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domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: Apenas amigos

Josha e Majid: otimismo. 

Amoroso diáriw, eu sei que é bastante recorrente as críticas aos filmes de temática LGBTQIAP+ que reservam um destino cruel aos seus protagonistas (como se fosse uma punição à quem ousa ir contra a heteronormatividade), por isso mesmo, um romance queer água com açúcar é bem vindo, mas isso não o isenta de  tomar alguns cuidados em sua execução. Este é o caso de Apenas Amigos, um filme bem feitinho e simpático que arrisca abordar alguns temas atuais, mas se esquiva de aprofundar algumas questões que acabam retirando a complexidade que o seu par central possui. A trama gira em torno de Yad (Majd Mardo), filho de uma família Síria de imigrantes que abandonou a faculdade de medicina e passou um tempo em Amsterdam. Ele retorna para a casa e volta a dar aula de surf, além de fazer um extra cuidando da casa de uma senhora idosa (Jenny Arean). Acontece que a senhora tem um neto chamado Joris (Josha Stradowski) que é marrento e sofre com a perda recente do pai. Ambos se sentem um tanto deslocados e quando se conhecem o interesse entre os dois torna-se logo evidente. Esta parte do filme é desenvolvida como uma comédia romântica trivial que flui naturalmente, mesmo diante do notório preconceito da esnobe mãe de Joris que não faz ideia de que o rapaz que cuida da casa de sua mãe é namorado de seu filho. Pena que ao invés de abordar os conflitos pessoais de cada um, o filme resolve colocar o namoro em crise abruptamente no último terço de filme para resolver tudo de forma apressada e não muito criativa. O filme vai bem até a crise forçada e perde a chance de seguir por um viés mais original que poderia fazer seus personagens encararem os problemas de forma mais interessante. A sorte é que até escorregar numa fórmula gasta, o filme já recebeu nossa torcida para que os dois mocinhos tenham um final feliz, sem mortes, tragédias ou traumas. No fim das contas o diferencial aqui é o otimismo da dupla.

Apenas Amigos (Gewoon Vrieden / Países Baixos - 2018) de Annemarie van de Mond com Majd Mardo, Josha Stradowski, Jenny Arean, Tanja Jess e Melody Klaver. ☻☻☻

domingo, 19 de outubro de 2025

PL►Y: Chained for Life

Jess e Adam: a aparência identitária segundo Schimberg.  

Aaron Schimberg estreou na direção com Go Down Death (2013) filme indie em preto e branco que não conseguiu muita repercussão com sua narrativa de contos macabros. Um tanto mais palatável foi seu segundo trabalho, Chained for Life (2018) que traz alguns elementos semelhantes com Um Homem Diferente (2024), que apareceu em algumas premiações do ano passado. Em comum, os dois filmes tem o ótimo trabalho de Adam Pearson, um ator inglês com neurofibromatose (uma doença genética que causa o crescimento de tumores benignos no tecido nervoso). Se no filme do ano passado Schimberg contou a história de um ator que se submete à um tratamento experimental para se curar da neurofibromatose e embarca em uma crise de identidade, em Chained for Life temos um filme dentro do filme sobre um grupo de pessoas com particularidades físicas que buscam tratamento em um hospital liderado por um médico em busca de métodos revolucionários. A protagonista do filme (e do outro filme) é Mabel (Jess Weixler), cuja personagem cega que interpreta convive com os outros personagens sem saber exatamente a aparência de quem a cerca. Ela começa a ter um relacionamento especial com Rosenthal (Adam Pearson) no filme e o mesmo acontece com os dois atores que se tornam cada vez mais próximos. Fosse o filme só isso já seria interessante, mas Schimberg não se contenta e começa a inserir outras narrativas na produção, o que pode deixar a trama um tanto confusa para alguns, mas que também deixa o deixa mais interessante ao brincar com a percepção que o espectador tem do que assiste na tela. Acho que nem vale a pena citar como tudo se desenrola para não atrapalhar as surpresas que o filme reserva no meio do caminho, seja uma história paralela, um final alternativo e até um acidente arrepiante durante as filmagens. Sem dúvida Aaron Schimberg é um diretor para se ficar de olho, especialmente pela forma desafiadora como trabalha questões vinculadas à aparência e a identidade em tempos em que a imagem se tornou uma verdadeira obsessão com suas harmonizações e filtros digitais. Tanto em Chained for Life quanto em Um Homem Diferente temos personagens que percebem suas aparências como uma marca de sua identidade, de quem se é de verdade. Ainda que a citação de início provoque com sua alusão à importância da aparência dos atores para seu oficio, a narrativa por vezes a vira isso do avesso no filme e nos caminhos criativos que  os outros personagens sugerem no decorrer da história. No meio de tudo isso, Adam Pearson faz um trabalho realmente destemido. Acho muito interessante que ele tenha conquistado espaço no cinema após seu trabalho como o personagem mais tocante do gélido Sob a Pele (2013) e levando em consideração as intenções cada vez mais evidentes do cinema de Schimberg, ele se torna um muso sob medida. Chained for Life é um filme difícil de classificar por sua mistura de gêneros, o que não impede que seja muito interessante ainda que seu último ato seja menos interessante do que deveria. 

Chained for Life (EUA - 2018) de Aaron Schimberg com Jess Weixler, Aaron Pearson, Charlie Korsmo, Sari Lennick, Stephen Plunkett, Frank Mosley e Joaquina Kalukango. ☻☻☻☻

domingo, 3 de agosto de 2025

PL►Y: O Ano de 1985

Cory: fantasmas dos anos 1980. 

Ao final de 1985, Adrian Lester (Cory Michael Smith) resolve passar as festas de fim de ano ao lado da família que não visita há algum tempo. Obviamente que o retorno ao lugar que o viu crescer o fará reencontrar questões que fizeram parte de sua história e construção como indivíduo. Estão no mesmo lugar a religiosidade da família, a rigidez do pai (Michael Chiklis), a submissão da mãe (Virginia Madsen), a versão adulta do garoto que o perseguia na escola (Ryan Piers Williams), a amiga de infância (Jamie Chung) que não conversa com ele faz tempo... se tem alguma coisa que mudou naquele cenário é o irmão caçula, Andrew (Aidan Langford), que está prestes a entrar na adolescência e desenvolver seu próprio gosto pessoal - ainda que isso inclua gostar de ouvir Madonna para o horror de seu pai conservador. Apesar de toda educação e desenvoltura, Adrian está visivelmente desconfortável e nos momentos em que que está afastado da família, demonstra que tem algumas questões que ainda não consegue conversar com eles. Não é por acaso que o filme é ambientado em 1985, também não é ao acaso que toda hora alguém menciona um amigo chamado Leo que vive em Nova York, o fato é que O ano de 1985 é mais um filme que aborda as dificuldades em lidar com o surgimento da AIDS. Só que do macrouniverso que vimos em outras produções, este aqui parte para o microuniverso e a dificuldade de ser você, mesmo diante das pessoas que mais deveriam te amar num mundo cheio de preconceitos. Dirigido pelo malaio Yen Tan, O ano de 1985 é uma espécie de versão mais contida de É Apenas o Fim do Mundo, peça de Jean-Luc Lagarce que se tornou filme pelas mãos de Xavier Dolan em 2016, dois anos antes do lançamento desta produção independente pouco conhecida, mas que figurou em várias listas de melhores filmes daquele ano. Muito se deve  ao tom discreto da narrativa bastante sugestiva impressa pelo diretor, que ficou ainda mais mais valorizada com a fotografia em preto e branco que ao remete mais ainda à ideia de luto em um mundo em que as cores foram banidas. No entanto, o maior mérito da produção é Cory Michael Smith, um excelente ator que ficou conhecido pelo seu trabalho como o Charada da série Gotham, mas que já entregou performances memoráveis em sua carreira (sempre lembro dele como o aluno depressivo de Olive Kitteridge/2014 e recentemente ele encarnou Chevy Chase em Saturday Night/2024). O moço é um destes atores que impressionam sem precisar fazer muito e que mereciam mais atenção do público e da crítica. Sem a sensibilidade impressa por ele no personagem, o filme perderia vários degraus da intensidade que evoca. Vale destacar também o trabalho de Virginia Madsen no papel da mãe que é mais esperta do que pensam (aquela cena de despedida no carro é uma das coisas mais lindas e singelas que já vi). Disponível no Filmicca, o filme merece ser descoberto. 

