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sábado, 8 de agosto de 2026

PL►Y: Jane Austen Arruinou Minha Vida

Charlie e Camille: roteiro sem graça. 

Romântico diáriw, comédias românticas estão longe de ser meu gênero favorito. Porém, de vez em quando, até curto assistir algum longa metragem que prometa alguma coisa de diferente no gênero. Foi por conta disso que assisti Jane Austen Arruinou Minha Vida de Laura Piani, longa que recebeu alguma atenção no ano passado e rendeu para a atriz Camille Rutherford ao César de atriz revelação. Ela vive Agathe, uma dona de livraria que é fã da autora de Orgulho e Preconceito, mas que a vida amorosa anda estagnada. Traumatizada por um acidente, ela vive com a irmã e o sobrinho, além de ter como homem mais próximo o melhor amigo Félix (Pablo Pauly). Agathe também pretende escrever um livro, mas sempre considera que não tem tempo suficiente para isso. Eis que Félix a inscreve em uma espécie de retiro na propriedade que foi de Jane Austen na Inglaterra. Ela fica relutante em ir e os sentimentos pelo amigo ficam um tanto confusos. A coisa complica ainda mais quando ela conhece um tatatataraneto de Austen, Oliver (Charlie Anson), que é professor de literatura, desiludido do amor e imita trejeitos de Hugh Grant. Não é difícil perceber que Oliver assume aqui o papel de Mark Darcy e Agathe se vira como pode como uma heroína romântica contemporânea. O problema é que o filme faz pouca alusão à obra de Austen, os momentos que eram para ser engraçados não são tão engraçados assim e tudo soa bem menos esperto do que poderia ser devido às convenções do roteiro. Serve para passar o tempo e curtir o charme de Charlie Anson que parece mesmo um galã saído dos filmes baseados na obra da escritora. Confesso que não entendi o burburinho que houve em torno do filme, me pareceu bastante convencional e o final apressado serve só para expressar que não havia muito a dizer.

Jane Austen Arruinou Minha Vida ( Jane Austen a gâché ma vie / França - 2024) de Laura Piani com Camille Rutherford, Pablo Pauly, Charlie Anson, Annabelle Lengronne, Liz Crowther, Alan Fairban e Alice Butaud. ☻☻ 

PL►Y: Toque Familiar

Kathleen: veterana premiada. 
Querido diáriw, naquele época de listas de melhores do ano, houve uma menção que fiquei realmente curioso. Dentre todas as atrizes que estavam disputando vagas em Oscar e tudo mais, uma pessoa (realmente não lembro quem foi) elegeu Kathleen Chalfant como a melhor performance feminina de 2024. A atriz veterana de 81 anos, estreou nos cinemas na década de 1980 e coleciona vários trabalhos para a telona e para a TV  - particularmente lembro dela como a avó da série The Affair (2014-2019). Embora tenha muito tempo de carreira, ela foi indicada a prêmios pela primeira vez em sua carreira por este Toque Familiar, pelo qual foi indicada ao Independent Spirit de melhor atuação e foi premiada no Festival de Veneza. No filme, a atriz interpreta Ruth, uma mulher que devido a problemas de memória passa a viver em uma casa de repouso para receber cuidados especiais. Kathleen consegue expressar com brilhantismo a confusão mental da personagem, construindo reações que se alternam de um minuto para o outro enquanto não consegue reconhecer que realmente possui um problema. A diretora e roteirista Sarah Friedland se concentra na relação de Ruth com quem está por perto (seja o filho ou os cuidadores), mas principalmente na relação com os fragmentos de memória que ainda lhe resta. O resultado não possui exatamente uma estrutura de começo meio e fim, mas uma espécie de costura de acontecimentos e situações que revelam um pouco mais sobre quem foi aquela mulher e sua relação com o mundo. É um filme com momentos emocionantes ancorados na atuação precisa de uma atriz que nunca recebeu a devida atenção. O trabalho de Kathleen Chalfant compensa a narrativa pouco inventiva, especialmente para quem viu a imersão sensorial proposta por Florian Zeller em Meu Pai (2020) que subverteu tudo que vimos nesse tipo de filme. 

Toque Familiar (Familiar Touch / EUA - 2024) de Sarah Friedland com Kathleen Chalfant, Carolyn Michelle, Andy McQueen, H. Jon Benjamin e Rafael Hernandez. 
 

domingo, 26 de abril de 2026

PL►Y: Thelma

June: caindo no golpe do telefone. 

Experiente diáriw, imagina que a June Squibb nasceu em Ilinois em 1929. Trabalhou no teatro por décadas e o cinema só abriu as portas para ela em 1985 em Simplesmente Alice (1990), embora tenha trabalhado em várias produções desde então, ela só foi reconhecida em 2013 por seu trabalho em Nebraska, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. Com uma energia impressionante, June se tornou um exemplo de que nunca é tarde para ter uma guinada na vida. Ciente de que nem sempre Hollywood lhe garantirá bons papéis, ela também assina a produção deste filme simpático Thelma, que poderia ter lhe rendido mais atenção nas premiações. Ela vive uma senhora que já passou dos 90 anos e recebe cuidados do neto (Fred Hechinger) após alguns problemas de saúde. Aplicada em aprender a lidar com tecnologia, ela fica indignada quando cai em um golpe e perde dez mil dólares acreditando que seu neto foi preso. Quando todos acreditam que tudo está resolvido, Thelma permanece indignada e pretende reaver a quantia. Ela parte então em busca de quem enganou encontrando velhos conhecidos pelo caminho e um sujeito amargo no desfecho. O melhor de Thelma é a forma como aborda com muito bom humor a postura de idosos diante da vida, os diálogos despretensiosos, a recusa da mente em lidar com um corpo que envelheceu e uma certa teimosia em perceber que sozinho a vida é mais complicada. Escrito e dirigido por Josh Margolin, o filme é uma daquelas produções que agradam sem fazer esforço com seu jeito despretensioso. O elenco de apoio está em plena sintonia e o roteiro tem ótimas sacadas, mas o que chama ainda mais atenção aqui é o olhar carinhoso sobre a protagonista que é valorizada pela atuação irresistível de June. 

Thelma (EUA-2024) de Josh Margolin com June Squibb, Fred Hechinger, Parker Posey, Clar Greg, Richard Roundtree, David Giuliani e Malcolm McDowell. ☻☻☻

segunda-feira, 16 de março de 2026

PL►Y: O Problemista

Julio e Tilda: belo besteirol. 

Camaleônico diáriw, tenho a impressão que Tilda Swinton tem em casa um álbum de fotografia com todas as caracterizações que já teve na carreira. Discreta em sua vida pessoal (embora sempre flerte com a androginia), a atriz costuma gostar de interpretar personagens que exijam algumas mudança em seu visual. Prestigiada o suficiente para fazer filmes com Pedro Almdóvar ou da Marvel nos últimos anos, Tilda está em um patamar diferente dos meros mortais e não hesita em trabalhar com diretores iniciantes se a proposta lhe parece interessante. Foi assim que ela foi parar neste O Problemista, um delicioso delírio cômico que está em cartaz na Netflix com sua narrativa frenética e cheia de estranhezas. O filme conta a história de Alejandro (Julio Torres que também assina direção e roteiro), um rapaz que desde pequeno sonha em se tornar um designer de brinquedos, digamos... diferentes (e hilariantes). Nascido em El Salvador, ele tenta a sorte em Nova York, mas descobre que o sucesso no ramo é mais complicado do que ele esperava. Se a grana é sempre curta, a coisa piora quando ele perde o emprego em uma empresa digna de filme de ficção científica. Desesperado para conseguir se manter na cidade, ele começa a trabalhar para uma artista (Tilda Swinton) que parecer ter raiva do muno enquanto tenta promover os trabalhos do falecido marido artista plástico medíocre. De tropeço em tropeço, o rapaz tenta pagar suas contas e conseguir algum sucesso em momentos de puro besteirol. Embora tenha rendido boas risadas (banhadas de estranhamento), o filme poderia ser um tantinho menos nervoso em sua narrativa para curtirmos os momentos de puro besteirol de forma menos acelerada. Este é o primeiro filme em que Julio Torres assina a direção, ele já realizou vários trabalhos na televisão (incluindo o icônico do Saturday Night Live que lhe rendeu várias indicações ao Emmy). Indicado ao Independent Spirit de melhor estreia com este filme, o rapaz (que já tem 39 anos!) merece atenção em seus futuros projetos. 

