quinta-feira, 7 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Carvão
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Marte Um
terça-feira, 5 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Medusa
Nas ruas de da cidade um grupo de mulheres mascaradas perseguem outras. O que poderia ser visto como um assalto ou uma rixa pessoal logo ganha contornos reveladores quando as vítimas são chamadas de "messalina" ao final do linchamento. O tal grupo registra em vídeo a agredida prometendo que deixará de ser mundana, que será recatada e seguirá o senhor. Medusa da diretora Anita Rocha da Silveira é isso mesmo, uma alegoria sobre o fanatismo religioso que causa uma cegueira capaz de guiar um comportamento agressivo para ditar como os outros devem viver. Ninguém imagina que a tal gangue mascarada, que vaga pelas noites atrás de seus alvos, é na verdade um grupo de devotas cristãs que se apresentam na igreja entonando hinos de devoção a Deus e amor a Jesus sob o nome de As Preciosas. Onde o próximo fica nisso tudo é outra história. É interessante que o filme que possui este ponto de partida receba o nome de um dos seres mais famosos da mitologia grega. Medusa era uma bela mulher que é punida por uma esposa traída ao descobrir que seu marido se envolveu com ela. Transformada em um monstro, capaz de transformar em pedra qualquer um que olhe para ela, a personagem gera fascínio até os dias atuais. Aqui a Medusa pode ser vista como Melissa (Bruna Linzmeyer em participação especial), uma jovem atriz que foi punida por conservadores por viver sua sexualidade sem culpa e acabou desaparecida após ficar deformada. Existe uma certa obsessão da protagonista, Mari (Mari Oliveira), membro da tal gangue, em encontrar o paradeiro de Melissa, mas isso até se perde no monte de ideias apresentadas no roteiro da diretora. Existe muita coisa a ser desenvolvida em Medusa e, por conta disso, algumas delas recebem resoluções insatisfatórias. A própria questão da religiosidade aqui não consegue esbarra sempre na caricatura, com suas personagens histéricas pelo desejo reprimido e os discursos que se repetem exaustivamente para justificar seus atos mais execráveis e, não por acaso, a líder do grupo se chama Michele (Lara Tremouroux) - que nas horas vagas dá dicas de maquiagem cristã às suas seguidoras (enquanto disfarça os hematomas com bases variadas ao longo do filme). Essa ideia ideal de feminilidade aparece em vários momentos do filme, incluindo no discurso dos Vigilante de Sião, um grupo de rapazes que fazem par com as mascaradas nas esquisitices extremistas e treinam para sua cruzada em coreografias que são difíceis de serem levadas a sério (em uma cena parece até aquela cena da dancinha dos Kens em Barbie só que em versão fascista). Muito da trama gira em torno da crise de identidade vivida por Mari quando a perseguição à uma das vítimas mundanas não sai como o esperado. Sua vida acaba sofrendo mudanças e ela começa a ceder aos impulsos de seu corpo. Mari Oliveira realiza um bom trabalho em cena, revelando as várias camadas da personagem, mas o roteiro atira para tantos lados que seu arco acaba perdendo força chegando a um ponto em que o texto tenta resolver tudo aos gritos (literalmente). Longo demais (mais de duas horas), o filme funciona melhor quando flerta com o terror e o suspense, momento em que a fotografia e a trilha sonora caprichada conseguem criar um atmosfera bastante envolvente, mas quando deixa se levar pelo pastiche o filme perde fôlego e cai na repetição. No fim das contas com o romance de Mari com um colega de trabalho (Felipe Frazão) fica no meio do caminho, a busca por Melissa perde a importância, a forma como como a protagonista lida com o desejo é reduzida, a violência contra a mulher fica de escanteio e o filme vai se perdendo gradativamente nas pontas soltas. Acho que a cena perfeita para terminar o filme seria aquela apresentação hilariante e um tanto assustadora em que as meninas desabam no palco numa exemplificação da farsa desconstruída de suas vidas banhadas em discurso de ódio amparado por corações de pedra e cabeças de vento.
