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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Na Tela: A Odisseia

Damon: Odisseu em Amnésia.

Mitológico diáriw,  confesso que fiquei preocupado quando soube que Christopher Nolan faria a nova versão cinematográfica de A Odisseia. A minha maior preocupação era como o diretor iria embaralhar a temporalidade, algo que gosta tanto de fazer, mais por estilo do que propriamente favorecer a narrativa. Tão logo o elenco espetacular foi anunciado começaram as polêmicas, mas não vejo problema nenhum na diversidade da produção. Afinal, estamos falando de mitos, de representações sobre a humanidade e suas alegorias sobre emoções e valores. É estranho imaginar que uma produção baseada em uma das histórias mais antigas da humanidade (século VIII a.C) imaginada em contexto politeísta, possa despertar tanto conservadorismo. Enfim, talvez hoje,  Nolan seja o único diretor com cacife de bancar uma produção visual impressionante como esta. Na trama, Odisseu (Matt Damon) relembra como perdeu todos o seu exército depois da Guerra de Troia. Entre tantos desafios, encontros e perigos, ele passou vinte anos longe de casa enquanto a esposa Penélope (Anne Hathaway) resistiu aos seus pretendentes que desejam assumir o trono de Ítaca. Obviamente que o filme de quase três horas não adaptaria na íntegra as vinte e oito partes da obra de Homero na íntegra e várias alterações são realizadas em nome da "fluência" narrativa. Existem vários momentos impactantes, como a concepção do Cavalo de Troia, os encontros com o Ciclope, a passagem pelo Reino de Tártaro e o encontro com a solitária Circe (Samantha Morton em um trabalho impressionante), no entanto, a visão um tanto simplista do protagonista compromete sua jornada pessoal diante das cenas de ação e aventura. É o preço de criar um blockbuster épico lucrativo que padece um pouco com a montagem truncada na cronologia dos fatos. No entanto, perante o sucesso de crítica e bilheteria, Nolan corre o risco de levar mais Oscars para casa em 2027. 

A Odisseia (The Odissey / EUA - Reino Unido / 2026) de Christopher Nolan com Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, John Leguizamo, Robert Pattinson, Charlize Theron, Samantha Morton, Elliot Page, Lupita Nyong'o, Joe Bernthal, Logan Marshall Green, Benny Safdie e Mia Goth. ☻☻☻

domingo, 21 de janeiro de 2024

PL►Y: Seguinte

Theobald: hábitos estranhos em apuros.

Com a proximidade de um possível Oscar de melhor direção para Christopher Nolan por seu trabalho em Oppenheimer (2023) é muito bem vinda a disponibilização de seu filme de estreia na Mubi nas últimas semanas. Eu mesmo fiquei surpreso ao descobrir que seu primeiro longa não era Amnésia (2000), já que Following permaneceu inédito nos cinemas brasileiros e ganhou notoriedade conforme os filmes seguintes do cineasta começaram a despertar atenção do público. No entanto, em listas de melhores filmes do cineasta ele costuma aparecer em último lugar. O motivo disso é bastante simples, já que o filme é curto (68 minutos) e por vezes ainda se torna arrastado pela forma como o diretor resolve contar sua história. A trama tem um ponto de partida interessante com um homem (Jeremy Theobald) que costuma seguir pessoas aleatoriamente pelas ruas, mas se envolve em situações surpreendentes quando escolhe seguir um sujeito que é na verdade um ladrão (Alex Haw) de métodos nada convencionais. O protagonista se interessando pelas atividades do ladrão e absorve algumas das características dele, especialmente quando cruzam o caminho de uma mulher misteriosa (Lucy Russell), que teve o apartamento roubado por eles e que tem sua cota de perigos a resolver. A edição embaralhada deixa o espectador se perguntando sobre o que de fato está acontecendo, até que percebemos que existe um plano envolvendo os três e que um deles está sendo passado para trás. Em Seguinte já podemos perceber várias marcas do cinema de Nolan, sua obsessão por embaralhar a narrativa, o gosto por personagens em situações complicadas e sua inspiração no film noir que era bastante visível em seus primeiros filmes (sobretudo Amnésia/2000 e Insônia/2002). Há quem enxergue por aqui a utilização de luzes e sombras que seriam resgatadas na trilogia do Cavaleiro das Trevas (iniciada em 2005), mas eu deveria ver o filme com mais atenção para perceber isso. Seguinte só não é um filme melhor porque é truncado demais e os personagens são pouco envolventes. Frios em demasia fica difícil para o espectador se envolver com qualquer um deles e se importar realmente com o desfecho da trama. É um filme que vale a pena assistir pela curiosidade de identificar o ponto de partida de um dos diretores mais bem sucedidos da atualidade, mas que por vezes fica tão preso à técnica que esquece de dar alma à história que está contando. 

Seguinte (Following/Reino Unido - 2023) de Christopher Nolan com Jeremy Theobald, Alex Haw, Lucy Russell e John Nolan. ☻☻

sábado, 5 de agosto de 2023

Na Tela: Oppenheimer

 
Cillian e seus parceiros: Os dilemas nos olhos. 

