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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: A Doce Vida (1960)

Mastroianni na praia: entre festas e futilidades. 

Para encerrar o nosso Ciclo com os filmes premiados com o prêmio máximo do Festival de Cannes, eu escolhi A Doce Vida de Federico Fellini -  um daqueles filmes que tenho medo de escrever sobre. Cultuado por cinéfilos do mundo inteiro é uma daquelas pedras angulares do cinema mundial e levou para a casa a Palma de Ouro da 13ª edição (em 1960), deixando para trás os outros vinte e oito concorrentes, entre eles o brasileiro "Cidade Ameaçada" de Roberto Farias, o francês "Sete Dias... Sete Noites" de Peter Brook, o sueco "A Fonte da Donzela" de Ingmar Bergman e o espanhol "Os Delinquentes" de Carlos Saura. Esteticamente irretocável, A Doce Vida surgiu como uma crítica à sociedade do estrelato, dos famosos, dos paparazzi, do sucesso pelo sucesso e envolve tudo isso em uma casca sedutora para revelar o vazio disso tudo. Não por acaso o protagonista da história é um jornalista que gravita em torno de eventos e celebridades, ele já foi um escritor sério e pretende retomar esta carreira, mas está ocupado demais cem festas e eventos nos quais aparece sempre com seu ar entediado, rodeado de belas mulheres e com um copo de bebida na mão. O roteiro é uma colagem sarcástica  de diversos acontecimentos que desnuda o que há de postiço em tudo aquilo e, por incrível que pareça, o título de caráter irônico fez com que muita gente acreditasse que aquela vida realmente fosse doce e, por consequência, ideal. Trata-se de uma pegadinha de Fellini, que tem como maior desafio  aqui se equilibrar para não sucumbir ao universo que critica. Marcello Mastroiani ganha a tarefa de personificar Marcelo, não o ator, mas o jornalista que não consegue ser levado a sério ao longo da narrativa e vive uma série de  desventuras que o ganham cada vez mais um tom decadente. Seja acompanhando uma estrela de cinema internacional (Anita Ekberg), cobrindo um milagre da chuva celebrado por um grupo de crianças que dizem ver aparições divinas e uma série de outras situações que coloca à prova não apenas sua resistência mas, principalmente sua inércia. O auge desta vida sem propósito acontece no ensaio de uma orgia que nunca se concretiza e termina com o que restava da máscara de cavalheiro cair por terra ao constranger uma de suas convidadas que exagera na bebida. A cena é desconfortável e provocadora na medida certa para revelar que aquela vida não é doce. Fellini constrói aqui uma crítica mordaz sobre a sociedade que avistava se aproximar (e permanece atual até hoje e ainda mais frívola com a fama gerada por reality shows e redes sociais). Não por acaso o filme termina com um tubarão morto na praia observado como se fosse um monstro. A face da morte talvez pareça ainda mais assustadora para quem tem uma vida sem propósito. Feito para ser tão fútil quanto seus personagens, A Doce Vida ainda provoca um fascínio ilusório aos olhos dos desavisados, seduzidos pela elegância de seus figurinos (que ganhou o Oscar) e pela linda fotografia em preto e branco. Outros dez filmes agraciados com o prêmio máximo do festival podem ser vistos nesta lista aqui do blog.

A Doce Vida (La Dolce Vita / 1960) de Federico Fellini com Marcelo Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée, Alain Cuny, Yvonne Furneaux, Magali Noël, Annibale Ninchi e Walter Santesso. ☻☻☻☻

terça-feira, 9 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Apocalypse Now (1979)

Sheen: ataque cardíaco e filmagens conturbadas. 

