Mostrando postagens com marcador PL►Y. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PL►Y. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: De Volta ao Mar

Saoirse: talento em filme caótico.  

Picotado diáriw, acho que existe um consenso de que a irlandesa Saoirse Ronan é uma grande atriz. Com 32 anos de idade e 23 anos de carreira, ela já possui quatro indicações ao Oscar e todo filme que ela aparece cogitam que outra indicação acontecerá. Foi o que aconteceu com este De Volta ao Mar, em que vive uma jovem alcóolica que tenta colocar a vida novamente nos eixos. Saoirse foi muito elogiada pelo seu trabalho, mas o fato de ser um filme europeu independente e sem muito apelo junto ao público dos Estados Unidos acabou a deixando de fora das grandes premiações. O fato da diretora alemã Nora Fingscheidt optar por contar sua história embaralhando o tempo, com idas e vindas entre passado e presente, também dificulta apreciar o desenvolvimento da personagem, que hora está bem, hora está em crise, hora tem recaída... entender em que fase a personagem está guiado pela cor do seu cabelo é um exercício que cansa antes da metade da sessão. Entre a relação com a família, com o namorado, com os amigos e com a reabilitação, o roteiro ainda costura toda a narrativa com algumas curiosidades gerais que funcionam como analogias à situação da personagem durante as fases de sua vida. Embora Saoirse esteja ótima em cena e conte com "pais" do porte de Stephen Dillane e Saskia Reeves, acompanhar as duas horas de montagem aleatória transforma o filme em uma jornada árdua. É um daqueles casos em que me pergunto se o filme não seria melhor se seguisse uma narrativa linear. Baseado no livro de memórias da jornalista e escritora escocesa Amy Liptrot (será que a narrativa do livro é um fluxo de consciência e o filme tentou fazer o mesmo?) o que achei mais interessante foi a ambientação nas Ilhas Órcades localizadas na Escócia. 

De Volta ao Mar (The Outrun / Reino Unido - Alemanha / 2024) de Nora Fingscheidt com Saoirse Ronan, Paapa Essiedu, Saskia Reeves, Stephen Dillane, Nabil Elouahabi, David Garrick e Izuka Hoyle. ☻☻

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

PL►Y: Supergirl

Milly: garota esforçada. 

Flopado diáriw, Supergirl se tornou uma decepção arrecadando menos do que custou nas bilheterias. O motivo para isso? Talvez seja toda a expectativa em torno do segundo longa-metragem do DCU capitaneado pelo James Gunn. É verdade que ele ficou meio sem opção quando desejou fugir dos nomes dos heróis que ganharam filmes-solo na era Zack Snyder, mas logo depois de levar Superman para as telas investir em um longa da prima do kryptoniano parece mais do mesmo. Embora o filme seja baseado na cultuada HQ A Mulher do Amanhã de Tom King, talvez o espectador aguardasse algo mais robusto do que uma aventura trivial como segundo longa-metragem do famigerado universo. No filme, Kara Zor-El (Milly Alcock) resolve comemorar seu aniversário viajando pelo espaço até que uma órfã com sede de vingança (Eve Ridley) cruza seu caminho e propõe que a ajude a encontrar um grupo de bandidos espaciais que mataram sua família. Kara rejeita a proposta, mas quando sua nave é roubada e a vida de seu cãozinho Krypto é colocada em risco, ela resolve partir em busca dos vilões da história. O diretor Craig Gillespie é craque em lidar com personagens femininas fora da caixinha (basta ver Eu, Tonya/2017 ou Cruella/2021), mas aqui o roteiro não ajuda com a protagonista sempre bêbada, apanhando e usando o famoso uniforme só no finalzinho. A trama roda, roda, roda e não sai do lugar numa aposta arriscada de engajar o público. A bilheteria murcha deve ter soado o alarme e a venda da Warner só complica mais as coisas. Se você olhar o cronograma da DC no cinema a coisa fica ainda mais complicada: Cara de Barro estreia mês que vem e o resto são séries e animações para a TV. Animados?

Supergirl (EUA-2026) de Craig Gillespie com Milly Alcock, Eve Ridley, David Corensweat, Matthias Schoenaerts, Ferdinand Kingsley, Diarmaid Murtagh e David Krumholtz. ☻☻☻ 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

PL►Y: Vida Privada

Jodie: a ética na esquina. 

