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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis

Laura e Serena: amizade irresistível. 

Querido diáriw, esta semana a Academia Brasileira de Cinema escolheu o filme Feito Pipa de Allan Deberton para concorrer à uma vaga nas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Será uma ano complicado sem um concorrente impulsionado pela consagração em grandes festivais até o momento. Quem também estava no páreo para ser escolhido era A Natureza das Coisas Invisíveis que está em cartaz na Netflix e que mostra-se uma verdadeira joia a ser descoberta. É um dos filmes mais fofos que assisti nos últimos tempos e o mais interessante é que consegue o ser tocando em temas bastante sensíveis e até polêmicos. A leveza do filme deve-se muito à opção da diretora e roteirista Rafaela Camelo abraçar a lógica do olhar das meninas protagonistas. Glória (Laura Brandão) está de férias, mas precisa passar os dias no hospital acompanhando sua mãe no trabalho (Larissa Mauro). Lá ela conhece Sophia (Serena), que está no mesmo hospital com a mãe (a ótima Camila Mardila) por conta da bisavó (Aline Marta Maia), que está internada. Enquanto as meninas ficam amigas aproveitando aquele ambiente inusitado, as mães tem um primeiro encontro complicado que logo muda de rumo para que se aproximem também. Logo todas as personagens estarão dividindo um outro cenário em uma trama  bem escrita sobre amizade, amor, morte, aceitação e muitos outros temas que você consegue sentir nas interações daquelas personagens. Embora demore um pouco para engrenar, o filme se torna cada vez mais interessante e chega a um desfecho emocionante. Assista com um lenço que você vai precisar. Uma excelente estreia da diretora Rafaela Camelo em longa-metragem. 

A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil-2025) de Rafaela Camelo com Laura Brandão, Serena, Camila Mardila, Larissa Mauro e Aline Marta Maia. ☻☻☻☻  

domingo, 13 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Love Kills

Thais Lago: vampiros em São Paulo. 

Vampiresco diáriw, a O2 filmes acabou de lançar um canal no Youtube em que colocará filmes de seu acervo em cartaz de forma gratuita, Love Kills é um dos filmes que está em cartaz por lá. Adaptado da graphic novel de Danilo Beiruth, a diretora Luiza Shelling Tubaldini faz um verdadeiro deleite estético na construção de uma cidade de São Paulo habitada por vampiros. Fotografia, figurino, direção de arte, tudo é feito no capricho para contar uma fase complicada da vida imortal de Helena (Thais Lago), uma vampira com mais de cinco mil anos que procura suas refeições pela maior metrópole brasileira. Sua rotina de dormir de manhã e vagar durante a noite é transformada  quando um grupo de vampiros pretende acabar com sua existência. Após a vampira tanto tempo tendo ao seu lado somente o amigo Victor (curiosamente vivido por Flow Kountouriotis), surge um rapaz mortal aparece apaixonado por ela. Leander (Erom Cordeiro) trabalha no bar frequentado por ela e aos poucos descobre que sua amada está longe de ser uma mera mortal. De vez em quando o roteiro arranha a história de Leander, mas ela nunca recebe muita atenção, concentrando o texto em sua relação com Helena. Cheio de estilo, Love Kills inova ao ser um raro filme de vampiro brasileiro, mas por vezes tropeça na própria pose, o que que torna a experiência um tanto artificial. Os diálogos um tanto rebuscados também incomodam, mas se você embarcar na atmosfera proposta pelo filme você é capaz de relevar tudo isso. O capricho da produção não evita também que tenhamos a sensação de que estamos diante do primeiro episódio de uma série para televisão sobre uma vampira que encontra o amor enquanto todos os desafetos colecionados através  dos milênios resolvem se vingar dela. Se você busca um filme brasileiro diferente, este é uma boa pedida. 

Love Kills (Brasil-2025) de Luiza Shelling Tubaldini com Thais Lago, Erom Cordeiro, Flow Kountouriotis, Almir Guilhermino, Gabriela Flores, Rosana Maris e Marat Descartes. ☻☻☻

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

PL►Y: Vida Privada

Jodie: a ética na esquina. 

Admirado diáriw, Jodie Foster é uma das minhas atrizes favoritas desde sempre. Sou fã dela desde que a vi em O Silêncio dos Inocentes (1991) e ela se tornou uma daquelas atrizes em que basta o nome estar em alguma produção para atiçar meu interesse. Infelizmente ela filma pouco ultimamente, o que deixa uma curiosidade a mais para assistir este Vida Privada que está em cartaz na HBOMAX. Ela interpreta Lilian Steiner, uma renomada psiquiatra que tenta lidar com o suicídio de uma de suas pacientes, Paula (Virginie Efira). Considerando que conhecia bem a paciente, ela não acredita que tenha tirado a própria vida, suspeitando que trata-se de um caso de assassinato. Ajuda muito a aumentar as suspeitas de Lilian a hostilidade com que é tratada pelo marido da paciente, Simon (Mathieu Almaric) e o comportamento suspeito da enteada da falecida, Valérie (Luàna Bajrani). A narrativa se dedica à mostrar a psiquiatra descobrindo fatos e costurando pistas conforme sua suspeita instiga e, embora o roteiro não ofereça nada demais ao espectador, torna-se interessante pela forma como expõe nossa capacidade de criar as próprias verdades, moldando o que se encaixa em nosso ponto de vista e desconsiderando todo o resto que indique uma direção contrária. A diretora Rebecca Zlotowski consegue construir uma atmosfera envolvente de mistério e conta com um elenco impressionante que ainda conta com Daniel Auteuil como o ex-marido de Lilian e Vincent Lacoste como o filho cheio de ressentimentos. Entre suspeitas e desventuras, o filme de vez em quanto encontra até espaço para algum humor ancorado em um trabalho que soa como a antítese da personagem que Jodie Foster interpretou na última temporada de True Detective. Não chega a ser um filme memorável, mas é até instigante. 

