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sábado, 23 de fevereiro de 2013

FILMED+: Argo

Affleck: diretor esnobado no Oscar, só no Oscar...

Às vezes eu demoro para escrever o comentário sobre um filme (só para você ter ideia, a minha lista de filmes vistos e esperando um comentário ultrapassa, atualmente, dez títulos). Alguns se perdem em algum canto da memória e quando revejo escrevo sobre ele. Outros quando vejo eu preciso de um tempo para digerir até que um texto seja produzido. Também existem aqueles que prefiro dar uma outra olhada para ter certeza que não estou sendo vítima de alguma campanha de marketing. Deve ser por isso que somente agora me sinto preparado para escrever sobre Argo, o terceiro longa de Ben Affleck na direção e um dos mais celebrados do ano. Se você perceber, ele entrou na minha lista de dez melhores filmes de 2012 e quase desbancou Drive ao título de meu favorito entre os lançamentos do ano passado em terras brasileiras. O fato é que nunca duvidei que Ben Affleck houvesse construído um ótimo filme. Desde que apareceu o primeiro lampejo sobre Argo na imprensa, o filme recebeu minha atenção com sua trama inacreditável. É visível como em cada filme Affleck tornava-se cada vez mais seguro ao conduzir a trama enquanto manteve firme sua astúcia para escalação de elenco. Affleck sabe como uma estrela sofre para ser levada a sério e, por isso mesmo, gosta de escalar bons atores que nem sempre tem um vasto fã clube. Mais que eficiente na condução das atuações, Ben sempre garantiu uma vaga para seu elenco entre os favoritos da Academia. Foi assim em sua estreia com Medo da Verdade/2007 (onde a mãe maluquete de Amy Ryan lhe valeu vários prêmios e uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante), o feito se repetiu com Atração Perigosa/2010 (que confirmou Jeremy Renner como um ator respeitável - indicado ao prêmio de ator coadjuvante) e agora Alan Arkin como uma raposa de Hollywood sendo indicado ao prêmio de ator coadjuvante. Nem vou comentar que o filme levou para a casa o Prêmio do Sindicato dos Atores de Melhor Elenco, prêmio que acabou ofuscado diante do Globo de Ouro de Melhor Filme e diretor (dobradinha que se repetiu no BAFTA e no prêmio da Crítica Americana). Ben Affleck pode se gabar de criar um dos filmes mais tensos dos últimos anos, com uma narrativa espetacular que mescla drama e humor com uma eficiência raramente vista - auxiliado pela edição absurda de William Goldenberg e um senso estético apurado que recria o final dos anos 1970 e início dos 1980 com precisão. Argo conta a história de uma missão quase suicida de CIA em 1980 para libertar seis funcionários da embaixada americana no Irã depois que esta foi invadida por uma multidão enfurecida. A multidão queria que os EUA devolvesse o exilado xá Reza Pahlevi, que era acusado de cometer crimes contra a população e foi deposto por Aiatolá Khomeine e sua visão conservadora. O filme, obviamente arranha questões políticas, mas deixa essa parte em segundo plano para se dedicar à missão de resgate orquestrada por Tony Mendez (Affleck, num bom momento diante das câmeras). Os seis funcionários fugiram da embaixada do Tio Sam pouco  antes que os manifestantes a invadissem e tomassem cinquenta pessoas como reféns. Os seis funcionários se esconderam na embaixada canadense e era uma questão de tempo para que fossem descobertos. Correndo contra o tempo, Mendez tem a ideia mirabolante de criar um filme de ficção científica a ser filmado no Irã e com locações a serem estudadas. Disfarçado de produtor canadense, Mendez transformaria os "hóspedes" da embaixada canadense em sua equipe de produção e, não fosse esse o plano, os seis teriam que pedalar para fora do país... literalmente! Curioso é como Affleck consegue misturar críticas ao sistema (os altos e baixos da missão devido ao alto escalão do governo americano) e à própria indústria do cinema (com auxílio luxuoso de Alan Arkin e John Goodman que são os consultores para que o filme de ficção científica seja capaz de convencer até mais xiita dos habitantes iranianos). Argo é o nome do filme que serve de disfarce para o resgate, e de fato, seu roteiro existiu nos bastidores de Hollywood (sendo visto como uma cópia descarada de Star Wars), mas nunca saiu do papel. Apesar do humor (que quando parece que vai cair no exagero serve de contraste para alguma cena assustadora), Affleck consegue gerar uma tensão absurda durante o filme e conta com um trabalho de montagem magistral que mescla cenas que, aparentemente, não teriam relação (como a leitura do roteiro estapafúrdio e o telejornal). Sem nunca perder de vista o drama de seus personagens, o filme remete diretamente aos filmes políticos da década de 1970, tanto em sua estética retrô como em seu estilo de narrativa. Indicado a sete Oscars, o filme foi lançado em setembro e manteve sua força para a cerimonia do Oscar que acontece no próximo domingo. Se ganhar será o meu ganhador favorito desde Beleza Americana (1999). Só para terminar, eu queria dizer que sempre achei engraçado as caras que Affleck fazia quando descobria que ganhava um prêmio de Melhor Diretor por Argo, acho que no fundo ele sabe que o que custou sua indicação ao Oscar de diretor foi aquela piadinha do roteiro que compara um diretor a um macaco. Que falta de senso de humor, camaradas...

Argo (EUA-2012) de Ben Affleck com Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Tate Donovan, Clea DuVall, Kyle Chandler, Chris Messina e Scoot McNairy. ☻☻☻☻☻

sábado, 5 de janeiro de 2013

OS MELHORES DO CINEMA 2012

MELHOR FILME: Drive
Esse ano foi mais difícil escolher o meu filme favorito, mas por algum motivo sempre que escolhia outro, o filme estrelado por Ryan Gosling chiava na minha cabeça. Drive é um filme diferente, esquisito, mas que possui um jorro de cenas memoráveis que fizeram a diferença no meu imaginário cinéfilo em 2012. Na trama de um dublê de Hollywood que se mete com o submundo surpreende da primeira à última cena com sua violência crua e motorizada. 
Outros Favoritos (sentido horário): Prometheus, O Abrigo, Argo, Histórias Cruzadas e Moonrise Kingdom.  

MELHOR DIRETOR: Jeff Nichols (O Abrigo)
Eleger o melhor diretor é quase escolher o responsável pelo melhor filme, mas não posso ignorar o trabalho magistral de Nichols em O Abrigo. Um filme pequeno, com atuações intensas e com o mérito de sempre deixar o espectador questionando o que se passa na mente do protagonista (seria louco ou um profeta?). Em sua claustrofobia, ele nos torna em algo mais do que espectadores, nos faz coadjuvantes da trama onde o apocalipse está cada vez mais próximo. 
Outros favoritos (sentido horário): Chris Nolan (O Cavaleiro das Trevas Ressurge); Nicholas Winding Refn (Drive);  Steve McQueen (Shame); Ben Affleck (Argo)e  Ridley Scott (Prometheus)

MELHOR ATOR: Michael Fassbender (Shame)
Fassbender tem tudo para se tornar um dos maiores atores de Hollywood nesse início de século. De origem alemã, o rapaz foi premiado em Veneza pela minuciosa atuação de um viciado em sexo. O que poderia descambar para a canastrice se tornou uma das atuações mais vigorosas do ano. 
Outros favotiros (sentido horário): Michael Shannon (O Abrigo), Garrett Hedlund (Na Estrada),  Leonardo DiCaprio (J.Edgar), Gary Oldman (O Espião que Sabia Demais) e Jean Dujardin (O Artista).

