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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Carvão

Jean e Maeve: segredos de família. 

Irene (Maeve Jinkins) vive cuidando da casa, do filho (Jean de Almeida Costa), do pai vítima de AVC e ainda encontra tempo para ajudar o esposo (Rômulo Braga) na carvoaria de pequeno porte que resolveram montar em casa, afinal, sem sempre o marido consegue algum bico para ganhar dinheiro. O dinheiro é sempre pouco e não tem muita perspectiva de melhoras e, conforme uma nova agente de saúde (Aline Marta) faz questão de ressaltar, a situação do pai de Irene também só tende a piorar. Uma olhada atenta aqui, uma sugestão ali e surge uma ideia que pode ajudar a família a resolver seus problemas financeiros, mas para isso, precisam  tomar uma decisão, digamos... macabra.  Logo surge Miguel (Cesar Bordón), um homem que seria misterioso se a plateia não descobrisse logo no que está metido ao simular a própria morte. Acostumado a uma vida de luxo, ele estará confinado àquela casa desprovida de recursos enquanto a família tenta fingir que tudo segue como antes, ou pelo menos tentam enquanto o dinheiro que começa a entrar começa a gerar alguma estripulias. Um sorvete aqui, um perfume ali, uma moto de presente para um amigo... escrito e dirigido por Carolina Markowicz (criadora da ótima série Ninguém Tá Olhando/2019 da Netflix, que infelizmente durou somente uma temporada) o filme joga o tempo todo com o absurdo, mas sem perder a esperteza para misturar drama e comédia ao ponto de você não saber muito bem como deveria reagir ao que se vê na tela. Os diálogos são um verdadeiro primor e as interpretações agarram as entrelinhas do roteiro para depois mergulhar nelas sem receios. Falando em interpretações, Maeve Jinkins está excepcional como Irene, uma mulher sofrida e que aos poucos não faz muita questão de manter os escrúpulos diante da realidade que se torna cada vez mais imprevisível. A atriz é seguida de perto pelo menino Jean que tem um talento incrível para fazer graça com as frases mais simples. Seus diálogos com Miguel são uma preciosidade e não deixa de lançar um olhar interessante sobre a infância perante uma realidade de absurdos. O filme também funciona como uma metáfora perfeita para os tempos de pandemia no Brasil em que vidas foram consideras descartáveis em nome do dinheiro que falava mais alto (enquanto se tornava cada vez mais escasso). Desenvolvido com precisão até seu desfecho, Carvão se mostra um dos filme mais empolgantes dos últimos anos, o que rendeu para Camila o prêmio de melhor filme de estreia no Grande Prêmio Cinema Brasil (agora o motivo de Maeve Jinkins não ser indicada ao prêmio de melhor atriz e o roteiro original perder para Marte Um me parece um mistério maior do que o paradeiro de Miguel no filme, enfim, o GP está realmente ficando com cara de Oscar). Carvão também perdeu a chance de disputar um lugar na disputa de melhor filme estrangeiro nesse ano, embora fosse o grande favorito de alguns votantes. lançado nos cinema discretamente no final do ano passado, o longa está disponível para aluguel digital em plataformas digitais e vale um lugar entre seus filmes favoritos sobre a face mais horripilante do ser humano. O novo filme de Markovicz está na disputa por uma chance de ser o representante brasileiro no Oscar2024 com seu novo filme, Pedágio (o resultado sairá dia 12 de setembro), filme que renderá uma homenagem no Festival de Toronto como cineasta emergente. Essa brasileira vai longe!

Carvão (Brasil/2022) de Carolina Markowicz com Maeve Jinkins, Cesar Bordón, Jean de Almeida Costa, Pedro Wagner, Rômulo Costa e Camila Márdila. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Marte Um

 
Os Martins: hora de olhar para cima. 