Vida Privada (Vie Privée / França - 2025) de Rebecca Zlotowski com Jodie Foster, Mathieu Almaric, Virginie Efira, Luana Bajràni, Daniel Auteuil e Vincent Lacoste. ☻☻☻

domingo, 9 de agosto de 2026

PL►Y: Undertone

Nina: maldição caótica. 

Aterrorizado diáriw, a julgar pelos filmes de terror que recebem atenção atualmente, posso dizer que os slasher movies e seus serial killers mascarados estão em baixa. A ideia agora é investir pesado no terror psicológico, no poder da sugestão, nos silêncios e brincar com medos mais íntimos da plateia. Nessa esteira que Undertone chegou aos cinemas. A trama se concentra em Evy (Nina Kiry), uma jovem cética que produz um podcast junto com o amigo Justin (Adam DiMarco) voltado para histórias assustadoras. Recentemente ela precisou se mudar para cuidar da mãe doente, este e outros aspectos da vida pessoal de Evy irão influenciar bastante a forma como ela lida com o trabalho quando recebe um conjunto de dez gravações de áudio de um casal desconhecido. Durante cada áudio escutado cresce a sensação de que algo estranho aconteceu com o casal que estava prestes a ter o primeiro filho. Evy sempre tenta explicar o que está acontecendo pela luz da lógica, mas aos poucos ela começa a perceber que em sua própria residência situações estranhas começam a acontecer. Undertone faz com que o espectador se identifique com a personagem por compartilhar com ela a audição dos áudios angustiantes, mas o filme escorrega quando na última meia hora precisa dar conta de concluir o que está acontecendo e tudo vira uma grande bagunça. Um misto de alucinação, culpas, maldições, entidades e crendices religiosas que são costuradas meio de qualquer jeito até que os créditos apareçam. Era uma ideia original com desenvolvimento irregular até virar um caos completo.  No entanto, não deixa de ser uma estreia promissora do canadense Ian Tuason. 

Undertone (Canadá-2025) de Ian Tuason com Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Jeff Yung, Ryan Turner, Keana Kyn Bastidas. ☻☻

domingo, 28 de junho de 2026

PL►Y: Spinal Tap II - O Fim Continua

McKean e Guest: maldição!
Cabeludo diáriw, deve ter uns dez anos que desbravei a internet atrás de um dos filmes que sempre apareciam nas listas de melhores de todos os tempos: This is Spinal Tap (1984). Uma daquelas unanimidades que se tornou cult e referencial ao mesmo tempo, um documentário falso (o mockumentary) sobre uma banda de rock prestes a lançar um novo álbum. O longa de  Rob Reiner fez história e, ironicamente, sua continuação foi o último longa dirigido por ele. O diretor volta a atuar como o documentarista responsável pelo primeiro filme e que agora tem a ideia de acompanhar a banda em um aguardado retorno após vários anos afastada dos palcos. De início busca os integrantes, o guitarrista Nigel Tufnel (Christopher Guest) administra uma loja de queijos e guitarras na Inglaterra), o vocalista David St. Hubbins (Michael McKean) agora produz músicas para podcast sobre crimes e músicas de espera telefônica e Derek Smalls (Harry Shearer) administra um museu de... cola (!?). Spinal Tap II tem um gostinho irresistível de reencontro, o humor segue o espírito de galhofa e gaiatice encenado com a mesma pretensão solene do primeiro, o que ajuda muito a funcionar, embora o roteiro seja menos esperto que o anterior. As piadas giram em torno de vários clichês de bandas que ambicionam voltar para pagar as contas, as tretas e ressentimentos pesam e a busca por um baterista disposto a enfrentar a maldição da banda (que teve onze ou doze bateristas falecidos) garantem as risadas. O filme conta com várias participações especiais como Fran Descher e Elton John e, obviamente, conta com aquelas cenas de palco inacreditáveis com letras ridículas e anões saltitantes (em homenagem à cena antológica do primeiro filme). Spinal Tap II faz piada até o fim dos créditos e para quem viu o primeiro torna-se obrigatório como despedida bastante digna ao diretor Rob Reiner. 

Spinal Tap II - O Fim Continua (Spinal Tap II - The End Continues / EUA - 2025) de Rob Reiner com Christopher Guest, Michal McKean, Harry Shearer, Rob Reiner, Valerie Franco e Kerry Godliman. ☻☻☻ 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

PL►Y: Wicked Parte II

Ariana e Erivo: nem feitiço. 

