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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

OS MELHORES DO CINEMA 2014

Com o final de mais uma ano cinéfilo quem resiste a escolher os seus favoritos de 2014? Escolher os os melhores do ano é uma tarefa árdua, mas entre os filmes que assisti alguns prometem ficar na minha mente por mais tempo. Sendo assim, na opinião desse modesto cinéfilo, os melhores do ano foram os seguintes (com o escolhido em destaque e os outros comentados em sentido horário):

FILME
Chega a ser covardia colocar o filme de Richard Linklater nessa categoria, afinal, para quem busca novas experiências na sala de cinema acompanhar o elenco envelhecendo por doze anos, apoiado por um roteiro sutil sobre a passagem do tempo, torna o filme num verdadeiro acontecimento. Diante dele, a jornada country pelas dores do casal belga de Alabama Monroe, o raro olhar do cinema americano sobre a escravidão em 12 Anos de Escravidão , a solidão tecnológica de Ela, as misturas do Grande Hotel Budapeste e as espertezas espetaculosas de Trapaça, por pouco não ficaram no topo do pódio. 


DIREÇÃO
Richard Linklater (Boyhood)
Quando acabei de assistir Boyhood tive uma sensação muito estranha, ainda que considerasse que algumas situações estavam frouxas, somente depois entendi as intenções do diretor, afinal, sua obra é sobre as mudanças que o tempo causa nas pessoas, mais do que na aparência, as mudanças muitas vezes surgem de momentos aparentemente sem importância. Some isso à dura tarefa de filmar três dias com o elenco por doze anos, construir o roteiro aos poucos para mutilar tudo na sala de edição e ainda assim fazer sentido. Richard merece o título por sua audácia no trabalho. Ainda assim, o sentimento que Daniel Ribeiro impregna em Hoje eu Quero Voltar Sozinho, a agilidade de David O. Russell em Trapaça, as camadas costuradas por Felix Van Goreningen em Alabama Monroe, as violências cruas de Steve McQueen em 12 Anos de Escravidão e o estilo inconfundível de Wes Anderson (misturado a novos ingredientes) de Grande Hotel Budapeste merecem destaque. 

ELENCO
Para um filme funcionar a sintonia entre os atores é um dos elementos fundamentais, mas somente em alguns a coesão funciona de forma impressionante. Em Trapaça, David O. Russell conseguiu um time de ouro e mesclou as atuações vigorosas do elenco com maestria (até as menores participações funcionam com a eficácia de protagonismo). Outros filmes também trouxeram times de famosos ao lado de desconhecidos com uma eficiência poucas vezes vista, seja na lavagem de roupa suja de Álbum de Família, na colcha de personagens curiosos de Grande Hotel Budapeste, nos desajustados que se tornam heróis em Guardiões da Galáxia, nas testemunhas de O Lobo Atrás da Porta ou nos excessos do sonho americano de O Lobo de Wall Street

ATRIZ COADJUVANTE
Lupita Nyong'o (12 Anos de Escravidão)
Pode se dizer que esse ano nasceu uma forte candidata à estrela. A mexicana Lupita Nyong'o tem longa carreira nos bastidores do cinema, mas diante das câmeras, 12 Anos de Escravidão foi sua primeira e marcante experiência. Na pele da escrava que é forçada a ser amante do seu senhor e que considera o suicídio uma salvação, Lupita tem poucas falas, mas ilumina toda cena em que aparece. Porém, não podemos esquecer de Jennifer Lawrence soltando a franga em Trapaça, Julia Roberts amarga e muito bem acompanhada por Julianne Nicholson em Álbum de Família, a sagaz June Squibb de Nebraska e Patrícia Arquette em seu brilhante retorno ao cinema como a mãe que rouba a cena em Boyhood

ATOR COADJUVANTE
Acho que Jared Leto andava decepcionado com o cinema depois que suas esforçadas atuações não eram levadas a sério. Depois de quatro anos de jejum cinematográfico, o ator de 43 anos encontrou reconhecimento como o transexual Rayon, uma mescla de figuras reais que enfrentaram o aparecimento da AIDS como podiam na década de 1980. Imerso em seu papel, Jared tem momentos realmente memoráveis - mas a sensatez de Ali Mosaffa (O Passado), o agente da CIA que beira a psicose de Bradley Cooper (Trapaça), a contenção salvadora de Matthew Boomer (The Normal Heart), o desejo sufocado pela crueldade de Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão) e o ceticismo de Steve Coogan (Philomena) também tem muito valor na safra que termina.

ATOR
Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)
Eu costumava brincar que o inglês Chiwetel Ejiofor ainda não tinha sido indicado ao Oscar ainda porque as pessoas sempre se enrolavam na hora de escrever o nome dele. Depois de sua espetacular atuação em 12 Anos de Escravidão - em que seu olhar é capaz de transbordar os pensamentos da dolorosa jornada de seu personagem, não teve jeito, quem curte cinema teve que aprender a grafia (e a pronúncia) de seu nome, o que não é pouco num ano em que as atuações masculinas surpreenderam como do comediante francês pouco conhecido por aqui Guillaume Galliene em papel duplo em Eu, Mamãe e os Meninos, Jake Gyllenhall personificando O Abutre da desgraça alheia, Matthew McConaughey definhando em Clube de Compras Dallas, Ralph Fiennes na pele do cômico concierge de O Grande Hotel Budapeste ou Wagner Moura escandalizando os fãs de Capitão Nascimento em Praia do Futuro.

