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sábado, 5 de dezembro de 2020

PL►Y: Mank

 
Amanda e Gary: rumo ao Oscar. 

Cidadão Kane é mais do que um clássico do cinema, tornou-se um verdadeiro marco histórico e desde o seu lançamento em 1941 é lembrado em todas as listas de melhores filmes da história (frequentemente ficando em primeiro lugar). No entanto, décadas de história lhe garantiram não apenas méritos, mas várias polêmicas, algumas lendárias como bem lembra este novo filme de David Fincher produzido pela Netflix. Mank é um filme inspirado nos bastidores da celebrada obra de Orson Welles e não se amedronta diante de vender a ideia de que o roteirista  Herman J. Mankiewicz, o Mank para os íntimos, foi uma figura injustiçada pela história. Embora eu compreenda que um filme batizado de Mank parta da leitura de seu personagem principal sobre a história é preciso cautela ao crer em tudo que aparece ali, já que Fincher tem toda a liberdade criativa para contar sua história e Cidadão Kane passou por tantas revisões e alterações que seria difícil imaginar que o roteiro de Herman tenha chegado imaculado à tela do cinema. Se você deixar de lado as discussões em torno do papel de Welles na escrita de Kane, você irá apreciar muito mais o filme. Mankiewicz (interpretado por Gary Oldman) era uma figura conhecida em Hollywood. O dramaturgo foi responsável por fazer ajustes em textos de vários roteiristas ao longo de sua carreira (o caso mais conhecido é de O Mágico de Oz/1939 que é citado várias vezes no filme). No filme, é após um acidente de carro que Mank é convidado para escrever o roteiro para o filme de estreia de Orson Welles (Tom Burke). Ele fica isolado em uma casa, com a ajuda de uma assessora (Monica Gossman) e uma secretária (Lilly Collins) que devem zelar por sua escrita e para que fique longe da bebida durante o trabalho. É neste período que Cidadão Kane ganha forma, muito inspirado pelas lembranças do escritor que aparecem no filme em forma de flashbacks. Quem assistiu ao clássico de 1941 é capaz de identificar várias relações com Mank, o que torna o trabalho de David Fincher ainda mais interessante. É interessante perceber a relação de Marion Davies (uma ótima Amanda Seyfried) e William Randolph Hearst (Charles Dance) com os personagens da obra de Welles, ver onde começa a ficção e onde termina a vida real, da mesma forma, o filme conta como nasceu a ideia de Mank de como um magnata da comunicação é capaz de moldar a percepção que as pessoas tem de mundo diante da credibilidade dos meios de comunicação. Fincher não deixa de enveredar pelo tema atual das Fake News em um outro contexto histórico, com o respaldo de ter nas mãos o roteiro escrito pelo seu pai, Jack Fincher, um jornalista que estudou muito sobre os anos retratados no filme. O cineasta consegue compor uma rede de acontecimentos hollywoodianos e políticos que se integram com bastante elegância, indo e vindo no tempo numa narrativa calcada nos padrões cinematográficos daquele tempo. Trilha sonora, fotografia, a dicção dos atores, tudo parece ter sido moldado em outro tempo (até as "queimaduras de cigarro" no canto direito aparecem - e nas mãos do diretor de Clube da Luta/1999 ganha um sabor ainda mais especial). O texto de Jack Fincher esperou mais de duas décadas para chegar às telas e embora possa soar datado sobre as discussões em torno da autoria de Orson Welles no texto de sua obra-prima, mostra-se um exercício cinematográfico interessante, embora esteja muito longe do tom que tornou David Fincher célebre. Famoso por suas minúcias nas filmagens, aqui ele faz aquele trabalho digno de cair nas graças do Oscar, mas não consegue disfarçar aquela sensação de que "aprendi a lição" para agradar os votantes da Academia. Gary Oldman também deve ser lembrado na categoria de melhor ator e Amanda Seyfried no páreo de atriz coadjuvante, também acho que Mank será o peso pesado na categoria de Melhor Filme (e considero seu maior concorrente Nomadland da Chloe Zhao) e fará bonito nas categorias técnicas. Para os brasileiros, Mank é o filme que abre de vez a corrida pelo Oscar neste ano atípico. 

Mank (EUA-2020) de David Fincher com Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collings, Charles Dance, Joseph Cross, Arliss Howard e Toby Leonard Moore. ☻☻☻☻

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CATÁLOGO: Vidas em Jogo

Douglas: não por acaso, encontra um palhaço de brinquedo. 

