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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Na Tela: Os Rejeitados

Sessa, Da'Vine e Giamatti: trio em sintonia perfeita.

Paul Hunham (Paul Giamatti) é um professor de história mal humorado que por vezes paga o preço por seu temperamento rígido com os alunos. O preço naquele final de ano de 1970, após reprovar um aluno rico filho de um sujeito influente, foi passar os feriados de final de ano com aqueles estudantes que por um motivo qualquer não puderam passar o recesso natalin com suas famílias. Se no início são cinco pupilos que ficam sob os cuidados de Hunham (e não por acaso, até o nome dele parece um resmungo), o acaso natalino irá deixá-lo somente com um, Angus (o estreante Dominic Sessa), um estudante arredio que tem um histórico escolar complicado (já foi expulso de tantas escolas que esta é sua última chance de se ajustar antes que a mãe o coloque em um colégio militar). Vale lembrar que estamos em pleno período da Guerra do Vietnã e entre as vítimas da guerra está o filho de Mary (Da'vine Joy Randolph), a cozinheira-chefe da escola, que para ocupar o tempo preferiu trabalhar no feriado cozinhando para aqueles deixados para trás por suas famílias.  Este é o trio do novo filme de Alexander Payne, que  tinha escorregado feio em seu filme anterior (Pequena Grande Vida/2017), mas aqui volta aos trilhos com um filme muito bem amparado pelo roteiro de David Hemingson, que desenvolve seus personagens aos pouquinhos através das situações que apresenta, misturando drama e humor na medida exata, conhecemos cada vez mais cada um deles. Se Mary tem uma dor insuportável ainda para filtrar, ela também serve de cola para a relação entre Angus e o professor que descobrem possuir mais coisas em comum do que imaginam. Giamatti, Sessa e Da'Vine estão ótimos em cena e funcionam numa sintonia perfeita conforme seus personagens precisam atravessar a atmosfera das festas de fim de ano com toda a melancolia que suas situações particulares possam despertar. Acho que não vale dizer muito mais do que isso para não estragar a surpresa deste que pode ser visto como um dos filmes natalinos mais bem realizados dos últimos tempos. Não por acaso segue sendo muito elogiado e deve ser lembrado no Oscar que se aproxima. Da'Vine já é considerada favorita na categoria de atriz coadjuvante por seu trabalho como uma mulher que precisa superar o luto para prosseguir, enquanto Giamatti (que trabalhou com Payne em Sideways/2004) tem seu melhor papel em muito tempo na pele de um professor que tem muito mais a oferecer do que rabugice. Se o ator levar o Oscar de melhor ator, o prêmio estará em ótimas mãos. Eu gostaria muito de ver Sessa no páreo de ator coadjuvante, experiente apenas nas aulas de teatro da escola, ele está totalmente a vontade como um jovem em desajuste com o mundo, mas o seu seu maior problema é que ele não parece ter menos de dezoito anos (pelas minhas contas o ator tinha dezenove anos durante as filmagens, mas aparenta ser mais velho), mas sua energia nos faz até relevar este detalhe. É um daqueles jovens atores que desejamos ver seus próximos passos em breve. Feito com uma estética (perfeita) de filme dos anos 1970, Os Rejeitados traz Alexander Payne de volta em grande estilo e muito bem acompanhado por seu elenco. 

Os Rejeitados  (The Holdovers/ EUA -2023) de Alexander Payner com Paul Giamatti, Dominic Sessa, Da'Vine Joy Randolph, Carrie Preston, Brady Hepner, Ian Dolley, Jim Kaplan, Michael Provost e Tate Donovan. ☻☻☻☻


sábado, 17 de março de 2018

Na Tela: Pequena Grande Vida

Damon e Jason: brilhante ideia num filme irregular. 

