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domingo, 29 de outubro de 2023

#FDS Pablo Larraín: Neruda

 
Gael: personagem perseguindo o seu escritor. 

Pablo Neruda é um escritor que se tornou mundialmente famoso, ao ponto de receber o Nobel de Literatura em 1971. No entanto, em um dos períodos mais sombrios de seu país, o escritor se tornou fugitivo ao final da década de 1940 por ser filiado ao partido comunista (Neruda foi até eleito senador pelo partido). Este período em que Neruda precisou fugir e ficar escondido se tornou o ponto de partida para o filme que fecha o #FinalDeSemana dedicado à obra do cineasta Pablo Larraín. Apesar do teor político da história, o chileno constrói aqui o seu filme mais poético ao dar asas à sua imaginação perante a busca pelo paradeiro do escritor. O espectador já sabe desde o início os passos de Neruda (vivido com gosto por Luis Gnecco), que está a maior parte do tempo ao lado da esposa, Delia (Mercedes Morán), no entanto, enquanto se impõe um cativeiro para a própria segurança, seu temperamento começa a ficar um tanto alterado pela tensão que começa a se construir ao seu redor. Uma fuga para Argentina se torna a solução. Quem se torna responsável por sua captura é o agente Óscar Peluchenneau (Gael Garcia Bernal), que aos poucos se torna o eixo da narrativa que passa a desenvolvê-lo como se fosse um dos personagens do escritor, um policial obcecado por encontrar seu procurado, mas que entra em crise perante sua jornada. Essa ideia de que Peluchenneau é uma criação do próprio Neruda permite que Larraín aprofunde cada vez mais a atmosfera noir do filme. Aqui existem cenas que são lindamente filmadas como uma espécie de reprodução dos clássicos que Hollywood realizava na mesma década em que a trama se passa. Dos figurinos, aos diálogos, passando pelas paisagens que são nitidamente projeções em uma parede, Larraín capricha na embalagem do filme. Curiosamente, o filme estreou no mesmo ano em que ele se aventurou pelo cinema americano com Jackie (2017), que rendeu uma indicação ao Oscar para Natalie Portman no ano em que este aqui pretendia conseguir uma vaga na lista de filme estrangeiro. No entanto, nada disso aconteceu. Muita gente torceu o nariz para Neruda  pela forma como o diretor apresenta o cultuado escritor, visto aqui como um sujeito de boa vida, que foi apontada como "vida burguesa" por vários críticos, que também torceram o nariz para suas visitas a bordeis e o diálogo com uma proletária, cenas que refletem uma imagem que arranha a percepção de um artista comunista engajado (particularmente acho uma ingenuidade imaginar que o escritor fez voto de pobreza durante a vida por ser comunista, já que a ideologia que ele acreditava está muito além do que essa superficialidade). Larraín não tinha a mínima intenção de criar um retrato fidedigno de Neruda - e visitando seus filmes posteriores envolvendo figuras históricas, como a já citada Jackeline Kennedy, Lady Di (em Spencer/2021) ou Pinochet em O Conde (2023), sabemos que seu interesse em criar histórias sobre esses personagens é muito mais um artístico do que documental. O melhor do filme é ver como o filme é construído de forma quase surreal até pouco antes do desfecho, naquele momento belíssimo no gelo com um monólogo estupendo de Gael. Tendo em vista que para Larraín ninguém é sagrado (basta ver a participação minúscula reservada a Alfredo Castro, seu ator favorito), trata-se de um filme de encher os olhos (e os ouvidos). 

Neruda (Chile/2016) de Pablo Larraín com Gael Garcia Bernal, Luís Genecco, Mercedes Morán, Diego Muñoz, Marcelo Alonso, Michael Silva e Pablo Derqui. ☻☻☻☻

sábado, 28 de outubro de 2023

#FDS Pablo Larraín: Ema

 
Mariana e Gael: atuações decepcionantes. 

