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sexta-feira, 24 de maio de 2024

PL►Y: Berberian Sound Studio

Toby: trabalho assustador.

Nos anos 1960, o inglês engenheiro de som Gilderoy (Toby Jones) chega à Itália para trabalhar na sonoridade de um filme local. Ele é pego de surpresa quando descobre que se trata de um filme de terror, um dos chamados gialli (tramas policialescas sangrentas) que fizeram muito sucesso. Acostumado a trabalhar em documentários, o profissional fica em choque. O fato dele possuir uma personalidade introspectiva também complica o andamento do seu trabalho, especialmente com a tensão imposta pelo produtor (Antonio Mancino) que sempre adia o reembolso da passagem e o próprio pagamento pelo serviço. A coisa realmente não é como o moço esperava e piora ainda mais quando percebe as relações que pairam sobre o diretor e as atrizes responsáveis por dar vida (e gritos) às personagens do filme The Equestrian Vortex, sobre crimes, bruxarias e afins. O diretor britânico Peter Strickland constrói aqui uma verdadeira ode à importância do som na construção de uma narrativa, especialmente de horror, afinal, mesmo que não vejamos o filme em que Gilderoy trabalha, os barulhos envolvidos em sua feitura são arrepiantes. Tanto os gritos, quanto o som das melancias despedaçadas, repolhos esfaqueados e outros legumes torturados fazem a mente do espectador viajar perante as imagens que aquele personagem precisa conviver ao longo de várias semanas. O problema é que a própria história de vida de Gilderoy começa a aumentar ainda mais o seu incômodo perante tudo aquilo. Problemas com o pagamento, conflitos com a equipe, cartas da mãe, a solidão de estar em um território diferente e hostil, tudo colabora para que o cotidiano do profissional se torne um filme de terror (e não por acaso, por vezes, algumas situações vividas por ele se confundem com o que é visto no filme). Toby Jones prova mais uma vez que é um grande ator e carrega o filme nas costas ao expressar todo o incômodo do personagem até que se anestesie por completo na rotina estafante de seu serviço e embora o filme pareça perder o fio da meada lá pela metade, a forma hipnótica como apresenta o trabalho do engenheiro de som envolve o espectador com uma imersão sensorial incomum, esta qualidade faz com que o filme seja uma obra difícil de se abandonar pela metade. Estranho e fora da caixinha (como a maioria das obras de Strickland), se houver uma lista de filmes mais assustadores que não são de terror, Berberian Sound Studio merece um lugar de honra.
 
Berberian Sound Studio (Reino Unido / Alemanha - 2012) de Peter Strickland com Toby Jones, Antonio Mancino, Guido Ardoni, Susanna Cappellaro, Cosimo Fusco, Fatma Mohamed, Eugenia Caruso e Salvatore Li Causi.

domingo, 10 de setembro de 2023

PL►Y: Paradise: Faith

 
Hofstätter: devoção em conflito. 

No início do primeiro filme da trilogia Paradise, somos apresentados à Teresa (Margarete Tiesel) que antes de ir curtir as praias (e os habitantes) do Quênia, ela deixa a filha adolescente na casa de uma irmã. No segundo filme, Paradise: Faith ( ou Paraíso: Fé), somos melhor apresentados a esta irmã que é uma religiosa fervorosa. Anna Maria (Maria Hosftätter). trabalha em uma clínica e está prestes a entrar de férias, no entanto, muito se engana quem imagina que ela fará como a amiga e partirá para uma viagem. Ela irá ficar em casa e se dedicar ainda mais à pregação de sua fé. Além de visitar outros moradores das redondezas com a imagem  de uma santa que precisa de abrigo, seus encontros por vezes geram discussões acaloradas com as pessoas que encontra. Seja um casal que é formado após o divórcio de um deles (afinal, aos olhos de Deus não existe divórcio, o que acabou gerando uma violação grave ao sexto mandamento por parte do casal), seja uma mulher que tem problemas com bebida ou um homem desorganizado que ainda não superou a morte da mãe. Ela também passa o tempo em encontros religiosos e tentando se preservar de um mundo que vive em pecado (embora a cena em que ela presencia uma orgia no parque seja um misto de sensações que nem ela esperava). Se o mundo lá fora é uma grande danação, a coisa em casa se complica quando o esposo volta a morar com ela após dois anos. Usando uma cadeira de rodas, Nabil (Nabil Saleh) evidencia uma dependência que poderia ser um verdadeiro teste para uma mulher tão devotada aos mandamentos de Deus. O problema é quando ele deseja que a vida de marido e esposa seja retomada em toda plenitude e Anna não está afim. Começa então um verdadeiro inferno dentro de casa, cuja tensão cresce entre violência verbal, física e psicológica. Dos insultos às lutas desengonçadas, a convivência entre os dois se torna cada vez mais insustentável. Diante dessa aprovação, Anna tenta manter a fé intacta, seja através de orações, encontros religiosos ou as cenas em que se autoflagela diante do crucifixo. Esse ideal de vida perfeita em um paraíso parece cada vez mais distante da personagem que, rumo ao desfecho não consegue mais disfarçar sua insatisfação no que parecia ser uma barganha com o que aceita enquanto divindade. Assim como Love, Paradise: Faith mistura a narrativa lenta com um humor ácido que brota justamente dos elementos dramáticos da narrativa. As repetições, as discussões, os exageros por vezes dão lugar a cenas polêmicas como aquele em que a protagonista se rende à atração que um crucifixo lhe provoca. A produção mantem o estilo provocador do primeiro filme, ainda que seja menos envolvente, seu olhar sobre a forma como a personagem percebe a fé e sua relação com o mundo pode levantar questões bastante interessantes.

Paradise: Faith (Paradies: Glaube / Áustria - Alemanha - França /2012) de Ulrich Seidl com Maria Hofstätter, Nabil Saleh, René Rupnik e Trude Masur. ☻☻☻

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

PL►Y: Paradise: Love

 
Terese e seu desejo: o paraíso visto nos outros. 

Está em cartaz na MUBI a trilogia Paradise do diretor  Ulrich Seidl, elogiada em festivais a obra lança um olhar no mínimo curioso sobre o que o senso comum pode imaginar que possa ser o paraíso. Com pontos de partidas simples, roteiros radicais e tempero ácido, Seidl nos brinda com obras que são provocações bastante instigantes. Eu pensei em assistir os três longas e escrever tudo em uma tacada só, mas acho que postar sobre separadamente daria mais destaque para o que as obras apresentam. O primeiro capítulo da trilogia é Paradise: Love (ou Paraíso: Amor) que é ambientado num litoral idílico, com muito sol, mar e praia, um verdadeiro paraíso (valorizado ainda mais pela fotografia) para aqueles que procuram uma realidade ensolarada após meses no gélido hemisfério norte. É neste ambiente que a austríaca Teresa (Margarete Tiesel) foi passar as férias distante de sua filha adolescente. O filme não perde tempo explicando como anda a vida amorosa de sua protagonista, mas aquela senhora que ganhou peso no decorrer dos anos e não demonstra medo em assumir que tem uns cinquenta anos, parte para novas praias disposta a encontrar o que falta em sua vida trivial. Acontece que o local escolhido para passar as férias é no Quênia, onde fora do resort voltado para turistas com dinheiro disponível para se divertir, existe uma realidade social bem vulnerável. Seidl não hesita em exibir os contrastes, dos turistas caucasianos torrando no sol, aos habitantes da região que os observa com a intenção de ganhar algum dinheiro extra, seja vendendo colares, souvenirs ou até o próprio corpo, existe um abismo social entre seus personagens. Existe ali uma divisória visível, antes mesmo que ela seja demonstrada nas ações de seus personagens. Teresa não apenas percebe que pode satisfazer seu desejo sexual com os rapazes da região como estes também percebem que seduzi-la é a porta de entrada para o dinheiro que falta para bancar as despesas. Começam então as desventuras de Teresa em busca de sexo, depois para algo a mais, o amor que dá nome ao título. Mas esta "sugar mama" logo descobrirá que o amor de seus escolhidos é mais ampliado do que ela imagina. Com cenas que parecem improvisadas, Seidl cria uma narrativa em tom de crônica que pode provocar risadas nervosas pela condição humana de seus personagens, seja de sua protagonista que é capaz de acreditar que encontrará o amor pagando por ele ou de seus jovens parceiros que em alguns casos são capazes de se sujeitarem à objetificação mais descarada. Para quem tem problemas com nudez é bom manter distância de Paradise: Love, aqui ela aparece de forma bastante natural tal e como se fossem Adão e Eva procurando o paraíso, esse despudor se aplica também à atriz Margarete Tiesel que parece muito a vontade em exibir seu corpo fora dos padrões. Obviamente que para coroar o desfecho, surge umas uma das cenas mais repletas de erotismo e canastrice do cinema envolvendo Teresa, suas amigas e um rapaz digamos... capaz de tudo para ganhar uma grana. Obviamente que o final melancólico deixará aquele sabor de que Teresa precisa perceber que o amor está em um lugar bem diferente do que ela imagina. 