Com o crescimento da população mundial, os recursos terrestres se tornam cada vez mais escassos, colocando em risco a própria existência da humanidade. Por conta disso um cientista norueguês cria uma das maiores descobertas da história da humanidade: um método capaz de diminuir o ser humano e fazê-lo não apenas ocupar menos espaço, mas também consumir menos por conta de suas necessidade diminutas. Por depender de menos recursos e despesas, os rendimentos de um indivíduo pode lhe garantir uma vida confortável inimaginável anteriormente. Este estilo de vida começa a seduzir cada vez mais as pessoas, assim como o casal Paul (Matt Damon) e Audrey (Kristen Wiig), que começa a pensar ainda mais na ideia quando um casal amigo (vivido por Jason Sudeikis e Maribeth Monroe) aderem ao processo chamado Downsizing. Em busca de uma nova vida, Paul decide se diminuir, mas, logo depois tem uma surpresa desagradável que diminui (também) seu ânimo pela sua nova realidade. Nesta primeira parte, o filme de Alexander Payne consegue ser bastante envolvente ao construir uma realidade fantasiosa, com suas regras próprias e características bastante específicas, mesmo quando começa a abordar como aquela existência de maiores recursos pode ser bastante ilusória frente à felicidade que promete. Paul não fica feliz, pelo contrário, sente-se mais solitário e numa situação ainda mais desconfortável. Payne mergulha aqui num humor surreal que nunca apareceu em seus filmes, embora tenha um humor bastante semelhante aos de seus primeiros trabalhos (os ótimos Ruth em Questão/1996 e Eleição/1999) está infinitamente distante de seus trabalhos mais recentes (como o aclamado Nebraska/2013). Ainda assim, todos os filmes do diretor são unidos por um olhar bastante astuto pelo estilo de vida americano em suas promessas de  enriquecer, ser bem sucedido e rico. O problema de seu novo filme está na segunda parte, quando Paul conhece o outro lado desta realidade em miniatura, repleta de imigrantes, pobreza e pessoas marginalizadas que são diminuídas contra sua vontade por governos autoritários, ou seja, na prática, o mundo não mudou tanto assim. Se trata do outro lado de uma mesma ideia, no entanto, o resultado soa bastante desengonçado e irregular. Pequena Grande Vida parece então ser a mistura de duas abordagens diferentes de um mesmo tema, dois filmes misturados em um só e de costura um tanto apressada. Embora a segunda parte apresente alguns personagens interessantes, como o vizinho espertalhão Dusan Mirkovic (Christopher Waltz) e a imigrante vietnamita Ngoc Lan Tran (Hong Chau, indicada ao Globo de Ouro de atriz coadjuvante), o desenvolvimento deles permanece quase o tempo todo preso à caricatura. A transição do filme do humor absurdo para o tom mais críticos não funciona, soando quase como um pastiche de sátira social bem intencionada. A mudança de tom fica visível na atuação de Matt Damon, que perde a energia gradualmente até o final, onde o inevitável se aproxima. Pequena Grande Vida padece, ironicamente, pela sua grande pretensão, de querer ser dois filmes em um. Talvez fosse melhor ter optado entre ser um ou outro. 

Pequena Grande Vida (Downsizing/EUA-2018) de Alexander Payne com Matt Damon, Kristen Wiig, Hong Chau, Christopher Waltz, Jason Sudeikis, Udo Kier, Rolf Lassgård e James Van Der Beek. ☻☻

sábado, 9 de agosto de 2014

DVD: Nebraska

A família Grant: o passado presente segundo Alexander Payne. 