Lançado com grande repercussão ao lado de Barbie nos cinemas, o novo filme de Christopher Nolan demonstrou fôlego no embate com o cor-de-rosa. Os dois filmes não poderiam ser mais diferentes, já que Oppenheimer é cinzento por opção, até mesmo no tom, que mesmo depois de sua contundente cena final pretende ampliar o tom fúnebre. Faz tempo que Nolan demonstra apreço por temas científicos, mas depois do insosso Tenet (2020) eu fiquei um tanto preocupado com sua ambição em contar a história do "pai da bomba atômica". Quando soube a duração do filme, imaginei o tormento que seria ver três horas do diretor repetir seu erro anterior e gastar todo o tempo explicando "como fazer sua bomba atômica". Talvez ciente da insatisfação dos fãs com sua obra anterior, Nolan disse em entrevistas que seu filme não era sobre a bomba, mas sobre J. Robert Oppenheimer. Balela. Boa parte do filme é sobre a construção da bomba, o interesse científico em sua construção, os interesses políticos que se instauram em torno de seu desenvolvimento, os dilemas em torno da descoberta e a responsabilidade de quem bancou a ideia. É neste último ponto que o filme busca seu equilíbrio, já que por vezes compra a ideia de que a bomba, e por consequência seu criador, foram os responsáveis por terminar a Segunda Guerra Mundial. Porém, esse "heroísmo" se choca com todo o horror das mortes encadeadas pela explosão e radiação nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente nos dias 06 e 09 de agosto de 1945. Para apaziguar essa dicotomia o diretor opta por contar seu filme em três tempos distintos. Um sobre a construção da bomba, outro com uma espécie de julgamento de Oppenheimer por conta de suas declarações polêmicas e outra em torno de Lewis Strauss (vivido por Robert Downey Jr.), uma figura política importante em todo o experimento e, ao mesmo tempo, vaidoso o suficiente para se incomodar ao se tornar uma nota de rodapé na História. No meio de tudo isso, a tal história sobre o físico novaiorquino Julius Robert Oppenheimer (1904-1967) fica nas entrelinhas, seja na simbólica cena em que envenena uma maçã (e se arrepende ao pensar nas consequências) ou em sua relação com as mulheres que gravitavam ao seu redor. Seja a amante Jean Tatlock (Florence Pugh) ou a esposa, Kitty (Emily Blunt), que descobre não ter muitos dotes  para a maternidade, deixam a sensação de que Nolan ainda precisa aprender a dar mais corpo e alma para suas personagens do sexo feminino, aqui muito do interesse que as duas possam despertar no espectador se deve mais ao talento das atrizes do que no texto que ambas possuem. Com tantos aspectos para desenvolver, Nolan investe num tom de paranoia para prender a atenção do espectador. O embrião da Guerra Fria no pós-guerra é mostrado a todo instante, o que não impede que o filme transborde frieza em sua execução. Se Pugh e Blunt aparecem pouco em cena, e dão conta de criar personagens interessantes, pode se dizer que com tempo de tela de sobra, as interpretações de Cillian Murphy e Downey Jr. se tornam as melhores costuras para as intenções do diretor. Ambos estão bastante contidos em cena, mas os olhos e expressões de Cillian demonstram todos os tormentos deste Oppenheimer cinematográfico. É palpável não apenas a sua obstinação mas também a sua capacidade de juntar um grupo de cientistas no meio do nada para bancar sua ideia devastadora. Por outro lado, está Robert Downey Jr na melhor atuação do filme (e de sua carreira também) como um sujeito escorregadio e que representa os outros interesses perante a descoberta que está a ser feita. O sempre lembrado Homem de Ferro soa como o Salieri (que rendeu o Oscar para F. Murray Abraham) de Amadeus/1984 com o misto de inveja e mesquinharia correndo nas veias. A tensão poderia ficar ainda melhor se Matt Damon, na pele do responsável pelo projeto Manhattan não me desse a impressão que toda hora quisesse me arrancar uma risada com seus exageros nervosos (é engraçado que um assustador Casey Affleck consegue muito mais em menos tempo de tela do que Matt Damon). Como todos os filmes de Nolan, o filme é tecnicamente perfeito, especialmente quando lembramos que o cineasta opta por não utilizar CGI e prefere locações reais. Embora eu tenha restrições com a paleta de cores utilizada e figurinos protocolares, o filme os utiliza para construir uma certa esterilidade que funciona perante o impacto da cena da explosão, em que o som chega ao espectador somente minutos depois do ocorrido. Existe uma sensação real de pânico diante do desconhecido, pena que seja tanto capricho para uma cena tão rápida. Em termos de montagem, aqui o resultado é menos truncado do que em outras obras do diretor, mas não consegue disfarçar a sensação que de pelo menos meia hora de filme ficou de fora. A primeira hora é tão frenética, com tantas cenas, planos e diálogos sem pausa que se torna um exercício bastante exaustivo, sorte que nas horas seguintes o filme consegue respirar e o espectador agradece. Ainda que seja gélido em demasia (mesmo nas cenas mais lascivas) acredito que estamos diante daquele que será o filme mais indicado ao Oscar do próximo ano, seja por seu caráter de reconstrução histórica ou detalhes da produção. Se a Universal fizer tudo direitinho, provavelmente Oppenheimer chegará ao ápice da temporada de ouro como o filme a ser batido no Oscar 2024. 

Downey Jr.: rumo ao primeiro Oscar da carreira. 

Oppenheimer (EUA-2023) de Chritopher Nolan com Cillian Murphy, Robert Downey Jr., Emily Blunt, Matt Damon, Florence Pugh, Josh Hartnett, Benny Safdie, Jason Clarke, Dane DeHaan, Rami Malek, Jack Quaid, Casey Affleck, Matthias Schweighöfer, David Dastmalchian, Gustaf Skarsgård, Michael Angarano, Tom Conti, Kenneth Brannagh e Gary Oldman. ☻☻☻☻

domingo, 30 de julho de 2017

Na Tela: Dunkirk

Dunkirk: Nolan vai para a guerra. 