Ema (Mariana Di Girolamo) é uma dançarina que está em crise pessoal. Tudo indica que a crise teve início quando seu desejo de ser mãe encontrou um grande obstáculo quando descobriu que seu marido, Gastón (Gael Garcia Bernal), um artista performático, era estéril. Os dois resolveram então adotar um menino nas portas da adolescência, só que Ema teve que enfrentar suas próprias frustrações diante da maternidade através de um menino que não nasceu de seu ventre. Após uma sucessão de acontecimentos, ela decidiu devolver o menino para o lar adotivo de onde o tirou. Só por esse trecho, percebe-se a sensação de fracasso pessoal que paira sobre a personagem e ela é ampliada ainda mais pelo julgamento de todos os personagens que estão ao seu redor, especialmente de sua família que foi diretamente afetada por uma das atitudes do menino. No entanto, com a cabeça mais arejada, Ema sente um grande arrependimento e percebe que fez errado ao desistir do menino quando na verdade deveria tê-lo acolhido. Por outro lado, conforme avança a narrativa de Ema, percebemos que as atitudes controversas do garoto (que não aparece na maior parte do filme) refletem muito do casal que o escolheu para compor um lar. São essas complexidades que tornam o filme de Pablo Larraín um verdadeiro quebra-cabeças, que conforme as peças vão se juntando alcança um retrato no mínimo doentio de sua protagonista. Ela  demonstra ter uma relação bastante complicada com todos que estão ao seu redor e não mede esforços para envolver outros personagens em sua jornada para reaver o filho que deixou para trás. O  curioso é que o diretor faz questão de não explicar muito ao espectador sobre o que está acontecendo, deixando que ele descubra o que se passa na história conforme tenta encaixar as cenas  aleatórias ao longo da sessão. A presença de uma assistente social esperta (a ótima Catalina Saavedra), uma advogada insatisfeita (Paola Gianini) e um bombeiro bonitão (Santiago Cabrera) se tornam peças importantes para o rumo que a trama irá tomar, da mesma forma que o interesse da personagem título por fogo revela muito sobre sua personalidade incendiária. No entanto, embora o roteiro esteja cheio de situações para desenvolver e o diretor invista cada vez mais numa estética moderninha (com cenas de dança, projeções e luzes neon), falta ao casal protagonista a energia para carregar tudo isso nos ombros. Mariana di Girolamo nitidamente não sabe muito bem o que fazer com toda a complexidade de Ema, assim como Gael parece disposto a ser apenas um espectador de todas as situações em que se mete por conta dela. A edição arrastada também não ajuda, de forma que senti uma dificuldade enorme de me envolver com os personagens, especialmente com Ema que mostra-se bastante ardilosa e manipuladora mas sem carisma capaz de seduzir. A última cena do filme só deixa claro que ela é um risco para quem está por perto, inclusive à ela mesma. O filme parece um amontoado de ideias interessantes nunca plenamente desenvolvidas. Apesar de não ter curtido o filme (em cartaz no TelecinePlay) o longa foi eleito o melhor filme Ibero Americano no GP Cinema Brasil em 2022.  

Ema (Chile/2019) de Pablo Larraín com Mariana di Girolamo, Gael Garcia Bernal, Paola Gianini, Santiago Cabrera, Catalina Saavedra, Critián Suárez e Diego Muñoz. ☻☻ 

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

#FDS Pablo Larraín: Post Mortem

Castro: sem vida à beira da ditadura chilena. 

Motivado pela presença do controverso O Conde (2023) na Netflix, resolvi fazer um #FinalDeSemana dedicado ao cineasta chileno Pablo Larraín. Não por acaso, resolvi começar pelo seu segundo longa-metragem. Depois de Sinfonia Inacabada (2006) o diretor resolveu deixar claro que seu estilo estava para além da narrativa truncada que brincava com diferentes tempos na narrativa, seu interesse estava mesmo era em construir desconforto ao explorar personagens problemáticos. Aqui, como em todos seus outros filmes, o ambiente social dos personagens motiva ainda mais a estranheza. Post Mortem é começa ambientado no Chile de 1973, nos últimos dias do governo Allende e às portas da ditadura de Pinochet. O diretor opta por abordar essa chegada ao poder de forma pouco óbvia, ele utiliza um necrotério para demonstrar que a morte e a insegurança pairam no ar. Mario (Alfredo Castro), trabalha no necrotério da cidade, tem interesse em uma vizinha dançarina (Antonia Zeggers), mas mesmo quando a encontra, ele passa a maior parte do filme com a mesma expressão apática e sem se envolver muito com o que está ao seu redor. A cena em que ele vê uma manifestação de dentro de seu carro e resolve atravessa-la  lentamente em sentido oposto demonstra bastante a sua postura diante dos fatos. No entanto, embora todo o cenário ao redor do personagem demonstra a situação complicada que o país atravessa, entre manifestações, ruas vazias e carros incendiados, Mario deixa escapar seu temor em poucas cenas (como aquela em que sem motivo aparente começa a acompanhar o choro de outra personagem como se iniciasse por uma imitação quase obrigatória de sua parceira de cena). Não para de chegar corpos ao necrotério. "Esta mulher apanhou até a morte" diz o legista pouco antes de pedir para que não registre aquilo no laudo, "foi só um comentário", tenta consertar. Mario observa aquilo petrificado, mas não como se estivesse assustado, mas indiferente mesmo. Robótico e um tanto sem reação, até seu corte de cabelo parece ser de alguém fora do eixo. Talvez ele não saiba o que fazer perante a realidade, talvez tenha optado por enfrentar o mundo daquela maneira para não enlouquecer, ou apenas esteja tão morto quanto os corpos com que precisa lidar todos os dias no trabalho. No entanto, a realidade se faz cada vez mais próxima e se esfrega na cara do personagem que tenta manter sua ausência de reação ao longo do filme. Para dar corpo a um personagem tão sem alma o cineasta conta com Alfredo Castro, com quem já havia trabalhado em sua estreia na direção (fazendo um personagem totalmente oposto, mas com igual brilhantismo), assim como também  apareceu em outros filmes posteriores do cineasta. Aqui ele demonstra que consegue ser expressivo mesmo diante de um personagem completamente travado e confuso com relação às emoções e desejos que nutre ao longo da narrativa. Um belo desafio, que permite ao expectador projetar em seu trabalho sua própria leitura perante a apatia ressaltada ainda mais pela fotografia sem vida. 

