Mostrando postagens com marcador DVD. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DVD. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de março de 2016

PL►Y: Natal, Outra Vez.

Audley: um vendedor de pinheiros chamado Noel. 

É realmente gratificante quando você descobre um filme e o assiste sem grandes expectativas e ele revela-se uma bela surpresa. Isso aconteceu quando assisti o indie Natal, Outra Vez de Charles Poekel um filme extremamente simples e cativante sobre o cotidiano de um vendedor de árvores de natal. É interessante que o diretor não tenta investir em tipos excêntricos ou cinismos na abordagem dos personagens na véspera do feriado, ele busca o total oposto ao construir o personagem Noel (Kentucker Audley), um sujeito de olhar triste e que conhecemos aos poucos entre os pequenos detalhes de sua história. Ele é o vendedor que trabalha no turno da noite de um trailer que vende pinheiros na semana do natal, entre um dia e outro vários personagens atravessam seu caminho. É justamente nas entrelinhas de um trabalho aparentemente sem importância que descobrimos que o rapaz ainda não digeriu bem o fim de um relacionamento - e a proximidade do tradicional feriado, parece intensificar ainda mais a sua sensação de solidão. Uma noite, ele acaba ajudando uma mulher e o relacionamento entre os dois irá continuar durante o filme. Para além desse sutil romance que se anuncia, Poekel surpreende ao explorar um profissional que ainda não havia sido retratado na tela de forma tão interessante. Da paciência para atender fregueses mais enjoados, passando pelo esforço físico de serrar a base dos pinheiros, embalá-los, entregá-los, explicar como cuidar do pinheiro... Poekel constrói um melancólico conto natalino, para isso, conta com a valiosa ajuda do pouco conhecido Kentucker Audley (que anda em alta no cinema independente, tendo participado de cinco produções no ano passado). O ator reveste cada fato simples do cotidiano do personagem com um novo sentido de sua personalidade, nisso um olhar, uma lágrima, um sorriso pode parecer o flerte com o abismo ou a sua própria redenção. Talvez nem todos percebam, mas cada detalhe, cada diálogo  (ou silêncio) expressa algo sobre o rapaz. Natal, Outra Vez mostra-se um filme único por ter uma temática simples, mas belamente executada, resultando numa obra sensível e comovente que - ainda que não tenha o final feliz que todos esperam - deixa aquele gosto de esperança para o ano que brevemente se iniciará. Por sua gratificante eficiência o filme recebeu muitos elogios da crítica americana e foi indicado ao Prêmio John Cassavetes no Independent Spirit (destinado aos melhores filmes com orçamento inferior a 500 mil dólares). 

Natal, Outra Vez (Christmas, Again - EUA/2014) de Charles Poekel com Kentucker Audley, Hannah Gross, Andrea Suarez Paz, Jason Shelton e Sam Stillman. ☻☻☻☻

sexta-feira, 19 de junho de 2015

PL►Y: Magia ao Luar

Firth e Emma: romance à moda antiga. 

Ano passado foi especial para Emma Stone. Fazia tempo que a jovem atriz queria ser levada a sério em Hollywood e, de fato, conseguiu. Recebeu sua primeira indicação ao Oscar (de atriz coadjuvante) por sua atuação no genial Birdman, foi a celebrada como a única coisa que prestava no horrendo O Espetacular Homem Aranha 2 - A Ameaça de Electro e tornou-se a nova musa de Woody Allen. Esse ano ela estará em The Irrational Man ao lado de Joaquin Phoenix, provando que o cultuado diretor gostou do seu trabalho no mediano Magia ao Luar. Todo mundo sabe que Allen mantém a invejável carga de trabalho de realizar um longa por ano e, ninguém mais fica surpreso, quando após um grande sucesso (no caso, o premiado Blue Jasmine/2013), Woody lança um filme despretensioso, que vai mal das pernas na bilheteria e acaba agradando somente seus fãs mais fervorosos. Magia ao Luar é um filme até simpático em sua simplicidade. Ambientado em 1928 com belas locações da Côte D'Azur, o filme conta do encontro de um ilusionista Wei Ling Soo, ou melhor, Stanley (Colin Firth), que atende ao pedido de um amigo para desmascarar uma médium suspeita de charlatanismo. A tal médium se chama Sophie (Emma Stone) e torna-se queridinha de uma família endinheirada. Suas revelações e truques como batidas na mesa e velas flutuantes, a torna tão querida que o herdeiro da família milionária, Brice (o subestimado Hamish Linklater), cai de amores por ela e a pede em casamento. Sempre desconfiado, Stanley se aproxima de Sophie, percebe como ela tem a chance de sair da vida de americana pobre para outra mais nobre e, ao mesmo tempo, começa a desconfiar que a moça realmente pode ter um canal direto de comunicação com o além. A melhor parte fica por conta dos embates entre Stanley e Sophie, feitos de provocações sobre o conflito entre o ceticismo dele e a esperança e conforto que os "dons" dela trazem para pessoas que precisam lidar com a morte de alguém querido. Quando até nós passamos a querer acreditar na personagem (defendida com doses cavalares de carisma por Stone), deixamos de nos preocupar com o fato de Sophie ser uma farsante para nos preocupar com o vácuo que a ausência daquele conforto pode provocar em quem depende de seus "dons" para lidar com o fim da vida. Pena que a narrativa pareça um tanto frouxa até chegar em sua cena final, que revela que, no fundo o filme deseja ser da metade do século XX, onde uma Hollywood mais ingênua adoraria um filme feito esses. A produção é bem cuidada, com figurinos e cenários corretos, bela fotografia e edição eficiente, mas Woody parece apressado e entrega um roteiro que explora menos suas intenções do que deveria. 