Admirado diáriw, Jodie Foster é uma das minhas atrizes favoritas desde sempre. Sou fã dela desde que a vi em O Silêncio dos Inocentes (1991) e ela se tornou uma daquelas atrizes em que basta o nome estar em alguma produção para atiçar meu interesse. Infelizmente ela filma pouco ultimamente, o que deixa uma curiosidade a mais para assistir este Vida Privada que está em cartaz na HBOMAX. Ela interpreta Lilian Steiner, uma renomada psiquiatra que tenta lidar com o suicídio de uma de suas pacientes, Paula (Virginie Efira). Considerando que conhecia bem a paciente, ela não acredita que tenha tirado a própria vida, suspeitando que trata-se de um caso de assassinato. Ajuda muito a aumentar as suspeitas de Lilian a hostilidade com que é tratada pelo marido da paciente, Simon (Mathieu Almaric) e o comportamento suspeito da enteada da falecida, Valérie (Luàna Bajrani). A narrativa se dedica à mostrar a psiquiatra descobrindo fatos e costurando pistas conforme sua suspeita instiga e, embora o roteiro não ofereça nada demais ao espectador, torna-se interessante pela forma como expõe nossa capacidade de criar as próprias verdades, moldando o que se encaixa em nosso ponto de vista e desconsiderando todo o resto que indique uma direção contrária. A diretora Rebecca Zlotowski consegue construir uma atmosfera envolvente de mistério e conta com um elenco impressionante que ainda conta com Daniel Auteuil como o ex-marido de Lilian e Vincent Lacoste como o filho cheio de ressentimentos. Entre suspeitas e desventuras, o filme de vez em quanto encontra até espaço para algum humor ancorado em um trabalho que soa como a antítese da personagem que Jodie Foster interpretou na última temporada de True Detective. Não chega a ser um filme memorável, mas é até instigante. 

Vida Privada (Vie Privée / França - 2025) de Rebecca Zlotowski com Jodie Foster, Mathieu Almaric, Virginie Efira, Luana Bajràni, Daniel Auteuil e Vincent Lacoste. ☻☻☻

domingo, 30 de agosto de 2026

PL►Y: O Convite

Seth e Olivia: casal anfitrião em crise. 

Entusiasmado diáriw, fico muito feliz de ver Olivia Wilde reencontrando seu caminho como diretora após a bagunça de Não se Preocupe, Querida (2022). A diretora brigou para que seu terceiro filme fosse lançado nos cinemas e chegou a recusar uma proposta robusta da Netflix que o lançaria direto no streaming. O resultado é um sucesso de bilheteria abraçado pelo público adulto que estava carente de um comédia madura ancorada em diálogos e atuações inspiradas. Baseado no filme espanhol Sentimental (2020) de Cesc Gay, o roteiro de Rashida Jones e Will McCormack  onsegue dar aos personagens novas nuances que torna tudo mais interessante. O filme conta a história do jantar promovido por Angela (Olivia Wilde) para os seus vizinhos, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) - mesmo que seu esposo, Joe (Seth Rogen) seja contra. A situação anda tensa entre o casal anfitrião, Joe é frustrado com sua carreira na música e Angela nunca conseguiu se dedicar à sua profissão, ficando presa às neuras de afazeres cotidianos. Já os convidados são descolados e tem uma vida sexual audível que mostra-se ainda mais movimentada do que os seus vizinhos suspeitavam. Entre diálogos afiados sobre a vida dos casais e alguns constrangimentos surge um convite inesperado para o casal em crise sair da rotina. Olivia Wilde faz um ótimo trabalho na direção, os atores apresentam uma ótima sintonia e a narrativa do filme flui de forma surpreendente levando em consideração a ambientação em uma única locação. Utilizando a estrutura do apartamento para emoldurar seus personagens, O Convite tem um pouco do cinema de Woody Allen quando ele dizia "vamos parar de rir e falar sério" e, não por acaso, o filme é dedicado à Diane Keaton (musa master do cineasta cancelado). Eu amei a última cena que deixa o final em aberto. 

O Convite (The Invite / 2026) de Olivia Wilde com Olivia Wilde, Seth Rogen Penelope Cruz e Edward Norton. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Michael

Jafaar: honrando o legado do tio. 

