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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

FILMED+: Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo

Jessie e Jesse: viagem ao mundo dos pensamentos inseguros. 

Sempre acho engraçado quando a internet é invadida por um bando de vídeos dizendo "final explicado" de determinado filme. Acho que o problema foi eu ter começado a ver filmes de David Lynch na adolescência (e vê-lo repetindo em entrevistas que não explicaria filme algum). O cinema americano tem um compromisso com o realismo que por vezes atrapalha os espectadores que ficam acostumados a histórias com início, meio e fim e quando se deparam com algo que foge desta cartilha costuma classificar o filme como ruim. Embora esteja longe de ser um David Lynch, o que é muito bom, Charlie Kaufman tem explorado em seu cinema esta ousadia de romper com o realismo. No início foi como roteirista de Natureza Quase Humana/2001, Quero Ser John Malkovich/1999 (indicado ao Oscar de roetiro original) e Adaptação/2002 (indicado ao Oscar de roteiro adaptado), filme que quebravam a ideia de que a narrativa deve acontecer somente no plano real. Acabou ganhando um Oscar por seu trabalho em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças/2004 onde um casal resolve apagar o outro da memória através de um tratamento revolucionário. Depois migrou para a direção gerando mais estranhamento do que aplausos em Sinedóque, Nova York (2008) e com a animação inovadora Anomalisa (2016). Agora ele resolve adaptar um roteiro que é um prato cheio pelo apreço ao que se passa dentro da mente humana. Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo é baseado no livro de  Ian Reid e encontrou na Netflix o terreno fértil que precisava para ser produzido.  A premissa é bastante simples: a primeira visita aos pais do namorado no natal. Basta este ponto de partida para que Kaufman viaje na proposta do livro criando um road movie diferente que transcende a estrada para explorar o trajeto na mente dos personagens. Todas as inseguranças, paranoias e conflitos de um relacionamento que está começando aparecem ali, sejam nos diálogos tensos, nos pensamentos ou na chegada à casa de uma família desconhecida de quem, até semanas atrás, era um estranho. Kaufman constrói então uma amálgama incômoda, que mistura o que parecia ser uma comédia romântica com atmosfera de suspense. Quando a protagonista (a ótima Jessie Buckley) chega à casa dos pais do namorado (Jesse Plemons cada vez mais craque em viver tipos estranhos) a coisa se expande em sua percepção sobre aqueles personagens, ora parecem mais jovens, ora mais velhos, por vezes são desagradáveis, simpáticos e até bizarros (ponto para os excelentes trabalhos de David Thewlis e especialmente Toni Collette). Mas a coisa não termina por aí, eles precisam voltar para casa e as paradas pelo caminho só intensificam os pensamentos da moça. Ou não seria nada disso? Já que diante do livro há quem afirme que tudo acontece na mente de outro personagem. Kaufman pode ter mudado o foco do livro, mas isso não impede que se deleite nas possibilidades que a história possui. Muitos vão achar um exagero o que ele faz com aqueles longos diálogos dentro do carro ou com o casal de dançarinos que podem representar o desfecho daquele romance ou naquele discurso do final (que repete os clichês tão criticados pela protagonista dentro do carro). Diante de uma plateia envelhecida por maquiagens caricatas o efeito é propositalmente postiço e estranho. Embora muitos estejam criticando o filme por sua estrutura surreal trata-se de uma obra que espanta a mesmice e resulta (acredite!) no filme menos complicado de seu diretor. Charlie Kaufman faz aqui seu filme mais redondo, embora, para muitos, ele ainda pareça um poliedro quebrado. 

Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things/EUA - 2020) de Charlie Kauffman com Jessie Buckley, Jesse Plemons, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd, Abby Quinn e Oliver Platt. ☻☻☻☻☻

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Na Tela: Anomalisa

Michael, uma fã e Lisa: riqueza impressionante de detalhes. 