Magia ao Luar (Magic in the Moonlight/EUA-2014) de Woody Allen com Colin Firth, Emma Stone, Hamish Linklater, Jackie Weaver, Simon McBurney e Eileen Atkins. ☻☻

quinta-feira, 23 de abril de 2015

PL►Y: Terapia do Sexo

Gwyneth e Mark: cada um com seus vícios.

Terapia do Sexo está longe de ser um filme ruim - e ajuda muito se você esquecer o título apelativo em português (o original Thanks for Sharing, ou Obrigado por Compatilhar não é sonoro em nossa língua, mas faria mais sentido). O filme conta a história de um grupo de personagens que fazem parte de uma terapia para viciados em sexo. O grupo coordenado pelo conselheiro Mike (Tim Robbins) é frequentado por Adam (Mark Ruffalo), Neil (Josh Gad), Dede (a cantora Pink, convincente - especialmente em sua primeira cena) entre outros. Adam completa cinco anos de abstinência (conquistado a duras penas sem acesso a televisão, notebooks desbloqueados e celulares modernos) quando conhece a triatleta Phoebe (Gwyneth Paltrow numa festa). Como você já sabe como esse tipo de encontro de astros funciona na tela, os dois irão engatar um namoro, mas ela teve problemas com o ex-namorado alcoólatra e ele fica com receio de contar seu histórico para ela. Paralelo a isso o gordinho Neil foi condenado a frequentar o grupo por assediar mulheres no metrô, como ele não leva a terapia a sério, ele acabará sofrendo outras consequências em sua vida - mas quando ele se torna amigo de Dede, as coisas parecem seguir um caminho mais tranquilo. Mesmo o sereno Mike não está imune às consequências de seu vício. Seu relacionamento com o filho (Patrick Fugit),  que já foi preso em decorrência do uso de drogas, é complicado - enquanto a esposa (Joely Richardson) tenta reaproximar os dois o filme se desenvolve sem grandes tropeços. O filme do diretor estreante Stuart Blumberg (indicado ao Oscar pelo roteiro de Minhas Mães e Meu Pai/2010) faz questão de humanizar seus personagens, nem que para isso todos pareçam simpáticos demais. A estratégia funciona para desconstruir os preconceitos da plateia acerca do tema, expandindo a abordagem da temática para os vícios em geral (mesmo a saudável Phoebe é visivelmente uma vigoréxica), sempre com uma abordagem serena e não apelativa sobre os temas que procura abordar. O problema está justamente no desequilíbrio de sua última parte. Com a crise no relacionamento de Phoebe e Adam (apresentada de forma um tanto forçada e abrupta), todos os personagens parecem obrigados a cair em tentação mais uma vez. O que poderia gerar suspense e enriquecer ainda mais a temática, acaba revelando uma abordagem um tanto esquemática do tema, além de fazer o filme desafinar quando está bem próximo do fim. A cena em que Adam se encontra com uma ex-namorada tem alguns closes pontos desnecessários que não combina com a abordagem adotada por Blumberg ao longo do filme. Obviamente que o lado sombrio dos vícios precisava de espaço, no entanto, o diretor deveria ter evitado tornar tudo tão agradável em sua primeira metade para evitar o desequilíbrio narrativo logo a seguir. Talvez o filme nem precisasse desse desvio para ser relevante, ele já funcionava bem até então, tanto que depois de abordar o "lado obscuro do tema", o filme volta ao seu estado natural como se nada houvesse acontecido. No fim das contas, destaco a atuação de Josh Gad como Neil, um personagem que começa desagradável e que demonstra amadurecer ao longo da trama e torna-se responsável pelos momentos mais engraçados. Stuart Blumberg demonstra novamente ser um bom roteirista, mas ainda precisa amadurecer como diretor. 