David Fincher estava com tudo quando estava para lançar The Game. Afinal, depois do sucesso de Se7en (1995) - que passou a ser ainda mais valorizada com o passar dos anos -, o diretor foi reconhecido cineasta e não mais como diretor de clipes. O passado de sua estreia cinematográfica com o criticado Alien³ (1992) também ficou para trás e o seu futuro era muito promissor. No entanto, Vidas em Jogo começou  a dar problemas antes de seu lançamento, quando (ninguém sabe exatamente o motivo), os agentes de Michael Douglas encrencaram com Jodie Foster ser a irmã do protagonista interpretado por ele. Apesar da saia justa, os produtores acabaram mudando o sexo do personagem e ele acabou interpretado por Sean Penn. Durante as filmagens, o detalhismo de Fincher também começou a aborrecer produtores e elenco, já que o diretor tem fama de repetir a mesma cena até setenta vezes (!!!)  para escolher a que considera a mais adequada. Depois de atrasos na filmagem, o problema foi o corte final, já que o consenso foi demorado. Quando chegou às telas o filme foi elogiado por sua plasticidade, mas sofreu críticas por sua história vazia e final constrangedor. Curioso é que o final de Se7en foi crucial para o seu sucesso surpreendente, além de estabelecê-lo como um marco no gênero (sendo copiado infinitamente desde então), mas aqui o diretor perdeu a chance de fazer o mesmo. A história gira em torno do banqueiro milionário prepotente Nicholas Van Orton (Michael Douglas), solitário, ele está prestes a completar 48 anos e seu irmão resolve lhe dar um presente diferente. Esse é o ponto de partida para que Orton se envolva num jogo de situações cada vez mais perigosas, que colocam a sua vida em risco constante. Esse fiapo de história serve para gerar cenas mirabolantes de ação com efeitos especiais bem utilizados, mas que não conseguem disfarçar que o filme não tem nada a dizer, ou melhor, você tem que ser muito gentil se acha que merece ver Nicholas Von Orton ter suas contas bancárias violadas, a casa destruída, ser quase assassinado várias vezes e beirar o suicídio porque, simplesmente, estava se tornando um idiota. O pior é que não é nem a sucessão de cenas bem filmadas e mirabolantes que atrapalham o filme, mas o que faz o suspense de Vidas em Jogo tornar-se uma tragédia é justamente o seu final, que deveria trazer alguma novidade, algum sentido a tudo aquilo e simplesmente joga tudo no lixo. Sempre que vejo o filme tenho pena de Fincher pelo esmero na direção de um filme que destrói a si mesmo no último ato mais cretino de sua cinematografia. 

Vidas em Jogo (The Game/EUA-1997) de David Fincher com Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn e Peter Donat. ☻☻

terça-feira, 10 de março de 2015

CATÁLOGO: O Quarto do Pânico

Kristen e Jodie: dupla em sintonia perfeita. 

Kristen Stewart deve ser uma das jovens atrizes mais espinafradas da história de Hollywood, o tipo de caso em que todo mundo adora falar mal. No entanto, nem sempre foi assim. Se aos 24 anos a moça busca o reconhecimento em  produções independentes, quando ganhou fama em 2002, ao protagonizar O Quarto do Pânico ao lado de Jodie Foster, Kristen era considerada um dos nomes mais promissores de Hollywood. Eu poderia especular horas sobre o que teria acontecido com o talento da mocinha adolescente de visual andrógino, mas basta dizer que se ela tinha algum crédito, a saga Crepúsculo tratou de enterrá-lo. Visto hoje, Quarto do Pânico não deixa de ser uma obra peculiar na carreira do cineasta David Fincher. Depois de radicalizar com Clube da Luta, ele queria pegar mais leve nesse filme onde mãe e filha lutam pela sobrevivência escondidas num quarto especial - projetado para protegê-las dos bandidos que invadiram a casa para qual acabaram de se mudar. O problema é que com a mudança recente elas não tiveram tempo de abastecê-lo com mantimentos ou uma linha telefônica para se comunicar com o mundo exterior. Ambientado em apenas um cenário, Fincher abusa de seus maneirismos com a câmera para tornar o suspense mais dinâmico e alcança seu objetivo com ajuda das atuações de suas protagonistas femininas, que apresentam uma sintonia bastante crível de mãe e filha. Fincher sempre dizia em entrevistas que O Quarto do Pânico difere de seus outros filmes porque não é um "film", mas um "movie", ou seja, algo muito mais voltado para o entretenimento do que para a arte. No entanto, o filme se beneficia das referências hitchcockianas, especialmente por fazer com que o cômodo do título exale segurança e perigo ao mesmo tempo, isso sem contar a protagonista feminina (e loira) fragilizada (por um doloroso divórcio) que aos poucos descobre um destemor que ela mesmo desconhecia. Jodie Foster dá conta do personagem com uma facilidade impressionante (e vale lembrar que o papel era de Nicole Kidman, antes dela quebrar uma costela nas filmagens de Moulin Rouge/2000) e Kristen funciona como ótima parceira de cena (como o momento em que a diabetes de sua personagem quase coloca tudo a perder). Entre os vilões Forest Whitaker faz o mesmo de sempre, Dwight Yoakam está estranho (como sempre) e Jared Leto sofre fisicamente como seu Angelface em Clube da Luta sendo o vilão mais interessante em cena. Simples em sua essência, mirabolante em sua forma e claustrofóbico em seu suspense, O Quarto do Pânico foi o último filme de David Fincher antes dele criar obras para ser levado a sério em premiações como O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), A Rede Social (2010)  e o recente Garota Exemplar (2014).

O Quarto do Pânico (Panic Room/EUA-2002) de David Fincher com Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker e Jared Leto. ☻☻

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

CATÁLOGO: Zodíaco

Downey e Jake: Fincher muda o foco. 