Quero ser John Malkovich/1999 deve ser um dos filmes mais originais da história em sua abordagem sobre crise de identidade e culto às celebridades. Também foi o filme que estabeleceu Charlie Kaufman como um dos roteiristas mais criativos de Hollywood. Se você viu o filme você deve lembrar que o protagonista era um títere (manipulador de marionetes) incompreendido por perceber que os bonecos eram capazes de transmitir mais emoções do que a maioria das pessoas pensam - tanto que leva uma surra ao fazer uma versão (sem cortes) de Abelardo e Heloísa com bonecos no meio da rua. É mais ou menos essa a ideia que Kaufman resgata em seu segundo filme na direção. Depois do resultado confuso de Sinedóque, Nova York/2008, ele volta com as ideias mais contidas, mas ainda assim, interessantes ao contar a história de um famoso escritor em crise. É verdade que todo o personagem do roteirista está em crise (e que já parece até clichê), a grande diferença é que a trama serve de pretexto para vermos bonecos fazendo coisas incomuns na telona. O protagonista Michael Stone (parece a mistura dos protagonistas de Instinto Selvagem/1992, será de propósito?) ganha a voz de David Thewlis para expressar suas angústias ao se preparar para a palestra sobre seu livro de sucesso sobre atendimento a clientes. Nascido na Inglaterra e residente nos EUA, Michael tem uma esposa e um filho, mas passa o início do filme cogitando reencontrar um romance do passado. Quando a coisa parece não se ajeitar, ele encontra duas fãs, e se encanta por uma delas, a doce Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh) - e parece ser sua última chance de ser feliz. O roteiro investe pouco no humor e prefere se concentrar em momentos como em que Michael (e a plateia) percebe que a voz de Lisa é única (e é mesmo, já que todos os outros personagens tem a voz do ator Tom Noonan - inclusive as mulheres, o que deixa tudo ainda mais esquisito) e no revelador pesadelo que destaca como, bem no fundo, a crise de Michael é por ele não perceber que os outros não existem para satisfazê-lo (o que pode prejudicar suas chances de felicidade, não apenas com Lisa, mas com qualquer pessoa). Kaufman contou com a ajuda do animador Duke Johnson para dar vida aos bonecos em stop-motion e os dois conseguem realmente momentos incríveis, não apenas na expressividade dos bonecos (feitos por impressoras 3D) mas na riqueza de todos os detalhes em cena (que deixaram a equipe com a árdua missão de ter poucos segundos gravados após um dia inteiro no estúdio). Todo esse cuidado consegue criar um drama humano que talvez não tivesse tanta graça se fosse feito por atores de carne e osso (além disso, criaram a cena de sexo entre bonecos mais delicada de todos os tempos). Indicado ao Oscar de Melhor Animação, o filme também é um destaques do Independent Spirit Awards (que acontece dia 27 de fevereiro, um dia antes do Oscar), onde concorre aos prêmios de Melhor Filme, Direção, atriz coadjuvante (Jennifer Jason Leigh) e melhor roteiro. Vale conferir, nem que seja pela curiosidade de ver um projeto único e bastante pessoal do autor.  

Duke e Charlie: trabalho árduo. 

Anomalisa (EUA/2016) de Duke Johnson e Charlie Kaufman, com vozes de David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan. ☻☻☻

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CATÁLOGO: Sinedóque, Nova Iorque


Caden: contemplando suas centenas de personagens.

