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sábado, 9 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Nise - O Coração da Loucura

Glória e seus companheiros: o tratamento pela humanização. 

Conheci o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira na faculdade, quando minha turma foi visitar uma exposição da celebração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Lembro que no Paço Imperial no Rio de Janeiro estavam expostos vários trabalhos de pessoas que participaram dos tratamentos por Terapia Ocupacional realizados por ela a partir da década de 1940. O mais fascinante da mostra chamada Imagens do Inconsciente (nome que batiza o museu criado por Nise em 1952) era que todas eram assinadas por clientes de sua iniciativa no Centro de Alienadas de Engenho de Dentro, uma instituição psiquiátrica criada para abrigar pessoas em tratamento no Hospício Pedro II (atual Instituto Municipal Nise da Silveira). O cineasta Roberto Berliner resolveu levar para as telas uma biografia de Nise e usou toda a sua experiência no gênero documental para dar vida aos desafios que ela e seus clientes precisaram enfrentar. Berliner opta por uma narrativa clássica, que funciona muito bem, especialmente para seus aterradores momentos iniciais. Desde o momento em que ela volta ao  percebemos que ela não é uma pessoa de desistir fácil. Depois de um período afastada do serviço público (por motivos políticos que lhe renderam até uma prisão no ano de 1936) ela fica chocada com os tratamentos a que são submetidos os internos da instituição. Lobotomia e eletrochoque eram vistos como os melhores tratamentos para os transtornos que apresentavam, mas Nise sempre se posicionou contra tratamentos agressivos e violentos, de forma que revolucionou o tratamento da época utilizando a arte como terapia. Nise ganha corpo com a atuação vigorosa de Glória Pires que resgata a força da personagem diante do embate com o tratamento excludente com que se depara. Há de se exaltar também a atuação do elenco de apoio que tem a difícil tarefa de encarnar os clientes da clínica de forma convincente, especialmente na transição que atravessam ao longo do filme. A história de Nise é tão fascinante que poderia render outros filmes, um que conte o que houve antes do período retratado aqui (tempo em que se tornou amiga de Graciliano Ramos na prisão, o que a tornou personagem do livro Memórias do Cárcere) e até outro sobre a forma como se tornou reconhecida após anos desafiando seus colegas de trabalho a buscar um tratamento mais humanizado para os pacientes psiquiátricos (já que aqui existe um corte bem antes disto). Nise tinha diálogos com críticos de arte e Carl Jung (que aparecem no filme sem ser muito explicativos) serviram para que seu trabalho transcendesse a lógica da época, a tornando referência no tratamento psiquiátrico. O Ciclo Verde e Amarelo deste ano se despede com uma personagem histórica que merece ser sempre lembrada e celebrada, assim como Elis, que abriu nossa semana por aqui. 

Nise - O Coração da Loucura (Brasil/2015) de Roberto Berliner com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Caludio Jaborandy, Flavio Bauraqui, Roney Villela, Julio Adrião e Bernardo Marinho. ☻☻☻☻

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Redemoinho

Júlio e Irandhir: o passado presente na memória. 