Francis Ford Coppola demorou 238 dias para concluir as filmagens de Apocalypse Now com sua equipe nas Filipinas. Durante a tarefa, todo tipo de obstáculo surgiu: intervenção das forças armadas das Filipinas, contratempos com o clima local, problemas variados com o elenco (brigas com Dennis Hooper, discussões com Marlon Bando sem estudar o papel, demissão de Harvey Keitel... mas o pior foi o ataque cardíaco do ator principal, Martin Sheen, que retornou ao batente cinco semanas depois)... foram tantos empecilhos que um clima de pessimismo e insatisfação começou a contaminar a equipe. O que era para ser 16 semanas de filmagens se estenderam para 34 com orçamento estourado e inchando cada vez mais. A ideia de fazer um filme de guerra inspirado no clássico O Coração das Trevas de Joseph Conrad se tornou um verdadeiro "Apocalipse de um Cineasta" (nome de um documentário de 1991 que conta a saga desta empreitada estafante). Reza a lenda que diante de tantos percalços desta odisseia cinematográfica, o longa recebeu o apelido de "A Idiocéia" por Coppola não ter noção do que estava se metendo. Quando o filme foi exibido no Festival de Cannes de 1979 ainda estava incompleto, a estratégia era mais do que apresentar o filme, Coppola buscava comover os financiadores para um projeto que corria sério risco de não ter dinheiro para ser finalizado. Logo em seus primeiros minutos, Apocalypse Now já se revela uma obra prima e o filme levou a Palma de Ouro daquele ano com louvor. O impacto de suas cores, diálogos e sonoridade até hoje podem ser sentidos com a mesma intensidade. O longa não envelheceu e se consagra através do tempo como o melhor filme de guerra já realizado. O filme traz a história de Conrad para a Guerra do Vietnã (e sinceramente, prefiro esta releitura de Coppola do que o livro), na trama, o capitão Willard (Martin Sheen) é encarregado de encontrar e matar Coronel Kurtz (Marlon Brando), que se tornou um desertor e vive no meio da floresta como um líder excêntrico. Nesta jornada, Willard precisa lidar com os fantasmas pessoais (que já são mostrados desde a primeira cena antológica ao som de The End do Doors para logo depois se render à Cavalgada das Valquírias de Wagner em outro momento clássico do cinema). Os horrores da guerra são costurados com momentos surreais, cenas de puro pesadelo, choques culturais, uso de drogas, massacres, psicoses e reflexões filosóficas. A loucura em meio a explosões, tiroteios e gritos revela a guerra como até então nunca foi mostrada no cinema. O cenário de paraíso destruído serve de palco para uma selvageria desumana sem sentido, "o horror! O horror" que brota desde o cheiro de Napalm pela manhã. É visível o trabalho que o filme deu para sua equipe, mas dizem compor um retrato fiel do que foi a Guerra do Vietnã. Em Cannes a produção eclipsou seus vinte concorrentes (entre eles estava "Norma Rae" de Martin Ritt, "Síndrome da China" de James Bridges e "Cinzas do Paraíso" de Terrence Mallick). No Oscar recebeu apenas duas estatuetas (som e fotografia), perdendo as outras seis a que concorria (incluindo melho filme, direção, roteiro adaptado, edição, direção de arte e ator coadjuvante para Robert Duvall), mas foi o tempo que o transformou em clássico e um padrão de excelência ainda a ser superado no gênero.   

Apocalypse Now (EUA - 1979) de Francis Ford Coppola com Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Dennis Hopper, Scott Glenn, Albert Hall, Laurence Fishburne e Harrison Ford. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: A Missão (1986)

Robert e Jeremy: missionários traídos pela coroa. 

Na faculdade eu ouvia tantas pessoas comentarem sobre A Missão que confesso que tive certa implicância com o filme. Este foi o segundo filme do inglês Roland Joffé (antes ele realizou o igualmente premiado Os Gritos do Silêncio/1984), que demonstrava grande apuro técnico na construção de histórias em que o  poético e o atroz estão em conflito. A Misssão levou a Palma de Ouro em Cannes no ano em que concorria com os pesos pesados de Martin Scorsese (Depois de Horas), Arnaldo Jabor (Eu Sei que Vou te Amar, que deu o prêmio de melhor atriz para Fernanda Torres), Jim Jarmush (Down by Law), Neil Jordan (Mona Lisa) e Andrei Tarkovsky (O Sacrifício). A obra recebeu até outro prêmio por suas qualidades técnicas devido a construção de cenas que impressionam até hoje (incluindo a cena de abertura que não vou descrever para não estragar a surpresa) e mais de  trinta anos após seu lançamento ele é sempre lembrado como um dos filmes mais importantes sobre temática religiosa. Ambientado no século XVIII, o filme conta a história de missionários jesuítas responsáveis por catequizar os nativos latino-americanos nas chamadas missões, verdadeiras comunidades religiosas criadas na colonização para levar a doutrina católica e expandir os domínios europeus. Nas aulas de história sabemos que a colonização das terras latino-americanas aconteceu entre grandes disputas de poder entre Espanha e Portugal e o filme demonstra como no fim das contas o trabalho dos Jesuítas tinha um papel bem diferente de levar a palavra de Deus aos habitantes que viviam por aqui. A trama é ambientada ao nordeste da Argentina, na fronteira com a selva que se expande entre Paraguai e Brasil e gira em torno do empenho de bom grado do padre jesuíta espanhol Padre Gabriel (Jeremy Irons) em exercer sua tarefa e defender os índios de caçadores - feito o mercenário escravista Rodrigo Mendoza (Robert DeNiro), que não respeita as regras para captura de índios na colônia espanhola. A história de Rodrigo ganhará destaque no andamento da história, já que uma tragédia pessoal o fará buscar redenção e mudar os rumos de sua vida. Ele contará com padre Gabriel para reparar seus pecados e se tornará o total oposto do que era (se Rodrigo não fosse vivido por um ator tão competente como DeNiro seria difícil de engolir esta história), além disso, Rodrigo é fundamental para que o filme tenha cenas de ação e empolgar a plateia que não é muito fã de aulas de história no cinema (e Jaffé capricha em perseguições, duelos e explosões em vários pontos da trama). O cineasta constrói um filme que se beneficia muito dos cenários naturais lindíssimos e das intrigas políticas históricas que retrata, especialmente quando o trabalho de séculos dos jesuítas foi posto à prova perante os interesses europeus por aqui (e isso não chega a ser um spoiler, já que todo mundo sabe que os Jesuítas foram praticamente expulsos daqui da noite para o dia né, Marquês de Pombal?). Entre o belo e o  trágico é impossível não se indignar com com as crueldades que aparecem na trama, sobretudo em seu desfecho. É verdade que o filme romantiza muito algumas questões, mas em termos de narrativa funciona bem em sua grandiloquência - muito por conta das atuações sólidas de Irons e DeNiro (fique atento também à pequena participação de Liam Neeson em um dos seus primeiros papéis de destaque no cinema). Outro ponto que torna o filme interessante é sua temática que é tão pouca explorada no cinema, talvez por se tratar de um tema bastante espinhoso. Há de se reconhecer que Roland Jaffé e os demais envolvidos tiveram um bocado de coragem para realizar este projeto.