Ainda que Christopher Nolan tenha em seu currículo três indicações ao Oscar (pelos roteiros de Amnésia/2000 e  A Origem/2010 - pelo qual também concorreu ao prêmio de Filme do Ano), existe uma certa mágoa com a Academia que perdura desde que o seu magnífico O Cavaleiro das Trevas (2008) ficou de fora das categorias de filme e direção. Se com Interestelar (2014) muita gente já viu sinais de desgaste na criatividade do moço, com Dunkirk ele quer mostrar que é um diretor maduro, capaz de revisitar um drama de guerra histórico com personalidade e estilo bastante próprios. Feito em proporções épicas em todos os quesitos técnicos, Dunkirk é um espetáculo para se apreciar na telona, com som ensurdecedor e toda a sorte de sons e recursos de que o cinema possui para se tornar uma experiência verdadeiramente imersiva (sem 3D, por favor). Houve gente que reclamou do som alto do filme, que a cada explosão ou zunido de avião parece transportar o espectador para dentro da Operação Dínamo, mais conhecida como a evacuação de Dunquerque - onde os aliados da Bélgica, Império Britânico e França esperavam ser resgatados após serem cercados pelo exército alemão no início da Segunda Guerra Mundial. O resgate ficou conhecido por todas as atribulações que  geraram uma verdadeira batalha no litoral franco-belga. Trata-se de uma conhecida história de derrota que Nolan transforma em uma trama sobre sobrevivência. Desde a primeira cena o diretor já insere o espectador nos horrores da guerra com o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) vê seus amigos serem mortos um a um quando ruma para o litoral. Chegando lá ele percebe que as coisas não serão muito fáceis se quiser chegar em casa. Em melhor situação não está o piloto Farrier (Tom Hardy) que em meio aos problemas com seu avião terá que proteger quem aguarda o resgate no litoral ou até mesmo Sr. Dawson (Mark Rylance) que parte com o filho, Peter (Tom Glynn-Carney) e um amigo deste, George (Barry Keogahn que em breve aparecerá no premiado The Killing of a Sacred Deer) para ajudar no resgate das tropas com seu barco particular de fim de semana. Com esses três núcleos, Nolan mostra histórias de anônimos que se envolveram numa operação com tudo para dar errado, mas que era a única chance de regate dos soldados que já haviam perdido a batalha. No entanto, o filme não se preocupa em contar a história pessoal de cada personagem, pelo contrário, os coloca logo em situações limite e, por isso mesmo, imprevisíveis. Assim, Nolan contrapõe os conflitos macros da narrativa com os pequenos conflitos das relações humanas em sua generosidade e mesquinharias. Os efeitos especiais e sonoros são uma atração a parte e compõem boa parte do espetáculo que o filme se propõe. Se em Amnésia (2000) o diretor brincava com a edição para reproduzir o efeito na mente do espectador, para depois abusar dos efeitos especiais e movimentos de câmera em  A Origem para alcançar o mesmo efeito, aqui ele utiliza uma sonoridade avassaladora  para deixar o espectador tão atordoado como seus personagens. Admiro a capacidade do diretor querer causar vertigens na plateia com todo som e fúria da guerra, mas poderia ter utilizado menos a trilha sonora constante (que em alguns momentos está sobrando em cena). Provavelmente Dunkirk será lembrado nas premiações, mas não é a obra-prima que Nolan gostaria que fosse - tenho a impressão que parte de sua alma ficou perdida na ilha de edição, afinal de contas, sua montagem mesclada das três histórias em tempos distintos serve mais para confundir do que envolver a plateia. Houvesse seguido uma narrativa mais linear, Dunkirk talvez  tivesse um efeito ainda mais impactante no espectador que sente-se meio perdido nos pedaços que precisa juntar. Pode se dizer que Dunkirk exacerba todas as características que os críticos do diretor sempre apontam: é grandiloquente, megalomaníaco, ambicioso, pretensioso mas também é a obra mais imersiva e séria de um diretor que já não precisa provar mais nada para ninguém. 

Dunkirk (Reino Unido/França/EUA/Países Baixos - 2017) de Christopher Nolan com Fionn Whitehead, Mark Rylance, Rom Hardy, Barry Keoghan, Cillian Murphy, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden e Kenneth Brannagh. ☻☻☻☻

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Na Tela: Interestelar

Hathaway e McConaughey: aventuras num buraco de... minhoca?!

Em pouco mais de uma década, Christopher Nolan se tornou um desses diretores que chamam a atenção quando desenvolve qualquer projeto. Se levarmos em consideração que seu cartão de visitas era um longa contado de trás para frente (Amnésia/2000) e que anos depois reformulou a estética dos heróis da DC Comics para a telona com a trilogia Cavaleiro das Trevas de Batman (ao ponto de quem foge da fórmula, como o patético Lanterna Verde/2011, amargar severas críticas e bilheteria decepcionante) sabemos logo o motivo dos filmes do moço ser tão aguardados. Interestelar é o primeiro filme de Chris depois que se despediu da batcaverna, ao mesmo tempo que parece um irmão bastante próximo de A Origem (2010), seu único trabalho a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. Enquanto A Origem utiliza a ficção científica para mergulhar em várias camadas do inconsciente, Isterestelar é o retorno do diretor ao gênero, mas dessa vez ele não mergulha nos segredos do ser humano (pelo menos, não explicitamente), mas em aventuras espaciais. Num futuro próximo nosso planeta enfrenta problemas sérios com a produção de alimentos, cada vez mais seca e com poeira constante, os humanos questionam o rumo de algumas coisas. Uma delas é que os produtores de alimentos merecem ser mais valorizados que engenheiros, assim como os gastos com explorações espaciais precisam ser deixados de lado, já que a prioridade é melhorar a vida na Terra, que está ameaçada de extinção. Por conta disso os livros de história foram revistos, a chegada do homem à Lua questionada e a NASA trabalha de forma clandestina. Nesse cenário conhecemos relatos de idosos sobre como nosso planeta mudou nos últimos anos, especialmente de Murphy (Ellen Burstyn) que conta a história de seu pai, o ex-piloto e fazendeiro Cooper (Mathew McConaughey) que cuidou dela e do irmão até partir para uma viagem espacial idealizada por Professor Brand (Michael Caine). Em instalações clandestinas, Brand descobriu indícios de planetas que poderiam ser colonizados por humanos, contra a vontade da então pequena Murphy (a ótima Mackenzie Foy), Cooper parte na expedição ao lado da filha de Brand (Anne Hathaway) e Romilly (David Gyasi). Esse é o início do filme e... tudo o que podemos mencionar para não estragar as surpresas que Nolan reservou no roteiro de seu irmão, Jonathan (em texto escrito originalmente para Steven Spielberg). Muito se fala sobre as referências ao clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço/1968  de Stanley Kubrick (e tem mesmo, não apenas os silêncios, a lentidão dos movimentos no espaço, mas o próprio monolito que aparece transfigurado em mais um robô cool para a história do cinema). No entanto, o que marca a história é como ela relativiza mais do que tempo e espaço, ela relativiza nossas verdades. Tecnologia ou alimentos? Engenheiros ou fazendeiros? Individual ou coletivo? Nessas dicotomias alguns sentimentos se tornam tão constantes (e necessários) como a gravidade para manter nossos pés no chão (ou não). Nolan nos esfrega o presente de nosso mundo destinado a virar pó (ou como bem lembrou minha querida amiga Marcela Paula: "do pó vieste a ao pó retronarás!") para situar sua obra. Em projetos de novos mundos que parecem uma Terra com defeito (muita água, ou muito frio...), o desespero da solidão, da distância do lar, da extinção mostra-se sempre presente e gerando reações adversas. Enquanto a vida no mundo segue seu rumo - e a solução parece cada vez mais distante - a aventura espacial parece destinada ao fracasso.  Considero que às vezes o roteiro se perde em explicações desnecessárias, especialmente quando lembramos que as melhores obras de ficção científica (como de qualquer outro gênero) funcionam melhor quando servem de espelho para refletir o mundo aos olhos do espectador. Talvez por isso o diretor não esclareça quem foi que ajudou a NASA com o tal buraco de minhoca (também conhecido como buraco branco ou, numa linguagem leiga, "um atalho através do eixo espaço/tempo"), ou quais foram as informações dadas por um dos personagens para guiar a humanidade a desfecho que presenciamos. Para terminar, agradeço a Christopher Nolan por não fazer o filme em 3D - do jeito que está já gerou dor de cabeça na plateia, especialmente pela "pentadimensão", uma vertiginosa representação das três dimensões espaciais mesclada ao tempo e ao espaço, o que gera uma cena vertiginosa (que representa com maestria como o agora mescla passado e futuro para quem consegue enxergar além da percepção simplista do presente). Quem embarca na viagem e não perde tempo buscando defeitos irá perceber que Nolan acertou mais uma vez em fazer cinema espetacular sim, mas sem deixar de estimular a inteligência da plateia (e isso é mais raro do que você pode imaginar). 