A família Martins é uma família comum da periferia de Contagem em Minas Gerais. O pai, Wellington (Carlos Francisco) trabalha em um prédio de classe alta, a mãe, Tércia (Rejane Faria) trabalha como diarista, a filha, Eunice (Camilla Damião) está começando a namorar Joana (Ana Hilário) e planejam morar juntas, a família se completa com o caçula Deivinho (Cícero Lucas), que precisa lidar com as expectativas do pai com sua carreira no futebol enquanto deseja ser astrofísico. O sonho do menino é participar da missão que dá nome ao filme e que planeja colonizar Marte. Estes são os protagonistas do novo filme de Gabriel Martins (de No Coração do Mundo/2019), que se tornou um dos mais elogiados dos últimos anos, premiado com oito estatuetas no último Grande Prêmio Cinema Brasil (filme, direção, ator, ator coadjuvante, fotografia, montagem, roteiro original e melhor som) e que ganhou fama ao ser o longa candidato do Brasil a disputar uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro de 2023 (e acabou ficando de fora). Eu gostaria muito de dizer que a esnobada foi injusta, mas assistindo ao filme, dificilmente ele teria conquistado meu voto para ficar entre os cinco finalistas. Produzido pela produtora mineira Filmes de Plástico, o filme tem a proposta de ser um retrato do cotidiano de personagens comuns, mas ao contrário dos outros filmes da produtora, este me deu a impressão de ser uma grande colagem de lugares comuns quando se retrata personagens periféricos no cinema. Obviamente que existe o mérito de ser um filme protagonizado por uma família preta, algo ainda raro no cinema brasileiro, mas alguns personagens não possuem muito para fazer em cena. O patriarca parece ter o que fazer somente na parte final quando o inferno astral se abate sobre ele, a filha vivida por Camilla Damião é ausente de qualquer energia (basta ver sua apatia na cena pós-acidente que não vou contar para evitar SPOILERS), a própria trama de Deivinho também não me parece aproveitada em todas as suas possibilidades. Única personagem com um arco bem desenvolvido é a mãe (vivida pela ótima Rejane Faria) que fica traumatizada ao participar de uma "pegadinha" televisiva e a partir dali acredita atrair coisas ruins para quem estiver por perto. Além de ter a trama mais interessante, a personagem é a única feita de carne e osso numa produção ensaiada demais para soar realista. Filmes sobre o cotidiano são complicados e necessitam de habilidade para driblar a sensação de que nada acontece em cena. Em Marte Um muitos fatos acontecem com seus personagens, mas nada soa interessante, apenas esquemático para chegar ao desfecho em que uma explosão é resolvida ao contemplar o céu no fundo do quintal. Aqui parece ser onde o filme começa e não onde termina. Acho que toda a expectativa gerada em torno do filme prejudicou meu olhar sobre ele, mas dificilmente eu acharia que os dilemas apresentados são desenvolvidos a contento. Além do trabalho de Rejane salva-se a fotografia que consegue bons momentos dentro da proposta não concretizada do filme, ops, talvez a proposta seja a aclamação de uma elite que sente-se bem em aplaudir um filme que é uma colagem do que ela imagina sobre uma família periférica cheia de sonhos.

Marte Um (Brasil/2022) de Gabriel Martins com Cícero Lucas, Carlos Francisco, Rejane Faria, Camilla Damião, Russo APR e Thiago Cesário. ☻☻☻ 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Medusa

 
A gangue mascarada: fé no ódio. 

