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sábado, 26 de abril de 2025

PL►Y: Superstar - The Karen Carpenter Story

Karen: os dramas de uma das vozes mais lindas da música. 

Ainda que tenha presidido o júri do último Festival de Berlim, o cineasta Todd Haynes ficou em evidência na mídia no ano passado por conta de todo imbróglio envolvendo Joaquin Phoenix em sua desistência de realizar um filme gay assinado pelo diretor com cenas tórridas. Reza a lenda que o projeto foi idealizado pelo próprio ator, mas que prestes a começar as filmagens, ele desistiu da produção deixando os envolvidos com um verdadeiro prejuízo nas mãos. Eu fico imaginando o que se passa na cabeça de um astro que convida Haynes para embarcar em um projeto e comete um papelão desses. Ainda que alguns dos filmes do cineasta tenham recebido indicações para o Oscar (ele mesmo indicado pelo roteiro original de Longe do Paraíso/2002), Todd Haynes é um nome que ganhou notoriedade moldado no cenário indie do cinema dos Estados Unidos. Começou a carreira assinando curtas sem concessões, dirigiu clipe para o Sonic Youth, estreou em longa metragem com a estética queer de Veneno (1991) e seu status só cresceu após A Salvo (1995) e Velvet Goldmine (1998), gerando projetos que flertaram cada vez mais com a nata de Hollywood. Antes de tudo isso, entre seus preciosos curtas, existe um que indicava ali um diretor audacioso digno de receber atenção nos próximos anos. Trata-se de uma biografia não autorizada de Karen Carpenter, a cultuada vocalista da dupla de irmãos cantantes The Carpenters. No entanto, para Haynes seria um tanto óbvio realizar o filme com atores, então, ele resolveu usar bonecas Barbie para contar a história. Passado o estranhamento inicial, chama a atenção como o diretor consegue driblar qualquer resquício cômico de parecer uma "brincadeira de bonecas" para expor aos espectadores a triste história da cantora ao lidar com a fama e seus holofotes (ou como diria Fernanda Montenegro: ao lidar com "a glória e seu cortejo de horrores"), aspectos que motivaram seus distúrbios alimentares e culminaram no falecimento em decorrência da anorexia nervosa. A carreira de Karen começou quase que por acaso, já que o irmão, Richard, desejava seguir carreira na música, mas não encontrava a voz certa para seus projetos. Karen acabou revelando-se a parceira ideal para ele, com a bela voz contralto. As habilidade como baterista também era ressaltada pelos críticos e demais músicos do período, mas o sucesso intensificou a tensão com com a mãe controladora, o irmão autoritário, um casamento fracassado e a percepção da própria imagem. Haynes conta toda esta problemática embalado pelas canções da dupla que nunca pareceram tão melancólicas ao evidenciar as camadas emocionais que impregnavam a voz da artista. O trabalho com a iluminação e o trato com as "atrizes" evidencia ainda mais a atmosfera opressiva daquela realidade. Ainda que tenha cerca de quarenta minutos de duração, o filme apresenta algumas entrevistas que destacam aspectos um tanto polêmicos da carreira dos manos, seja a proximidade com o controverso presidente Richard Nixon ou as insinuações presentes sobre a sexualidade do irmão de Karen. Superstar - The Karen Carpenter Story é um filme surpreendente pela forma inusitada com que conta uma história pesada sobre o mundo da música e, não por acaso, tornou-se um filme proibido pelos advogados da família (portanto, se você quer assistir, procure no Youtube antes que ele seja banido mais uma vez). Karen Carpenter faleceu em 1983 aos 32 anos com apenas 31 quilos. 

Superstar - The Karen Carpenter Story (EUA/1987) de Todd Haynes com vozes de Merill Gruver, Michael Edwards, Melissa Brown, Rob Labelle e Nannie Doyle. ☻☻☻☻

domingo, 24 de março de 2024

PL►Y: Segredos de um Escândalo

Natalie e Julianne: brilhantes em estranha dinâmica.
 