Cantante diáriw, com certeza Wicked2 foi o maior decepcionado com o Oscar deste ano. O primeiro filme conseguiu dez indicações ao careca dourado (incluindo melhor filme e para sua dupla de atrizes) e cravou duas merecidas estatuetas (design de produção e figurinos). Diante de um sucesso estrondoso, quando o segundo filme estreou, o público e a crítica não demonstraram o mesmo entusiasmo do anterior. Algo já me dizia que o ponto em que o primeiro acabava, sobrava pouco para o segundo filme, já que diante dos boatos que transformavam Elphaba (Cinthya Erivo) em Bruxa Má - para desacreditar qualquer tentativa de desmascarar a farsa do mágico de Oz (Jeff Goldblum) - restava uma caça às bruxas para desenvolver. Ela é desenvolvida sem muito brilho, principalmente se comparado ao primeiro filme. Os momentos musicais não empolgam, as músicas não são legais, o desenvolvimento das personagens também não avança e deixa tanto Elphaba quanto Glinda (Ariana Grande) fazendo o que podem com o que lhes resta. Até mesmo aquele momento em que a história das bruxas de Oz se cruza com a clássica chegada de Dorothy fica de escanteio, tendo alguma graça quando descobrimos a origem do leão covarde, do Homem de Lata e do Espantalho, mas é pouco. Houvesse desenvolvido mais estes detalhes da trama conhecida talvez o filme ficasse mais interessante do que investir no triângulo amoroso formado pelas duas protagonistas com o príncipe Fiyero (Jonathan Bailey). Com uma trama que não empolga o suficiente para segurar mais de duas horas de exibição, resta o visual caprichado para passar o tempo e o esforço do elenco para prender a atenção. Acho que com jeitinho caberia os dois filmes em um longa de três horas, mas... o resultado acabou sendo dois filmes em que um se torna o oposto do outro. Difícil agradar o público com esta guinada (para baixo). 

Wicked Parte II (Wicked for Good / EUA - 2026) de John M. Chu com Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bailey, Jeff Goldblum, Michelle Yeoh, Ethan Slater, Ethan Slater e Marissa Bode. ☻☻

segunda-feira, 25 de maio de 2026

PL►Y: O Dia de Peter Hujar

Ben: figura histórica.
Gravado diáriw, várias obras da cinematografia de Ira Sachs são marcadas por personagens queer (incluindo sua obra-prima O Amor é Estranho/2014) e com este aqui não é diferente. Peter Hujar (1934-1987) foi um importante fotógrafo dos EUA. Nascido em Nova Jersey, Peter foi criado pelos avós imigrantes ucranianos e depois foi viver com a mãe em Nova York. Sensível ao capturar a imagem de seus retratados, sua obra documentou a efervescente cultura underground dos anos 1970 e 1980 em NY até seu falecimento em decorrência da AIDS. Em tempos de cinebiografias que seguem uma cartilha pouco inventiva, Sachs opta por resgatar uma entrevista de Hujar para a amiga jornalista Linda Rosenkrantz que seria parte de um livro que nunca foi publicado. A entrevista tem como objetivo ser um relato de tudo que Peter fez durante um dia de sua vida. O longa não pretende fazer muito mais do que dramatizar a tal entrevista, colocando dois ótimos atores em cena para reproduzir o que foi registrado por Linda. Ben Wishaw  e Rebecca Hall conseguem prender a atenção do espectador que topar a ideia do que seria apenas uma conversa de oitenta minutos. Enquanto Hujar passa a maior parte do tempo relatando o encontro com o desconfiado Allen Ginsberg, entre fatos prosaicos do cotidiano, a dupla consegue transparecer o carinho de um personagem pelo outro. Apesar o formato inusitado, o trabalho de Wishaw evidencia alguns traços da personalidade do biografado, como sua eloquência, sensibilidade, descaso com a alimentação e o olhar sob a profissão. Outro ponto interessante é como a fotografia ressalta a passagem do tempo durante a entrevista. Muita gente irá considerar um filme arrastado e com poucos atrativos, mas vale pelo resgate de um artista que precisa ser lembrado pelo seu legado. 

O Dia de Peter Hujar (Peter Hujar's day / EUA - Alemanha - Reino Unido - Espanha/2025) de Ira Sachs com Ben Wishaw e Rebecca Hall. ☻☻

domingo, 17 de maio de 2026

PL►Y: Eddington

Phoenix: herói de barro.

Desgovernado diáriw, me deparei com críticas muito ruins ao novo filme de Ari Aster. O diretor que fez dois filmes de terror dignos de nota com Hereditário (2018) e Midsommar (2019), teve problemas com Beau tem Medo (2023) e agora com Eddington constrói uma sátira política numa cidadezinha no meio do nada e ainda mais isolada em 2020, tempos de pandemia. Lá o embate entre o xerife da cidade (Joaquin Phoenix) e o prefeito (Pedro Pascal) renderá acontecimentos que tornarão as relações ainda mais polarizadas. O que poderia ser apenas o debate sobre o uso de máscaras, logo vira algo mais por conta das complicações envolvendo os traumas da esposa do xerife (vivida por Emma Stone). Mas não é só isso, o isolamento e busca de conexões com o mundo via internet, motivam ainda mais o caos na cidade com discursos que  viram modismo e caminham para a mais completa desordem. Aster constrói uma massaroca de referências sobre o mundo atual e toda a confusão em que mergulha com falsos gurus e fake news. Celulares parecem armas e vídeos parecem mais relevantes do que os fatos que registram. Diante de todo o caos que se instaura, parece que a solução encontrada para o desfecho é um tiroteio que me fez pensar que Aster viu Bacurau (2019). As conclusões ficam pela metade, os discursos são jogados para o alto e a realidade parece pronta para quem quiser colocar fogo nela. O cineasta demonstra continuar ambicioso e assumindo riscos para não ficar preso a um gênero cinematográfico. Aqui ele faz drama, faz comédia, faz um faroeste virado do avesso, escorrega no humor ao lidar com temas cuidadosos e, como seus personagens fazem, atira para todos os lados. O resultado é interessante, incômodo e com uma ótima atuação de Joaquin Phoenix como um daqueles heróis de barro que adoram cultuar. 