O Ano de 1985 (1985 / EUA - 2018) de Yen Tan com Cory Michael Smith, Virginia Madsen, Michael Chiklis, Jamie Chung, Aidan Langford e Michael Darby. ☻☻☻☻

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

PL►Y: Charlotte quer se Divertir

Alex e Marguerite: guerra dos sexos na loja de brinquedos.

Charlotte (Marguerite Bouchard) é uma adolescente de 17 anos que planeja ter sua primeira noite de amor com o namorado. Ela se preparou bastante para este momento, só que não acontece nada como o esperado. Decepcionada, ela conta com suas melhores amigas Mégane (Romane Denis) e Aube (Rose Adam) para consolar e passar o tempo fumando, bebendo e usando substâncias ilícitas. Só que as três percebem que passar o tempo fazendo isso não as levará a lugar algum. Em busca de dinheiro extra, as três resolvem se inscrever para vagas de emprego em uma loja de brinquedos e ficam muito animadas quando as três são chamadas para trabalhar. Se ganhar um dinheiro extra pode ser interessante, Charlotte acha ainda mais interessante os rapazes que trabalham por lá. Disposta a provar para si mesma que é uma garota desejável, ela resolve não desperdiçar a chance de se envolver com quem lhe parecer interessado. Não chega a ser algo planejado, mas movida pelo estranho sentimento de rejeição, ela se aproveita do interesse que todos os rapazes nutrem por ela, ainda que ela tenha uma predileção por Antoine (Alex Godbout). O problema é quando todo os funcionários começam a comentar o jeito, digamos, "liberal" de Charlote levar sua vida sexual. Ela descobre então da pior forma que os parâmetros para lidar com a liberdade sexual é completamente diferente quando se trata de moças e rapazes. Além de ter que lidar com as piadinhas entre os meninos e a rejeição das colegas de trabalho, Charlote começa a elevar a guerra dos sexos no local de trabalho a outros patamares. Este filme canadense dirigido por Sophie Loráin com roteiro de Catherine Léger é uma delícia de assistir! Especialmente pela forma esperta como subverte as expectativas do espectador que imagina estar diante de mais uma história de adolescentes com hormônios doidos para iniciar a vida sexual, este é apenas um ponto de partida para um roteiro bem construído sobre modelos de comportamento que são utilizados para disfarçar sentimentos que são bem mais complicados de lidar - o que não deixa de ser uma forma de viver (ou adiar) o próprio amadurecimento (não por acaso a trama é ambientada em uma loja de brinquedos e os adultos são aparições raras ao longo da história). Existem momentos muito divertidos, como aqueles em que todos começam a aderir a alguma campanha para arrecadar fundos junto aos clientes da loja, o momento em que Mégane percebe que recebe apenas dez dólares por hora trabalhada ou quando se descobrem os joguinhos de sedução entre os colegas de trabalho. O elenco atua em uma sintonia perfeita, mas deixa o destaque para Marguerite Bouchard que está ótima na pele da protagonista. Fazendo pensar sobre a forma como o discurso de liberação sexual feminino continua sendo mais aceito no campo do discurso do que na prática e, ainda assim, provocando risadas na plateia, Charlotte Quer Se Divertir se torna uma verdadeira pérola escondida no catálogo da Filmicca. Além de toda a sua eficiência narrativa, o filme ainda conta com um dos créditos finais mais irresistíveis da história do cinema. Vale a pena procurar. 

Charlotte Quer se Divertir (Charlotte a du Fun/ Canadá - 2018) de Sophie Lorain com Marguerite Bouchard, Romane Denis, Rose Adam, Alex Godbout, Audrey Roger, Vassili Schneider, Claudia Bouvette, Nicolas Fontaine e Alexandre Cabana. ☻☻☻☻

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

CICLO VERDE E AMAELO: Morto Não Fala

Daniel e seus fantasmas: falando com gente morta.
 
Stênio (Daniel de Oliveira) é o plantonista noturno de um necrotério. Nas primeiras cenas vemos que ele conversa com os sujeitos que chegam mortos para que possa executar seu trabalho, de início achamos até engraçado ao cogitar que tudo não passa de algo que ele faz para passar o tempo e aliviar a atmosfera pesada do lugar, mas depois que ele liga para a esposa de um falecido após receber o número de telefone pelo próprio, percebemos que aquilo não é fruto da imaginação do rapaz. Chega a dar um arrepio esta primeira guinada que o filme, mas ela é só uma amostra tranquila de tudo que acontecerá na vida de Stênio. Morto Não Fala é o tipo de filme que quanto menos você souber, melhor. Eu mesmo me esquivei de toda informação que pudesse ter sobre ele, o que foi muito difícil já que todo mundo que o assistiu o aprecia demais, até mesmo pessoas que não curtem histórias de terror. O terror ainda é um gênero pouco respeitado no cinema brasileiro, mas o que o cineasta Dennison Ramalho faz aqui é de se aplaudir. A começar pela forma com que ele vira a vida de Stênio de cabeça para baixo pelo uso indevido de seu dom. A motivação para este deslize é alavancar uma trama de vingança, que gera um efeito colateral irremediável em sua realidade. Stênio não esperava que aquela vingança cairia sobre ele e sua família feito uma maldição, colocando em risco quem quer que esteja perto dele. É um verdadeiro festival de surpresas em uma espiral de problemas que não fazemos ideia de onde irá parar. Há de se elogiar também mais uma atuação memorável de Daniel de Oliveira, que sabe desenvolver cada degrau que seu personagem rumo à desgraça, assim como o trabalho de Fabíula Nascimento para tornar sua personagem em uma megera assustadora. Com narrativa dinâmica, ambientações sujas e um uso curioso de efeitos visuais e sonoros, Morto Não Fala se torna uma verdadeira descida ao inferno que se tornou a mente de seu protagonista. O longa segue firme rumo à uma das últimas cenas mais assustadoras do cinema brasileiro. Aquele momento em que Stênio anda pela rua, com os mortos caminhando calmamente atrás dele é de arrepiar. Num delírio interpretativo, é como se o menininho de O Sexto Sentido (1999) crescesse, fosse trabalhar em um necrotério e fizesse tudo errado com sua vida. Morto não Fala é uma grata surpresa do nosso cinema e uma pérola do gênero que tem tudo para se tornar um verdadeiro cult. 
     
Morto Não Fala (Brasil - 2018) de  Dennison Ramalho com Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento, Marco Ricca, Bianca Comparato e Annalara Prates. ☻☻☻☻

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Temporada

 
Grace Passô: uma mulher em recomeço. 