Desde que foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado, May December se tornou um dos filmes mais comentados de 2023. Pena que conforme eram anunciados os indicados nas premiações de fim de ano o filme perdia fôlego quando as pessoas se davam conta da estranha história real em que se inspirava. O fato de filme ter chegado ao Oscar com apenas uma indicação ao prêmio de Roteiro Original é compreensível, mas imperdoável, já que o longa se tornou um dos filmes mais inquietantes dos últimos tempos, além de contar com três atuações memoráveis em seu elenco. Escrito pela estreante Samy Burch ao lado de Alex Mechanik, a trama é inspirada na história que assombrou o imaginário de muita gente ao final dos anos 1990: uma professora de 36 anos que manteve relações sexuais com um aluno de 13. O crime fez a glória dos tabloides que receberam capítulos surpresa quando ela estava grávida na prisão e, tempos depois, os dois acabaram se casando. O filme dirigido por Todd Haynes não se concentra nos fatos escandalosos dessa história, mas prefere focar no impacto desses acontecimentos a longo prazo na vida dos envolvidos. Aqui trata-se de uma mulher que trabalhava em uma pet shop que se envolve com um menino contratado para auxiliar nos trabalhos. A diferença de idade é a mesma e a repercussão da história se repete. O tempo passa e tudo parece mais calmo, com os filhos crescidos e uma vida pacata em uma ilha, Gracie (Julianne Moore) e Joe (Charles Melton) terão que lidar com a presença de uma atriz, Elizabeth (Natalie Portman), que pretende estudar a história de ambos para atuar em um filme sobre a história dos dois. É visível o desconforto do casal com a presença da atriz, mas ele se torna ainda maior quando os dois precisam olhar para o passado. Enquanto Gracie deixa claro que não se arrepende e não gosta de pensar no passado, Joe tenta seguir pelo mesmo caminho enquanto surge como uma espécie de irmão mais velho dos três filhos enquanto recebe ordens da esposa para cumprir seus afazeres. Existe uma dinâmica estranha entre os personagens, que ganha contornos ainda mais desconfortáveis com a trilha sonora exagerada e o temperamento over de Gracie para expressar uma eterna fragilidade. Julianne Moore está perfeita como uma mulher que aparenta não ser capaz de ter feito o que fez, mas que também não parece ser o que pensam que ela é. Ela expressa bem o que o filme tem de melhor: as entrelinhas. A maior parte da trama ocorre por baixo do jogo de aparências que é apresentado, até mesmo com relação ao interesse de Elizabeth pelo casal. Falando nisso, a personagem de Portman tem alguns momentos que embaçam seus princípios e se torna tão complexa quanto a personagem que pretende interpretar. Natalie e Julianne estabelecem uma dinâmica interessantíssima, em que uma captura os trejeitos da outra na tentativa de absorver sua identidade.  O resultado gera cenas arrepiantes, tão arrepiantes como quando percebemos que somente agora Joe se dá conta que uma parte de sua vida foi devorada pelo seu envolvimento com Gracie. Todd Haynes prima mais uma vez pela elegância para apresentar uma história  em que tudo está no lugar para soar como uma grande simulação de sentimentos e sensações. Batizado por aqui de Segredos de um Escândalo, o filme merecia ver seu trio de artistas entre os indicados ao Oscar,  mas ao final da narrativa, o desconforto deve ter  sido forte demais para os votantes. Aparentemente simples, May December (um trocadilho utilizado para falar de relações entre pessoas de faixas etárias muito diferentes) é um filme que merece ser visto várias vezes para perceber todas as nuances perigosas que apresenta. Comprado pela Netflix (embora não tenha entrado no catalogo do streaming até hoje), o filme merecia uma campanha mais potente para as indicações, mas acabou perdendo espaço para o xaroposo Maestro de Bradley Cooper. 

Segredos de um Escândalo (May December / EUA - 2023) de Todd Haynes com Natalie Portman, Julianne Moore, Charles Melton, Cory Michael Smith, Gabriel Chung e Andrea Frankle. ☻☻☻☻

domingo, 18 de outubro de 2020

CATÁLOGO: Longe do Paraíso

Moore: pose de diva premiada. 

