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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Na Tela: Attila Marcel

Paul: quebra-cabeça da memória. 

Diretores que deixam a animação para lidar com atuações de carne e osso costumam tropeçar ao não perceber que alguns recursos narrativos podem funcionar melhor num universo de fantasia. A crítica tem assistido Attila Marcel com grande desconfiança, afinal, marca a estreia em longa metragem live-action do cineasta Sylvain Chomet com atores de verdade (antes ele havia dirigido uma das histórias de Paris, Eu Te Amo/2006). Chomet lida com um filme cheio de referência, nem sempre costuradas com a competência de quem criou animações inesquecíveis como As Bicicletas de Belleville/2003  e O Mágico/2010. O filme conta a história de Paul (Guillaume Goix), um pianista mudo que vive com duas tias idosas desde que seus pais morreram de forma inexplicável. As esquisitices de Paul remetem aos de Amélie Poulain (2001), mas a culpa é mesmo do cuidado exagerado de suas tias Annie (Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague falecida em 2013) e Anna (a veterana Héléne Vincent), que parecem guardar um segredo sobre a morte dos pais do moço. Atormentado por pesadelos e cansado de viver tocando piano em saraus e aulas de dança, Paul encontra na estranha vizinha Madame Proust (Anne Le Ny) algumas respostas para seus dilemas - vale ressaltar que as respostas estavam o tempo todo escondidas em sua memória. Chomet desenvolve assim uma espécie de quebra-cabeças sobre a identidade de Paul. Esse mergulho nas memórias do personagem tem alguns momentos interessantes e outros nem tanto. As cenas onde consegue desvendar um pouco mais da personalidade agressiva de seu pai - o lutador que dá título ao filme (que por sua vez é inspirado numa canção) - até funcionam em seu exagero caricato, mas o filme não deveria investir em cenas que parecem um musical pobre. Quando os personagens começam a cantar nos pensamentos do protagonista o efeito é o mesmo do chá misterioso que Madame Proust oferece a Paul. É melhor quando aparece uma banda de sapos nos momentos mais inusitados, ou a própria cantora da canção título. Existem outras passagens que remetem às animações de Chomet (o jantar que termina com cerejas em licor, a competição de música ao final da sessão, a casa cheia de plantas de Madame Proust, ou a cena da briga entre senhoras mostrado somente em sombras). Talvez se fosse uma animação, o filme seria mais harmônico, em live action parece um primo menos exuberante do cinema de Jean Pierre Jeunet ou uma versão pobre de Wes Anderson. No entanto, a história do rapaz que busca respostas sobre sua origem ainda pode encontrar fãs graças à ingenuidade fantasiosa que permeia todo o filme. 

Attila Marcel (França-2013) de Silvayn Chomet com Guillaume Goix, anne Le Ny, Bernadette Lafont e Héléne Vincent. ☻☻☻

segunda-feira, 30 de abril de 2012

FILMED+: As Bicicletas de Belleville

Bruno (o cão), Champion e Souza: só vendo, só vendo...

Eu ainda estava na faculdade quando uma amiga comentou ter assistido à animação francesa As Bicicletas de Belleville de Sylvain Chomet. Ela comentava com um deslumbramento que mais parecia uma espécie de transe e vivia repetindo que não sabia nem falar sobre o filme, dizia: "só vendo, só vendo". Eu acabei não vendo o filme nos cinemas e a outra referência que eu tinha era sua indicação ao Oscar de animação e ao prêmio de canção (pela chiclete Belleville Rendez-vous, que rendeu um dos números mais animados da história da premiação). Eu acabei vendo o longa há alguns anos quando achei o DVD numa daquelas bancas promocionais de loja de departamento e entendi totalmente o que minha amiga queria dizer. Só vendo. Mas vou tentar escrever sobre ele. Pra começar, Chomet confia tanto em sua capacidade de contar uma história com seu traço originalíssimo que dispensa diálogos pela maior parte da sessão, tudo se concentra bastante na força das imagens que deseja nos mostrar e sua conjugação perfeita com a trilha sonora, talvez por privilegiar tanto as sensações que suas imagens incomuns nos provocam, muitos consideram a trama de Belleville surreal. O traço lembra muito os livros infantis mais antigos - e as cores só ressaltam o aspecto envelhecido em sua paleta de tons predominantemente marrons. A trama conta a história de Champion, um garotinho que é cuidado pela sua avó, uma portuguesa chamada Madame Souza. Com o objetivo de alegrar o neto, ela lhe compra um cachorro, mas logo o animalzinho é esquecido pelo menino. Souza então percebe o interesse do menino por bicicletas e lhe compra um triciclo. Nessa parte o diretor evoca diretamente o clima da década de 1930 (embalado pelo sucesso de três irmãs cantoras de cabaret desses anos), mas tudo que era luminoso se torna sombrio quando a narrativa avança vários anos e apresenta uma cidade que cresceu sem planejamento, perdendo luminosidade e recebendo um aspecto bagunçado e até sombrio. Descobrimos que Souza treinou seu neto para ser um grande ciclista para participar da famosa competição Tour de France (e o traço inesperado de Chomet reserva um corpo esguio para Champion em contraste com as pernas grossas que se espera de alguém que treinou a vida inteira numa bicicleta), o problema é que ao participar da prova (com a ajuda de sua avó que fica apitando atrás dele como uma severa treinadora) o rapaz acaba desaparecendo, sendo sequestrado por misteriosos personagens vestidos de preto. Madame Silva então parte na missão de encontrar o neto ao lado do seu fiel cão de guarda. O diretor poderia investir no tom de aventura, mas prefere se dedicar a explorar as esquisitices que a esperta Madame Souza encontra pelo caminho numa cidade grande. Neste ponto o melhor momento é quando torna-se hóspede das famosas cantoras de Belleville - não vou nem contar como e o que elas pescam para o jantar, mas posso dizer que estranhamos como Souza não pode ler jornais, mexer na geladeira vazia ou no aspirador de pó na casa de suas anfitriãs. Enquanto descobrimos o sombrio motivo de Champion ter sumido, nos deparamos com um dos momentos musicais mais bacanas de todos os tempos - quando o trio de cantoras ressignificam objetos como instrumentos musicais, criando uma melodia que serve para a cena mais delirante e lírica de todo o filme (que se passa na mente do cachorro). Com uma cena de perseguição no final que mais parece um episódio do desenho Corrida Maluca, Sylvain Chomet termina seu filme como uma ode nostálgica (e ousada) à França que perpassa toda a trama sobre o amor de uma avó pelo seu neto. Vejo que minha amiga tem razão, o máximo que eu consegui fazer foi descrever um pouco a história, a melhor mesmo é captar toda a atmosfera do filme quando nos rendemos às esquisitices de Chomet (com referência à obra de Salvador Dalí) numa viagem para um universo estranho, que na verdade é uma releitura fabulosa do nosso. 