Juliana (Grace Passô) acabou de ser aprovada para um concurso público de agente de saúde. Ela irá trabalhar no combate a endemias na periferia de Contagem na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela então se organiza para deixar a sua cidade, Itaúna, para começar uma nova fase em sua vida. Visivelmente apreensiva diante da mudança, ela arruma um lugar para ficar e se organiza para que em breve o esposo venha morar com ela, afinal, ele já queria sair do emprego e recomeçar em outro lugar. Juliana é de poucas palavras, mas aos poucos começa a estreitar seus laços com os colegas de trabalho e deixar se levar pela jornada que se anuncia. Porém, ela nem imagina que a temporada em que vive sozinha em Contagem irá render mais mudanças do que imagina. Dirigido por André Novais Oliveira,  o filme reza direitinho na cartilha da produtora Filmes de Plástico, do qual ele é um dos sócios fundadores, e entrega um filme que parece um recorte da vida de uma personagem real. A câmera por vezes parece escondida e registrar um documentário da realidade daqueles profissionais, a visita aos quintais que mal cuidados, as precauções para não serem surpreendidos por um escorpião, as cotas de trabalho, os dias de chuva, os moradores nem sempre bem humorados que os recebem... esses elementos servem para oferecer um tempero a mais no desenvolvimento da nova fase na vida da protagonista que tem lá suas cotas de dramas pessoais a superar. Lidando com as tristezas e alegrias do cotidiano da personagem, o filme possui uma atmosfera otimista e não perde o bom humor mesmo quando as situações poderiam render situações melodramáticas. Em um elenco em sintonia perfeita, emerge a atuação brilhante de Grace Passô (eleita melhor atriz no Festival de Brasília) como uma mulher em reconstrução que aceita os novos desafios que aparecem em sua vida sem medo de assumir a direção da própria vida. Embora o filme perca um pouco do ritmo em sua meia hora final, Temporada consegue a proeza de ser realista sem soar artificial. O ideal de recriar diante de uma câmera a vida real funciona nas mãos do cineasta André Novais que apresenta aqui seu segundo longa metragem (fiquei até curioso em procurar o primeiro, Estado de Sítio/2011). Assim como no cotidiano de uma pessoa comum, eu me emocionei e sorri perante a vida dos personagens que surgem na tela. Com paisagens nada  idílicas, personagens de vidas simples, sem luxos e grana curta, o filme constrói uma verdadeira joia do cinema nacional escondida no catálogo da Netflix. 

Temporada (Brasil/2018) de André Novais Oliveira com Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo, Juliana Abreu e Renato Novaes. ☻☻☻☻

domingo, 9 de julho de 2023

PL►Y: Em Trânsito

Franz e Paula: amor em tempos fascistas. 

Georg (Franz Rogowski) tinha a missão de guiar um escritor para fora da França após a ocupação fascista por lá. O escritor planeja ir para o México com sua esposa e devido a um imprevisto, Georg acaba assumindo a identidade do escritor perante a embaixada. O que era uma missão, acaba se tornando um plano para fugir do continente europeu antes que o regime totalitário impeça de vez a saída de países em que chega ao poder. Nem tudo sai como o planejado para Georg. Além de ter que convencer que é de fato o tal escritor, Georg ainda precisa provar que não representa uma ameaça para o regime a sua saída de Marselha. Como se isso não bastasse, uma mulher vive cruzando o seu caminho, Marie (Paula Beer). Embora esteja acompanhada de seu amante, Richard (Godehard Giese), ela está desesperada na busca por seu esposo, que estava sumido, mas agora ela recebeu a notícia de que ele está na cidade em busca de sua autorização para sair da Europa. Em Trânsito foi considerado o Melhor Filme do Festival de Berlim em 2018, levando o Urso de Ouro para casa com uma história sem época definida, que remete ao passado, mas que, infelizmente, também pode apontar para o futuro. O diretor Cristian Petzold embaralha a história de seus personagens que estão em rota de fuga, mas que por algum motivo sempre ficam presos no lugar em que estão, a sensação é que estão prestes a testemunhar o pior que está por vir. Obviamente que o filme remete diretamente a ascensão de Hitler na Alemanha e a sensação de desespero de quem desejava estar bem longe dali enquanto a escalada totalitária só crescia, mas Petzold faz questão de não localizar sua trama no tempo, denotando que aquela situação ainda é uma ameaça em qualquer período.  Franz Rogowski está ótimo mais uma vez em cena, assim como Paula Beer, numa química sutil que repetiriam em Undine (2020) do mesmo diretor, e aqui também paira sobre os dois a sensação de que toda a história de amor que poderiam viver está fadada ao fracasso desde o início. No entanto, conforme caminha para o desfecho, Petzold acentua isso quando acreditamos estar próximos de um final feliz e o destino revela algo que só aumenta a culpa do protagonista. Não por acaso, Petzold apresenta o filme como a última parte de uma trilogia chamada Amor em Tempo de Sistemas Opressores, que é formado por Barbara (2012) e Phoenix (2014). Em Trânsito, com sua estética contemporânea e seus romances perdidos atemporais, prende a atenção ao reconstruir um pesadelo histórico que desejamos que seja algo preso somente ao campo da ficção. 

Em Trânsito (Transit - Alemanha/2018) de Christian Petzold com Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Maryam Zaree, Lilien Batman, Sebastian Hülk e Alex Brendemühl.  ☻☻☻☻

quinta-feira, 15 de junho de 2023

CICLO DIVERSIDADESXL: Faca no Coração

Vanessa e Nicolas: os pornôs gays dos anos 1970 como alvo de um serial killer. 

Anne Parèze (Vanessa Paradis) é uma produtora de filmes eróticos gays no final dos anos 1970. Ela está em crise com o final do relacionamento com Loïs (Kate Moran), que também é montadora de seus filmes. Como se não bastasse este problema pessoal, os atores de seus filmes começam a ser assassinados sem maiores explicações. Embora o caso seja investigado pela polícia, ninguém parece dar muita importância para o que está acontecendo, mas toda a situação acaba afetando a produção dos filmes de Anne, já que os atores começam a se recusar a participar de suas obras. Para lidar com a crise, a produtora resolve fazer um filme que é uma paródia sobre toda aquela situação, que acaba se tornando um filme dentro do filme, mas que é conduzido de forma um tanto absurda. Falando em absurdo, Faca no Coração não é um filme a ser levado muito a sério em sua fusão de filme gay com slasher movie. Embora a mistura sirva para falar de forma estilosa sobre a homofobia, Yann Gonzalez não tem pudores ao construir um pastiche cinematográfico, embora também soe como uma homenagem (um tanto debochada) sobre a indústria de filmes pornôs gay underground dos anos 1970. Se por um lado os filmes de Anne bebem diretamente na fonte de fantasias e fetiches de seu público, por outro lado, os crimes se apropriam da mesma fonte para acoplar morte ao desejo gay. É impossível não imaginar quem é o assassino da história a partir do espectro de alguém que não consegue lidar com seus próprios desejos despertados em torno dos filmes de Anne. O filme sabe muito bem como misturar cenas coloridas e outras sombrias, além de contar com um trilha sonora esperta do grupo M83 para criar a atmosfera necessária para momentos festivos e outros nem tanto. Talvez por não desenvolver os personagens que gravitam em torno de Anne, cabe à Vanessa Paradis carregar o filme nas costas com uma atuação forte que nos faz entender de onde sai as ideias para as produções da personagem. Indicado à Palma de Ouro em Cannes, o longa é o segundo filme de Yann Gonzalez (antes ele realizou Os Encontros da Meia-Noite/2013) que demonstra, mais uma vez, um estilo provocador que não agrada todos os públicos, mas quem embarcar no estilo delirante de sua obra pode se surpreender com o talento do moço. 