Post Mortem (Chile/2010) de Pablo Larraín com Alfredo Castro, Antonia Zegers, Jaime Vadell, Marcelo Alonso, Ernesto Malbran e Amparo Noguera. ☻☻☻

sábado, 30 de setembro de 2023

PL►Y: Sinfonia Inacabada

 
Benjamín: talento à beira da loucura. 

Existem algumas experiências em assistir filmes que são muito interessantes, como por exemplo, ver um diretor estreante fazendo milagres com um orçamento minúsculo, um intérprete tendo a interpretação que mais chama atenção em um filme, assistir vários filmes seguidos de uma mesma nacionalidade... também gosto de descobrir o filme de estreia de um diretor consagrado após ver seu último trabalho. Foi assim que resolvi ver Sinfonia Inacabada (2006) do chileno Pablo Larraín após assistir seu premiado último longa, O Conde (2023). Os dois estão em cartaz na Netflix e embora sejam bastante diferentes entre si, carregam a assinatura autoral de um dos diretores latino-americanos mais prestigiados da atualidade. Sinfonia Inacabada conta a história de Eliseo Montálban (Benjamín Vicuña), ambicioso jovem músico que deseja criar uma sinfonia grandiloquente, mas no meio do caminho as coisas não saem como esperado. É neste ponto que o filme mergulha em cortes que parecem constituídos de ilusões e flashbacks, delírios e memórias, construindo um verdadeiro labirinto mental para o protagonista  - e deixando que  o espectador seja levado por tudo aquilo. Há quem estranhe a concepção narrativa do filme, mas conforme ele avança se torna cada vez mais interessante. Embora o filme seja costurado pela pelas intenções de um outro músico (Gastón Pauls), que tenta descobrir o paradeiro de Montálban para que a tal sinfonia do título seja finalmente concluída, eu gosto muito mais das cenas em que o protagonista interage com Claudio (Alfredo Castro, um dos atores que sempre que vejo em cena me torno cada vez mais fã), um homossexual que parece estar sempre no limite (enquanto planeja sua fuga do manicômio). Montálban pode ser considerado um artista genial, mas possui tantos fantasmas em sua mente que beira o impossível imaginar a conclusão de sua obra. Embora Larraín deixe a impressão que se perde aqui e ali na complexidade de suas ideias, considero que o último ato o redime de qualquer deslize. É angustiante a ideia que após caminhar em um labirinto, seus personagens cheguem em um beco sem saída, ou melhor, uma ilha no meio do nada - enquanto o compositor perdido encontre finalmente alguma paz. Desde sua estreia, Larraín apresenta seu interesse por personagens complicados, mas embora o filme não tenha recebido muita atenção de público e crítica na época (algo que só foi conquistado mesmo com Tony Manero/2008), o cineasta recebeu o prêmio de melhor cineasta estreante no Festival de Cartagena por esta carta de apresentação. 

Sinfonia Inacabada (Fuga / Argentina - Chile / 2006) de Pablo Larraín com Benjamín Vicuña, Gastón Pauls, Francisca Imboden, Alfredo Castro, Alejandro Trejo, Marcial Tagle e Héctor Noguera. ☻☻☻

domingo, 24 de setembro de 2023

PL►Y: O Conde

Castro: à sombra do vampiro Pinochet. 