Eddington (EUA - Reino Unido - Finlândia / 2025) de Ari Aster com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal, Emma Stone, Cameron Mann, Michael Ward, Clifton Collins Jr e Austin Butler. ☻☻☻

quinta-feira, 23 de abril de 2026

PL►Y: A Longa Marcha

David e Cooper: andar e surtar . 

Relutante diáriw, confesso que eu estava com preguiça de assistir A Longa Marcha. O que fez a diferença foi a recomendação de minha amiga Morgana, que me fez perceber que o filme era mais do que um bando de garotos caminhando mais de uma hora e meia diante da câmera. O fato de ter sido o primeiro livro escrito por Stephen King (nos tempos em que estava no primeiro ano da faculdade, embora só tenha sido lançado após o sucesso editorial de Carrie), traz para a trama uma atmosfera curiosa por conta da alegoria que um jovem dos EUA concebia na década de 1960. A contracultura já existia e deixa a história mais interessante. A trama é sobre um grupo de rapazes que são sorteados, para representar cada um o seu estado em uma longa caminhada que pode render a um deles uma fortuna capaz de mudar suas vidas em um país em tempos de crise. O grupo é escoltado por tanques e militares que são liderados por um autoritário major. Ao longo da caminhada as infrações geram advertências e se ultrapassar o número de infrações aceitáveis, você leva um tiro na cabeça. Durante a caminhada conhecemos um pouco mais sobre os personagens, com destaque para o solitário Peter (David Jonsson) e Garrett (Cooper Hoffman), que recebeu do pai uma educação... diferente e que possui um plano a realizar. Francis Lawrence traz para cá um pouco a atmosfera que utilizou em Jogos Vorazes (2013) em escala intimista e segura a longa caminhada com ângulos variados, montagem ágil e um grupo de atores dispostos a valorizar os diálogos e as surpresas que situam o espectador naquele universo que, embora absurdo, remete a situações atuais (o que valoriza ainda mais a criatividade de King). Se você entrar no clima, pode agradar. A empreitada valeu ao filme o prêmio Robert Altman no último Independent Spirit Awards. 

A Longa Marcha (The Long Walk / EUA -2025) de Francis Lawrence com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Judy Greer, Charlie Pummer, Garrett Wareign, Ben Wang, Joshua Odjick, Jordan Gonzalez e Roman Griffin Davis. ☻☻☻

domingo, 5 de abril de 2026

PL►Y: Enterre seus Mortos

Selton: no fim dos tempos. 
Apocalíptico diáriw, o cineasta Marco Dutra assina um dos meus filmes de terror favoritos, Quando eu Era Vivo (2014) e tem em seu currículo outros filme muito interessantes. Não é novidade que ele é apaixonado por histórias de terror e posso dizer que sua assinatura sempre me deixa curioso. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com sua nova obra: Enterre seus Mortos que é baseado o livro de Ana Paula Maia. A trama é ambientada em um período em que o fim do mundo se aproxima. Entre chuva de pedras, céu vermelho e uma nova religião que promete a salvação no fim dos tempos, existem crianças enviadas para ilhas de isolamento e uma síndrome que ninguém sabe explicar de onde veio. Nestes tempos sombrios, temos Edgar (Selton Mello), um homem calado e com traumas no passado que trabalha com resgate de animais mortos nas estradas. Ele tem como colega de trabalho o padre excomungado Tomás (Danilo Grangheia) e tem um caso com sua chefe Nete (Marjorie Estiano). Todos vivem na cidade de Abalurdes, que virou cenário de situações tão estranhas quanto os pesadelos de Edgar. São tantos elementos para lidar que o filme se tornou bastante confuso. Antes houvesse se concentrado nos fantasmas pessoais de Edgar, que só se revelam mesmo perto do final. Tomás também tem os seus demônios para exorcizar, mas nem teve tempo com o desfecho que seu personagem recebe. Com seus personagens destinados à danação, o filme é ambicioso com seus diálogos em atrito e abraça uma estética de filme B, mas faltou foco na trama ambientada em um universo bastante rico e particular.  Tive a impressão que ficaria melhor se fosse uma minissérie. 

Enterre Seus Mortos (Brasil - 2025) de Marco Dutra com Selton Mello, Marjorie Estiano, Danilo Grangheia, Betty Faria, Maria Manoella e Gilda Nomacce. ☻☻

PL►Y: Foi Apenas um Acidente

Foi Apenas um Acidente: Palma de Ouro.  
Premiado diáriw, eu queria muito ter gostado de Foi Apenas um Acidente do iraniano Jafar Panahi, mas não consegui. O filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes do ano passado, concorreu ao Oscar de Filme Internacional deste ano e apareceu em várias outras premiações e listas de melhores do ano, mas eu não conseguiria coloca-lo entre meus dez favoritos do ano. Reconheço toda a admiração que Panahi merece em continuar filmando na clandestinidade com toda a perseguição que sofre do governo de seu país, mas o filme me exige um paciência que estou longe de ter. A história começa com o acidente de uma família em uma estrada deserta e no dia seguinte, o pai da família resolve levar o carro para consertar. O dono da oficina suspeita que aquele homem foi responsável por torturá-lo no passado, o sequestra e quase o enterra vivo, mas uma fagulha de sensatez surge e ele resolve procurar outras pessoas que também cruzaram com o mesmo torturador no passado. Cada um deles apresenta um temperamento, do mais ponderado ao mais explosivo, caracterizando não apenas certezas e incertezas diante da identidade do tal homem, mas também se o que estão fazendo é justiça, vingança ou só barbárie mesmo. É um filme bastante atual em sua temática com personagens descrentes do sistema na sociedade em que vivem, mas a discussão se repete por mais de uma hora sem maiores alterações. Como alegoria para a situação o Irã o filme pode até ter conquistado fãs pelo mundo, mas eu achei cansativo, repetitivo e um tanto parecido com Ação entre Amigos (1998) de Beto Brant, filme brasileiro que gosto bastante e que mostra-se mais enxuto e envolvente com uma situação bastante parecida.