Terapia do Sexo (Thanks for Sharing/EUA-2013) de Stuart Blumberg com Mark Ruffalo, Tim Robbins, Gwyneth Paltrow, Josh Gad, Joely Richardson, Patrick Fugit e Pink ☻☻☻

quarta-feira, 8 de abril de 2015

PL►Y: Passageiros da Vida

Mitch e Colin: registro de viagem. 

O Ganhador do Prêmio Johnn Cassavetes (conferido ao melhor filme independente com orçamento inferior a quinhentos mil dólares) no Independent Spirit Awards desse ano foi para uma simpática comédia sobre dois velhinhos, amigos de longa data, que resolvem viajar para a Islândia. A ideia simples é valorizada pelos diálogos espirituosos entre os personagens, que se distanciam gradualmente dos estereótipos. Mitch (Earl Lynn Nelson) é o mais animado da dupla, embora sempre esteja disposto a pegar no pé de quem está por perto (especialmente com relação às roupas alheias), além de ser bastante chegado a um baseado, enquanto Colin (Paul Eenhoorn) é mais introspectivo e sério - mas vale ressaltar que ambos tem um charme bastante próprio. A dinâmica estabelecida entre os atores/personagens garantem um programa leve, despretensioso e ainda mais interessante quando percebemos a forma como esses dois senhores seguem suas vidas. Os dois são cunhados duas vezes (já que um casou com  irmã do outro) e enquanto Colin parece não ter se recuperado do falecimento da esposa, ou do fim de seu último relacionamento, é visível como Mitch é fundamental para que o amigo não se sinta só. O texto assinado pelos próprios diretores, poupa a plateia de lamentos sobre o abandono dos filhos, doenças e outros aspectos que parecem de lei em filmes que retratam idosos. O filme parece mais preocupado em acompanhar a dupla pelas belas paisagens da terra de Björk, seja para tomar banho em lagoas de água quente, caçar géiser, frequentar boates ou interagir com os outros personagens que cruzam o caminho deles. É verdade que não existe uma história propriamente dita, mas uma espécie de diário de bordo da viagem, sem golpes melodramáticos, baixarias ou chororô, sendo um recorte breve, mas revelador dos personagens distintos em suas personalidades. Por escapar de situações manjadas, o filme torna-se mais interessante quando Mitch fica eufórico com a chegada de uma dupla de jovens moças - e elas se mostram mais de carne e osso do que qualquer outra coisa -, o mesmo quando acontece um beijo entre Colin e uma desconhecida, ele é mostrado de forma terna e confortável. Ainda que eu não goste do título Passageiros da Vida, posso dizer que ele faz sentido e combina com o clima da sessão, que não pretende ser edificante, ou uma grande lição de vida. O longa está mais preocupado em desenhar e acompanhar a dupla de amigos como se nem criasse um filme, mas um registro de viagem. Esse aspecto fica tão evidente que as duas cenas dos amigos fazendo gracinha para a câmera são os momentos mais sem graça, já que quebram o clima de que estamos acompanhando aquela viagem mais por uma janela do que propriamente uma tela. 

Passageiros da Vida (Land Ho! /Islândia-EUA / 2014) de Aaron Katz e Martha Stephens, com Earl Lynn Nelson, Paul Eenhoorn, Karrie Crouse, Elizabeth McKee  e  Daníel Gylfason. ☻☻

sábado, 17 de janeiro de 2015

PL►Y: Em Segredo

Oscar e Elizabeth: de amantes a cúmplices. 