Pablo Larraín adora contar histórias sobre personagens reais. Foi assim quando caiu no radar do Oscar pela primeira vez com No (2012), que rendeu ao Chile uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro.  Depois ele também contou os piores dias da vida de Jackeline Kennedy em Jackie (2016), rendendo uma indicação Oscar para Natalie Portman. Fez o mesmo com Lady Di em Spencer (2021) gerando o que muitos achavam impensável: indicar Kristen Stewart ao Oscar. Entre os dois, ele fez Neruda (2016) sobre a perseguição ao poeta de seu país. Agora chegou a vez de Larraín contar a história de Claude Pinochet (não é Augusto, é Claude mesmo), um vampiro de pais desconhecidos que fugiu da Europa para a América Latina. Seguiu carreira no exército e instaurou um golpe militar no Chile em 1973. Pinochet ficou no poder de 1973 até 1990, marcando a história de seu país com violenta repressão contra quem considerasse inimigo. Quando chegou ao poder ele já era casado com Lucía Hiriart Rodriguez, com quem teve cinco filhos. As perseguições e torturas renderam mais de três mil mortes no país, uma situação tão grave que o fez ser foi condenado pela Comissão dos Direitos Humanos da Organizção das Nações Unidas. Após o término de seu regime ditatorial, sofreu mais de trezentas ações criminais envolvendo corrupção e assassinato. Quando simulou sua morte em 2006 no Hospital Militar em Santiago no Chile, ele se ressentia das pessoas não gostarem dele. Enfim. Esta é só uma parte dos 50 anos de um vampiro que viveu disfarçado entre os meros mortais - se alimentando do coração de algumas pessoas que cruzaram o seu caminho (o que explica muito do seu instinto sanguinário). Pelo menos, essa é a ideia que Pablo Larraín apresenta em O Conde, uma comédia de humor sinistro sobre uma das figuras mais nefastas da história da humanidade. Aqui, Pinochet é vivido por Jaime Vadell (que protagoniza meu filme favorito de Larraín, O Clube/2015), que está estranhamente convincente como um vampiro cansado da vida eterna. A esposa (Gloria Münchmeyer) agora o trai com o homem que era de sua confiança, o também sanguinário Fyodor (Alfredo Castro outro ator favorito da filmografia do cineasta), que também foi transformado em vampiro em agradecimento. Nada mais justo. Os cinco filhos só desejam que o pai morra para que herdem a fortuna que ele acumulou ao longo do tempo e, de certa forma, esperam que isso aconteça com a chegada da freira Carmencita (Paula Luchsinger) que pretende eliminar todo o mal daquele corpo (mas será que restará alguma coisa? Os filhos acreditam que não). No entanto, existe um imprevisto na atração entre o Conde decrépito e sua curadora. Larraín tem um bocado de coragem para se aventurar a fazer troça de uma figura tão sombria da história de seu país. A faz usando referências clássicas do terror, especialmente as vinculadas aos vampiros, ao ponto de criar cenas escabrosas como se estivesse comendo jujubas. A fotografia em preto e branco ajuda a dar um tom clássico e pomposo ao que é uma sátira, além de tornar mais assistível as cabeças decepadas, as estacas em ação, as cenas de carnificina, os corações batidos em liquidificadores e bebidos como vitamina [sic] por boa parte do elenco. Fora o texto é genial, tanto que foi premiado como melhor roteiro no Festival de Veneza que terminou no dia último dia 09. No entanto, a não escolha do filme para disputar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro revela que não é um filme para todos os gostos, mas pode ser um deleite para quem capturar as referências históricas que aparecem ao longo da trama - inclusive quando se revela a mãe de Claude Pinochet, a Margaret (Stela Gonet).  O Conde já está em cartaz na Netflix e acho que deve ter uma cota considerável de investimento para figurar na temporada de prêmios que se aproxima. Acho que a Netflix começou sua temporada de pérolas do streaming!

O Conde (El Conde / Chile - 2023) de Pablo Larraín com Jaime Vadell, Alfredo Castro, Gloria Münchmeyer, Paula Luchsinger, Catalina Guerra, Amparo Noguera, Antonia Zegers, Stella Gonet, Marcial Tagle, Jaime McManus, Marcelo Alonso, Clemente Rodríguez, Diego Muñoz e Rosario Zamora. ☻☻☻☻

domingo, 13 de março de 2022

Na Tela: Spencer

 
Kristen: elogiada e indicada ao Oscar. 