Interestelar (Isterstellar/EUA-2014) de Christopher Nolan com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Mackenzie Foy, Michael Caine, David Gyasi, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, Matt Damon e Ellen Burstyn. ☻☻☻☻

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Na Tela: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Bane x Batman: o confronto do ano. 

Sem levar em consideração o que aquele louco fez nos EUA, fazer a última parte da trilogia iniciada com Batman Begins (2005) e precedida pelo avassalador O Cavaleiro das Trevas (2008) deve ter sido uma das experiências mais arrepiantes da vida do cineasta Christopher Nolan. Eu perdi as contas de quantas vezes o diretor pediu à imprensa para não vazar informações sobre a produção - sem falar a quantidade de boatos que rondaram o filme (só para lembrar: Marion Cotillard como Mulher Gato, Phillip Seymour Hoffman como Pinguim, Shia Labeouf como Robin, Joseph Gordon Levitt como Charada ou... Coringa!!!). Sendo o filme mais aguardado do ano, O Cavaleiro das Trevas Ressurge cumpre bem o seu papel de fechar, com chave de ouro, a concepção realista de Nolan para o super-herói. Curioso é como o diretor utiliza o realismo para aproveitar tudo que o personagem tem de mito. Toda a trilogia é sobre isso. Da construção conflituosa de um ícone na primeira parte, da hesitação dos rumos a serem tomados na segunda e a lenda forjada no sacrifício por um ideal neste arremate.  O roteiro tem a boa ideia de avançar oito anos depois da conclusão do filme anterior. Com a morte de Harvey Dent (Aaron Eckhardt), Gotham City vive um período esperançoso que acredita na justiça a partir da figura do símbolo Dent -  mesmo que seja forjado numa mentira encoberta pelo comissário Gordon (Gary Oldman) e Bruce Wayne/Batman (Christian Bale). Ambos são os únicos que sabem a verdade sobre a morte do transtornado Dent depois que Coringa assassinou  sua amada Rachel (Maggie Gyllenhaal). Acusado de ter assassinado Dent, Batman se aposentou enquanto tornou-se procurado pela polícia. Ninguém tem notícias dele ou de Bruce Wayne que tornou-se recluso em sua mansão. É nesse cárcere auto-imposto que Wayne conhece Selina Kyle (Anne Hathaway), uma ladra habilidosa que roubou o precioso colar de pérolas de mamãe Wayne. Basta uma única cena com Wayne e Kyle para que se estabeleça a química entre o herói e a vilã mais charmosa das histórias em quadrinhos. Mesmo que em momento algum Selina seja chamada de Mulher Gato, o público sabe que é a personagem que vemos na tela. Nolan sabe que os personagens de quadrinhos fazem parte de uma cultura universal e basta algumas dicas para evoca-los.  Apesar de Kyle ter roubado mais do que o colar de Wayne (ela roubou-lhe as digitais), o grande vilão do filme é Bane (Tom Hardy) o vilão que quebrou a coluna de Batman nas histórias em quadrinhos e protagonista do confronto mais aguardado de todo o filme. Bane tem o plano de destruir Gotham City sob um discurso de vingar os desassistidos, mas, no fundo, trata-se de uma vingança contra Batman e seu alter-ego, Bruce Wayne. Bane também foi treinado por Rah's Al Guhl (Liam Nesson), sendo banido da Legião das Sombras por sua tendência, quase incontrolável à selvageria. Além disso utiliza uma misteriosa máscara que impede que sinta dor. 

Hathaway: mais agressividade e voz murmurante. 

O roteiro cria um emaranhado de tramas cuidadosamente arquitetadas por Christopher e seu mano Johnatan Nolan, no entanto é impossível não perceber muito dos planos de Coringa na postura de Bane. Se Bane é diabólico, sua ideia de deixar um detonador capaz de explodir a cidade nas mãos de um cidadão comum é uma versão ampliada dos barcos de Cavaleiro das Trevas. Óbvio que o texto aprofunda ainda mais essa ideia. Trata-se de um radicalismo pautado pela visão "revolucionária" de Bane que deixa Batman fora da ação por boa parte da filme. O que poderia desagradar os fãs, na verdade serve para que Nolan explore os outros personagens da trama e a premissa do herói de que todos podem ter atos heróicos, mesmo em gestos pequenos e igualmente nobres.  Neste aspecto, o Comissário Gordon que busca sua redenção perante a cidade que enganou, Selina Kyle que busca um recomeço a partir de um programa de computador capaz de limpar seu nome e o policial exemplar vivido por Joseph Gordon Levitt merecem destaque. Claro que o roteiro reserva momentos para Lucius Fox  (Morgan Freeman) mostrar seus apetrechos  bat-tecnológicos e Alfred (Michael Caine) demonstrar toda sua preocupação com o patrão (eu achei que o texto exagera no tom sentimental do personagem), além disso arranja espaço até para uma namorada para Bruce Wayne, a elegante Miranda Tate (Marion Cotillard). Mas ainda que Cotillard seja uma atriz notável, capaz de dar sutilezas até às viradas mais bruscas da personagem, o par de Wayne/Batman é mesmo Selina. Fica visível os motivos de Nolan aguentar todas as críticas recebidas por escolher Anne Hathaway para o papel. Hathaway foi esperta para construir uma personagem mais agressiva que a clássica encarnação Michelle Pfeiffer. Se Pfeiffer era pura sensualidade, Hathaway é mais astuta que qualquer outra coisa (nem citarei Halle Berry, ok). É claro que ela fica sexy com aquela roupa preta e com a máscara, sua fala quase murmurada também se enquadra bem no universo de Nolan, o único problema da personagem acaba não sendo da atriz, mas das cenas de luta em que aparece - estão quase sempre mal editadas. Claro que o público não vai reclamar. Todos os personagens são peças importantes para Nolan potencializar a ação e o caos sugerido no filme anterior. Ainda que não seja tão poderoso quanto a segunda parte, o resultado prende a atenção por quase três horas de duração, sendo coerente com os outros filmes da franquia ao criar uma analogia política de profundidade incomum  a uma produção direcionada para bilheterias astronômicas. Porém, a memória de Heath Ledger custou caro, já que não há qualquer menção ao Coringa na trama (e até o Espantalho de Cillian Murphy tem uma participação especial).  A última cena deixa claro que Gotham City jamais será a mesma. Sem o selo Nolan de qualidade, espero que a Warner honre o seu legado. Os fãs agradecem. 