Foi Apenas um Acidente (Yek tasadof-e sadeh / Irã - França - Luxemburgo - EUA / 2025) de Jafar Panahi com Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten e Majid Panahi. ☻☻☻

segunda-feira, 16 de março de 2026

PL►Y: O Último Azul

Santoro e Denise: distopia
Reflexivo diáriw, entre os candidatos à vaga brasileira entre os concorrentes ao Oscar de filme internacional estava O Último Azul de Gabriel Masccaro. O filme ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2025 e foi bastante elogiado pela forma como esgarça o etarismo em um mundo distópico que reflete os tempos atuais. O filme conta a história de Teresa (Denise Weinberg), uma mulher que ao passar do setenta anos deverá ser encaminhada para uma espécie de colônia afastada das cidades para que possa viver sob os cuidados necessários sem ocupar a filha que precisa trabalhar. Teresa questiona ter que ir para um lugar que não deseja, afinal, continua consciente e resolvendo a vida como pode. No entanto, quando o governo identifica que ela já deveria ter ido para a tal colônia, ela decide seguir por outros caminhos que sempre se deparam com limitações não desencadeadas por seu estado físico ou mental, mas por uma sociedade que não a percebe como uma pessoa capaz de gerenciar as próprias vontades. Embora tenha uma narrativa contemplativa e um apelo imagético sereno, o trabalho excepcional de Denise Weinberg retrata bem a angústia desta mulher experiente que do dia para a noite passa a ser vista como uma pessoa incapaz apontada como um peso na vida dos outros. Mascaro conduz seu filme com bastante sensibilidade, flerta com a ficção científica, com elementos fantásticos e constrói um filme que nos faz pensar sobre como lidamos com o envelhecimento (se você não produz você é descartável? A vida se resume a isso?). Embora tenha destaque no cartaz, Rodrigo Santoro tem uma participação pequena, mas importante quanto ao aspecto mais delirante do filme: o uso de um caracol que permite ver o futuro. Não deixa de ser interessante que o futuro ainda cause fascínio e curiosidade em uma sociedade que percebe de forma tão negativa o envelhecimento. Nosso futuro é envelhecer e, se isso não acontecer é porque a morte (sempre) chega antes do esperado. 

O Último Azul (Brasil/2025) de Gabriel Mascaro com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarras, Adanilo, Clarissa Pinheiro, Isabela Catão e Diego Bauer. ☻☻☻☻

domingo, 22 de fevereiro de 2026

PL►Y: Juntos

Dave e Alison: num só. 

Unificado diáriw, acho interessante como os filmes de terror se beneficiam da busca por história originais de baixo orçamento pelos estúdios. Ano passado foi  excelente para o gênero e entre os lançamentos que chamaram atenção está Juntos. Protagonizado pelo casal da vida real Dave Franco e Alison Brie, o filme investe no body horror (engraçado como o gênero voltou à moda, David Cronenberg deve estar orgulhoso) para construir uma analogia muito interessante sobre a dependência emocional na vida de um casal. Dave interpreta Tim, um músico que a carreira nunca decolou. Alison vive Millie, uma professora que vai morar com o namorado em uma casa afastada. A coisa entre os dois está um tanto estranha desde que ela fez o pedido de casamento e ele ficou sem reação diante do pedido. Os dois tentam se acertar, mas quando resolvem fazer uma trilha juntos na floresta acabam se deparando com uma fonte de água estranha que o público já sabe o que gera por conta de dois cachorros que apareceram por lá. Ao longo do filme, uma série de sensações estranhas e situações bizarras vão deixar claro que os corpos de ambos desejam se tornar um só e não há nada de romântico nisso. Quando se afastam, um passa mal. Quando se beijam ou transam seus corpos grudam e aos poucos os desentendimentos tomam conta. A química real do casal (os atores estão juntos desde 2011, o que soa uma eternidade para Hollywood) ajuda bastante a dar credibilidade aos conflitos e desejos existentes entre os personagens. Achei que os efeitos são eficientes na maioria da vezes (ruim mesmo e aquela cena do cabelo que parece muito mal feita). Acho que o filme perde alguns pontos quando tenta explicar demais o que está acontecendo. Quando chegou ao final, percebi que achei a ideia mais interessante que o desenvolvimento da história, mas não posso negar que me diverti um bocado com o filme (e nunca mais vou ouvir Two Become One das Spice Girls sem sentir arrepios). 