Embora nos últimos tempos Kristen Stewart tenha feito papéis desafiadores, considero que nada se compara à coragem de quando topou encarnar a princesa Diana em Spencer. Desde que passou o alvoroço da saga Crepúsculo, a atriz buscou amadurecer como atriz com ajuda de diretores renomados de diferentes nacionalidades. A dica de que estava no caminho certo veio quando se tornou a  primeira americana a levar um César (o Oscar francês) por seu trabalho em Acima das Nuvens (2014) de Olivier Assayas. Quando o chileno Pablo Larraín a escolheu para viver o maior ícone da família real britânica nas últimas décadas, a curiosidade cinéfila ficou atiçada. Larraín já havia feito algo semelhante quando se juntou à Natalie Portman para viver a icônica Jaqueline Kennedy nos dias que se seguiram ao assassinato de seus esposo, John. Quem viu Jackie (2016) sabe que o diretor curte criar tramas em torno de um recorte bastante específico, em que história real e ficção se mesclam para construir um retrato cinematográfico de uma personagem real. Aqui ele vai ainda mais longe ao construir uma espécie de fábula que soa como uma Cinderela às avessas. Com visual estilizado e uma sucessão de cenas que tem o fio condutor a tensão de sua conhecida protagonista, Larraín oferece à Kristen o desafio de viver uma personagem ainda viva no imaginário mundial e que recentemente já rendeu uma atuação memorável (de Emma Corrin na Série The Crown) aos interessados. Não por acaso, Kristen não tenta ser a imitação perfeita de Diana. Ela capricha no sotaque (um tanto acelerado), na postura tímida e no olhar para evocar a lembrança que temos de Lady Di, mas preenche o seu trabalho com o que toda a especulação em torno da vida da princesa junto à família real tinha de desconfortável. A trama se passa durante a última celebração natalina de que Diana participou. Os personagens falam o tempo inteiro de sua instabilidade, da perseguição da mídia, fala-se de amantes, mostra cenas de bulimia, automutilação, tendências suicidas, alucinações... resultando em um retrato denso da princesa que por vezes soa exagerado. Se mantivermos em mente que trata-se de uma obra de ficção, o resultado é aceito com maior facilidade, embora,  Larraín deseje o incômodo da plateia diante do que apresenta. Não existe uma história propriamente com começo, meio e fim,  talvez exista até um esboço na busca de Diana por sua identidade de solteira. É desta parte que surge do nome da família no título, o casaco velho de seus pai, a antiga propriedade da família que sempre lhe desperta atenção, mas quando se revela é um mausoléu. Esta necessidade de encontrar novamente a si mesma funciona como uma espécie de fuga da realidade que a rodeia com suas tradições, austeridade e rotinas sufocantes. Diana tem poucas cenas com a família real, algumas com os filhos e dois diálogos com o então marido e torna-se interessante como ela tem mais cenas com os criados do que com a nobreza ao longo do filme. Pelo trabalho, Kristen recebeu sua primeira indicação ao Oscar ao tornar convincente a angústia da personagem sem recorrer as seus maneirismos histrionicos tão criticados. No entanto, o fato do filme não seguir uma linha para o desenvolvimento da personagem pode lhe custar a estatueta já que, por vezes, o filme parece uma colagem de situações aleatórias sobre Diana. Quem também merecia uma indicação é Johnny Greenwood, o guitarrista do Radiohead, que criou uma trilha sonora excepcional para os tormentos da personagem em um dos natais mais estranhos da história do cinema. Como Johnny foi lembrado  pela trilha de Ataque dos Cães, o tio Oscar está perdoado. 

Spencer (Reino Unido / Alemanha / EUA / Chile - 2021) de Pablo Larraín com Kristen Stewart, Timothy Spall, Jack Nielen, Freddie Spry, Jack Farthin, Sean Harris, Stella Gonet e Sally Hawkins. 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Na Tela: Jackie

Phillipson e Natalie: o fim de uma era. 