Paradise: Love (Paradies: Liebe / 2012 - Áustria, Alemanha, França / 2012) de Ulrich Seidl com Margarete Tiesel, Peter Kazungu, Inge Maux, Helen Brugat, Gabriel Mwarua, Josphat Hamisi, Tobias Kasiwa e Carlos Mkutano. 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

PL►Y: Kelly + Victor

Julian Morris: tensão sexual sadomasoquista.  

Eu tinha uma espécie de dívida pessoal com Kelly+Victor. Lembro quando o diretor Kieran Evans foi contemplado com o prêmio de Melhor Estreante Britânico no BAFTA de 2012 e o filme ganhou alguma visibilidade no circuito alternativo por conta disso. O filme ainda foi eleito como um dos melhores filmes irlandeses daquele ano e foi indicado ao prêmio da audiência no Festival South by Southwest. Devido ao conteúdo pouco palatável do filme, o longa teve problemas de distribuição por aqui, mas o encontrei perdido no catálogo da GloboPlay ano passado e confesso que não o assisti até o final. Agora me deparei com ele no Prime Video e resolvi cumprir a tarefa por completo. Kelly + Victor é uma história de amor, só que... um cadinho complicada, afinal, o que começa como a velha história do boy meets girl revela ingredientes mais sombrios do  que costumamos ver por aí. Quando Victor (o bom Julian Morris) conhece Kelly (Antonia Campbell-Hughes caprichando na estranheza) e desfrutam de sua primeira noite de sexo, nada é muito convencional, já que Kelly curte uma pegada mais, digamos, agressiva... entre mordidas e simulações de enforcamento, os dois selam ali o início de um relacionamento que evolui aos tropeços. Se Victor é bondoso e segue a rotina de um rapaz comum sem muito o que fazer, Kelly atende homens que curtem levar chicotadas - e aos poucos o roteiro deixa claro que ela sobreviveu a um relacionamento abusivo (que levou o agressor para a prisão por dois anos). Calada e introspectiva, torna-se visível as marcas psicológicas deste relacionamento na vida daquela mulher, no entanto, este teor hardcore de seu temperamento sexual se encaixa com a curiosidade masoquista do comportado Victor, que mesmo após uma cena arrepiante protagonizada no meio do filme, ainda sente que Kelly o complementa de alguma forma. O filme se sustenta bem quando o casal está na tela, mas fica difícil dizer que a cadência do filme é envolvente com as várias cenas que parecem improvisadas e soltas (deixando que o espectador preencha as lacunas sobre aqueles dois personagens). Este jeito cru de fazer cinema pode ser interessante, mas por vezes deixa a sensação que apenas disfarça um roteiro pouco lapidado. Existem tantos aspectos do filme que poderiam ser aprofundados (mas que ficam pelo meio do caminho) que ao chegar na triste cena final, eu só imaginava que era  um desfecho inevitável para aquela relação repleta de fantasmas do passado assombrando o que poderia ser um romance promissor de dois jovens perdidos em suas rotinas solitárias. O filme é baseado no livro de Niall Grifiths e se tornou a primeira experiência do diretor Kieran Evans fora do formato documental, o que explica muito da forma como utiliza sua câmera e conduz sua narrativa ao longo da sessão. 

Kelly + Victor (Irlanda/Reino Unido - 2012) de Kieran Evans com Antonia Campbell-Hughes, Julian Morris, William Ruane, Claire Keelan, Stephen Walters e Michael Ryan.  

domingo, 26 de abril de 2020

PL►Y: Holy Motors

Levant: papéis diferentes ao longo do dia. 

Leos Carax não é um diretor fácil de se gostar. O cineasta francês é mestre em criar histórias surreais e, com isso, despertar incômodo na plateia. Foi assim desde a sua estreia em 1984 com Boy Meets Girl, mas ele se tornou tornou mundialmente conhecido com Os Amantes de Pont Neuf (1991), que ficou um bom tempo em cartaz nos cinemas brasileiros. Geralmente seus trabalhos são selecionados para o Festival de Cannes, geram controvérsia e pode até sair premiado após ser vaiado. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o radical Holy Motors, que dividiu opiniões ao disputar a Palma de Ouro e gerou insultos a Carax de que era autoindulgente, arrogante e presunçoso, mas foi ganhou o Prêmio da Juventude daquele ano. Tanta raiva se explica em um filme que parece feito para demonstrar como o moço tem domínio pleno de qualquer tom de narrativa que queira realizar. Feito para ser uma enorme costura de retalhos, o filme agrada por sua originalidade e capacidade de gerar várias interpretações. Depois de uma enigmática introdução envolvendo pessoas em uma sala de cinema, o filme segue a rotina de Oscar (o versátil Denis Levant) que começa o dia entrando em uma enorme limusine e recebe vários trabalhos para o dia. O veículo se mostra um enorme camarim, onde ele se transforma em vários personagens ao longo do dia. Em seus trabalhos ele se transforma em duende ensandecido, pai em conflito com a filha, um assassino, músico, um idoso doente, um homem que encontra um amor do passado, além de um sugestivo trabalho de captura de movimento, assim ele se reinventa ao longo do dia, sempre guiado por sua fiel motorista (Edith Scoob) que às vezes o resgata de cena quando o trabalho é exaustivo demais. Nestes trabalhos ele encontra uma modelo famosa (Eva Mendes), um sósia (o próprio Denis Levant) e a cantora Kylie Minogue (boa atriz, hein!) num momento comovente. Assim, a narrativa também joga com momentos dramáticos, de suspense, de terror, fantasia, musical e até de comédia, promovendo um verdadeiro passeio pelos gêneros cinematográficos. Holy Motors pode parecer uma grande loucura, mas em momento algum se perde ou se torna monótono, pelo contrário, sua intensidade cresce até o final com um diálogo inusitado de como as pessoas hoje não se arriscam mais. Entre as várias leituras do filme, já ouvi dizer que é uma fantasia sobre viver na realidade ou uma crônica sobre as máscaras que usamos cotidianamente. Seria uma outra dimensão? Um jogo? Um mundo paralelo? Ou apenas o dia repleto de trabalho de um ator bastante ocupado (repara o diálogo sobre ele nunca saber onde estão as câmeras). O fato é que Holy Motors entra para a lista dos filmes mais estranhos e originais que você já viu. Você pode gostar se entrar no clima desta deliciosa provocação e, se tudo parecer apenas uma doideira, imagina que é um sonho (ou pesadelo). David Lynch deve adorar esta sandice!