Faca no Coração ( Un couteau dans le coeur / França - México - Suíça / 2018) de Yan Gonzalez com Vanessa Paradis, Nicolas Maury, Kate Moran, Jonathan Genet, Félix Maritaud, Khaled Alouach e Noé Hernández.  ☻☻☻

quarta-feira, 7 de junho de 2023

PL►Y: As Ceifadeiras

 
Brent e Alex: o outro feito espelho. 

Ambientado na África do Sul, o filme nos apresenta Janno (Brent Vermeulen), um adolescente que cresceu na região de Free State, um reduto de minoria étnica branca denominada Afrikaans. A rotina da localidade é essencialmente agrícola e ditada pelo conservadorismo. A masculinidade pautada pela força fica bastante evidente pela presença de Jan (Mornée Visser), o pai de Janno e a religiosidade é representada pela fé de Marie (Jualiana Venter), a mãe,  que percebe a vida como um conjunto de provas que irão lhe reservar um lugar no paraíso. A rotina da família, que é ainda composta por meninas pequenas, se divide entre o trabalho nas plantações, orações e igreja. A situação muda quando Marie e Jan acolhem Pieter (Alek van Dyk) que estava em situação de vulnerabilidade social acentuada. Ele não conheceu os pais, se tornou usuário de drogas e sofria situações inimagináveis quando vivia nas ruas. Existe um alto contraste entre os dois jovens rapazes da casa. Janno é bastante sensível, dotado de responsabilidades e uma certa melancolia. Pieter é rebelde, arredio e com uma certa dificuldade em aceitar regras. No entanto, Marie percebe no filho um cúmplice na transformação que a vida do novo membro da família pode ter e lhe pede ajuda sempre que possível. Conforme os dois meninos se aproximam, um percebe no outro traços que revelam que eles possuem mais coisas em comum do que imaginam. As Ceifadeiras marca a estreia do sul-africano Etienne Kallos na direção de longa-metragens e ganhou destaque no Festival de Cannes na mostra Un Certain Regard que o colocou na lista de concorrentes à Camera D'Or destinada aos cineastas estreantes. Desenvolvido de forma lenta e contemplativa, o filme sugere aqui e ali a forma como os dois adolescentes lidam com a sua história pessoal e a sexualidade. Este último aspecto gerou polêmica no lançamento do filme. Se a sexualidade de Janno se torna sufocada pela religiosidade de sua comunidade, a de Pieter revela-se de forma muito mais agressiva, por vezes pelo viés de situações em que é jovem demais para perceber o quanto é explorado. Existe aqui um peso da fé muito grande sobre os personagens, não apenas sobre os dois meninos, mas sobre os pais, o que só amplia a força de algumas verdades quando reveladas. É um longa que se desenvolve aos poucos, com bela fotografia e bom trabalho de seus atores, sobretudo de Brent Vermeulen em um personagem bastante introspectivo e que o jovem ator encontra a exata medida de suas emoções. Curiosamente, no terceiro ato uma sensação de fraternidade emerge da narrativa e torna o filme ainda mais doloroso.

As Ceifadeiras (Die Stropers/África do Sul - França - Grécia - Polônia / 2018) de Etienne Kallos com Brent Vermeulen, Alek van Dyk, Juliana Venter, Mornée Visser, Erica Wessels e Danny Keogh. ☻☻☻☻

quinta-feira, 27 de abril de 2023

PL►Y: Girl

Polster: bom trabalho envolto a polêmicas. 

Com a estreia de Close (2022) na Mubi, procurei novamente o primeiro filme do cineasta Lukas Dhont na Netflix (e lá estava ele, faz tempo na minha lista de programas a assistir). Girl foi a estreia do diretor belga, que recebeu quatro indicações ao European Film Awards, foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e sua estreia no Festival de Cannes foi mais do que promissora, recebendo três prêmios no festival mais famoso do mundo (um prêmio de atuação para o ator Victor Polster na mostra paralela, a Queer Palm e o Golden Camera para o diretor estreante). Tantos elogios não evitaram algumas polêmicas por colocar um ator cis para viver uma adolescente trans que sonha ser uma grande bailarina no mesmo período em que está prestes a fazer sua cirurgia de adequação sexual. Existe toda uma discussão sobre escalar atores LGBTQIA+ para viver papeis correspondentes no cinema em nome da representatividade, mas o fato de ter um artista cis como protagonista invalida os méritos da obra? Levando a reflexão que o filme proporciona e o bom trabalho de Victor Polster na pele de Lara, considero que o filme merece uma chance (os produtores testaram mais de 500 adolescentes, sem especificação de gênero e somente Victor deu conta de dançar e defender a personagem com a mesma desenvoltura). O filme é baseado em uma história real (e a bailarina no qual o filme se baseia demonstrou bastante satisfação com a obra) e Lukas Dhont já demonstra bastante sensibilidade para contar uma história complicada. Enquanto a família parece lidar bem com a transição de Lara, parece que decisão de viver com o pai (Arieh Worthalter) e o irmão (o pequeno Oliver Bodart) em outra cidade em nome de "uma nova vida" não parece ter o efeito esperado. Não faltam situações constrangedoras na convivência com as colegas de escola e das aulas de ballet. Se existe um esforço descomunal para se tornar bailarina, para Lara a coisa parece se complicar ainda mais por conta de ter que aprender toda uma nova forma diferente de se movimentar da que aprendeu anteriormente em sua antiga identidade. A forma como Lara rejeita os atributos masculinos de sua anatomia são apresentadas várias vezes durante o filme em cenas que ilustram muito bem a sensação de disforia de gênero vivenciada pela protagonista (e tem uma cena junto com algumas meninas que se torna um verdadeiro marco das humilhações que a personagem vivencia). Aos poucos Lara se torna cada vez mais instrospectica, problemas físicos começam a aparecer e comprometem sua cirurgia. Embora o filme tenha uma fotografia quase idílica a maior parte do tempo, Dhont capricha no tom vertiginoso para demonstrar todo esforço da personagem para provar aos outros o que se é. A sensação de inadequação (e cansaço) se intensifica ao ponto que uma ação chocante surja no roteiro. Polêmicas a parte, Girl é uma bela estreia e já demonstra o quanto Lukas Dhont está alinhado com questões pertinentes de seu tempo. 

Girl (Bélgica - Países Baixos / 2018) de Lukas Dhont com Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart, Tijmen Govaerts, Alain Horonez e Magali Elali.  ☻☻☻☻

sábado, 15 de abril de 2023

PL►Y: Nos Corredores

 
Sandra e Franz: o universo nos corredores de um supermercado. 