O Problemista (Problemista / EUA - 2023) de Julio Torres com Julio Torres, Tilda Swinton, RZA, Isabella Rosselini, Catalina Saavedra, James Scully, Laith Nakli, Greta Lee e Lary Owens. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

PL►Y: Emanuelle

Merlant: protagonista repaginada para o século XXI. 

O filme Emanuelle (1974) tornou-se um clássico do cinema erótico ao longo do tempo. A história era simples, uma modelo (vivida por Sylvia Kristel) viaja de Paris para Bangcoc, na Tailândia para se encontrar com o marido. Lá ela vive situações tórridas com vários homens e mulheres, assim como o esposo, sem culpas ou maiores problemas já que possuem um relacionamento aberto. A ideia mexeu com as fantasias de muita gente e gerou uma verdadeira franquia do cinema erótico que habitava as madrugadas das emissoras de televisão. A ideia de refazer este clássico  já rende publicidade de graça, mas quando você começa a escalar um elenco de prestígio, qualquer um começa a imaginar que é um filme a ser levado a sério. A responsabilidade de viver a protagonista ficou a cargo de Noémie Merlant, uma atriz competente que ficou conhecida por seu trabalho em Retrato de uma Jovem em Chamas (2019) e por não ter medo de aparecer em cenas provocativas. Colocaram ao lado dela uma das melhores atrizes de Holywood, Naomi Watts, em um papel de destaque e escalaram dois jovens atores interessantes, Will Sharpe (da segunda temporada de White Lotus) e Jamie Campbell Bower (o Vecna de Stranger Things). Se o elenco é interessante,  o mesmo não se pode dizer do roteiro.  A diretora Audrey Diwan (do premiado O Acontecimento/2021) admite não ter visto o original, mas conhecer detalhes que o torna uma obra bastante complicada quando observada nos dias de hoje. Baseado em um romance homônimo de 1967, a nova versão opta por um caminho completamente diferente, que ainda que possua cenas de sexo (que considerei bastante discretas) tem maior interesse em explorar a complicada relação de sua protagonista com o prazer. Ela se envolve com um estranho em um avião, aceita o convite de ir para cama com um casal, se envolve amorosamente com uma jovem e flerta com homens que parecem estabelecer um jogo de sedução que nunca chega às vias de fato. Dirigir tramas voltadas para a sexualidade é sempre complicado, se for muito despudorado corre o risco de ser vulgar, se for muito cerebral se torna frio e Diwan parece estar mais a vontade com a segunda opção. A Emanuelle da nova versão é enviada a trabalho para Hong Kong para avaliar um hotel de luxo. Ela aproveita a oportunidade para vivenciar algumas aventuras sexuais, mas entre as obrigações e a busca pelo prazer alguma coisa ficou faltando pelo meio do caminho para se tornar envolvente. É interessante ver a protagonista conversando com bastante franqueza sobre suas relações sexuais, assim como vê-la retratada como uma mulher independente e bem resolvida, mas fico imaginando que o filme receberia alguma atenção, seja do elenco, produtores ou público se não evocasse o nome de uma personagem tão famosa no gênero. Não que eu considere o filme original (o qual nunca assisti) uma obra-prima, mas acho difícil que cinquenta anos depois alguém ainda lembre deste aqui. 

Emanuelle (França/EUA - 2024) de Audrey Diwan com Noémie Merlant, Naomi Watts, Will Sharpe, Jamie Campbell Bower, Chacha Huang, Adam Pak e Hugh Tran. 

domingo, 24 de agosto de 2025

PL►Y: Todo Tempo que Temos

Florence e Andrew: dois os melhores que temos.  

Andrew Garfield e Florence Pugh são dois dos melhores atores que Hollywood tem disponíveis para seus filmes. Infelizmente nem todo filme protagonizado por ambos está à altura do talento destes artistas, mas, mesmo quando o material que lhes chega não é lá grande coisas, eles conseguem fazer milagres com o que tem em mãos. Ao menos conseguem manter a integridade, deles e dos personagens que defendem. Todo o Tempo que Temos está longe de ser memorável e em alguns momentos ressalta o desgaste do subgênero em ter que lidar com um tema pesado de forma leve para o grande público sedento por comédias românticas com algum conteúdo. De certa forma o que o diretor John Crowley (do ótimo Brooklyn/2015 e o fiasco O Pintassilgo/2019) faz aqui é buscar sempre o equilíbrio entre um filme água com açúcar com uma gotinha de fel. Ele conta a história de Almut (Florence) e Tobias (Garfield), um casal mais do que apaixonado que parece viver num comercial de margarina saudável.  Eles se amam, são felizes, tem um bebê lindo e... aparece uma doença para acabar com todos os planos que os dois tinham de envelhecer juntos, afinal, o "até que a morte os separe" resolve antecipar. O clima pesa e a relação começa a vivenciar conflitos sobre o legado que Almut pretende deixar em vida. Isso já daria conta de construir um filme, mas lá pelos primeiros vinte minutos o espectador é pego de surpresa (pelo menos eu fui) e começa a perceber que a narrativa embaralha os tempos de vida do casal. Indo para o dia em que se conheceram e como aos poucos superaram as diferenças e desconfianças um pelo outro - e o fato de Tobias ter sobrevivido a um divórcio também colabora muito para que tenha alguma resistência a se envolver com uma mulher tão descolada como Almut. Pode se dizer que o maior mérito do filme se deve à dupla protagonista que defende seus personagens mais uma vez como se fossem pessoas reais, de carne e osso que poderiam ter estudado com você ou morar na casa em frente. Esta característica que cria o envolvimento com a narrativa que por vezes transforma as idas e vindas temporais como uma verdadeira armadilha para a fluência e a compreensão do que se vê na tela (neste caso fica legal na primeira ou segunda vez, mas depois cansa, já que todo mundo já imagina como tudo irá terminar). O final também é bonitinho, mas ressalta como é difícil chegar ao inevitável sem ser pesado demais para a plateia que quer ver o casal apaixonado triunfar no final. 

Todo Tempo que Temos (We Live in Time / Reino Unido - França / 2024) de John Crowley com Florence Pugh, Andrew Garfield, Grace Delaney, Lee Braithwaite, Adam James e Douglas Hodge. 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

PL►Y: Gradiador II

Paul Mescal: musculatura para sustentar um roteiro ruim. 

