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sábado, 25 de fevereiro de 2012

DVD: Contra o Tempo

Contra o Tempo: O Dia da Marmota Hardcore! 

Duncan Jones já pode celebrar por não ser conhecido como o filho de David Bowie. Depois da promissora estreia como cineasta no ótimo Lunar (2009), Duncan se aventura mais uma vez pelo universo da ficção científica com este Contra o Tempo. Apesar de ser um filme de estúdio, com um casal de atores badalados com indicações ao Oscar no currículo (Jake Gyllenhaal e Vera Farmiga), o interesse do diretor parece ser o mesmo: o que sobra de humanidade perante as experiências científicas. Misture no roteiro dilemas éticos da ciência, uma crise de identidade no meio do caminho e a possibilidade de mudar a sua história e verá que existe muito em comum entre os dois filmes do herdeiro de Ziggy Stardust - mesmo que a trama de ambos seja totalmente diferente. Contra o Tempo  deixa claro que começa pelo meio do caminho, um homem desperta em um trem com a cara de que não faz a mínima ideia do que está acontecendo (e os traços de Jake Gyllenhaal parecem ser feitos para isso), conversa com uma desconhecida (a eficiente Michelle Monaghan) que insiste em chamá-lo por outro nome, enquanto isso um sujeito encrenca com outro, cai um pouco de café em seu sapato, um rapaz corre atrás de outro que esqueceu a carteira no vagão e tudo explode pouco depois. Esta rotina de oito minutos irá se  repetir durante todo o filme enquanto, assim como o protagonista, tentamos entender o que está acontecendo. Descobrimos que ele se chama Colter Stevens, servia no meio da Guerra no Oriente Médio e agora faz parte de uma experiência onde o tempo faz toda a diferença. No experimento construído por Doutor Rutledge (Jeffrey Wright) ele é capaz de se conectar com um passageiro de um trem que explodiu naquela manhã e - se tudo der certo - descobrir quem é o terrorista responsável pelo atentado. Duncan Jones brinca com as referências de seu protagonista, faz com que interaja com os outros passageiros dentro de uma rotina pré-estabelecida, busca suspeitos em potencial com toda a angústia possível para os oito minutos da missão e esbarra na expectativa de poder mudar o futuro.    Neste ponto o filme se torna mais dramático ao percebermos que o universo ao qual Colter interage é um mundo paralelo (o Código Fonte do título em inglês) e não importa quantas vezes ele procure alterar os fatos, o passado já aconteceu. O roteiro é esperto em saber que não importe quantos truques  narrativos utilize, o filme não poderia se ancorar somente neles e insere questionamentos sobre a ética do projeto (afinal de contas o que houve com Colter? Ele está vivo ou morto? Por ser parte da experiência ele não pode ter vontade própria?) e neste ponto conta com o apoio da militar Coleen Goldwin (Vera Farmiga), que mesmo diante da importância do projeto não perde a noção de que está lidando com um ser humano em meio àquela confusão. Misturando referências que vão de Bill Murray preso no dia da marmota na comédia Feitiço do Tempo (1993), passando pelo alemão Corra, Lola, Corra (1998) até o filme de ação Déjà Vu (2006), Contra o Tempo é um filme eficiente para quem busca entretenimento original e bem elaborado, mas nada disso garantiu que fosse um sucesso de bilheteria no verão americano (no Brasil sua estreia foi adiada inúmeras vezes e a bilheteria foi modesta - mas a arrecadação mundial foi quatro vezes maior que seu custo). No entanto, o filme merece ser conferido nem que seja pelo seu final enigmático. 

Contra o Tempo (Source Code/EUA-França-2010) de Duncan Jones com Jake Gyllenhaal, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Michelle Monaghan e Michael Arden. ☻☻☻

sábado, 21 de agosto de 2010

DVD: Lunar

Rockwell: esnobado no Oscar desse ano.

Ano passado foi um ano muito bom para a ficção-científica, cada uma do seu jeito soube conquistar o público, seja aquele que gosta de produções espalhafatosas capazes de convencer sua qualidade sobre mais de dois bilhões de bilheterias (Avatar), filmes com idéias engenhosas (Distrito 9), reciclagens descaradas que ficam felizes de arrecadar alguns trocados (Pandorum e Substitutos) e uma destinada a ser cult por seu estilo intimista. Neste último caso se encaixa Lunar, o filme de estréia de Duncan Jones, o filho de David Bowie (foto, esq.), que mostra saber digerir muito bem as referências musicais de seu pai (mesmo sem estar na trilha eu consigo ouvir Space Odissey ao fundo de toda trama) e as cinematográficas que vislumbrou sobre um gênero que estava desgastado. O filme é simples, mas está longe de ser uma obra qualquer. Duncan demonstra muita habilidade em dominar um fime que se passa praticamente em um cenário e utilizando, praticamente, um único ator em cena. Sam Rockwell encarna o astronaura Sam Bell, que conta os dias para terminar seus dias de solidão numa estação lunar e voltar para casa e encontrar sua esposa e filha - com as quais se comunica por mensagens interplanetárias.  Como companhia o astronauta possui Gertz (voz de Kevin Sapcey, em sua melhor atuação nos últimos dez anos), um robô que controla a nave e que zela por sua segurança e sanidade (a idéia do robô se expressar pela carinha do Smile é umas das grandes sacadas do filme e o coloca como oposto ideal ao vilão HAL, da principal referência de Jones na feitura desse filme, 2001 de Kubrick). O problema todo é quando Sam sofre um acidente ao tentar resolver problemas na torre de comunicação e as coisas começam a complicar. Lunar é o tipo de filme que não se pode contar muito senão estraga, mas pode-se dizer que Sam enfrentará um dilema sobre sua identidade e ambições, já que encontra um outro (?) homem na Lua que o faz lidar com alguns segredos e medos. A solidão é um dos personagens do filme e o roteiro amplia isso ao mostrar de forma inusitada que o protagonista não pode contar nem com ele mesmo, quanto mais descobre a verdade, mais se deteriora rumo ao inevitável. Melancólico e claustófóbico  o filme tem como alma a atuação de Rockwell, que merecia uma indicação ao Oscar. Ela até poderia ter saído se os produtores tivessem lembrado de inscrever o filme na premiação da Academia - o que rendeu uma briga feia de Jones com a Sony Classics. Lunar acabou concorrendo a alguns prêmios no BAFTA e saindo direto em DVD no Brasil, espero que o filme encontre seu público, mesmo que seja na telinha.

Duncan e Bowie: talento em família.

Lunar (Moon - EUA/Inglaterra/2009) de Duncan Jones com Sam Rockwell e Kevin Spacey. Cotação ☻☻☻☻