Pode-se dizer que um diretor amadurece quando começa a ficar sério? Se levarmos em consideração que Alexander Payne estreou fazendo chacota de grupos pró e contra aborto com Ruth em Questão (1996), Nebraska é a prova de que diretor tornou-se maduro. Ironicamente, seu novo filme é estrelado pelo pai (Bruce Dern) da estrela que interpretou Ruth (Laura Dern). Faz tempo que o diretor deixou o humor debochado de lado (precisamente com As Confissões de Schmidt/2002) e investiu numa mistura de comédia de costumes com dramas familiares que o tornou figura constantes nas premiações. O espectro de diretor indie permanece, mas agora ele é abraçado pelo mainstream. Essa sensação ficou latente em Os Descendentes (2011) e mesmo em Nebraska, com toda a estranheza que ele possa gerar. Embora Nebraska seja melhor que Os Descendentes, amargou bilheterias modestas apesar de todos os elogios que recebeu pelo mundo. Podem dizer que a culpa é da fotografia em preto e branco emoldurando uma narrativa contemplativa - que, infelizmente, o grande público perdeu o hábito de apreciar. Apesar do tom solene e dramático, há muito para rir no humor gerado pelo diretor. Bruce Dern (indicado ao Oscar) interpreta o distante Woody Grant, um senhor que acredita ter recebido um prêmio de um milhão de dólares e precisa ir do estado de Montana para Nebraska receber o prêmio. Ainda que o filho, David (o comediante Will Forte surpreendendo fora do Saturday Night Live) o alerte de que aquilo é apenas uma propaganda, Woody é irredutível em sua última chance de ficar milionário. Basta sua crença cega para que vá buscar seu prêmio, na cidade de Lincoln, ao lado do filho atencioso - este a contragosto da mãe, Kate (a inacreditável June Squibb, indicada ao Oscar de coadjuvante) e do irmão Ross (Bob Odenkirk, que também tem uma passagem pelo SNL no currículo). Pelo caminho, os dois irão reencontrar familiares e conhecer ter momentos em que David poderá conhecer um pouco mais da história de seu pai. Embora Woody sempre apareça meio fora do ar - quase sempre sem entender o que dizem para ele (seria o efeito de décadas de bebida alcoólica, efeitos de sua ação na Gerra da Coréia ou do Alzheimer ainda não diagnosticado?), a viagem serve para aproximá-lo do filho, que aos poucos descobre a história do pai. É engraçado que David fica surpreso ao perceber que seus pais tinham uma história antes de casarem e ter filhos. Das conquistas amorosas da juventude, passando pelos parentes oportunistas (que nunca acreditam quando David explica, inúmeras vezes, que não existe prêmio algum), Alexander Payne parece fazer um filme sobre a passagem do tempo. Dos erros, dos acertos, das escolhas, das renúncias que marcaram a vida de seu protagonista. Nesse sentido, a belíssima fotografia em preto e branco contribui bastante para criar esse olhar descolado sobre um tempo que já passou, mas que ainda assim, faz-se presente na trajetória da família Grant. As piadas estão sempre ali (disfarçadas no ritmo quase arrastado) que combina comédia, drama e uma certa poesia - essa sensação é muito forte quando Kate comenta sobre os conhecidos diante das lápides de um cemitério (como se olhasse um álbum de fotografias - e nem sempre ela tem coisas boas a dizer) ou quando visitam a casa em que Woody viveu durante a infância. Mas nenhuma das emoções geradas no espectador se compara ao último ato do filme, quando Woody atravessa a cidade que não costumava o tratar com cortesia e sente-se vitorioso numa realidade que somente ele enxerga. Com o final arrebatador - especialmente pela colaboração de Angela McEwan que vive a ex-namorada de Woody, que o perdeu para Kate. Ainda que possa não ser apreciado por muitos, Nebraska mostra que Alexander Payne não é apenas um ótimo diretor de atores, mas tornou-se um verdadeiro poeta no uso da imagem. 

Nebraska (EUA-2013) de Alexander Payne, com Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Rance Howard e Angela McEwan. ☻☻☻☻

domingo, 3 de junho de 2012

DVD: Os Descendentes

O clã King: dramas tamanho família. 