Sonoro diáriw, a cinebiografia de Michael Jackson rende mais de um bilhão de bilheteria. Enquanto estava em cartaz era comum ver as reclamações com uma plateia disposta a render-se à empolgação e cantar junto, levantar e dançar na frente da tela. O repertório do Rei do Pop justificaria a postura de quem esqueceu os bons modos em casa e achou que iria para um show? Fato é que a trilha sonora de Michael é realmente empolgante e quem vivenciou aquele tempo em que ele dominava as rádios e a MTV (antes de se tornar um sujeito estranho) viverá uma compreensível nostalgia. Tirando a música do filme não sobra muita coisa no longa assinado por Antoine Fuqua. O roteiro de John Logan é capenga e se limita a costurar com algumas situações da vida do cantor os momentos dedicados aos seus maiores sucessos, no entanto vemos pouco do processo criativo do artista e nada de sua complexidade artística ou enquanto sujeito. De resto temos Jaafar Jackson (sobrinho do Michael) convincente como o cantor enquanto está cantando, dançando e consegue representar os gestos, olhares sorrisos e voz do tio, mas como ator o material que tem em mãos é pouco para trabalhar, já que os conflitos do protagonista estão mais vinculados à sua figura paterna opressora (vivido por Colman Domingo fazendo mais do que o roteiro lhe oferece) do que as suas ambições. Desta forma o final não poderia ser muito diferente do que ele anunciando sua saída do crivo do pai, mas é como cinema é pouco. A produção é bem cuidada, as luzes, a montagem, o som... mas o texto é fraquíssimo. O Rei do Pop merecia mais. Não por acaso a mana Janet Jackson pediu para nem ser mencionada na produção. Terminando na era Bad (1987), o filme terá uma sequência que acompanhará os anos mais complicados da carreira de Jackson. Imagino como será...  

Michael (EUA-2026) de Atoine Fuqua com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Laura Harrier, Jessica Sula e KeiLyn Durrell Jones. ☻☻

sábado, 29 de agosto de 2026

PL►Y: 9 ¹/² Semanas de Amor

Kim e Mickey: relacionamento tóxico. 
Amoroso diáriw, este filme faz parte daquela lista de "filmes muito falados que eu nunca assisti". Nunca tive muita vontade de assistir, acho que por pré-conceito mesmo já que sempre imaginei que era sobre uma casal apaixonado até que o amor acabava antes da décima semana. Confesso que fiquei surpreso em perceber como o filme tem mais nuances do que a pecha de romance erótico que atribuíram a ele. As cenas de sexo são  discretas e não deve deixar espectadores impressionados, mesmo contando com os corpos jovens de Kim Basinger e Mickey Rourke. Ele vive um executivo charmoso e um tanto misterioso, ela vive uma mulher que ainda tenta lidar com as feridas de um divórcio. Os dois começam um tórrido relacionamento amoroso, mas logo nas primeiras cenas você percebe que o rapaz é meio cretino e curte promover umas situações humilhantes com sua amada. Chamar de amada é um tanto demais, já que eu não enxerguei muito amor no filme. Percebi desejo, tesão, fantasias e fetiches, mas amor... a coisa fica ainda mais complicada quando percebemos a vulnerabilidade de Elizabeth em um relacionamento que mexe em algumas feridas de  sua auto-estima. Dizem que o diretor Adryan Lyne (que se tornou expert em dramas sexuais já no ano seguinte com Atração Fatal/1987 e depois vieram Proposta Indecente/1993, Lolita/1997 e Infidelidade/2002) tinha várias horas de filme que foram cortadas e que davam um sentido muito mais complexo (e ordenado) para o relacionamento entre os personagens. No fim das contas achei um filme ousado para época (foi fiasco nos EUA e sucesso na Europa) e serviu para dar status de estrela para o casa principal. Décadas depois cada um receberia uma indicação ao Oscar, mas neste filme Kim tem cenas de partir o coração (e nunca tinha imaginado como ela parecia com a Liv Ullman!). 

9 ¹/² Semanas de Amor (9¹/² Weeks / EUA - 1986) de Adrian Lyne com Kim Basinger, Mickey Rourke, Margareth Whitton, Sarah Kernochan, Christine Baranski e David Marguiles. ☻☻

sábado, 15 de agosto de 2026

PL►Y: Song Sung Blue

Kate e Hugh: irresistíveis no palco. 