A Missão (The Mission / Reino Unido - França / 1986) de Rolando Joffé com Jeremy Irons, Robert DeNiro, Liam Neeson, Aidan Quinn e Ray McAnnally. ☻☻☻☻

domingo, 7 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Underground - Mentiras de Guerra (1995)

Blacky, Natalija e Marko: triângulo amoroso temperado com surrealismo.  

Nascido na Bósnia em 1954 o cineasta e músico sérvio Emir Kusturica também é muçulmano. Assistir seus filmes levando em consideração estas características faz toda a diferença. Em 1985 ele recebeu a Palma de Ouro por Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios (que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Filme estrangeiro). Seu senso de humor provocativo e a atmosfera carregada são marcas estruturantes de suas obras - e deixa seus filmes sempre interessantes. Prova disso é que em 1995 ele repetiu o feito, se tornando um dos raros diretores que ganharam a Palma de Ouro duas vezes. No ano em que estava no páreo 24 filmes, entre "Ed Wood" de Tim Burton, "Kids" de Larry Clark, "O Ódio" de Mathieu Kassovitz e "Terra e Liberdade" de Ken Loach, foi o inacreditável "Underground" o eleito a melhor filme da mostra competitiva. O filme tem duas horas e quarenta e três minutos e é composto de tantos acontecimentos que torna difícil contar cada detalhe de sua trama. Embora tenha um tom de farsa satírica, a trama atravessa várias guerras travadas no território da então Iugoslávia, seja em tom galhofa ou de tragédia. No centro desta epopeia estão dois amigos, Marko (Miki Manojlovic) e Blacky (Lazar Ristovski), dois mulherengos que presenciam a explosão da Segunda Guerra Mundial no país em 1939. Deste o início existe um contraste gritante entre o tema, a música (que não faria feio num show do Gogol Bordello) e o tom cômico dos personagens, para logo depois surgir a cena do bombardeio visto sobre o ponto de vista do irmão de Marko, Ivan (Slavko Stimac), rapaz trabalha em um zoológico. A cena é uma das mais impressionantes do filme e se torna crucial para vários acontecimentos que ocorrem logo depois, já que diante da invasão nazista, Marko tem a ideia de esconder seus amigos em um porão até que o cenários seja mais tranquilo e, não por acaso, neste grupo, está a esposa de Blacky prestes a dar a luz. Como de boas intenções o inferno está cheio, Marko e Blacky nutrem um interesse em uma mesma mulher, a atriz Natalija (Mirjana Jokovic) e quando Blacky começa a ser perseguido pelos inimigos, Marko mudara o rumo deste romance. Com o passar do tempo, os habitantes do porão irão compor uma verdadeira comunidade subterrânea, produzirão armas e confiaram em todos os relatos que Marko trará da superfície. Poderia até soar uma atualização do Mito da Caverna de Platão, mas Kusturica faz mais que isso em uma obra exagerada, elétrica, barulhenta e proporcionalmente complexa. Não bastasse o texto elaborado, o filme irá se construir em torno de mentiras, um filme dentro do filme, conflitos étnicos, intrigas política e surrealismo de uma forma como nunca se viu. O tom de comédia disfarça a história sangrenta de um país que enfrentou vários conflitos, guerras e intervenções. Com relação ao elenco, todos estão bem numa sintonia que beira o delírio coletivo, mas o destaque vai para a composição de Manojlovic, que cria uma casca cômica para um personagem execrável. Tantas alegorias dão lugar à tragédia em seu desfecho inevitável, porém, logo depois, Kusturica utiliza elementos fantásticos para trazer alguma alegria para aqueles personagens perdidos no tempo.