Nas ruas de da cidade um grupo de mulheres mascaradas perseguem outras. O que poderia ser visto como um assalto ou uma rixa pessoal logo ganha contornos reveladores quando as vítimas são chamadas de "messalina" ao final do linchamento. O tal grupo registra em vídeo a agredida prometendo que deixará de ser mundana, que será recatada e seguirá o senhor. Medusa da diretora Anita Rocha da Silveira é isso mesmo, uma alegoria sobre o fanatismo religioso que causa uma cegueira capaz de guiar um comportamento agressivo para ditar como os outros devem viver. Ninguém imagina que a tal gangue mascarada, que vaga pelas noites atrás de seus alvos, é na verdade um grupo de devotas cristãs que se apresentam na igreja entonando hinos de devoção a Deus e amor a Jesus sob o nome de  As Preciosas. Onde o próximo fica nisso tudo é outra história. É interessante que o filme que possui este ponto de partida receba o nome de um dos seres mais famosos da mitologia grega. Medusa era uma bela mulher que é punida por uma esposa traída ao descobrir que seu marido se envolveu com ela. Transformada em um monstro, capaz de transformar em pedra qualquer um que olhe para ela, a personagem gera fascínio até os dias atuais. Aqui a Medusa pode ser vista como Melissa (Bruna Linzmeyer em participação especial), uma jovem atriz que foi punida por conservadores por viver sua sexualidade sem culpa e acabou desaparecida após ficar deformada. Existe uma certa obsessão da protagonista, Mari (Mari Oliveira), membro da tal gangue, em encontrar o paradeiro de Melissa, mas isso até se perde no monte de ideias apresentadas no roteiro da diretora. Existe muita coisa a ser desenvolvida em Medusa e, por conta disso, algumas delas recebem resoluções insatisfatórias. A própria questão da religiosidade aqui não consegue esbarra sempre na caricatura, com suas personagens histéricas pelo desejo reprimido e os discursos que se repetem exaustivamente para justificar seus atos mais execráveis e, não por acaso, a líder do grupo se chama Michele (Lara Tremouroux) - que nas horas vagas dá dicas de maquiagem cristã às suas seguidoras (enquanto disfarça os hematomas com bases variadas ao longo do filme). Essa ideia ideal de feminilidade aparece em vários momentos do filme, incluindo no discurso dos Vigilante de Sião, um grupo de rapazes que fazem par com as mascaradas nas esquisitices extremistas e treinam para sua cruzada em coreografias que são difíceis de serem levadas a sério (em uma cena parece até aquela cena da dancinha dos Kens em Barbie só que em versão fascista). Muito da trama gira em torno da crise de identidade vivida por Mari quando a perseguição à uma das vítimas mundanas não sai como o esperado. Sua vida acaba sofrendo mudanças e ela começa a ceder aos impulsos de seu corpo. Mari Oliveira realiza um bom trabalho em cena, revelando as várias camadas da personagem, mas o roteiro atira para tantos lados que seu arco acaba perdendo força chegando a um ponto em que o texto tenta resolver tudo aos gritos (literalmente). Longo demais (mais de duas horas), o filme funciona melhor quando flerta com o terror e o suspense, momento em que a fotografia e a trilha sonora caprichada conseguem criar um atmosfera bastante envolvente, mas quando deixa se levar pelo pastiche o filme perde fôlego e cai na repetição. No fim das contas com o romance de Mari com um colega de trabalho (Felipe Frazão)  fica no meio do caminho, a busca por Melissa perde a importância, a forma como como a protagonista lida com o desejo é reduzida, a violência contra a mulher fica de escanteio e o filme vai se perdendo gradativamente nas pontas soltas. Acho que a cena perfeita para terminar o filme seria aquela apresentação hilariante e um tanto assustadora em que as meninas desabam no palco numa exemplificação da farsa desconstruída de suas vidas banhadas em discurso de ódio amparado por corações de pedra e cabeças de vento. 

Medusa (Brasil - 2021) de Anita Rocha da Silveira com Mari Oliveira, Laura Tremeroux, Joana Medeiros, Felipe Frazão, Thiago Fragoso, Bruna Linzmeyer, Carol Romano, João Oliveira e Isadora Ruppert. ☻☻

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Temporada

 
Grace Passô: uma mulher em recomeço. 

Juliana (Grace Passô) acabou de ser aprovada para um concurso público de agente de saúde. Ela irá trabalhar no combate a endemias na periferia de Contagem na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela então se organiza para deixar a sua cidade, Itaúna, para começar uma nova fase em sua vida. Visivelmente apreensiva diante da mudança, ela arruma um lugar para ficar e se organiza para que em breve o esposo venha morar com ela, afinal, ele já queria sair do emprego e recomeçar em outro lugar. Juliana é de poucas palavras, mas aos poucos começa a estreitar seus laços com os colegas de trabalho e deixar se levar pela jornada que se anuncia. Porém, ela nem imagina que a temporada em que vive sozinha em Contagem irá render mais mudanças do que imagina. Dirigido por André Novais Oliveira,  o filme reza direitinho na cartilha da produtora Filmes de Plástico, do qual ele é um dos sócios fundadores, e entrega um filme que parece um recorte da vida de uma personagem real. A câmera por vezes parece escondida e registrar um documentário da realidade daqueles profissionais, a visita aos quintais que mal cuidados, as precauções para não serem surpreendidos por um escorpião, as cotas de trabalho, os dias de chuva, os moradores nem sempre bem humorados que os recebem... esses elementos servem para oferecer um tempero a mais no desenvolvimento da nova fase na vida da protagonista que tem lá suas cotas de dramas pessoais a superar. Lidando com as tristezas e alegrias do cotidiano da personagem, o filme possui uma atmosfera otimista e não perde o bom humor mesmo quando as situações poderiam render situações melodramáticas. Em um elenco em sintonia perfeita, emerge a atuação brilhante de Grace Passô (eleita melhor atriz no Festival de Brasília) como uma mulher em reconstrução que aceita os novos desafios que aparecem em sua vida sem medo de assumir a direção da própria vida. Embora o filme perca um pouco do ritmo em sua meia hora final, Temporada consegue a proeza de ser realista sem soar artificial. O ideal de recriar diante de uma câmera a vida real funciona nas mãos do cineasta André Novais que apresenta aqui seu segundo longa metragem (fiquei até curioso em procurar o primeiro, Estado de Sítio/2011). Assim como no cotidiano de uma pessoa comum, eu me emocionei e sorri perante a vida dos personagens que surgem na tela. Com paisagens nada  idílicas, personagens de vidas simples, sem luxos e grana curta, o filme constrói uma verdadeira joia do cinema nacional escondida no catálogo da Netflix. 