Bale: o melhor Batman de todos os tempos. 

BATMAN - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (Dark Knight Rises/EUA-2012) de Christopher Nolan com Christian Bale, Anne Hathaway, Tom Hardy, Joseph Gordon Levitt, Gary Oldman, Michael Caine, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Mathew Modine e Ben Mendelson. ☻☻☻☻

sábado, 28 de julho de 2012

CATÁLOGO: O Grande Truque

Angier: Jackman e os sacrifícios pelo ofício

Entre suas aventuras com Batman, Christopher Nolan lançou O Grande Truque que só não fez mais sucesso porque foi lançado num ano onde filmes sobre mágicos estavam na moda ("O Ilusionista" e "Atos que Desafiam a Morte" foram lançados no mesmo ano, mas este é sem dúvida o melhor dos três). Mais uma vez, Nolan prova que cinema pode ser arte e diversão ao mesmo tempo, além disso foi o filme em que o diretor mostrou que estava construindo uma espécie de "patota" em Hollywood. Escalou Christian Bale e Michael Caine (com quem trabalhou em Batman) e arranjou espaço até para Wolverine, ou melhor, Hugh Jackman (que atravessava o melhor ano de sua carreira). O filme começa com Bale sendo acusado pela morte do ilusionista conhecido como Grande Danton (Hugh Jackman), no decorrer do filme descobrimos o que aconteceu antes do suposto crime. Robert Angier (Jackman) e Alfred Borden (Bale) eram parceiros em shows de ilusionismo, mas quando um erro causa a morte da esposa de Angier o desejo de vingança se torna maior que a amizade. Além da vingança, os dois começam a disputar quem é o ilusionista mais brilhante numa guerra de egos onde existem segredos que serão revelados apenas no final - mas até chegar lá, existirá muita coisa para entreter a plateia. O roteiro de Christopher e seu mano Johnatan transforma o livro de Christopher Priest em um exercício metafílmico, já que por mais que faça referência ao mundo dos ilusionistas (o próprio título vem daí, o tal "prestígio" é o último truque, aquele que encerra o show e deve deixar a plateia perplexa e com o desejo de rever o espetáculo até que descubra como se faz aquilo), na verdade é sobre o próprio filme e sua relação com a plateia que o roteiro trata. Portanto, fique atento à cena de Angier se recusa a fazer um truque em que mata um pássaro - por não querer sujar as mãos de sangue - ele não faz ideia do que a trama lhe reserva. O auge da disputa entre os dois rivais é um truque de Borden, conhecido como "o homem transportado", onde uma explicação plausível para o que os olhos veem se torna uma obsessão para Angier - pelo menos até que ele crie sua própria versão do truque. Além do interesse pelo que acontece nos números de mágica, os bastidores vividos pelos personagens também mantém  o  público atento. Menos por conta de Angier contratar uma loura voluptuosa (Scarlett Johannson) para distrair os olhares da plateia e mais por conta do triângulo amoroso que se forma entre a moça, Borden e sua apaixonada esposa (Rebecca Hall, que aqui já chamava atenção, mas fez sucesso somente anos depois em Vicky Christina Barcelona/2008 de Woody Allen). Falar mais que isso compromete o maior segredo do filme - mas se você ficar atento a todas as referências que o roteiro faz à importância das distrações desviando o olhar da plateia do que não deve ser visto, você pode até imaginar o que está por vir. Além da trama pessoal de Borden, existe a de Angier na busca por truques cada vez mais impressionantes - ao ponto de recorrer a um sósia bebum (o próprio Jackman) e um mago de verdade chamado Nikola Tesla (David Bowie) que flerta com a descoberta da eletricidade e atrai a ira de muita gente. Ou seja, assunto é o que não falta no filme, mas Nolan consegue construir uma narrativa fluente onde tudo se torna pista para que o espectador monte o grande mistério que está por vir. Houve quem achasse o filme ofensivo por afirmar que "o público gosta de ser enganado", na verdade, ele quer ser surpreendido e isso Nolan consegue fazer ao mostrar todo tempo que conseguiu desviar nosso olhar de uma vida nas sombras e outra de horrores, onde se morre e mata todo dia pelo ofício escolhido. O filme concorreu ao Oscar de direção de arte e fotografia, mas quem merecia mesmo aparecer nas premiações era Hugh Jackman que dá conta de um papel multi facetado com a mesma desenvoltura que interpreta Wolverine. 