Reza a lenda que desde o sucesso de Gladiador (2000) especularam sobre uma sequência do sucesso protagonizado por Russell Crowe. Obviamente que Crowe estaria fora da produção, já que todo mundo sabe como ele termina ao final daquele filme.  Muitas versões ao longo do tempo depois, finalmente tomaram coragem para realizar a famigerada sequência. Toparam a empreitada com Ridley Scott na direção novamente, Connie Nielsen no seu papel de Lucilia e agregaram nomes em alta para gerar ainda mais interesse na produção. O filme estreou no ano passado, mas todo mundo sabia que repetir todos os feitos do primeiro seria complicado. Apesar de toda pompa de superprodução, o primeiro Gladiador era um filme fora da caixinha, não se fazia épicos há tempos em Hollywood e ninguém imaginava se o filme teria apelo perante o público. Russell Crowe ainda era candidato ao posto de astro na época e a produção enfrentou tantos problemas que se não fosse um nome tão experiente como Ridley Scott à frente da produção, provavelmente, o filme teria se tornado um fiasco. Para se ter ideia, ficaram famosos os relatos de que o roteiro era alterado todos os dias, muitas vezes chegando ao elenco minutos antes de ser gravado. No fim das contas, o tom épico misturado ao trágico da jornada de Maximus foi abraçada pelo público que lhe rendeu 460,5 milhões nas bilheterias (nada mal para um orçamento de 103 milhões). No Oscar foi indicado em doze categorias e levou cinco para casa: filme, ator (Russell Crowe), figurinos, som e efeitos visuais. Se tornou um daqueles casos em que o Oscar reencontra um sucesso de bilheteria. Obviamente que a continuação todo este sucesso, mas o roteiro... não ajuda. Que texto mal escrito. O filme já começa com batalhas épicas intermináveis (o que considero um tanto tedioso, já que não faço ideia quem são aqueles personagens e porque estão lutando, sendo assim, não sei para quem ou para o que torcer diante do que vejo na tela) para depois descobrirmos que a narrativa será sobre Lucius (Paul Mescal), o filho de Lucilla (Connie Nielsen) que com a morte de Maximus (Joaquin Phoenix) se tornou herdeiro de Roma e suspeita-se de uma conspiração para assassiná-lo. Por conta disso ele foi mandado para longe, mas o destino se incumbiu de afastar o menino de vez e fazê-lo comer o pão que Plutão amassou. Ele se torna soldado, escravo e depois um dos gladiadores de Macrinus (Denzel Washington), que elevou o massacre nas arenas a outro nível para o "entretenimento" das plateias. Scott já deixou claro em produções anteriores que não está preocupado com fidelidade histórica (basta ver o que ele fez anteriormente com Napoleão/2023), mas se no filme de 2000 ele apresentava seriedade suficiente para não deixar tudo cair no ridículo, aqui ele perdeu as estribeiras e investe em tudo: de babuínos sanguinários aos tubarões em uma arena aquática, GladiadorII é surreal. Com tudo isso você até esquece como seria interessante a ideia das pendengas familiares de Lucius serem resolvidas na arena, mas essas questões acabam ficando em segundo plano perante o sangue jorrando em cenas ainda mais violentas que do primeiro longa. Diante de tudo isso dá até pena de Paul Mescal em cena, acostumado a viver personagens mais introspectivos (como na série Normal People/2020 ou na sua indicação ao Oscar por Aftersun/2022), aqui ele precisou crescer a musculatura para ter que lidar com diálogos pré-fabricados de um personagem com uma nota só. Pedro Pascal também não tem muita ajuda para construir o seu apaixonado General Acacius, que se meteu em uma treta familiar complicada misturada com os desmandos dos irmãos imperadores Geta (Joseph Quinn) e Caracala (Fred Hechinger). Quem faz milagre é Denzel Washington em um papel pequeno que lhe valeu até indicação ao Globo de Ouro de ator coadjuvante, ao menos os figurinos foram lembrados no Oscar deste ano. Longe de ser destinado a virar clássico como o filme de 2000, talvez Gladiador II não queira ser mais do que um épico delirante. 

Gladiador II (Gladiator II / EUA - Reino Unido - 2024) de Ridley Scott com Paul Mescal, Pedro Pascal, Connie Nielsen, Denzel Washington, Joseph Quinn, Fred Hechinger, Derek Jacobi e Matt Lucas. 

domingo, 6 de julho de 2025

PL►Y: O Intruso

Ray, Black e Kowal: Teorema erótico segundo Bruce La Bruce. 
 

Houve quem considerasse que o canadense Bruce LaBruce estava cada vez mais comportado após seu trabalho em São Narciso (2020). O diretor do grotesco LA Zombie (2010) já havia provado que era capaz de criar um filme mais contido e interessante com Gerontofilia (2013) e, ciente de que não precisa provar nada para ninguém, ele resolveu polemizar novamente com O Intruso, uma espécie de releitura pornográfica do clássico Teorema (1968) de Pasolini. O filme contava a história de uma família italiana rica que recebe a visita de um jovem estrangeiro, que seduz um a um os membros daquela família, até que decide partir e desequilibra de vez aquelas relações. O filme de Pasolini voltou a ser comentado quando identificaram suas claras referências no recente Saltburn (2023). Enquanto a maioria das pessoas identificavam no filme de Emerald Fennell as semelhanças com O Talentoso Ripley (1999), LaBruce deve ter imaginado que estava na hora de fazer um tributo mais explícito a um dos seus filmes favoritos. O Intruso carrega nas tintas tórridas do filme italiano e torna ainda mais explícito não apenas o que existe de sexual em suas entrelinhas, mas também seu vínculo com as relações de classe, trazendo para uma visão ainda mais atual com um mundo dividido com a situação dos imigrantes nos países desenvolvidos. No entanto, o diretor não se satisfaz apenas com isso e imprime frases de ordem libertárias sobre liberdade sexual e a fluidez das relações entre os gêneros (só para provocar ainda mais a direita conservadora). A trama conta a chegada do visitante (Bishop Black) que chega a um país dentro de uma mala e se instala na casa de uma família burguesa através do convite do criado (Luca Federici). Logo, ele seduz o filho (Kurtis Lincoln), a mãe (Amy Kingsmill), a filha (Ray Fillar) e o pai (Mackli Kowal) em cenas que não causariam estranhamento em um filme erótico da internet. Toques de militância, verniz politizado e discursos de liberdade sexual não conseguem disfarçar o gosto de LaBruce para desafiar o público com uma verdadeira orgia com toques surreais de ficção científica e comédia caricata. O sexo é explícito mesmo e algumas cenas devem causar estranhamento até no cinéfilo mais mente aberta que se deparar com o filme que se perde em meio a tantas provocações. No fim das contas, a impressão é que La Bruce nutriu várias fantasias em torno de Teorema e resolveu compartilhar com o público da forma mais desavergonhada possível. 

O Intruso (The Visitor / Reino Unido - 2024) de Bruce La Bruce com Bishop Black, Mackli Kowal, Ray Fillar, Kurtis Licoln e Amy Kingsmill.  

quarta-feira, 11 de junho de 2025

CICLO DIVERSIDADESXL: A Herança

Diego e Yohan: herança macabra. 