Zodíaco é um divisor de águas na carreira de David Fincher, depois de criar filmes de estética irretocável, mas repletos de maneirismos (Se7en/1995 e Clube da Luta/2000 são os mais notórios), David resolveu revisitar suas lembranças de infância e abordar a caça a um dos serial killers mais famosos dos Estados Unidos, o conhecido assassino do Zodíaco. O resultado é o filme mais pessoal do cineasta, já que ele banhou as cenas no medo genuíno que sentia do criminoso. Muita gente estranhou quando a narrativa mais lenta e contemplativa impressa pelo diretor. Embora tenha cenas de violência explícita, o filme mostra que David Fincher buscava novas texturas em sua obra, privilegiando o desenho dos personagens e o foco em uma narrativa simples, sem invencionices visuais. O roteiro foca em três personagens importantes das investigações: o cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.) e o inspetor David Toschi (Mark Ruffalo), que cada um a sua maneira teve a atenção voltada para o assassino. A câmera acompanha o trabalho dos personagens na busca pela identidade de Zodíaco e as informações às vezes convergem, em outras se repelem, fazendo com que o trio de protagonistas se encontre pelo caminho de forma nem sempre cordial. Os crimes atribuídos ao serial killer começaram em dezembro de 1968 e seguiram até meados da década de 1970, num total de aproximadamente 37 vítimas, sendo que (conforme o filme deixa claro) não existe certeza sobre esse número ou autoria do crime - já que conforme a mídia cobria os crimes, vários lunáticos se identificavam como o assassino. Fincher utiliza vários atores no papel do criminoso para que o expectador não construa uma imagem sobre ele, no entanto, ainda que a imagem dele seja desconhecida, o diretor consegue criar uma atmosferas hipnoticamente sufocante de suspense. Seja na cena à beira da estrada, do porão ou qualquer outra em que sugere a presença do assassino, o filme mostra que não precisa de truques falsos para envolver a plateia. No entanto, o filme obteve baixa bilheteria por não apresentar uma solução para os crimes (afinal dizem que Zodíaco continua anônimo e na ativa, mesmo com suas misteriosas cartas cessadas há mais de 30 anos), mas o expectador esperto irá perceber que o foco do diretor é outro: a obsessão dos homens que buscam por ele. É visível a mudança que o mar de crimes, suspeitas e pistas variadas gera em Robert, David e Paul. Todos colocam suas vidas em risco com as investigações e Paul Avery mostra-se o mais transtornado com o universo em que mergulha - e a atuação de Robert Downey Jr. é memorável, merecendo ser lembrada aos que acham que o ator estreou no cinema com Homem de Ferro!!! Desde Zodíaco, Fincher aprendeu a concentrar sua força narrativa nos personagens e o resultado pode se ver em filmes que podem até ser menos estilosos, mas são  maduramente inquietos. 

Zodíaco (Zodiac/EUA-2007) de David Fincher com Jake Gyllenhaal, Robert Downey Jr, Mark Ruffalo, Brian Cox, Anthony Edwards e Chloë Sevigny. ☻☻☻ 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Na Tela: Garota Exemplar

Rosamund e Ben: o casamento segundo o surrealismo Fincheriano.

Podem dizer o que quiser, o fato é que Garota Exemplar é um filme surreal. Acredito que quem acreditar que a proposta do filme é ser realista irá achar apenas defeitos no filme, seja pelos seus momentos mais absurdos ou mirabolantes. O fato é que o novo filme de David Fincher funciona melhor quando percebemos como o diretor abraça tudo que a trama pode ter de mais absurdo, ampliando as percepções da plateia em tudo que a trama do livro de Gillian Flynn (que também assina o roteiro) possui de superlativo quanto à vida no casamento, a influência da mídia e o poder do discurso sobre a mente do espectador.  O filme retrata as investigações acerca do desaparecimento de Amy Dunne (Rosamund Pike, já cotada para o Oscar), a escritora de poucos livros, rica, filha de escritores que criaram a cultuada série de livros infantis "Amy Exemplar". Amy conhece Nick Dunne (Ben Affleck), igualmente escritor, mas que teve de se contentar em dar aulas sobre redação criativa na cidade onde vive - mas ele gosta mesmo de frequentar o The Bar, um bar (oras!) em que administra junto com a irmã Margo (Carrie Coon). É no The Bar que Nick vai na fatídica manhã em que sua esposa desaparece. Quando ele retorna para casa existe sinais de que algo de ruim aconteceu e ele chama a polícia imediatamente. Encarregados do caso, a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens, ótima) e  o oficial Jim Gilpin (Patrick Fugit) encontram alguns vestígios de que houve uma luta naquela casa e que Amy pode ter sido tão sequestrada quanto assassinada. Contar mais do que isso estragaria muito do meticuloso quebra-cabeça que Fincher oferece para a plateia. Resta revelar que acompanhamos a trajetória desastrosa de Nick em lidar com a mídia, que passa a crucificá-lo e apontá-lo como assassino da esposa, ao mesmo tempo que acompanhamos as anotações realizadas por Amy em seu diário. Durante boa parte da sessão, Amy e Nick disputam nossa credibilidade, ela sempre perfeita e ele mostrando-se cada vez mais falho. Fincher utiliza um ponto de partida simples para demonstrar como estamos vulneráveis às informações chegam até nós, exibindo as entranhas do mecanismo de produzir vilões, culpados e vítimas sem ressaltar o quanto a realidade é mais complexa e cheia de camadas de desejos e sentimentos de pessoas que lidam com papeis sociais e impressões constantemente. No entanto, perceber Garota Exemplar como uma alegoria sobre o papel da mídia seria simplificar as outras nuances que oferece ao público. Seja Amy presa à sua perfeição ou Nick aos seus defeitos, ambos se tornam vítimas dos estereótipos que aceitaram vestir, embora lidem com isso de forma distintas. Neste ponto, o casamento torna-se um verdadeiro campo de batalha quando as máscaras (que usaram um para seduzir o outro) começam a cair. Nesse ponto, o desfecho (que pode decepcionar a grande maioria que assiste ao filme como um suspense trivial) funciona como um espelho do casamento que tornou-se um refúgio seguro para o jogo de aparências, para a imagem de sucesso, da família perfeita, bela e feliz.  David Fincher trata a história com sua habilidade habitual em colocar surpresas pelo caminho com grande naturalidade e, mesmo quando tudo é mirabolante demais e o humor surge inevitável, o filme mantem seu tom sereno. Para cumprir essa tarefa mais complicada do que parece, o diretor escolheu um elenco preciso para viver os signos de sua história (basta lembrar que não importa o quanto Ben Affleck se esforce ele nunca convence os fãs de Batman!). Garota Exemplar, com seus traços que beiram o terror, é na verdade um romance às avessas que mistura Atração Fatal (1987) com O Reverso da Fortuna (1990) de uma forma tão engenhosa como as distorções da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross.