Talvez a carreira do californiano Todd Haynes possa ser dividida em antes e depois de Longe do Paraíso. Antes, Haynes era lembrado diretamente como um dos nomes mais curiosos do cinema indie americano, responsável pelos provocadores Veneno (1991), A Salvo (1995) e Velvet Goldmine (1998). Embora diferentes entre si, os seus três primeiros filmes criaram controvérsias e dividiram opiniões quanto às suas temáticas - mas Velvet já demonstrava que o mainstream estava de olho nele, afinal, ninguém é capaz de fazer uma releitura do glam rock dos anos 1970 citando Lou Reed, Bowie e Iggy Pop sem chamar atenção (o filme foi lembrado no Oscar de melhor figurino). Quando Haynes lançou Longe do Paraíso, público e crítica ficaram surpresos pela forma como o diretor evocava diretamente um cinema que estava fora de moda, considerado até cafona em seus apelos à memória de Douglas Sirk, o cineasta alemão que fez história em Hollywood com seus melodramas nos anos 1950. Haynes bebe diretamente nesta fonte e cria um filme de estética irretocável, com fotografia deslumbrante, figurinos impecáveis e ajuda de uma estrela que personifica um daqueles papéis que as divas do cinema defenderiam tão bem ao exibir a casca de perfeição que se corrói em tristeza interior. Julianne Moore (que estrelou A Salvo e outros filmes do diretor após este aqui) interpreta Cathy Whitaker, uma dona de casa que leva uma vida aparentemente perfeita ao lado do esposo, Frank (Denis Quaid) e o casal de filhos. Ele é um executivo influente de uma empresa da região e cabe à esposa contribuir para a construção de uma imagem idílica sobre este homem fora do trabalho. No entanto, os constantes atrasos do esposo começam a intrigar Cathy, que resolve fazer uma surpresa no trabalho dele e se depara com um segredo que mudará sua vida para sempre. Some isso à atração que ela começa a sentir pelo jardineiro, Raymond (Dennis Haysbert) que é negro e o que vemos é Haynes sobrepor preconceitos para o que antes era um paraíso se tornar um sufocante jogo de aparências. As atitudes dos personagens desencadeiam uma série de situações que rompe com a casca de perfeição e os torna vulneráveis perante o que a sociedade tem de mais conservadora. Não é por acaso que o filme é ambientado nos anos 1950 com a estética inebriante de um mundo que estava prestes a enfrentar mudanças consideráveis na década seguinte. Esta necessidade de mudança necessária está mais do que presente no casal Whitaker, que precisa decidir entre estar presos às convenções ou à liberdade de escolher o que se deseja. Neste dilema, Denis Quaid tem um dos melhores momentos de sua carreira, mas o espetáculo fica por conta de Julianne Moore que teve um ótimo ano em 2002, levando para casa o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza por este filme e sendo indicada ao Oscar de melhor atriz por seu trabalho (no mesmo ano ela concorreu como coadjuvante por As Horas após ter levado para casa o prêmio de atriz em Berlim ao lado de Nicole Kidman e Meryl Streep). Além da indicação ao Oscar de atriz, Longe do Paraíso concorreu ainda pela fotografia, trilha sonora e indicou Haynes ao Oscar de roteiro original. 

Longe do Paraíso (Far from Heaven / EUA - 2002) de Todd Haynes com Julianne Moore, Denis Quaid, Denis Haysbert, Patricia Clarkson e Viola Davis. ☻☻☻☻

domingo, 13 de setembro de 2020

CATÁLOGO: Veneno

Horror: misturando Genet com David Lynch

Quando fez seu primeiro longa metragem o diretor Todd Haynes não tinha ideia que ganharia a vida como diretor de cinema. Imaginava que se tornaria produtor ou professor de cinema e de vez em quando faria alguns filmes experimentais. O fato foi que após A Sua estreia em Veneno, a recepção de crítica e parte do público o fez repensar os rumos que tomaria na vida. Haynes acabou se tornando um dos cineastas icônicos do cinema indie dos anos 1990 e que nos anos seguintes foram absorvidos pelo mainstream de Hollywood. Com oito filmes no currículo e quatro deles caindo no radar do Oscar (Haynes foi até indicadado pelo roteiro do inebriante Longe do Paraíso/2001), seus fãs mais ardorosos até estranham a forma como seu cinema passou a buscar ousadias mais sutis do que as presentes em seus primeiros longas. Quem viu o recente O Preço da Verdade (2019) e assistir Veneno perceberá como as coisas mudaram. Veneno é uma adaptação de três contos do escritor Jean Genet e que são apresentados de forma misturada ao longo da sessão. Hero, Horror e Homo exploram histórias de narrativas e estéticas completamente distintas e provocam estranhamento no espectador, especialmente pela aparente ausência de articulação entre as histórias. Se atualmente o diretor ressalta constantemente a influência de Douglas Sirk em seu cinema, aqui o estilo lembra muito o estilo de David Lynch e a forma como constrói narrativas de linguagem clássica para provocar horror e estranhamento. Hero investe no tom documental a história do menino que mata o próprio pai e desaparece voando pela janela. As diversas entrevistas aparecem ao longo da sessão e compõem um painel sobre o caso que revela que uma  casa confortável, um bairro tranquilo e um lar aparentemente perfeito pode esconder segredos nunca imaginados. Já Horror é uma história de terror que remete aos filmes B dos anos 1950, com fotografia em preto e branco, muitos closes e a história que gira em torno de um cientista às voltas com a descoberta do que provoca o impulso sexual e acaba caindo em decadência física e social por acidentalmente ingeri-la, tudo por conta de um processo de deterioração que aos poucos se descobre contagioso. A história investe em tons de romance, suspense, mistura sonho, realidade, paranoia e remete diretamente aos clássicos dos filmes de horror, no entanto, é uma clara simbologia sobre a aversão do pensamento conservador à sexualidade. Embora Haynes não tenha investido novamente no gênero, fiquei curioso para ver o que ele poderia fazer com um longa de terror nas mãos (O Médico e o Monstro foi o primeiro que veio à minha cabeça. Algo me diz que ele faria muito bem!). Já em Homo o diretor radicaliza na construção de uma estética mais pessoal, que mistura filme de prisão com trechos oníricos na história de um rapaz homossexual que reencontra uma paixão dos tempos de reformatório na prisão. O reencontro é bem mais agressivo do que ele imagina, o que contribui ainda mais para o contraste das cenas escuras da prisão com outras idílicas do tempo de reformatório vivido pelos dois, que ganham uma aura de sonho que ao final se torna um pesadelo. Amor, desejo e abuso se misturam nesta história de cenas fortes e que comprova ainda mais a destreza do diretor em trabalhar com texturas narrativas diversificadas. Ao abraçar o texto de Genet e diversas facetas da estética Lynchiniana em sua estreia, Haynes compõe a costura de três histórias em que o desejo está sempre presente e se torna o ponto de virada de seus personagens, ele apresenta histórias em que os protagonistas traem a identidade que se espera deles, na busca por seus próprios caminhos diante de olhares que não os compreendem (algo recorrente nos filmes do diretor até hoje). Ainda que não seja uma narrativa fácil de assistir (pelo contrário, tem algumas cenas bastante desagradáveis), o resultado ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance, o Teddy no Festival de Berlim e indicações aos prêmios de melhor produção e direção no Independent Spirit. Nascia ali um dos cineastas mais interessantes do cinema americano.