Underground: Mentiras de Guerra (Underground / Iugoslávia, França, Alemanha, Bulgária, Cazaquistão, Hungria, Reino Unido, EUA / 1995) de Emir Kusturica com Miki Manojlovic, Lazar Ristovski, Mirjana Jokovic, Slavko Stimac, Mirjana Karanovic, Dragan Nikolic, Erol Kadic e Milena Pavlovic. ☻☻☻☻☻

sábado, 6 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Assunto de Família (2018)

Os Shibata: segredos além do DNA. 

Depois de dar a Palma de Ouro para as provocações de The Square (2017) e antes da consagração de Parasita (2019), Cannes lançou um dos filmes mais premiados de 2018. Naquele ano houve uma ótima safra cinematográfica, isso ficou bem claro no Festival ao ter em sua mostra competitiva um total de 21 filmes, entre eles o polonês "Guerra Fria" de Paweł Pawlikowski, o estadounidense "Infiltrado na Klan" de Spike Lee, o libanês "Cafarnaum" de Nadine Labaki, o espanhol "Todos Já Sabem" de Asghar Farhadi e o japonês "Assunto de Família" de Hirokazu Koreeda que levou a Palma de Ouro para casa. Fazendo filmes desde 1991, Hirokazu experimentou algum sucesso com Depois da Tempestade (2016), mas nada que se compare aos 53 prêmios que este filme recebeu. Talvez esta seja sua obra mais complexa e se beneficia muito por não julgar seus personagens em um roteiro ambíguo digno de muitas conversas depois. O filme começa com a simplicidade típica do diretor, mas logo em seus primeiros minutos começa a esboçar do que se trata ao apresentar Osamu (Lily Franky) e o menino Shota (Jyo Kairi) roubando coisas em um mercadinho, mas ao voltarem para casa eles conhecem a menina Yuri (Miyu Sazaki) e resolvem leva-la para casa também. Curiosamente a família não estranha muito a chegada da menina, que aos poucos começa  fazer parte da dinâmica da família Shibata - que é composta ainda pela "vovó" (Kirin Kiki), a "mãe" (Sakora Andô) e a "tia" adolescente Aki (Mayu Matsuoka). A trama avança em uma cadência muito particular, amparada pelos diálogos bem lapidados, que compõem a marca registrada do diretor, assim como a atmosfera realista que aqui disfarça bastante os segredos inusitados e seus desdobramentos. Embora a família ganhe nossa simpatia, aos poucos descobrimos que existe uma rotina de contravenções naquele meio, mas que são praticadas dentro de uma lógica que as sustenta com a maior naturalidade possível ("só crianças que não podem estudar em casa vão para a escola" ou "se está na loja é porque não pertence a ninguém ainda"). Os Shibata são muito pobres, moram numa casa pequena, suja, cheia de entulhos, mas que mesmo assim soa acolhedora para a pequena Yuri, que não quer voltar para seu antigo lar. São nas interações da menina com sua nova família que o filme alcança seus  momentos mais comoventes, especialmente quando a garotinha contracena com Sakora Andô, que está excelente como a figura maternal deste clã marginalizado e repleto de mistérios. O cineasta constrói este microuniverso com muito sentimento, embora em linhas tortas. Aqui as relações funcionam como um relógio prestes a degringolar. Em sua última meia-hora o filme pode desmontar todas as impressões que tivemos anteriormente, mas o trabalho de direção e dos atores é tão preciso que ultrapassa os diálogos, novas perguntas se instalam e dúvidas pairam no ar por muito tempo. Assunto de Família é um filme surpreendente e aborda tantas camadas em sua história que é impossível esquecê-lo.