O Grande Truque (The Prestige/EUA-Inglaterra-2006) de Christopher Nolan com Hugh Jackman, Christian Bale, Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Michael Caine, Andy Serkis e Piper Perabo. ☻☻☻☻

sexta-feira, 27 de julho de 2012

TRILOGIA BATMAN - PARTE 3: Christopher Nolan

Nolan Begins
Depois da micagem de Batman e Robin (1997), a Warner não queria saber de Batman tão cedo. Depois que a Marvel estabeleceu um novo padrão para as produções de filme baseados em HQs (especialmente com o sucesso de X-Men/2000 e Homem Aranha/2002) a Warner (ao lado da DC Comics) começou a pensar em como poderia redefinir a franquia do Homem Morcego na telona. Estavam levando a ideia tão a sério que convidaram Darren Aronofsky para dirigir o filme. Darren lançara os sombrios Pi (1998) e Réquiem para Um Sonho (2000) e os estúdios ficaram fascinados com as possibilidades de um diretor tão engenhoso e sensorial pilotando a franquia. Convidado a dirigir Batman, Darren mostrou-se tão radical num filme por encomenda quanto em suas produções independentes. Chegou a convidar o septuagenário Clint Eastwood para encarnar um Batman mais maduro vivendo sua crise em lutar contra o crime - enfrentando o vilão Espantalho (papel que seria do roqueiro Marylin Manson). A ideia é até interessante, mas estava longe de que a Warner tinha em mente para dar fôlego aos filmes de Batman. Com Darren dispensado convidaram Chritopher Nolan para dirigir Batman. Os fãs do diretor de Amnésia (1999) começaram a se preocupar com os rumos que sua carreira tomariam, mas os fãs das HQs tinham o presságio de que os filmes do super-herói alcançariam um outro patamar. 

Neeson e Bale: Mestre e discípulo?

Quando Batman Begins estreou o público percebeu que o diretor não estava brincando quando assumiu a proposta de levar sua concepção do Homem Morcego para a telona. O filme se concentra na construção do mito de Batman, para isso mistura histórias como "The Man who Falls", "The long Halloween" e, principalmente "Batman: Year One" (que quase foi o título do filme). Nesse processo, valoriza os personagens clássicos em sua construção. Está presente a traumática perda dos pais num assalto (assim como no filme de Tim Burton, mas o tom é outro, mais clássico e operístico) este é o ponto de partida para a construção do lado mais sombrio do personagem. Nesse aspecto obscuro de um homem que escolhe um morcego para símbolo, a escolha de Christian Bale para o papel foi fundamental. O ator galês era visto com ressalva pelos produtores, uma vez que seu temperamento precedia sua fama, além disso, sua carreira em filmes independentes e sombrios (como Psicopata Americano/2000) ressaltava tanto seu talento quanto o fato de ser avesso às grandes produções. Já é clássica a história de que Bale foi fazer o teste do herói quando era quase pele e osso após sua atuação em O Operário (2004) e precisou convencer os produtores que poderia ficar musculoso para habitar a batcaverna em menos de um mês. Nolan bateu o pé pelo astro e o que vemos é a melhor personificação de Wayne/Batman. A opção de acolher os medos do herói como seu ponto de partida, foi fundamental para lhe dar a seriedade perdida no mundo colorido de Joel Schumacher. Batman, além de herói, é uma espécie de reflexo distorcido de seu alter-ego Bruce Wayne. Nascido das inseguranças e angústias de Wayne em lidar com a raiva, nasce um vingador mascarado para cuidar da cidade de Gotham City, mesmo que forjado pelo treino em artes marciais com um terrorista internacional, Ra's Al Ghul.  Nenhum filme se preocupou em mostrar como um ricaço como Bruce se torna um exímio lutador - nem como consegue desenvolver seus apetrechos (cortesia de Lucius Fox feito por Morgan Freeman). Esses personagens que compõem a identidade do herói, ainda encontra o lado afetuoso do fiel mordomo Alfred (Michael Caine, que nasceu para o papel) e o compromisso de Jim Gordon (Gary Oldman). Não satisfeito com o leque de personagens utilizado para tornar seu filme mais rico, o filme ainda recorre ao vilão Espantalho (Cillian Murphy) e ao corrupto mafioso Falcone (Tom Wilkinson) para personalizar o que há de pior em Gotham. Enquanto Espantalho se esconde na pele de um psiquiatra do clássico Asilo Arkhan - que planeja contaminar a cidade com uma substância alucinógena, o maior vilão que Batman terá de enfrentar é o mestre que imaginava estar morto. Com tom realista, fotografia sombria e uma trama cheia de elementos para administrar, fica visível que a Warner esteve no controle de tudo - e o filme transparece que Nolan não relaxa na direção, mas mesmo assim apresenta uma obra superior a todos os outros filmes do Homem Morcego. Se existe uma reclamação é a inconsistência de Katie Holmes como par romântico do herói. Tendo custado 150 milhões e  filme rendeu quase 400 milhões pelo mundo. O público ficou satisfeito, mas queria mais, especialmente depois do final que parecia remeter ao filme de Tim Burton. 


Ledger, Bale, Aaron: o palhaço, o cavaleiro negro e o branco.