ATRIZ
Veerle Baetens (Alabama Monroe)
Vi Alabama Monroe como se estivesse vivenciando uma espécie de transe e a atuação magistral de Veerle foi fundamental para essa experiência. A atriz belga é formada no Instituto de Arte Dramática de Bruxelas e tem sólida carreira na TV e no teatro, no papel da multitatuada Elise, sua personagem vai da alegria plena à tristeza mais profunda de maneira comovente. Num ano de grandes destaques como a Amy Adams mais sexy de todos os tempos (Trapaça), Leandra Leal como a vilã em pele de cordeiro (O Lobo Atrás da Porta), Marion Cotillard como a imigrante que come o pão que o Tio Sam amassou (Era Uma Vez em Nova York), a megera no limite da sanidade de Meryl Streep (Álbum de Família) e a arrepiante esposa Rosamund Pike (Garota Exemplar), Veerle tem excelente companhia no pódio. 

ROTEIRO
Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) se conhecem e apesar das diferenças vivem um grande amor regado à música country americana. Juntos tem uma filha que o destino irá utilizar para testar o sentimento que existe entre eles. Amor, sexo, morte e religião se misturam na narrativa da peça escrita por Heldenbergh que vira um filme visceral nas mãos de Felix Van Groeningen que fragmenta a narrativa, ampliando o sentido de cada gesto dos personagens. O belo texto foi um dos mais marcantes do ano por sua originalidade em abordar temas difíceis. Eu também curti a adaptação da peça de Tracy Letts com os conflitos de Álbum de Família, o texto sutil de Boyhood, o olhar de Spike Jonze de um homem que se apaixona por um sistema operacional em Ela, a precisão assustadora de O Lobo Atrás da Porta e a engenhosidade de Trapaça.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

10+: FILMES FAVORITOS DE 2014

Com o ano chegando ao fim como não fazer uma lista dos meus dez filmes favoritos entre os lançamentos no Brasil em 2014? Escolhi os dez que prometem ficar na memória por mais tempo. A minha lista (em ordem alfabética) é a seguinte:


Boyhood    


Ela 



domingo, 28 de dezembro de 2014

NaTela: Homens, Mulheres e Filhos

Ansel (de costas): relações complicadas. 

É engraçado observar o que acontece com a carreira de Jason Reitman, filho do cineasta Ivan Reitman (de Os Caça Fanstasmas/1984), Jason nunca precisou fazer esforço para sair da sombra do pai, já que em seu primeiro filme, Obrigado por Fumar/2005 , seu talento já aparecia de maneira incontestável. Jason sempre foi atento às suas temáticas, que beiram a polêmica, se seu primeiro foco foi o tabagismo, no segundo utilizou a gravidez na adolescência para explorar aquela inadequação típica da adolescência de Juno/2007. Depois utilizou a crise americana para criar uma comédia sobre um especialista em demitir pessoas em Amor sem Escalas (2009). Depois veio a escritora adulta infantil de Jovens Adultos (2011) e a dona de casa insatisfeita que se envolve com um marginal em Refém da Paixão (2013). Visto assim, seus personagens estão sempre em situações que não gostariam de estar, ainda que não percebam, com isso cada trabalho seu cinema ganha maturidade - sob o custo de se afastar do grande público que prefere ver o cinema como mera diversão. Pelos seus filmes mais recentes, Jason pensa exatamente o contrário. Homens, Mulheres e Filhos é seu filme mais desconfortável de assistir, talvez pela melancolia que exala dos personagens que formam um amálgama de tipos que vemos todos os dias. Há um caleidoscópio que gira em torno do mesmo eixo: as relações e o mundo digital. Estão presentes o casal entediado (Adam Sandler e Rosemary DeWitt) que procura amantes na internet - que por acaso são pais de um adolescente (Travis Tope) viciado em pornografia online, existe a adolescente frágil (Elena Kampouris) que procura conselhos para alimentar a anorexia, a mulher (Judy Greer) que abastece um site com fotos sensuais da filha (Olivia Crocicchia) com a esperança dela tornar-se famosa algum dia, a mãe paranoica (Jennifer Garner) que monitora a filha (Kaitlin Dever) vinte e quatro horas por dia, sem que ela perceba que a garota ama um garoto (Ansel Elgort) que curte jogos de RPG online. Utilizando uma narradora (voz de Emma Thompson) que mistura analogias de um satélite em órbita com o que vemos na tela, o filme avança retirando as impressões de que trata-se de uma comédia enquanto abraça os dramas de seus personagens. O que vemos são personagens que embora escrevam online constantemente possuem uma dificuldade enorme de se comunicar (o que fica evidente nas cenas onde estão sempre ao lado de alguém, mas presos às telas de seus celulares, tablets e computadores), com isso, os conflitos que são tão comuns na convivência humana são silenciados enquanto sentidos como verdadeiras catástrofes. Mais do que mostrar o distanciamento das pessoas por conta das tecnologias, o roteiro de Jason Reitman baseado no romance homônimo Chad Kultgen, o filme enfatiza a fragilização e descartabilidade das relações num mundo que preza pela velocidade, ansiedades e aparências. No filme existem as exceções, destacando a relação entre Ansel e Kaitlin, que tenta ser normal com os obstáculos que encontram pelo caminho, mas esses só ressaltam os excessos dos demais. Recebido mornamente por público e crítica, futuramente o filme será visto como um retrato fiel dos anos 2010.

 Homens, Mulheres e Filhos (Men, Women & Children, EUA-2014) de Jason Reitman, com Ansel Elgort, Kaitlin Dever, Travis Tope, Jennifer Garner, Rosemary DeWitt, Adam Sandler e Emma Thompson. ☻☻☻☻

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DESTAQUES 2014 - SÉRIES DE TV

É o primeiro ano em que escolho os meus trabalhos favoritos na televisão. Fazer listas e escolhas são sempre tarefas complicadas, mas criei oito categorias e deixei em destaque (ao centro)  o trabalho que considerei o mais marcante do ano:

ATOR COADJUVANTE
Alex Price apareceu em apenas dois capítulos de Penny Dreadful na pele de Proteus, uma espécie de pós-Frankenstein na série que mescla clássicos do terror. Seu trabalho é de enorme sensibilidade, tornando um personagem pequeno inesquecível. 