Thomaz (Diego Montez) mora na Alemanha com o namorado Beni (Yohan Levy) e está preocupado como o visto que está prestes a expirar. Fazia tempo que ele não tinha contato com a mãe e retorna ao Brasil para o enterro dela acompanhado de Beni. No retorno, ele conhece duas tias que não tinha contato desde pequeno e os dois se hospedam na casa delas. Embora sejam muito atenciosas, as duas demonstram alguns hábitos estranhos que deixam Beni bastante preocupado, Thomaz nem imagina que sua família possui segredos e antigas tradições que deixam sua herança, digamos... complicada. Por algum motivo sua mãe sempre evitou contato com as familiares e aos poucos o protagonista e o espectador irão descobrir o motivo. A Herança é um filme de terror dirigido por João Cândido Zacharias que possui até boas ideias, mas algumas dificuldades para lidar com elas -  muito por conta de ceder à tentação dos clichês de produções americanas que acabam comprometendo a identidade do filme (e nem me refiro ao excesso de diálogos em inglês). O filme capricha na ambientação da casa com maior vocação para ser mal assombrada, peca por não desenvolver adequadamente os personagens secundários e até mesmo os protagonistas, que leram direitinho a cartilha de personagens ingênuos de filmes de terror. No entanto, cabe aos dois o ponto mais interessante da trama, já que a trama permite uma leitura interessante sobre o fato de Thomaz fugir de seu destino de perpetuar os planos de sua família. O roteiro fica bem próximo de abordar uma questão controversa como "a cura gay", mas se esquiva dela, deixando o texto um tanto vazio neste aspecto. Sexualmente falando, o filme ousa alguns pontos por ter uma cena tórrida entre os dois protagonistas, mas depois revela o horror de uma cena de abuso sexual quando o filme descamba para o trash sem pudores. Filmes de terror são realmente complicados, precisam de muito equilíbrio para não cair no ridículo, ao mesmo tempo podem tropeçar quando consideram que tudo é permitido neste tipo de produção. Quando o filme termina eu fiquei imaginando o diretor assistindo Hereditário (2018) e imaginando como tornar aquele tema macabro girando em torno de um casal gay. A Herança erra seu rumo no meio do caminho, mas provoca alguma curiosidade no espectador para ver o que irá acontecer com aqueles dois moços que aceitam a acolhida de duas senhoras estranhas que lhe oferecem um bolo azul e guardam queijos apodrecido no porão. Ainda assim, fiquei instigado com o que o diretor pode realizar se seguir a mesma linha em seus futuros projetos.

A Herança (Brasil/2024) de João Cândido Zacharias com Diego Montez, Yohan Levy, Analú Prestes, Cristina Pereira, Luiza Kozovski, Ana Carbatti, Jimmy London e Gilda Nomacce. ☻☻ 

terça-feira, 10 de junho de 2025

CICLO DIVERSIDADESXL: Misericórdia

Félix e Durand: visitante objeto de desejo e repulsa.  

O diretor Alain Guiraudine ganhou fama mundial com Um Estranho no Lago (2013), o sexto longa metragem de sua carreira. Naquele filme, um homem frequenta um lago afastado da cidade em que um grupo de homens vão para encontros sexuais - e todas as neuroses sobre o parceiro que você pode encontrar são encarnados pela presença de um serial killer entre os frequentadores. Equilibrando erotismo e suspense, o filme caiu nas graças do público LGBTQIAPN+. Não desejando se repetir, ele lançou o horroroso Na Vertical (2016) que não alcançou um terço do apelo do filme anterior. Oito anos depois (o diretor nunca deixou uma pausa tão grande em sua carreira iniciada no ano 2000), o diretor lançou Misericórdia, um filme que mistura comédia, crime e suspense num clima em que o espectador parece ser o maior detetive da trama. O filme acompanha a chegada de Jérémie (Félix Kysyl) que volta ao seu vilarejo natal para o enterro de seu antigo patrão, o padeiro local. Na verdade o falecido era mais do que um patrão e amigo, afinal, ele é mencionado como uma espécie de mentor, com quem Jérémie teve uma ligação muito especial quando era mais jovem. Convidado para ficar hospedado na casa da família enlutada, ele é acolhido pela viúva (Catherine Frot), mas aos poucos desperta cada vez mais ciúme no filho do morto (Jean Baptiste Durand), com quem Jérémie demonstra indícios de ter um envolvimento mais do que amigável no passado. O visitante também aparenta ter grande proximidade com Walter (David Ayala), que evita as investidas do moço. No entanto, se o grande sucesso da carreira do diretor ficou conhecido por tudo que era explícito, em Misericórdia, ele faz graça com o implícito. Em momento algum é dito que Jérémie manteve relações sexuais com quaiquer daqueles personagens no passado, mas existem tantas insinuações sobre a vida sexual do rapaz que a plateia imagina que quem se envolveu (ou não) com ele, nutriu algum rancor por conta disso. Esse caldeirão de tensões emocionais/sexuais começa a ferver ainda mais quando um personagem desaparece e Jérémie precisa se virar para demonstrar inocência, sendo capaz até mesmo de fazer um acordo inusitado com um outro personagem que começa a demonstrar interesse por ele e está disposto até a lhe fornecer um álibi perante a polícia. O filme surpreende pela capacidade com que deixa as entrelinhas para a plateia preencher e faz graça ao mesmo tempo em que amplia o seu emaranhado de sentimentos contraditórios entre os personagens e, talvez, o mais contraditório de todos seja o próprio protagonista que não consegue sair daquele lugar que já abandonou (sabiamente) no passado. Trata-se de uma comédia de humor bastante singular e até incômodo, mas que não deixa de ser original pela forma com que trabalha o tempo inteiro com o poder da sugestão, ou seria da provocação? O filme está atualmente disponível no Filmicca.  

Misericórdia  (Miséricorde / França - Espanha - Portugal / 2024) de Alain Guiraudie com Félix Kysyl, Catherine Frot, Jean-Baptiste Durand, Jacques Develay, David Ayala e Serge Richard. ☻☻☻☻ 

domingo, 25 de maio de 2025

PL►Y: Herege

Grant: labirinto retórico que funciona.
 
Duas jovens mórmons (Sophie Tatcher e Chloe East) batem de porta na busca novos fiéis para sua religião. Entre ridicularizações que parecem testar a fé das duas, elas costumam conversar nas visitas que realizam afim de esclarecer dúvidas que possam ter sobre a religião da qual são devotas. Elas nem imaginam no início de uma terrível tempestade elas baterão na porta de Mr. Reed (Hugh Grant). Ele mostra-se bastante simpático e receptivo, até menciona que a esposa fez uma torta para receber as meninas. Conversa vai, conversa vem, a mulher do homem nunca aparece. As perguntas parecem cada vez mais provocativas e algumas mentiras, do antes simpático Mr. Reed, começam a ser reveladas. Durante a melhor parte de Herege, o que temos é uma interessante discussão sobre religião e fé. O trio principal deixa a conversa sempre estimulante e constrói um elaborado labirinto retórico aos olhos e ouvidos do espectador. Os diretores Bryan Woods e Scott Beck conseguem manter o interesse do espectador em uma tensão crescente que desperta aquela curiosidade por onde aquela situação irá chegar. Os dois têm o crédito por participarem da elaboração de Um Lugar Silencioso (2018), mas também possuem culpa no cartório por estrearem na direção com aquela bomba Ameaça Pré-Histórica (2023) estrelada por Adam Driver. Isso diz um pouco sobre a estrutura do filme, que vai muito bem até um pouco além da metade, mas se perde quando começa a delirar demais, deixando o suspense e a bela retórica de lado e descamba para um terror de apelo trash. Deixa a impressão de que os dois não acreditavam que o filme daria conta do recado somente com as reflexões que provocam nas duas devotas (e na plateia) que se veem prisioneiras do jogo doentio de um homem misterioso. É verdade que os jovens talentos de Sophie Tatcher e Chloe East tem papel importante em nosso envolvimento com a história, afinal, nos importamos com as duas desde a primeira cena. No entanto, os maiores elogios foram para Hugh Grant. Muitos críticos consideraram que a melhor interpretação da carreira do veterano está neste filme. Indicado a vários prêmios por sua performance (incluindo o BAFTA, o Critic's Choice e Globo de Ouro) é interessante ver como o ator, que figurou entre os maiores galãs da Inglaterra dos anos 1990 soube assumir as rugas e os cabelos brancos, sabendo reconfigurar seu sorriso e expressões para dar vida a um tipo tão ameaçador. Obviamente que o ator utiliza seu charme de sempre para convencer aquelas meninas de que não é um mal sujeito, para logo depois, mostra-se um completamente insano. Essas oscilações do personagem faz até a plateia esquecer das escorregadas que o filme possui para criar um desfecho tão elaborado quanto insatisfatório. Herege seria um filme muito melhor se mantivesse sua discussão sobre a escolha de uma religião e a fé envolvida nisso.