Juntos (Together / Austrália - EUA / 2025) de Michael Shanks com Dave Franco, Alison Brie, Damos Herriman, Mia Morrissey, Karl Richmond e Jack Kenny. ☻☻☻

sábado, 7 de fevereiro de 2026

PL►Y: O Esquema Fenício

Benicio: a cara da decepção.
Pasteurizado diáriw, virou lugar comum dizer que Wes Anderson tornou seu estilo em uma camisa de força. Isso tem o lado bom de vermos um filme dele e identificarmos automaticamente a sua estética. Recentemente ele até levou um Oscar para casa (pelo curta A Incrível História de Henry Sugar/2023) após ver vários de seus longa metragens serem indicados e ele continuar sem um careca dourado. No entanto, em seus últimos longas, eu percebi que ele está tentando sair da prisão que criou para si pelo caminho errado. Seus textos estão mais rebuscados e com diálogos truncados, o que faz perder muito da graça que vimos na leveza com que explora temas até delicados em filmes como Os Excêntricos Tennenbaums (2001), Moonrise Kingdom (2012) e O Grande Hotel Budapeste (2014). O que estes três filmes tem em comum também são protagonistas que rompem com o jeitão cool, quase lavado de emoções que paira sobre a grande maioria dos personagens de sua obra, o que não vemos neste O Esquema Fenício que estreou no ano passado e que foi apontado por muitos como decepcionante. O bom é que mesmo quando erra, um filme de Wes Anderson ainda me agrada muito de assistir, nem que seja pela sua beleza visual emoldurando um bando de bons atores fazendo bobeiras. No filme Benício Del Toro passa o tempo inteiro com a mesma cara como um ricaço que sofre diversos atentados ao longo da vida enquanto tenta ajeitar a vida financeira da filha primogênita, a freira Liesl (Mia Threapleton). Enquanto ele calcula porcentagens, ela tenta lavar a roupa suja em meio aos acontecimentos imprevisíveis e menos engraçados do que deveriam. Ao menos a figura curiosa da filha diverte um pouco a trama embolada e um tanto sem energia. Não é uma obra-prima, também não é um desastre. Serve para passar o tempo. 

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme / Alemanha - EUA / 2025) de Wes Anderson com Benicio Del Toro, Mia Threapleton, Michael Cera, Steve Park, Willem Dafoe, F. Murray Abraham, Rupert Friend, Scarlett Johansson e Benedict Cumberbatch. ☻☻☻

domingo, 1 de fevereiro de 2026

PL►Y: A Meia-Irmã Feia

Lea: tudo pela beleza.
Harmonizado diáriw é impressionante como em tempos de releituras de terror de gosto duvidoso sobre personagens clássicos do cinema e da literatura, alguém surge com bom senso e faz realmente uma obra interessante. Se até a Disney erra em suas versões de carne e osso para os clássicos, torna-se ainda mais louvável o que a cineasta estreante Emilie Blichfeldt faz ao colocar em destaque a meia-irmã da Cinderela, a jovem Elvira no centro de uma narrativa própria. Sempre apresentada nas versões da história como uma moça pouco atraente, a diretora resolveu criar uma história em que a personagem passa por procedimentos estéticos arrepiantes para conquistar o príncipe encantado naquele bendito baile. Sem a ajuda de uma fada madrinha, Elvira (a ótima novata Lea Myren) recorre a um esteticista para fazer ajustes em algumas partes de seu corpo. Embora seja ambientado em uma era "vitoriana" na Noruega do século XIX, o culto à beleza e os sacrifícios motivados por ele são verdadeiras agulhadas nos tempos atuais. Misturando contos de fadas com body horror e pitadas de erotismo (a cineasta não tem problemas em apresentar partes masculinas durante a sessão) o filme impressiona pela criatividade em construir uma releitura ousada utilizando personagens já conhecidos. O mais interessante é que todo o horror que vemos no filme, faz lembrar as origens do clássico conto dos irmãos Grimm com crianças sendo devoradas por uma bruxa ou um lobo faminto na floresta. Aqui quem devora a protagonista é o padrão no qual ela não se encaixa. Com personalidade suficiente para deixar o público nervosamente curioso com os flagelos de sua protagonista, A Meia-Irmã Feia foi até lembrado no Oscar de melhor Maquiagem e Penteados (categoria a qual seu primo A Substância/2024 ganhou ano passado). 

A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren / Noruega - Dinamarca - Suécia - Romênia - Polônia / 2025) de Emilie Blichfeldt com Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Isac Calmroth, Flo Fagerli, Malte Gårdinger, Willy Ramnek Petri e Adam Lundgren. ☻☻☻

PL►Y: Vivo ou Morto - Um Mistério Knives Out

Josh: um padre e seus demônios.
Sortudo diáriw, o Rian Johnson encontrou uma mina de ouro quando bolou a história de Entre Facas e Segredos (2019) e foi até indicado ao Oscar de roteiro original. Ele ficou tão animado que criou uma expectativa danada para a continuação Glass Onion (2022) que concorreu ao Oscar de roteiro adaptado. O terceiro filme da franquia nem isso conseguiu com uma história interessante misturando crimes e um pouco de fé. Aqui o roteiro subverte as expectativas do espectador na metade da sessão, aprofunda um pouco mais a narrativa em torno de um principal suspeito e consegue surpreender até recair nas tradicionais "informações surpresas" que ao longo da sessão não haviam sido mencionadas. Não deixa de ser uma traição ao espectador, mas pelo menos aqui temos (mais uma vez) um grupo de atores respeitados que toparam entrar na brincadeira e dar credibilidade à trama. Daniel Craig volta como o detetive Benoit Blanc, mas o destaque mesmo fica por conta de Josh O'Connor como o jovem padre suspeito de assassinar o padre responsável pela paróquia que o acolheu. No entanto, o padre veterano (vivido por Josh Brolin) estava longe de ser um exemplo para a comunidade com suas grosserias e comportamento, digamos, pecaminoso. A trama torce e retorce os segredos dos fiéis da paróquia para tornar o caso complicado de ser resolvido, vai e volta no tempo, constrói digressões e novos crimes deixando o detetive tão confuso quanto o espectador ao longo da sessão. O tipo de filme que não dá para revelar muito. Serve para passar o tempo e bom que a Netflix aprendeu que isto basta para o filme ser um sucesso. 

