dar conta de um filme desses precisava de um elenco de primeira e se cercou de atores competentes, capazes de gerar tensão com um olhar, um gesto e conseguir segurar uma narrativa sem frescuras até o fim. Ele demonstra até segurança ao escalar Rebecca (que não é exatamente bela, mas sabe exatamente o que deve ser feito no papel de mocinha) para ser o seu par romântica. Outro destaque é a forma com que Affleck lida mais uma vez com sua cidade natal, a cinzenta Boston é apresentada novamente como um personagem do filme, especialmente o bairro de CharlesTown, que parece ter forte influência sobre seus personagens. Sem ser ofensivo, o amigo de Matt Damon faz mais uma vez uma ode à sua terra e se continuar assim, fará por ela o que Scorsese fez por Nova York. Curiosamente é que depois de bancar o galã de blockbusters meia-boca, Ben se sinta tão a vontade ao lidar conduzir um filme desses que bebe diretamente na fonte de filmes policiais da década de 1970 como os que fizeram a glória de Scorsese e Sidney Lumet. Não estranharei se futuramente o cara se dedicar somente à direção e por esta função ganhar outro careca dourado.

Atração Perigosa (The Town/EUA-2010) de Ben Affleck, com Ben Affleck, Jeremy Renner, Rebecca Hall, Pete Postlewaite, Chris Cooper e Blake Lively. ☻☻☻☻