 Herege (Heretic / EUA - Canadá / 2024) de Bryan Woods e Scott Beck com Hugh Grant, Sophie Tatcher, Chloe East, Topher Grace, Elle Young e Elle McKinnon. ☻☻☻

terça-feira, 29 de abril de 2025

PL►Y: Matt & Mara

Matt e Deragh: relacionamento do passado no presente.

Mara (Deragh Campbell) é uma professora de escrita criativa que tem um relacionamento estável com o esposo músico, Samir (Mounir Al Shami), junto os dois tem uma filha, a pequena Avery. Entre os compromissos com a profissão e a vida em família, Mara fica visivelmente animada com a visita inesperada de Matt (Matt Johnson), um amigo dos tempos de faculdade e possível amor do passado. Tão logo o amigo aparece, os dois começam a sair juntos e conversar, sem ressentimentos ou maiores pretensões. No entanto, torna-se visível que Mara passa a repensar algumas questões sobre sua vida atual. Vale destacar que Matt se tornou um escritor relativamente conhecido e oferece uma aura diferenciada às aulas da amiga. O diretor Kazik Radwanzki (que assina o roteiro ao lado de Samantha Chater) filma o encontro entre os dois personagens como se estivéssemos ao lado deles, xeretando suas conversas, espionando seus olhares, os gestos contidos (outros nem tanto) e, mesmo que a maioria das conversas pareçam completamente triviais, as performances de Deragh e Matt deixam claro o quanto há de sentimento entre Mara e Matt. Existe uma inquietação entre os dois que transborda aquela sensação de tudo que poderia ter sido e não foi, mas ao mesmo tempo, fica a sensação da incerteza dos caminhos disponíveis (é obviamente que a resposta correta não existe). Por conta disso, existem aquelas cenas que dizem muito mais do que aparentam, seja aquela cena em que ela diz em uma loja que é Matt é seu marido, ou aquele momento em que ela surpreende o amigo sem camisa antes do banho (e incrível como o comediante Matt Johnson é completamente fora dos padrões e consegue deixar o personagem atraente com sua aparente imaturidade) ou a cena em que Mara corre à frente do esposo enquanto saem para caminhar. Para ajudar no contraponto da relação entre o casal de amigos, temos Emma (Emma Healy), a amiga da protagonista que comenta nuances daquele relacionamento com o velho amigo que ela parece incapaz de notar. Mal comparando o filme lembra um pouco a ideia de Vidas Passadas (2023) e por coincidência os dois filmes são feitos por cineastas canadenses, a diferença é que o filme de Celine Song opta por um viés mais melancólico e se ocupa mais com o desenho dos personagens, Kazik prefere deixar tudo com um jeitão de improviso, com a câmera sempre muito perto dos personagens e um corte nervoso de uma cena para a outra. Parte do charme que tornou o filme cult em festivais (incluindo Berlim e Toronto) nasce exatamente deste formato. No entanto, alguns espectadores podem achar que nada de relevante acontece durante o filme - um grande engano. O longa está disponível da MUBI. 
 
Matt & Mara (Canadá / 2024) de Kazik Radwanzki com Deragh Campbell, Matt Johnson, Mounir Al Shami, Avery Nayman e Emma Healy.

sábado, 12 de abril de 2025

PL►Y: O Quarto ao Lado

Tilda e Julianne: amigas até o fim.

As tentativas de levar Almodóvar para filmar em Hollywood foram muitas. Elas começam lá nos anos 1980, mais precisamente quando seu Mulheres à Beira e um Ataque de Nervos (1988) conquistou o público do Tio Sam e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O filme não levou o prêmio, mas Pedro ganhou alguns milhões a mais ao vender os direitos de uma refilmagem para Jane Fonda que o convidou a fazer a nova versão e ele apenas disse não estar interessado. Tempos depois ele foi premiado na categoria com o excelente Tudo Sobre Minha Mãe (1999), um verdadeiro clássico que marcou uma guinada na carreira do diretor.  Com seu nome em alta, Almodóvar foi convidado a dirigir Brokeback Mountain (2005) e negou a oportunidade. Em 2012 ele estava prestes a adaptar The Paper Boy de Pete Dexter, mas não ficou muito empolgado e cedeu o lugar para Lee Daniels. Almodóvar passou a exercitar seu trabalho em língua inglesa em curtas metragens, em A Voz Humana (2020) chamou Tilda Swinton para dar apoio e no seguinte, Estranha Forma de Vida (2023) soube capitalizar muito bem o apelo do muso Pedro Pascal ao lado de Ethan Hawke como ex-amantes em um faroeste promissor (e que remetia diretamente ao que o cineasta teria feito em Brokeback Mountain). Era inevitável imaginar que o diretor soltaria em breve um longa metragem em língua inglesa. Ele o fez e o lançou no Festival de Veneza do ano passado, de onde saiu com o Leão de Ouro de melhor filme, desbancando filmes badalados como Ainda Estou Aqui e O Brutalista. Foi um baita exagero. Ainda que o filme conte com uma estética de encher os olhos, valorizada pela fotografia belíssima e conte com duas atrizes do calibre de Tilda Swinton e Julianne Moore no alto dos créditos, o filme não convence (tanto que foi praticamente esquecido nas premiações). A trama (baseada no livro O Que Você Está Enfrentando de Sigrid Nunez) conta a história de duas amigas que não se encontram há muito tempo. Ingrid (Julianne) é uma escritora que possui problemas em lidar com a morte (o que se torna a inspiração para seu novo livro) e quando descobre que sua amiga Martha (Tilda) enfrenta um tratamento contra o câncer, decide reencontrá-la. As duas já viveram muitas histórias juntas, mas a escritora nem faz ideia de que a amiga decidiu terminar com a própria vida e conta com sua ajuda para realizar o plano de tirar a própria vida. Existe um mundo de possibilidades a serem exploradas na trama, mas em sua primeira experiência com a língua inglesa, Pedro sofre com um roteiro duro. A dureza aparece não devido ao tema, mas aos diálogos empolados que causam estranhamento durante toda a sessão, afinal, ninguém fala daquele jeito. Dá até pena de ver as atrizes brigando com um texto tão esquisito. Este ponto drena toda a emoção que o filme precisava. Parece que ao lidar com uma língua a qual não tem muita familiaridade, Almodóvar criou um dos seus filmes mais engessados. Impossível não imaginar como seria o filme em espanhol promovendo um reencontro de suas musas (imagine Victoria Abril e Rossy de Palma juntas em cena?). Apesar do profissionalismo de Tilda e Julianne, O Quarto Ao Lado só arranha a emoção que pretende evocar. 

O Quarto ao Lado (The Room Next Door / Espanha - EUA - França / 2024) de Pedro Almodóvar com Tilda Swinton, Julianne Moore, John Turturro, Alessandro Nivola, Victoria Luengo, Alex Høgh Andersen e Alvise Rigo.

sábado, 22 de março de 2025

PL►Y: Um Lugar Silencioso - Dia Um

Quinn, Lupita e Frodo: um filme com coração.
 