ATRIZ COADJUVANTE
Gostei de rever Anna Chlumsky crescida e aparecida na comédia In The Loop/2009, a garotinha de Meu Primeiro Amor/1991 se tornou um caso raro em que a atriz mirim se torna muito mais interessante quando cresce. Na pele de uma das duas pessoas competentes da equipe da vice-presidente americana ela rendeu boas risadas na segunda temporada de Veep

ATRIZ COMÉDIA
 Julia Louis-Dreyfus provou mais uma vez que não existe maldição de quem atuou em Seinfeld, bem... pelo menos para ela. Na pele da vice-presidente Selina Meyer de Veep, ela prova que suas trapalhadas podem acontecer em qualquer lugar - sem que ela se dê conta que são trapalhadas...

ATOR COMÉDIA
Thomas Middleditch tirou a sorte grande quando conseguiu o papel de Richard, o programador que consegue desenvolver um compressor de dados revolucionário, o problema é capitalizar isso em Silicon Valley. Thomas dá carne e osso a um papel que poderia cair facilmente na caricatura e seu resultado, além de divertido é um tipo totalmente real. 

ATOR DRAMA
Prometo que em breve escrevo sobre Olive Kitteridge, excepcional série lançada pela HBO ao final do ano e que está entre uma das melhores produções que a emissora já criou. Richard Jenkins excepcional como um homem comum que equilibra um lar que poderia ser insuportável. Jenkins, que já era um dos meus atores favoritos, aqui ganhou o papel de sua vida. 

ATRIZ DRAMA
Eva Green sempre foi boa atriz, já chamou atenção em vários filmes, mas seus papéis sempre parecem ficar em segundo plano nas produções em que participa. Na pele da amaldiçoada Vanessa de Penny Dreadful, a beldade provou que é capaz de provocar arrepios, tornando seus olhos nos mais sombrios da história da televisão.

SÉRIE COMÉDIA
Eu adoro Diário de um Jovem Doutor, sei que o humor negro da produção inglesa não agrada todo mundo, mas o que eu posso fazer? Pena que as temporadas são tão curtas e mal divulgadas pela HBO. A dinâmica entre Jon Hamm na pele do personagem de Daniel Radcliffe maduro continua funcionando e gerando momentos deliciosos de surrealismo nos cafundós da Rússia revolucionista. 

SÉRIE DRAMA
Foi uma escolha difícil, mas Les Revenants ficou na minha memória durante todo o ano, desejando que a segunda temporada estreasse em breve. Os mortos que atormentam os vivos da série criaram uma espécie de tendência televisiva, podemos ver seu eco em Resurrection e The Leftovers, duas produções que parece paródias das sutis relações estabelecidas na série francesa. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

DVD: Alabama Monroe

Veerle e Didier: mais do que o caipirão e a pin-up

Alabama Monroe é um dos filmes mais interessantes que vi em 2014, sendo o mais bacana a forma afetuosa como trata os seus personagens. Num olhar menos atento eles parecem dois estereótipos bem demarcados, ele pode parecer um caipira e ela uma pin-up nos cafundós da Bélgica. Cada um à sua forma parece personificar o sonho americano, ele com sua banda de bluegrass (vertente do country) ela pelo seu estilo. Ele toca na banda, ela faz tatuagens (inclusive nela mesma, às vezes funcionando até como elemento narrativo da história) e quando se encontram é amor à primeira vista. A vida dos personagens é contada em diversos tempos a partir de um ponto que quebra no conto de fadas que os dois vivem juntos: o diagnóstico de câncer que a filha dos dois terá. Didier (Johan Heldenbergh) e Veerle (a excepcional Elise Vandevelde) vivem um amor intenso, mas que os leva do paraíso ao inferno com a mesma intensidade - e a câmera de Felix Van Groeningen capta essa sensação com precisão. O espectador logo percebe que o filme mistura os momentos em que o casal se conheceu, passando pelo nascimento da filha, a forma como lidam com a doença e o desamparo diante da necessidade de juntar o que sobrou da relação dos dois. A estrutura narrativa me lembrou a de Namorados Para Sempre (2010), inclusive pela melancolia que exala nos momentos mais difíceis. A grande diferença fica por conta dos números em que Didier e Veerle se apresentam juntos com a banda, alcançando momentos plenos de dramaticidade (incluindo o discurso desesperado de Didier que nega tudo o que ele parecia admirar durante todo o filme). Remoendo alegrias, tristezas e cenas tórridas, Alabama Monroe mostra-se uma gratificante montanha-russa de emoções e que consegue abordar temas complicados com uma ternura irresistível. As dores da perda, a plenitude ao cantar uma boa canção, a desilusão de ver os sonhos destruídos por um golpe do destino ou os mecanismos adotados para superá-los tornam-se ingredientes poderosos para o filme. Vale ressaltar que as atuações são fundamentais para que o filme alcance seus objetivos. O casal protagonista está excelente em personagens que passam por grandes transformações durante a história, Johan está muito bem como o grandalhão vigoroso, mas é Elise Vandervelde que tem os melhores momentos em seu apego à religião para encontrar conforto - mas sem melodramas ainda que se afogue na tristeza de Veerle. O filme não erra o tom nem em seu discurso a favor das pesquisas com células tronco sendo tudo muito espontâneo e bem encenado. Alabama Monroe (nome que remete aos gosto do casal e às mudanças que sofrem) é baseado na peça de teatro escrita pelo próprio Johan Veldenbergh que acerta ao não torna-se um filme meloso sobre superação e que cravou uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro em 2014. 

Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown/Bélgica-2012) de Felix Van Groeningen com Johan Veldenbergh, Elise Vandervelde e Nell Cattrysse. ☻☻☻

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

10+: Melhores Pôsteres de 2014

Como é de hábito, em meados de dezembro começo as listas de fim de ano com os pôsteres que mais chamaram minha atenção. Vale ressaltar, mais uma vez, que um bom pôster faz toda a diferença, já que é feito para ser o nosso primeiro contato com um filme e, às vezes, consegue ser melhor do que o próprio. Esse ano os dez escolhidos são:

10 - O Homem Duplicado (Enemy/Canadá)
O cartaz do último longa de Denis Villeneuve deveria ter sido observado com mais atenção. A mente do personagem de Jack Gyllenhaal aparece como fundamental ferramente para se compreender um filme aparentemente incompreensível. Cheio de metáforas e analogias, os ingredientes que confundem estão todos ali: a fotografia desbotada, a cidade assombrada por uma aranha gigante (e isso é mais importante do que você imagina) e um homem que você não sabe se é um ou outro (ou se é um fingindo ser o outro).

09 - Um Ilustre Desconhecido (Un Illustre Inconnu/França)
Recém lançado na França, o novo filme de Matheir Kassovitz parece marcar seu retorno às obras relevantes. Para dar conta da história de um homem que sempre quis ser outra pessoa, mas nunca teve imaginação para isso, o cartaz realiza uma elegante colagem de como o personagem se apropria da identidade dos estranhos que cruzam seu caminho, o resultado é tão assustador quanto interessante. 

08 - Homens Mulheres e Filhos (Men, Women & Children/EUA)
Se existe um problema no cartaz do novo filme de Jason Reitman: ele consegue ser bastante óbvio sobre o tema que o filme trata, afinal aborda um grupo de adolescentes que vive conectado à tecnologia o dia inteiro, assim como seus pais - o que acaba comprometendo o relacionamento com quem está próximo. No centro da narrativa está um jovem casal que ainda resiste à essa concepção moderna de vida. Eu disse "óbvio" anteriormente, talvez a palavra tenha sido mal escolhida, eu deveria dizer "certeiro".

07 - Blue Ruin (EUA/França)
Considerados por muitos uma obra chocante e perturbadora, não podemos dizer que o pôster do filme de Jeremy Saulnier já não antecipasse o que estava por vir. Contando a história de um  sem teto que passa a perseguir um bandido liberto (e com isso o seu passado vem à tona), o filme poderia ser apenas mais uma história de vingança, mas o cartaz deixa claro que não é só isso n medida que decompõe seu personagem (o elogiado Macon Blair) diante da câmera segura do diretor revelação do Festival de Cannes em 2014.

06 - A Girl Walks Home Alone At Night (EUA)
Já considerado um clássico dos filmes de vampiro, o filme de Ana Lily Amirpour é ambientado em uma cidade quase abandonada do Irã, onde uma jovem vampira observa os moradores que sobraram enquanto convive com a solidão e o apetite por sangue. O cartaz é brilhante em sua economia para alcançar seu objetivo vampiresco - atenção para o no uso das cores (com destaque para os lábios vermelhos e a gota escorrendo do título). Exibido em Sundance o filme produzido com dinheiro americano é falado em persa e já tornou-se cult no exterior. 

05 - Mapa Para as Estrelas (Maps to the Stars/Canadá-EUA-Alemanha-França)
Celebrado em Cannes e provocador de estranhamento nos Estados Unidos, o novo filme de David Cronenberg é uma comédia ácida que poucos conseguem digerir, ou seja, tem o estilo "ame ou odeie". O cartaz é bastante sugestivo ao olhar para o célebre letreiro de Hollywood ao contrário para apresentar seus personagens complicados que vivem no submundo do cinema aguardando sua chance de brilhar mais uma vez. Havia aquele outro pôster com o letreiro escrito em contraste às chamas da cidade, mas essa visão invertida do glamour me parece mais interessante. 

04 - O Jogo da Imitação (The Imitation Game/Reino Unido - EUA)
Cotado para as premiações de fim de ano, o longa metragem de Morten Tyldun gerou esse cartaz que é um primor de elegância e intenções, afinal o filme conta a história de Alan Turin (Benedict Cumberbatch), matemático especialista em lógica que ajudou a desvendar os códigos complexos das mensagens da máquina enigma, utilizada pelos alemães para se comunicarem durante a Segunda Guerra Mundial. O cartaz é sutil ao exibir o que está para ser desvendado (não a máquina, mas o protagonista oculto que tinha problemas com sua homossexualidade). 

03 - O Coração do Mar (In The Heart of the Sea/EUA)
O novo filme de Ron Howard só estreia em 2015, mas como não se render ao cartaz da história sobre o naufrágio do baleeiro Essex na tragédia que inspirou o clássico Moby Dick de Herman Melville? A força e grandiosidade da natureza está explícita em seu contraste com o barco que terá muito trabalho nas telas em 2015!

02 - Heartless (Índia)
Não lembro de ter visto um cartaz de filme indiano tão simples, belo e enfático como dessa estreia do ator Shekhar Khuman como diretor. A história do casal que tem a vida transformada por conta de um transplante de coração - que faz mudar totalmente o tom da história - é apresentada com saborosa economia pela ideia que o pôster evoca diretamente. 

01 - Garota Exemplar (Gone Girl/EUA)
O cartaz da nova cria de David Fincher deixa claro que existe algo com a imagem de Ben Affleck, bem, na verdade ele mostra que no fundo tudo o que enxergamos é uma imagem e não propriamente a realidade como ela é (se é que ela existe além do nosso olhar)... o resto, o roteiro sobre o marido que se enrola cada vez mais no desaparecimento da esposa, explica ao espectador. Excelente cartão de visita sobre o filme, o pôster exibe o estilo de seu diretor de forma plena para apresentar o que está por vir em suas duas horas e meia de duração. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DVD: O Lobo Atrás da Porta

Leandra e Milhem: encontro dos lobos.