Surpreso diáriw, havia uma dúvida sobre quem ficaria com a quinta vaga na disputa pelo Oscar de melhor atriz e houve uma surpresa geral quando Kate Hudson cravou sua indicação ao prêmio (mesmo sendo indicada antes ao Globo de Ouro, BAFTA e prêmio do Sindicato). Vendo o filme é fácil entender o motivo da atenção recebida. Ela está bastante carismática em uma personagem mãe solo, que tem voz, presença de palco e vive uma mudança brusca na vida devido a um acidente. Embora não tivesse chances de levar a estatueta, não considero um equívoco diante de tantas presepadas já indicadas por conta de campanhas milionárias. O filme é ambientado num mundo bastante particular dos anos 1980, com atmosfera kitsch (leia-se cafona) e músicas antigas. Ela vive Claire que conhece Mike (Hugh Jackman) nos bastidores de shows de covers de artistas famosos. Os dois se juntam para fazer shows com canções de Neil Diamond e se tornam famosos enquanto vivem um romance que gera até um casamento. Baseado na história real de Lightining e Thunder, dupla que ficou famosa em Milwauke e chegaram a abrir shows para o Pearl Jam, o filme se beneficia muito do talento de Kate e Jackman (que ama fazer musicais) que apresentam uma química irresistível e prende nossa atenção até quando o filme vira um melodrama daqueles! Se a primeira parte é uma celebração à música, a segunda investe pesado nas dificuldades do casal e tende a se tornar um filme de superação. Com base no documentário de mesmo nome, o filme altera algumas situações em nome da dramaticidade, mas se torna uma produção a que se assiste com facilidade, do tipo que dificilmente cai nas graças dos atuais votantes do Oscar. Eu gostei justamente por ser despretensioso e de puro entretenimento. 

Song Sung Blue (EUA -2025) de CRaig Brewer com Hugh Jackman, Kate Hudson, Ella Anderson, Hudson Hensley, King Princess, Michael Imperioli, Jim Belushi, Fisher Stevens e Kena Anae. ☻☻☻

PL►Y: Engolidos

Koch: terror queer. 

Platônico diáriw, fiquei surpreso com o que o diretor Carter Smith faz neste filme. Ainda que o último ato seja bastante problemático, Engolidos é um terror que tem orgulho de ser queer - e eu nem imaginava isso diante das pistas presentes no cartaz e no título. O filme conta a história de dois amigos que estão em uma noite de despedida. Benjamin (Cooper Koch) está prestes a ir para Los Angeles para se tornar um astro pornô e o amigo Dom (Jose Colom) está disposto a ajudá-lo a ter algum dinheiro para se estabelecer por lá. Os dois resolvem traficar drogas para o Canadá em uma única noite, só não imaginavam que teriam que engolir uns pacotes com uma substância misteriosa. Como o mundo é cruel, uma briga ocorre por conta de preconceito e um soco no estômago de Dom faz com que se deem conta de que a tal substância é mais perigosa do que imaginavam. Tendo que resolver a situação, Ben só pode contar com a ajuda de quem os colocou naquela situação, a traficante Alice (Jena Malone) e a coisa só piora quando o chefe dela (Mark Patton) entra em cena. O que prendeu minha atenção no filme foi a relação entre Ben e Dom, dois amigos que diversas cenas sugerem que poderia haver algo mais, caso o roteiro seguisse caminhos mais convencionais, mas como é um terro que flerta com o body horror a relação entre os dois envereda por um caminho totalmente diferente com direito a cenas bastante incômodas. O laço entre os dois ajuda a relevar as guinadas bruscas da história e os horrores que precisam passar, mas o terceiro ato se torna longo e arrastado demais para manter o interesse. Enquanto terror queer, eu não tinha visto nada parecido com o que acontece em Engolidos, com nudez masculina, ereções e... melhor nem escrever, o filme faz horror com o que para muitos seria puro fetiche.  

Engolidos (Swallowed / EUA-2022) de Carter Smith com Cooper Koch, Jena Malone, Mark Patton, Jose Colom e Roe Pacheco. ☻☻

PL►Y: Erupcja

Charli: estreia no cinema. 