Holy Motors (França - 2012) de Leos Carax com Denis Levant, Edith Scoob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Michel Picooli, Zlata e Leos Carax. ☻☻☻☻ 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

PL►Y: O Que Richard Fez

Roisin e Jack: sentimentos difíceis. 

Conheci o trabalho do irlandês Lenny Abrahamson no pouco visto Frank (2014), mas ele ficou famoso mesmo no ano seguinte ao dirigido o elogiado O Quarto de Jack (2015), que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar de direção - além de concorrer a melhor filme, roteiro adaptado e premiar sua estrela Brie Larson com a estatueta de melhor atriz. O Que Richard Fez é o terceiro filme de Lenny - e fez sucesso em várias premiações europeias com a história de um jovem promissor que se excede e comete um grande erro. Não vale a pena contar o que o título sugere já que faz parte da graça do filme construir certo suspense a partir dele -  já que em sua primeira parte não acontece nada demais. Richard (Jack Reynor) é um menino de ouro, atleta do time de rúgbi da escola e está prestes a entrar para a faculdade. Apresentado como um adolescente como outro qualquer entre seu grupo de amigos, ele conversa, fala bobagens, convive com a família e começa um namoro com Lara (Roisin Murphy). Nessa parte a direção de Abrahamson é praticamente invisível, deixando tudo muito espontâneo e com jeito de improvisação, o que deixa as relações do filme tão triviais quanto reais, tornando mais mais natural a forma como cresce o ciúme de Richard. A coisa complica depois de meia hora de projeção e tudo muda de tom. Devorado pela culpa, o protagonista torna o filme mais intimista com o dilema de assumir a consequência dos seus atos. Jack Reynor tem uma atuação convincente como o rapaz comum que percebe ter jogado a vida pelo ralo por um motivo tolo e transformou a vida de várias pessoas por acidente. A forma como utiliza os silêncios e o tom arrastado para criar a pressão sobre o personagem demonstra que Lenny Abrahamson já demonstrava o gosto por lidar com emoções difíceis de personagens que enclausurados (seja por uma cabeça de papel machê como em Frank ou num cubículo como em Quarto de Jack, ou, no caso, em sua própria culpa), mas aqui ele não tem medo de ser hermético e afastar parte do público que não está disposto a desfrutar da lentidão de sua narrativa. No entanto, O Que Richard Fez revela-se um bom cartão de apresentação de um cineasta europeu que promete chamar ainda mais atenção nos próximos anos.

O que Richard Fez (What Richard Did / Irlanda - 2012) de Lenny Abrahamson com Jack Reynor, Roisin Murphy, Sam Keeley, Patrick Gibson e Fionn Walton. ☻☻☻

terça-feira, 24 de maio de 2016

PL►Y: O Último Concerto

Mark, Phil, Christopher e Catherine: lavando a roupa suja de 25 anos!

Foi algo quase inconsciente adiar ao máximo para assistir O Último Concerto, afinal, ficou o longa ficou conhecido como um dos últimos trabalhos do grande ator americano Phillip Seymour Hoffman, que faleceu aos 46 anos em 2014. Assinado pelo ex-documentarista Yaron Zilberman, o filme se concentra nos membros de um prestigiado quarteto de cordas formado pelo veterano Peter Mitchell (Christopher Walken), o perfeccionista Daniel Lerner (Mark Ivanir) e o casal Robert (Seymour) e Juliette (Catherine Keener). Aos 25 anos de carreira, os músicos preparam para uma nova turnê e se deparam com a notícia de que Peter está com mal de Parkinson. Embora Peter já pense em alguém para substituí-lo - e manter a integridade artística de seu grupo, a notícia começa a revelar algumas fragilidades dos vários anos de convivência. A maior delas fica por conta de Robert demonstrar insatisfação em ser o segundo violinista do conjunto - e a sua sugestão de revezar a função com Daniel rende discussões com o colega e com a esposa Juliette, que percebe a fragilidade presente no grupo. Não demora muito para o próprio casamento da dupla começar a enfrentar problemas, colocando em risco a carreira de todos. Nesse momento, a participação da filha do casal, Alexandra (Imogen Poots) recebe destaque não apenas como estudante de música, mas pelo relacionamento cada vez mais próximo com Daniel (que no passado teve um relacionamento com a sua mãe). Como filme O Último Concerto demora a engrenar, se perdendo em divagações sobre a música e dispersando seu foco por mais tempo do que deveria, restando ao seu elenco competente a tarefa de prender a atenção da plateia. Sorte que eles conseguem, o problema é quando o roteiro começa a perder a mão no relacionamento da jovem Alexandra com os músicos que a cerca, resultando em algumas soluções apressadas e um tanto melodramáticas (a discussão da garota com a mãe é dura de engolir de tão forçada), no entanto, não deixa de ser interessante como o filme aponta para o desgaste de um grupo fechado que construiu um universo bastante particular durante seus anos de trabalho (nesses momentos o uso de cenas que reproduzem um documentário sobre o grupo consegue ser bastante revelador). No elenco, enquanto Mark, Catherine e Phillip tentam fugir do tom esquemático que o roteiro reserva aos seus personagens, Christopher Walken é o que mais acerta no tom do personagem que é funciona quase como o patriarca dos demais. Embora seu personagem seja pouco explorado, ele cumpre sua tarefa com bastante competência, tornando os dilemas de Peter bastante palpáveis para a plateia. 

O Último Concerto (A Late Quartet/EUA_2012) de  Yaron Zilberman com Christopher Walken, Phillip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Mark Ivanie e Imogene Poots. ☻☻

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

PL►Y: Maníaco

Elijah: o mundo pelos olhos de um doido. 

Lançado em 2012, Maníaco tornou-se uma espécie de pérola do terror indie com fãs fiéis, especialmente por conta de suas imagens em primeira pessoa. Por boa parte da sessão, o espectador vê o mundo pelos olhos de Frank (Elijah Wood, assustadoramente convincente), uma rapaz solitário que trabalha reformando manequins, porém, ele tem o hobby de escalpelar mulheres para ornamentar as peças favoritas que enfeitam a sua casa. Seria um filme trivial de serial killer, se o diretor não optasse pelo desconforto do espectador sentir que está dentro da mente do perturbado personagem, tendo a câmera como os olhos de Frank. O recurso funciona tão bem, que a câmera muda a perspectiva em alguns momentos onde ele termina o, digamos, serviço com uma vítima. No entanto, apesar do recurso engenhoso, o roteiro poderia ser um pouco mais caprichado, afinal, atribui a um manjado trauma de infância o comportamento psicótico do protagonista e aproveita pouco sua atração por Anna (Nora Arnezeder), uma artista plástica que conta com a colaboração do rapaz para criar uma exposição. Pra variar, com exceção da mocinha, todo mundo costuma ser hostil com Frank, deixando seu pavio cada vez mais curto e tornando tudo ainda mais previsível. Apesar de criar climas bastante eficientes e aproveitar ao máximo a estranheza dos cenários decorados com manequins (ou partes do ornamento), lá pela metade o filme esquece sua tentativa de criar um terror modernoso e se rende à sanguinolência mais gratuita. Por conta disso, o final que poderia revelar nuances mais interessantes sobre o personagem, torna-se arrastado e quase cômico, esticando demais a última cena - e deixando o riso inevitável. Mas, vale ressaltar, que ao término da sessão fica na memória a habilidade do diretor Franch Khalfoun em tentar contar sua história de uma forma diferente e a atuação de Elijah Wood, que merece reconhecimento para além de seu Frodo da saga O Senhor dos Anéis.