Faz tempo que esta cinebiografia de Jaqueline Kennedy está sendo gerada por Hollywood. Lembro de uma vez que quase saiu do papel com assinatura de Steven Spielberg e estrelado por Rachel Weisz. No entanto, mexer com um verdadeiro mito americano não é fácil. Foi quase inacreditável quando o projeto saiu do papel com Natalie Portman no papel principal (que lhe valeu a terceira indicação ao Oscar neste ano) e o chileno Pablo Larraín na direção. Quem conhece sabe que Larraín entende de politizar seus filmes e aqui não faria diferente – e o fãs irão perceber que ele foi a melhor escolha para o texto que tinham em mãos, principalmente porque Noah Oppenheim (que curiosamente tem no currículo somente a escrita de Maze Runner/2014 e Convergente/2016, duas produções voltadas para o público adolescente) foge do convencional com uma colagem de fatos sobre a ex-primeira dama tendo como base uma entrevista concedida para um jornalista previamente selecionado (Billy Crudup). É no decorrer da entrevista que Jackie fala sobre o atentado sofrido pelo esposo (vivido pelo dinamarquês Caspar Phillipson), um badalado programa de TV onde apresentou a casa branca (e que lhe valeu um Emmy) e o funeral espetaculoso que organizou para o esposo. O que torna o filme mais interessante é a forma como lê nas entrelinhas dos acontecimentos históricos, dando voz para Jackie explicitar (ou pelo menos tentar) o que tinha em mente a cada passo vivenciado. Neste aspecto dois pontos são fundamentais para o sucesso do filme, um é a direção de Larraín que imprime o tom tão tenso quanto fúnebre (com grande auxílio de ótima trilha-sonora) durante toda a lentidão de sua narrativa (e que torna palpável a forma como o dia 22 de novembro de 1963 marcou o fim de uma era). O outro ponto é o que colocou o filme no radar das premiações: a atuação de Natalie Portman. A atriz que já provou em Cisne Negro/2011 (que lhe rendeu o primeiro Oscar da carreira) que sabe explorar o que suas personagens tem de mais sombrio. Na pele de Jackie, ela cria uma aura cheia de pose, com direito ao sotaque afetado (afinal, Jackie se tornou um ícone de estilo e elegância) em contraste com o tom amargo (reforçado pelos diálogos ásperos do roteiro), somado à obsessão de reforçar o legado do esposo (ao mesmo tempo que procura onde se encaixa na História americana) existe a tentativa de construir uma personalidade multifacetada para a personagem. Obviamente que o filme recria momentos importantes da história de forma arrepiante (como a cena do carro em Dallas ou a procissão da viúva junto ao corpo do esposo) e reforça detalhes (como a roupa manchada de sangue, o revólver de brinquedo na mão do menino John John), no entanto a estrutura de mosaico histórico pode incomodar por romper com a ideia de uma narrativa linear enquanto se aproxima e afasta da protagonista na mesma proporção. Trata-se de um jogo cênico interessante que deixa a a cargo da plateia interpretar este ícone do século XX conforme lhe parecer mais adequado. Por servir tão bem a esta tarefa complicada, Natalie Portman está cotada para o Oscar que se aproxima (o filme ainda concorre às estatuetas de melhor figurino e trilha sonora), mas Natalie tem bons parceiros de cena, com destaque para o recém falecido John Hurt na pele do padre conselheiro da personagem e Peter Sarsgaard como o cunhado Bobby (que anos depois teve seu próprio infortúnio). Em Jackie Larraín consegue criar uma biografia que escapa do óbvio. 

Jackie (EUA/Chile/França - 2016) de Pablo Larraín com Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, John Hurt, Greta Gerwig, Caspar Phillipson e Richard E. Grant. ☻☻☻

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

PL►Y: O Clube

Os moradores: de simpáticos a ameçadores. 