MELHOR ATRIZ: Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Sempre que vejo Viola em cena eu penso que ela merecia algum prêmio, mas como a empregada Aibeleen, ela se superou! Cansada dos preconceitos que geraram a Ku Kux Klan no sul dos EUA, sua personagem mostra-se mais vigorosa do que as patroas brancas poderiam imaginar! Viola  não parece interpretar, ela nos oferece sua alma numa personagem inesquecível. 
Outras Favoritas: Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin), Michelle Williams (Sete Dias Com Marylin), Olivia Colman (Tiranossauro),  Felicity Jones (Loucamente Apaixonados) e Meryl Streep (A Dama de Ferro).

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Janet McTeer (Albert Nobbs)
Tornou-se público e notório que Glenn Close foi ofuscada pela atuação de sua parceira de elenco em Albert Nobbs. Como o filme não era grande coisa, na história de mulheres que se vestem de homem para ganhar a vida na Irlanda do século XIX, McTeer foi prejudicada nas premiações. Enquanto o filme é todo cheio de pudores em lidar com a homossexualidade, Janet exala testosterona na pele de Hubert Page. 
Outras favoritas (sentido horário): Naomi Watts (J. Edgar), Octavia Spencer (Histórias Cruzadas), Jessica Chastain (O Abrigo/Histórias Cruzadas),  Shailene Woodley (Os Descendentes) e Carey Mulligan (Shame)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Max von Sydow (Tão Forte, Tão Perto)
Acho que não há nada mais saboroso do que ver um ator veterano mostrando como é que se faz um coadjuvante roubar a cena. Num filme bastante criticado sobre um órfão de onze de setembro que busca uma forma de se conectar com o pai falecido, Sydow é o acompanhante ideal para a jornada. Sem dizer uma palavra ele consegue dar um nó em nossa garganta sempre que aparece em cena. 
Outros favoritos (sentido horário): Sam Riley (Na Estrada), Christoph Waltz (O Deus da Carnificina), Michael Fassbender (Prometheus), Armie Hammer (J Edgar) e Ezra Miller (Precisamos Falar sobre o Kevin)

MELHOR ROTEIRO: Wes Anderson e Roman Coppola (Moonrise Kingdom)
Quando Wes Anderson está inspirado ninguém o supera, Moonrise Kingdom é um olhar apaixonado sobre a invencibilidade imaginária gerada pelo primeiro amor. As desventuras do casal Suzy e o escoteiro Sam reflete um pouco de cada um de nós em nossa nostalgia sobre os tempos que ficaram para trás. 
Outros favoritos (sentido horário): Argo, Ruby Sparks, O Abrigo, Drive e Prometheus. 

MELHOR ELENCO: Histórias Cruzadas
 Todos os concorrentes tiveram atores memorávies, mas nada se compara a coleção de atrizes de várias gerações em cada cena de Histórias Cruzadas. O elenco formado por nomes que vão das veteranas Sissy Spacek e Mary Steenburgen, passando pelas escoladas Viola Davis, Alisson Jeaney, além das ascendentes Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer e Jessica Chastain já valeriam o filme. 
Outros Favoritos (sentido horário): Moonrise Kingdom, Prometheus, Drive, Argo e O Espião que Sabia Demais. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

10+ MELHORES FILMES 2012

Para encerrar o ano de serviços prestados no blog é inevitável fazer a lista dos meus filmes favoritos  entre os que chegaram no Brasil durante o ano. Entre os retardatários de 2011 e os legítimos filhos de 2012 a lista (em ordem alfabética) ficou assim:

Argo de Ben Affleck Em seu terceiro filme, Affleck provou de vez que é melhor diretor do que ator. Nos anteriores ele já mostrava que era bom, mas faltava uma história com H maiúsculo. Em 1979 o Irã estava em ebulição e com a invasão à embaixada americana, seis diplomatas conseguem refúgio sigiloso na casa do embaixador canadense - enquanto um grupo da CIA planeja uma forma de resgatá-los. A saída? Bolar um filme falso que usaria o deserto iraniano como locação! Uma ideia tão estapafúrdia que só poderia ser inspirada em fatos reais! Sucesso de público e crítica, Argo promete fazer bonito no Oscar do ano que vem!

Drive de Nicholas Winding Refn Tantos diretores e atores passaram pela produção de Drive, mas não consigo pensar em como o filme seria sem a dupla Refn/Ryan Gosling. Trata-se de um filme incomum, tudo poderia guiar para mais um genérico de Velozes e Furiosos, mas a dupla sempre conduz o filme para o oposto. Seja nas cenas automobilísticas fascinantes, os personagens enigmáticos, a ambientação noir oitentista, o romance proibido do protagonista, os longos silêncios... o fato é que Drive jorra originalidade estilística numa trama que tinha tudo para dar errado: um dublê que ganha a vida dirigindo para bandidos. Obra-prima!

Histórias Cruzadas de Tate Taylor Com o sucesso nas bilheterias percebi que os críticos adoraram falar mal de The Help, disseram que a direção era frouxa e o filme era melodramático demais. No entanto, sempre ressaltavam as qualidades do seu elenco. Não sei muito bem o filme que essas pessoas queriam ver na tela, o fato é que eu gostei bastante  de ver as empregadas negras cuspindo no preconceito latente do Tio Sam sobre as pessoas que colaboraram por gerações em sua vida doméstica. Equilibrando drama, humor e um elenco estupendo,as Histórias Cruzadas (especialmente Viola Davis) ficarão na minha memória por um longo tempo.

J. Edgar de Clint Eastwood Depois de alguns tropeços nos últimos anos, tudo indicava que Eastwood tinha achado a sorte grande quando resolveu levar para as telas a biografia do homem que revolucionou o FBI, J. Edgar Hoover. O problema é que o personagem era mais controverso do que ele imaginava e o filme foi apreciado por poucos. Mais do que a construção de uma figura histórica, o filme mostra como se construiu a vida política nos EUA durante várias décadas do século XX - e como manter a privacidade se tornou garantia de "caráter"; nesse aspecto, Leonardo DiCaprio e Armie Hammer estão afiadíssimos como Edgar e Clyde Tolson. Destaque ainda para Naomi Watts como fiel escudeira da dupla.

Moonrise Kingdom de Wes Anderson Eu já estava com saudades do Wes dos primórdios de sua carreira, ele estava se tornando cada vez mais sério e com seu último filme ele mostrou que ainda consegue fazer deliciosas crônicas sobre a adolescência - e a forma como nós, os adultos, nos relacionamos com ela. Centrado no primeiro amor dos adoráveis Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward), com toda força que os doze anos podem proporcionar, Anderson constrói um dos filmes mais divertidos e ingênuos dos últimos tempos. Num universo onde uma tropa de escoteiros parece um exército em miniatura (e os policiais são mais bonzinhos que os assistentes sociais) o cineasta acertou em cheio.

O Abrigo de Jeff Nichols A quem pertence a verdade? O que distingue a loucura de uma profecia? Esse é o ponto de partida - e de chegada - deste filme que merecia mais atenção quando passou nos cinemas ou quando chegou nas locadoras. O Abrigo consome o espectador em sua angústia silenciosa de ritmo lento enquanto o protagonista pensa que está enlouquecendo, assim como aconteceu com sua mãe. Assustando a esposa (a sempre exemplar Jessica Chastain), a filha surda e os amigos com a ideia de que o fim se aproxima, o personagem de Michael Shannon tornou-se um dos mais marcantes do ano.