Em 2008 o roteirista Charlie Kaufman lançou seu primeiro filme na direção. Quem conhece sua carreira pautada por obras originais como Quero Ser John Malkovich (1999), Adaptação (2002) e Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004) sabe que o cara está longe de facilitar a coisa para o espectador - no entanto, isso não impediu que ganhasse o Oscar de roteiro original por este último longa. Não estou bem ao certo, mas após ver uma obra complexa como Sinedóque Nova Iorque, penso que Kaufman imaginou que somente ele seria capaz de transmitir todos os pensamentos que passaram por sua mente elétrica enquanto escrevia o seu texto mais denso, sombrio e deprimente. Existe muitas semelhanças entre Sinedóque e os roteiros assinados por ele anteriormente, mas ao mesmo tempo pesa a sensação de que um diretor mais experiente teria realizado um filme melhor. Talvez o distanciamento do texto, aquele que é impossível para quem o escreveu, teria ajudado a perceber que algumas ideias sobram e servem apenas para deixar confusa uma trama de potencial universal para dialogar com o público. Ou seja, Charlie não é Michel Gondry, tão pouco Spike Jonze. Não vou perder meu tempo apontando semelhanças entre este filme e o clássico de Fellini, Oito e Meio (1963) que retrata um diretor de cinema que começa a filmar sua obra mais ambiciosa sem saber ao certo que história quer contar (e acaba revisitando sua própria vida). Obviamente que existem semelhanças entre ambos, mas independente das declarações do cineasta de que não conhecia a obra do cineasta italiano, seu filme tem alma própria - embora seja um bocado transtornada. O filme se ocupa a contar a história de Caden (Phillip Seymour Hoffman, competente como sempre), um dramaturgo que é criticado e elogiado na mesma medida por suas montagens de textos alheios. Caden é casado com Adele (Catherine Keener, amiga e musa de Kaufman), uma artista plástica insatisfeita com o casamento. Juntos fazem até terapia de casal (com uma psicanalista interpretada por Hope Davis) para tentar salvar uma relação desgastada e que pode afetar a graciosa filha do casal, a pequena Olive (a menina Sadie Goldstein que antes apareceu em Pecados Íntimos/2006). Mas tudo vai por água abaixo quando Adele parte para a Alemanha com Olive e deixa Caden ainda mais à deriva nas frustrações, neuroses e hipocondria. Caden beira o colapso nervoso e não ajuda ter uma amiga atriz talentosa como Claire (Michelle Williams) ou uma candidata à amante como Hazel (Samantha Morton) sempre por perto. Quando ele recebe um financiamente milionário como prêmio, Caden resolve bancar um projeto ambicioso em Nova York onde contará a história de sua própria vida e seus inúmeros coadjuvantes.  O projeto se arrastará por mais de vinte anos e irá escancarar os limites da arte que imita a vida (ou seria da vida que imita a arte?). O filme borra os limites entre o que é encenado e o que é real, ao ponto de haver um ator que interpreta Caden e  que está prestes a contratar um ator para interpretá-lo (deu para entender?). Neste ponto já percebemos que o diretor constrói uma crítica melancólica a quem prefere reproduzir a vida a mostrar o seu olhar sobre ela. Caden se perde em sua obra ao ponto de não perceber que foi totalmente tragado por ela, ao ponto de não mais viver, apenas existir para reproduzir o que já viu. Curioso é que perto dele todos parecem querer deixar sua marca, seu olhar sobre o mundo, menos ele. Vejamos, Adele quando consagrada diz que "vê o mundo, se o vê, sente. Se o sente, pinta! Simples assim"! Da mesma forma a pequena Olive narra (em uma das cenas mais lindas do filme) em seu diário suas viagens imaginárias ao lado de seu pai - para logo em seguida ter um contraste brusco com seu leito de morte cheio de ressentimentos por mentiras contadas por uma amiga de sua mãe (Jennifer Jason Leigh em outro papel esquisito). Caden parece contruir para si uma prisão (sua peça interminável) dentro de outra (sua própria existência real) e em ambas mantém a inércia de sempre esperar por um sentido que nunca é produzido, apenas aguardado. Nesta prisão duplamente auto-construída chega a se casar com Claire e ter uma filha, a qual chama recorrentemente de Olive, o que só expressa o seu anseio em reproduzir o que já se foi. Ironicamente, a única criação de Caden é Ellen, uma criação involuntária ao lado de Adele (por conta de uma confusão com o nome da faxineira). Não por acaso é a atriz contratada para viver Ellen na peça (Dianne Wiest, num papel pequeno, mas preciso) que conduz a mente de Caden rumo ao fim (por um ponto eletrônico). Mesmo que este seja mais confuso do que os outros filmes que levam a sua escrita, o longa retoma aspectos pertinentes da obra de Kaufman e resulta no seu roteiro mais melancólico. Mesmo que em alguns pontos o diretor ainda demonstre sua irreverência celebrada (a obsessão por fezes estranhas, o livro "interativo" da psicanalista ou a casa sempre em chamas de Hazel) a profundidade dos assuntos que procura abordar deixa seu protagonista cada vez mais próximo do abismo. Sorte que nessa jornada ele contou com o apoio de um excelente elenco.

Sinedóque, Nova Iorque (Synecdoche, New York/EUA-2008) de Charlie Kauffman com Phillip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Michelle Williams, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan e Emily Watson. ☻☻☻