O diretor mineiro José Luiz Villamarim ganhou o coração da crítica com duas séries bem sucedidas na TV (Justiça e Nada será Como Antes ambas de 2016), mas foi no início de 2017 que ele conseguiu seu voo mais ambicioso com a chegada de seu primeiro longa-metragem nos cinemas, o elogiado Redemoinho. Baseado no livro Inferno Provisório de Luiz Ruffato, o filme conta a história de dois amigos de infância que se reencontram depois de muito tempo. Um deles é Luzimar (Irandhir Santos) que cresceu na pequena cidade de Cataguases (Minas Gerais), trabalhando na tecelagem que movimenta a economia local até se tornar fiscal de produção. Ele se casou com Tonia (Dira Paes) e parece ter uma vida feliz, ainda que a audição tenha sido maltratada pelo barulho das máquinas ao longo dos anos. O outro é Gildo (Júlio Andrade) que foi tentar a vida em São Paulo e voltou dirigindo um carrão para visitar a mãe solitária, Dona Marta (Cássia Kis Magro) que sempre aguarda a visita de seu outro filho - o mais querido Gilmar. Até o encontro de Luzimar com o visitante, Villamarim apresenta a cidade sempre rompendo a quietude que se espera da cidadezinha, seja pelo trem que está sempre cortando o silêncio ou o maquinário pesado que produz a leveza dos tecidos. Seja por uma senhora triste, um personagem sem destino que vagueia desequilibrado pelas ruas ou a própria Dona Marta que parece acolhedora mesmo com as frases amargas que destila entre os dentes, a cidade se equilibra entre dois movimentos: o que se mostra e o que se sente. Curiosamente, desde o primeiro momento, a presença de Gildo não parece bem-vinda e a situação piora depois de várias garrafas de cerveja e as verdades desconfortáveis começam a aparecer . Não é por acaso que Villamarim escolheu o nome de Redemoinho para sua cria, afinal, seja pelos ventiladores, pelo movimento da água que desce pelo ralo ou as lembranças de Luzimar que persistem em sua memória a narrativa evoca o movimento circular sem ser óbvia, sempre indo e vindo ao mesmo ponto: é melhor sair ou ficar naquele lugar? A esta ideia de movimento (ressaltado ainda mais pela ponte e o trem - que também marca passagem do tempo), somado ao fato da história se passar toda no dia de Natal, tudo se torna ainda mais emocional e extremamente contido. Villamarim não gosta de malabarismos visuais ou invencionices  narrativas, nem precisa, já que seu estilo é extremamente preciso no corte das cenas e nos enquadramentos que emolduram os diálogos reveladores. Construído milimetricamente em seus fantasmas, Redemoinho é uma estreia que competente,  principalmente por sua atmosfera cheia de camadas. 

Redemoinho (Brasil/2017) de José Luiz Villamarim com Irandhir Santos, Júlio Andrade, Cassia Kis Magro, Dira Paes e Cyria Coentro.  ☻☻☻☻

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

10+: MEUS FAVORITOS DO CINEMA BRASILEIRO

Este é o quarto ano em que escolho a primeira semana de setembro para comentar um filme brasileiro por dia. Neste ano, para anabolizar as comemorações do dia 07 de setembro eu resolvi fazer diferente e fazer a minha lista de dez filmes brasileiros favoritos de todos os tempos. Foi uma lista muito difícil de fazer e alguns muito queridos ficaram de fora (Sonho de Valsa/1987, Durval Discos/2002, Janela da Alma/2001 e Lavoura Arcaica/2001 foram alguns). A seguir, dez pérolas do nosso cinema que se você não viu, não sabe o que está perdendo (em ordem alfabética). 

#01 "A Marvada Carne" de André Klotzel (1985)
Eu gosto tanto do filme de estreia de Klotzel que eu o colocaria em todas as listas de filmes favoritos que eu fizer. Ele utiliza tantos elementos folclóricos em uma narrativa divertida e belamente interpretada pelos atores principais, afinal,  Fernanda Torres e Adilson Barros estão irresistíveis como o casal que para realizar o casamento terão que passar por algumas provações bastante incomuns - e ainda ter que lidar com a vontade irresistível do noivo comer carne. Não há Santo Antônio que resista!

#02 "Assalto ao Trem Pagador" de Roberto Farias (1962)
Antes de ter um blog eu escrevia sobre os filmes que assistia em um caderno e este longa de Roberto Farias tem uma das resenhas mais elogiosas que já escrevi (e sei que estou devendo escrever sobre ele aqui no blog), especialmente pelo tom moderno com que conta a história de seis homens que resolvem assaltar um trem na Central do Brasil. A partir daí, as investigações revelam um mundo que tinha pouco espaço no nosso cinema e - ainda hoje - carece de uma visão tão autêntica quanto a que vemos aqui. Cheio de estilo e bela fotografia em preto e branco, o filme de Farias é uma das obras-primas inquestionáveis do nosso cinema. 

#03 "Central do Brasil" de Walter Salles (1998)
Premiado no Festival de Berlim, o filme ainda recebeu o Globo de Ouro de filme estrangeiro e concorreu ao Oscar da mesma categoria (e perdeu para o sacal A Vida é Bela) - além de colocar Fernanda Montenegro no páreo de melhor atriz por sua atuação memorável! Sempre me emociono quando vejo a história da amarga Dora e do menino Josué. Acho magnífica a forma como Walter mostra que cada busca, encontro e despedida que atravessa o caminho dos personagens revela uma nova camada de suas personalidades. Central do Brasil é basicamente a essência de um road movie em sua melhor estrada: a da busca de si  mesmo em todas as suas dores. 