Figurando entre os atores europeus mais badalados da atualidade, o alemão Franz Rogowski já foi até citado como uma espécie de irmão mais novo do americano Joaquin Phoenix, os dois realmente possui uma semelhança física para além de uma cicatriz, mas também por conta do gosto por viver personagens diferentões. Eu conheci Rogoswki no excelente Great Freedom/2021 (que o colocou entre as melhores interpretações masculinas de 2022 aqui do blog), filme que está na Mubi assim como outros filmes estrelados por ele. Nos corredores (ou In The Aisles) é um desses e chama atenção principalmente pelo lugar que escolhe de ambientação para sua história: um supermercado. Rogowski vive Christian um jovem de poucas palavras (e muitas tatuagens) que é contratado para ser repositor do corredor de bebidas de um grande supermercado. Ele logo ganha a simpatia do funcionário mais antigo do setor, Bruno (Peter Kurth) que será responsável por lhe ensinar as tarefas do setor lhe dará dicas preciosas no manejo complicado da empilhadeira. Se aos poucos o colega de trabalho se torna uma espécie de figura paterna para Christian, aos poucos ele começa a se interessar por sua colega do corredor vizinho, a sensível Marion (Sandra Hüller que parece a prima alemã da Cate Blanchett) responsável pela sessão de doces. Logo os dois percebem que a recíproca é verdadeira e desenvolvem uma relação platônica com alguns complicadores que irão afetar a relação de ambos com o espaço de trabalho. O mais interessante é como perante a ambientação e os personagens que tem em mãos, o roteiro se torna cada vez mais gracioso, no entanto, o diretor Thomas Stuber opta por filma-lo sem enfeites, de forma lenta e um tanto seca, o que não impede de criar um universo interessante por si só perante aquele mundo particular. Ainda que gere reflexões variadas sobre a relação das pessoas com seu local de trabalho, Nos Corredores demonstra como aquele universo se torna uma espécie de mundo paralelo para os personagens.  Existem alguns detalhes da vida fora do trabalho dos personagens que servem apenas para sugerir como naquele espaço eles vivem outras personas, demarcadas até por níveis de status e importância que aos poucos se demonstra cômoda e segura, sem esquecer do afeto construído entre os membros daquele grupo que, por vezes desequilibram a comodidade vivida antes. A ambientação em um supermercado funciona então como a ideia de organização daquele espaço, mas também em momentos em que os personagens subvertem algumas regras do local (incluindo as cenas sobre o que é descartado, com direito até a uma ceia de natal). A fotografia que ressalta os tons de amarelo destacam um certo elemento de fantasia na forma como a história é conduzida (e em dado momento imaginei como seria o filme em uma versão americana feita por Wes Anderson) e a última cena (tão terna e sutil) só reforça este fator. Delicioso em sua originalidade, Nos Corredores é uma grata surpresa. 

Nos Corredores (In den Gängen/Alemanha - 2018) de Thomas Stuber com Franz Rogowski, Sandra Hüller, Peter Kurth, Andreas Leupold e Matthias Brenner. ☻☻☻☻

domingo, 23 de outubro de 2022

FILMED+: Entre Tempos

 
Luca e Linda: memórias de um casal. 

Tenho alguns problemas com filmes românticos, talvez eu já esteja um tanto velho e desiludido para ser convencido por um casal que discute um filme inteiro e fica junto no final, ou aquele casal que come o pão que  o cupido amassou para acreditar que depois do The End tudo ficará bem. Nem vou citar aqueles filmes em que torcemos pelo casal e um deles morre no final... enfim, por coisas assim que quando me deparo com uma verdadeira joia rara como o italiano Entre Tempos acho que ainda tenho solução. Dirigido por Valerio Mieli o filme conta a história de dois opostos que se atraem numa festa, Lui (Luca Marinelli) é todo melancólico e um tanto sombrio, mas se aproxima meio sem jeito de Lei (Linda Caridi) falando sobre lembranças ruins. Ele coleciona várias, ela lembra apenas do seu avô doente debaixo de sombra de uma árvore conforme, mas ela nem lembra se aquilo realmente aconteceu ou se é alguma lembrança que sua mente produziu ao longo do tempo perante a lembrança do avô. Começa assim um romance pautado nas lembranças individuais do casal que se complementa nos anos que seguem. No entanto, o texto e a direção (ambos de Mieli) não se contenta em quebrar o filme em duas partes, uma com a versão dele e outra com a versão dela, o filme resolve colocar as duas versões sobrepostas o tempo inteiro. Percebemos isso quando oscila entre uma fotografia mais clara e outra mais escura, ou quando as roupas e penteados de um e outro mudam durante a mesma cena como se fosse um equívoco do continuísta. No entanto, o diretor sabe que utilizar somente este truque não deixaria o filme interessante por toda a sua duração e investe numa espécie de troca de personalidade entre os dois na metade da narrativa, o que parte nosso coração já que o desejo de ver os dois juntos felizes para sempre já se instaurou na plateia. Bem, na verdade, desde o início o filme deixa claro que a noção de felizes para sempre é bastante questionável (ainda que perseguido por ambos). Ganha destaque durante a história o peso que o antigo lar de Lui tem sobre ele crescido, da mesma forma, o luto de Lei lhe causa mudanças drásticas de temperamento. Ainda assim o filme caminha corretamente para o seu desfecho deixando os espectadores com aquele frio na barriga. Para além do mérito do diretor/roteirista é preciso elogiar as performances de uma luminosa Linda Caridi e do sempre competente Luca Marinelli que não se contenta em ser lindo e sempre prova ser um bom ator. Falando nisso, não sei se a intenção de escalar o Luca tem a intenção de evocar o magnífico A Solidão dos Números Primos (2010), filme que tem alguma semelhanças com este aqui em sua eficiência em abordar a vida de um casal ao longo do tempo. Tive que resistir à crueldade de comparar os dois, mas por méritos próprios, Entre Tempos merece ser descoberto, apreciado e recordado.  

Entre Tempos (Ricordi? - Itália / 2018) de Valerio Mieli com Luca Marinelli, Linda Caridi, Giovanni Anzaldo, Camilla Diana, David Brandon, Eliana Bosi e Alice Pagani. ☻☻☻☻☻ 

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

PL►Y: Como ser Malvada

 
Emma e Janina: delicioso contraste. 

Construir a identidade é uma das coisas mais difíceis na vida do ser humano. Tentar encontrar aquele equilíbrio entre o que se quer, o que se pode e o que não de deve fazer... articular o que te ensinaram com o que você deseja, saber lidar com as relações de forma a aceitar o que não pode ser alterado e seguir em frente... enfim, parece complexo demais (e é, haja terapia...) mas o filme alemão Como ser Malvada consegue trabalhar algumas destas questões naquela fase em que a construção de quem se é começa a se tornar mais latente no indivíduo: a adolescência. No entanto, para ficar diferente da maioria dos filmes do gênero, a produção utiliza um toque de fantasia que funciona melhor do que se imagina ao colocar no centro da narrativa a filha do coisa ruim, sim, isso mesmo, uma herdeira do inferno, a filha de Lúcifer é uma das personagens principais do filme. Como os tempos mudaram o anjo caído (vivido pelo veterano Samuel Finzi) agora administra uma empresa em que acompanha as maldades que andam fazendo por aí (e haja funcionários para isso) e no meio de tudo, sua filha, Lilith (Emma Bading) funciona como uma espécie de aprendiz (lidando com tretas online, claro). No entanto, ela quer fazer algo mais prático e importante. Como ela ainda é jovem, o pai não confia muito em suas habilidades e, afim de que ela fracasse, a manda para uma tarefa quase impossível: transformar a doce e educada Greta (Janina Fautz) em uma garota malvada. Lilith acha que vai tirar a lição de letra, mas vinda de uma família humilde e com uma paciência de Jó, Greta lhe dá muito mais trabalho do que imagina. Nada parece capaz de tirar a menina do sério. Das recorrentes humilhações que passa na escola, passando por sua total invisibilidade perante aos olhos dos meninos e a aceitação plena das ordens de seus pais, Greta realmente parece merecer o céu. Mas a que preço? Enquanto a novata Lilith começa a criar atritos na escola, o filme começa a mergulhar em um campo muito interessante ao fazer pensar que a passividade tem um preço e ele pode ser bastante alto se você não tiver um pouquinho de malícia para se impor no mundo e, não por acaso, Greta e Lilith (em saboroso contraste nas atuações) se tornam amigas e a influência de uma sobre a outra começa a provocar alguns efeitos inesperados. Obviamente que Como ser Malvada tem um bocado de ingenuidade, mas funciona ao criar uma história sobre crescimento que foge um pouquinho do óbvio, além de deixar as duas personagens principais em torno do mesmo dilema: até que ponto vale a pena agradar os pais e esquecer o que se quer. Essa construção identitária entre ser o que você é com o que os outros esperam que você seja nutre o desfecho do filme e, de certa forma, deixa claro que até os bonzinhos precisam extrapolar de vez em quando (e os malvados baixar a guarda quase sempre). O filme está perdido no imenso catálogo da Netflix (com o nome original em alemão, o que dificulta bastante a busca por aqui, e merece uma olhada!