Temporada (Brasil/2018) de André Novais Oliveira com Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo, Juliana Abreu e Renato Novaes. ☻☻☻☻

domingo, 3 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: O Homem Cordial

 
Miklos: o submundo é o inferno. 

Quarta-feira tive uma crise grave de coluna. Por conta disso, saí do trabalho mais cedo para ir à emergência ciente de que aquela dor só passaria novamente com morfina. No caminho, umas duas esquinas do local em que trabalho, havia um carro parado perto demais da esquina que impedia a minha visão, por isso tive que parar um pouco mais à frente do que deveria, tempo suficiente para um carro velho e mais acelerado do que deveria, se aproximar. O freio do veículo (um corcel meio dourado) não estava funcionando direito, de forma que deslizou um pouco mais para perto do meu. Tive que dar ré devagar para que não encostasse em mim. Começou então o drama. O outro motorista ficou gritando que eu deveria prestar mais atenção e bloqueou a rua para que eu não saísse dali. Eu disse que não entendia o motivo da gritaria, afinal, os carros não haviam batido. Sentada na frente, ao lado do motorista, sem cinto de segurança e com um bebê de uns dois anos no colo, uma mulher pegou o celular e resolveu fazer um registro da situação. Não sei se filmou ou tirou foto, mas no caminho até o hospital fiquei imaginando que ela postasse aquilo nas redes sociais e utilizasse a criatividade para relatar o que havia acontecido. Previ um linchamento nos próximos dias. Esse clima de surto coletivo parece imperar no Brasil já a algum tempo, a necessidade de ser agressivo e ofensivo em nome de uma "justiça" que existe somente para defender o seu ponto de vista, mas que é incapaz de perceber que seu freio não está funcionando. O outro parece sempre culpado de suas mazelas e acabar com ele provocaria o gozo de imaginar que o problema foi resolvido. Só que isso não acontece e o alvo logo se torna outra pessoa num mundo de instituições desacreditadas e em que a barbárie soa como único caminho para a identidade calcada em uma autoestima devastada. É essa sensação que constrói o contexto de O Homem Cordial de Iberê Carvalho. Nele, Aurélio (Paulo Miklos) o vocalista de uma banda de rock se apresenta e começa a ser atingido no palco por objetos diferenciados - sob gritos que indicam que ele fez algo de muito errado. Logo descobrimos que houve um vídeo em que ele impediu o linchamento de um garoto de treze anos e, no meio do grupo linchador tinha um policial, que acabou morto dias depois. Começam então as especulações de que o garoto poderia ter matado o policial e soma-se a suspeita ao fato do garoto estar desaparecido. Subitamente, Aurélio se vê no centro de uma discussão que envolve o abismo social que vivemos com um bocado de intolerância, preconceito e um tantinho de preguiça para perceber que o contexto de uma situação é bem mais ampla do que as imagens transparecem (e a história em torno das imagens é o desfecho do filme que torna toda história ainda mais triste). Ambientado em uma noite na vida do roqueiro, o protagonista descerá ao inferno para descobrir os desdobramentos daquela situação que presenciou, testemunhando um submundo (e  não por acaso a ideia de inferno é subterrânea) que não teria contato se sua vida continuasse seguindo a rotina trivial de sempre. Logo o roteiro apresenta as peças de sua história: artista, moradores de periferia e imprensa logo se tornam alvos fáceis de profissionais corruptos. Existe nas entrelinhas o contexto de como as tecnologias alastram uma narrativa, para o bem e para o mal enquanto a grande mídia  parece ter uma função anestésica com seus programas matutinos de culinária. Iberê constrói seu filme com uma tensão precisa, se perde um pouco no desenvolvimento de alguns personagens (a jornalista subitamente some da história), mas compensa tudo com uma boa atuação do titã Paulo Miklos que se envolve num labirinto kafkiano tupiniquim onde ter um tantinho de bom senso demonstra ser perigoso (e alguns dirão que o bom senso seria ter ignorado o linchamento do menino, o que também diz muito sobre a lógica vigente). O título é uma clara referência à obra do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda em que afirma que a polidez do povo brasileiro está apenas na superfície, numa espécie de disfarce para suas sensibilidades e emoções perante a coletividade. O Homem Cordial se mostra um triste retrato do brasileiro intolerante que revelou sua face nos últimos anos - e aguarda ansiosamente para que seja legitimada. 