Maníaco (Maniac/França-EUA/2012) de Franch Khalfoun com Elijah Wood, Nora Arnezeder e America Olivo. ☻☻

sábado, 26 de setembro de 2015

PL►Y: Mundos Opostos

Sturgess: no meio do caminho. 

Depois dos elogios com o intimista Nordeste (2005), o argentino Juan Solanas partiu para fazer filme em inglês com o ambicioso Mundos Opostos. O filme estrelado por Kirsten Dunst e Jim Sturgess foi aguardado com muita expectativa, mas quando chegou aos cinemas passou praticamente em branco. Um dos motivos para a decepção deve-se para a desigualdade entre os dois pólos do roteiro, que tinha tudo para ser uma ficção científica fascinante, cheia de camadas e comentários sociais, mas que revela-se apenas um romance entre classes de forma bastante trivial. Ainda assim, o filme vale ser visto por conta se seu apelo visual que realmente impressiona. A história se passa em uma realidade paralela,  Adam (Sturgess) e Eden (Dunst) vivem em mundos gêmeos de gravidades opostas, ou seja, quando alguém de um mundo olha para cima, enxerga o outro. O efeito é semelhante ao que vimos na antológica cena da cidade dobrada sobre si mesma em A Origem/2010 só que estendida por cem minutos. Esse cenário surrealista serve para uma metáfora, onde quem vive no mundo de baixo, não pode nunca viver no mundo de cima (e a gravidade oposta já é um impeditivo para isso). Eis que a descoberta de um novo produto de beleza criado por Adam demonstra seu potencial perante os do mundo de cima, mas ele não quer apenas ser reconhecido pelo seu trabalho, ele ainda quer reencontrar seu amor de infância, Eden. Essa fantasia amorosa fará com que Adam desobedeça algumas regras e consiga encontrar meios para enganar as autoridades (e a gravidade, o que rende alguns dos momentos mais interessantes do filme), poderia ser ótimo, mas o filme segue, ironicamente, um contraste que incomoda. Por um lado está o visual arrebatador, valorizado pela fotografia reluzente, os ângulos inovadores, os enquadramentos criativos e os efeitos especiais de encher os olhos, do outro está um romance burocrático, sem sal, que enfrenta o obstáculo de autoridades que nunca deixam claro o problema em deixar os dois mundos se misturarem. Será que na inevitável interação espelhada dos dois mundos, Adam e Eden são os únicos que tentaram driblar as regras por qualquer motivo que fosse?  Tive a sensação que a história do filme era outra e que inventaram o romance para atrair o público que acabou rejeitando esse lado da história. Ao chegar ao seu final óbvio e apressado, Mundos Opostos mostra que tinha o visual ideal e algumas ideias que poderiam fazer dele um cult instantâneo, mas soa como o desperdício de uma ideia genial. Tive a impressão que o roteiro de Solanas foi tão remexido que seus maiores trunfos acabaram perdendo força para um romance água com açúcar. Assim, de nada serve ter atores esforçados no elenco se o roteiro oferece tão pouco para o desenvolvimento dos personagens, que parecem esquemáticos demais para empolgarem. Resta ficar na lembrança as imagens impactantes junto a tudo que o filme poderia ser. 

Mundos Opostos (Upside Down/Canadá-França/2012) de Juan Solanas com Jim Sturgess, Kirsten Dunst, Timothy Spall e Nicholas Rose. ☻☻☻

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

PL►Y: A Gangue dos Jotas

Roche, Satrapi e Ripa: brincando de fazer um filme.  

Lembro quando Marjane Satrapi fez a versão para as telas de sua HQ Persépolis virei seu fã imediatamente. Após ver o filme, comprei a HQ e li outros trabalhos da iraniana radicada na França. Lembro que na época ela era assediada pela mídia e uma revista feminina editada no Brasil conseguiu uma entrevista. Marjane deve ter ficado tão decepcionada com as perguntas quanto eu (perguntavam de sua vida amorosa, se ela usava biquíni na praia... entre outras pérolas de sabedoria), no entanto, a moça mereceu ainda mais minha admiração pela forma como desviava das idiotices que eram direcionadas a ela. Notava-se que Marjane Satrapi não era uma mulherzinha dessas que aparecem preocupadas somente com a aparência e o sexo oposto, tão pouco posava de politizada intelectual para atrair a tribo mais cabeça. Marjane é Marjane, ponto. Vendo seu terceiro longa metragem essa frase ecoava na minha cabeça, já que ela juntou um grupo de amigos, pegou uma câmera na mão com um fiapo de roteiro e criou A Gangue dos Jotas, um filme tão despojado que pode provocar certa insatisfação. Jotas é o primeiro filme que Marjane dirige sozinha (os anteriores eram co-dirigidos por Vincent Paronnaud) e ela opta por fazer um road movie a partir das confusões geradas da troca de malas num aeroporto, onde uma mulher (Satrapi sempre vestida como se estivesse disfarçada) entra em contato com dois homens que levaram sua bagagem por engano. Assim ela conhece Nils (Mattias Ripa, esposo da diretora) e Didier (Stéphane Roche, que também é o montador do filme), dois atletas amadores de peteca badminton  e que durante um almoço com a misteriosa mulher acabam se metendo em encrenca, afinal, ela é perseguida por uma espécie de máfia de sósias cujos nomes começam com a letra jota. Ela diz que por terem sido vistos com ela, provavelmente eles serão perseguidos também, já que ela é o alvo deles desde que mataram sua irmã de forma cruel. Assim, os três se unem, deixando o serviço sujo para os dois homens que começam a eliminar Juan, José, Joaquin, Jesus... (todos vividos pelo ator Ali Mafhakeri) em cenas que parecem improvisadas. O resultado é um tanto irregular, mas pode gerar risadas com o seu tom de humor negro e alguns detalhes que chamam a atenção no desenrolar da história (os tais mafiosos sempre parecem inofensivos e desarmados e a mulher sempre hesita dizer sua origem). A Gangue dos Jotas é uma brincadeira entre amigos e a cena final (uma festa onde a amiga Maria de Medeiros aparece) deixa essa a impressão ainda mais forte. Parece que depois dos holofotes de Persépolis (2007) e o flerte com a fantasia em Frango com Ameixas (2011), Marjane quis relaxar criando um filme mais despretensioso que melhora muito quando flerta com o absurdo, mas, ainda assim, é bem menos interessante que suas obras anteriores. 

A Gangue dos Jotas (Le Bande des Jotas/França-Bélgica-2012) de Marjane Satrapi com Marjani Satrapi, Stéphane Roche, Mattias Ripa, Maria de Medeiros e Ali Mafhakeri. ☻☻

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Entre Vales

Ângelo: do luxo ao lixo. 