O Espião que Sabia Demais de Thomas Alfredson Desde pequeno que adoro quebra-cabeças (e fiz esse mesmo estrago no meu sobrinho, que aos dez anos é o  meu parceiro favorito na hora de jogar). Baseado no livro de John LeCarré, o filme do sueco Alfredson é um gratificante exercício para o espectador. Contando a busca de um traidor na inteligência britânica, o filme mescla diversos personagens e tramas. O texto tem maior interesse na vida particular sacrificada desses profissionais do que nas intrigas (e ao final elas se mostram misturadas com maestria). Vale enfrentar o desafio e acompanhar as ironias e atuações do elenco, especialmente de Gary Oldman, soberbo como o agente George Smiley.

Precisamos Falar Sobre o Kevin de Lynne Ramsay É o filme mais perturbador que assisti neste ano - talvez nos últimos dez anos! Desde que vemos Tilda Swinton coberta de vermelho sabemos que sua personagem terá um desfecho problemático com o seu filho, Kevin (Ezra Miller). Com a câmera voltada para os conflitos de uma mãe que enfrenta o desprezo de todos por ter dado a luz ao responsável por um massacre na escola local, o filme causou polêmica por culpabilizar demais a personagem. Freud explica! O fato é que o filme é um pesadelo arrepiante pela busca por explicações para a maldade humana. E será que existe explicação?

Prometheus de Ridley Scott Ficção científica é o meu segundo gênero favorito, mas tem sido bastante maltratado nos últimos tempos com tramas bobas e piadinhas que dizem satisfazer as plateias. Sorte que Scott retomou a franquia Alien em grande estilo com uma trama elaborada sobre a origem da humanidade. Trazendo questionamento sobre fé, ciência e ética o filme foi um dos grandes sucessos do verão americano e fundamentou discussões acaloradas em quem o assistiu. Scott enriquece a mitologia Alien com pelo menos dois personagens inesquecíveis: a cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e o robô David (Michael Fassbender), que não tem pudores em transformar seus criadores em cobaias.

Shame de Steve McQueen Sempre que chego perto do fim de uma lista eu penso em quem deveria aparecer nela, sendo assim, Shame não poderia ficar de fora. A saga de um viciado em sexo e sua rotina solitária foi uma das coisas mais emocionalmente complexas que enfrentei numa tela durante o ano. A rotina de Brandon (Michael Fassbender, premiado em Veneza2011) é movida a sexo carnal e virtual. Ainda que seja bem sucedido ele parece prisioneiro da eterna busca por sexo (o que alguns especialistas já chamam de Desejo Sexual Hiperativo), mas a visita de sua irmã (Carey Mulligan) irá colocar sua lógica de cabeça para baixo. Melancólico, o filme surpreende. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

FILMED+: Moonrise Kingdom

Sam e Suzy: o primeiro amor com a lente do Fantástico Senhor Wes Anderson. 

Tenho uma atração especial pelas obras de Wes Anderson, tem gente que acha seus filmes uma chatice, esquisitos e sem emoção. Bem, eu não me enquadro nesse grupo. Anderson construiu uma filmografia que possui um estilo próprio, com visual arrebatador, atuações contidas em um universo bastante peculiar. Depois de dois filmes irregulares (o chato A Vida Marinha com Steve Zissou/2004 e o melhorzinho Viagem à Darjeeling/2007) ele voltou às origens ao realizar a animação O Fantástico Sr. Raposo (2009) que o fez voltar ao ponto do qual nunca deveria ter saído. É como se ao ter contato com a obra clássica de Roald Dahl ele voltasse ao que fez de Três é Demais/1998 e Os Excêntricos Tennenbaums/2001 as obras tão especiais que se tornaram. Em Moonrise Kingdom o diretor privilegia a forma como os não adultos enxergam o mundo, ampliando o que já aparecia em Três e Tennenbaums. Em 1965 o escoteiro cáqui  Sam (o irresistível Jared Gilman) foge de seu acampamento (liderado por um cômico Edward Norton) criando um grande problema para a tropa, até que eles descobrem que ele fugiu para viver numa ilha com Suzy (Kara Hayard). Ele passa a ser perseguido pela polícia (personificado por Bruce Willis)  e  escoteiros, enquanto Suzy causa preocuapação em seus pais psicólogos (Frances McDormand e Bill Murray). O roteiro (escrito por Anderson e Roman Coppola) explora os inusitados desdobramentos dessa situação, sem nunca perder a ingenuidade de seus personagens - não por acaso o filme acontece pouco antes da Guerra do Vietnã e, talvez por isso, Wes trate seus escoteiros como os soldados mais bem intencionados do mundo quando descobrem as punições que Sam irá sofrer após sua aventura amorosa (que envolve até uma funcionária do Serviço Social vivida por Tilda Swinton, já que descobrem que o garoto é adotado). Em sua trama, Anderson trata escoteiros como se fossem do exército (a cena do dilúvio é o ápice da maluquice) e seus dois protagonistas como se fossem Romeu e Julieta em miniatura (a cena em que Bill Murray os surpreende na barraca é antológica), no entanto, todo senso de humor fala muito sobre os adultos da plateia ao nos fazer pensar sobre onde foi que perdemos a sensação de que o primeiro amor nos tornava invencíveis e habitantes de um mundo diferente. É curioso como Anderson borra as fronteiras entre o comportamento infanto-juvenil e o adulto de uma forma bastante peculiar - e espero que continue investindo nisso com a mesma desenvoltura apresentada aqui. Selecionado para abrir o Festival de Cannes e indicado ao Globo de Ouro de melhor comédia do ano, Moonrise Kingdon deve aparecer em várias listas de melhores do ano e é merecido! Wes Anderson comprova aqui que se sai muito melhor quando tem uma trama ultraviajante nas mãos, além disso ele conseguiu agregados que tornaram a sua patota cinematográfica ainda mais interessante (McDormand, Swinton, Norton, Willis, Harvey Keitel, todos aparecem totalmente a vontade no universo do diretor) e ainda tem aquela estética que já é notória na carreira do cineasta. Vendo Moonrise Kingdom eu lembrei das brincadeiras malucas que eu criava com meus amigos quando era criança - e esta sensação é o máximo que eu posso esperar de um filme como esse. 

Moonrise Kingdom (EUA/2012) de Wes Anderson com Jared Gilman, Kara Hayard, Edward Norton, Bruce Willis, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton e Harvey Keitel. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MOMENTO ROB GORDON: Melhores Pôsteres de 2012

Todo fim de ano começam a pipocar listas sobre tudo e eu sempre gosto de lembrar dos melhores pôsteres do ano, afinal de contas é o primeiro contato que temos com um filme e já começa a despertar aquele desejo de ir para a sala escura ver tudo o que ele prometeu. Às vezes ele é até melhor que o próprio filme - e por isso o pôster merecia até uma categoria especial no Oscar (assim como melhor trailer, não acham? O departamento de marketing agradece!). Esses são os meus cinco escolhidos do ano que está chegando ao fim:

5 - As Palavras
O filme passou praticamente em branco em nossos cinemas, mas o pôster merece ser lembrado ao utilizar palavras para vender a trama de um homem que rouba a obra de um escritor e tem que lidar com as consequências disso. Esteticamente marcante - garotas, me desculpem, mas o que menos chama atenção é o rosto de Bradley Cooper - muita gente considera o poster a melhor coisa do filme. 

4 - O Homem da Máfia
Quem percebe o filme (que repete a parceria entre Brad Pitt e o diretor Andrew Dominik) como uma metáfora sobre a sociedade americana, curte muito mais a trama sobre o matador que pretende apurar um assalto ocorrido num jogo de pôquer ilegal. O pôster evidencia o que o filme tem de mais simbólico num exercício de minimalismo onde a bandeira americana parece mirar a violência no espectador. 