Como ser Malvada (Meine teuflisch gute Freundin/Alemanha - 2018) de Marco Petry com Emma Bading, Janina Fautz, Ludwig Simon, Samuel Finzi, Emilio Sakraya, Oliver Korittke e Thomas Klemens. ☻☻☻

domingo, 31 de julho de 2022

PL►Y: A Professora do Jardim de Infância

Sevak e Maggie: boas intenções obsessivas. 

Assistindo à interpretação de Maggie Gyllenhaal em A Professora do Jardim de Infância, eu só lembrava de sua estreia na direção com A Filha Perdida (2021). Se no antológico Secretária (2002) a atriz de rosto meigo já demonstrava sua atração por personagens complexos em seus trabalhos como atriz (o que deixa o contraste ainda mais interessante), com sua estreia atrás das câmeras, demonstrou também extrema habilidade narrativa emoldurando este tipo de protagonista (tanto que foi indicada ao Oscar pelo roteiro adaptado do livro de Helena Ferrante). Caso o roteiro caísse nas mãos dela hoje em dia, provavelmente a Maggie iria tentar fazer deste seu novo projeto na direção. Desculpe se daqui em diante possa aparecer alguns SPOILERS. Não sei se é apenas na minha cabeça, mas enxergo um bocado de semelhanças entre os dois filmes. A primeira delas é que ambas tratam de professoras. A segunda é que ambas estão visivelmente insatisfeitas. A terceira é que a relação que possuem com os filhos vai de mal a pior. A quarta é que eu não ficaria surpreso se a personagem de Olivia Colman fizesse exatamente o que a de Maggie neste aqui se tivesse a chance - e existem semelhanças nos desdobramentos reservados ao roteiro sobre o "sequestro" de algo importante. Vamos à história: Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhaal) é a professora do título que parece ter deixado de achar graça no trabalho. A vida em família também não anda muito empolgante. Por debaixo de toda a rotina, percebe-se que existia uma mulher com grandes ambições literárias que foram silenciadas ao longo do tempo e das obrigações que ele trouxe. Sua vida recebe uma luz diferente quando ela descobre em sua sala um menino de cinco anos capaz de fazer poesias espontaneamente. Lisa fica fascinada com a forma como o garotinho diz seus pensamentos de forma poética e tenta contar com a ajuda da babá dele para descobrir outras preciosidades que ele possa recitar ao longo do dia. Jimmy (Parker Sevak) é um menino comum, que não recebe muita atenção da família, mas que aos poucos Lisa começa a construir uma verdadeira obsessão. Admiradora das criações do menino, ela começa a ter atitudes cada vez mais radicais em nome do talento que enxerga nele, mesmo que isso possa custar tudo o que construiu até ali. A diretora Sara Colangelo utiliza o encontro destes dois personagens em fases de vida completamente diferentes em suas vidas para que a professora comece a entrar em conflito com o que construiu em sua vida e os desejos que tinha para si. Diante das suas atitudes cada vez mais desesperadas existe um tanto de fazer o que se pode para preservar o  talento do menino, mas também um tanto de medo de cair no abismo que ela mesmo construiu para si perante o pragmatismo da vida adulta. A Professora do Jardim de Infância é um destes filmes aparentemente simples que se torna mais interessante quando notamos o que está em suas entrelinhas, e estas são escritas com maestria por Maggie em um dos melhores trabalhos de sua carreira de atriz.  

A Professora do Jardim de Infância (The Kindergarten Teacher/ EUA - 2018) de Sara Colangelo com Maggie Gyllenhaal, Gael Garcia Bernal, Michael Chernus, Parker Sevak e Sam Jules. ☻☻☻☻

domingo, 10 de julho de 2022

PL►Y: A Queda do Império Americano

 
Landry (a esquerda): o motivo para o filme funcionar. 

O cineasta canadense Denys Arcand possui dois filmes premiados e fundamentais em sua carreira: O Declínio do Império Americano (1987) e As Invasões Bárbaras (2003). O primeiro ajudou a colocar o nome do diretor no mapa cinéfilo mundial e lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro com a história de um grupo de amigos intelectuais que se reúne para passar alguns dias juntos e discutirem sobre os relacionamentos modernos nos anos 1980 em plena ressaca da liberação sexual. O título com pinta de tese de doutorado escondia uma comédia astuta que brincava com o conservadorismo dos Estados Unidos (e de Hollywood) enquanto seus personagens falavam de sexo quase o tempo todo. Dezessete anos depois, o mesmo grupo de amigos se reúne em uma realidade completamente diferente. Envelhecidos e com problemas com casamentos, filhos e doenças, As Invasões Bárbaras eleva à enésima potência a popularidade do primeiro filme, foi premiado como o melhor roteiro e melhor atriz (Marie-Josée Croze) no Festival de Cannes daquele ano. No total foram cinquenta prêmios internacionais, que inclui ainda o Oscar de Filme Estrangeiro, porém, desde então, a carreira de Arcand perdeu fôlego. Realizo este retrospecto só para dizer da sensação enganosa que é ver seu último filme, A Queda do Império Americano (2018) ostentar este título e não ter relação alguma com os dois filmes anteriores. Pode ser apenas uma provocação com seus fãs ou apenas a necessidade de chamar atenção para um filme que é interessante de assistir, mas que está bem distante do auge criativo do cineasta. A trama conta a história de Pierre (o bom Alexandre Landry), um entregador que dá o azar de estar na hora errada no lugar errado e presenciar um assalto desastroso. Como o assalto dá errado, ele vê a chance de levar para casa uma mala cheia de dinheiro, mas não faz a mínima ideia do que fazer com tudo aquilo sem chamar atenção das autoridades. Ele acaba contratando um ex-presidiário (Remy Girard) para lidar com a grana e um contador inescrupuloso (Pierre Curzi) para enviar tudo para um paraíso fiscal. Paralelo a isso, existe uma investigação para encontrar o dinheiro desaparecido e as ações dos bandidos dispostos a encontrar o que consideram ser deles de direito. Arcand mistura tudo isso e cria uma comédia politicamente incorreta um tanto irregular, mas que prende a atenção do espectador que torce para que o protagonista de bom coração se dê bem no final da trama. Neste ponto, vale destacar o talento e carisma de Landry, que deixa um personagem sem sal ser digno de torcida ao lado dos veteranos Girard e Curzi (que aparecem nos outros filmes citados do cineasta citados acima). Seria maldade não mencionar a vida romântica do rapaz ao precisar lidar com todas as suspeitas que pairam sobre a prostituta de luxo vivida por Maripier Morrin. Embora esteja longe de estar entre os melhores filmes de Arcand, pelo menos o filme consegue ser mais atraente do que seus antecessores, A Era da Inocência/ 2007 e O Reino da Beleza/2014 (que tinham mais pompa e menos graça), o que não impede que A Queda do Império Americano esteja esquecido no catálogo da Netflix há algum tempo. 