O cineasta Phillippe Barcinski é responsável por um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos anos, trata-se de Não Por Acaso (2007), filme que mostra a essência urbana de São Paulo sob um prisma quase metafísico - sem ser chato ou pesado por conta disso. Entre Vales, seu filme seguinte demorou tempo demais para chegar às salas de cinema, tornou-se famoso no circuito de festivais, mas quando lançado, dividiu a opinião de público e crítica sobre a história calcada nas duas fases da vida de um homem. Vicente (Ângelo Antônio) é um economista bem empregado, que atua há anos na construção de aterros sanitários. Casado com uma dentista, com quem tem um filho,  a vida do personagem é bastante confortável. No entanto, o filme mescla essa vida comum com cenas onde Vicente vasculha um lixão. O que teria acontecido do conforto de sua vida domiciliar e profissional para ele mudar totalmente de vida? Isso é o que faz o espectador acompanhar o filme, mas quando chega ao fim, deixa a sensação de que faltou algo para ligar as duas partes. É verdade que o filme apresenta duas grandes perdas na vida de Vicente e que parecem determinantes na mudança que o personagem atravessa, mas ainda assim, elas são mostradas de forma tão breve em comparação aos vários minutos que se repetem com o protagonista no meio do lixo, que tive a impressão que todo o drama do personagem foi mal construído. Outro exemplo dessa economia da abordagem de aspectos fundamentais na vida de Vicente é o relacionamento com a esposa, que praticamente não é mostrado até o momento em que dão uma notícia devastadora para o menino que não entende muito bem o que está acontecendo (e eu me senti como ele), mas mal um assunto é desenvolvido, outro fato crucial acontece subitamente. Entendo que Barcinski não queria ser apelativo ou melodramático, preferindo mostrar Vicente revirando toneladas de lixo a maior parte do tempo, mas não sei se a coisa saiu como o pensado. O resultado é um filme frio e distante, que investe mais no apelo dramático do aterro do que na dissolução do protagonista, afinal, da forma como é mostrada (sendo quase acidental) tudo é apressado e sucinto demais para que Entre Vales se tornasse o belo filme que almeja ser. Da forma como a história é apresentada, tudo parece um tanto inverossímil demais. De belo, o filme tem somente a fotografia cuidadosa de Walter Carvalho (que torna aquele monte de entulho quase numa pintura), mas essa glamourização era mesmo a intenção do cineasta?

Entre Vales (Brasil/2012) de Phillippe Barcisnki com Ângelo Antonio, Fabiana Weneck, Inês Peixoto e Daniel Hendler. ☻☻

sábado, 29 de agosto de 2015

PL►Y: Qual é o nome do Bebê?

Jantar com os amigos: hora da verdade? 

Admiro diretores que conseguem pegar peças de teatro de um único cenário e centradas somente em seus atores e consegue transformar num filme empolgante. Parece uma tarefa fácil, mas é muitíssimo complicada. Alguns criam até cenas externas para tirar o peso do texto teatral, mas tudo acaba soando tão postiço que não convence. O ranço do teatro filmado permanece ali, comprometendo a transposição para a tela e que, ainda que assistamos o filme até o final, um certo desconforto fica sempre latente no espectador (exemplo recente é Miss Julie/2014 que tinha tudo para funcionar, mas parece sempre estar sobre o palco). Qual é o Nome do Bebê deixa que apenas os mais entendidos percebam que a origem do seu seu texto é teatral, afinal, os diretores Alexandre de La Patelière e Matthieu Delaporte consegue manter o ritmo e espantar da sessão qualquer sinal de texto recitado ou performance com marcações de cena. O elenco também merece elogios por defender seus personagens comuns de forma bastante inspirada, revelando aos poucos suas personalidades em torno de uma discussão que começa por conta do nome que um deles escolheu para o filho que está para nascer. Depois de uma introdução em que somos apresentados aos personagens e as formas como se conheceram, nos deparamos com um jantar na casa de Anna (Judith El Zein) e Pierre (Charles Berling), ambos professores e pais de duas meninas. Anna aguarda seu irmão, Vincent (Patrick Bruel) e a esposa dele, Élisabeth (Valérie Benguigui), para uma visita. Também participa do encontro o melhor amigo de infância de Anna, o reservado músico Claude (Guillaume de Tonquedec) - amigo desde os tempos em que eles faziam aulas de balé para crianças. Todo o problema começa quando Vincent revela o nome que escolheu para o filho - inspirado pelo nome do personagem do livro que lia na época que conheceu a esposa (e, que por acaso, ela lia também). O problema é que o nome é o mesmo de uma figura histórica execrável e... deixa os ânimos de todos um tanto exaltados, principalmente de Pierre. Esse é apenas o primeiro passo para um jantar de vários desentendimentos e algumas revelações que irão mudar o relacionamento dos cinco personagens de forma determinante. Ágil e bem humorado, o texto prende a atenção e surpreende pela forma como consegue manter o ritmo e a dinâmica (um tanto elétrica entre os personagens) durante todo o filme.  Em Qual é o nome do Bebê? a humanidade que transpira dos personagens é um exemplo para o que falta na maioria das comédias que o cinema americano e brasileiro costumam lançar aos montes todos os anos (e arrecadando bilheterias consideráveis) com personagens caricatos às pencas, por isso mesmo, essa deliciosa comédia francesa pode ser surpreendente. 

Qual é o nome do Bebê? (Le prénom/França-2012) de Alexandre de La Patelière e Matthieu Delaporte com Patrick Bruel, Charles Berling, Judith El Zein, Alexandre de La Patelière e Matthieu Delaporte e Valérie Benguigui. ☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PL►Y: A Fita Azul

Rory e Julia: grávida pela música. 

A Fita Azul parte de uma fantasia e deve ser visto como tal, senão, corre o risco de provocar a irritação de alguns religiosos. Não que seja ofensivo, pelo contrário, consegue ser bastante ingênuo na forma como abraça a ideia de sua protagonista adolescente vivida com rara luminosidade pela novata Julia Garner (que antes teve apenas uma participação pequena no arrepiante Martha Marcy May Marlene/2011). Julia vive a adolescente Rachel, uma jovem ingênua de quinze anos que vive isolada numa comunidade de mórmons fundamentalistas junto à família. Numa noite ela resolve ouvir uma fita cassete (a tal fita azul do título) que toca um rock meloso que gruda na cabeça da garota feito um chiclete. Rachel é surpreendida pelo irmão, Mr. Will (Liam Aiken o já crescido garotinho de Desventuras em Série/2004) que na tentativa de evitar que Rachel continue ouvindo aquela música mundana, acaba sendo mal interpretado pela mãe (Cynthia Watros). Após aquela noite, Rachel começa a sentir-se diferente e descobre-se grávida. Diante da situação, o pai de Rachel, também mentor espiritual da comunidade (Billy Zane), suspeita que Mr. Will seja responsável por aquela situação e trata de arranjar um casamento para a mocinha. No entanto, Will e Rachel afirmam que não aconteceu nada entre os dois, mas enquanto Will pensa que alguém engravidou a irmã, Rachel acredita que houve uma concepção imaculada a partir da música que ouviu naquela noite - e que , provavelmente, o pai é a pessoa que canta a tal música. Contando tudo parece ridículo, mas é incrível como o filme da estreante Rebecca Thomas (que é responsável pela adaptação de Quem é Você Alaska de John Green para as telonas no ano que vem) funciona excepcionalmente bem nessa primeira parte. Não apenas pela sensação de que algo tão especial quanto estranho aconteceu naquela noite, como também, por inibir o descrédito da plateia perante as declarações de sua protagonista que mostra-se acima de qualquer suspeita (e isso é mérito da atuação de Julia Garner, que capricha também na narrativa em off do filme). O ruim é que a história perde muito de sua graça quando Rachel parte em busca de quem canta a tal música e, ao lado de Mr. Will, descobre a cidade grande e seus "perigos". Conhece membros de uma banda de rock (com destaque para o personagem do sempre apático Rory Culkin - o pior ator da família) e se metendo em problemas um tanto manjados quando se trata do contraste de quem vive no campo e a vida na cidade. Porém, não deixa de ser interessante que Rachel busque o pai de seu filho e acabe descobrindo suas próprias origens. Embora a obra cumpra menos do que prometa, deixa a sensação de ser um filme adolescente diferente. Sua premissa, que beira o surreal (engravidar de uma música), gera um resultado que espanta todo o cinismo e polêmicas que poderiam render uma versão para o século XXI do provocador "Je vous salue, Marie" de Jean Luc Godard. No entanto, talvez seja pelo medo de chocar as plateias que o filme perde o pique conforme o final se aproxima e descamba para um desfecho que pode ser até revelador para alguns, mas para quem embarcou na fantasia resulta convencional demais para um filme que busca ser original. 