Veneno (Poison / EUA -1991) de Todd Haynes com Edith Meeks, Millie White, Buck Smith, Anne Giotta, Lydia Lafleur, Ian Nemser, Rob LaBelle, Evan Dunsky e Marina Lutz. ☻☻☻

domingo, 16 de agosto de 2020

#FDS Todd Haynes: A Salvo

Moore: alérgica ao século XX. 

Para encerrar este #FDS dedicado ao diretor Todd Haynes, tive dúvida se escrevia sobre seu filme de estreia ou sua obra seguinte. Acabei escolhendo A Salvo por ainda considera-lo bastante atual, especialmente em tempos de pandemia. Depois da estreia multifacetada com Veneno/1991 (que prometo comentar em breve), Haynes retorna com uma linguagem mais concisa e enxuta, dando indícios ainda mais seguros dos caminhos que seguiria. Fascinado por personagens que não se encaixam no mundo ao redor, A Salvo conta uma história bastante interessante sobre uma mulher que se descobre alérgica ao século XX. Ambientado em 1987, o filme gira em torno de Carol (Julianne Moore, musa do diretor), mulher que vive em uma casa bastante confortável e tem como maiores preocupações a cor do sofá da sala. Ela faz ginástica para passar o tempo e participa de jantares de negócios com piadas infames, mas nada parece incomoda-la muito, até que uma dor de cabeça constante, enjoos e sangramentos começam a se tornar constantes. Os exames não sabem dizer o que ela tem. O psiquiatra também não identifica nada de errado com ela, mas os sintomas de que algo está errado com Carol se tornam cada vez mais constantes. Haynes decora seu filme com notícias de rádio e televisão sobre um mundo que vai de mal a pior, até uma redação do  pequeno enteado de Carol demonstra que existe um mundo cão lá fora. "Por que precisa ser tão sangrento?" ela diz a certa altura - e não recebe resposta diante da naturalização do que ouvimos todos os dias nos noticiários. O marido (Xander Berkeley) no início imagina que tudo é uma grande frescura da esposa, até que se dá conta de que a situação é mais preocupante do que pensava. Procurando alternativas, ela descobre que seu sistema imunológico começou a reagir ao mundo como se fosse uma verdadeira doença, a junção de poluição, acontecimentos ruins e produtos químicos variados acarreta várias reações desagradáveis em seu organismo e a ida para uma espécie de retiro longe dos centros urbanos parece a solução. Todd Haynes filma desta vez com distanciamento e estranhamento, ainda que faça transbordar para o espectador o que faz mal à sua protagonista. Do acesso de tosse em um labiríntico estacionamento, da dedetização em uma tinturaria, dos diálogos amenos de um chá de bebê... sentimos que o mundo se tornou tóxico para Carol (e o filme assusta ao destacar a enorme quantidade de produtos químicos com que temos contato durante o dia... você já parou para contar?). Haynes constrói um drama que parece um suspense e tem na atuação precisa de Julianne Moore um porto bastante seguro. Na época a atriz começava a chamar atenção e aqui tem um papel bastante complicado, no qual a voz macia e tranquila, a postura inofensiva e todo o resto parece abrigar também uma insatisfação que nunca é dita - e isso permanece na segunda parte em que aparentemente está num lugar realmente seguro. A Salvo permanece atual ao ilustrar como é complicado viver no mundo contemporâneo, com as aparências, as cobranças, as insatisfações crescentes e um ambiente cada vez mais tóxico. Vinte e cinco anos depois, o filme continuar relevante. 

A Salvo (Safe / EUA - 1995) de Todd Haynes com Julianne Moore, Xander Berkeley, Dean Norris, Julie Burgess, Chauncey Leopardi, Jodie Markell e James Le Gross. ☻☻☻☻           

sábado, 15 de agosto de 2020

#FDS Todd Haynes: Sem Fôlego

Jaden, Oakes e Julianne: histórias paralelas. 