O Lobo Atrás da Porta foi um dos filmes mais elogiados do ano, quase sendo o escolhido para defender o Brasil em uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro (perdendo a pré-indicação para Hoje Eu Quero Voltar Sozinho). Marcando a estreia do diretor Fernando Coimbra em longa metragem, torna-se notável o seu esmero em fugir de lugares comuns, evitando gracinhas e não tendo medo de ser desagradável nos momentos certos. Nota-se essa desenvoltura na escolha de locações que parecem construir outro Rio de Janeiro em nosso imaginário cinematográfico. Centrado em municípios da periferia, não há nada de cartão postal nas locações, sendo que quando aparece algo que se assemelhe a isso, é no momento em que a plateia já está com o coração na mão - e percebe de que já conhecemos aquela história, mas pelo viés do sensacionalismo - que não é o que vemos aqui. Coimbra opta por construir um quebra-cabeça humano, repleto de ilusões, decepções e atrocidades a partir do desaparecimento de uma garotinha na saída da escola. A partir do sumiço, começam as investigações que apontam para um sequestro. É a partir, principalmente dos depoimentos da mãe (Fabiúla Nascimento) e do pai (Milhem Cortaz) que tomamos conhecimentos dos suspeitos e o caminho que o filme pode seguir. Até então, nem o espectador sabe direito em qual gênero encaixar o filme. Suspense? Drama? Terror? O Lobo continua escondido até que através dos flashbacks milimetricamente encadeados, o espectador começa a ajustar o foco e perceber do que trata a história. É quando conhecemos a principal suspeita que o filme revela outras virtudes. É a atuação perfeita de Leandra Leal que serve para revelar os segredos que as entrelinhas do sequestro não conseguem esconder. Teria a mãe chorosa um amante vingativo? Ou é a esposa do tal amante que quer se vingar? E o pai, seria um sujeito confiável? Além do suspense que cresce entre silêncios e diálogos (às vezes torturantes), o que sustenta é o drama vivido pelos personagens, especialmente a de Leandra. Uma jovem que  apaixona-se pela pessoa errada e sofre consequências que nem imaginaria. Leandra Leal tem aqui outro grande momento, mostrando que sabe crescer diante das câmeras, numa personagem complexa que ganha nossa simpatia enquanto o diretor tece uma trama cheia de crueldades. Ao fim da sessão, vemos que não existe apenas um lobo na história, mas que apenas um deles é capaz de admitir o crime que cometeu e, ainda assim, contentar-se com uma satisfação que não pode ser compreendida por ninguém mais além de si. Coimbra realiza um filme perturbador, especialmente por humanizar alguém que poderíamos ver apenas como um monstro amoral. 

O Lobo Atrás da Porta (Brasil/2014) de Fernando Coimbra com Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiúla Nascimento, Juliano Cazarré e Tamara Taxman. ☻☻☻☻

domingo, 5 de outubro de 2014

DVD: 12 Anos de Escravidão

Fassbender, Lupita e Chiwetel: a coisificação do homem. 

Para nós brasileiros é difícil captar a importância de 12 Anos de Escravidão para a cinematografia americana, afinal, produzimos até novelas das seis sobre o tema. Nos EUA a abordagem da escravidão é coisa rara, podíamos perceber isso quando os críticos tentavam lembrar de outros longas para servir de parâmetro e a grande maioria lembrava das polêmicas de Manderlay (2005) e do satírico Django Livre (2012), além da cultuada série Raízes (1977). 12 Anos de Escravidão é o filme que faltava para abordar o tema no cinema hollywoodiano recente, principalmente porque o diretor inglês Steve McQueen não tem pudores em criar cenas cruéis para evidenciar como um homem pode coisificar o outro. O mais incrível é que ainda que a violência exposta do filme possa ser insuportável demais para os olhos assistirem, ela é apenas uma amostra minúscula do que a escravidão causou na história da humanidade. A partir da história de Solomon Northup, escravo liberto que foi sequestrado e vendido como escravo, Steve McQueen conta uma dolorosa história sobre a coisificação do homem. Transformado em propriedade, Solomon irá comer o pão que o diabo amassou e presenciar atrocidades por todo o seu caminho. Solomon é bastante culto, sabe ler, escrever, tocar violino, mas aprendeu que diante da vida a que estava subjugado, sabia que seus conhecimentos colocariam sua vida em risco. Vivido pelo inglês (filho de nigerianos) Chiwetel Ejiofor (que sempre foi ótimo, mas nunca recebeu o devido reconhecimento), Solomon é quem guia nossa jornada por uma parte da história americana que preferem que seja esquecida. Enganado e surrado logo no início do filme, Solomon é levado para longe de sua família e vive os primeiros anos nas propriedades dos Sr. Ford (Benedict Cumberbatch), que parece ser um bom homem, mas limitado pela percepção de seu tempo - o que impede que ajude Northup a sair daquela situação. Libertá-lo seria gerar prejuízo financeiro... por esse motivo prefere mandá-lo para a posse de Edwin Epps (Michael Fassbender, ator assinatura do diretor), um agricultor de algodão que não se contenta em ser vilão enquanto tenta lidar com suas contradições. É na fazenda de Epps que o filme torna-se mais rico, por acrescentar dois personagens fortes na narrativa. Fassbender (caprichando no sotaque sulista) se banha na crueldade de um homem que vê-se na encruzilhada de ser apaixonado por uma escrava, Patsey (Lupita N'Yongo, que nem precisa de muitas falas para provar que é um verdadeiro achado) enquanto é casado com uma branca. É evidente o efeito nocivo que esse desejo provoca em seus discurso de superioridade assegurada por Deus (acho que não é por acaso que escolheram o ator alemão para o papel), levando a crises violentas de ciúme (motivadas por um fazendeiro local que casou com uma negra amiga de Patsey) e uma eterna desconfiança de quem chega perto dela. Não bastasse ter que se deitar com o seu malfeitor, Patsey ainda come o pão que o escravocrata pisou nas mãos da Srª Epps (Sarah Paulson), de forma que a a escrava vê a morte como sua única chance de liberdade. Esse triângulo amoroso explosivo se desenvolve enquanto Solomon tenta conseguir ajuda para voltar a ter sua liberdade (vale lembrar que esse detalhe só ressalta o quanto todo negro era livre antes de ser escravizado, sacaram?). Como já vimos várias história do gênero, a novidade fica por conta da ausência de pudores do diretor  ao filmar as longas cenas de violência com uma veracidade absurda - com destaque para a trilha sonora modernosa que faz toda a diferença na criação da atmosfera agressiva do filme. 12 Anos de Escravidão ao resgatar um livro lançado em 1853 (e que nunca recebeu a devida atenção pelo seu valor histórico na Terra do Tio Sam) e mais importante do que os três Oscars que recebeu (Filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante para Lupita e outras seis indicações) é o fato do DVD e do livro receberem distribuição nas escolas e bibliotecas americanas no primeiro semestre desse ano. 