Vivo ou Morto - Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man / EUA - 2025) de Rian Johnson com Daniel Craig, Josh O'Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Jeremy Renner, Kerry Washington, Cailee Spaeny, Mila Kunis, Andrew Scott, Thomas Haden Church, Daryl McCormack e Jeffrey Wright. ☻☻☻

PL►Y: Os Roses - Até que a Morte os Separe

Olivia e Benedict: em pré-guerra. 
Querido diáriw diante de tantas mudanças em minha rotina eu quase desisti de continuar minha postagens por aqui, pela mais completa falta de tempo. No entanto, em meio às férias de janeiro eu cheguei à conclusão que se eu criasse algumas reformulações por aqui eu consiguiria manter uma regularidade de postagens. Espero que funcione. Minha primeira postagem do ano é sobre um remake simpático que chegou nas telas no ano passado. Os Roses - Até que a Morte os Separe é uma nova adaptação do livro de Warren Adler que já chegou às telas em 1989 pelas mãos de Danny DeVito e estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turner sob o título de A Guerra dos Roses. Agora quem dá vida ao casal é Benedict Cumberbatch e a oscarizada Olivia Colman. O talento da dupla colabora bastante para que o filme se beneficie de um humor elegante, mesmo quando a dificuldade de convivência entre os dois se torna aparentemente incontornável. Ele é um ambicioso arquiteto que cai em desgraça quando um projeto cai no ridículo dos vídeos da internet e ela é uma chefe de cozinha que começa uma escalada de prestígio. Quando o sucesso do  do casal se inverte, a crise começa a se anunciar e o que era um casamento saudável começa a exibir um perigoso abismo. Esta nova versão se preocupa de ampliar a vida social do casal (o que enriquece o roteiro com sarcasmos sobre relacionamento aberto, traição, ciúmes e outros temas sobre casais) e constrói a crise do casal gradativamente de forma que conseguimos entender as motivações dos conflitos (a ascensão dela, a queda dele, ele cuidando da casa, o ninho vazio, a agenda dela sempre ocupada, a vaidade dele ferida). Conduzido sem exageros por Jay Roach, o melhor mesmo é ver o talento de Olivia e Benedict fazendo drama e comédia quase ao mesmo tempo desde a primeira cena em que estão diante da terapeuta. Eu lembro pouca da outra versão, mas percebi que esta aqui se distanciou bastante e conseguiu uma identidade própria. 

Os Roses - Até que a Morte os Separe (The Roses / Reino Unido - EUA - Austrália / 2025) de Jay Roach com Benedict Cumberbatch, Olivia Colman, Kate McKinnon, Andy Samberg, Ncuti Gatwa, Sunita Mani e Allison Janney. ☻☻☻ 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

PL►Y: Ladrões

Butler: o humor caótico do novo filme de Aronofsky.

Não fosse o nome de Darren Aronofsky assinando a direção, provavelmente eu não daria a mínima atenção para este Ladrões. A sinopse não me empolgou com a história de um jogador de baseball que teve a carreira acabada por conta de um acidente e que vê novamente sua vida virada do avesso quando precisa tomar conta do gato de um vizinho - sem fazer ideia da quantidade de bandidos que irão atravessar o seu caminho por conta disso. Ambientado no final dos anos 1990, o filme é baseado em um livro de Charlie Huston (que também assina o roteiro), Aronofsky demonstra uma energia bastante diferente dos seus filmes anteriores. Embora os cenários e a fotografia ainda façam lembrar alguns dos seus filmes mais sombrios (especialmente os do início da carreira), a vibração aqui é outra. Existe muito senso de humor na atmosfera dos acontecimentos que começam a desabar na rotina do ex-jogador Hank Thompson (Austin Butler). Embora a vida que ele leva seja bem diferente da sonhada por ele nos tempos e atleta promissor, tudo o que ele quer é sossego ao lado da namorada Yvonne (Zoë Kravitz), só que tudo é posto a perder quando ele começa a ser perseguido por todos os outros personagens que cruzam o seu caminho. O diretor conta esta história como se fosse uma versão noventista de Depois de Horas (1985) de Scorsese (e a presença de Griffin Dunne no elenco enfatiza ainda mais a relação). Darren capricha nos ângulos, planos e enquadramentos, o ritmo é mantido sempre acelerado e mantem o espectador atento às reviravoltas da trama. Acredito que não é por acaso que o filme é ambientado no período em que Aronofsky iniciou sua carreira, como se fosse a demonstração de outro caminho (outra pegada) que seu cinema poderia ter seguido nos primórdios de sua cinematografia iniciada com o incômodo Pi (1998) - que também contava com gangsteres judeus no encalço do protagonista. Esta espécie de "recomeço" também serve para dar fôlego à uma carreira que recebeu duras críticas pela forma como adaptou o texto de Samuel D. Hunter quando resolveu filmar A Baleia (2022), que embora tenha rendido o Oscar de melhor ator para Brendan Fraser, carrega nas tintas melodramáticas mais tradicionais para envolver o público (enquanto a outra parte torce o nariz). No entanto, vendo os fantasmas que assombram o protagonista de Ladrões, é fácil perceber de onde surgiu o interesse por fazer este filme, afinal, ele acaba de ser incluído na seara de personagens perturbados que o diretor adoram ao lado da antológica Sara Goldfarb, a bailarina Nina  e - basta lembrar que - nem o bíblico Noé (2014) escapou. Ladrões passará em branco nas premiações, mas ouso dizer que é um filme fundamental para o cinema de Aronofsky se reencontrar com suas intenções mais viscerais e, ao ver o elenco que topou a empreitada, percebe-se que ele tem crédito de sobra entre os artistas. 