Garota Exemplar (Gone Girl/EUA-2014) de David Fincher com Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Coon, Patrick Fugit, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Missi Pyle e Sela Ward. ☻☻☻

domingo, 21 de outubro de 2012

DVD: Quadrilogia Alien


Sigourney Weaver: nasce o legado de Ellen Ripley

Sempre que vejo Alien: O Oitavo Passageiro (1979) tenho a impressão que Ridley Scott não tinha a mínima ideia de que iniciava o seu maior legado cinematográfico. No currículo o diretor inglês tinha apenas alguns trabalhos para a televisão e uma experiência anterior no cinema (Os Duelistas/1977), apesar de ter se reinventado nos últimos anos à frente de épicos, Alien demonstrou que o diretor ficava bastante à vontade ao dirigir uma ficção científica (tanto que voltou ao gênero em 1982 com o cultuado Blade Runner). Alien tornou-se uma referência para o gênero ao mesclar a narrativa sci-fi com o horror e gerou diversos clones menos inspirados que beberam, principalmente, seu visual industrial apocalíptico. O primeiro é considerado por muitos o melhor da saga ao apresentar a missão da tripulação da nave espacial Nostromo que investiga uma misteriosa transmissão espacial. A tal transmissão leva a tripulação para um planeta desconhecido onde existe uma forma de vida desconhecida que utiliza seres humanos como hospedeiros. Além do clima constante de horror impressiona a criação de um monstrengo cujo o sangue é ácido e a apresentação de uma das maiores heroínas do cinema, a Tenente Ripley - vivida por uma quase desconhecida Sigourney Weaver. Scott já apresenta aqui o seu gosto por personagens femininas vigorosas! No entanto, o filme não alcançaria o sucesso sem o clima certeiramente claustrofóbico impresso pelo diretor - que não se contenta em mostrar como o monstrengo tenta dizimar os outros sete passageiros da nave. Além disso, o longa apresenta aspectos que se tornariam marcas da série, como um andróide problemático (vivido aqui por Ian Holm ) e a excepcional direção de arte (indicada ao Oscar), sem falar nos mistérios (como a nave alienígena caída no planeta misterioso) que só ficam claros quando assistimos Prometheus (2012) - que apresenta uma história anterior a este clássico da ficção científica. O final eletrizante deixava o caminho em aberto para uma sequência que deveria honrar o faturamento de mais de quinze vezes o valor do orçamento (hoje, modestos onze milhões de dólares) e o Oscar de efeitos especiais.

Aliens: sequência anabolizada. 

Alien fez tanto sucesso que uma sequência parecia inevitável, no entanto ela demorou sete anos para ser realizada. O problema? O principal era a preocupação de fazer uma continuação que honrasse o legado do primeiro filme. Nos anos que separam os dois proliferaram filmes que bebiam no sucesso do longa de Ridley Scott, todas produções inferiores e com uma pegada trash mais que acentuada. O efeito interferiu o próprio lançamento da continuação oficial, já que até um Alien 2 já existia. A solução? Chamar a sequência de Aliens. A presença do S já deixava os fãs salivando com a expectativa de ter mais de um monstro no segundo filme. Dito e feito. A Tenente Ripley volta para essa aventura com ainda mais destaque na trama onde a simbologia de salvar a espécie humana fica ainda mais forte - já que ela precisa salvar uma garotinha que sobreviveu ao ataque dos Aliens à uma colônia terráquea em outro planeta. De início Ripley fica desorientada ao se ver acordada 57 anos depois do primeiro filme e pior ainda, às voltas com interesses nada nobres de uma empresa sobre os seus inimigos do espaço. Neste filme os produtores entenderam que deveriam mostrar mais monstros e ainda capricharam no confronto de Ripley com uma espécie de rainha Alien responsável pela reprodução da espécie. O responsável por essa visão mais ambiciosa dentro da franquia é James Cameron, que substituiu Ridley Scott na direção e estava disposto a mostrar que sabia lidar com cenas de ação mais elaboradas do que as apresentadas em Piranhas 2 (1981) e até em O Exteminador do Futuro (1984). Tenho a impressão que o roteiro foi ainda mais trabalhado que o anterior e o resultado foi sucesso de bilheteria e uma indicação ao Oscar de atriz para Sigourney Weaver. O filme concorreu ainda a outras seis categorias técnicas, levando para a casa a de Melhor Som e Melhores Efeitos Especiais. Seis anos depois Sigourney voltaria ao papel da Tenente Ellen Ripley, em Alien3 a personagem vai parar numa colônia penal chamada Florina 161 (e tem que raspar a cabeça por conta dos piolhos abundantes no local e para criar uma imagem ainda mais forte para a saga). Depois de tantos diretores hesitarem em assumir a franquia a tarefa ficou para o diretor de video clipes David Fincher - que teve vários problemas com a produção. 

Alien³: confronto de corpo no corpo. 