Wonderstruck de Brian Selznick deve ser um daqueles livros que você adora quando lê, mas imagina que seria impossível transformar em filme. O motivo para esta dificuldade está na complexidade da trama e nos sentimentos complicados que abriga ao lidar com personagens infantis. No entanto, o diretor Todd Haynes topou o desafio e fez um filme que encheu os olhos, mas também causou estranhamento no Festival de Cannes. Com roteiro do próprio Selznick (também autor e A Invenção de Hugo Cabret/2011), o diretor dado a abordar temas polêmicos, aqui se aproxima mais do gênero infantil, ao mesmo tempo que cria uma estética um tanto rebuscada que somente os mais velhos podem desfrutar de todos os detalhes e referências. Talvez este seja o motivo do filme não encontrar o seu público, chamando mais atenção pela forma como chancela o protagonismo de duas crianças surdas em sua trama. O filme conta a história de duas crianças que vivem em tempos diferentes, um deles é o menino Ben (Oakes Fegley), que na Minessota de 1977 ainda tenta lidar com a morte da mãe e que não sabe o paradeiro do pai. Por conta de um acidente, ele irá perder a audição e terá coragem de partir em uma aventura em busca do pai na cidade de Nova York. Sua história é misturada com a da menina Rose (Millicent Simmonds que depois ficou mais conhecida pelo seu trabalho em Um Lugar Silencioso/2018 e é surda de verdade) que em 1927 parece ser grande fã de uma atriz do cinema mudo (vivida por Julianne Moore) e foge de casa para encontra-la.  Rose tem problemas de relacionamento com o pai e com o mundo em geral, afinal, ela se sente totalmente deslocada (e a chegada do cinema falado parece acentuar ainda mais este incômodo). As histórias destes dois jovens personagens  seguirão de forma paralela ganhando tom de aventura quando Ben chega ao Museu de História Natural. Haynes conta estas histórias aparentemente distintas com estéticas bastante diferentes, o mundo de Ben é colorido e embalado pelo rock dos anos 1970, o de Rose é em preto e branco e sem vozes, emulando um verdadeiro filme mudo. Estranhamente é nesta estética mais diferente que Haynes está mais à vontade e o filme chega a ser menos envolvente quando a menina recebe menos destaque na história. Já a trama de Ben investe em tantos segredos que acaba se tornando mais cansativa do que realmente envolvente. A sorte é que quando as duas histórias se unem o filme se torna mais terno e coerente, embora alguns acusem de cair no mais puro melodrama. O fato é que Haynes sempre se interessou por personagens que não se enquadram muito bem em seu tempo e Wonderstruck (que no Brasil recebeu o título de Sem Fôlego, vai saber o motivo...) não deixa de apresentar uma certa redenção de Rose através de dois momentos distintos de sua vida. O passar do tempo, com o crescimento e o envelhecimento demonstram como aprendeu a se apropriar e se impor no mundo que está ao seu redor.  Este talvez seja o maior recado deste filme assinado por um diretor que aqui camuflou suas provocações com bastante fofura (para desespero dos seus fãs mais ferrenhos).

Millicent Simmonds: só ela já valeria o filme. 

Sem Fôlego (Wonderstruck / EUA - 2017) de Todd Haynes com Millicent Simmonds,  Oakes Fegley, Julianne Moore, Cory Michael Smith, James Urbaniak, Jaden Michael e Michelle Williams. ☻☻☻

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

#FDS Todd Haynes: O Preço da Verdade

Camp e Mark: o filme quadradão de Todd Haynes. 