3 O Segredo da Cabana
Poucos filmes de terror podem se gabar de ter um pôster tão estimulante. Para que fotos de famosos ou nomes em destaque? A ideia já transborda mistério ao utilizar a casa como se fosse um quebra-cabeça - o que cai como uma luva no filme que nasce de um clichê manjado (grupo de amigos em uma casa misteriosa no meio do mato) e aos poucos ajeita suas peças em nome de um roteiro mais imaginativo do que a maioria do gênero. 

2 Argo
Pode ser por conta das tiras que lembram os documentos destruídos em escândalos políticos na década de 1970 (fonte de inspiração cinematográfica da obra), pode ser a bandeira que se anuncia no olhar de seu diretor/ator ou até o apelo de mostrar que Ben Affleck comprovou-se de vez um diretor sério e engenhoso. O fato é que desde o cartaz, Argo já se mostrava um dos grandes acertos de 2012. 

1 Ted
A ideia é tão simples que beira o genial. Basta olhar a foto bem humorada para já entender o espírito do filme. Ted se tornou uma surpresa nas bilheterias do ano - e rendeu ao seu diretor o convite para apresentar o Oscar do ano que vem. Alguns podem ficar assustados dele repetir as falas do urso fofinho desbocado (ele que dubla o peludo na versão original), mas se for para repetir o humor bem sacado do cartaz, já podemos relaxar!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

DVD: Shame

Fassbender: a verdade nua e crua de um viciado em sexo. 

Quando o diretor inglês Steve McQueen exibiu sua segunda parceria com o ator alemão Michael Fassbender (a primeira foi o cultuado Hunger/2008) no Festival de Veneza, todo mundo esperava que Shame garantisse ao ator uma vaga entre os concorrentes ao Oscar. Pela empreitada, Fassbender coroou seu ano de ouro de serviços prestados ao cinema ganhando o prêmio de melhor ator do Festival. Foi bastante merecido, já que seu  desempenho na pele de Brandon Sullivan é milimétricamente construído para dar conta de um homem que sofre de erotomania - um distúrbio psicológico que gera compulsão sexual. Se nas mãos da maioria dos  diretores o personagem serviria de desculpa para cenas de sexo desenfreado e - no máximo - uma pose intelecutalóide, McQueen opta pelo caminho oposto. Obviamente que existem cenas eróticas no filme (na verdade, são três - o que pode decepcionar muita gente), algumas bem ousadas para o circuito comercial (sem falar nas cenas de nudez que renderam a esnobada da Academia para Fassbender), mas elas servem menos para excitar e mais para ressaltar a degradação vivenciada pelo personagem. No decorrer do filme, fica claro que para Brandon sexo já se tornou menos prazer e mais compulsão. Ele persegue orgasmos seja sozinho na privacidade do banheiro ou usando seus dotes conquistadores com a mulherada em restaurantes, - ou contratando prostitutas, frequentando chats eróticos ou indo a enferninhos. Brandon é maduro, bem sucedido profissionalmente e, essencialmente, solitário. No filme, as suas investidas mais emotivas  acabam gerando mais decepção do que realização. Mas afinal de contas, por que para Brandon envolver-se emocionalmente é tão frustrante? Um dos méritos do filme é não perder tempo buscando explicações para o comportamento do personagem, apenas recebemos pistas -  e a maioria delas aparecem quando sua irmã, Sissy (uma espetaculosa Carey Mulligan) aparece para passar um tempo em seu apartamento compulsivamente organizado. A presença de Sissy faz com que Brandon tenha que lidar com sentimentos os quais não gosta - e gera conflitos que expõe o que o personagem tem de mais frágil. Devido a falta de explicação sobre os dois irmãos, inúmeras especulações devem aparecer na mente do expectador e o efeito deixa o longa ainda mais interessante, especialmente quando Sissy canta a versão mais tristonha da música New York, New York que já ouvimos na vida ou quando ela diz para o irmão que não são pessoas ruins, que apenas vieram de um lugar ruim (e a trilha de hits antigos ressalta ainda mais essa espécie de 'nostalgia' pelo avesso). Shame (que pode ser traduzido por vergonha, desonra ou rubor) ousa ao esgarçar as lacunas de seu roteiro, permitindo que a plateia as preencha construindo um filme subjetivo a partir das belíssimas cenas urbanas construídas pelo diretor. Próximo ao fim da sessão, estamos tão imersos na relação entre Brandon e Sissy que podemos sentir as emoções de ambos e prever o que está por vir. Dramaticamente estimulante e eroticamente angustiante, o filme consegue ser emocionalmente cru, especialmente depois da noite em que Brandon sai com algumas cicatrizes após sua descida ao inferno e, ao retornar para seu reino particular, enfrenta o risco de perder seu único vínculo afetivo com o mundo. Fassbender tem um trabalho de primeira ao compor um sujeito gélido (basta ver a antológica cena inicial para perceber tudo sobre ele) imerso numa bolha que tem a casca desafiada pela temperatura de Carey Mulligan. Trata-se de um belo dueto em cena e que constrói um dos filme mais interessantes que chegaram por aqui neste ano. 

Shame (Reino Unido/2011) de Steve McQueen com Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie e Lucy Walters. ☻☻☻☻

domingo, 21 de outubro de 2012

FILMED+: Prometheus

Green, Rapace e Fassbender: A humanidade como efeito colateral. 

Prometheus foi um dos mais filmes mais aguardados do ano e fiquei muito aborrecido por não conseguir assistí-lo no cinema. Quando tive tempo, o filme era exibido num horário inviável. Mas ainda bem que Deus inventou o DVD e o filme já pode ser visto quantas vezes eu quiser! Isso serve de dica para aqueles que vão ficar com alguns questionamento em mente quando o filme acabar - e ao contrário do que muitos pensam isso não é algo ruim, mas algo extremamente bom que mantém o filme vivo em nossas mentes por um longo tempo. O retorno de Ridley Scott à ficção científica resultou num de seus melhores trabalhos em muito tempo, vale lembrar que Ridley tem no currículo o clássico Blade Runner/1982 e Alien - O 8º Passageiro/1979 que inaugurou uma nova forma de ficção científica mesclada ao terror e, do qual, Prometheus é uma prequência - contando a história antes da saga da Tenente Ripley (Sigourney Weaver). O roteiro de Prometheus tem tantas camadas que quando assistimos temos a grata sensação de que a história sempre esteve ali, mas precisava de uma voz competente para contá-la - e o melhor é que o filme não decepciona tanto no quesito de adicionar novas simbologias da franquia Alien quanto criar cenas de ação que os espectadores de hoje tanto prezam. Houve quem criticasse o filme por não oferecer respostas para as questões que apresenta, mas se apresentasse repostas elas provavelmente seriam erradas e limitadoras à leitura do espectador, acho que quem afirma esse tipo de coisa não entendeu aquela cena inicial que já responde a pergunta principal da protagonista antes mesmo que ela a construa. No início de Alien - O 8ºPassageiro ouvimos um pouco da história da nave Prometheus, uma expedição que acabou na morte de quase toda a sua tripulação. O filme conta a história dessa expedição espacial, que foi motivada por dois cientistas Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) que descobrem em uma caverna o que poderia ser um convite para a humanidade conhecer o seu criador. Interessado na ideia, o misterioso dono da Weyland Corporation (vivido por um Guy Pearce envelhecido após participar de uma campanha viral de divulgação do filme) banca uma expedição até uma lua distante com uma estranha caverna com ar semelhante ao da Terra. Para lá Shaw e Holloway lideram um grupo de pesquisadores que irão procurar pistas sobre o criador da humanidade e irão se deparar com situações estranhas que apontam para experiências que podem exterminar a própria vida na Terra. Como dá para perceber, ambição é o que não falta ao texto que busca responder a origem da humanidade enquanto caminha para o lado oposto. Ridley Scott não é bobo e sabe que para dar conta de uma história dessas precisa de um elenco vigoroso para não deixar tudo descambar para o suspense barato, por isso escolheu Noomi para ser uma autêntica herdeira de Ripley na franquia - e a moça, que até então não me convencia, alcança a melhor atuação de sua carreira. Além dela, o filme conta com Charlize Theron numa participação especial que vive nos cantos envolta de mistério, além de Michael Fassbender em outra excelente atuação na pele de David. Acho que o personagem dele é o mais rico da trama, um andróide (figura sempre presente na franquia Alien) que tem referências explícitas que vão de Peter O'Toole de Lawrence de Arábia/1962  aos replicantes enigmáticos de Blade Runner e o robô vilão HAL de 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968). Além de referências cinematográficas o filme ainda tem um embasamento filosófico que o diferencia de todos os outros do gênero. Prestando atenção você poderá encontrar Assim Falou Zaratrusta de Nietszche e especialmente Eram os Deuses Astronautas? de Erich Von Daniken, isso sem falar no próprio mito grego de Prometeu que roubou o fogo dos deuses e foi condenado ao sacrifício eterno (ou seja, é a história de desafiar o criador e suas consequências, parece moralista mas é mais científico do que parece). Difícil imaginar outro filme que conseguisse contar essa história com tanta segurança e ainda servir de ponto de partida para um universo cinematográfico consagrado há mais de três décadas. Acima de tudo, Prometheus parece querer colocar a franquia Alien de volta aos trilhos depois de um quarto episódio que deixou a desejar e dois filmes que quase estragaram a mitologia de série nos confrontos do monstrengo com Predador (numa das misturas mais indigestas que Hollywood já cometeu). A bilheteria de três vezes o seu orçamento ao redor do mundo provou que as ideias lançadas por Scott tem fôlego para uma nova saga espacial e se uma sequência chegar à metade da eficiência apresentada neste filme eu já ficarei satisfeito. 