Ladrões (Caught Stealing / EUA - 2025) de Darren Aronofsky com Austin Butler, Zoë Kravitz, Matt Smith, Regina King, Bad Bunny, Griffin Dunne, Tenoch Huerta, Vincent D'Onofrio e Laura Dern. ☻☻☻

domingo, 21 de dezembro de 2025

PL►Y: Setembro 5

A equipe: tensão nos bastidores de TV. 

No meio de tantos filmes que disputavam a atenção das premiações no início deste ano estava Setembro 5 de Tim Fehlbaum. O longa gerou alguma polêmica pelo tema espinhoso que resolveu contar, mas em termos de narrativa mostra-se um primor na construção de tensão em um verdadeiro thriller ambientado nos bastidores de uma transmissão ao vivo de televisão. Afinal, não se trata de uma transmissão qualquer, mas da cobertura de um dos episódios mais tristes dos anos 1970, trata-se da história em torno do ataque terrorista de um grupo palestino à delegação olímpica israelense nas olimpíadas de Munique em 1972. O filme tem foco na equipe da ABC que estava cobrindo os jogos olímpicos e subitamente se viu diante de uma situação tão inesperada quanto assustadora. A emissora se tornou responsável pela transmissão do ocorrido para mais de novecentos milhões de espectadores ao redor do mundo e esbarrava em limites éticos sobre a transmissão enquanto precisava lidar com a tensão de ameaças e negociações. O roteiro precisou condensar 17 horas de acontecimentos em um filme com pouco mais de noventa minutos e o faz muito bem, sendo uma verdadeira lição na construção de uma atmosfera com bases em diálogos e ambientação claustrofóbica de estúdio de televisão. Indicado ao Oscar de roteiro original, o filme bem que merecia mais lembranças nas categorias, sobretudo na categoria de montagem que mostra-se bastante eficiente ao condensar a história e os dilemas da equipe responsável pela transmissão. No elenco impecável, dois artistas merecem destaque, um deles é John Magaro. O ator revelado em sua participação na série Orange is The New Black (2012-2019) mostra-se cada vez mais versátil e interessante em seus trabalhos. Aqui ele evoca algo de Al Pacino no papel de um jornalista que pretende mostrar a verdade, mas sem tropeçar na ética profissional de seu ofício. Quem também rouba a atenção é a alemã Leonie Benesch (do indicado ao Oscar A Sala dos Professores/2023), que no papel da tradutora responsável por auxiliar a equipe na cobertura, se depara com a cena mais aterradora daquela situação (e isso pontuando ao longo da história um pouco dos fantasmas que ainda assombram a Alemanha). Econômico em seu orçamento e enxuto em sua execução, o filme é tudo que o recente Casa de Dinamite (2025) queria ser e não chegou a um por cento do que vemos por aqui. 

Setembro 5 (September 5 / EUA - 2024) de Tim Fehlbaum com John Magaro, Pete Sarsgaard, Ben Chaplin, Leonie Benesch, Georgina Rich, Zinedine Soualem, Corey Johnson e Benjamin Walker. ☻☻☻☻

PL►Y: The Mastermind

Josh: ladrão pretensiosamente patético. 

James (Josh O'Connor) carrega todo o tempo aquela expressão de enfado cravada no rosto. Ele é casado com Terri (Alana Haim), tem dois filhos e é bancado pelos pais (Bill Camp e Hope Davis). Mesmo vivendo em meio à esfervecência dos anos 1970, a vida de James é um bocado insatisfatória. Talvez por isso ele invente de roubar obras de arte. No início ele rouba uma pequena escultura e, ao não ser pego, começa a acreditar que ele é um gênio do crime. Logo ele arquiteta o roubo de três quadros com alguns amigos e descobre que nem tudo é tão fácil como ele esperada, ou pelo menos, que ele não é tão genial assim. Já ouvi muita gente dizer que nos filmes de Kelly Reichardt não acontece nada, mas The Mastermind (que entrou na disputa da Palma de Ouro em Cannes deste ano) deixa claro que esta sensação é justamente pela diretora investir em uma atmosfera que vai contra o que esperamos do filme que a que estamos assistindo. Em sua essência, o longa é um filme de assalto, mas seu desenvolvimento é completamente o oposto do que acostumamos a ver no gênero, especialmente porque a diretor nos propõe a ideia de que um sujeito que se acha um gênio do crime pode ser simplesmente um ser patético. James é exatamente isso: patético. Embora considere que sua vida irá se transformar diante do plano (simplista) que elabora, ela apenas vira do avesso e o torna ainda mais distante da esposa, dos filhos e da família em geral. Relegado à uma rotina de fugas com o rosto estampado no jornal, a vida parece ter agora ainda menos graça. A trilha sonora jazzística parece ressaltar ainda mais algo de cômico e decadente na vida do personagem até o desfecho inevitável e tão grandiloquente quanto a carreira criminal do protagonista. Josh O'Connor está ótimo ao carregar o filme nas costas como um ladrãozinho pretensioso que se depara com a própria mediocridade. The Mastermind está longe de ter o brilhantismo de First Cow/2020 (meu filme favorito da diretora), mas demonstra bem as intenções de uma cineasta que sempre olha para o lado oposto do que esperamos de uma história.

The Mastermind (EUA-2025) de Kelly Reichardt com Josh O'Connor, Sterling Thompson, Alana Haim, Hope Davis, Bill Camp e Cole Doman. ☻☻☻