O tema do nosso #FDS é o cineasta Todd Haynes, que antes de se tornar representante do cinema indie americanos dos anos 1990, imaginava que seria no máximo um produtor de cinema. O que ele considerava certo era ser professor de cinema e, de vez em quando, fazer alguns filmes experimentais. Seus primeiros filmes impressionaram muita gente (Veneno/1991 e A Salvo/1995 são cultuados até hoje) e pouco depois caiu no radar do Oscar. Foi assim que o glam Velvet Goldmine (1998) foi parar no Oscar de melhor figurino, que o nostálgico Longe do Paraíso (2002) concorreu a quatro estatuetas (incluindo melhor atriz para a amiga Julianne Moore), que Cate Blanchett foi parar no páreo de atriz coadjuvante como um clone de Bob Dylan de Não Estou Lá (2007) e Carol (2015) foi indicado a seis estatuetas. Os filmes de Haynes costumam ser bem diferentes entre si, tanto na estética quanto na narrativa, mas quem conhece seus filmes sabe que o cara curte mesmo é cinema, não importante o gênero. Parece que um dia ele acordou e achou que faltava um filme careta no seu currículo - e assim nasceu este O Preço da Verdade. O filme tem o maior estilo de querer figurar nas premiações do ano passado, mas nem mesmo Mark Ruffalo conseguiu ser lembrado por seu trabalho como o obstinado advogado que move uma ação contra a gigante DuPont. Baseado em uma história real, o filme conta a história de Rob Billot (Ruffalo), advogado de grande corporações e procurado por um velho conhecido fazendeiro (Bill Camp) que suspeita que existe algo estranho com a água das redondezas. Ele perdeu mais de cem cabeças de gado por causas desconhecidas (mas evidenciadas em sintomas como tumores, dentes pretos e agressividade) e acredita que tem relação com intoxicação por liberação de algum produto químico na região que a maior empregadora é a fábrica da DuPont. Conforme consegue mais informações, Billot descobre doenças crônicas em moradores da região, deformidades em recém-nascidos e um padrão estranho no manejo de funcionários da indústria. Ele nem imaginava que todos estes problemas está relacionado com um produto utilizado em frigideiras antiaderentes. A partir de determinado ponto, Billot irá se deparar com o que pode haver de mais despudorado em irregularidades e descarte de substâncias químicas. Haynes faz um filme "denúncia" munido de uma grande investigação (registros e documentos são o que não faltam) e os interesses que se cruzam na cruzada de Billot contra um verdadeiro gigante industrial. A narrativa prende atenção e você nem se dá conta de que Anne Hathaway tem pouco a fazer como a esposa de Billot (a não ser aumentar  prole masculina da casa) ao longo dos vários anos de disputas judiciais. O Preço da Verdade consegue ser interessante, ainda que esteja mais para A Terra Prometida (2012) de Gus Van Sant do que para Erin Brockovich (2000) de Steve Soderbergh (curiosamente filmes de diretores que compartilham o passado indie ousado com Haynes). Mesmo sem trazer novidades para o gênero (embora Haynes ouse num ângulo aqui, num ruído crescente ali...), o longa deixa mais uma vez aquela sensação de até quando teremos que lidar com tragédias assim?

O Preço da Verdade (Dark Waters/EUA-2019) de Todd Haynes com Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Tim Robbins, Bill Camp, Victor Garber e Bill Pullman. ☻☻☻☻

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Na Tela: Carol

Cate e Rooney: o proibido segundo Todd Haynes. 

Trabalhando com cinema desde 1978 o diretor Todd Haynes é um sujeito incomum. Com apenas seis longa metragens no currículo, suas obras sempre soam diferentes para o público que se acostumou ao que Hollywood produz. Nascido em Los Angeles na Califórnia, sua obra sempre deixa claro que ele percebe o cinema como uma arte, seja quando decide fazer adaptações da obra de Jean Genet (como fez em sua estreia em Veneno/1991), falar sobre o mal do século (com o auxílio de Julianne Moore em A Salvo/1995), contar a história do glam rock (Velvet Goldmine/1998) ou das vidas de Bob Dylan (Não Estou Lá/2007). Mesmo quando bebe nos clássicos do cinema, seu cinema surpreende como aconteceu em Longe do Paraíso/2002 (aclamado e indicado a 4 Oscars, incluindo o de melhor atriz para Julianne Moore) e Carol, adaptado da obra de Patricia Highsmith. Nesses dois filmes, Haynes mostra como ama o cinema, especialmente por evocar um glamour que quase não vemos mais na telona (e evocar Marlene Dietrich e Audrey Hepburn em suas protagonistas). No entanto, seu glamour, não é alienante, pelo contrário trata-se de um recurso poderoso para representar como suas personagens parecem divas enquanto sufocadas por convenções sociais. Se em Longe do Paraíso Julianne se apaixonava por um homem negro enquanto descobria que seu esposo era homossexual, em Carol também existe um desejo que causará problemas ao ser revelado. Aclamado desde que foi exibido no Festival de Cannes no ano passado (de onde saiu com o prêmio de melhor atriz para Rooney Mara), Carol é sobretudo uma história de amor que desafia padrões, pelo menos até o momento em que perdas irreparáveis pode ocorrer. O título se refere à personagem de Cate Blanchett, uma mulher madura que está lidando com o divórcio do marido, Harge Aird (incrível como Kyle Chandler encaixa perfeitamente nesses papéis que exigem um galã com estampa de antigamente) e avista problemas pela guarda da filha. Basta ver o olhar que a vendedora Therese (Rooney) direciona para ela e perceber como as fagulhas aparecem no ar. As duas irão se aproximar enquanto a câmera apresenta nuances da personalidade da tímida Therese - que ainda não se convenceu em aceitar o pedido de casamento do namorado (Jake Lacy) - e da exuberante Carol, que sabe exatamente qual é a sua natureza. Trata-se do romance entre duas mulheres diferentes, mas que Todd Haynes tem a gentileza de tratar com a maior elegância. Se você ficar atento aos detalhes da interpretação da dupla de atrizes irá perceber porque o filme recebe tantos elogios por onde passa. Embora tudo seja impecável (fotografia, figurinos, cabelo, maquiagem, direção de arte, trilha sonora...) o incômodo está sempre presente, pesando sobre as duas personagens, disfarçado pela beleza nostálgica da década de 1950. O que mais assusta é que se a história fosse adaptada para os dias atuais, não precisaria de alterações. O andamento seria o mesmo, a consequência seria a mesma e o diálogo de Cate Blanchett diante dos advogados seria de rasgar o coração da mesma forma. No livro que inspira Carol, a autora Patricia Highsmith (que também era homossexual e escreveu o livro sobre o pseudônimo de Claire Morgan em 1953), escreve mais do que o romance de duas mulheres que se apaixonam, descreve também o mundo no pós-guerra que ainda criava sua identidade e precisava refletir sobre o mundo em tranformação. Todd Haynes demonstra isso na cena inicial, quando a câmera procura a história que quer contar entre homens e mulheres, mas é enfeitiçada por Cate Blanchett sentada à mesa com Rooney Mara. A câmera de Haynes sabe das coisas, pena que  a Academia o ignorou mais uma vez, indicando o filme a cinco estatuetas Atriz (Cate Blanchett), atriz coadjuvante (Rooney Mara, que é a protagonista da história mas... tudo por uma estatueta), roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora. Até os puritanos deverão concordar que Carol é de uma beleza cênica incomum. 