David: referências filosóficas e cinéfilas. 

Prometheus (EUA-Reino Unido/2012) de Ridley Scott com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris e Patrick Wilson. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DVD: Precisamos Falar Sobre o Kevin

Swinton e os Kevins: assombrada pelo filho em todas as idades.

Ainda não consigo entender como Tilda Swinton não foi indicada ao Oscar deste ano (acabou perdendo a vaga, inexplicavelmente, para Rooney Mara para a versão americana de  Os Homens que Não amavam as Mulheres/2011). A atriz alcança o seu trabalho mais notável (para quem conhece a carreira da atriz nascida na Irlanda sabe que isso não é pouca coisa). Ela consegue absorver o espectador na angústia de sua personagem de forma que conseguimos sentir o mundo como ela. Obviamente que devemos reconhecer que a atriz está muito bem amparada pela diretora Lynne Ramsay que consegue extrair todo o horror que brota do livro de Lionel Shriver, ao ponto de esquecermos que estamos diante de uma drama. O resultado é realmente perturbador - em maior parte à desenvoltura da diretora em criar cenas que ficam assombrando nossa cabeça um bom tempo.  A tortura psicológica de sua personagem acaba surtindo mais efeito do que a cena final, onde descobrimos o motivo de toda a cidade odiá-la, ainda que ela esteja sozinha e se culpando pelas atrocidades cometidas pelo filho, Kevin. Considero fascinante como Ramsey consegue anunciar a violência  eminente com detalhes vermelhos em cada cena, como se fosse o prenúncio de uma grande tragédia. Quando conhecemos Eva (Tilda Swinton) ela está na Itália, banhada de vermelho na tradicional tomatina. Este é um dos poucos momentos em que a personagem aparece feliz ao lado do esposo Franklin (John C. Reilly). Pouco depois descobre-se grávida e com o pequeno Kevin nos braços. Alguns críticos reclamaram da forma como o filme culpa a mãe pelos atos de seu filho, mas isso é compreensível já que todo o filme é contado sob a perspectiva de Eva sobre o relacionamento com o filho (o livro era até escrito em formato de diário). Seu presente solitário busca respostas no passado exibido em flashbacks, afinal,   como a maioria das mães ela se sente culpada pelos atos do filho e são em suas memórias que mergulhamos conhecendo Kevin em cada fase de sua vida. De início Eva relembra sua inadequação ao fato de ser mãe, as diferenças com o esposo na forma de lidar com o bebê, a forma como percebe que havia algo de diferente em Kevin em suas travessuras e pequenas crueldades - especialmente depois que ganha uma irmãzinha. Enquanto Eva percebe que Kevin não sente culpa em seus atos (especialmente quando é vivido pelo ótimo Ezra Miller, num tom sádico assustador) o pai sustenta que ele não deve mesmo se sentir culpado e lhe instiga no que seria sua arma.seu brinquedo favorito: arco e flecha. Os atos de Kevin irão culminar numa dessas tragédias ambientadas em escola - que já se tornaram moda nos Estados Unidos - e revelarão que existe algo de muito estranho naquele rapazinho. Além do passado conturbado com o filho, o presente de Eva não é mais agradável, sua vida ficou manchada pela presença dele e estagnada em volta do filho. Se o tema já rendeu filmes recentes como O Deus da Carnificina (2011) e Tarde Demais (2010), apenas em Precisamos Falar sobre Kevin ele recebe uma abordagem visceral, tão intensa que nos faz pensar como nenhum efeito 3D poderia nos despertas as sensações proporcionadas pelo filme. Ainda que possam  criticar a forma como Ramsey gira em torno da culpa de Eva (não por acaso ela tem esse nome) é interessante como ela consegue ampliar esse olhar pela forma como lidamos com a educação social de crianças e adolescentes, além dos limites dos pais na criação do caráter de seu filho. Seria Kevin um psicopata desde pequeno? Seria um sociopata? Um sádico? Um rejeitado pela própria mãe? Na última cena não existe justificativa para seus atos, mas existe o abraço mais caloroso de uma mãe no pedaço que sobrou de si. 

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin/Reino Unido-2011) de Lynne Ramsey com Tilda Swinton, Ezra Miller, John C. Reilly, Ashley Gerasimovich e Jasper Newell. ☻☻☻☻

domingo, 29 de julho de 2012

DVD: O Abrigo

Shannon: mais um louco em seu currículo?