Definitivamente Alexander Payne não é mais aquele cineasta provocador de antigamente. Ele já dava sinais dessa mudança desde que trabalhou com Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt (2002) e comprovou quando foi premiado no Oscar pelo roteiro adaptado de Sideways (2004). Mesmo assim, somente com Os Descendentes percebi que  Payne mudou de vez. Alguns dirão que ele mostra-se mais maduro ao deixar de lado as gracinhas provocadoras de Ruth em Questão (1996) e Eleição (1999), mesmo assim, precisam me convencer que a maturidade deixou seus filmes mais interessantes. Não que seu filme indicado a cinco Oscars neste ano seja ruim, seria uma injustiça dizer que o filme estrelado por George Clooney não tenha méritos, mas considero parecido demais com um punhado de dramas familiares que já assistimos. Talvez por isso, o filme que era o grande favorito ao Oscar deste ano perdeu força e teve que se contentar com o prêmio de roteiro adaptado (concorreu ainda a filme, direção, ator/Clooney e edição). Matt King (Clooney, num ótimo momento) é um advogado que vive no Hawaii e desde o início deixa claro que não é por morar num cartão postal que sua vida é um paraíso. Após um acidente com a esposa, Matt terá que cuidar da filha caçula (Amara Miller) e ainda dar conta de um empreendimento imobiliário que afeta uma herança que está a gerações em sua família - uma das maiores proprietárias de terras da região. Enquanto tenta convencer os primos de que a venda da área em questão é uma boa ideia, ele tenta melhorar a vida doméstica, tanto que vai buscar a primogênita Alex (Shailene Woodley) e a compreensão dos sogros quando tem uma difícil decisão a tomar. É quando Alex retorna que os dramas de Matt darão uma guinada, já que descobre que a esposa o traia com um morador da região. Enquanto todos se despedem a matriarca da família, Matt e Alex partem em busca desse amante e acabam acertando seus próprios ponteiros numa cumplicidade que é muito bem trabalhada pelo filme. Obviamente que Payne salpica algumas gracinhas nessa jornada, sempre buscando equilibrar o drama que se desenha até o final. A maioria das piadinhas ficam por conta do amigo de Alex, Sid (Nick Krause) que entra como penetra na história e ajuda a aliviar a tristeza quando ela parece inevitável (a cena em que Matt e Sid conversam à noite é uma das mais interessantes do filme). Trata-se de um filme família, bem escrito, com belas paisagens e com uma mensagem sobre perdão que deve agradar o grande público graças ao tratamento simpático que Payne proporciona ao desenhar seus personagens (que se distanciam cada vez mais da caricatura, ganhando carne e osso conforme avança a trama). Existem momentos realmente curiosos, como o encontro de Matt com a família do amante ou a despedida inevitável ao final, mas sinto falta daquele Payne de outros tempos  que sabia mostrar o olhar cortante de cidadãos comuns sobre o mundo que os rodeia. Agora, os cortes de seu cinema são mais fáceis de cicatrizar e acredito que não fosse o seu recente divórcio ele dificilmente teria encontrado o clima impresso neste longa (muitos críticos reclamam da forma como as mulheres são mostradas na trama, mas é um exagero, eu poderia reclamar da forma como os homens são mostrados no roteiro!). Acho que o grande mérito do filme - além das belas paisagens - é a química contruída entre Clooney e Shailene embalada por aquela trilha havaiana que já se tornou um dos mais saborosos lugares comuns do cinema (e nem vou falar da analogia de Sr. King com um determinado bicho para não estragar a doméstica cena final). 

Os Descendentes (The Descendants/EUA-2011) de Alexander Payne com George Clooney, Shailene Woodley, Nick Crause, Robert Foster, Mathew Lillard e Beau Bridges. ☻☻☻

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

CATÁLOGO: Sideways

Oh, Church, Madsen e Giamatti: explorando a vida numa garrafa de vinho.

Se você é um dos que torcem para que Os Descendentes leve para a casa a estatueta de melhor filme no Oscar deste domingo, você não pode deixar de ver Sideways - Entre Umas e Outras, filme lançado em 2004 pelo diretor Alexander Payne, que no hiato de sete anos provou que não perdeu a mão para misturar comédia e drama ancorado nas atuações de seu elenco. Sideways levou o Globo de Ouro de Melhor Comédia (ainda concorria a diretor, ator de comédia, roteiro, ator coadjuvante e atriz coadjuvante) e ganhou fôlego para chegar ao Oscar nas categorias principais (filme, direção, ator coadjuvante/Thomas Haden Church, atriz coadjuvante/Virginia Madsen, mas levou somente o de roteiro adaptado). Em toda a sua filmografia, Payne tentava indicar que em meio aos defeitos de seus personagens, nós poderíamos nos identificar com eles, mas é em Sideways que esta ambição chega ao seu auge. A trama é simples, mas belamente escrita ao acompanhar dois amigos que se conhecem desde o colegial. Paul Miles  (Paul Giamatti) é um professor que pretende largar a profissão e investir na carreira de escritor, além disso é apaixonado por vinhos e pretende despertar em Jack (Church) essa mesma paixão. Jack está prestes a se casar (Church) e é convidado por Miles a fazer uma viagem pelas vinículas dos Estados Unidos - mas Jack (um ator que teve algum sucesso e agora ganha dinheiro anunciando produtos na TV) está mais interessado em encher a cara e transar com algumas mulheres pelo caminho em uma viagem de despedida de solteiro. Dá para perceber que as diferenças entre os dois amigos irá render situações interessantes, mas para enriquecer a sua narrativa, Payne insere duas garçonetes na trama: Maya (Madsen) e Stephanie (Sandra Oh, casada com o diretor na época). Maya é conhecida de Miles há tempos, mas ele é incapaz de se declarar para ela - e quando o faz é por meio de uma metáfora sobre a uva pinot noir (de difícil cultivo e deliciosa apreciação), declaração a qual ela retribui divagando sobre a vida que existe dentro de uma garrafa de vinho (afinal, dependendo do dia em que for aberta o sabor é totalmente diferente devido a fermentação). Enquanto Maya e Miles buscam um relacionamento que evolui calmamente para um romance, Jack e Stephanie são mais... carnais. Mesmo complexificando personagens aparentemente simples, Payne consegue alinhavar as ótimas atuações do elenco com maestria (eu destaco o olhar apaixonado de Virginia Madsen para Paul Giamatti, Katherine Heigl que vive fazendo comédias românticas hediondas deveria aprender com ela) e proporciona analogias sobre vinhos que não parecem bobas ou pedantes (especialmente quando Miles está em frangalhos e entorna um balde de vinho garganta abaixo). Ao explorar a vida sem rumo de dois personagens que poderiam ser considerados autênticos losers americanos, o diretor os transforma em pessoas de carne e osso com suas angústias e frustrações - que misturam drama, romance e comédia na busca por um rumo na vida. A bela fotografia e um final que parece voltar a mesma situação do início (só que num contexto totalmente diferente) conferem ainda mais charme a este filme.  A premissa de dois amigos que saem para beber vinho numa espécie de despedida de solteiro você já deve ter visto um zilhão de vezes, mas nenhuma delas segue os rumos deste aqui, ao dar novas cores a esta premissa,  muitos consideram esta a obra-prima do diretor. 