Assunto de Família (Mambiki Kozaku / Japão - 2018) de Hirokazu Koreeda com Lily Franky, Sakora Andô, Jyo Kairi, Kirin Kiki, Mayu Matsuoka e Miyu Sazaki. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Elefante (2003)

John e Elias: não era um dia qualquer. 

O diretor Gus Van Sant divide sua carreira entre filmes de apelo ao grande público (Gênio Indomável/2008 e Milk/1997 lhe renderam até indicação ao Oscar de direção) e outros feitos para causarem estranhamento (Gerry/2002 e Últimos Dias/2005). Elefante se enquadra neste segundo grupo, no entanto, deve ser o melhor do gênero que o diretor conseguiu realizar até hoje. O filme segue a rotina de um grupo de estudantes de uma escola americana no que parece ser um dia qualquer com seus encontros, conversas e trabalhos triviais. A narrativa fragmenta o cotidiano destes personagens e o costura de forma embaralhada e parece que nada demais está acontecendo. O ritmo é lento, arrastado mesmo em tom quase documental. O roteiro não se preocupa em desenvolver muito aquelas relações, apenas apresentar um pequeno recorte diário daqueles adolescentes naquele ambiente vivido de forma bastante naturalizada. Cabe a nós imaginar o que cada um deles é ou poderia ser. Enquanto a vida segue na escola, acompanhamos uma dupla de estudantes que destoam dos demais e resolvem comprar armas pela internet. É neste momento que sabemos exatamente do que se trata Elefante. Inspirado pelos acontecimentos trágicos da escola de Columbine, estamos diante do anúncio de uma tragédia, algo capaz de acabar com vidas que estavam repletas de possibilidades dentro de um espaço que deveria inspirar segurança. O filme não explica muito as motivações dos dois meninos (como se algo fosse justificar aquela atrocidade), mas sugere o que pode se passar naquelas mentes confusas. O filme também capricha nos longos silêncios e na ambientação naqueles longos corredores vazios, o que pode gerar tanto a sensação de paz como de angústia e até solidão. Um filme único, triste e necessário para repensar nossas relações com a juventude (assim como suas ansiedades, inseguranças, intensidades...) e o apelo das armas de fogo. O estranhamento foi tão grande que ao ser exibido no 55º Festival de Cannes o filme surpreendeu em meio aos outros 19 filmes que disputavam a  Palma de Ouro - deixaou para trás Sobre Meninos e Lobos de Clint Eastwood, As Invasões Bárbaras de Denys Arcand, o brasileiro Carandiru de Hector Babenco e o favorito Dogville de Lars Von Trier (o controverso Brown Bunny de Vincent Gallo também estava no páreo mas não tinha chances).  O prêmio no entanto não impediu que o filme tivesse problemas de distribuição nos Estados Unidos, sendo vendido para a HBO que o exibe em sua grade de programação até hoje. Sobre o título enigmático, ele se refere a uma parábola budista em que um grupo de cegos busca definir um elefante sem nunca ter visto um na vida. Fica a reflexão. 

Elefante (Elephant/EUA-2003) de Gus Van Sant com Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson, Elias McConnell, Jordan Taylor e Nicole George. ☻☻☻☻

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Segredos e Mentiras (1996)

Brenda e Marianne: reencontro emocionante. 