A Fita Azul (Electrick Children/EUA-2012) de Rebecca Thomas com Julia Garner, Rory Culkin, Liam Aiken, Cynthia Watros, Billy Zane e John Patrick Amedori ☻☻

sexta-feira, 31 de julho de 2015

PL►Y: O Amante da Rainha

Mads, Alicia e Mikkel: há algo de iluminista na Dinamarca...

É muito difícil encontrar um romance de época que consegue contar História sem parecer uma aula chata e documental de algo que já aconteceu. Por conta desse mérito, o dinamarquês O Amante da Rainha foi um dos filmes mais elogiados de 2012, colhendo indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de Filme estrangeiro. O filme de Nikolaj Arcel (diretor de Os Homens que Não Amavam as Mulheres na versão original de 2009) é um grande acerto. Não apenas pela belíssima reconstituição de época, mas pela maneira sólida como conduz a dinâmica entre seus três personagens importantes para a História da Dinamarca. Alicia Vikander (que em breve estará no aguardado Ex-Machina de Alex Garland) vive Caroline Mathilde, a jovem inglesa que se casa com o Rei da Dinamarca, Christian VII (Mikkel Boe FØlsgaard) no ano de 1767. Animada com seu interesse pelas artes, a admiradora dos pensadores iluministas logo fica desiludida quando descobre a imaturidade do rei, que é desagradável, grosseiro, agressivo e até violento. A presunção do nobre, somada ao constante consumo de álcool e relações com prostitutas, distanciam cada vez mais qualquer interesse de Caroline por ele. Após o nascimento do primeiro filho, o abismo entre ambos cresce ainda mais, já que ela não possui mais a obrigação de gerar herdeiros para o trono. As coisas irão mudar quando o médico alemão Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen) passa a ser o médico particular do rei. Struensse também produzia publicações propagando os ideais iluministas e percebe em Caroline uma aliada para mudar a realidade do povo dinamarquês. Sob influência do médico, Christian VII consegue transformações importantes para o país, o que passa a desagradar muitos nobres (que rendiam mais despesas do que crescimento para o país) que passam a especular sobre até que ponto Struensse pode influenciar no governo da Dinamarca - some isso às suspeitas do adúltero caso entre ele e a rainha e você pode imaginar os problemas que vão aparecer. Sem ser panfletário, Arcel cria um romance envolvente, sem perder de vista o contexto político da época e a luta de interesses que estavam em jogo num período fundamental para o pensamento sócio, político e filosófico da humanidade. Além da qualidade com que trata o período histórico retratado, o filme conta com atuações precisas de seus atores (Mikkel foi considerado o melhor ator do Festival de Berlim em 2012) defendendo um roteiro muito bem construído (também premiado em Berlim) que rende vários momentos de emoções variadas na narrativa (ao ponto de alguns pontos parecerem mais cômicos do que deveriam).  O Amante da Rainha entretêm e faz pensar numa temática pouco explorada no cinema, tonando-se um forte candidato à clássico do cinema. 

O Amante da Rainha (En Kongelig affaere/Dinamarca-Suécia-República Tcheca/2012) de Nikolaj Arcel com Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe FØlsgaard e David Dencik. ☻☻☻☻

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PL►Y: Obediência

Camp, Dreama e Dowd: a obediência em questão. 

Obediência é um filme tão simples que chega a surpreender a plateia pelas sensações que gera, sendo que, não seria exagero afirmar que exige nervos de aço do espectador que quiser conhecer o pior dia da vida de Becky (Dreama Walker), uma jovem funcionária de uma lanchonete de fast food que sofrerá grandes constrangimentos no que deveria ser apenas mais um dia de trabalho. Afinal, ela mal começa a trabalhar quando a gerente, Sandra (Ann Dowd) recebe a ligação de um policial dizendo que houve uma denúncia: Becky roubou dinheiro da bolsa de uma cliente - e o dinheiro precisa aparecer. Argumentando estar ocupado demais com outros desdobramentos do caso, o policial diz que precisa da colaboração de Sandra e começa a tortura psicológica de Becky perante a plateia. Levada para um depósito, o policial instrui que Becky retire toda a roupa e sofra um ciclo de humilhações e constrangimentos, que em momento algum, desperta o estranhamento de Sandra - nem mesmo quando o tal policial estabelece que Becky seja vigiada por homens variados (que deverão cumprir orientações estranhas e descrever as reações da moça). Para o espectador mais esperto, não fica difícil saber o que acontece em cena, especialmente quando levamos em conta o título que entrega as intenções do diretor e roteirista Craig Zobel: abordar como o ser humano pode ser capaz de realizar atos abusivos quando segue orientações de quem confere autoridade. Essa ideia do lado obscuro do homem já apareceu em outros filmes como Sobre Meninos e Lobos/2003 (quando o menino entra no carro com um homem vestido de policial e outro de padre e termina molestado sexualmente por dois farsantes) e O Leitor/2008 (quando a alemã de vida comum segue ordens de oficiais nazistas sem perceber os estragos que provoca). Em Obediência, a maioria dos personagens parece cega quando manipulada por telefone, sem questionamento, sem pensar na obviedade absurda da violência física e moral que provoca. No entanto, vale ressaltar, que o filme poderia ser facilmente desacreditado em seus exageros cênicos se não retratasse uma história real inspirada em quase uma centena de casos semelhantes que aconteceram nos EUA. Zobel não cria sua atmosfera sufocante para que condenemos seus personagens, mas para que possamos perceber como palavras são capaz de conduzirem  o comportamento dos outros com uso de frases específicas, algumas ameaças, elogios e o aproveitamento de um bocado de ingenuidade (já que os que entendem o que está havendo são descartados e rapidamente classificados como problemáticos e rebeldes pelas autoridades envolvidas). Para nos fazer embarcar nessa jornada desconfortável, a atuação de Ann Dowd é crucial na condução do horror da situação que presenciamos. Dowd foi indicada a vários prêmios por sua atuação (como o Independent Spirit de atriz coadjuvante em 2012), o resultado é tão certeiro que o filme foi lembrado como um dos melhores de 2012 no National Board of Review e considerado o melhor filme no Amazonas Film Festival do mesmo ano. O mais interessante da obra é a maestria com que o diretor gera uma tensão insuportável com os poucos recursos que aparecem em cena. 

Obediência (Compliance/EUA-2012) de Craig Zobel com Dreama Walker, Ann Dowd, Pat Healy, Phillip Ettinger, Bill Camp e James McCaffrey. ☻☻☻☻

terça-feira, 14 de abril de 2015

PL►Y: Antiviral

Caleb: a idolatria como doença sem cura. 