Sideways - Entre Umas e Outras (Sideways/EUA-2004) de Alexander Payne com Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen e Sandra Oh. ☻☻☻☻

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CATÁLOGO: As Confissões de Schmidt

Nicholson: atuação surpreendente na pele de Schmidt.

Depois de perder o Oscar de roteiro adaptado por Eleição (1999), Alexander Payne resolveu ser mais sério no seu filme seguinte e cumpriu todo o protocolo direitinho. As Confissões de Schmidt foi exibido com elogios no Festival de Cannes e muitos críticos ficaram surpresos da forma como Payne conseguiu tirar uma atuação mais contida de Jack Nicholson - algo que não se via há muito tempo. Mais sério e amargo o filme marcou um corte na cinematografia do diretor que deixava o humor em segundo plano e investia cada vez mais nos dramas de seus personagens. Curiosamente o preço da empreitada foi Payne ter que lidar com os leitores fãs do livro homônimo de Louis Begley (que alcançou tanto sucesso que rendeu até uma continuação: Schmidt Delivered) que alegavam que havia drenado muito do humor da narrativa, mudando totalmente a essência do personagem (que era muito mais preconceituso e mal intencionado do que o velhinho rabugento apresentado no filme). Warren Schmidt (Jack Nicholson, indicado ao Oscar de ator) é um senhor prestes a se aposentar, mas está totalmente ciente de que sua vida foi um desperdício (tanto que se vangloria do tempo que lhe resta de vida).  Depois de aguentar a esposa castradora (que o obriga até a urinar sentado para não correr o risco de respingar o branheiro) ele sabe que sua vida de aposentado será pior do que no escritório insosso em que trabalhava - mas com o trailer que comprou pretende espantar a rotina de tédio e depressão que se anuncia desde a primeira cena. Obviamente que a esposa não gostaria dessa ideia, mas as coisas mudam quando Schmidt fica viúvo. Diante da situação, Schmidt prentende dar novo rumo à sua vida e fazer uma boa ação, ou melhor duas: uma é ajudar um menino nos cafundós da Tanzânia através do envio de cheques, o outro é impedir o casamento de sua filha (Hope Davis) com um noivo o qual desaprova (vivido por gosto por um Dermot Mulroney totalmente brega), Schmidt pensa que conseguirá convencer a filha a desistir do casório. Até encontrar a filha, o personagem irá se deparar com uma série de sujeitos comuns feito ele em situações comuns. Quando se transforma em road movie o filme tenta sair do lugar comum com um humor sutil, mas seus melhores momentos estão no seu encontro com a sogra de sua filha (vivida pela ótima Kathy Bates, indicada ao Oscar de coadjuvante e que tem a coragem de fazer uma cena de nu frontal) que acaba demonstrando mais interesse por ele do que o próprio poderia imaginar. Schmidt não é apresentado com muitas qualidades, é como se ele simplesmente existisse num mundo que se move independente de suas ações - essa sensação de ser descartável dá ao filme uma incômoda sensação deprimente e apesar de momentos de alívio cômico, o filme consegue ser baixo-astral a maior parte do tempo.  Se após toda a sessão a vida de Schmidt parece sem sentido, Payne guarda o melhor momento para o final, numa belíssima cena em que Schmidt recebe uma carta muito especial. Parece que Payne e Nicholson construíram toda a trajetória do filme apenas para essa cena especificamente, o incrível é que ela funciona magistralmente fazendo toda a diferença em nosso apreço pelo longa. Ainda assim, devo confessar que na filmografia de Payne é o longa do qual menos gosto, o que não quer dizer que não tenha seus méritos (além da edição precisa e bela fotografia). Prova de que o filme está longe de ser uma unanimidade é o fato de ter sido indicado a cinco Globos de Ouro (Filme/Drama, diretor, ator/Drama, atriz coadjuvante/Bates e roteiro) mas somente Nicholson e Bates foram lembrados nas indicações ao Oscar. Mesmo assim, vale conferir. 