O problema principal do terceiro episódio é o roteiro, que parece ainda pior por Fincher querer  um filme mais contemplativo - e isso incomodou quem procurava a agitação presente no filme anterior. A história é mais simples e os personagens penam para não cair no estereótipo mais comum dos prisioneiros cinematográficos. Muitos também reclamaram das cenas muito escuras (onde se predominava os tons negros e vermelhos, como se a intenção fosse transformar aquele planeta prisão num inferno sideral). Sorte que Sigourney Weaver continua impregnando sua personagem com a mesma dignidade dos filmes anteriores e irá sofrer um bocado quando se der conta de que ela trouxe seu maior inimigo para aquele lugar. Fincher opta por um suspense mais sutil e deixa a tensão correr solta nos minutos finais com a presença de monstrengos ainda mais habilidosos do que nos filmes anteriores. No entanto, não é difícil perceber que o filme tem um ritmo irregular. O motivo para isso deve ser o não acordo entre o diretor e os produtores. No fim das contas o conflito na decisão pelo corte final afetou o andamento do filme, tanto que Fincher nem gosta de lembrar desse trabalho. Ainda assim, o final impressiona e parece sepultar qualquer possibilidade de haver outra continuação. Apesar das críticas o filme arrecadou mais do que o anterior (159 milhões de dólares pelo mundo), mas o orçamento estourado de 63 milhões já havia desagradado os produtores (o anterior custou 18 milhões e arrecadado 131 milhões, portanto, foi mais lucrativo). Alien3 rendeu mais uma indicação de efeitos especiais para a franquia. Ainda não sei dizer se achei uma boa ideia fazerem Alien: A Ressurreição (1997) que ressuscita a Tenente Ripley 200 anos depois de sua morte. Também não sei quem teve a ideia de entregar a direção do filme para o francês Jean Pierre Jeunet. Sem experiência no gênero, ao invés de tentar valorizar o roteiro mais fraco da franquia, Jeunet prefere fazer do filme um verdadeiro museu de horrores decorado com muita geleca. Nunca antes num filme da série se viu tanta coisa gosmenta! O filme parte da ideia de clonar Ripley (Weaver, mais uma vez), mas ela volta diferente, já que seu DNA acaba misturado ao do monstrengo inimigo. Os interesses que já apareciam no segundo filme aqui se consolidam e colocam a Terra em perigo e para deter a destruição da humanidade, Ripley conta com a ajuda de um bando de piratas espaciais mal treinados e uma andróide chamada Analee (Winona Ryder). As novidades do filme? As cenas são mais claras e os Aliens aparecem nadando pela primeira vez, mas é pouco para segurar a trama. O filme foi o mais caro da franquia (75 milhões) e faturou pouco mais do dobro disso (161 milhões), o resultado? Os produtores não gostaram e começaram a usar o personagem em filmes de terror mais baratos - assim nasceu Alien Vs Predador 1 (2004) e 2 (2007), os quais me recuso a comentar nessa retrospectiva. Sorte que Ridley Scott em Prometheus (2012) parece disposto a colocar as coisas nos trilhos mais uma vez. 


Alien - O 8ºPassageiro (EUA-Reino Unido - 1979) de Ridley Scott com Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwrigth, Harry Dean Stanton, Ian Holm e Bolaji Dadejo. ☻☻☻☻

Aliens (EUA-Reino Unido/1986) de James Cameron com Sigourney Weaver, Paul Reiser, Bill Paxton e Michael Biehn. ☻☻☻☻

Alien³ (EUA-1992) de David Fincher com Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Lance Henriksen, Pete Postlethwaite e Paul McGann ☻☻☻

Alien - A Ressurreição (EUA-1997) de Jean Pierre Jeunet com Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman e Dan Hedaya. ☻☻

sábado, 30 de junho de 2012

CATÁLOGO: Se7en - Os Sete Crimes Capitais

Pitt e Freeman: caçando um serial killer religioso. 

A década de 1990 deu ao cinema americano uma espécie de xodó nos filmes de suspense: o serial killer psicótico. Quase toda semana estreava um filme com algum lunático que se divertia matando parte do elenco, obviamente que o que viamos nos filmes não era o que se percebia na vida real. Os psicopatas pareciam aqueles vilões indestrutíveis das histórias em quadrinhos - e se fizesse sucesso receberia até uma continuação. Quando David Fincher lançou o seu segundo longa, houve uma espécie de marco no gênero, uma vez que o diretor alçou o serial killer a outro patamar, um mais estratégico, estiloso e angustiante para o espectador. Depois de Se7en os outros diretores teriam que se esforçar mais para conseguir, pelo menos, empatar com sua trama de elaboradas crueldades. O ponto de equilíbrio para as sandices que o vilão comete durante é a vida, até então, sossegada dos policiais que o perseguem. Um deles é o veterano William Somerset (Morgan Freeman em um grande momento) que está prestes a se aposentar quando se torna parceiro do recém chegado agente Mills (Brad Pitt, quando começava a ganhar alguma popularidade). Enquanto Somerset já está cansado de toda a violência que assola a cidade de Nova York, Mills ainda possui disposição para uma longa carreira na polícia, mesmo que isso desagrade sua esposa (Gwyneth Paltrow, namorada de Pitt na época e em seu primeiro papel de destaque). O aparecimento de um assassino incomum que cita os pecados capitais em seus crimes instiga os policiais a reavaliar os rumos de suas vidas, na medida em que começam a se sentir ameaçados por um psicopata astuto e mais inteligente que a maioria. Os Sete Crimes Capitais é essencialmente um filme policial, onde a dupla de tiras persegue um bandido, mas existe um bocado de ingredientes que fazem a diferença durante toda a trama. Pra começar a atmosfera sombria e apocalíptica transborda desde os créditos iniciais e só ampliam o horror das vítimas castigadas pelos seus excessos gerados pela gula, preguiça, avareza, luxúria, vaidade, além da  inveja e ira que compõem o desfecho surpreendente para a época. A ideia de um assassino motivado por ideias religiosas gerou um monte de outros filmes e livros, ou seja, além do sucesso de bilheteria, Se7en tornou-se a referência na construção de obras como Jogos Mortais (2004), Rios Vermelhos (2000) e até a trilogia Millenium. Claro que nada disso funcionaria se não existisse por trás o perfeccionismo de David Fincher que antes tivera problemas na concepção de Alien3 (1992) após uma carreira bem sucedida no ramos dos video clipes (você sabia que ele foi fundamental na transformação de Madonna em rainha do pop?), mas aqui encontrou sua consagração pelo total domínio cênico, da arriscada fotografia escura e uso de barulhos perturbadores. tudo para transmitir o desconforto e angústia ao espectador. Seu olhar atento a cada detalhe nas cenas é  notável, seja nas atuações (os olhos desiludidos de Freeman, a doçura de Paltrow, a impetuosidade de Pitt) ou na concepção dos cenários dos crimes mais sádicos do cinema. Sempre alternando o que deve e o que não deve ser mostrado. Realizado de forma independente (de forma ao diretor ter mais autonomia na condução da história), Se7en tornou-se uma pérola do suspense e mostrou que Fincher possuía um interesse bastante peculiar para o lado mais obscuro do ser humano - aspecto que tornou-se sua principal marca até o século XXI.