Medusa (Brasil - 2021) de Anita Rocha da Silveira com Mari Oliveira, Laura Tremeroux, Joana Medeiros, Felipe Frazão, Thiago Fragoso, Bruna Linzmeyer, Carol Romano, João Oliveira e Isadora Ruppert. ☻☻
segunda-feira, 4 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Temporada
Juliana (Grace Passô) acabou de ser aprovada para um concurso público de agente de saúde. Ela irá trabalhar no combate a endemias na periferia de Contagem na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela então se organiza para deixar a sua cidade, Itaúna, para começar uma nova fase em sua vida. Visivelmente apreensiva diante da mudança, ela arruma um lugar para ficar e se organiza para que em breve o esposo venha morar com ela, afinal, ele já queria sair do emprego e recomeçar em outro lugar. Juliana é de poucas palavras, mas aos poucos começa a estreitar seus laços com os colegas de trabalho e deixar se levar pela jornada que se anuncia. Porém, ela nem imagina que a temporada em que vive sozinha em Contagem irá render mais mudanças do que imagina. Dirigido por André Novais Oliveira, o filme reza direitinho na cartilha da produtora Filmes de Plástico, do qual ele é um dos sócios fundadores, e entrega um filme que parece um recorte da vida de uma personagem real. A câmera por vezes parece escondida e registrar um documentário da realidade daqueles profissionais, a visita aos quintais que mal cuidados, as precauções para não serem surpreendidos por um escorpião, as cotas de trabalho, os dias de chuva, os moradores nem sempre bem humorados que os recebem... esses elementos servem para oferecer um tempero a mais no desenvolvimento da nova fase na vida da protagonista que tem lá suas cotas de dramas pessoais a superar. Lidando com as tristezas e alegrias do cotidiano da personagem, o filme possui uma atmosfera otimista e não perde o bom humor mesmo quando as situações poderiam render situações melodramáticas. Em um elenco em sintonia perfeita, emerge a atuação brilhante de Grace Passô (eleita melhor atriz no Festival de Brasília) como uma mulher em reconstrução que aceita os novos desafios que aparecem em sua vida sem medo de assumir a direção da própria vida. Embora o filme perca um pouco do ritmo em sua meia hora final, Temporada consegue a proeza de ser realista sem soar artificial. O ideal de recriar diante de uma câmera a vida real funciona nas mãos do cineasta André Novais que apresenta aqui seu segundo longa metragem (fiquei até curioso em procurar o primeiro, Estado de Sítio/2011). Assim como no cotidiano de uma pessoa comum, eu me emocionei e sorri perante a vida dos personagens que surgem na tela. Com paisagens nada idílicas, personagens de vidas simples, sem luxos e grana curta, o filme constrói uma verdadeira joia do cinema nacional escondida no catálogo da Netflix.
Temporada (Brasil/2018) de André Novais Oliveira com Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo, Juliana Abreu e Renato Novaes. ☻☻☻☻
domingo, 3 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: O Homem Cordial
sábado, 2 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Piedade
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: A Felicidade das Coisas
Para iniciar o Ciclo Verde e Amarelo de 2023 escolhi um filme que brasileiro que eu não tinha escutado falar até que me deparei com ele na MUBI. A Felicidade das Coisas é um dos filmes da produtora mineira Filmes de Plástico, que se tornou bastante conhecida nos últimos anos ao criar para si um grande desafio: fazer filmes interessantes baseados em personagens comuns e suas aventuras cotidianas. Confesso que fiquei tentado em escrever "pequenas aventuras cotidianas" no trecho acima, mas quando a coisa funciona, o uso da palavra "pequenas" não da conta das camadas que uma trama do gênero pode apresentar.Aqui a história se passa no litoral norte de São Paulo, local em que Paula (Patricia Saravy) resolve passar alguns dias com a mãe (Magali Biff) e os filhos (Messias Góis e Lavinia Castelari). Já que a matriarca está animada com a casa de praia que comprou, ela resolve construir uma piscina. O ponto de partida é bastante simples, mas revela bastante sobre a realidade da personagem. Não deixa de ser curioso que mesmo com a praia próxima e um rio que atravessa o terreno da propriedade, Paula torna a piscina um verdadeiro objetivo de vida à revelia de todos os problemas que começam a acontecer. Grávida e com o marido distante (está sempre trabalhando, nunca consegue aparecer e sequer a voz dele é apresentada ao telefone), ela encontra dificuldades para bancar financeiramente a obra e os conflitos começam a aparecer, seja com o esposo, com os pedreiros, com o filho mais velho... tentando apaziguar a situação está a mãe da protagonista com o maior jeito de que viveu o suficiente para perceber quando algo não vale o esforço, ou, pelo menos, não precisa que se esquente muito a cabeça. Enquanto Paula é pura preocupação e estresse (especialmente com os vizinhos que insistem em entrar em seu quintal para pescar ou meninos da vizinhança que entram ali para tomar banho de rio), seus filhos tentam se divertir e a mãe tenta aproveitar a temporada para conhecer a comunidade local (o que também deixa Paula ainda mais tensa, já que ela não vê com bons olhos a mãe dando "trela" para desconhecidos). Existe no trabalho de Thais Fujinaga um olhar bastante pessoal e carinho no olhar sobre os personagens, o que colabora na construção de um retrato interessante da classe média brasileira - aquele grupo de pessoas que conseguiram acumular algumas propriedades e de vez em quando se dá conta que o dinheiro ainda é pouco para alcançar um estilo de vida da classe superio, não por acaso, existe um clube nas redondezas cujos hóspedes não se misturam com os demais personagens e isso fica bem claro com os seguranças que impedem "penetras" e o muro que divide os grupos por lá. O título faz uma clara referência na busca pela felicidade em nossa relação com bens materiais e Fujinaga é esperta o suficiente para demonstrar que ela pode estar numa improvisação (com água "emprestada" do vizinho), num banho de chuva ou em uma aventura que pode ter consequências sérias. A cineasta extrai atuações bastante espontâneas de todo o elenco, com atenção especial para as crianças. Se a relação entre mãe e filho não chega a se desenvolver como esperamos, pelo menos consegue estabelecer uma tensão que se torna fundamental para o desfecho. Filmes realistas sobre temas cotidianos podem desagradar muita gente que consideram que não acontece muita coisa durante a projeção, mas A Felicidade das Coisas consegue demonstrar que, embora aparentemente não esteja acontecendo nada muito impactante diante da câmera, o interior de sua protagonista vive um terremoto constante.
A Felicidade das Coisas (Brasil/2022) de Thais Fujinaga com Patrícia Saravy, Magali Biff, Messias Góis e Lavinia Castelari. ☻☻☻☻