Fargo dos Irmãos Coen era o favorito para a Palma de Ouro de 1996, ainda mais que outros filmes aguardados como Estranhos Prazeres de David Cronenberg, Beleza Roubada de Bernardo Bertolucci e Kansas City de Robert Altman não empolgaram. No páreo também estavam o último filme de Michael Cimino (Sunchaser) e aquele que seria o divisor de águas na carreira de Lars Von Trier (Ondas do Destino). No entanto, quem levou a melhor foi o inglês Mike Leigh, cineasta bastante querido em Cannes mas que levou para a casa o prêmio máximo somente por esta pérola do cinema independente. Quem conhece o cinema de Leigh (do popular Simplesmente Feliz/2008) sabe que ele adora mesmo é contar histórias sobre personagens comuns, caprichar nos diálogos e nas relações humanas de suas obras. Segredos e Mentiras é um drama familiar conduzido com sensibilidade, senso de humor incomum e total noção do que deve ser feito para não cair no melodrama (e talvez por isso algumas pessoas considerem o filme um tanto cru). A trama conta a história de Cynthia (Brenda Blethyn, eleita melhor atriz em Cannes naquele ano), mulher presa à uma vida infeliz ao lado da filha temperamental (Claire Rushbrook). Cynthia adoraria ter mais contato com o irmão fotógrafo (Timothy Spall) - só que a relação entre eles apresenta um certo distanciamento. O cotidiano de Cynthia segue com os embates com a filha até que recebe o telefonema de uma desconhecida que afirma ser sua filha. Este é apenas um momento que o excelente trabalho de Brenda se destaca (não por acaso ela ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes), onde suas expressões caminham da surpresa para o dramático e depois para o cômico com uma desenvoltura impressionante - e outro momento em que testemunhamos este talento incomum é no momento em que ela se encontra com a tal desconhecida, Hortense (Marianne Jean Baptiste) que no início precisa ouvir que houve algum engano, já que Hortense é negra, mas... a memória logo funciona. Neste encontro entre as duas, Mike Leigh cria um verdadeiro espetáculo! A mistura de decepção de ambas, de tristeza e alegria é palpável, assim como o sentimento que começa a crescer entre as duas conforme a ligação entre as duas se constrói emocionalmente a cada encontro, a cada conversa. Segredos e Mentiras ganha então uma cadência própria sobre a construção daquele laço e a transformação que gera naquela família. Nesta tarefa é fundamental destacar o trabalho excepcional de Marianne Jean Baptiste (que foi indicada como atriz coadjuvante ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao BAFTA, assim como Brenda) que personifica um luminoso ponto de mudança para aquele núcleo familiar e, assim como Brenda, explora as várias camadas que aquele relacionamento pode ter. O que poderia ser uma trama repleta de ressentimentos se torna uma história de perdão e até esperança, ainda que caminhe para momentos de grande tensão. Este é meu filme favorito de Mike Leigh e sempre que o revejo encontro um detalhe, um olhar, um gesto que me faz gostar dele ainda mais. Mike é bastante meticuloso na construção desta história, repare no contraste da família protagonista com  as que aparecem para serem fotografadas, nos espaços apertados, na fotografia quase sem cores... Além das indicações ao Oscar para suas magníficas atrizes, o filme ainda foi lembrado nas categorias de Melhor Filme, direção e roteiro original num ano em que dos cinco indicados ao prêmio principal, quatro eram produções independentes.  

Segredos e Mentiras (Secrets and Lies / Reino Unido - 1996) com Brenda Blethyn, Marinanne Jean Baptiste, Timothy Spall, Claire Rushbrook e Lesley Manville. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Pelle, o Conquistador (1988)

Pelle e Max: atuações para emocionar o mundo. 

Pelle, O Conquistador é um caso interessante no Festival de Cannes. O filme foi lançado na Dinamarca e na Suécia na semana do natal e já com algum sucesso, foi selecionado para o Festival que lhe garantiu projeção mundial - tanto que em 1989 o filme foi indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar de filme estrangeiro e levou os dois. Se tornou aquele tipo de filme em que se ouve falar por muito tempo, que leva o público às lágrimas e tem fãs fieis. É também aquele tipo de produção que quase não se faz mais, belo visualmente, intenso dramaticamente, longo em sua duração e  cheio de ambição, ou seja, o estilo que por muito tempo era chamado de "filme para ganhar um Oscar" - ou  um marco na estética que o diretor dinamarquês Bille August segue até hoje. Pelle é o quinto filme do diretor para o cinema e tem como base o livro de Martin Andersen Nexø (1869-1954) que conta parte da história da imigração de suecos para a Dinamarca, que percebiam a vizinha como uma terra próspera e ideal para recomeçar a vida. Desde o início a rotina destes imigrantes não é fácil, nas gélidas terras do norte europeu não é fácil atravessar o mar em barcos precários sobre o risco de afogamento e congelamento (e isso o filme mostra várias vezes). A ideia de ter uma vida melhor aparece logo nos primeiros diálogos entre o menino Pelle (Pelle Hvenegaard) e seu pai, Lassefar (o excelente Max Von Sydow), mas assim que chegam a situação mostra-se bem diferente. O pai é considerado velho demais para o trabalho e o menino de doze anos é considerado jovem demais. Eles acabam contratados por um capataz que irá utilizar os dois em uma fazenda afastada e exploratória. O que era para ser um sonho se torna uma rotina de muito trabalho marcado pela brutalidade das relações daquele local. O cotidiano de Pelle é marcado por agressões físicas e verbais, seja de adultos ou crianças, mas a atenção do pai serve para atenuar a crueza daquela realidade. Ainda que a história seja bastante dura com os personagens, o diretor mantem o tom esperançoso e a presença de uma bela fotografia que parece criar verdadeiras pinturas. A trama não gira somente em torno de Pelle, o filme é composto de muitos acontecimentos envolvendo outros personagens, tem o amigo que planeja ir para a América, um rapaz que vive um romance proibido, o fazendeiro infiel, o bastardo com problemas mentais, tudo isso cria material para o filme se estender por mais de duas horas. Feito para emocionar, o filme conquistou plateias do mundo inteiro, especialmente pela desenvoltura do protagonista mirim (que tem cenas complicadas por aqui) e do talento veterano de Max Von Sydow, que conseguiu sua primeira indicação ao Oscar por este trabalho (concorreu como ator coadjuvante e a outra viria somente em 2012 com Tão Forte, Tão Perto, curiosamente, outro filme em que atua ao lado de uma criança). Curiosamente, sempre que ouvia falar deste filme (eu tinha dez anos quando foi lançado) eu imaginava que sobre um homem mulherengo (eu sei, eu sei, desculpem minha ignorância), mas descobrir que a história é outra foi uma grata surpresa. Em 1988 outros vinte filmes concorreram à Palma de Ouro em Cannes, entre eles estava Bird (de Clint Eastwood), Gritos de Revolta (o primeiro filme do ator Gary Sinise como diretor) e Afogando em Números (de Peter Greenway), mas o apelo de Pelle foi considerado irresistível. Bille August é sempre presente no Festival e com seu filme seguinte, As Melhores Intenções (1992), o cineasta levou outra Palma de Ouro para casa. 