Se7en - Os Sete Crimes Capitais (Se7en/EUA-1995) de David Fincher com Morgan Freeman, Brad Pitt, Kevin Spacey e Gwyneth Paltrow.
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sexta-feira, 29 de junho de 2012

DVD: Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Craig e Mara: mais vulnerabilidade e elegância em Millenium. 

Depois de fazer filmes com cara de Oscar e quase ganhá-lo de fato em 2011 com A Rede Social (2010), David Fincher voltou às suas origens ano passado com sua versão para o sucesso editorial Millenium de Stieg Larsson. A Garota com Tatuagem de Dragão torna-se mais uma vez Os Homens que não Amavam as Mulheres em terras tupiniquins. A trilogia de Larsson tem seguidores fervorosos que cultuam a hacker Lisbeth Salander como se fosse uma divindade, foram eles que garantiram uma série televisiva sueca baseada na trilogia e, mais tarde, três filmes estrelados por Noomi Rapace e Mikael Nyqvist. O primeiro foi até lançado nos cinemas daqui, mas o público parece não ter digerido bem aquela mistura de investigação e violência sexual. Quem conferiu o filme podia perceber que a estética devia muito à atmosfera soturna da cinematografia Fincheriana - especialmente ao já clássico  Se7en (1995) - e quando soubemos que David Fincher preparava a sua versão da história não era difícil imaginar a tarefa ingrata que tinha pela frente. O filme não chega a ser uma refilmagem da versão sueca, mas tem semelhanças suficientes para não empolgar quem viu o original. Claro que o cineasta confere um visual arrojado ao longa, com fotografia escura e trilha sonora envolvente criada por Trent Reznor e Atticus Ross (ganhadores do Oscar por A Rede Social), além de explorar as atuações de um elenco comprometido com a história que tem em mãos. Quem viu o longa sueco, ou leu o livro, deve estranhar algumas mudanças na reta final e, especialmente, na ênfase que o relacionamento sexual da hacker Salander e o jornalista Michael Blomkvist recebeu. Blomkvist (Daniel Craig) é um dos principais envolvidos na cultuada revista Millenium e responde à uma acusação de difamação. Recebendo atenção da mídia ele nem suspeita que é alvo de uma investigação por parte da prodigiosa Lisbeth (Rooney Mara) que, entre outros aspectos, destrincha seu relacionamento amoroso com a editora da revista, Erika Berger (Robin Wright). A história de ambos é contada em paralelo, aos poucos somos apresentados ao cotidiano da antisocial Lisbeth, seu mundo em enferninhos, invasões cibernéticas e a relação problemática com o novo tutor nomeado para administrar seus bens. Enquanto isso, Blomkvist é contratado para investigar o paradeiro da sobrinha do rico empresário Henrik Vanger (Christopher Plummer), desaparecida há décadas. Na investigação em que conhece os subterrâneos da família Vanger ele se aproxima de Lisbeth numa busca onde crimes com embasamento religioso, incesto, misoginia e sadismo se misturam. Particularmente, a matéria prima da trilogia Millenium não me encanta, mas a química entre a punk e o jornalista asseado consegue manter o interesse, ainda que Fincher nunca ultrapasse sua zona de conforto. Claro que quem já conferiu A Menina que Brincava com Fogo/2010 e A Rainha do Castelo de Ar/2010 conseguem entender melhor as entranhas da personagem que deu a Rooney Mara uma controversa indicação ao Oscar de atriz deste ano - que pode parecer um exagero, mas que ressalta que a moça conseguiu imprimir à personagem uma personalidade distinta da impressa por Noomi Rapace. A Lisbeth de Mara é mais vulnerável, ainda que tenha mais humor por tratar com fina ironia a loucura que diz ter. Esta concepção lhe confere uma elegância que pode soar incoerente para alguns fãs. Seja na nudez despojada ou nos piercings de seu visual agressivo, Mara concebeu uma heroína que beira o romantismo num flerte torto com o feminismo - talvez seja por isso que muitos consideraram o olhar de Fincher um tanto conservador sobre a trama (e a cena final retrata bem isso). Ainda que exista um sabor de retorno às origens (o diretor até abre o filme com um clipe conceitual de Immigrant Song na voz de Karen O para lembrar os velhos tempos em que reinava na MTV, ele ainda impressiona na sua capacidade de sintetizar em imagens, de poucos minutos, as suas intenções), Fincher não é mais aquele provocador de outrora, está mais controlado e preocupado com o desenho dos personagens, pena que sem encontrar o ponto de equilíbrio entre o romance e a violência o filme não empolgou nas bilheterias e comprometeu os outros dois filmes made in USA baseado na trilogia. 

Millenium - Os Homens que não amavam as Mulheres (The Girl with The Dragon Tatoo/EUA-Suécia- ReinoUnido- Alemanha/2011) de David Fincher com Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Robin Wright e Joely Richardson. ☻☻☻

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

FILMED+: Clube da Luta

Pitt e Norton: delírios, pancadas, terrorismo e sabonete.