#04 "Eles Não Usam Black Tie"  de Leon Hirszman (1981)
Premiado no Festival de Veneza o filme de Hirszman anda esquecido, mas merece ser lembrado pela forma como mescla a história de uma família com movimentos sociais, no caso uma greve de operários de uma grande metrópole. Coletivo e individualidades se chocam todo o tempo e revelam como a dinâmica social nunca pode ser simplificada, algo que algumas pessoas ainda precisam lembrar... cortesia do belíssimo roteiro do diretor ao lado do ator Gianfrancesco Guarnieri! De brinde, mais uma atuação memorável de Fernanda Montenegro. 

#05 "Não Por Acaso" de Philippe Barcinski (2007)
Desde que lançou o premiado curta Palíndromo (2001), Barcinski demonstrou seu interesse por contar histórias de um jeito diferente. Em Não Por Acaso ele compõe um drama romântico urbano belíssimo, cruzando o caminho dos personagens que vivem na correria de uma grande cidade. Entre perdas, encontros e revelações, Barcisnki introduz até um pouco de metafísica em sua história e lhe atribui uma sensibilidade tão incomum quanto envolvente. Além disso, tem atuações marcantes de Leonardo Medeiros, Letícia Sabatella, Rodrigo Santoro e Cássia Kiss - plenos como peças no tabuleiro do destino. 

#06 "O Ano que Meus Pais Saíram de Férias" de Cao Hamburger (2006)
Sempre fico triste quando pergunto se alguém viu este belo filme do Cao sobre o olhar de um menino sobre um dos períodos mais obscuros de nossa história. Por ser centrado em uma criança (o bom Michel Joelsas, que depois foi o Fabinho de Que Horas Ela Volta?) o filme ganha em leveza e originalidade ao contar uma história sobre crescimento e perda da inocência. Misture Copa do Mundo, festinhas ao som de Roberto Carlos (ainda roqueiro) e atores infantis realmente bons e você terá um filme irresistível! Para além do belo roteiro (ambientado no ano de 1970), o filme é bem cuidado tecnicamente, além de ser bastante sensível ao abordar temas complicados na telona. 

#07 "Quase Dois Irmãos" de Lucia Murat (2004)
Quando o filme chegou aos cinemas muita gente ainda estava sob o efeito de Cidade de Deus/2002. Ambos tem o envolvimento de Paulo Lins em sua escrita (já que Lins escreveu o livro do primeiro e o roteiro do segundo) e podem soar bastante complementares ao contar como foi o embrião da violência que vemos todos os dias no Rio de Janeiro. Murat realiza aqui o seu trabalho mais maduro e aos poucos revela a história que de fato está contando. Lembro que fiquei arrepiado ao final da sessão e um tanto sem palavras. Quase dois Irmãos é mais do que um belo filme, torna-se uma obra obrigatória para entender o caos que vivemos hoje.

Assim que foi lançado, o filme de Muylaert foi reconhecido como um dos mais queridos do cinema brasileiro, ironicamente, não sabíamos que ele serviria como registro perfeito de uma era que segue rumo ao sepultamento. A história da doméstica e sua filha merece atenção pelas entrelinhas, belamente ressaltadas pela dupla Regina Casé e Camila Márdila. O drama e o humor impressos pela diretora aqui chegam ao auge do seu estilo de fala mansa e assuntos incisivos, por isso mesmo, foi premiado muito elogiado pelo mundo afora, trazendo para o Brasil o prêmio dado às suas atrizes no Festival de Sundance. 

Considero este a obra-prima de Babenco! Acho fascinante como ele constrói a história entre os personagens dentro de uma cela, utilizando as fantasias narrativas de Luis Molina (William Hurt que ganhou o Oscar de melhor ator) para escapar dali. Conforme se desenvolve o relacionamento entre os dois personagens, Babenco nos brinda com lindas imagens e uma amizade complexa que ainda pode surpreender muita gente pelo desfecho doloroso. Embora seja falado em inglês, a alma do filme é plenamente brasileira, com destaque para Sonia Braga, muito glamourosa como a musa de Molina (que também funciona como seu alter-ego em atuação antológica). Simplesmente, sublime!