David Cronenberg ficou reconhecido na década de 1980 com filmes de horror que mexiam com os sentidos e o estômago da plateia. Com a chegada do século XXI, ele tornou seu estilo menos grotesco, mas continuou a provocar. Acho que se perguntassem para Brandon Cronenberg, filho do cineasta, qual a melhor fase da carreira de seu pai, ele responderia, com certeza absoluta, que é a de décadas atrás. Antiviral marca a estreia de Brandon em longa metragem e, ao contrário de muitos filhos de diretores que preferem criar uma voz distante do legado paterno, Brandon prefere mergulhar fundo na cinematografia do pai. O filme retrata um futuro onde as pessoas são tão obcecadas por celebridades que são capazes de se contaminarem com as mesmas doenças que seus ídolos, apenas para sentirem que compartilham as mesmas sensações (febre, enjoo, náusea, dores pelo corpo...) dos seus famosos favoritos. É em uma empresa que fatura alto com essa venda de doenças de celebridades que trabalha o estranho Syd March (Caleb Landry Jones), além de convencer os fãs a se contaminarem com os produtos da empresa, Syd ainda fatura uns trocados contrabandeando os vírus  para empresas concorrentes utilizando o próprio corpo. Por conta de sua atividade ilícita (já que as doenças são patenteadas e alteradas para que não contaminem ninguém de graça, somente o fã que a comprou), Syd vive doente, se alimentando a base de sanduíches e suco de laranja. Num mundo onde as pessoas cobiçam a herpes de beldades como Hannah Geist (Sarah Gadon) ou a febre de Aria Noble (Nenna Abuwa), Syd recebe a missão de comprar a nova doença de uma dessas estrelas, mas com a esperança de contrabandear o tal vírus, acaba se contaminando com uma doença rara, incurável e mortal. A partir desse momento, enquanto o organismo de Syd deteriora-se, Brandon Cronenberg mergulha sem pudores no que o cinema de seu pai tinha de mais grotesco. Misturando referências que vão de Videodrome (1983) até A Mosca (1986), o que contamina a limpidez da brancura de sua estética. O diretor vai de encontro à temática que seu pai retrata em suas obras mais recentes (Cosmópolis/2012 e Mapas para as Estrelas/2014) sobre o culto exagerado à vida das celebridades e a sociedade alienante que o alimenta. Exibido no Festival de Cannes em 2012, o filme chamou atenção pela ousadia do diretor estreante, não satisfeito ele reeditou o filme com seis minutos a menos - e eu teria cortado mais alguns. Pode-se dizer que o filme tem quatro atos, sendo que a partir da metade, começa cansar em suas tentativas de gerar surpresas para o espectador, perdendo a oportunidade de ser mais enxuto (a parte em que Syd fica preso a um reality show poderia ter sido cortada sem pensar duas vezes). Apesar de seus tropeços, Antiviral consegue ter um final ainda mais estranho do que tudo o que vemos em sua projeção, mas devo ressaltar que a atuação de Caleb Landry Jones tem papel importante no cumprimento dos objetivos do diretor. O ator de vinte e e cinco anos pode ser lembrado como o mutante Banshee de X-Men: Primeira Classe/2011, mas é em personagens obscuros como o vivido em O Último Exorcismo (2010) e Antiviral que ele se mostra mais a vontade. Com uma expressividade que lembra a de um jovem Willem Dafoe, Caleb promete fazer uma carreira bastante interessante, assim como o jovem Cronenberg. 

Antiviral (Antiviral/Canadá-França/2012) de Brandon Cronenberg com Caleb Landry Jones, Sarah Gadon, Douglas Smith, Salvatore Antonio e Lisa Berry. ☻☻☻

sexta-feira, 10 de abril de 2015

PL►Y: Sem Segurança Nenhuma

Mark e Aubrey: ficção científica humanista. 

Sem Segurança Nenhuma é um filme independente que ganhou mais fama pelos elogios que recebeu do que pela bilheteria. No entanto, o primeiro longa metragem do diretor Colin Trevorrow lhe proporcionou o convite inesperado para dirigir Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, quarta parte da franquia inaugurada por Steven Spielberg e que retorna à pauta de Hollywood com ambição de ser uma das maiores bilheterias do ano. Isso vale para ressaltar, em parte, os méritos do diretor atrás das câmeras. Estrelador por dois atores associados a comédia, o filme se sustenta com um clima que parece inspirado nas dramédias dos anos 1980, seja pela ideia biruta que movimenta a história ou o tom melancólico de seus personagens. A história gira em torno de um anúncio de classificados onde alguém procura um parceiro para viajar no tempo. O anúncio chama atenção de um editor (Jake Johnson) que leva um casal de estagiários para procurar o tal responsável pelo anúncio. Ele descobre que o anunciante é Jeff (Mark Duplass), o funcionário de um supermercado de vida bastante comum e sem indícios de ter o conhecimento suficiente para bancar uma viagem no tempo, porém, Jeff não parece louco, ao contrário, parece bem seguro de seu plano científico extraordinário. Já que o editor não convence, cabe à estagiária Darius (Aubrey Plaza) descobrir o que se passa na mente de Jeff, mas para isso, terá que ganhar sua confiança aos poucos. De início Jeff mostra-se desconfiado e cheio de paranoias (que aos poucos demonstram ser bem concretas). Aos poucos, o que poderia ser uma ficção científica maluca, torna-se uma espécie de comédia romântica sobre encontrar o parceiro ideal a partir de uma premissa bastante original (e isso serve de material para a cena final do longa). Ao mesmo tempo, em segundo plano, existe uma trama sobre um personagem que tem a chance de fazer as pazes com um relacionamento do passado no presente, o que amplia ainda mais o sentido do que poderíamos pensar como motivação para uma viagem no tempo. Sem Segurança Nenhuma pode não render gargalhadas, mas ainda assim, prende nossa pela forma minuciosa como o roteiro aborda seus personagens e, sobretudo, como revela que Jeff é um personagem mais complexo do que você imaginava num primeiro momento. Além disso, o casal Mark e Aubrey consegue gerar uma química interessante onde os dois personagens parecem estar enganando mais a si mesmos do que ao outro. O filme escrito pelo estreante Derek Connolly, mostra-se mais uma obra que imprime um olhar diferente às temáticas fantasiosas da ficção científica, assim como Melancolia (2011) e Um Inferno (2011), mas tendo mais semelhanças com Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (2012) lançado no mesmo período.

Sem Segurança Nenhuma (No Safety Guaranteed/EUA-2012) de Colin Trevorrow com Aubrey Plaza, Mark Duplass, Jake Johnson e Karan Soni. ☻☻☻

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

PL►Y: Minha vida Dava um filme

Wiig e Cris: história sem química. 

Acho sempre interessante quando um comediante quer mostrar que é bom de drama. No último ano houve gente que elogiasse Adam Sandler em Homens, Mulheres e Filhos só porque ele faz um personagem que não é idiotizado - enquanto Steve Carrell é indicados aos maiores prêmios do cinema por construir um personagem muito estranho em Foxcatcher. Na ala feminina não consigo lembrar de nenhuma comediante que tenha se empenhado tanto em ter seus dotes dramáticos reconhecidos como Kristen Wiig. Depois do sucesso no programa Saturday Night Live em 2009, a atriz foi consagrada por sua atuação e pela escrita do roteiro indicado ao Oscar da comédia rasgada Missão Madrinha de Casamento (2011). De lá para cá, a atriz deixou claro que não faria a continuação do filme e embarcou em projetos que lhe garantissem atuações mais intimistas. Foi a esposa de um casamento deteriorado em Solteiros com Filhos (2011) e apareceu recentemente nos cinemas como a contida personagem de Amores Inversos (2013) e a irmã gêmea perdida de Irmãos Desastre (2014). Tirando pequenas participações em comédia, Wiig quer mesmo ser reconhecida como atriz e não como humorista. Em Minha Vida Dava um Filme (2012), seu primeiro longa depois que tornou-se estrela de Hollywood, ela já deixava claro que tomaria gosto por viver, digamos, personagens "sem graça". Aqui ela é Imogene, uma menina arrogante que cresce e se torna uma aspirante a escritora igualmente arrogante, mal sabe ela que uma maré de azar irá fazê-la rever alguns conceitos, especialmente depois que o noivo pomposo por fim ao relacionamento. Frustrada com o naufrágio amoroso e por nunca ter escrito a grande obra dramatúrgica que esperavam dela, Imogene tenta o suicídio, mas até nisso ela fracassa, tendo que viver uns tempos com a mãe até se estabilizar emocionalmente. Basta dizer que Imogene preferia cortar os pulsos a viver com a mãe espalhafatosa (vivida por Annette Bening com sua desenvoltura habitual) num subúrbio longe de Nova York. Some a personagem a uma casa habitada por um irmão que parece viver em outro mundo (Christopher Fitzgerald), o namorado da mãe que diz ser agente da CIA (Matt Dillon) e um inquilino que vive no quarto alugado que era dela (Darren Criss) e você terá apenas uma leve dimensão de como a protagonista sente-se o fracasso em pessoa (nem vou dizer que a melhor amiga dela está prestes a lançar o primeiro livro da carreira). O problema maior do filme é que ele faz tudo para ser engraçadinho, mas produz apenas sorrisos amarelos. O casal de diretores Shari Springer Berman e Robert Pulcini não demonstram nem de longe a habilidade apresentada em O Anti-Herói Americano (2002) ou em Cinema Verite (2011), deixando tudo correr meio frouxo. O filme não empolga e as excentricidades dos personagens tentam dar graça a uma historinha bem desenxabida, já que Imogene parece um tanto alheia a tudo até que aprenda uma "grande lição para toda a vida".  Wiig se esforça, mas sua personagem é chata demais para cair nas graças da plateia - e para piorar ela não tem química alguma com Darren Criss, que pelas voltas do roteiro tem um namoro com a protagonista. A vida de Imogene pode até dar um filme, mas isso não quer dizer que ele seja necessariamente interessante. 