Acho que já ficou claro que nada será comparável com o primeiro Um Lugar Silencioso (2018), o surpreendente filme dirigido e estrelado por John Krasinski e sua esposa, Emily Blunt (que estava estupenda em cena). Tive a honra de assistir ao filme no cinema e a sensação daquela necessidade de silêncio em uma sala escura era indescritível. Era interessante como o filme subvertia uma regra do cinemão de Hollywood: que o público odeia o silêncio nos filmes. Krasinski nos fez lembrar como o silêncio é necessário, sobretudo para ampliar a tensão de uma narrativa. O filme foi um sucesso, gerou uma sequência que contava os rumos da família após os acontecimentos do primeiro longa, mas também um pouco de como foram aquelas minutos iniciais com a chegada das criaturas sanguinárias de ouvidos ultrassensíveis. No entanto, enveredar por uma outra sequência poderia desgastar a fórmula antes do que deveria. Eis que tiveram a ideia de contar uma prequel, mas com outros personagens daquele universo. Diante da proposta de ampliar a franquia, considero que foi um grande acerto escalar Michael Sarnoski para escrever o roteiro e dirigir o novo filme. O rapaz foi responsável por uma das gratas surpresas de 2021, Pig (filme que provou sozinho que Nicolas Cage ainda era um baita ator). O cineasta já demonstrava ali que sabia lidar com cenas dramáticas sem errar a mão nos momentos de ação e aqui, não faz diferente. Aqui ele não exagera na correria e sabe exatamente onde colocar o coração do filme: nos personagens. Portanto, torna-se fundamental fazer escolhas certas e ele faz ao colocar Lupita Nyong'o como protagonista. Ela vive Sam, uma mulher que tem câncer em estado terminal. Desiludida e um tanto amarga, ela não tem esperanças de que sua situação melhore. Enquanto um grupo do qual faz parte vai para um teatro de marionetes em Nova York, Sam tenta convencer o enfermeiro responsável (Alex Wolff) a deixa-la comer uma pedaço de pizza em uma pizzaria específica da cidade. Antes que ela consiga convencê-lo, a cidade será atacada por aqueles monstrengos que já vimos nos filmes anteriores. Sempre acompanhada de seu gato, Frodo (um dos pets mais expressivos que apareceram nas telas recentemente), ela irá tentar manter-se viva, enquanto o mundo se torna um monte de ruínas ao seu redor. Ela poderia passar o filme somente com o seu gato, mas Eric (Joseph Quinn) cruza seu caminho implorando por ajuda. Ele veio para Nova York estudar direito, a família vive na Inglaterra e sem ter com quem contar, a sisuda Sam torna-se sua melhor opção. Os dois irão desenvolver uma amizade que garante ótimos momentos no filme. Sempre que vejo Lupita na tela, ela me proporciona um encantamento que me faz perguntar, como uma atriz deste quilate não aparece em mais produções? Ela carrega toda a tristeza da personagem no olhar desde a primeira cena e prossegue na construção de um arco narrativo comovente até o desfecho catártico. Quinn também está ótimo ao demonstrar, sem pudores, toda a vulnerabilidade do seu personagem e espero que continue aparecendo na telona com bons trabalhos. Também não posso esquecer do gatinho, que mantém a tradição de Sarnoski em abordar os laços entre seus personagens com animais de estimação e o que eles representam. Muita gente não se empolgou com o filme porque queriam explicações sobre os monstros (ai gente, precisa? Que diferença faz?), mas fiquei satisfeito com o que o longa tem a oferecer ao contar uma boa história de amizade e sobrevivência em meio ao caos. Isso é mais do que muito filme badalado teve a oferecer em 2024. 

Um Lugar Silencioso - Dia Um (A Quiet Place - Day One / EUA - 2024) de Michael Sarnoski com Lupita Nyong'o, Joseph Quinn, Alex Wolff, Djimon Housson e Alfie Todd. ☻☻

domingo, 16 de março de 2025

PL►Y: A Vilã das Nove

Karine e Laura:  minha vida daria uma novela.

Em um episódio da sexta temporada da série Black Mirror, uma mulher  tem sua vida virada de cabeça para baixo quando percebe que um programa de televisão a tem como personagem principal. A ideia (genial) serve para desdobramentos que envolvem questões que vão para além das questões entre o público e a privacidade, enveredando por discussões sobre inteligência artificial que se assemelham bastante às preocupações que provocaram a greve dos atores em Hollywood em 2023 (o mesmo ano em que foi ao ar o tal episódio). Um ano depois chegou aos cinemas brasileiros a comédia dramática A Vilã das Nove de Teodoro Poppovic, que tem um ponto de partida muito parecido com o visto na cultuada série da Netflix. No entanto, ao que parece, a ideia do filme brasileiro surgiu primeiro, mas com a morosidade para conseguir financiar o longa ele chegou às luz do público somente agora. O filme conta a história de Roberta (Karine Teles), uma professora de canto que se separou recentemente e vive com a filha, Nara (Laura Almeida) em um pacato apartamento. Nas cenas iniciais já vemos sugestões de que a vida tranquila da personagem pode esconder um segredo, já que o ex-marido, Cassio (Negro Leo) indaga sobre o passado da personagem e no início ela é confundida com uma tal de Eugênia enquanto passeia com a filha (gerando uma reação mais aguerrida do que se espera). O motivo para tanto mistério pode estar em uma novela de sucesso ancorada em seus segredos do passado. Motivada a saber o que está por trás disso, ela acaba se envolvendo com a atriz principal (Camila Márdila) e reencontrando pessoas importantes que deixou para trás. O ponto de partida do roteiro é interessantíssimo e segue por caminhos totalmente diferentes do tal episódio da série... se por um lado a trama segue um caminho mais novelesco, por outro, o filme perde a chance de fazer suspense sobre o que está acontecendo em torno de Roberta, afinal já deixa explicado desde o início o que pode estar havendo quando a personagem de Alice Wegman surge em cena. O fato do filme também curtir uma repetição "diferente" de cenas (momentos do passado de Roberta e depois a cena da novela que os reproduz, a discussão do início do filme e o linchamento da atriz da novela) também deixa o filme um tantinho previsível pelos caminhos que percorre. Achei interessante o filme estabelecer uma atração entre Roberta e a atriz que a interpreta na novela, mas o desenvolvimento da relação entre as duas é abandonado no meio do caminho como muitas outras possibilidades do roteiro que aos poucos perde o frescor e a esperteza. A sorte é que Karine Teles é uma ótima atriz e segura a complexidade de sua personagem com grande desenvoltura do início ao fim. A Vilã das Nove pareça mais novela do que cinema. Vale pela curiosidade. 

A Vilã das Nove (Brasil/2024) de Teodoro Poppovic com Karine Teles, Alice Wegman, Camila Márdila, Laura Pessoa, Antônio Pitanga, Negro Leo, Rodrigo García, Murilo Sampaio e Otto Junior. 

PL►Y: Robô Selvagem

Roz e seu filho: a doce maternidade robótica.

 O ano de 2024 foi ótimo para as animações, reflexo disso foram as indicações ao Oscar da categoria que conseguiu mesclar produções de apelo comercial impressionante (basta lembrar do fenômeno Divertida Mente2), com outras menos conhecidas que ganharam maior projeção com a indicação (Flow e Memórias de Um Caracol) - além disso, outros trabalhos interessantes acabaram ficando de fora do páreo este ano (como o elogiado Look Back). Robô Selvagem se encaixa no primeiro grupo, arrecadou uma fortuna nas bilheterias mundiais, agradou a crítica e chegou forte na categoria de melhor animação no Oscar, sendo apontado várias vezes como o favorito (e o fato de ter sido lembrado nas categorias de melhor som e trilha sonora colaboraram ainda mais para o aumento dessa expectativa). O filme conta a história de um robô inteligente chamado Roz (voz original de Lupita Nyong'o) que devido a um acidente vai parar em uma ilha desabitada. Ele se depara com um mundo totalmente diferente do qual foi projetado, sendo recebido com hostilidade pelos bichos que habitam o lugar e enfrenta desafios para lidar com o meio ambiente local. A solidão do personagem é atenuada pela companhia da esperta raposa Fink (Pedro Pascal) e a chegada de um bebê ganso que ficara sob seus cuidados até que o pequeno saiba cuidar de si mesmo... pena que apesar da relação afetiva que existe entre o robô e o bebê, alguns preconceitos entre os habitantes locais e a máquina podem comprometer a alegria de ambos. Já vimos diversas vezes filmes que robôs são capazes de ter sentimentos e aqui não é diferente. Cheio de boas intenções e lições calorosas, Robô Selvagem se desenvolve amparado por um visual belíssimo (muito da estética é inspirada na construção de cenários e uso de cores dos estúdios Ghibli) e uma trilha sonora adocicada, que ajuda ainda mais ao filme se tornar emocionante com seu apelo e analogias à maternidade (além de abordar um pouco como a I.A. pode ser ameaçadora também). Tudo isso torna o filme tão bonito quanto fofo, porém, apesar da estética e do ritmo fluente, tive a estranha sensação de já ter visto a mesma história diversas vezes. Esta falta de novidade em sua essência pode ter sido decisivo na hora dos votantes escolherem Flow como a melhor animação no Oscar deste ano.  