Com todas as fichas na mesa depois de Batman Begins, Christopher Nolan lançou aquele que é considerado por muitos como o melhor filme de super herói de todos os tempos. Batman - O Cavaleiro das Trevas, um filme que rompeu a barreira do bilhão de dólares em arrecadação, ampliou todas as premissas de seu antecessor, adicionou novos elementos e se tornaou uma alegoria política muito bem vinda sobre o período que os EUA viviam. Sem o compromisso de ter que apresentar os personagens, Nolan teve mais tempo para trabalhar o maior inimigo de Batman: o Coringa. Além do apelo perante o público, o vilão  ainda rendeu publicidade ao filme por conta da morte de seu intérprete, Heath Ledger. Antes do filme estrear a atuação de Ledger já era saudada como uma das melhores do ano, digna de Oscar e tudo mais. Dizem que o filme teve que passar mais uma vez pela ilha de edição para retirar algumas cenas que poderiam ser desagradáveis após a morte do ator (acho aquela última cena do Coringa aberta demais para a estrutura do longa, acho que o desfecho era outro). Bale volta para a pele do herói e consegue convencer mais uma vez como um Bruce Wayne relapso que disfarça a identidade do herói, no entanto, sua química com Coringa faz toda a diferença neste filme. Afinal, ambos são lados da mesma moeda, a violência e a loucura está presente em ambos, mas de formas tão distintas como complementares. Na anarquia de Coringa, o auto-contole de Batman parece prestes a se diluir e torná-lo uma espécie de reflexo do palhaço maluco. Ao contrário do filme anterior, que era repleto de vilões, o Coringa dá conta de tornar a cidade num caos entre  recompensas por assassinatos, bombas espalhadas pela cidade, bandidos brigando entre si e dois barcos que dependem do bom senso para não irem para o espaço. Cheio de golpes elaborados, o Coringa de Ledger faz o de Jack Nicholson (Batman/1989) parecer uma piada. Talvez o motivo seja o fato de Ledger se envolver até na maquiagem do personagem (criada por ele mesmo) e que o torna mais assustadoramente estranho. Por mergulhar com tanta devoção numa das mentes mais perturbadas do cinema, Ledger recebeu o segundo Oscar In Memorian conferido pela Academia do Oscar. Curioso perceber que entre o palhaço e o morcego existe uma peça fundamental para a trama: o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhardt). Dent inspira Gotham em sua sede pelo correto em meio ao caos, ao mesmo tempo que faz um triângulo amoroso com Wayne e sua amada Rachel (Maggie Gyllenhaal substituindo Katie Holmes). Dent funciona como um híbrido entre as duas forças protagonistas do filme e torna-se fundamental nos rumos que Christopher Nolan e seu irmão pretendem dar a Batman em seu desfecho nas telas.  Desaparecendo nas sombras, todo mundo só queria saber o que a sétima arte reservava para a sua próxima aventura (só sabiamos que permaneceria sem o Robin). O filme concorreu a oito Oscars (ganhou edição de som e ator coadjuvante/Ledger), mas pior do que perder seis categorias foi não ficar entre os cinco concorrentes ao Oscar de Melhor Filme e deixar Nolan fora da categoria direção. Essa gafe da Academia acabou rendendo uma revisão nos conceitos do Oscar, que passou a indicar mais de cinco filmes à categorias principal. 


Batman Begins (EUA-2005) de Christopher Nolan com Christian Bale, Liam Neeson, Katie Holmes, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman e Cillian Murphy. ☻☻☻☻


Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight/EUA-2008) de Christopher Nolan com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Echardt, Maggie Gyllenhaal, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman e Cillian Murphy. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 17 de julho de 2012

CATÁLOGO: Insônia

Williams e Pacino: a percepção reavaliada em dias eternos. 

Insônia é o filme menos lembrado de Christopher Nolan, não que ele não mereça atenção, mas quis o deuses do cinema que ele ficasse imprensado entre o cultuado Amnésia (2000) e a franquia Batman.  Apesar dos elogios, Insônia é lembrado somente pelos fãs do diretor, mas tem elementos suficientes para  quem curte um bom filme policial. Baseado numa produção sueca homônima de 1997, o filme recebeu vários elogios pela performance de Al Pacino na pele de Will Dormer, um detetive enviado para uma investigação no Alaska e que acaba sendo surpreendido pela constante insonia provocada pelos dias eternos do lugar, afinal as noites só existem por lá durante o inverno (onde os dias possuem nada menos que 22 horas de noite durante três meses). Embora não utilize truques elaborados como no seu famoso filme de trás para frente, Nolan consegue imprimir as sensações de Dormer durante a narrativa quando seu cérebro cansado não consegue filtrar as informações que recebe (embaralhando sua percepção que se torna cada vez mais turva) ou fazendo com que perca a paciência com os colegas adolescentes da vítima. Acostumado com Los Angeles, Dormer vai até o pólo da terra para investigar o assassinato de uma colegial,  ao seu lado está o parceiro Hap Eckardt (Martin Donovan, um dos atores mais populares do cinema indie americano)  - mas muitos consideram que Sormer está lá para fugir das acusações de corrupção que recaem sobre ele (inclusive o próprio Eckhardt). Dormer é recebido como uma espécie de celebridade no local, especialmente pela agente Ellie Burr (Hillary Swank em uma  ótima atuação) que o vê como uma inspiração para os investigadores americanos. Para fazer mais do que um filme de caça ao criminoso, Nolan insere um dilema moral em seu protagonista, quando em uma perseguição ao assassino ele acaba atirando no parceiro de longa data. Sujeito aos primeiros efeitos de mais de vinte e quatro horas sem dormir, Dormer não consegue distinguir se o episódio  foi acidental ou não - e para piorar o assassino da tal adolescente testemunha o ocorrido. O filme acredita que o mais interessante da história não é descobrir quem matou a garota - já que isso nós descobrimos antes da metade com a presença do estranho escritor Walter Finch (Robin Williams) - mas saber como Dormer irá lidar com os dilemas que podem arruinar de vez a sua carreira. Acusando Finch de ter assassinado seu parceiro, Dormer cria uma espiral de mentiras que apontam cada vez mais para sua controversa figura. Apesar de conter momentos de grande tensão, os melhores momentos do filme ficam por  conta da atuação sonolenta de Pacino e as desilusões de Swank em perceber que seu ídolo é mais falho do que poderia imaginar. Sem os truques de edição e roteiro utilizados em Amnésia, Nolan parece querer focar nossa atuação somente no trabalho com os atores numa história de crimes e desilusões sob a percepção de mundo de um personagem que já tinha uma visão turva da ética e  da moral muito antes de não conseguir dormir. 

Insônia (Insomnia/EUA-Canadá/2002) de Christopher Nolan com Al Pacino, Robin Williams, Hillary Swank e Martin Donovan. ☻☻☻