Sinto muita falta do punch dos primeiros filmes de Beto Brant. Quando (o baratinho) Os Matadores estreou no Festival de Cannes muita gente ficou de queixo caído com a forma mirabolante com que Brant contava a história simples sobre dois matadores que estão numa mesma cidade na fronteira brasileira. O motivo? Nós só descobrimos aos poucos até o final arrepiante numa trama cheia de ironias. Sem dúvida, foi uma das melhores estreias da história do nosso cinema. Pena que depois Brant mudou seu estilo cru e áspero para fazer filmes mais convencionais. Alguns consideram que ele amadureceu... eu ainda acho que ele apenas encaretou. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Canção da Volta

Marina e Miguel: casal feliz até a página dois. 

Sou fã de Marina Person desde os tempos em que a considerava minha apresentadora favorita da MTV Brasil. Lembro quando ela começou a apresentar os programas Semana Cine e depois o Cine MTV sempre buscando dar destaque ao cinema brasileiro que ainda estava na retomada. O envolvimento de Marina com o cinema está no sangue, filha dos cineastas Luís Sergio Person e Regina Jeha, aos poucos a carreira de apresentadora passou a ser conjugada com a de cineasta. Em Person/2007 ela documentava a trajetória do pai e em Califórnia/2015 ela voltava  para sua própria história como adolescente dos anos 1980. No entanto, o carisma de Marina já lhe rendeu pequenas participações em alguns filmes, mas nada que se compare ao destaque recebido neste Canção da Volta, dirigido por seu esposo Gustavo Rosa de Moura (o que torna ainda mais interessante o desenvolvimento da história). Marina vive Julia, uma mulher madura, casada e com dois filhos, que muda o rumo de sua família após uma tentativa de suicídio. No entanto, acompanhamos a história de Julia sobretudo pelos olhos de seu esposo, Eduardo (João Miguel). Eduardo apresenta um programa sobre literatura na TV e tem sua rotina totalmente alterada logo no início do filme, quando busca o paradeiro da esposa e recebe um telefonema comunicando que ela se hospedou solitária num quarto de hotel para cortar os pulsos. A carta de despedida é quase uma declaração de amor para sua família e torna tudo ainda mais confuso para todos. O melhor de tudo é que o roteiro de Moura e Leonardo Levis não gasta seu tempo apresentando uma esposa deprimida, prefere mostrar como a família não sabe reagir diante do inesperado ato. Enquanto o filho se distancia para evitar qualquer surpresa semelhante no futuro e a filha caçula parece, por vezes, querer aproveitar cada momento perto da mãe, fica por conta da dinâmica entre marido e esposa a parte mais instigante do filme. Ainda que sejam apaixonados um pelo outro, o atencioso Eduardo mostra-se uma pessoa cada vez mais complicada. Obcecado por controle e organização - e isso explica muitas cenas do filme, como a cena em que tenta arrumar a luminária da casa,  a briga no trabalho por conta de um e-mail e até a cena em que Julia está sozinha em casa e desorganiza o ambiente. Não que isso revele algum motivo para a personagem ter feito o que fez, mas  ajuda a notar que existe algo abaixo da superfície do casal que nunca se revela. Neste ponto, o filme torna-se ainda mais interessante por não querer ser um filme sobre suicídio, mas sobre o casamento. Acho que não é por acaso que quando Julia está cada vez mais segura, o esposo está cada vez mais paranoico (e meta os pés pelas mãos). Por estes motivos Canção da Volta é um filme que fala mais nas entrelinhas do que nos diálogos e prova que Marina Person é uma atriz de verdade ao dar conta de uma personagem complicada. 

Canção da Volta (Brasil/2016) de Gustavo Rosa de Moura com João Miguel, Marina Person, Francisco Miguez, Stella Hodge, Poliana Pieratti e Marat Descartes. ☻☻☻☻

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Sinfonia da Necrópole

Eduardo e Luciana: humor mórbido. 