As Confissões de Schmidt (About Schmidt/EUA-2002) de Alexander Payne com Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis e Dermot Mulroney. ☻☻☻

domingo, 15 de janeiro de 2012

FILMED+: Eleição

Era 1999 quando Alexander Payne lançou o seu segundo longa-metragem. Depois do sucesso no circuito alternativo com Ruth em Questão (1996), Eleição lhe dava a chance de ampliar o seu público e aprofundar ainda mais o seu estilo ácido de dissecar o puritanismo americano. Baseado no livro de Tom Perotta (o mesmo de Pecados Íntimos/2006), o filme é brilhante ao abordar a política americana transplantada para uma autêntica high school americana. Se você anda impressionado como essa mesma ideia está sendo abordada no seriado Glee, você precisa assistir Eleição o mais rápido possível. Payne concorreu ao Oscar de roteiro adaptado pela história do professor Jim McAllister (Mathew Broderick), um sujeito exemplar e de vida regrada ao lado da esposa insossa que não consegue engravidar. Entre uma aula sobre ética aqui e uma lição de moral ali, o professor nutre fortes ressentimentos pela aluna Tracy Flick (Reese Witherspoon, numa atuação tão divertida quanto assustadora). Tracy é a aluna que mais gosta de aparecer na escola, está em todos os clubes mais  (e menos) relevantes, além de disputas e discussões que podem lhe garantir créditos para a vida futura. O motivo de birra do professor com a aluna é o fato dela ter se envolvido com um professor - o que acabou em um escândalo dos bastidores da escola e rendendo a expulsão do babão. Por mais que MacAllister seja simpático e agradável em sua vida escolar percebe-se deste ponto de implicância que sua elevada moral possui uma pequena mancha. Afinal de contas, qualquer professor sabe que não pode se envolver com alunas e por mais que estas pareçam interessadas é ética e moralmente condenável (daí a contradição de McAllister). A chance de McAllister se vingar de Tracy será na eleição do grêmio da escola. Sob o pretexto de ensinar a Tracy que não se pode ganhar todas passando por cima dos outros, o professor resolve bancar a candidatura do um pateta Paul Metzler (Chris Klein que parece um especialista para esse tipo de coisa) que é boa gente, mas um candidato escolhido somente para prejudicar a ascensão de Tracy e que não faz a mínima ideia do que seria um plano de governo. Como a vida política é sempre cheia de surpresas e ressentimentos, a terceira pessoa no páreo é a irmã de Paul, a invocada Tammy Metzler (Jessica Campbell) que deseja vingar-se da ex-namorada que a trocou pelo irmão. O que poderia ser apenas uma campanha escolar vira um campo de batalha, com material de campanha destruído, cassação de candidaturas e até fraude na apuração. Alguns podem até pensar que se trata somente de um filme para adolescentes, mas observando com atenção, veremos que o filme é um olhar interessante sobre a politicagem na vida do ser humano. Por mais que Tracy seja uma das personagens mais chatas que já apareceu numa tela de cinema (e Reese a realiza com grande desenvoltura, bem diferente da atriz que se tornou após ganhar o Oscar) McAllister deixa sua visão cada vez mais comprometida num emaranhado de acontecimentos que ameaçam sua carreira e até seu casamento. No microuniverso criado no filme, as situações da estrutura macropolítica de repetem e os pequenos fatos fazem toda a diferença na contagem final dos votos - e aquele sujeito que antes era dado como invisível pode ter uma revelação que mudará os rumos de tudo. Neste filme, Payne se despediu do seu humor mais cortante (que faz personagem agradecer em suas orações por ser bem dotado ou outra que pede à Deus para ser amiga da Madonna, submete Tracy Flick a frames feiosos ou mesmo que escolhe o eterno Ferris Bueller para o papel de professor que se deteriora eticamente durante a trama). Payne pode até ter se tornado mais sério em seus filmes seguintes - mas mesmo se tratando de uma das melhores comédias da década de 1990, se você conhecer personagens como McAllister e Tracy e sentir vontade de chorar, eu vou entender.