A Queda do Império Americano (La chute de l'empire américain / Canadá - 2018) de Denys Arcand com Alexandre Landry, Maripier Morrin, Remy Girard, Pierre Curzi e Vincent Leclerc. ☻☻☻

sexta-feira, 10 de junho de 2022

CICLO DIVERSIDADESXL: Canário

 
Hans e Germandt: amor e Culture Club. 

É sempre interessante escolher os filmes para compor um Ciclo aqui no blog, mas sobretudo eu preciso de tempo. Tempo para pesquisar os filmes que possam compor as postagens da semana, tempo para assistir e filtrar aqueles que ajudam a compor um Ciclo mais interessante e, claro, tempo para escrever. Nesse ano, parti da premissa de que deveria escrever sobre filmes de países diferentes e que tivessem abordagens variadas sobre a diversidade. Sendo assim, comecei a assistir os filmes da minha lista e cheguei a ficar em dúvida se deveria escrever sobre dois filmes de uma mesma nacionalidade, no entanto, como são dois filmes bem diferentes e de um país que é raro termos filmes comentados por aqui, achei que seria uma boa ideia escrever sobre Canário, filme sul-africano de Christian Olwagen sobre um adolescente, Johan (Schalk Bezuidenhout), que é escolhido para servir à força militar de seu país por dois anos e fazer parte do coral da Força de Defesa Sul Africana. O grupo é conhecido como "Canários" e foi responsável por realizar apresentações aos pais de jovens convocados para o front no período conturbado do apartheid na África do Sul. O cruel regime separatista governamental, que visava separar brancos e negros, serve de pano de fundo para um filme que é ambientado no ano de 1985 e se banha em uma certa nostalgia da cultura pop do período para retratar os conflitos de seu protagonista com a própria sexualidade. As primeira cenas deixam claro que Johan está longe de ser hétero. Fã de Boy George, ele surge vestido de noiva cantando Smalltown Boy do Bronski Beat (um verdadeiro hino gay) junto com suas amigas e outros vizinhos. Se por um lado aquilo pode ser encarado apenas como uma brincadeira para algumas pessoas, podemos perceber que são neles que Johan vive a sua libertação. Ao ser convocado para viver dois anos num ambiente bastante conservador como o exército, ele fica um tanto preocupado. No entanto, ele considera que se for discreto não terá problemas em sua nova tarefa. Assim, ele evita conversas, contem seus gestos, evita falar de seu gosto musical e tenta ficar longo do falante Rudolf (Germandt Geldenhuys). A coisa complica quando ele se aproxima cada vez mais do simpático Wolfgang (o ótimo Hannes Otto), que assim como ele é fã de Boy George e cultura pop em geral e, não demora muito, para demonstrar a grande afeição que sente por Johan. Enquanto a atração entre os dois cresce, assim como o temor de chamar atenção para o relacionamento que se instaura, Johan começa a questionar os riscos que corre e mergulha num perigoso processo de negação. Ainda que lide com temas pesados, Canário consegue manter a leveza a maior parte do tempo, sem se esquivar quando precisa colocar o dedo em alguma feridas. Seja no discurso de uma mulher contra o contraditório trabalho de "conforto" feito pelos canários (ressaltando a conflituosa relação do grupo entre a Igreja e o Estado) ou pela sugestão de que apoiam um governo que discrimina pessoas pela cor da pele. Aqui existe uma observação perspicaz sobre a mania de considerar que determinados grupos são melhores (ou mais corretos) que outros, seja pela cor da pele ou sexualidade. O diretor Christian Olwagen consegue construir suas cenas de forma criativa, utilizando planos sequência elaborados que por vezes revelam uma alma teatral (mas sem o caráter engessado que algumas transposições possuem), misturada com os clipes pop dos anos 1980. O diretor tem bastante habilidade em lidar com as músicas e os ícones andróginos do pop do período (repare a cena em que os personagens aparecem caracterizados de nomes como o próprio Boy George, além de David Bowie, Grace Jones, Michael Jackson, Prince, Annie Lennox e outros artistas que marcaram o período, embora ficasse, na maioria das vezes no campo somente da imagem - Johan até conta de sua tristeza da demora de seu ídolo assumir que era gay numa clara alusão ao valor da representatividade, algo que tornou-se bastante difundido na cultura pop atual). Vale destacar que o longa é bastante natural na construção das cenas de intimidade entre Johan e Wolfgang, o que passa pelo mérito de seus atores. Apesar de ser um ator vindo da comédia,  Germandt Geldenhuys consegue dar a introspecção certa dos conflitos vividos por Johan, sendo um ótimo contraponto com a espontaneidade  longe dos estereótipos impressa por Hannes Otto na pele de Wolfgang (vale destacar que Otto se tornou o primeiro sul-africano aceito na prestigiada escola de arte dramática Juilliard. Otto é homossexual assumido e atualmente atua como produtor em Hollywood). Canário foi exibido e elogiado nos festivais de Berlim e Toronto  e é uma verdadeira pérola escondida no catálogo do Amazon Prime Video. 

Canário (Kanarie / África do Sul - 2018) de Christian Olwagen com Germandt Geldenhuys, Hannes Otto, Gérard Rudolf, Jacques Bessenger, Ludwig Binge, Germandt Geldenhuys, David Viviers e Francois Jacobs. ☻☻☻☻

domingo, 30 de janeiro de 2022

PL►Y: O Banquete

 
Banquete: duele de egos à mesa. 

No currículo de Daniela Thomas existem três grandes filmes brasileiros, Terra Estrangeira (1995), O Primeiro Dia (1998) e Linha de Passe (2008), os três são assinados junto com Walter Salles e tiveram grande repercussão dentro e fora do país. Em 2017 ela lançou seu primeiro longa de ficção, Vazante, sucesso de crítica no exterior, enfrentou críticas severas pela forma indiferente com que lidava com a questão da escravidão em meio à sua trama. Após a famosa sabatina no Festival de Brasília, Daniela saiu escaldada e isso deve ter dado corpo ao seu filme seguinte: O Banquete. Ambientado no final dos ano 1980, centrado em personagens de classe média alta e sem atores negros, não parece ser coincidência que o banquete seja servido em meio às críticas ao governo Collor e a famigerada "lei de imprensa", que tornava possível a prisão com base na publicação de artigos contrários ao governo. Esta alfinetada no histórico nacional de gosto pelo autoritarismo remete  diretamente à fragilidade de uma democracia que se via recém instaurada e em risco desde sempre, além de carregar de tensão o encontro do grupo de amigos para celebrar os oito anos de casamento do jornalista Mauro (Rodrigo Bolzan) e da atriz Beatriz (Mariana Lima), no entanto, o que poderia ser um simples encontro de amigos se torna um verdadeiro massacre verbal. Promovido no apartamento de Nora (Drica Moraes), assim que a primeira convidada aparece, Maria (Fabiana Gugli), ela percebe que aquele é o cenário de uma armadilha. Ela está certíssima. Acompanhada de Lucky (Gustavo Machado), ela é meio que forçada a continuar por ali, enquanto ele começa a assediar o garçom do banquete (Chay Suede). O marido de nora (Caco Ciocler) já está visivelmente bêbado antes de tomar a primeira taça de vinho e não parece muito consciente da fúria da esposa em imaginar que a qualquer momento a polícia pode bater à porta para prendê-lo por conta de uma carta aberta publicada com o aval de Mauro. Várias taças de vinho depois, a "elite" apresentada se deleita em diálogos que vão de pênis e vaginas à filosofia e, às vezes, o cenário da política nacional. Revelações de alcova são ditas, confrontadas e as intrigas fermentam como se fossem ingredientes de um prato que fica melhor quando consumido frio. Haja estômago do espectador para ver personagens que pretendem salvar o país expondo se agredindo durante toda a duração do filme. É um filme bem filmado, mas feito para ser desagradável aos ouvidos pelo jogo de ofensas que é proposto, faltou apenas fazer o espectador se importar com aquelas pessoas. O que se vê à mesa é apenas o ego de uns inflando enquanto faz o do outro convidado murchar, numa guerra de miudezas humanas enquanto o país tenta não afundar (e a última frase de Nora retrata toda ironia da situação). Concebido para ser uma peça de teatro, Daniela Thomas demorou vinte anos para conseguir levar o projeto para as telas. Reuniu um  elenco de fôlego para bancar a metralhadora verbal com longos takes e ambientou toda a discussão em um apartamento sombrio, com uma parede espelhada envelhecida, figurinos escuros, vinhos e comida afrodisíaca. Se o efeito deveria ser de uma bomba prestes a explodir, a verdade é que ela oscila bastante no tom e na atmosfera que sofre com a repetição de sua matéria-prima. Vale muito pelo elenco (especialmente Mariana, Fabiana e Drica, nesta ordem), mas no fim das contas parece um grupo de pessoas que bebeu demais e no dia seguinte, no meio da ressaca, irá se perguntar sobre o que aconteceu no meio do café amargo. Acho que só o garçom irá lembrar de toda aquela baixaria.  