Carol (EUA / Reino Unido - 2015) de Todd Haynes com Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Sarah Paulson e Jake Lacy. ☻☻☻☻

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CATÁLOGO: Velvet Goldmine


Meyers: pavão glam inspirado em David Bowie.

Tive a oportunidade de estudar numa Universidade Federal que tinha curso de Cinema e ao início de todo ano letivo eu corria para ver as retrospectivas sobre os melhores lançamentos do ano anterior. Lembro que, enquanto fã de David Bowie, assistir Velvet Goldmine (numa única sessão) era mais do que uma obrigação. Eu sabia que Bowie havia rejeitado o filme de Todd Haynes (ainda que tivesse rendido uma das festinhas mais animadas no Festival de Cannes no ano de seu lançamento e faturado o prêmio de colaboração artística). Mas eu entendo Bowie, no fim das contas o glam rock não pode ser algo tão sombrio quanto o mostrado aqui. Devo ressaltar que Haynes tem todo o direito de ter sua própria leitura sobre a era glitter do rock'n roll - tanto que Bowie não permitiu o uso de suas canções (inclusive a que dá título ao filme) por considerar que elas ficarão melhores em sua própria versão dos fatos. Na verdade, Velvet Golmine é quase uma fantasia sobre o glam, tendo o seu início na infância de Oscar Wilde (!) e terminando com a visita de discos voadores... enfim, trata-se de um filme de Todd Haynes que quando trata de música pop, sucumbe a uma overdose de referências e signos que nem sempre são compreendidas pelo público acostumado a filmes com começo, meio e fim. Trata-se de um musical sobre o estilo que marcou a ambiguidade sexual do rock, com artistas usando maquiagem pesada, roupas espalhafatosas, músicas selvagens e performances incendiárias. A trama é contada a partir do ponto de vista de um jornalista, Artur Stuart (Christian Bale), contratado para investigar o sumiço de um ícone da música pop - o ídolo Bryan Slade (Johnatan Rhys Meyers, devo confessar que sempre que vejo o ator da série Tudors, eu lembro de seu personagem nesse filme) que teria simulado seu próprio assassinato no palco para desaparecer do mapa (e fugir de toda a pressão que sentia com a fama). Enquanto realiza as investigações, Stuart revisita seu passado de fã do glam (recorda seus conflitos sexuais, a incompreensão dos pais, sua saída do armário...) , tem contato com a ex-esposa de Slade, Mandy (Toni Collette, num papel bem diferente do habitual e que tem a personagem inspirada em Angie Bowie), seu parceiro de composições (e um pouco mais) Kurt Wild (Ewan McGregor, encarnando Iggy Pop despudoradamente) e outros personagens que participaram deste movimento musical. O filme retrata o início de carreira hiponga de Slade e a guinada provocada quando assumiu a androginia, construindo um personagem alienígena perdido na Terra (clara alusão ao Ziggy Stardust de Bowie). O filme de Haynes busca uma linguagem própria e a faz com grande ousadia, mesclando tempos e espaços de seus personagens. Obviamente que os anos 1970 retratados com sexo livre e consumo de drogas não deve agradar a todo mundo, mas Haynes consegue reproduzir a época com fidelidade (ainda que sombria) marcada pelo colorido de uma época e o ar decadente de outra (e nesse contraste os atores, especialmente McGregor e Collette estão excepcionais). A trilha sonora só não chama mais atenção do que os figurinos "exuberantes" indicados ao Oscar de Sandy Powell (que acabou ganhando no mesmo ano por Shakespear Apaixonado), mas que ganharam o BAFTA da categoria. Velvet Goldmine vale ser conferido pela sua ousadia estética e narrativa. 