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave/EUA-Reino Unido/2013) de Steve McQueen com Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Sarah Paulson, Lupita N'Yongo, Michael Kenneth Williams, Brad Pitt e Scoot McNairy. ☻☻☻☻

sábado, 4 de outubro de 2014

BREVE: Boyhood

Mason: no início, aos cinco anos...

Outro filme aguardado presente no Festival do Rio 2014 é Boyhood (com estreia nacional prevista para dia 30 de outubro) que é saudado como mais do que um filme, mas um verdadeiro experimento cinematográfico. Embora o cinema de vez em quando crie documentários sobre pessoas comuns que crescem diante de uma filmagem, o diretor Richard Linklater teve a ideia de criar um filme de ficção com base na mesma premissa. Linklater trabalha no filme há doze anos. No entanto, somando todos os dias de filmagem, o filme consumiu 39 dias de filmagem, já que o diretor utilizava três ou quatro dias filmando por ano. No entanto, deve existir toneladas de material extra que ficou de fora do resultado final (e nem conte que caberão nos extras de um DVD). Em seus 163 minutos, seria pouco dizer que o diretor conta a história do menino Mason (Ellar Coltrane), quando na verdade, Boyhood é sobre o passar do tempo, as tristezas, alegrias e as lembranças que carregamos ou deixamos pelo meio do caminho. Parece cerebral demais? Pois tudo que Linklater quer é não ser cerebral, pelo contrário, seu filme poderia resultar numa espécie de releitura de Forrest Gump/1994 se a trama se apegasse demais aos fatos históricos ocorridos no período, no entanto, o diretor opta por deixar esses acontecimentos como detalhes - que assim como a onipresente música pop ou os livros de Harry Potter, servem para localizar o espectador no tempo e no espaço, tanto quanto o envelhecimento inevitável de seus atores diante da câmera. Da mesma forma, evita manobras como doenças terminais, falcatruas, crimes ou romances impossíveis que poderia desviar o foco diante de sua ideia principal. Mason vive com a mãe (Patricia Arquette) e a irmã (Lorelei Linklater), vendo o pai músico (vivido por Ethan Hawke) de vez em quando. Quando o filme começa, Mason tem cinco anos e pouca coisa para se preocupar. Com o passar do tempo precisa lidar com uma mudança de endereço, o novo casamento da mãe, o primeiro amor, o primeiro emprego, a independência financeira da matriarca, o gosto pela fotografia e termina com sua chegada à faculdade. Durante a narrativa não existem vilões, apenas alguns personagens pontuais que servem para que Mason aprenda a se impor como indivíduo no mundo. É uma experiência cinematográfica única, especialmente porque vemos como os próprios atores mirins crescem não apenas fisicamente, mas como interpretes diante da câmera. Da espontaneidade infantil passamos para o constrangimento adolescente e, conforme a narrativa avança, eles conseguem transmitir personalidade aos personagens (ainda que não saibamos, por exemplo, onde termina Ellar e começa Mason). Obviamente que a mídia clama que o filme marque presença nas premiações de fim de ano e ele tem chances, principalmente pela identificação inevitável de qualquer mortal com o menino que precisa tornar-se homem, ou de sua irmã que passa por processo semelhante - ou a mãe que também busca seu lugar no mundo (ainda que seja adulta). Linklater tem fortes chances de ser lembrado pelo seu esforço e determinação de conduzir seu processo de criação (que resulta bastante realista), mas acho que somente Patricia Arquette tem força para ser lembrada nas categorias das premiações. Sei que o filme de Linklater é mais do que qualquer estatueta dourada, mas ficaria muito feliz de ver Patricia celebrada como um dos nomes mais promissores dos anos 1990 - e que foi mais reconhecida na TV do que no cinema. Lidando com atores inexperientes a maior parte do tempo, ela serve como ótimo elemento para alinhavar as atuações dentro da proposta do diretor. Sua última cena é tão memoravelmente forte que instala um verdadeiro espectro na cabeça de Mason e da plateia. Boyhood tem uma ideia ambiciosa, mas funciona justamente pelo trato simples ao lidar com a magia do passar do tempo. O efeito é o mesmo que observar a areia de uma ampulheta projetada numa tela de cinema. 

No final (de beca): aos dezoito. 

Boyhood (EUA-2014) de Richard Linklater com Ellar Coltrane, Patricia Arquette e Lorelei Linklater. ☻☻☻☻

terça-feira, 19 de agosto de 2014

NaTela: Guardiões da Galáxia

Os guardiões: aventura nostálgica e humor de tirar o fôlego. 