Sinfonia da Necrópole é um dos filmes brasileiros mais elogiados dos últimos tempos e assim que você começa a assistir você entende logo o motivo. Ambientando num cemitério o filme gira em torno de um coveiro medroso chamado Deodato (Eduardo Gomes) que começou no ofício por influência do tio, que tem longa experiência no ramo. Enquanto Deodato ainda tenta se adequar ao trabalho, ele recebe a tarefa de ajudar Jaqueline (Luciana Paes), funcionária que chega para reformar o cemitério em busca de mais jazigos. A tarefa dela não é fácil, já que ele precisa dar conta da criação de um jazigo vertical que dará conta de abrigar mais ossadas e, com isso, gerar mais ganhos à administração. Existe uma atração e uma tensão visível entre o casal, mas a diretor Juliana Rojas (parceira de Marcos Dutra em Trabalhar Cansa/2011) sempre escapa do óbvio e resiste ao tom de comédia romântica, preferindo realizar um... musical! Pois é, Sinfonia da Necrópole é um musical ambientado num cemitério e reside aí todo o interesse que você pode sentir pelo filme. Passado o estranhamento inicial (menos pelo fato de ser no cemitério e mais por conta das músicas constantes), você irá perceber que o longa cumpre várias tarefas complicadas por optar por um gênero pouco visto no cinema brasileiro e manter o bom senso de evitar o desrespeito com um espaço que envolve sentimentos delicados de abordar. Com tantos complicadores, Rojas faz um filme simpático e divertido, especialmente pelas letras das músicas, que ajudam não apenas a trama avançar, mas na abordagem de alguma ironias sobre a história em si. O que considerei o ponto mais fraco do filme são as melodias, não sei se é proposital, mas achei de um tosqueira sonora total, o que aumenta a graça, mas castiga os ouvidos de vez em quando. Talvez a ideia seja esta, a de  revelar o quanto um musical pode soar artificial e ironizar um pouco mais a trama o absurdo da ideia (e a cena do karaokê talvez revele que as músicas não são mesmo para serem num nível profissional, por isso, não vou entrar no mérito dos pendores cantantes dos atores). Portanto, se concentre nas letras escritas pela diretora e seu fiel parceiro Marcos Dutra e você verá como elas podem revelar o estilo fruto da união da dupla que curte temas sombrios abordados com humor peculiar (aspectos que fizeram de Trabalhar Cansa um filme bastante especial e elogiado ao ser exibido no Festival de Cannes). Quem acompanha o trabalho do casal verá como seus voos solo (Dutra fez o tenso O Silêncio do Céu/2016 e o arrepiante Quando Eu Era Vivo/2014) ajudam a compreender a identidade cinematográfica de cada um (os dois dupla estarão junta novamente em As Boas Maneiras previsto para estrear ainda neste ano).  Sinfonia da Necrópole vale sobretudo por sua inventividade e será um dos filmes mais originais que você verá em muito tempo. 

Sinfonia da Necrópole (Brasil/2014) de Juliana Rojas com Eduardo Gomes, Juliana Paes, Paulo Jordão, Antonio Velloso e Adriana Mendonça. ☻☻☻☻

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: O Rastro

Rafael Cardoso: terror hospitalar.

O Cinema Brasileiro investe cada vez mais em filmes que flertam com o horror, alguns são de gosto duvidoso, mas outros confirmam que com lapidadas aqui e ali o gênero pode se fortalecer. O Rastro de Jonathan Feyer (que assina J.C. Feyer) é um desses exemplos positivos, já que demonstra um cuidado estético que impressiona em sua fotografia soturna, na ambientação da trama e no uso de efeitos sonoros que fazem toda a diferença na imersão do espectador na história. Colabora ainda mais para a nossa identificação o fato do filme ser ambientado num hospital público em petição de miséria com seus equipamentos precários, áreas abandonadas, médicos desestimulados além de corrupção e esquemas estranhos. Trocar monstros imaginários por estes elementos de nosso horror cotidiano enriquecem ainda mais a trama sobre João (Rafael Cardoso), um ex-médico que acompanha o fechamento de um antigo hospital no Rio de Janeiro. Responsável pela transferências dos pacientes,  ele se depara com Júlia (Natália Maciel Guedes), uma garota que ninguém sabe de onde veio e que desaparece misteriosamente. Preocupado com o paradeiro da adolescente, João irá mergulhar numa busca à beira da loucura enquanto descobre acontecimentos estranhos em torno de outros pacientes do hospital. Rafael Cardoso surpreende como protagonista da história, aumentando gradativamente a perturbação de seus personagem, ele está muito bem acompanhado por um elenco de peso, que conta ainda com Claudia Abreu, Jonas Bloch, Felipe Camargo, Leandra Leal - esta responsável por interpretar sua esposa grávida. O núcleo familiar é um dos pontos fracos do filme, já que o roteiro não consegue desenvolvê-lo como deveria, dando mais destaque para a personagem da esposa somente na meia-hora final e mesmo assim sem muito cuidado. Ainda que o roteiro tenha problemas , o mais interessante é que Feyer faz um belo trabalho na direção, construindo uma atmosfera realmente incômoda e sombria durante todo o filme, mas erra ao espalhar alguns sustos que soam um tanto dissonantes dentro da proposta do filme, principalmente pelo excesso de gritos e explosões sonoras em busca de sustos fáceis que não eram necessários dado a tensão crescente do filme. A tensão é tão bem construída que você até pode esquecer a mudança de foco perto do desfecho. Mesmo com alguns deslizes, O Rastro é a prova que o terror está em franca evolução em nosso cinema. 