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

FILMED+: Amnésia

Pearce e Moss: Dois perdidos num espelho sujo

Ainda lembro a primeira vez que vi Amnésia de Christopher Nolan e tive a impressão de que não iria entender nada até o fim da projeção. Por sorte eu entendi tudo e além de ver um bom filme, ainda aumentei a minha auto-estima (rs)! Muita gente considera este filme como o primeiro do diretor, mas na verdade ele possui um anterior (Falling, do qual só ouvi falar recentemente por possuir a semente de A Origem. O roteiro é inspirado num conto nunca publicado de Johnatan Nolan (irmão de Chris e parceiro constante) e o resultado na tela é mais pulsante do que a mídia impressa poderia supor. Ao acompanharmos o protagonista que não sofre de amnésia, mas de um distúrbio que impede que registre informações recentes por muito tempo, o diretor busca, através da edição, reproduzir no expectador o mesmo efeito. Muita gente pode ficar tonta, alguns podem não entender muito bem o que se passa, principalmente quando se percebe que ao fim das contas o filme não é só de trás para frente, mas possui cenas de seu desfecho (ou seria início) entremeada em em cenas em preto e branco. A narrativa dispõe ainda de artifícios interessantes para compensar a angústia de seu personagem principal (vivido pelo australiano Guy Pearce), como a utilização de tatuagens e fotografias para substituir a sua memória. Pena que em sua busca pelo assassino de sua esposa, estes elementos sejam menos confiáveis do que ele julga ser - e a presença de dois personagens intrigantes (uma mulher vivida por Carrie Anne Moss e um bigodudo interpretado por Joe Pantoliano) e que inspiram pouca confiança. O filme deixa claro que as intenções de Nolan é transcender fazer filmes apenas para serem assistidos, mas proporcionar aos seus fãs experiências únicas dentro de uma sala escura, aspecto que manteve intacto em seus filmes seguintes, mesmo nos de sucesso modesto (como o seguinte Insonia com al Pacino) ou blockbusters (como Batman - O Cavaleiro das Trevas). Depois de Amnésia outros filmes se aventuraram pela forma invertida de contar histórias, como o pesadelesco Irreversível de Caspar Noè e O Amor em Cinco Tempos de François Ozon, mas nenhum deles alcançou a mesma repercussão.

Amnésia (Memento, EUA-2000) de Christopher Nolan com Guy Pearce, Carrie Anne Moss, Joe Pantoliano e Jorja Fox. Disponível em DVD. Cotação: ☻☻☻☻☻

domingo, 8 de agosto de 2010

FILMED+: A ORIGEM


 A Origem deve ser o filme mais aguardado do ano, afinal de contas todo mundo ficou de boca aberta mesmo sem entender nada do que estava vendo no trailer criado pela equipe do cineasta Christopher Nolan. Vi o filme na sexta-feira no seu lançamento, na primeira sessão e até agora estou tentando digerir o que eu vi. Não que eu considere o filme difícil de ser entendido, de fato as várias camadas narrativas tornam a trama complexa, mas Nolan tem habilidade de sobra para lidar com essas coisas, afinal quem viu Amnésia - que ficou conhecido como o "filme de trás para frente" sabe do que o cara é capaz. Mas Inception foi produzido logo após o grande sucesso do cineasta: Batman - O Cavaleiro das Trevas que rompeu a barreira do bilhão na bilheteria mundial e rendeu críticas para a Academia Hollywoodiana que o esnobou na categoria principal. Diante desse quadro é possível que o filme de Nolan esteja entre os dez indicados do Oscar no ano que vem e a academia possa se redimir não só do que fez com seu Batman, mas com o próprio Amnésia que perdeu o Oscar de roteiro - por que nem Christopher e seu irmão Johnatan Nolan (que assinavam a escrita do filme) eram afiliados ao sindicato. Politicagens a parte, A Origem é um espetáculo visual e cinematográfico. Evidente que você irá identificar um mundo de referências na trama do filme: David Lynch, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, Matrix, 007, Quero Ser John Malkovich, 11 Homens e um Segredo... mas a graça de tudo é como Nolan manipula todas essas referências e nos oferece uma esperiência única por mais de duas horas na sala escura. Pode-se dizer que ele mescla nossa experiência ao ver o filme com a atividade de sonhar, ou que nos proporciona a mesma sensação de seus personagens, que confunde nossa cabeça propositalmente para não nos darmos conta dos problemas que seu roteiro pode ter, o fato é que o diretor sabe exatamente o que fazer para segurar a nossa atenção durante toda a projeção, aprisionar nosso fôlego até que o fim do filme chegue e não se tenha certeza que terminou. A crítica americana fingiu não entender o que viu ou apenas se acostumou aos filmes bobocas que assolam o ano de 2010? Eles que me desculpem, mas no universo de Nolan tudo me soa coerente e extremamente coeso. O filme pode ser visto como um filme pipoca bem elaborado, mas pode também ser encarado como uma grande analogia sobre nossa atividade de sonhar diante de uma tela de projeção - além das entrelinhas revelarem que Nolan não quer só entreter, mas nos fazer pensar acima de tudo.  

Joseph Gordon Levitt: Mais elegante que o Homem Aranha

A história se concentra num ladrão de sonhos, ou melhor um extrator (Leonardo DiCaprio), mas dessa vez ele recebe uma missão diferente: inserir uma idéia na mente de alguém, uma idéia capaz de dilulir o império empresarial milionário herdado por um rapaz (Cillian Murphy). Mas ele é incapaz de encarar essa missão sozinho, ainda mais com o grau de risco que assume (que o fará criar três camadas de sonho). Na equipe desse ladrão ainda está uma espécie de segurança pessoal (Joseph Gordon Levitt, que cria um dos personagens mais elegantes da história do cinema), um simulador (Tom Hardy, que promete fazer barulho nos próximos anos), uma arquiteta de sonhos inexperiente (Ellen Page), um químico capaz de dar-lhe o tempo necessário para a missão, além do empresário que encomendou a missão que é chamado nos posteres de "O Turista" (Ken Watanabe). Sem falar na involuntária sombra (Marion Cotillard, magnífica como sempre) carinhosamente chamada de Mal (engraçado que com o título nacional a coisa toda parece girar em torno da Origem de Mal) que coloca em risco as missões do extrator. Cada personagem tem sua função na narrativa e por vezes se revelam verdadeiros símbolos de nosso inconsciente coletivo - e nesse ponto as atuações precisas ajudam muito, além das pegadinhas que o diretor coloca em cena sobre os seus atores (a música de Piaf que os desperta do sonho, uma paródia de uma cena de Titanic, a bolsa de Gordon Levitt de 500 dias com ela, as ruas vazias de Extermínio na arquitetura dos sonhos de Cillian Murphy... ou seja, o cinema nos provoca essas inserções, tal como o protagonista almeja fazer). Nolan acerta mais uma vez e a trilha sonora de Hans Zimmer completa essa viagem que queremos repetir assim que acaba a sessão. No mínimo, espero que não só os efeitos especiais sejam lembrados no Oscar do ano que vem.

A Origem (Inception/EUA-2010) de Christopher Nolan com Leonardo Dicaprio, Joseph Gordon Levitt, Ellen Page, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Ken Watanabe, Nicholas Haas e Tom Berenger. Estreou dia 06/08/2010. Cotação: ☻☻☻☻☻