Os Guardiões da Galáxia apareceram pela primeira vez nos quadrinhos em 1969. Renegados ao posto de coadjuvante do universo Marvel por muito tempo, a equipe aparecia esporadicamente em aventuras de heróis de maior gabarito da editora como Thor e Capitão América. Somente em 1990 os Guardiões ganharam sua própria revista em quadrinhos, que durou 62 edições (ou seja, até julho de 1995). De lá para cá a equipe de Peter Quill & Cia passou por minisséries especiais, reformulações e sagas intercaladas com as outras dimensões do universo da editora. Animada com a anabolizada que o cinema proporcionou em heróis menos populares (como Homem de Ferro/2008), com a bilheteria bilionária de Os Vingadores/2012 e com a mágoa de ter os diretos de sua outra super-equipe (os X-Men) vendidos para a Fox, estava na hora da Marvel elevar seus Guardiões a outro patamar. Aos poucos, de ilustres desconhecidos do grande público, se tornaram protagonistas de um dos filmes mais aguardados do ano e o resultado prova que valeu a pena investir na trupe. James Gunn (que já mergulhou no universo "heróico" com Super/2010) consegue escapar de armadilha de fazer uma variável de Os Vingadores, investindo no tom de ficção científica retrô e com um humor menos gratuito. A plateia ri durante o filme inteiro, mas Gunn sabe exatamente quais os botões apertar para emocionar a plateia quando se faz necessário. Nesta primeira aventura, o diretor conta como os personagens se conhecem e, meio que sem querer, montam uma equipe que, por acaso, salvará a Galáxia. Peter Quill (o sempre carismático Chris Pratt, depois de cinco meses de dieta e academia) é um terráqueo que foi abduzido na década de 1980. Crescido nos confins do universo (embalado por um walkmen e uma fita K-7), vive de roubar artefatos raros para vender a quem possa pagar mais. Enquanto velhos conhecidos o perseguem, existem outros seres intergalácticos que estão interessados pela recompensa oferecida por ele. Em busca de sua captura estão uma árvore e um guaxinim, ou melhor, Groot (voz de Vin Diesel - dizendo só uma frase o filme inteiro) e Rocky (voz de Bradley Cooper), dois seres que parecem deslocados numa aventura sci-fi, mas que vão ensinar você a rever os seus conceitos sobre aparência e praticidade nesse tipo de história que é quase uma paródia do gênero habitado por seres intergaláticos. Completam o time a guerreira Gamora (Zoe Saldana) filha adotiva do vilão espacial Thanos e o fortão Drax (Dave Bautista) - que tem contas a ajustar com Gamora, Thanos e todo vilão que aparecer no filme. Sem ser propriamente um grupo de amigos, o roteiro os envolve em situações que só ajudarão a perceberem que juntos é mais fácil se manterem vivos. Gunn faz questão de mostrar que o filme não é mais um filme de super-herói ao destacar que os seus personagens são anti-heróis em sua essência, marginalizados espaciais que sabem o que é certo e errado e só precisam de uma motivação para escolher um desses lados. Nesse ponto que Dunn constrói uma narrativa bem humorada e bastante coesa em cada uma das situações das quais os personagens precisam se safar - com o grande mérito de não sufocar seus personagens com os efeitos especiais. Prova disso é que o filme além de transformar Peter Quill num dos personagens mais cool do espaço, subverte nossas primeiras impressões dando à Gamora mais nuances do que ser "a mocinha das história", transforma a figura fofa de Rocky num valente de respeito e transforma Groot num personagem antológico da ficção científica com seus poderes de... árvore, oras! Para ressaltar ainda mais o sabor de matinê dos velhos tempos, ainda tem a trilha sonora nostálgica que mantém o vínculo de Quill com as lembranças de sua vida na Terra. Os Guardiões da Galáxia tem tudo para ter o maior faturamento de 2014 e ainda fazer Os Vingadores tremerem diante da sequência a ser lançada no ano que vem. Com o sucesso do filme, a sequência já tem até data de estreia (!!!): 28 de julho de 2017! Nem o Senhor das Estrelas teria apostado nisso!

Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy/EUA-2014) de James Gunn com Chris Pratt, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Vin Diesel, Dave Bautista, Lee Pace, John C. Reilly e Glenn Close. ☻☻

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

DVD: Ela

Theodore: o amor carregado no bolso. 