O Banquete (Brasil/2018) de Daniela Thomas com Drica Moraes, Mariana Lima, Caco Ciocler, Rodrigo Bolzan, Fabiana Gugli, Chay Suede, Gustavo Machado, Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel. ☻☻

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

PL►Y: Piedade

Giannis e o cachorro: em busca de piedade. 

O cinema grego pode ser considerado um dos mais interessantes do cinema atual, mas também carrega consigo a pecha de um dos mais estranhos do mundo. O motivo disso é a chamada "nova onda" construída por cineastas do país, basta ver como Yorgos Lanthimos estava prestes a se tornar mundialmente conhecido com a indicação ao Oscar por Dente Canino (2009), ou os prêmios que Miss Violência (2013) recebeu ainda que causasse protestos pela frieza com que contava uma rotina de abusos e até a poesia encontrada no recente Fruto da Memória (2020) que merecia uma vaguinha no Oscar de filme estrangeiro deste ano. É daquela terra de deuses e filósofos que também veio Piedade, outro longa com críticas sociais partindo de uma premissa que beira o absurdo e, talvez por isso mesmo, se torna tão contundente. O filme conta a história de um advogado (Giannis Drakopoulos) que vê a esposa (Evis Saoulidou) em coma já a algum tempo. Sua rotina de trabalhar, cuidar do filho e do cachorro começa geralmente com um choro pela manhã. Nesta rotina, o protagonista repete várias vezes a triste situação que se abateu sobre a família, recebendo mensagens de incentivo de quem cruza seu caminho, olhares de solidariedade e até bolos matinais de uma vizinha compadecida. No entanto, toda esta tristeza constrói um verdadeiro vício no personagem, que passa a utiliza-la como algo constituinte de sua própria identidade (tanto que ele proíbe ao filho tocar músicas alegres ao piano, afinal, vai que os vizinhos acham que eles podem estar felizes). Esta exacerbação da lógica do "coitadinho" recebe contornos ainda mais irônicos depois que sua esposa começa a se recuperar e o que era para trazer alegria, coloca sua rotina em risco, logo ele percebe que toda aquela tristeza precisa ser mantida para que ele continue recebendo o apoio a que se acostumou nos últimos tempos. Deste ponto em diante, o protagonista passa a construir suas próprias tragédias para que a piedade permaneça em seu universo, ainda que para isso ele siga um caminho cada vez mais doentio e que resvala num desfecho chocante que destoa do que vimos ao longo do filme. Misto de drama, comédia e suspense, o filme é pontuado por frases bem marcadas sobre  a interpretação que este personagem possui sobre a piedade e leva a marca das interpretações minimalista lavadas de emoção (marca característica do cinema grego recente), que permite as situações falarem por si, curiosamente flertando com a tragédia e a comédia mais obscura. Enquanto a plateia rir nervosa, o cinema grego funciona que é uma beleza!

Piedade (Oiktos / Grécia - 2018) de Babis Makridis com Giannis Drakopoulos,, Makis Papadimitriou,  Tzortzina Hryskioti, Evdoxia Androulidaki, Costas Xikominos e Costas Kotoulas. ☻☻☻☻

domingo, 11 de abril de 2021

PL►Y: Selvagem

 
Bel: a selvageria dentro de si. 

Ainda que não tenha recebido o crédito merecido dentre as atrizes de sua geração, Bel Powley é uma artista que sempre chama minha atenção para uma produção. A jovem revelada aos vinte e três anos ao viver a protagonista do denso O Diário de Uma Adolescente/2015 (a grande estreia de Marielle Heller na direção, pelo qual Bel ganhou o Gotham Awards de melhor atriz). Powley tem ao seu favor olhos azuis enormes e expressivos que fazem a diferença quando nem sempre o roteiro lhe oferece o devido amparo. Pode se dizer que é isso que acontece neste filme de estreia do alemão Fritz Böhm (que também assina o roteiro ao lado de Florian Eder) que tem boas ideias, mas nem sempre sabe como desenvolvê-las da melhor forma. A trama começa promissora quando conhecemos uma criança chamada Anna que é criada isolada da civilização pelo pai (Brad Dourif). Educada para ser obediente e nunca sair de casa, ela teme o que o pai costuma chamar de "o selvagem", uma criatura feroz que vive lá fora e está sempre à espreita de suas vítimas. A menina cresce amedrontada ao lado do pai (tanto a fotografia, a interpretação de Brad e os cenários estão longe de fazer daquela casa um lugar acolhedor). A paranoia não apenas dá o tom desta parte da narrativa como também existe a sugestão de que algo de muito ruim poderá acontecer à menia. Eis que quando ela já é uma adolescente (vivida por Powley) sua vida tem uma guinada e ela passa a viver junto à sociedade com a ajuda de uma policial de bom coração chamada Ellen Cooper (Liv Tyler). Aos poucos, Ellen passa a fazer o papel da mãe que Anna nunca teve e a relação entre as duas funciona bem no decorrer da história. Este processo de transição é bem encenado quando Anna precisa aprender a conviver com outras pessoas e que lidar com adolescentes na escola é complicado. Embora ela tenha mais medo do tal selvagem do que de alguns colegas, aos poucos ela irá entender que existem outros perigos no mundo (inclusive seus próprios instintos). Salvo as devidas proporções, Selvagem lembra muito Carrie - A Estranha (1975) em suas metáforas sobre o medo do crescimento e a descoberta da sexualidade, mas troca o tempero ao beber em outra fonte clássica do terror. Entre crimes e segredos sobre a origem da própria Anna o filme peca pelo ritmo que engasga conforme precisa lidar com sua "grande surpresa" que lá pela metade já começa a se tornar um tanto previsível. A sorte é que Bel Powley mantem a trama envolvente com a mistura de terror com dores da adolescência e sua busca por identidade em meio às inseguranças, assim evita que se o longa se torne mais um filme de fórmula batida. Outro ponto interessante do filme é reencontrar o veterano Brad Dourif tantos anos depois de sua aclamação por Um Estranho no Ninho/1974 encarnando um doido completamente diferente em seus dilemas. 

Selvagem (Wildling / EUA - 2018) de Fritz Böhm com Bel Powley, Liv Tyler, Brad Dourif, Collin Kelly-Sordelet, James Le Gros e Troy Ruptash. ☻☻☻