A quem pertence a verdade? Essa é a pergunta que fica em nossas mentes quando acabamos de assistir o sensacional segundo filme do  cineasta Jeff Nichols (de Shotgun Stories/2007). Ganhador de três prêmios em Cannes2011 (Semana da Crítica; Quinzena dos Realizadores; SACD) o filme merece a atenção pela forma como mistura uma série de ingredientes numa atmosfera tão cheia de suspense quanto dramática. Não é fácil realizar um filme que flerta o tempo inteiro com a loucura temperada com a recém paranoia americana. Nichols mostra-se um realizador competente (e seu novo filme, Mud exibido em Cannes já é um dos favoritos ao próximo Oscar). O filme conta a história de Curtis (Michael Shannon, ganhador de vários prêmios da crítica), um homem comum que mora com a esposa e a filha surda no estado de Ohio nos Estados Unidos. Curtis trabalha numa construtora e a esposa, Samantha (Jessica Chastain) tenta ajudar nas despesas da casa com a venda de bordados nem sempre valorizados na feira local. O casal parece ter chegado ao ponto cômodo do casamento, onde possuem uma fina sintonia e a maior preocupação é com o tratamento da filha (assegurado pelo plano de saúde proporcionado pela empresa em que Curtis trabalha). Mesmo que existam alguns desentendimentos, fica difícil duvidar do amor entre os dois. Um personagem chega a mencionar que Curtis tem uma vida perfeita -  pena que quando pesadelos começam a perturbar o sono dele as coisas mudam. Afinal, são mais do que sonhos, "são sensações". Essa angústia nascida nos sonhos permanece nos dias de Curtis. Tempestades apocalípticas, homens misteriosos querendo fazer mal à sua filha, pássaros em voos desgovernados, o filme borra a noção de sonho e realidade à medida que percebemos que nem Curtis consegue definir o que é uma coisa ou outra. Essa estranheza acaba ressuscitando seu maior fantasma familiar: o diagnóstico de esquizofrenia aos trinta anos de sua mãe (Kathy Baker). Curtis tem trinta e cinco. O protagonista tem tanto medo de enlouquecer quanto de seus sonhos serem premonitórios. O personagem começa a ter estranhas atitudes para evitar que seus pesadelos se tornem realidade, até que decide reformar reformar o abrigo de tornados que possui no quintal. É neste momento que as coisas se complicam, já que o personagem parece caminhar, cada vez mais, para a ruína que tenta evitar. Mesmo que eu considere que o filme poderia ser um pouco mais curto, o diretor Nichols mostra-se extremamente hábil na condução da trama. Michael Shannon está excepcional em mais um papel estranho. Seus olhos grandes, presos no rosto de traços duros, conseguem exalar uma melancolia  que dificilmente outro ator conseguiria na mistura de medo e loucura necessária ao personagem. Shannon compõe seu personagem a partir da premissa de um pai de família devotado que procura evitar que uma tragédia aconteça. Jessica Chastain também merece elogios, no papel da esposa de Curtis. Não há dúvidas de que ela foi a maior atriz surgida no ano passado, aqui ela consegue manter o equilíbrio entre emoções tão distintas quanto amor,  revolta e compreensão. O efeito do casal em cena cresce lentamente e chega ao auge na espetacular cena em que Curtis enfrenta toda a cidade num jantar. Ali ele parece mais um profeta do que louco. Afinal, o que diferencia um do outro nos tempos atuais? A cena é tão arrepiante que eleva o último ato a outro patamar, tornando suas ações imprevisíveis. Com narrativa lenta e silenciosa, a explosão de Curtis é o anúncio de que talvez ele não seja louco e que no fundo ninguém quer aceitar que ele está certo. Ou então, que ele está prestes a cometer a maior de suas loucuras... "Há uma tempestade se aproximando", na verdade ela está na mente do personagem o tempo inteiro. É interessante como o roteiro desenvolve a ideia do abrigo exalando segurança e medo - e a sequência em que Samantha tenta convencê-lo a sairem daquele cubículo é um dos mais belos duetos do ano passado. Os reclamões podem até dizer que o cara já está se repetindo em criar personagens doidos, afinal ele já foi até indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel do vizinho que gosta de dizer mais verdades do que deveria no subestimado Foi Apenas um Sonho (2008) depois de viver o pirado nada beleza em Possuídos (2006), mas a performance dele aqui é devastadora! Não lembro de ter visto um ator construir um personagem com tanta consciência diante da loucura eminente. Sua capacidade de transmitir a desordem emocional do personagem é fascinante. Imortalizado em nossas mentes após a sequência final, onde a praia paradisíaca remete à pergunta que escrevi no início desta postagem, o filme deixa o público com um nó na garganta. 

O Abrigo (Take Shelter/EUA-2011) de Jeff Nichols com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart e Kathy Baker. ☻☻☻☻

domingo, 17 de junho de 2012

DVD: J. Edgar

DiCaprio e Hammer: mais do que amigos.

Quando se anuncia que farão a biografia de uma figura pública, começam as especulações sobre o que ficará de fora e o que será incluído. A pior parte fica por conta das polêmicas que personalidades controversas podem causar. J. Edgar Hoover foi o homem que consolidou o FBI como conhecemos, foi o visionário que incorporou a ciência nas investigações - ele intensificou a busca de digitais na caça aos criminosos, a análise minuciosa das cenas de crime e tornou a seleção de agentes ainda mais rígida. Vendo o filme temos a impressão de que sem ele não existiria CSI! Obviamente que houve aspectos pouco lisonjeiros na vida dele,  a perseguição aos comunistas e militantes em geral que se pronunciassem contra o status quo de sua pátria. Abordar uma figura tão interessante, cultuada por alguns e odiada por outros, já seria um material para um filme interessante, mas o roteiro de Dustin Lance Black quer mais. Além de abordar o profissionalismo de Hoover, ainda tenta desvendar mistérios de sua vida pessoal. Para isso, valoriza bastante os coadjuvantes em cena, afinal, são nessas relações que conhecemos os aspectos mais humanos do homem que revolucionou o FBI - que antes dele era bastante desacreditado.  Sendo assim, as figuras de sua fiel escudeira Helen Gandy (Naomi Watts, ótima), do companheiro Clyde Tolson (Armie Hammer, indicado ao prêmio do sindicato de ator coadjuvante) e a mãe severa Annie Hoover (Judy Dench) servem para desvendar o homem por trás do mito. Acredito que esta seja a melhor atuação de Leonardo DiCaprio desde que foi revelado para o mundo como o autista de Gilbert Grape (1993). O roteiro de Dustin mescla alguns dos casos mais importantes no início da carreira de Hoover com um fio condutor sobre sua vida pessoal: a relação com o agente Tolson. Enquanto procura dar maior seriedade ao FBI fica evidente que seu apego ao advogado novato tem algo mais do que a busca por competência, mas o roteiro trata a relação dos personagens de forma bastante discreta, se apoiando principalmente na química da dupla DiCaprio e Hammer - talvez seja por isso que fica a cargo da dupla as duas cenas mais emocionais do filme. Dustin Lance Black é homossexual assumido e quando disse que escrevia sobre a vida de Hoover todos ficaram com a pulga atrás da orelha. Dono de vários prêmios pelo roteiro de Milk (2008), fica evidente que o rapaz (além de militante) tem um estilo próprio de escrever, mas que precisa de um diretor dos bons para torná-lo interessante. Clint Eastwood andava meio em baixa depois que lançou aquela chatura Além da Vida (2010) e este filme poderia ter colocado seu nome em alta novamente se o público e a crítica não houvesse rejeitado seu trabalho sobre uma das figuras mais polêmicas da história americana. É compreensível, já que muita gente não conhece e nem quer conhecer o homem que deu permissão para descascar a vida dos cidadãos em investigações e que brigou para que agentes federais portassem armas, ainda mais se um filme  desses não tem cenas de ação ou piadinhas para segurar duas horas de duração. No entanto é bastante empobrecedor imaginar que J. Edgar seja um filme sobre um homem, o ideal seria compreender sua trajetória como a história de um país, seus ideais e paranoias. É desta forma que o filme funciona melhor -  principalmente pelo vigor de seu protagonista. Na pele de  Hoover, DiCaprio abraça todos os aspectos mais nobres como os mais egocêntricos e reacionários desta figura histórica. Apesar de conseguir alcançar todas as notas necessárias na construção de um ser humano complexo, o ator contou com um problema que acabou custando os prêmios da última temporada: a maquiagem.  DiCaprio passa boa parte do tempo com uma verdadeira máscara para representar os últimos anos de vida de Hoover a frente do FBI. O efeito só não é mais constrangedor do que o trabalho feito em Armie Hammer - que parece um boneco na pele de Tolson idoso (é impressionante como vemos o ator brigando com aquela maquiagem). A maquiagem que alcança o melhor efeito é de Naomi Watts, que graças (em parte) ao tom discreto que imprime à sua personagem, consegue não ser prejudicada como os seus parceiros de cena. Parece um detalhe, mas não é. Nos momentos finais, onde Hoover passa a ser perseguido por Nixon (que desejava os arquivos secretos sobre si), a maquiagem atrapalha bastante nas nuances das últimas cenas da  dupla de atores. Mesmo com os tropeços da maquiagem, considero o filme muito interessante em seu tom solene e não hesitante a abordar aspectos mais obscuros do personagem. Sei que muita gente reclama que há muita sujeira de Hoover que ficou de fora do filme, mas estes deveriam preferir que fosse realizado uma minissérie sobre o homem. Como diretor, Eastwood realizou mais um trabalho notável com atuações marcantes de seu elenco - além de um bocado de coragem para polemizar (algo raro em diretores veteranos ainda na ativa). 