Minha Vida Dava um Filme (Girl most Likely/EUA-2012) de Shari Springer Berman e Robert Pulcini com Kristen Wiig, Annette Bening, Matt Dillon, Darren Criss e Christopher Fitzgerald. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

PL►Y: Os Infiéis

Gilles e Jean: o risco de fazer um filme sem importância. 

O francês Jean Dujardin atua no cinema desde 2002, mas desde a década de 1990 era um rosto conhecido na TV francesa. Apesar dos vários trabalhos, Dujardin nunca foi um dos nomes mais badalados do cinema francês, sua consagração aconteceu mesmo foi com O Artista (2011), espécie de brincadeira com o cinema mudo que deu certo nas mãos do diretor Michel Hazanavicius (e ganhou 5 Oscars). Pelo papel, o ator ganhou fama mundial como galã de Hollywood que precisava adaptar-se ao cinema falado. O trabalho lhe rendeu muitos prêmios importantes - e culminou com o Oscar. Mas desde que recebeu o prêmio sua carreira não deslanchou como esperavam. Os papéis no cinema francês não o colocaram novamente em foco e em Hollywood se limitou a participações especiais em alguns filmes (como O Lobo de Wall Street/2013). Assim, Dujardin pode ser lembrado como um dos casos de oscarizados que padecem de uma espécie de maldição, especialmente se levarmos em consideração que seu filme após o sucesso de O Artista foi a comédia safada Os Infiéis. A ideia nasceu do próprio astro, que pensou num filme episódico que contasse com curtas de diversos diretores sobre a infidelidade, sendo que, os protagonistas dos curtas são vividos pelo próprio Dujardin e Gilles Lelouche. O objetivo era reviver o clima das comédias sexuais italianas (que inspiraram até as pornochanchadas no Brasil), mas o resultado desagradou desde a divulgação dos primeiros cartazes. Não era para levar a sério o tom jocoso da divulgação, mas consideraram o filme ofensivo desde aquele momento. Quando o filme estreou, a coisa desandou de vez, especialmente por procurarem nele algo que nunca ambicionou ser. É verdade que suas partes não trazem nada de muito especial, as tramas sobre os dois amigos que traem suas esposas e depois voltam para casa como se nada houvesse ocorrido, ou do grupo de auto-ajuda onde todos os adúlteros só pensam em uma noite de sexo com a psicóloga que conduz as reuniões, ou as tentativas de um homem trair a esposa durante uma convenção... não trazem nada de muito original. No entanto, os episódios dos dois amigos que resolvem aprofundar mais "os laços" numa viagem a Las Vegas e a acalorada discussão de um casal que descobre a infidelidade um do outro após um jantar com os amigos pode proporcionar alguns momentos interessantes. São eles que me fizeram pensar que se não fosse episódico, mas um filme de história única com começo, meio e fim envolvendo os acontecimentos que surgem na tela, o longa poderia resultar em algo mais consistente. Costurando seus curtas o resultado soa repetitivo e um tanto redundante, camuflando o que alguns curtas possuem de mais interessante. No fim das contas, a impressão que fica é que Dujardin tinha no inconsciente a vontade de separar sua imagem do galã do longa de Hazanavicius (que dirige uma das histórias), as cenas de nudez debochadas e uma reveladora cena gay com Lellouche, demonstra que o ator não tem pudores diante das câmeras - resta saber se depois de tantos prêmios, não houve propostas mais interessantes para explorar o potencial do sorridente ator. 

Os Infiéis (Les Infidèles/França-2012) de Emmanuelle Bercot, Jean Dujardin & outros, com Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Karine Ventalon e Pierre Benoist. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

PL►Y: Eu & Você

Os irmãos: a vida secreta no porão. 

Faz tempo que Bernardo Bertolucci não coloca suas obras sob os holofotes, desde que lançou O Pequeno Buda (1993) - e agradou menos do que imaginava - que seus filmes resolveram escancarar o tom intimista. Ainda assim filmes como Beleza Roubada/1996, Assédio/1998 e Os Sonhadores/2003 alcançaram maior repercussão que Eu & Você, filme que o cineasta italiano lançou após uma década de férias cinematográficas. O resultado concorreu a alguns prêmios do cinema italiano, mas passou em branco nos cinemas mundiais. Apesar de ser baseado no livro de Niccolò Ammaniti, o filme peca por seu formato essencialmente teatral. Tendo a maior parte do tempo dois personagens em cena num único cenário e um final meio mais ou menos. O filme retrata alguns dias na vida de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), adolescente que prefere ficar na dele do que no meio dos outros da sua idade. Sua mania de ficar sozinho incomoda a mãe (Sonia Bergamasco), mas ele a enfrenta com diálogos articulados e um bocado de esperteza. Eis que existe uma excursão da escola para as montanhas e o menino mente para a mãe dizendo que irá no passeio, mas aproveita a oportunidade para esconder-se no porão do prédio em que vive. Com livros, Hqs e música, seria uma espécie de retiro do mundo exterior para o mocinho se Lorenzo não recebesse a visita surpresa de Olivia (Tea Falco), sua meia-irmã por parte de pai. Maluquete por natureza, Olivia e Lorenzo viverão encontros e desencontros enquanto convivem no porão, terão diálogos francos sem o medo dos adultos por perto e irão mexer em algumas feridas que ainda não cicatrizaram. A premissa é excelente, mas é prejudicada por um roteiro se afasta dos personagens quando eles prometem ficar mais interessantes, tratando de forma pouco original os dilemas de seus personagens (o temperamento dele e o vício dela). Ainda que Bertolucci volte a abordar seu tema favorito (a solidão), caprichando no tom claustrofóbico, o isolamento de seus personagens nunca é completo, já que existem interferências do mundo externo no limbo que escolheram viver por alguns dias. Prometendo mais do que cumpre, o final deixa um gosto de decepção, já que termina apenas alguns centímetros do ponto em que o filme começa. Talvez por isso, Eu & Você pareça uma digressão de uma história maior, seja da vida dos personagens ou da carreira de seu renomado diretor.

Eu & Você (Io e Te/Itália-2012) de Bernardo Bertolucci com Jacopo Olmo Antinori, Tea Falco e Sonia Bergamasco. ☻☻