Robô Selvagem (Wild Robot / EUA - Japão / 2024) de Chris Sanders com vozes de Lupita Nyong'o, Pedro Pascal, Kit Connor, Bill Nighy, Matt Berry, Ving Rhames, Mark Hamill e Catherine O'Hara. ☻☻

sábado, 15 de março de 2025

PL►Y: O Aprendiz

Strong e Sebastian: indicados ao Oscar em filme polêmico. 

 Sebastian Stan pode dizer que 2024 foi o ano de ouro de sua carreira. Premiado no Festival de Veneza por sua interpretação em Um Homem Diferente, o mesmo filme lhe rendeu o Globo de Ouro de melhor interpretação masculina em comédia ou musical. Reconhecido pelo trabalho em outras premiações independentes, Stan cogitava ser lembrado no Oscar pelo trabalho! Quando saíram as indicações ao maior prêmio de Hollywood, ele de fato estava lá, mas por outro trabalho o do jovem Donald Trump em O Aprendiz. O filme de Ali Abassi teve problemas de distribuição em solo americano e em outros países por conta de sua temática sobre a relação entre o jovem herdeiro do mercado imobiliário e o advogado e mediador político Roy Cohn (vivido aqui com grande estranheza por Jeremy Strong, que foi lembrado na categoria de ator coadjuvante) durante os anos 1970 e 1980. Obviamente que perante a recente eleição dos Estados Unidos, o filme poderia receber grande projeção (ou rejeição), além de uma promoção gratuita com todos os xingamentos que Trump e seus seguidores destinaram ao filme. Mais interessante do que ficar discutindo o que é verdade ou mentira nas situações apresentadas na produção é perceber no roteiro do estreante Gabe Sherman os sinais de como Trump se tornou dono de um império e mais tarde se tornou um nome presidenciável em seu país. A proximidade entre Cohn e Trump começa quase que por acaso e ganha contornos para além dos negócios, afinal, foi Cohn que influenciou o acordo nupcial de seu famoso casamento com Ivana Trump (vivida por Maria Bakalova). Strong representa Cohn de forma repulsiva, com todos os preconceitos e discursos que infelizmente ouvimos sair de figuras influentes da política atual como se fossem trivialidade. Fica perceptível como a proximidade entre os dois ajudou a moldar o discurso de Trump e, mais do que isso, fazer com que ele percebesse que existiam intenções e discursos políticos que não poderiam ser ditos claramente, mas que era capaz de agregar seguidores em sua jornada rumo a postos de poder. Abassi opta por uma narrativa quase documental, como se estivesse espionando o que se passa naqueles encontros e situações com uma câmera na mão e fotografia datada. O tom segue discreto, mas por vezes soa como um grande deboche no humor que brota de cenas desconfortáveis. Os pares devem ter apreciado a coragem de Sebastian Stan para encarnar um personagem real tão conhecido explorando justamente as suas nuances menos lisonjeiras e, em alguns momentos, eu realmente não parecia ver o ator de Soldado Invernal em cena, mas uma versão jovem do sujeito em questão. Quem também merecia algum reconhecimento na temporada de prêmios era Maria Bakalova, que está ótima como a esposa que funciona como contraponto do universo ao seu redor (e que sofre as consequências por conta disso).  Em alguns momentos eu parecia ver um versão às avessas do filme anterior do diretor, O Tigre Branco (2021) que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado. Embora seja menos esperto que sua obra lançada pela Netflix, O Aprendiz está totalmente imerso em polêmica, o que pode ofuscar seus méritos como cinema. 

O Aprendiz (The Apprentice / EUA - 2024) de Ali Abassi com Sebastian Stan, Jeremy Stron, Maria Bakalora, Martin Donovan, Charlie Carrick, Mark Rendall e Joe Pingue ☻☻☻

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

PL►Y: Pisque Duas Vezes

Naomi: as férias dos seus pesadelos.

Fiquei muito curioso com a estreia de Zoë Kravitz na direção, boa parte da curiosidade era por conta de tantas críticas e comentários que não entregavam nada sobre o filme. O trailer em si não me empolgou, parecia só mais um filme de veraneio que misturava o tom cômico com suspense. Em cartaz no Prime Video, Pisque Duas Vezes mereceu uma olhada e se conseguiu me surpreender foi por conta de que em sua primeira hora eu só me perguntava o que eu estava fazendo diante de um filme aparentemente tão idiota. O filme gira em torno da figura de um bilionário cobiçado chamado Slater King (Channing Tatum) que tem a mídia toda voltada para ele. Eis que ele conhece a garçonete Frida (Naomi Ackie) em uma festa e a convida para passar alguns dias em sua ilha particular em que realizará uma festa com amigos. Frida leva até uma amiga, Jess (Alia Shawkat), para fazer companhia e as duas não acreditam que aquele convite seja real. Na tal ilha há tudo do bom e do melhor, além de muito álcool e drogas. No entanto, no passar dos dias, Frida começa a desconfiar que existe algo estranho pairando sobre aquilo tudo - e algumas cenas aparentemente soltas fazem com que o espectador comece a concordar com ela. Zoë Kravitz passa boa parte do tempo convencendo o espectador que o filme é uma grande bobagem, para logo depois revelar que debaixo de toda aquela festividade inconsequente se escondia uma trama assustadora de abusos e crimes. O roteiro assinado por Zoë e ET Feigenbaum oferece uma guinada digna de Jordan Peele e agrada os espectadores justamente por isso - e, vale registrar, que é impossível não lembrar das denúncias feitas a um determinado ídolo do hip hop que é acusado de práticas muito parecidas com a que vemos no filme (em tempo, o filme foi produzido e lançado antes de toda a polêmica envolvendo o dito cujo, mas é difícil imaginar que não houve uma inspiração em comentários que já circulavam há tempos no mundo artístico). Embora tenha uma coleção de rostos conhecidos no elenco, o destaque fica mesmo por conta da protagonista vivida por Naomi Ackie. A inglesa (indicada ao prêmio aqui do blog de atriz coadjuvante por sua performance em Lady Macbeth/2016) já chamou atenção de Hollywood quando encarnou a diva Whitney Houston em I Wanna Dance With Somebody (2022) e aqui comprova, mais uma vez, que é capaz de carregar um filme nas costas (e seu próximo passo será estrelar Mickey17 de Bong Joon Ho ao lado de Robert Pattinson). Embora eu considere que o filme se embole demais nos seus últimos minutos, Pisque Duas Vezes é uma estreia bastante promissora para a cineasta.

Pisque Duas Vezes (Blink Twice / EUA - 2024) de Zoë Kravitz com Naomi Ackie, Channing Tatum, Christian Slater, Allia Shawkat, Simon Rex, Adria Arjona, Haley Joel Osment, Levon Hawke, Trew Mullen, Geena Davis, Kyle MacLachlan e Cris Costa.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

PL►Y: Queer

 Starkey e Craig: em busca da ayahuasca perdida.