O Rastro (Brasil/2016) de J.C. Feyer com Rafael Cardoso, Leandra Leal, Claudia Abreu, Felipe Camargo e Jonas Bloch. ☻☻☻

domingo, 3 de setembro de 2017

CICLO VERDE E AMARELO: Elis

Horta: atuação melhor que o roteiro. 

Elis Regina é celebrada ainda hoje como a maior cantora brasileira de todos os tempos, ainda que você não concorde, o culto à sua imagem e música se mantem na memória nacional até hoje. Portanto, fazer um filme sobre a sua história era algo esperado faz tempo, o difícil era encontrar um roteiro que desse conta de ser coerente e não desagradar os fãs da pimentinha. Não vou escrever que seria difícil uma atriz que conseguisse dar vida à atriz, já que considero que nosso país tem mulheres talentosíssimas e Andréia Horta é a prova disso, já que por vezes é capaz de confundir o fã mais xiita quando aparece na tela. Ela é responsável por dar mais do que o corpo, mas busca a todo tempo a alma da artista. O que pode desagradar a maioria dos fãs é que o diretor Hugo Prata opta pela biografia mais tradicional possível, condensando em menos de duas horas a trajetória da cantora, obviamente que muita coisa ficou de fora, mas seria realmente impossível dar conta de uma carreira tão intensa em tão pouco tempo, mas isso torna o filme um pouco atropelado. O filme começa com sua chegada ao Rio de Janeiro acompanhada pelo pai (que desaparece da história por completo tão logo o sucesso chega). Aparece seu início cantando na noite, a participação em festivais, seu primeiro LP, seu sucesso na TV, seus problemas no casamento com Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), seu problema com os militares durante a ditadura e com o público... são tantos momentos importantes conhecidos na vida da personagem que ficou faltando um pouco mais da pessoa por trás do mito. Tive a impressão que para o roteiro bastava associar a trajetória musical da cantora com sua vida pessoal, as músicas alegres começam a dar espaço às músicas de protesto e posteriormente para as mais melancólicas. Esta opção traz uma dinâmica interessante para o filme, mas seria coerente com a vida de Elis? Se houvesse escolhido um recorte temporal mais curto o filme conseguisse dar conta de fazer um retrato mais profundo da estrela enquanto personagem e não uma colagem de acontecimentos.  Tecnicamente o filme é bem realizado e o elenco também ajuda a tornar o filme bastante interessante, Caco Ciocler faz um César Camargo Mariano que funciona como um porto seguro para a cantora, Lúcio Mauro Filho faz um Mielle bastante crível, mas a revelação mesmo foi Julio Andrade dando vida ao dançarino Lennie "Dzi Croquette" Dale, que eu não fazia a mínima ideia que era amigo de Elis. Embora corrido em excesso e simplifique alguns conflitos da personagem, para um filme de quase duas horas ele pode ser satisfatório, mas entendo que os fãs de Elis percebam no filme mais defeitos que qualidades. Pela qualidade da produção, pelo elenco e pela música, o filme ainda fica acima da média. 

Elis (Brasil/2016) de Hugo Prata com Andréia Horta, Gustavo Machado, Caco Ciocler, Júlio Andrade, Lúcio Mauro Filho, Zecarlos Machado e Rodrigo Pandolfo. ☻☻☻☻