Vulcânico diáriw, existe um bocado de esperteza da cantora inglesa Charli XCX estrear no cinema como Bethany neste filme de Pete Ohs, mas também existe um tantinho de coragem por não viver uma personagem fácil. Ela vive uma turista britânica que passeia por Varsóvia na Polônia com o namorado, Rob (Will Madden). Enquanto ele está todo animado em preparar momentos românticos para pedi-la em casamento, ela está mais interessada em encontrar Nel (Lena Góra), uma jovem florista. O título vem da estranha coincidência de que sempre que as duas se encontram (fato que ocorre esporadicamente desde que Bethany tinha 16 anos), um vulcão entra em erupção. As duas consideram que isso seja algo especial e resolvem aproveitar o tempo em que estão juntas para deixar os compromissos de lado. Rob não entende muito bem o que está acontecendo, mas sente na pele a instabilidade e um tanto de irresponsabilidade emocional da namorada, assim como o interesse amoroso de Nel que já passou por isso. Vale dizer que desde o início sabemos que Nel está interessada em Ula (Agata Trzebuchowska), mas não sabe muito bem o que fazer com isso. Erupcja se desenvolve com o auxílio de um narrador e surpreende ao deixar de lado qualquer envolvimento sexual entre as duas amigas, embarcando numa fantasia que as duas criaram para si (e que um certo personagem desconstrói), mas que ao mesmo tempo pode esconder um desejo nunca plenamente assumido. Erupcja foi exibido no Festival de Toronto e dividiu opiniões pela forma como a trama se desenvolve sem muita pretensão ou novidades perante as possibilidades que possui. Sobre a performance de Charli, ela é discreta, mas consegue preencher sua personagem com uma vida interior que permanece um enigma até o fim da sessão. 

Erupcja (EUA-Polônia) de Pete Ohs com Charli XCX, Lena Góra, Will Madden, Jeremy O. HArris, Agata Trzebuchowska, Maja Michnacka e Jacek Zubiel. ☻☻☻

domingo, 9 de agosto de 2026

PL►Y: Undertone

Nina: maldição caótica. 

Aterrorizado diáriw, a julgar pelos filmes de terror que recebem atenção atualmente, posso dizer que os slasher movies e seus serial killers mascarados estão em baixa. A ideia agora é investir pesado no terror psicológico, no poder da sugestão, nos silêncios e brincar com medos mais íntimos da plateia. Nessa esteira que Undertone chegou aos cinemas. A trama se concentra em Evy (Nina Kiry), uma jovem cética que produz um podcast junto com o amigo Justin (Adam DiMarco) voltado para histórias assustadoras. Recentemente ela precisou se mudar para cuidar da mãe doente, este e outros aspectos da vida pessoal de Evy irão influenciar bastante a forma como ela lida com o trabalho quando recebe um conjunto de dez gravações de áudio de um casal desconhecido. Durante cada áudio escutado cresce a sensação de que algo estranho aconteceu com o casal que estava prestes a ter o primeiro filho. Evy sempre tenta explicar o que está acontecendo pela luz da lógica, mas aos poucos ela começa a perceber que em sua própria residência situações estranhas começam a acontecer. Undertone faz com que o espectador se identifique com a personagem por compartilhar com ela a audição dos áudios angustiantes, mas o filme escorrega quando na última meia hora precisa dar conta de concluir o que está acontecendo e tudo vira uma grande bagunça. Um misto de alucinação, culpas, maldições, entidades e crendices religiosas que são costuradas meio de qualquer jeito até que os créditos apareçam. Era uma ideia original com desenvolvimento irregular até virar um caos completo.  No entanto, não deixa de ser uma estreia promissora do canadense Ian Tuason. 

Undertone (Canadá-2025) de Ian Tuason com Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Jeff Yung, Ryan Turner, Keana Kyn Bastidas. ☻☻

PL►Y: Fremont

Zada: coração desamparado. 
 Isolado diáriw, Fremont é o tipo de filme que gosto muito de assistir, mas que é difícil de encontrar e de realizar. Tem um senso de humor sutil, um drama que é contado nas entrelinhas e se desenvolve com bastante fluidez entre silêncios e situações. O filme conta a história de Donya (Anaita Wali Zada), uma afegã que vive na cidade californiana do título em um prédio com outros afegãos, alguns não falam com ela devido ao período em que trabalhou como tradutora para os EUA no Afeganistão (cerca de 17.000 vistos americanos foram emitidos para tradutores afegãos, além de cerca de 10.000 para parentes, muitos deles ainda perigosamente abandonados após a retirada das tropas). Talvez por conta deste clima tenso, ela prefira ir todo dia trabalhar em São Francisco em uma fábrica de biscoitos da sorte (e justifica que achou que seria bom ver chineses de vez em quando). Donya tem problemas para dormir e procura um psiquiatra para ajudar, talvez ela nem tenha ideia da necessidade que sinta de construir vínculos em um lugar distante de sua terra natal. Anaita Wali Zada constrói uma personagem contida e um tanto enigmática, mas podemos sua alma num misto de força e desamparo. Durante o filme a percebemos cercada de personagens interessantes, uma colega de trabalho, o patrão chinês, o psiquiatra (Gregg Turkington é um achado) e até um mecânico (um fofo Jeremy Allen White) que acende uma pequena chama em seu coração solitário. Há quem veja traços do cinema de Jim Jarmusch neste filme de Babak Jalali, mas eu notei um tanto de Wes Anderson dos bons tempos. É um filme simples, simpático e bastante agradável de assistir. 