Assim que Queer foi anunciado, Daniel Craig se tornou um dos favoritos ao Oscar de melhor ator desse ano. A assinatura ilustre do italiano Luca Guadagnino só parecia ajudar, mas bastou o filme ser exibido no Festival de Veneza para que os ânimos em torno da adaptação da obra de William S. Burroughs (1914-1997) resfriassem (e o fôlego de uma indicação para Craig chegou somente até o Globo de Ouro). Adaptar o autor para qualquer outra mídia não é fácil, suas obras são narrativas em fluxo de consciência regada a alucinógenos, o que torna a tarefa de execução de um roteiro e tradução das palavras em imagens um desafio para qualquer um. David Cronenberg se aventurou por este universo quando resolveu adaptar a obra mais famosa do escritor, Naked Lunch (1991), e dividiu opiniões. Guadagnino sempre ressaltou em entrevistas que Queer (um livro lançado originalmente em 1985) é uma obra literária muito importante para sua vida, portanto, é compreensível que vejamos uma reverência à obra em alguns trechos que poderiam ter ficado de fora na transposição para o cinema. Queer conta a história de Lee (Daniel Craig), um expatriado dos EUA que se encontra na Cidade do México  após ser dispensado pela Marinha. Lee vive uma vida boêmia em bares, sempre a procura de um novo parceiro sexual. Eis que um dia ele conhece outro expatriado, o jovem Eugene Allerton (Drew Starkey), um rapaz pelo qual sente uma atração imediata. Só que o rapaz aparentemente não é homossexual e está sempre na mesma companhia feminina pelas noites da cidade. No entanto, Lee, está disposto a se envolver com ele, mesmo que seja por apenas uma noite. Guadagnino é um especialista em filmar o desejo entre seus personagens (basta lembrar que Me Chame Pelo Seu Nome/2017, o recente Rivais/2024 e o estranho Até os Ossos/2022) e aqui os melhores momentos estão naquelas cenas em que consegue ilustrar o pensamento do protagonista perante aquele que deseja. Os momentos em que as ações contidas convivem na tela com as intenções de Lee garantem o maior charme do filme, que aos poucos se rende a cenas cada vez mais tórridas entre Craig e Starkey. No entanto, a questão do desejo entre os dois se torna um verdadeiro dilema, já que Allerton ainda não sabe ao certo o que está acontecendo em suas emoções ao se relacionar com outro homem mais velho e experiente, além disso, os problemas de cada um (como o refluxo de Allerton e o envolvimento de Lee com as drogas) garantem a cota de situações para o filme resolver. O problema maior está no terceiro capítulo do filme. Quando os dois partem para a América do Sul atrás de uma droga alucinógena (e se encontram com a inglesa Lesley Manville bancando a xamã latina) o filme se perde completamente. Acredito que esta parte seja bastante fiel ao livro, mas da forma como foi encaixada aqui se torna bem próxima do desastre completo. Ainda que apele para alucinações, body horror e confissões reveladoras, beira o impossível manter o interesse pela narrativa nesta parte. Talvez optar por um corte para o futuro e apresentar o que houve em flashback fosse uma saída mais eficiente. Eu sei que Queer é um termo adotado para abordar a diversidade sexual, mas Guadagnino parece ter se rendido também aquele significado mais antigo na língua inglesa (relacionado à estranheza) ao fazer um filme que se perde no meio das intenções. A cena final (o epílogo) funcionaria muito melhor se a parte anterior não testasse a paciência do espectador com tanta devoção. Quanto a Daniel Craig, não foi dessa vez que o James Bond mais recente do cinema recebeu o reconhecimento que desejava.  Ninguém duvida que ele é um bom ator e que está bem em cena, mas faltou um cadinho de bom senso na execução do filme para que alcançasse voos mais altos na temporada de prêmios. Aos interessados, o longa está disponível no acervo da MUBI.

Queer (Itália - EUA / 2024) de Luca Guadagnino com Daniel Craig, Drew Starkey, Jason Schwartzman, Henrique Zaga, Colin Bates, Omar Apollo, David Lowery e Lesley Manville.

sábado, 11 de janeiro de 2025

PL►Y: Os Fantasmas Ainda se Divertem

Keaton e Winona: resgate de uma boa parceria. 

Pode se dizer que Os Fantasmas se Divertem (1988) é o longa de estreia de Tim Burton como autor, já que seu primeiro filme feito para o cinema foi de encomenda dedicado ao popular personagem Pee Wee. Em sua estreia autoral, ele chamou atenção principalmente pelo visual pop-gótico e a trama totalmente pirada que brincava com os filmes de terror. É até estranho imaginar que o filme rendeu a Burton o convite de dirigir a famigerada primeira adaptação de Batman (1989) para o cinema, no qual, ele levou o protagonista do seu primeiro sucesso para o alto dos créditos. Trinta e seis anos depois do sucesso cinematográfico, Burton resgata seus personagens em um clima de matinê nostálgica que deve agradar somente os fãs do diretor. Se no primeiro filme o casal Adam e Barbara (Alec Baldwin e Geena Davis que infelizmente não voltam para a sequência) se mudam para uma casa mal assombrada precisando lidar com um demônio chamado Besouro Suco (Michael Keaton) e, depois, com os novos moradores da casa, Delia (Catherine O'Hara), Charles (Jefffrey Jones) e Lydia (Winona Rider). O resultado é pura sandice. Na sequência, o texto prefere mostrar o que aconteceu com adolescente Lydia depois daqueles acontecimentos bizarros. Em Os Fantasmas Ainda se Divertem, Lydia se tornou apresentadora de um programa de televisão que apela para a paranormalidade. Embora ela não seja uma médium exatamente como sua audiência acredita, ela volta a ser assombrada por Besouro Suco quando ela está prestes a se casar com Rory (Justin Theroux). O longa funciona como um reencontro com personagens queridos do primeiro filme, apelando também para o carisma de seus atores veteranos. Michael Keaton parece ter interpretado o monstrengo ao longo de toda vida, já que imprime a mesma base caótica de sua interpretação original. Winona Ryder também está ótima como uma versão madura de Lydia, desta vez com as responsabilidades de ser mãe de uma adolescente, a Astrid (Jenna Ortega), e ainda ter que zelar pela sua madrasta viúva e destemperada (Catherine O'Hara também voltou com gosto para a sequência). O maior problema do filme é que para dar conta de uma hora e quarenta e cinco minutos de projeção,coloca-se assuntos demais para a serem trabalhados, dando um aspecto pouco lapidado à trama. Além de Besouro Suco atazanando Lydia, ele também precisa dar conta de uma mulher fantasmagórica apaixonada pelo espírito zombeteiro (vivida por Monica Belucci) e o envolvimento de Astrid com Jeremy (Arthur Conti), um jovem que guarda um terrível segredo. A trama avança sem muito sentido, mas ampliando aquele mundo dos mortos que já vimos no filme anterior e que Burton já explorou também em outro sucesso, A Noiva Cadáver (2005) que não deixa de ser uma referência para este filme também. Em termos de graça, a sequência perde para o orginal, talvez por não ter o sabor de novidade ou o frescor que Burton trazia em seu início de carreira. Aqui, volta a sensação de que o estilo do diretor se tornou uma camisa de força para sua cinematografia, mas pelo menos existe a desculpa de ser uma volta às origens. 

Os Fantasmas Ainda se Divertem (Beetlejuice Beetlejuice / EUA -2024) de Tim Burton com Michael Keaton, Winona Ryder, Jenna Ortega, Justin Theroux, Willem Daffoe, Catherine O'Hara, Monica Belucci e Arthur Conti. ☻☻