O Homem Cordial (Brasil/2023) de Iberê Carvalho com Paulo Miklos, Thalles Cabral, Thaíde, Pedro Lima, Theo Werneck, Murilo Grossi, Dandara de Morais, Felipe Kenji e Roberta Estrela D'Alva. ☻☻☻☻

sábado, 2 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Piedade

 
Cauã e Fernanda: o novelão de Cláudio Assis. 

O cineasta pernambucano Cláudio Assis realizou uma das estreias mais radicais do cinema brasileiro com Amarelo Manga (2003). Lembro quando assisti ao filme no cinema e fiquei impressionado com as cores fortes de seus estilo. A forma como misturava personagens em imagens vigorosas e que não se incomodava que apresentar o que poderiam ter de mais sórdido. Esta acabou virando a marca do seu cinema que acumulou polêmicas e fãs até hoje e, embora considere que sua estreia (que completou vinte anos) ainda seja sua obra-prima, seu cinema sempre tem algo de interessante a dizer. No entanto, fiquei bastante surpreso com o que ele realiza em Piedade, filme que está disponível na Globoplay. Cláudio reuniu um elenco respeitável para contar a história dos moradores de uma região que está sendo cobiçada por uma grande empresa, a PetroGreen, que está disposta a explorar as riquezas do local, mas para isso precisa lidar com os alguns moradores que não estão dispostos a sair dali. Se existe um grupo de jovens moradores que fazem vídeos denunciando a forma predatória como a empresa trata a natureza local, por outro lado, existe uma família que está dividida sobre o que deve ser feito. A família cuida de uma propriedade que já viveu melhores dias no litoral, mas percebe que cuidar daquele pequeno paraíso vai além de trocá-lo por uma quantia de dinheiro. A chefe da família é Carminha (Fernanda Montenegro) que tem um bocado de lembranças pessoais vinculadas ao local, sobretudo sobre seu falecido esposo. Ela é mãe de Fátima (Mariana Ruggiero) e Omar (Irandhir Santos), que é o crítico mais ferrenho à presenta da PetroGreen naquele local, tendo vários embates com o representante da empresa enviado para lidar com os moradores, Aurélio (Matheus Nachtergaele). Paralelo a isso existe Sandro (Cauã Reymond), um jovem empresário que transformou o velho cinema da cidade num inferninho para encontros sexuais enquanto cuida do filho, Marlon (Gabriel Leone). Quando o roteiro revela que a Cerminha teve um filho desaparecido e Aurélo demonstra saber mais do que diz, a trama se revela digna de uma novela. Considerado por alguns o melhor filme de Assis, Piedade possui alguns elementos que remetem ao restante da obra do cineasta, principalmente na forma como filma as cenas sexuais no trabalho de Sandro, ali é apresentada a destreza do que o diretor sabe fazer de melhor, o problema é quando ele precisa lidar com o melodrama de novelão presente no roteiro. A trama fica previsível e a causa "ecológica" perde fôlego sem muita cerimonia, especialmente no contraste com a performance de Nachtergaele que engole a atuação de uma nota só de Irandhir Santos como uma espécie de líder comunitário que nunca gera a torcida desejada (ele é apresentado como um chato que vive de brisa enquanto seu oponente é muito mais interessante). Piedade possui ainda uma cena emblemática sobre a encruzilhada em que seu diretor criou para si, basta ver a cena de banho de Fernanda Montenegro cobrindo o busto para ver que o diretor estava um tanto indeciso sobre o que fazer na estética da história que tinha para contar (óbvio que eu não queria ver Fernanda sem roupa, mas a forma como a cena é mostrada é apresentada um desconforto do próprio Assis com o que se propôs a fazer). No fim das contas o filme agrada mais pela química inusitada de Cauã e Matheus do que qualquer outra coisa. Vale pela curiosidade de ver os dois juntos nessa novela das nove condensada em hora e meia de duração. 