Fremont (EUA-2023) de Babak Jalali com Anaita Wali Zada, Gregg Turkington, Hilda Schmelling, Siddique Ahmed. ☻☻☻☻

sábado, 8 de agosto de 2026

PL►Y: Jane Austen Arruinou Minha Vida

Charlie e Camille: roteiro sem graça. 

Romântico diáriw, comédias românticas estão longe de ser meu gênero favorito. Porém, de vez em quando, até curto assistir algum longa metragem que prometa alguma coisa de diferente no gênero. Foi por conta disso que assisti Jane Austen Arruinou Minha Vida de Laura Piani, longa que recebeu alguma atenção no ano passado e rendeu para a atriz Camille Rutherford ao César de atriz revelação. Ela vive Agathe, uma dona de livraria que é fã da autora de Orgulho e Preconceito, mas que a vida amorosa anda estagnada. Traumatizada por um acidente, ela vive com a irmã e o sobrinho, além de ter como homem mais próximo o melhor amigo Félix (Pablo Pauly). Agathe também pretende escrever um livro, mas sempre considera que não tem tempo suficiente para isso. Eis que Félix a inscreve em uma espécie de retiro na propriedade que foi de Jane Austen na Inglaterra. Ela fica relutante em ir e os sentimentos pelo amigo ficam um tanto confusos. A coisa complica ainda mais quando ela conhece um tatatataraneto de Austen, Oliver (Charlie Anson), que é professor de literatura, desiludido do amor e imita trejeitos de Hugh Grant. Não é difícil perceber que Oliver assume aqui o papel de Mark Darcy e Agathe se vira como pode como uma heroína romântica contemporânea. O problema é que o filme faz pouca alusão à obra de Austen, os momentos que eram para ser engraçados não são tão engraçados assim e tudo soa bem menos esperto do que poderia ser devido às convenções do roteiro. Serve para passar o tempo e curtir o charme de Charlie Anson que parece mesmo um galã saído dos filmes baseados na obra da escritora. Confesso que não entendi o burburinho que houve em torno do filme, me pareceu bastante convencional e o final apressado serve só para expressar que não havia muito a dizer.

Jane Austen Arruinou Minha Vida ( Jane Austen a gâché ma vie / França - 2024) de Laura Piani com Camille Rutherford, Pablo Pauly, Charlie Anson, Annabelle Lengronne, Liz Crowther, Alan Fairban e Alice Butaud. ☻☻ 

PL►Y: We're All Going to the World's Fair

Anna: a vida online é ou não é real?

Arrepiado diáriw, antes de impressionar com Eu Vi o Brilho da TV (2024) a diretora Jane Schoenbrun realizou (ao lado de Valeria Santiago) este We're All Going to the World's Fair e deixou claro que tinha algo a dizer que não fosse convencional. O território de Jane é o thriller psicológico, temperado com dramas existenciais adolescentes que se alimentam uma atmosfera da horror. Aqui o roteiro se utiliza de um desafio online em que o cotidiano é transformado em registros que precisam avançar para situações de terror. A protagonista, Casey (a ótima Anna Cobb) é iniciante na brincadeira e não sabe muito bem como seus registros irão avançar. Sozinha no sótão registando vídeos e assistindo de outros participantes, Casey começa a construir sua trajetória online de forma que quem assiste não sabe se ela está sendo sincera ou se está criando uma ficção diante da câmera. A situação fica tensa quando um jogador veterano chamado JLB (Michael J. Rogers) começa a interagir com ela. O filme nunca deixa claro quais são os interesses de JLB em Casey e também não esclarece se os relatos dela são realmente angústias que ela atravessa cotidianamente. São nas ambiguidades do que é real e o que é encenação online  que o filme avança de forma instigante em um formato pouco convencional. A tensão cresce lentamente no estranhamento que o filme provoca, especialmente por usar o verniz do terror para falar de um tempo em que postagens online são constantes e embaçam a percepção de quem assiste. Esta ideia é o que torna o desfecho (apenas o relato de um personagem) ainda mais estranho.  Cheio de lacunas a serem preenchidas pelo espectador, o filme revela-se uma reflexão instigante sobre o mundo online e a solidão que camufla. Em cartaz na MUBI o filme é um ótimo aquecimento para Acampamento Miasma, novo filme da diretora que foi premiado em no Festival de Cannes deste ano. 