Broderick: olhar comprometido (e não só por causa de alergia à abelha)

Eleição (Election/EUA-1999) de Alexander Payne com Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein e Molly Hagan. ☻☻☻☻☻

domingo, 18 de dezembro de 2011

CATÁLOGO: Ruth em Questão


Dern como Ruth: desajustada memorável.

Um dos filme mais cotados para esta temporada de prêmios é The Descendants, o novo filme de um dos meus diretores favoritos e que só agora me dei conta de que não escrevi no blog sobre nenhum filme dele! Para compensar esse sacrilégio, preparei uma retrospectiva sobre os filmes deste americano descendente de gregos chamado Alexander Constantina Papadadopoulos, ou para os íntimos Alexander Payne. Depois de realizar alguns curtas e um média metragem, seu primeiro longa foi Ruth em Questão. Lembro quando o filme chegou aos cinemas e todo mundo comentava a atuação de Laura Dern como a cidadã Ruth do título original, uma desajustada que se metia entre as cruzadas pró e anti aborto nos EUA. Não, não se trata de um filme edificante com mensagens tocantes ou lições de moral, Payne deixava claro que seu objetivo não era tomar partido sobre o aborto, mas queria nos instigar a refletir sobre uma o grau de histeria que a situação pode alcançar - e o jogo de interesses que está por trás dessas campanhas. Ruth é uma coitada que vive cheirando qualquer produto químico que aparece em sua frente (esmalte, tinta spray, solventes e derivados), além disso gosta de tomar umas biritas de vez em quando. A ironia do roteiro é que enquanto ela faz tudo isso e prejudica a si mesma ninguém se incomodoa. Esse comportamento já lhe rendeu filhos de pais diferentes - e que vivem com seu irmão, sem que Ruth tenha permissão de vê-los. Parece dramático? Espere até ela ser presa e ser absolvida porque descobrem que ela está grávida e com planos de fazer um aborto. Ruth acabará se tornando involuntariamente o símbolo de uma campanha nacional anti-aborto. O problema é fazê-la aceitar esse papel ("eu não quero ser símbolo de nada" ela vive repetindo), já que só precisa de alguns dias na casa de uma família cristã de militantes para mostrar que está longe de ser uma personagem que se redime dos pecados... é quando a campanha pró-aborto a descobre e a vida (ou a morte) do bebê parece ser disputada num leilão (e Ruth sempre penderá para o lado que lhe pagar mais). Payne atira para todos os lados e não tem medo de expor o ridículo de todos os personagens que disputam Ruth para as suas campanhas, até o político vivido por Burt Reynolds (que é mais ambíguo do que propriamente humanista) não é digno de muita credibilidade. O mais engraçado do filme (e que cai muito bem ao tom de farsa que o diretor imprime na narrativa) é a construção que Laura Dern faz de Ruth. Mais conhecida por suas atuações sombrias em filmes de David Lynch ou pela participação saltitante em Jurassic Park (1993), a atriz faz da personagem um fantoche despudorado, pensando de acordo com a causa que é mais vantajosa para o seu bolso (nada mais americano... e por isso cenas como a que fica hipnotizada pela luz de atrair insetos são tão divertidas). Em sua estreia, Payne já deixava claro que não era um diretor de comédias bobinhas e que não tinha medo de enfiar o dedo em algumas feridas da sociedade americana, o roteiro é um primor e a direção segura o suficiente para fazer rir e pensar ao mesmo tempo. Seu estilo traz muito daquele estilo crítico que se tornou marca das comédias da década de 1970  - e isso ficou ainda mais claro quando transportou as disputas políticas para uma escola em Eleição (1999), nosso próximo assunto nesta retrospectiva.

Ruth em Questão (Citizen Ruth/EUA-1996) de Alexander Payne com Laura Dern, Swoozie Kurtz, Mary Kay Place, Kurtwood Smith, Kelly Preston, Burt Reynolds e Diane Ladd. ☻☻☻☻