Há uns três filmes que David Fincher parece disposto a ser reconhecido como um cineasta maduro e acho difícil que ele perca o Oscar de direção neste ano. Seu perfeccionismo ficou mais polido e as invencionices visuais parecem estar se aposentando (em A Rede Social por exemplo só identifiquei esse Fincher irriquieto quando um personagem joga uma cerveja contra a câmera como se fossemos um personagem num filme 3D). Nada que desmereça o trabalho do diretor, que ainda sente atração pelo lado soturno do ser humano, só que agora procura desvendá-lo de forma mais sutil. A Rede Social parece estar há léguas de distância de Clube da Luta, a  grande ousadia do diretor que rendeu tantas polêmicas que acabou ofuscando a alegoria que viamos na tela.  Apesar dos truques visuais e da agressividade, o filme retrata com perfeição o vazio do homem moderno que tenta preencher com o consumo um vazio existencial que cedo ou tarde gera violência. Na época muitos compararam a jornada do personagem sem nome de Edward Norton e o insano fabricante de sabonete Tyler Durden (Brad Pitt em sua segunda parceria com Fincher e num papel que só se valorizou com o tempo) como a versão masculina de Thelma & Louise (1991). Salvo as devidas diferenças estilísticas os dois tem realmente muito em comum - e não me refiro à presença de Pitt. Enquanto no filme de Ridley Scott as duas amigas apontavam o revólver para a estrutura machista das relações sociais, Durden & Cia preferem distribuir murros entre si como uma forma de se sentirem vivos. Norton interpreta com maestria (acho que esse foi seu último papel realmente bom, já que desde então tem se dedicado a produções que o tratam como se fosse um ator menor do que realmente é) um sujeito que trabalha para uma companhia não identificada que investiga problemas em carros com defeito de fabricação. Voando por aí de um lado para o outro ele não consegue dormir devido ao fuso horário e outros problemas emocionais que não podem ser sanados com seu apartamento de mobília cara. O cara acaba procurando refúgio em grupos de auto-ajuda onde cancerosos, tuberculosos ou vítimas de outras enfermidades costumam desabafar suas angústias. Entre suas viagens acaba conhecendo Tyler Durden e nos conhece Marla (Helena Bonhan Carter) uma maluquete que acabará se envolvendo com os dois amigos, ou... quase. Enquanto o protagonista mergulha em seu vazio existencial acaba fundando com Tyler o clube do título, onde um bando de marmanjos irão se encontrar para trocar socos para sairem da inércia de seus cotidianos medíocres. Enquanto trocam sopapos entre si não existe problema nenhum, o pior é quando o clube se amplia e as posturas terroristas começam a aparecer - ao ponto de gerar um plano capaz de criar um colapso econômico de escala mundial. Fincher conduz o público num mergulho frenético num roteiro que bebe diretamente na escrita agressiva e esquizofrênica de Chuck Pahlaniuk e para isso não poupa delírios visuais (o apartamento mostrado como catálogo, a caverna gélida habitada por Marla, o acidente de avião, o interior e Norton desembocando numa arma...) mostrados com um humor negro que tempera o filme em seus momentos de angústia e suspense. Visto hoje, Clube da Luta parece ter gasto todo o repertório de Fincher em malabarismos visuais. O diretor permanece arrojado visualmente, só que de forma infinitamente mais comportada. Se Clube da Luta foi lembrado no Oscar numa módica indicação ao prêmio de efeito sonoro, a guinada na carreira de David Fincher pode lhe dar o Oscar de direção (e muitos outros) no próximo domingo. 

CLUBE DA LUTA (Fight Club/EUA-1999) de David Fincher com Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonhan Carter, Jared Leto e Meat Loaf. ☻☻☻☻☻

sábado, 29 de janeiro de 2011

CATÁLOGO: O Curioso Caso de Benjamin Button


Taraji e Brad: a vida de frente para trás.

Em 2008 David Fincher estava mais disposto do que nunca para levar o Oscar para a casa. O diretor havia tentado no ano anterior com Zodíaco, mas a Academia (apoiada pelo fracasso comercial do filme) ignorou solenemente a empreitada. Com O Curioso Caso de Benjamin Button as coisas pareciam ser diferentes. Bastou a primeira exibição do filme para a crítica se derreter em elogios pela adaptação Fincheana para o conto de Scott Fitzgerald sobre o homem que nasce velho e rejuvenesse indo de encontro ao seu inevitável fim. O roteiro de Eric Roth acrescenta muito à trama original, que era muito mais debochada do que melancólica como essa reflexão sobre a vida e a morte. Fincher escalou o amigo Brad Pitt (com quem trabalhou em seus melhores filmes, Se7en e Clube da Luta) para dar vida a Benjamin e caprichou em cada ponto da produção, escalando a sempre competente Cate Blanchett para ser a paixão do personagem e a ótima Taraji P. Henson para ser a mãe adotiva de Button. O roteiro não se preocupa em dar  justificativas para os absurdos da trama, ciente de que o mais correto era abraçar o tom de fantasia de seu argumento e evitar que tudo caisse no ridículo adotando uma direção solenemente clássica. Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Benjamin nasce com uma doença rara onde apresenta todos os problemas de um idoso de oitenta anos, seu pai, assustado com o bebê e a morte de sua esposa no parto, acaba abandonando o herdeiro na porta de um azilo, onde Benjamin é adotado pela zelosa Queenie (Henson - indicada ao Oscar de coadjuvante) que ajudará o pequeno envelhecido a lidar com suas particularidades. Naquele lugar, Benjamin começa a lidar com a morte com naturalidade e ao mesmo tempo conhece seu grande amor, Daisy (vivida na infância por Elle Fanning e na vida adulta por Blanchett). Benjamin vive pequenas aventuras (conhece um pigmeu, prostitutas, o pai que o abandonou e um homem atingido sete vezes por um raio, trabalha num barco mequetrefe e luta na Segunda Guerra Mundial) enquanto tenta fazer o seu destino se encontrar com o de Daisy - e quando isso acontece as rugas deixam a estampa de Brad Pitt surgir para o foco de Fincher se revelar por inteiro: como ajustar seu tempo ao dos outros ou a si mesmo? Afinal, se Benjamin e Daisy se encontram no meio de suas vidas, o destino dele é rejuvenescer cada vez mais e o de sua amada é envelhecer... e os filhos? Fincher trata essa temática com fortes doses de melancolia e com a mesma frieza narrativa que apresentou em Zodíaco e no recente A Rede Social. Sei que muita gente aponta defeitos no filme (a semelhança da trama com outro roteiro de Roth - Forrest Gump - , a apelativa apropriação do furacão Katrina em Nova Orleans...), mas Benjamin Button  tem seus méritos, especialmente na forma como envolve a platéia nos dramas de seu protagonista - por isso era um dos fortes candidatos ao Oscar 2009 até que Danny Boyle surgiu com seu Quem quer ser um milionário? e Benjamin teve que se contentar com três estatuetas menos nobres (efeitos especiais, direção de arte e maquiagem).