We're All Going to the World's Fair (EUA / 2021) de Jane Schoenbrun e Valeria Santiago com Anna Cobb, Michael J. Rogers, Turner Greaves, Theo Anthony, Marc Santiago e Holly Anne Frink. ☻☻☻

PL►Y: Toque Familiar

Kathleen: veterana premiada. 
Querido diáriw, naquele época de listas de melhores do ano, houve uma menção que fiquei realmente curioso. Dentre todas as atrizes que estavam disputando vagas em Oscar e tudo mais, uma pessoa (realmente não lembro quem foi) elegeu Kathleen Chalfant como a melhor performance feminina de 2024. A atriz veterana de 81 anos, estreou nos cinemas na década de 1980 e coleciona vários trabalhos para a telona e para a TV  - particularmente lembro dela como a avó da série The Affair (2014-2019). Embora tenha muito tempo de carreira, ela foi indicada a prêmios pela primeira vez em sua carreira por este Toque Familiar, pelo qual foi indicada ao Independent Spirit de melhor atuação e foi premiada no Festival de Veneza. No filme, a atriz interpreta Ruth, uma mulher que devido a problemas de memória passa a viver em uma casa de repouso para receber cuidados especiais. Kathleen consegue expressar com brilhantismo a confusão mental da personagem, construindo reações que se alternam de um minuto para o outro enquanto não consegue reconhecer que realmente possui um problema. A diretora e roteirista Sarah Friedland se concentra na relação de Ruth com quem está por perto (seja o filho ou os cuidadores), mas principalmente na relação com os fragmentos de memória que ainda lhe resta. O resultado não possui exatamente uma estrutura de começo meio e fim, mas uma espécie de costura de acontecimentos e situações que revelam um pouco mais sobre quem foi aquela mulher e sua relação com o mundo. É um filme com momentos emocionantes ancorados na atuação precisa de uma atriz que nunca recebeu a devida atenção. O trabalho de Kathleen Chalfant compensa a narrativa pouco inventiva, especialmente para quem viu a imersão sensorial proposta por Florian Zeller em Meu Pai (2020) que subverteu tudo que vimos nesse tipo de filme. 

Toque Familiar (Familiar Touch / EUA - 2024) de Sarah Friedland com Kathleen Chalfant, Carolyn Michelle, Andy McQueen, H. Jon Benjamin e Rafael Hernandez. ☻☻☻
 

domingo, 2 de agosto de 2026

PL►Y: Mesa Maldita

Pareja: o horror do luto. 

Enlutado diáriw, dia desses vi este filme espanhol em uma lista de filmes angustiantes ao lado de Speak No Evil (2022), Faça Ela Voltar (2025) e outros filmes que já assisti. Fiquei curioso e fui procurar mais sobre este filme e fiquei surpreso ao descobrir que recebeu mais de vinte prêmios internacionais e, devido ao sucesso, rendeu até uma versão turca que foi lançada no ano passado. A trama conta a história de um casal que acaba de ter o primeiro filho. Depois de muitos anos de tratamento para conseguir um herdeiro, o clima entre Maria (Estefanía de los Santos) e Jesús (David Pareja) anda tenso. A cena de abertura em que os dois discutem sobre a compra de uma mesa de centro retrata bem como as alfinetadas entre um e outro se tornaram constantes. Ele quer comprar uma mesinha com tampa de vidro que dizem ter design sueco, ela acha a mesa horrorosa (e é mesmo). Contrariando a vontade de esposa, ele compra o móvel, mas ocorre um imprevisto na montagem e um acidente ocorre logo depois envolvendo o marido. Sem coragem de contar o que aconteceu, ele tenta esconder os fatos da esposa enquanto tenta lidar com seu próprio trauma. A parte em que o filme lida com a tensão entre marido e esposa funciona com perfeição, mesmo as atitudes um tanto desencontradas do marido fazem sentido diante o choque que vivenciou. A coisa perde um pouco o tom no jantar com as visitas que resolvem aparecer, junto com a vizinha de 13 anos que insiste em dizer que está apaixonada pelo marido de Maria. Nessa parte todo drama e tensão se dissolve no exagero, o que compromete um pouco o ótimo trabalho do diretor Caye Casas até então. Contado com atmosfera de filme de terror, o filme funciona mesmo como um drama pesado sobre um casal em crise.  