Desde que escrevi sobre o filme chileno O Clube em meu post sobre o indicado ao Oscar Spotlight/2015, vários amigos começaram a me cobrar um comentário sobre o polêmico filme do aclamado diretor Pablo Larraín. O longa ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim no ano passado e foi indicado ao Globo de Ouro de filme estrangeiro. Embora Larraín tenha concorrido ao Oscar em 2013 por No (2012), ele ficou de fora ao prêmio desse ano, principalmente por conta de todo a discussão que o filme gerou. No Brasil ele não recebeu muita atenção do público, mas a crítica ficou atenta à história pontuada por segredos e crueldades. Larraín, parece inspirado no cinema de Mark Haneke para construir o clima seco do filme, que consegue ser ainda mais estranho que o premiado Tony Manero (2008), segundo filme do cineasta chileno. O Clube conta a história de um grupo de velhinhos que mora numa casa de praia sossegada no litoral chileno. As primeiras cenas deixam claro que o grande passatempo do grupo é a corrida de cachorros que acontece na cidade, sendo de responsabilidade de Vidal (Alfredo Castro, ator favorito do diretor) a responsabilidade de treinar o mascote da casa. Eles ainda conversam, cantam rezam, se alimentam e contam com a ajuda de uma mulher, Mónica (Antonia Zegers), para cuidar da residência. Eis que a rotina da casa é quebrada quando recebem a visita de um padre que traz outro morador para lá e, enquanto Mónica explica para o novo hóspede as regras da casa, descobrimos que todos ali são padres que participam de uma espécie de retiro de penitência à margem da sociedade. Tudo piora quando um desconhecido começa a gritar em frente à casa descrevendo como o novo morador o molestou quando era criança. É quanto acontece uma morte na trama e uma investigação começa a acontecer envolvendo todos os moradores da residência. Conduzida pelo enviado especial da igreja, Padre Ortega (Marcelo Alonso), a vida de todos na casa e colocada em risco. A partir da introdução de Ortega na trama, o filme tem momentos de entrevista com os padres e a madre reclusa, mas nunca fica muito claro o que os levaram até ali. O interesse do roteiro é outro: expor como a religião pode inibir o prazer e, por isso mesmo, criar consequências desastrosas. Ortega cria regras mais rígidas para a casa e desenvolve uma antipatia especial pelo Padre Vidal. O Clube aos poucos torna aquele grupo de simpáticos velhinhos em sujeitos um tanto ameaçadores e o que era para ser um dramalhão, passa a ganhar toques de suspense. Conforme a trama avança, acordos começam a aparecer para manter a casa como estava antes e... Larraín cria uma última meia hora assustadora, tão dolorosa que é de partir o coração - mas o desfecho é irônico  (que rende várias interpretações, de acordo com o tamanho da fé que o espectador tem nos personagens). Para muitos o resultado é apenas desagradável, para outros é uma brilhante analogia sobre como a igreja cuida de seus tropeços sacrificando inocentes. 

O Clube  (El Club / Chile - 2015) de Pablo Larraín, com Alfredo Castro, Antonia Zegers, Marcelo Alonso, Jaime Vadell, Roberto Farias e Alejandro Goic. ☻☻☻☻

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

DVD: No

Bernal: o poder da imagem e do discurso. 

Indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2013, No surpreendeu até seu diretor que considerava a situação ridícula, já que não via seu filme com cara de Oscar. Na época, eu ainda não havia assistido o filme e pensei ter entendido o que ele quis dizer. Imaginei que fosse uma dessas produções moderninhas, cheia de recursos narrativos que muitas vezes parece mais confuso do que eficiente na hora de contar a história. Quando assisti ao filme cheguei à conclusão de que não havia motivo da surpresa do diretor Pablo Larraín (diretor do estranho Tony Manero/2008), já que No é de uma eficiência ímpar ao contar a história do plebiscito armado por Augusto Pinochet para legitimar sua ditadura no Chile. Tive a ideia ruim de que Larraín quis cuspir no prato que comia, já que produz e dirige uma série bem sucedida da HBO (a badalada Prófugos) e assinou uma produção dirigida por Abel Ferrara estrelada por Willem Dafoe (4:44 - O Fim do Mundo/2011), ou seja, tem algum cacife e amigos em Hollywood para perceberem e divulgarem as qualidades do seu trabalho. Melhor achar que era só falsa modéstia. Talvez o diretor temesse à estética granulada da fotografia, que lhe confere uma estética bastante diferente dos filmes convencionais, mas essa ideia seria incoerente, já que confere ao longa uma identidade estilística ainda mais forte e bastante coerente com a época em que a história acontece. Ambientado em 1988, o roteiro conta a história do jovem publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) que é contratado pelos militantes da oposição ao governo Pinochet para auxiliar na campanha do Não, ou seja, do grupo que não queria que Pinochet continuasse o seu governo com desaparecimentos políticos, opressão e censura. Mal sabia René, que seu patrão seria um dos cérebros por trás da campanha do Sim - que exaltava a industrialização do país e o estabelecimento de um padrão de vida inspirado pelo american way of life - em que o consumo tentava disfarçar todos os problemas que o país enfrentava (isso me lembra alguma coisa...). Chega a ser exaustiva a quantidade de informações que Larraín apresenta para mostrar as campanhas pautadas nos dois pontos de vista distintos. É interessante que durante a campanha, podemos perceber uma mudança no próprio olhar do protagonista, ele mesmo um exilado (depois que o pai foi perseguido no México, a família mudou-se para o Chile). Nos primeiros comerciais, René é pura linguagem publicitária, com ideias que não agradam o grupo político para que trabalha com jingles, sorrisos e modelos que possuem pouca relação com a maioria da população chilena. Esse ponto de mudança é marcado pela ex-esposa do personagem, uma militante que vive tendo problemas com a polícia. Aos poucos, o filme desvenda como eram traçadas as estratégias de ambas as campanhas, o uso do humor, da censura, dos formadores de opinião, dos artistas e esclarece como todas aquelas ações serviram para tornar legítimo um referendo idealizado para ser uma grande mentira. Utilizando uma tensão político-narrativa que era muito comum nos filmes da década de 1970 e algum toque de humor (e que fez a glória de Argo/2012), No consegue ser bastante elaborado em suas intenções e explica um pouco da história que não lemos nos livros escolares. Além da história, que é em si bastante interessante, o filme ainda nos faz pensar sobre o poder das imagens e do discurso da/na mídia (mesmo na cena final, onde vende-se a imagem de um Chile glamouroso pós-referendo) e como um ditador para permanecer na mídia não depende apenas da vontade dele, mas também de um grupo da população que se beneficia e legitima o regime autoritário. 