Velvet Goldmine (EUA/Reino Unido-1998) de Todd Haynes com Johnatan Rhys-Meyeres, Ewan McGregor, Christian Bale, Toni Collette e Eddie Izzard. ☻☻☻   

DVD: Não Estou Lá


Markus, Cate, Ben, Chris, Heath e Gere: as faces de Bob Dylan.

Quem conhece a obra de Todd Haynes sabe que o cara está longe de ser convencional. E quem viu sua versão do glam rock em Velvet Goldmine (1998) sabia que seu filme sobre Bob Dylan estaria longe de ser uma cinebiografia convencional. As coisas ficaram ainda mais promissoras quando foi divulgado que o filme contaria com a presença de Heath Ledger e Christian Bale vivendo o cantor em momentos diferentes. Depois tudo ganhou ares de esquisitice quando foi escalado Richard Gere e CATE BLANCHETT (!!?!) para viver o cantor. Ao estrear no Festival de Veneza, muita gente torceu o nariz e disse que não havia entendido nada. Para quem não conhece o cineasta a coisa deve ser realmente complicada! Mas se você conseguir entrar no clima da produção, verá que as coisas são menos complicadas do que parecem. Quem conhece um pouco da história da música pop sabe que Bob Dylan é um ícone e que sua carreira foi marcada por diversas provocações, rupturas, filosofices, genialidades e contradições. Nada mais justo do que utilizar atores (e personagens) diferentes para dar corpo e voz para as diferentes nuances deste personagem tão rico. O menino Markus Carl Franklin interpreta um guitarrista prodígio misterioso chamado Woody Guthrie, Guthrie serviu de inspiralção para a carreira de Dylan e isso marca a participação de Franklin no filme. Enquanto isso, Christian Bale vive Jack Rollins, cantor que personifica a fase de protesto das canções de Dylan e sua parceria com Joan Baez (que serve de inspiração para a personagem de Julianne Moore na trama - que vive mencionando o sumiço do cantor depois das polêmicas envolvendo até declarações sobre o assassino de John Kennedy). Rollins serve de inspiração para um filme que conta com o ator Robbie Clarke (Heath Ledger) em seu papel. Clarke é um personagem que personifica o flerte de Dylan com o cinema e sua dificuldade em se adaptar à vida familiar (com a patroa vivida por Charlotte Gainsburg). Se essas tramas são intercaladas com cenas de Ben Wishaw encarnando a face mais poética de Dylan (ele parece provocar os espectadores diante da estrutura narrativa construída por Haynes ao dizer que "nunca se deve falar ou fazer coisas que as pessoas não entendam"). Um momento crucial da carreira de Dylan é vivido por Cate Blanchett na pele de Jude Quinn, um artista que abandona a sonoridade folk e se rende ao som da guitarra elétrica, desagradando fãs e crítica. Neste momento que o filme aproveita as maiores provocações de Dylan diante de seu público (é hilariante quando um repórter pede para que diga algo aos fãs perplexos e ele diz: "astronauta"!), seu pouco caso diante da fama, da imprensa, seu contato com os Beatles e os conflitos amorosos com uma loura inspirada em Edie Sedgwick (vivida por Michelle Williams). Se Blanchett constrói um Dylan marcado por grande comicidade (e levou para casa o Globo de Ouro de Coadjuvante além do prêmio de atriz em Veneza) nos fazendo até esquecer que estamos diante de uma mulher interpretando um homem, o toque mais surreal fica por conta da trama anacrônica protagonizada por Richard Gere - que remete ao velho oeste, com crianças fantasiadas e números sombrios com uma mulher num caixão. Haynes constrói um filme tão cheio de referências e detalhes que fica impossível citar todos - e quem é fã de Dylan vai curtir muito mais o filme por causa desses elementos. O que mais impressiona é a habilidade de Haynes em lidar com tantos elementos, contruindo uma unidade caleidoscópica. Ao invés de ir pelo caminho simplista de pensar que os fatos principais da vida de um indivíduo são capazes de definí-lo o filme vai pelo caminho oposto brilhantemente amparado pelos signos que aparecem a todo instante. A certa altura um dos vários Dylans diz que  "não existe política, apenas a linguagem de sinais", este deve ser o maior princípio para se entender os méritos deste filme. 

Não Estou Lá (I'm not There/EUA-2007) de Todd Haynes com Christian Bale, Cate Blanchett, Heath Ledger, Richard Gere, Julianne Moore, Ben Wishaw, Charlotte Gainsbourg e Marcus Carl Franklin. ☻☻☻☻