Pelle, O Conquistador (Pelle erobreren / Dinamarca - Suécia / 1987) de Bille August com Pelle Hvenegaard, Max Von Sydow, Erik Paaske, Astrid Villaume e Lars Simonsen. ☻☻☻☻

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: Taxi Driver (1976)

DeNiro: atuação antológica. 

Travis Bickle é um veterano de guerra que trabalha pelas ruas de Nova York como motorista de táxi. Todo dia ele observa pela janela do seu carro a realidade daquela metrópole e percebe que o ar de decadência é cada vez mais presente. Ver a rotina de assaltos, prostitutas, drogas e crimes começa a comprometer sua sanidade e causará mudanças radicais em sua vida - principalmente depois que encontra uma prostituta adolescente e encara a missão de a resgatar do submundo. O tom incisivo do roteiro de Paul Schrader cria a alma de Taxi Driver, um daqueles marcos do cinema que até hoje provoca a  mesma sensação de desconforto, especialmente porque não se preocupa em explicar diretamente o que vemos na tela, cabe ao público buscar as explicações ou apenas sentir as emoções que este clássico de Martin Scorsese desperta. O filme é um representante direto de uma época em que o cinema americano se reinventou sob influência do cinema europeu, se tornou menos glamouroso, tornando-se mais realista e explorando temas mais sombrios. Não foi por acaso que ao estrear no 29º Festival de Cannes a obra deixou a plateia surpresa. Havia vinte filmes na competição pelo prêmio máximo do Festival (entre eles "O Inquilino" de Roman Polanski, "Cria Corvos" de Carlos Saura e "Feios Sujos e Malvados" de Ettore Scola), mas nenhum causou o mesmo impacto. Em seu sexto filme, Scorsese radicaliza a estética da violência amparado por um suspense psicológico que angustia justamente por nos colocar diante de um homem que flerta com a insanidade gradativamente. A cada cena, a cada diálogo se intensificam os olhares, os gestos, os sorrisos e indica que Travis Binkle não é mais o mesmo. Esta percepção passa pelo trabalho irretocável de Robert DeNiro que apresenta passo a passo o que se passa na cabeça do protagonista. Binkle tem cenas memoráveis (a risada no cinema em momento impróprio, o momento diante do espelho, o banho de sangue no final...) e contribui ainda para a mítica do filme a presença de uma jovial Jodie Foster, que com menos de quinze anos fez um papel difícil com a competência que se tornaria habitual em sua carreira. Jodie já havia trabalhado com Scorsese em Alice Não Mora Mais Aqui (1974) e por este aqui foi indicada ao Oscar  pela primeira vez. Taxi Driver provocou tanto impacto que foi indicado a quatro Oscars (filme, ator, atriz coadjuvante e roteiro original) e não levou nenhum, afinal, era controverso demais para a conservadora Academia, sorte que o tempo o transformou mais do que em um clássico, o fez  uma referência - o recente Coringa (2019) de Todd Phillips bebe diretamente nesta fonte ao seguir um personagem rumo à insanidade. Meu filme favorito do mestre Scorsese até hoje!

