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domingo, 14 de março de 2021

PL►Y: Póstumo

 
Brit e Jack: a tímida  estreia de Lulu Wang. 

Sabe quando você assiste o filme de um cineasta e fica curioso para ver seus trabalhos anteriores? Foi isso que senti ao ver A Despedida (2019) de Lulu Wang, um dos meus filmes favoritos lançados por aqui no ano passado. Logo depois descobri que Wang havia dirigido apenas um longa-metragem anteriormente, Póstumo (que está disponível na Globoplay). Em primeiro lugar, se você viu  o segundo filme da diretora, vá ao primeiro sem esperar a mesma atmosfera pessoal e intimista do seguinte, já que não tem nenhuma semelhança com a obra posterior. Póstumo começa bem, mas lá pela metade se perde na estranha necessidade de se tornar mais uma comédia romântica. O filme conta a história de Liam Price (Jack Huston)  um artista plástico que está longe de ter o reconhecimento que deseja. Sempre perdendo espaço em galerias e não sendo levado a sério, ele cansou de ser ofuscado por artistas que fazem qualquer bobagem e ganham mais atenção da mídia. É logo depois de perder a paciência com o dono de uma galeria  que sua carreira terá uma reviravolta inesperada. Após um ladrão morrer com seus documentos, todos acreditam que Liam está morto. Logo a "tragédia" valoriza suas obras e ele passa a se aproveitar disso, mas a necessidade de ter novas obras para gerar mais dinheiro fazem com que o artista de complique ainda nas mentiras que precisam contar. As alfinetadas sobre o mundo da arte ajudam a manter o interesse em um roteiro sobre mentira que cresce cada vez mais, só que conforme a jornalista McKenzie Grain (Brit Marling) se aproxima cada vez mais da história e de Liam a coisa começa a perder força para virar um romance água com açúcar. O que ele possuía de mais original começa a aguar gradativamente. Se Lulu Wang não trazia nenhuma novidade em seu trabalho de estreia ela pelo menos consegue fazer do ponto de partida algo interessante para prender a atenção do espectador. Quando o filme termina, fica claro porque a cineasta enveredou por um caminho completamente diferente em seu filme seguinte. Lembrei até de uma entrevista em que Wang ressalta os conselhos que recebeu para contar histórias mais conectadas à si mesma e ver como o resultado seria completamente diferente. Póstumo merece ser visto pela curiosidade, só por isso. Diante do tom aconchegante de A Despedida, fica evidente como Póstumo era um filme a ser superado, no entanto traz um elemento em comum: a morte como geradora de histórias.  

Póstumo (Posthumus/ EUA - Alemanha / 2014) de Lulu Wang  com Jack Huston, Brit Marling, Lambert Wilson, Tom Schilling, Alexander Fehling e Nikolai Kinski. ☻☻ 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

PL►Y: A Despedida

Awkwafina (ao centro): humor e drama na medida certa. 

A Despedida é um daqueles filmes independentes bem modestos em orçamento. Despretensioso,  mistura comédia e drama de forma quase descompromissada e conquista justamente por isso - além de misturar em sua dois pontos que causam uma identificação quase imediata na plateia: família e morte. No entanto, esqueça os dramas pesadões, chorosos e melodramáticos, o tom aqui é outro: espirituoso, bem humorado e sutil, A Despedida remete diretamente ao cinema oriental (especialmente às obras do taiwanês Ang Lee antes de ir para Hollywood) mas com a personalidade da diretora Lulu Wang. Nascida em Pequim, seu primeiro longa metragem (Póstumo/2014) não chamou atenção, mas aqui ela parte para um projeto que transpira sua subjetividade (e de fato, ela se inspirou em um fato da própria família). O ponto de partida é a descoberta que Nai Nai (Shuzhen Zao), a avó da família, irá morrer. Ciente de que resta poucos meses de vida para Nai Nai, os parentes mais próximos decidem não contar para ela o que está por vir e aproveitam o namoro recente do neto para criar uma festa de casamento que reunirá todos os familiares - assim, terão a chance de se  "despedir" todos juntos sem que ela descubra. Vivendo na China e com parentes espalhados pelo mundo, o protagonismo da história recai sobre sua neta, Billi (Awkwafina), que considera um absurdo não contar para a avó o que está acontecendo -  e, por isso mesmo, seus pais não julgam uma boa ideia ela ir ao tal casamento. Levada aos Estados Unidos quando era pequena, Billi contraria a opinião de todos e vai até a China, neste ponto, o trabalho de Awkwafina é fascinante ao oscilar nas emoções da personagem. Ela começa alegre, seu olhar entristece e, por mais que o reencontro com Nai Nai lhe proporcione momentos felizes, em momento algum a atriz nos faz esquecer a inevitabilidade do que acontecerá nos próximos meses. O roteiro (também assinado por Wang) é sensível na medida certa e evita compor uma família de estereótipos - é verdade que não são todos que recebem profundidade, mas cada um possui momentos em que percebemos suas personalidades (mesmo o noivo e a noiva que quase não falam cientes da conspiração em que se meteram). Para além da esfera emocional familiar, o filme se enriquece ao abordar questões sobre origens e choques culturais que parecem inevitáveis. Embora amparada por bons coadjuvantes, a espinha dorsal do filme é a atuação de Awkwafina. A atriz (e rapper) já havia chamado atenção em 8 Mulheres e Um Segredo (2018) e roubado a cena no insosso Podres de Ricos (2018), mas aqui ela tem a chance de ser mais do que ser o alívio cômico da história. Pelo trabalho ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia e bem que merecia ter uma vaga no Oscar deste ano, assim como a doce Shuzen Zhao (e o filme bem que merecia outras indicações). Celebrado no Independent Spirit como melhor filme de 2019, A Despedida é uma verdadeiro tesouro a ser descoberto. 

A Despedida (The Farewell / EUA - China /2019) de Lulu Wang com Awkwafina, Shuzhen Zhao, X Mayo, Hong Lu, Hong Lin, Tzi Ma e Diana Lin. ☻☻☻☻