O último filme de Spike Jonze poderia se contentar em ser apenas mais um filme sobre nossa dependência da tecnologia, poderia colecionar piadas cínicas sobre a forma como os apetrechos moderninhos e as redes sociais distanciam o homem da vida em sociedade e uma série de outros pontos que se tornaram clichês até nos comentários do próprio Facebook. Sorte que Jonze nunca foi um artista convencional, desde a época em que se consagrou como o melhor diretor de clipes dos anos 1990. Ela conta a história de um futuro não específico (de visual deliciosamente retrô, com vidros coloridos e calças de cintura alta) onde acompanhamos Theodore (Joaquin Phoenix, em um momento bastante diferente de sua carreira), um sujeito que tenta digerir o divórcio recente com Catherine (Rooney Mara) e trabalha em uma empresa que escreve cartas por encomenda (e as escritas por ele são as mais românticas). Theodore vive sozinho, ainda que tenha alguns amigos, mas ao adquirir um revolucionário Sistema Operacional dotado de Inteligência Artificial, a vida do personagem irá mudar. Após responder algumas perguntas ele configura Samantha (espetacular atuação vocal de Scarlett Johansson), um sistema operacional "feminino", inteligente, espirituoso e bem humorado que lhe ajudará a administrar os afazeres e ainda fazer a companhia quando a única opção de diversão era jogar games (cujo personagem Alien desbocado é dublado por Jonze)! Aos poucos, Theodore se apaixona por Samantha e vice-versa. Jonze contempla esse romance virtual sem deboches ou moralismos, tanto que a primeira noite de amor entre os personagens poderia ser surreal, mas surge romântica e bastante crível. É verdade que o roteiro aborda alguns pudores do personagem em embarcar nessa relação, ao mesmo tempo em que Samantha entra em conflito se o que sente é realmente um sentimento ou parte de sua programação. Enquanto alguns demonstram estranhamento com o romance que se constrói, outros o percebem como algo natural - e alimentam indiretamente os sentimentos do casal. O filme evolui de forma bastante fluente, na construção de um universo bastante particular, com doses de romantismo e certa melancolia. No entanto, a partir do momento que Catherine se encontra com o ex-marido, existe uma mudança no olhar do espectador sobre Theodore, uma vez que passamos a pensar até que ponto a relação com Samantha reflete as suas dificuldades de compreender seus próprios sentimentos e estabelecer um romance (afinal, as personagens de Olivia Wilde e Amy Adams cruzam seu caminho de forma bastante peculiar) e o relacionamento com Samantha começa a enfrentar problemas devido suas inseguranças. É verdade que o tom cômico em algumas situações é inevitável, como a necessidade de Samantha ter algo físico com seu namorado ou quando ele começa a ter ciúme de sua namorada, no entanto, o roteiro não demora para abordar o lado dramático desses aspectos. Joaquin Phoenix está bastante convincente como Theodore, anulando qualquer traço de esquisitice que o personagem poderia ter: surge como um homem apaixonado e ponto. Por outro lado, Scarlett Johansson tem momentos excepcionais como o software com sede de conhecer o mundo em tudo que ele tem de físico e abstrato. Me incomoda um pouco a forma como algumas piadinhas sexuais são utilizadas para "descontrair" quando o filme ambiciona tornar-se sério, mas nada que ofusque as qualidades do roteiro que ganhou o prêmio de roteiro original na última edição do Oscar (além de conquistar outras quatro indicações - melhor filme, trilha sonora, direção de arte e canção para a meiga "The Moon Song" de Karen O.). Há quem enxergue em todo o filme o fantasma do casamento do diretor com Sofia Coppola (que durou de 1999 - ano em que estreou como diretor com Quero Ser John Malkovich - até 2003), pode ser, afinal, além do original ensaio sobre a solidão e relações amorosas, o filme ainda tem um visual que lembra bastante o tom contemplativo de Sofia. Ela é na verdade uma espécie de filho híbrido cinematográfico do talento dos dois cineastas. 

Ela (Her/EUA-2013) de Spike Jonze com Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Chris Pratt e Rooney Mara. ☻☻☻

terça-feira, 29 de julho de 2014

Na tela: Hoje eu Quero Voltar Sozinho

Leo, Gab e Gi: sem fazer ideia que formam um triângulo amoroso.  

Houve uma época em que eu adorava assistir curtas metragens nacionais, um dos muitos que vi era sobre um adolescente cego que descobria-se apaixonado pelo garoto novo na escola. Só depois descobri que o curta era premiado e cultuado por muita gente, mesmo assim, eu continuava não achando nada demais no curta. O filme terminava quando os adolescentes começavam o romance e tinha uma amiga que ficava meio de lado na história... a vida de fazer curtas é complicada, já que o tempo limitado deixa a impressão que várias possibilidades a serem exploradas naquele universo ficaram de lado. Por isso mesmo, o cineasta Daniel Ribeiro não deve ter se contentado com aquela mostra do que tinha em mãos e realizou a versão ampliada do curta Hoje eu não quero voltar sozinho, que virou o longa Hoje eu quero voltar sozinho. Com o mesmo elenco do curta, Ribeiro amplia as possibilidades de sua história, mas tem o bom senso de manter seu foco na descoberta de Leonardo (Guilherme Lobo) sobre sua sexualidade. Sem apelar para baixarias, vulgaridades ou sexo explícito, Daniel Ribeiro está preocupado no desenvolvimento dos seus personagens que ainda estão descobrindo quem são de verdade. Os dilemas da adolescência, o jorro de hormônios acoplado à insegurança, a relação com os pais e amigos parece ampliada quando descobrimos que Leonardo é cego. Ele está crescendo, mas sua situação torna ainda mais difícil que as pessoas percebam que ele quer ser independente, descobrir uma forma de conduzir sua própria vida. Isso aparece quando ele pensa em fazer intercâmbio e ir para outro país, outro lugar, onde ninguém o conheça e possa ter até outra personalidade. Embora seus pais sejam bem intencionados, Leonardo cresce sufocado pelo excesso de cuidados, inclusive da amiga Giovana (Tess Amorim) que nutre por ele uma paixão platônica nunca percebida pelos olhares e sorrisos jamais vistos pelo seu amigo. Se diante do universo que gira em torno de Leo começa a haver um desequilíbrio (provocado pelo próprio personagem), o desequilíbrio ganha novo impulso quando a escola recebe Gabriel (Fábio Audi), que torna-se próximo do casal de amigos e cada vez mais de Leonardo (para ciúme de Giovana). O roteiro desenvolve as relações entre o trio adolescente sem pressa, demonstrando em pequenos gestos a intensidade da relação que cresce gradativamente. Apresentados como pessoas comuns, os personagens vão aos poucos sendo delineados pelas atuações e termina no encontro com o curta lançado em 2010 de forma coerente com as intenções do autor: contar uma história de amor. Nesse ponto, é interessante a opção de ter um protagonista cego, mostrando outras nuances sobre a percepção da sexualidade envolvendo a afetividade e a atração física como algo para além da aparência. Porém, senti falta do posicionamento dos pais com relação ao desfecho, talvez o diretor saiba que estragaria o sabor adocicado de seu final com novas problemáticas. O filme ganhou dois prêmios no Festival de Berlim em 2014 (o da crítica e o Teddy Bear - voltado para o público GLBT) e existe uma petição liderada por Martha Suplicy para o filme ser o indicado a concorrer uma vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2015 - e sim, ele tem chances, já que o filme coleciona prêmios em todos os festivais em que foi exibido. Se acontecer, será o nosso melhor candidato há tempos. 

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil/2014) de Daniel Ribeiro com Guilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim e Eucir de Souza. ☻☻☻☻