Mesa Maldita (La mesita del comedor / Espanha - 2022) de Caye Casas com David Pareja, Estefanía de los Santos, Josep Maria Riera, Claudia Riera, Eduardo Antuña, Gala Flores e Cristina Dilla. ☻☻☻

PL►Y: Blue Moon

Hawke: texto afiado. 

Prezado diáriw, nos anos 1990 Ethan Hawke sofreu um bocado para provar que não era apenas um rostinho bonito. Vendo as várias produções que estrela atualmente, percebo que ele soube aproveitar muito bem a passagem do tempo em sua aparência. Trabalhando mais do que nunca, o ator conquistou sua quinta indicação ao Oscar, a terceira por um trabalho como ator e a primeira como ator principal. Ele vive o letrista Lorenz Hart (1895-1943) que ficou famoso por sua parceria com Richard Rodgers (e pela canção que aparece no título). O filme é ambientado em uma noite na vida de Hartz, 31 de março de 1943, a noite de estreia do musical Oklahoma!, escrito por Rodgers (vivido aqui por Andrew Scott) em parceria com Oscar Hammerstein II (Simon Delaney) que se tornou um enorme sucesso. O diretor Richard Linklater utiliza esta noite para que Hartz coloque sua vida em perspectiva, especialmente por conta de ter sido deixado de lado pelo parceiro por conta de seus problemas com o álcool. Hawke constrói o personagem de forma impressionante, com alteração na voz, na postura, no olhar e demonstra claramente a imagem de alguém que percebe que perdeu as rédeas da própria vida. Com melancolia, amargura e um senso de humor ácido, Hawke carrega o filme nas costas. Linklater por sua vez faz um bom trabalho no uso de planos e cortes para contornar o risco da sensação de um teatro filmado. O roteiro é baseado nas cartas trocadas entre Hartz e Elizabeth Weiland (vivida por Margaret Qualley), mas ironicamente, o longo diálogo entre os dois é a parte em que o filme mais perde o ritmo. A estética do filme é perfeita para a reproduzir a época em que se passa a trama e se torna um trunfo desta produção que também concorreu ao Oscar de roteiro original. 

Blue Moon - Música e Solidão (Blue Moon / EUA  2025) de Richard Linklater com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley, Jonah Lees, John Duran e Patrick Kennedy. ☻☻☻  

quinta-feira, 30 de julho de 2026

PL►Y: Pillion

Ray e Col: amor além de fetiche? 

Submisso diáriw, este filme até tentou encontrar espaço nos cinemas, mas não conseguiu. Obviamente que a dificuldade vai além do fato de girar em torno de um relacionamento gay, mas também por ter algumas cenas explícitas que nem o verniz cômico impresso pelo diretor estreante Harry Lighton amenizou o receio dos distribuidores. O filme conta a história de Colin (Harry Melling), um rapaz gay e tímido que tenta encontrar um namorado. Um dia ele conhece Ray (Alexander Skarsgård), um motoqueiro que o convida para um encontro e Colin nem sabe definir exatamente o que aconteceu entre eles. Considerando que não agradou, imagina nunca mair encontrar o motoqueiro, mas os encontros pasam a ser constantes, porém, a relação entre os dois é bem diferente do que Colin idealizou. Ray faz questão de deixar seu parceiro sempre em posição de submissão, o tratando como um verdadeiro servo. De início Colin se incomoda, mas aos poucos parece se acostumar e aceitar o tipo de relação que se instaura entre os dois. Carência? Baixa auto-estima? Só um fetiche? Fica a cargo do espectador pensar nisso. O fato é que aos poucos começam a aparecer fissuras neste relacionamento, que incomodam ambos os lados. Lighton faz um filme com uma dinâmica interessante entre os protagonistas, beneficiando-se muito das performances de Melling e Alexander, que deixam o subtexto sempre impresso nos olhares e posturas dos personagens. Imprimindo uma atmosfera queer, o filme não é para todos os gostos, mas quem se interessa por filmes de relacionamentos com um "tempero" diferente, vai considerar uma obra interessante. Com momentos incômodos, entre outros bem humorados e até de partir o coração, a narrativa é fluente até chegar a um desfecho que revela um padrão que talvez seja difícil de compreender. 

Pillion (Irlanda - Reino Unido / 2025) de Harry Lighton com Harry Melling, Alexander Skarsgård, Douglas Hodge, Lesley Sharp, Jake Shears, Matt Hill e Anthony Welsh. ☻☻☻☻