No (Chile/2012) de Pablo Larraínn com Gael Garcia Bernal, Alfredo Castro, Luiz Gnecco, Antonia Zeggers, Pascal Montero. ☻☻☻☻

sábado, 22 de setembro de 2012

CATÁLOGO: Tony Manero

Castro: Quero ser John Travolta.

Se Al Pacino fosse um ator chileno provavelmente ele seria Alfredo Castro, mas Alfredo Castro quer ser Tony Manero o famigerado personagem de John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite (1977). Ou melhor, Castro interpreta o estranho Raul Peralta, um homem de 52 anos que é obcecado pelo personagem que dança ao som de Bee Gees. Não existe muita semelhança entre o filme sacolejante e essa obra chilena e isso deve ter desapontado muita gente que entrou no cinema e encontrou um filme sombrio ambientado durante a ditadura de Pinochet no final da década de 1970. Raúl é um sujeito com uma única expressão que não muda nem quando está se requebrando ao som da trilha sonora de seu filme favorito, ele já deve ter assistido ao filme uma dezena de vezes, já sabe as falas, se emociona com os momentos mais piegas do longa e encontra até sentido nas falas mais toscas do verdadeiro Tony Manero. Fora isso a diversão de Peralta é ensaiar um número com um trio de dançarinos para a apresentação num boteco da periferia de Santiago enquanto aguarda o dia de participar de um concurso na TV que procura encontrar o melhor Tony Manero do Chile. Seu jeito enigmático atrai não só a dona do boteco como uma das dançarinas - que demonstra ter um relacionamento antigo com Raul (ainda que seja aos trancos e barrancos). Só para concluir a apresentação do personagem, ele não se envolve com política e também é um psicopata. Enquanto Raúl comete alguns crimes seus parceiros de palco parecem envolvidos com ações contra o regime do país. O diretor apresenta seu personagem sem pressa numa narrativa propositalmente lenta capaz de gerar ainda mais estranhamento quando Raúl demonstra que não é o sujeito passivo que aparenta - e que também não quer ganhar nossa simpatia. Mesmo quando está perto de realizar alguma atrocidade ou enquanto gasta o tempo para preparar o cenário de seu número de dança (com tijolos de vidro e uma bola coberta de espelho quebrado), Raúl se comporta como um zumbi. É como se estivesse tão alienado do mundo ao seu redor que não consegue nem se excitar quando está com suas amantes. Num primeiro momento não podemos culpá-lo, afinal o filme capricha nos ambientes sujos e nas relações ásperas entre seus personagens, o que justificaria sua fuga em curtir o som dos Bee Gees e encrencar com o número de botões do seu conjunto branco. O filme não aponta salvação para Raúl, mas sabe explorar sua dança no palco daquele boteco e mais ainda quando aparece no programa de TV aplaudido pelo público. É nesse momento mágico que Alfredo Castro deixa seu personagem ser humando e sentir-se leve no mundo. Pena que isso dura pouco e ele precisa voltar para a casa e se deparar com uma situação que poderá condená-lo à solidão para sempre. O jovem cineasta Pablo Larrain ganhou fama em festivais com seus filmes ambientados durante a ditadura de Pinochet e em Tony Manero cria um filme tão estranho quanto seu personagem, o resultado pode ser indigesto para a grande maioria do público mas merece atenção por dar ares trágicos ao que qualquer um poderia tornar cômico. 

Tony Manero (Chile/2008) de Pablo Larrain com Alfredo Castro, Paola Lattus, Hector Morales e Amparo Noguera. ☻☻☻