J. Edgar (EUA-2011) de Clint Eastwood com Leonardo DiCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judy Dench e Josh Lucas. ☻☻☻☻

terça-feira, 29 de maio de 2012

FILMED+: Drive

Gosling: o Piloto em seu cavalo motorizado.

Existe algo de muito peculiar no protagonista de Drive do sueco Nicolas Winding Refn. Acho que não se trata do fato dele ter poucas palavras, ou ter arroubos violentos tão assustadores quanto qualquer psicopata que nos acostumamos a ver às pencas em filmes de segunda. O que mais me impressiona é a frase com que se apresenta aos seus clientes e espectadores, algo semelhante a: "Se eu dirigir para você, terá dinheiro. Você me diz onde começamos, onde vamos e onde vamos depois. Eu te dou cinco minutos quando chegarmos lá. Qualquer coisa que acontecer nesses cinco minutos eu sou seu. Não importa o que aconteça. Qualquer minuto antes ou depois e você está por conta própria. Eu não carrego arma. Eu dirijo". Parece pouco, mas não é. Impressiona a forma como Ryan Gosling diz essas palavras que servem para resumir a vida de seu personagem, um dublê de Hollywood que nas horas vagas trabalha numa oficina e ganha uns trocados dirigindo para assaltantes. São características que garantem por si só um personagem interessante para a plateia, mas a coisa não pára por aí. Sem falar muito, o papel é um prato cheio para que o ator construa mais um tipo estranho em sua carreira. Concentrando-se no olhar de seu "piloto", ele consegue transmitir emoções variadas a cada nuance que o roteiro prepara para ele, seja entrar num negócio arriscado envolvendo corridas de Stock Car patrocinado por dois sujeitos perigosos - basta ver a carranca de Ron Perlman e Albert Brooks dizendo que suas mãos também estão sujas para perceber que as  coisas vão complicar - ou seja aprofundando sua relação com sua meiga vizinha, Irene (Carey Mulligan). É quando está perto de Irene e do filho dela que o Piloto revela suas características mais nobres, a partir desse ponto que percebemos que nãos e trata de um vilão, mas de um cavaleiro solitário como vimos em tantos faroestes onde um homem precisa fazer o que tem que fazer - a diferença é um toque doentio urbanoóide tão bem explorado por Scorsese em Taxi Driver/1976. Como todo mocinho tem a sua missão, Piloto irá ajudar o esposo ex-presidiário de Irene a se livrar de uma dívida e nesse ponto, dirigir alucinadamente não será mais suficiente para proteger a criança e a moça indefesa que cruzaram seu caminho.  Existe inúmeros méritos na direção de Nicolas Winding Refn, a começar pela sábia opção da economia nos diálogos (deixando que o espectador os preencha como bem entender), a estética retrô (da trilha viajante à jaqueta cool de seu personagem principal) e principalmente pelas elaboradas cenas de perseguição. Todo esforço para criar uma narrativa elegante constrasta excepcionalmente com os momentos em que o sangue jorra na tela - quando a vida tão regrada do personagem sai do controle. Ainda quando a trama atinge seus momentos mais crus, o diretor continua criando cenas inesquecíveis (como o beijo no elevador antes que Piloto 'brinque' de Irreversível/2002 com um oponente - uma manobra narrativa tão brusca que cai como uma luva para a trama de carros envenenados duelando entre si).  Refn saiu premiado como melhor diretor em Cannes2011 e foi merecido, além de seu cuidado estético ele nunca perde de vista as atuações do elenco. Gosling já é de longe o ator mais interessante de sua geração, o sempre cômico Albert Brooks aparece irreconhecível ao ponto de causar arrepios, Bryan Cranston (o mentor do protagonista), Mulligan, Perlman e Christina Hendricks (a voluptuosa Joan de Mad Men) conseguem tornar seus personagens marcantes, mesmo com menos nuances a serem trabalhadas. Indicado ao Oscar de edição de som, Drive é um filme ousado na construção de seu antiherói, torna-se quase um delírio narrativo em sua intenção de conciliar filme de arte com ação - e, por isso mesmo,  já coleciona fãs ardorosos que lhe reivindicam o título de clássico. 

Drive (EUA-2011) de Nicolas Winding Refn com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Ron Perlman e Crhistina Hendricks. ☻☻☻☻☻

quinta-feira, 24 de maio de 2012

DVD: Histórias Cruzadas


Não é todo dia que podemos desfrutar de um filme repleto de talentos. Não digo um desses filmes cheios de celebridades que pretendem arrecadar milhões de bilheteria a bordo de um roteiro preguiçoso, mas um filme de verdade com atores consistentes que podem não ser muito conhecidos pelo grande público, mas que conseguem nos fazer lembar o que é um verdadeiro talento diante das câmeras. Histórias Cruzadas é uma grande coleção de talentos femininos, atrizes veteranas e novatas brilham como ouro em pó no filme do estreante Tate Taylor - prova disso é que juntas levaram o Prêmio do Sindicato de Atores na categoria Melhor Elenco de 2011. Bastou o filme (adaptado do best-seller baseado em fatos reais de Kathryn Stockett) estrear para que todo mundo o apontasse como um dos favoritos  ao Oscar. Parece pouca coisa, mas não é fácil um filme estrear em agosto e permanecer na memória coletiva de votantes em premiações e do público até o início do ano seguinte. Embalado pela aclamação do público e de parte da crítica, o filme ainda fez os sobrinhos do Tio Sam refletirem sobre um passado recente que explica muito sobre seu presente. Apesar de alguns críticos apontarem defeitos na inexperiência de Taylor (que foi escolhido por ser amigo da escritora), há de se concordar que ele consegue evitar que o filme caia no melodrama barato, retratando nuances doloridas na relação das empregadas negras com as patroas brancas do preconceituoso estado do Mississipi na década de 1960. O filme é narrado por Aibileen (a magistral Viola Davis, que recebeu o prêmio do sindicato dos atores deste ano e quase impediu a terceira oscarização de sua amiga Meryl Streep), uma doméstica que cuida dos filhos de uma jovem dondoca que prefere conversar com qualquer amiga do que passar um tempo com os filhos. A jovem patroa ainda pertence ao grupo da esnobe racista-mor Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard, colocando a carreira nos eixos) que pertence a uma espécie de comitê racista que prega ações como um banheiro separado para as domésticas negras por motivo de higiene. Hilly é a patroa de Minny (Octavia Spencer, ganhadora de todos os prêmios de coadjuvante da temporada), uma pessoa que está prestes a explodir com os atos da moça (ainda mais quando ela precisa enfrentar uma tempestade para ir no seu banheiro "privativo" do lado de fora da casa). Existe um bocado de crueldades nas histórias dessas personagens - e não apenas as relacionadas ao cotidiano no lar dos brancos, mas numa sociedade que tendia a segregá-los cada vez mais, mesmo quando a cruzada de Martin Luther King começou a ganhar força. Numa sociedade opressora onde os negros eram vítimas de preconceito a todo instante existe a jovem jornalista  Skeeter Phelan (Emma Stone, provando de vez que pode fazer mais do que comédias adolescentes), que, assim como todas as suas amigas, foi criada por uma babá negra, mas enxerga com mais criticidade o racismo mal-disfarçado de sua época. Skeeter convidará Aibileen para ajudá-la numa coluna sobre prendas domésticas num jornal local e depois irá convidá-la a relatar sua história em um livro. Não vai demorar muito para Minny colaborar com a atitude. Para completar o rico universo de personagens femininas, ainda existe Celia Foote (a sempre competente Jessica Chastain, indicada ao Oscar de coadjuvante), uma loura que vive isolada da cidade com seu esposo e que tem atitude completamente diferente das outras patroas que aparecem no filme. Sei que há quem torça o nariz para o fato de Skeeter servir de porta-voz para as mulheres negras do filme, servindo de libertadora e blábláblá mas é um exagero! Embora Skeeter não fuja do estereótipo de menina-a-frente-do-seu-tempo, se observarmos históricamente a história do estado onde nasceu a Ku Kux Klan, seria quase impossível que as histórias dessas mulheres conseguissem por conta própria a projeção que o livro causaria. Além disso, a salvadora da história é Aibileen que fez Skeeter ser quem é. Sem abordar o racismo através do sensacionalismo, o diretor tem consciência de que suas atrizes são capazes de envolver as plateias com mais eficiência do que muito discurso panfletário. Equilibrando doses generosas de humor com os dramas de pessoas comuns, Histórias Cruzadas é um filme que faz rir e pensar em igual medida, afinal de contas, são as relações que nos marcam como indivíduos. 