As Bicicletas de Belleville (Les triplettes de Belleville/França-Canadá-Bélgica-2003) de Sylvain Chomet com vozes de Michèle Caucheteux, Jean Claude Donda, Michel Robin e Monica Vegas. 

domingo, 29 de abril de 2012

DVD: O Mágico

O mágico e o seu companheiro: um mundo sem lugar para magias.  

O animador francês Sylvain Chomet ganhou o mundo quando realizou o diferente As Bicicletas de Belleville (2003) que foi indicado ao Oscar de animação e canção. Belleville já deixava claro que Chomet não estava disposto a se render aos recursos mais modernos da animação, preferindo os desenhos a mão. Seu traço também estava longe das linhas arredondadas e tons rosados dos filmes clássicos da Disney - e seu roteiro não se preocupa muito com as falas, deixando que elas apareçam raramente, de forma que devemos nos concentrar nas expressões faciais e físicas dos personagens criados por ele. A história flerta todo o tempo com o surreal e a força narrativa da trilha sonora combina sempre com as imagens  caprichadas. Enfim, Sylvain Chomet tem um estilo próprio de fazer cinema, de forma que ao colocarmos os olhos em uma de suas obras somos capazes de reconhecê-la instantaneamente (quantos cineastas são capazes disso?). Lançado em 2010 no Festival de Berlim, O Mágico chamou a atenção do público e da crítica, recebendo fôlego para concorrer ao Oscar de animação (o filme ainda ganhou o César de melhor animação e o Prêmio do Cinema Europeu na mesma categoria). Baseado numa obra inédita de Jacques Tati (escrita em 1957), Chomet conta a história de um velho mágico (com traços inspirados em Tati) que na década de 1950 percebe que existe uma mudança no mundo das artes. Trata-se dum período de menos contemplação e nascimento do Rock'n roll (a cena em que espera a banda The Britoons acabar o show rende boas risadas) com suas fãs histéricas - e seus números de tirar o coelho da cartola chama cada vez menos a atenção do público. Ele faz shows pela Europa sempre com a mesma impressão de que o mundo está mudando e que ainda não encontrou o seu espaço no meio de tanta transformação. É na Escócia que encontra uma jovem que se interessa por seus números e ela segue viagem com ele, fazendo-lhe companhia e dando um pouco de graça à uma vida deslocada - afinal, a única companhia do mágico era o seu temperamental coelho branco. É na relação de ambos que o filme caminha em seu segundo ato, sempre equilibrando melancolia com um humor sutil típico de Jacques Tati combinado ao de Chomet. O diretor capricha nos planos de fundo, deixando tudo como se Paris houvesse se transformado num belíssimo livro infantil. Mas nem tudo é belo como o cenário, o mágico tem que pagar as suas contas e percebe que para ganhar dinheiro precisa vincular seu trabalho cada vez mais com a propaganda e o consumo (chega a trabalhar fazendo mágicas com lingeries numa vitrine ou pintando outdoors com trapezistas num dos momentos mais geniais do filme). É visível o desconforto do personagem nesses momentos, acrescente o fato de sua amiga começar a namorar um vizinho e ver o triste destino de um ventríloquo e sua marionete que a situação se agrava ainda mais. Mesmo quem não curte o tom "artístico" do desenho irá reconhecer que todos os prêmios que Chomet receber serão merecidos, mas quem gostou do humor amalucado de As Bicicletas de Belleville irá estranhar a mudança quase brusca no tom, já que por trás de todas as gracinhas que vemos nas cenas, o filme fica cada vez mais deprimente quando o protagonista percebe que não há espaço para sua arte no mundo. São belíssimas as cenas em que o destino dos personagens tomam seus caminhos rumo ao final, especialmente na cena do vagão de trem, onde podemos sentir o dilema do mágico em alegrar uma criança com sua mágica ou não. Ainda que termine fazendo surgir um um nó em nossa garganta, O Mágico é mais um belo trabalho de Chomet.  

O Mágico (L'Illusionist/França-Reino Unido-2010) de Sylvain Chomet com vozes de Jean Claude Donda, Eilidh Rankin e Duncan MacNeil.