Piedade (Brasil/2019) de Cláudio Assis com Cauã Reymond, Matheus Nachtergaele, Fernanda Montenegro, Gabriel Leone, Irandhir Santos, Denise Weinberg e Mariana Ruggiero. ☻☻☻

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: A Felicidade das Coisas

 
Lavinia: temporada no litoral paulistano. 

Para iniciar o Ciclo Verde e Amarelo de 2023 escolhi um filme que brasileiro que eu não tinha escutado falar até que me deparei com ele na MUBI. A Felicidade das Coisas é um dos filmes da produtora mineira Filmes de Plástico, que se tornou bastante conhecida nos últimos anos ao criar para si um grande desafio: fazer filmes interessantes baseados em personagens comuns e suas aventuras cotidianas. Confesso que fiquei tentado em escrever "pequenas aventuras cotidianas" no trecho acima, mas quando a coisa funciona, o uso da palavra "pequenas" não da conta das camadas que uma trama do gênero pode apresentar.Aqui a história se passa no litoral norte de São Paulo, local em que Paula (Patricia Saravy) resolve passar alguns dias com a mãe (Magali Biff) e os filhos (Messias Góis e Lavinia Castelari). Já que a matriarca está animada com a casa de praia que comprou, ela resolve construir uma piscina. O ponto de partida é bastante simples, mas revela bastante sobre a realidade da personagem. Não deixa de ser curioso que mesmo com a praia próxima e um rio que atravessa o terreno da propriedade, Paula torna a piscina um verdadeiro objetivo de vida à revelia de todos os problemas que começam a acontecer. Grávida e com o marido distante (está sempre trabalhando, nunca consegue aparecer e sequer a voz dele é apresentada ao telefone), ela encontra dificuldades para bancar financeiramente a obra e os conflitos começam a aparecer, seja com o esposo, com os pedreiros, com o filho mais velho... tentando apaziguar a situação está a mãe da protagonista com o maior jeito de que viveu o suficiente para perceber quando algo não vale o esforço, ou, pelo menos, não precisa que se esquente muito a cabeça. Enquanto Paula é pura preocupação e estresse (especialmente com os vizinhos que insistem em entrar em seu quintal para pescar ou meninos da vizinhança que entram ali para tomar banho de rio), seus filhos tentam se divertir e a mãe tenta aproveitar a temporada para conhecer a comunidade local (o que também deixa Paula ainda mais tensa, já que ela não vê com bons olhos a mãe dando "trela" para desconhecidos). Existe no trabalho de Thais Fujinaga um olhar bastante pessoal e carinho no olhar sobre os personagens, o que colabora na construção de um retrato interessante da classe média brasileira - aquele grupo de pessoas que conseguiram acumular algumas propriedades e de vez em quando se dá conta que o dinheiro ainda é pouco para alcançar um estilo de vida da classe superio, não por acaso, existe um clube nas redondezas cujos hóspedes não se misturam com os demais personagens e isso fica bem claro com os seguranças que impedem "penetras" e o muro que divide os grupos por lá. O título faz uma clara referência na busca pela felicidade em nossa relação com bens materiais e Fujinaga é esperta o suficiente para demonstrar que ela pode estar numa improvisação (com água "emprestada" do vizinho), num banho de chuva ou em uma aventura que pode ter consequências sérias. A cineasta extrai atuações bastante espontâneas de todo o elenco, com atenção especial para as crianças. Se a relação entre mãe e filho não chega a se desenvolver como esperamos, pelo menos consegue estabelecer uma tensão que se torna fundamental para o desfecho. Filmes realistas sobre temas cotidianos podem desagradar muita gente que consideram que não acontece muita coisa durante a projeção, mas A Felicidade das Coisas consegue demonstrar que, embora aparentemente não esteja acontecendo nada muito impactante diante da câmera, o interior de sua protagonista vive um terremoto constante. 

A Felicidade das Coisas (Brasil/2022) de Thais Fujinaga com  Patrícia Saravy, Magali Biff, Messias Góis e Lavinia Castelari. ☻☻☻☻