Stone, Spencer e Davis: ótimos desempenhos contra o racismo. 

Histórias Cruzadas (The Help/EUA-2011) de Tate Taylor com Viola Davis, Emma Stone, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard, Allison Janney, Sissy Spacek e Mike Vogel. ☻☻☻☻

sexta-feira, 13 de abril de 2012

DVD: O Espião que Sabia Demais

Cumberbatch e Oldman: peças num xadrez da espionagem. 

O sueco Tomas Alfredson foi exaltado pelos quatro cantos do mundo quando realizou o drama vampírico Deixe Ela Entrar (2008) - que fez tanto sucesso que recebeu até uma versão Made in Hollywood -, nada mais previsível que seu talento fosse importado para o cinema de língua inglesa e com alcance maior de público. O mais interessante em sua transição é que seu primeiro filme em inglês pode ser considerado uma refilmagem e com o mesmo sucesso de sua última produção na terra natal. O Espião que Sabia Demais é a versão do livro de John LeCarré para a telona (o mesmo foi levado à TV no formato de minissérie com Alec Guiness no papel de George Smiley). Antes de continuar, vale ressaltar, que os fãs de ação desenfreada e explosões vão detestar o filme, mas aqueles que sempre acharam que como agente secreto James Bond é fantasioso demais irão se deliciar com a tensão e as informações que requerem toda a atenção do espectador. Carré (pseudônimo do escritor David Cornwell, que realmente trabalhou para o Serviço de Inteligência Britânico) criou todo um universo paralelo para o seu livro, repleto de ironias e analogias com o cotidiano dos agentes secretos. Chama a autoridade máxima da Inteligência Britânica de Control (o sempre vigoroso John Hurt), a casa de vidro onde se encontram de Circus (que faz referência ao bairro inglês onde se encontra na ficção, ou pode ser apenas um "circo" mesmo. Na realidade, a Inteligência era espalhada por Londres em pequenos cubículos em prédios decadentes - conforme afirma Carré nos extras), a conspiração é chamada de Witchcraft (traduzindo: bruxaria) e o próprio título original em inglês se refere aos apelidos que Control utiliza para os suspeitos de traição entre os membros de sua cúpula. Ambientado durante o auge da Guerra Fria, o fio condutor da trama é a suspeita de que existe um espião infiltrado no Serviço de Inteligência do Reino Unido (o MI6), a motivação em descobrir quem é este sujeito ardiloso que causa a missão malfadada em Budapeste no início da sessão - onde o agente Jim Prideaux (Mark Strong, provando que   é ainda melhor fazendo bons moços) é vitimado. Muita coisa muda com o descrédito da missão e elas só pioram quando o agente aposentado George Smiley é convidado a remexer as suspeitas de Control após a sua morte. Smiley era um dos membros da cúpula do MI6 quando Control estava no comando, dividia as decisões mais secretas com Percy Allelline (Toby Jones), Bill Haydon (Colin Firth), Roy Bland (Cyarán Hinds) e Toby Esterhase (um impressionante David Dencik), os quais Control costumava chamar  pelos respectivos codinomes: Fuzileiro, Alfaiate, Soldado e Pobretão. Conforme tenta encaixar as informações que possui nas mãos, Smiley torna-se a costura da arquitetura narrativa proposta por Alfredson.   Em vários momentos tive a impressão que interessa menos ao diretor descobrir quem é o espião do que expor os sacrifícios exigidos por uma vida de discrições e desejos abandonados pelo caminho. Smiley, assim como outros personagens, tentam lidar com seus problemas pessoais com o mesmo sigilo da profissão - e quando esse mundos colidem o resultado parece ainda mais doloroso. Pelo caminho Smiley ainda contará com a fidelidade do jovem agente Peter (Benedict Cumberbatch) e do misterioso Ricky Tarr (Tom Hardy), que possui outros interesses na busca pelo traidor. É interessante como os russos e a própria burocracia governamental aparecem como obstáculos para que Smiley destrinche os mistérios que surgem pelo caminho. O incrível mesmo é como Alfredson investe numa trama hipnótica, onde não entendemos muito o que acontece durante boa parte da sessão (o que acontece quase sempre quando vejo filmes de espionagem), mas conforme entrelaça os fios da trama tudo caminha para uma solução direcionada pela sutileza cortante de Smiley. Gary Oldman foi merecidamente indicado ao Oscar por sua atuação minimalista, mas que deixa transparecer toda a inteligência e perspicácia de seu personagem. É ele que nos guia pela trama com seus óculos antiquados (procurados por Gary exaustivamente ao ponto de quase desistir do papel por não encontrar os que considerava ideais para o papel). Entre cenas de um presente melancólico e um passado glorioso, Alfredson sobrepõe segredos, mentiras e (in)fidelidades e cria uma estética irretocável na construção de imagens e atuações. Sem medo de desagradar o grande público, Alfredson criou uma espécie de totem aos agentes apresentados quase sempre de forma espalhafatosa no cinema. Aqui eles se despem de bugigangas fantasiosas e se tornam seres de carne e osso, capazes de reflexões memoráveis. Os espiões perderam a ação desenfreada, mas ganharam um roteiro robusto (indicado ao Oscar) e brilhante trilha sonora de Alberto Iglesias (também indicado ao Oscar). Ao final do filme o que permanece é a visão de que todos aqueles conflitos da Guerra Fria não fazem muito sentido no mundo de hoje - mas as relações humanas, banhadas em traições e lealdades, continuam causando identificação nas plateias de qualquer tempo. 

O Espião que Sabia Demais (Tinker, Taylor, Soldier, Spy/Reino Unido-França) de Tomas Alfredson com Gary Oldman, Benedict Cumberbatch, John Hurt, Tom Hardy, Mark Strong, Colin Firth, Ciarán Hinds, David Dencik, Stephen Graham e Kathy Burke. ☻☻☻☻