Taxia Driver (EUA-1976) de Martin Scorsese com Robert DeNiro, Jodie Foster, Harvey Keitel, Cybil Shepherd, Albert Brooks, Leonard Harris e Peter Boyle. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Ciclo Palma de Ouro: O Pagador de Promessas (1962)

Se o mundo não estivesse atravessando a pandemia do Corona Vírus, amanhã teria início o Festival de Cannes que se estenderia até dia 09 de junho. O Festival estava inicialmente previsto para maio, mas foi adiado e se cogitou posteriormente uma data em julho, mas diante das incertezas optaram por não realizar. Os festivais mais influentes do mundo estão se organizando para realizar uma mostra online e assim viabilizar a divulgação de novas produções, compras para distribuidores, mas será curioso para estes profissionais trabalharem sem a visão direta do apelo dos filmes sobre o público e a crítica. Criado em 1946, Cannes se tornou o festival de cinema mais influente do mundo ao longo do tempo. Enquanto o cinema tenta se reorganizar para os tempos atuais, até o dia 09 de junho, o blog organizou um ciclo especial sobre filmes que já ganharam o prêmio máximo do festival, a Palma de Ouro. Para iniciar o ciclo destaco um filme que fez história.

Leonardo e Glória: tudo por uma promessa. 

Em 1962 havia 35 filmes concorrendo à Palma de Ouro no 15º Festival de Cannes, estre eles estavam "Chleo de 5 aos 7" de Agnès Varda, "O Anjo Exteminador" de Luis Buñuel e "Longa Jornada Noite Adentro" de Sidney Lumet. Quando a Palma de Ouro foi para o brasileiro O Pagador de Promessas nem mesmo o cineasta Anselo Duarte acreditou. O filme se tornou um clássico instantâneo e, embora o Brasil tenha cravado outros competidores ao longo das décadas, nenhum outro levou para casa o prêmio máximo do Festival. Não sei se você já teve a experiência de ver ou ouvir uma entrevista de Anselmo comentando sobre esta experiência, mas vale a pena procurar, especialmente por suas constatações sobre as dificuldades de fazer cinema no Brasil e se ver consagrado internacionalmente. Dizem que depois do prêmio, Anselmo criou um personagem quase folclórico para si, mas ele pode. Anselmo começou no cinema como ator em 1942, logo começou a escrever roteiros e em 1957 começou sua carreira de cineasta. O Pagador de Promessas é o seu terceiro filme na direção e foi uma ótima ideia levar para as telas a peça de Dias Gomes sobre a história do humilde Zé do Burro (Leonardo Villar) que atravessa sete léguas do interior da Bahia até a Igreja de Santa Bárbara para pagar a promessa de cura de Nicolau, seu estimado burro. Já nos créditos iniciais ele atravessa, ao lado da esposa (Gloria Menezes) sol, tempestades e paisagens áridas carregando uma enorme cruz de madeira inspirada na que Cristo carregou na via crucis. Ele chega de madrugada em seu destino e ao se deparar com a igreja fechada, ele e a esposa começam a ter divergências quando ela percebe que a devoção dele tem alguns traços de exagero. Com medo de perder a graça alcançada, Zé teme ir embora e uma série de acontecimentos colocam em risco suas nobres intenções. A começar pela postura de Padre Olavo (Dionísio Azevedo), que não vê com bons olhos os apelos do devoto, que em desespero foi até um terreiro de candomblé  pedir pela saúde do bicho. Naquele que talvez seja o melhor diálogo do filme, temos uma noção de como a religião é um território bastante misto em nosso país, o que não impede que existam posturas intransigentes da Igreja diante desta mistura. Metido em uma confusão entre Iansã e Santa Bárbara, Zé é proibido de entrar na Igreja e chama atenção da mídia, de moradores locais,  de adeptos do candomblé, recebe rótulo de agitador, de comunista, de adepto de feitiçaria.... Enquanto a trama se desenrola acontece a lavagem de escadarias por mulheres vestidas com roupa de terreiro, jogos de capoeira, danças e um bocado de hipocrisias em torno do ingênuo protagonista e sua esposa que tem seus momentos de tentação. Em meio a situações que Zé nunca consegue entender muito bem, o filme cresce em tensão até o final inevitável. Com atuações sólidas e uma edição por vezes caótica entre som e imagens, O Pagador de Promessas ainda é o único filme latino-americano a ganhar a Palma de Ouro em Cannes e se tornou o primeiro filme latino-americano a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Uma obra que retrata o caldeirão cultural que é o Brasil e, ainda assim, como é difícil manter a fé por aqui. 

O Pagador de Promessas (Brasil / 1962) de Anselmo Duarte com Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Geraldo Del Rey, Othon Bastos, Norma Bengell e Antônio Pitanga. ☻☻☻☻