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button/EUA-2008) de David Fincher com Brad Pitt, Cate Blanchett, Jared Harris, Julia Ormond e Elle Fanning. ☻☻☻☻

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Na tela: A Rede Social

A Rede Social: uma ação entre amigos nas mãos de David Fincher.
David Fincher parece estar alcançando sua maturidade, sempre o criticaram pelo seu estilo arrojado que transbordava de seus filmes desde sua estréia em Alien³ (1992). Em Clube da Luta (1999) ele radicalizou seus conceitos cinematográficos e amargou polêmicas, voltou simplificado em Quarto do Pânico (2000) e se viu cotado para dois filmes que ditariam os rumos de sua carreira. Um era Missão Impossível 3 (o qual desistiu) e o outro era Dália Negra (que perdeu para Brian de Palma). Na ausência desses dois projetos fez Zodíaco (2005), que foi elogiado e desprezado pelo grande público nas mesmas proporções. Em Zodíaco já podíamos perceber uma mudança em Fincher, estava mais controlado, econômico e nisso as atuações se sobressaiam angariando elogios. Depois veio Benjamin Button, sua terceira parceria com Brad Pitt que foi todo indicado ao Oscar, mas acabou ganhando em categorias secundárias. Neste ano Fincher volta ao Oscar como o grande favorito, mas quem acompanha seu trabalho desde o início sabe que alguma coisa mudou, ele não é mais o sujeito visualmente inebriante de outrora.  Em A Rede Social, sua competência de sempre está impressa em cada minuto, na frieza dos ambientes, na precisão das atuações e ritmo vertiginoso que confere a um roteiro sem cenas mirabolantes de ação. A ação está nos diálogos bem lapidados pelo roteirista Aaron Sorkin e na forma como destrincham seus personagens palavrosos. Seria muito reducionista dizer que o filme trata da criação do Facebook, afinal a trama amplia os ingredientes de forma universal através de poucos personagens. No centro de tudo está Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, numa versão anabolizada de seu personagem de A Lula e a Baleia), um gênio de Harvard que é dispensado pela namorada após cuspir suas chatices em cima dela. Na mesma noite em que é dispensado ele resolve curar suas dores teclando veneno em seu blog na madrugada, não satisfeito resolve espinafrar as garotas criando um site/game chamado Facemash. Por aí podemos perceber que Zuckerberg não é uma pessoa muito bacana. Ressentido, invejoso, ciumento, com a auto-estima abaixo do subsolo e com problemas crônicos de socialização o rapaz irá responder três processos pela sua tática de curar o seu ego: criar um clube onde ele seja o dono. Para ele não interessa a grana, amigos ou inimigos que deixa pelo caminho, o que importa mesmo é sua autoimagem inabalável. Junta-se a essa equação o amigo brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield, o novo Spider Man e  cotado para o Oscar de coadjuvante),  que será dispensado logo que possível –, os gêmeos bem nascidos (e – para a fúria de Zuckerberg – atléticos) Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hammer em papel duplo) que criam a ideia inicial do Facebook e o cara do Napster, Sean Parker (ironicamente encarnado por Justin Timberlake, que estraga todas as chances que tem de se tornar uma das peças mais importantes da narrativa. Seu Parker não parece um nerd que codificou a música para os tempos da internet, mas um ídolo pop frustrado). A trama transborda as características abstratas do mundo virtual durante os processos que Mark sofre, afinal a quem pertence uma ideia? O que é ser ético em tempos virtuais? O mais curioso da trama é que quanto mais Zuckerberg amplia sua criação, mais afasta as pessoas pelo qual nutre alguma afeição, esta é a dissonância que serve de alimento para a narrativa da primeira até a genial última cena. O grande trunfo do filme é falar diretamente sobre uma geração que possui muita informação e possibilidades de comunicação, mas que nutre um potencial ao isolamento alimentado pelo individualismo exacerbado. Para alguns pode parecer um filme sobre negócios, para outros uma obra sobre ética, para a grande maioria soa como um filme de tribunal onde o que está em pauta é o rumo que uma geração está tomando diante de novas regras de relacionamento. Baseado no livro “Bilionários por Acaso", acho que interessa menos o que é verdade e mentira na trama, e mais a construção de um anti-herói que emerge de uma sociedade que vê nos outros apenas uma escadaria para elevar o próprio ego.
A Rede Social (The Social Network/EUA-2010) de David Fincher com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer e Max Minghela. ☻☻☻☻