Baseado no romance Thérese Raquin (1867) de Émile Zola, o ator Charlie Stratton estreia na direção criando um filme interessante, ainda que os literatos considerem que a versão da obra considerada o marco inaugural do naturalismo literário merecesse mais profundidade. Talvez por não ler o livro, achei que o longa alcança um bom resultado em sua atmosfera de romance para os desiludidos. Stratton foi esperto também na escolha de seu elenco, escalou a veterana Jessica Lange para um papel complicado, um casal de atores que ainda não receberam o reconhecimento que merecem (Elizabeth Olsen e Oscar Isaac) e rostos conhecidos como eficientes coadjuvantes (Tom Felton e Shirley Henderson). Na história Thérese é deixada ainda criança na casa de uma tia (Lange) que gasta o tempo cuidando do filho doente, Camille. A menina cresce aguardando o pai voltar, mas ela logo percebe que isso nunca acontecerá. Já crescida (e na pele de Olsen), sua sexualidade começa a despertar enquanto ajuda a tia a cuidar do primo adoentado (Tom Felton, o Draco Malfoy de Harry Potter que virou um rapaz esquisito). O roteiro até sugere algumas investidas da moça sobre o rapaz, mas ele nunca corresponde. Como vive no século XIX, a garota sem posses acaba noiva do primo e casa-se com ele para satisfazer a vontade da tia. Quando o jovem marido consegue um emprego em Paris, o trio se muda para a cidade e o filme torna-se ainda mais sombrio, como se a cidade simplesmente não deixasse a luz entrar na vida dos personagens. Na cidade, Camille reencontra um velho amigo, Laurent (Oscar Isaac) pintor que percebe a insatisfação de Thérese com o marido e não vai demorar para que ela descubra os prazeres da carne com o tal amigo. Os dois vivem um romance tórrido e um acidente irá mudar para sempre o rumo dos personagens. Stratton acerta no tom sombrio e na atmosfera sufocante a que submete o casal de amantes, o desejo torna-se culpa e o rumo dos acontecimentos só piora o relacionamento do casal fogoso que aos poucos reduz-se a cúmplices. Para aumentar a dramaticidade, a presença de Jessica Lange como a sogra (com potencial de megera) que começa a juntar as peças e entender o que aconteceu aumenta o suspense da história. Imagino as toneladas de escrita que Zola utilizou para desenhar o interior dos seus personagens e que ficou de fora do roteiro, mas em termos de narrativa, Em Segredo consegue ser bastante correto com pequenos toques que só aumentam o horror da história (como o quadro de Camille, os pesadelos...) até o seu final trágico e inevitável. Trata-se de uma produção que merece ser conhecida, ainda que tenha recebido pouca atenção nos cinemas americanos. 

Em Segredo (In Secret/EUA-2013)  de Charlie Stratton com Elizabeth Olsen, Jessica Lange, Oscar Isaac, Tom Felton, Shirley Henderson e Matt Lucas. ☻☻☻

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

DVD: Philomena

Dench e Coogan: química (e sucesso) surpreendente. 

Stephen Frears é o tipo de diretor que corre pelas beiradas do cinema mundial. Embora sete de suas produções tenham entrado no radar do Oscar (entre eles o clássico supremo Ligações Perigosas/1988), faz tempo que Frears filma o que bem entende, transitando entre produções Hollywoodianas e obras inglesas. Alguns caem na graça da mídia e do público (como Alta Fidelidade/2000) outros parecem somente aos fãs do diretor e ele mesmo (Chéri/2009 e O Retorno de Tamara/2010), embora seu currículo impressione (ele conta com duas indicações ao Oscar de direção pelos trabalhos em Os Imorais/1990 e A Rainha/2006), Frears continua pensando como um cineasta independente. Essa visão de cinema a partir dos seus personagens é o que garante sua conexão com público e crítica - que de vez em quando volta sua atenção para o que ele está fazendo. Isso aconteceu no ano passado quando ele exibiu Philomena em Veneza e levou para casa nove prêmios (faltou somente o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival para completar), além da admiração plena de quem o assistiu. O filme ainda foi escolhido como um dos melhores do Festival de Toronto (o segundo melhor, para ser exato), além de cravar quatro indicações ao Oscar - todas merecidas e ainda faltaram algumas. Acho sempre uma bobagem começar a falar de um filme dizendo que ele é baseado numa história real, mas Philomena merece ser explicado a partir desse ponto, já que o decorrer de sua trama revela uma colagem de situações que beiram o absurdo. A personagem que dá o nome ao filme era uma jovem que engravidou precocemente após uma noite com um desconhecido conquistador. Ela tem o filho num convento e passa a trabalhar para a instituição para pagar suas dívidas. No entanto, ela nem suspeitava que as freiras dariam seu filho para adoção antes que ela pudesse sair de lá. Contando assim, parece um desses filmes sobre "os horrores da Igreja Católica", sorte que Frears não se contenta a ser uma obra polêmica, para levantar discussões e blábláblá, seu filme é sobretudo sobre histórias pessoais que quase desaparecem num contexto maior. Muitas décadas depois, a filha da protagonista, fruto de um casamento posterior, descobre o segredo que sua mãe carregou por tantos anos e decide pedir ajuda ao jornalista (um tanto arrogante) Martin Sixmith (o comediante Steve Coogan numa atuação surpreendente) que considera essas história pessoais "coisa de gente ignorante, sobre gente ignorante para leitores ignorantes". Ele considera muito mais importante escrever outra obra sobre a História da Rússia. O roteiro (belamente escrito por Coogan ao lado de Jeff Pope baseado no livro do verdadeiro Sixmith) deixa claro que, já que a carreira de Sixmith não andava bem, não custava nada ver o que havia por baixo daquela história. É assim que ele conhece Philomena Lee (uma espetacular Judi Dench) que nunca parou de pensar no seu filho e visita, secretamente, o tal convento para saber se alguém tinha informações sobre o filho. O texto se debruça sobre a diferença de seus personagens, já que Philomena é pura resignação diante de sua história sofrida e Sixmith oferece um olhar bastante crítico sobre a cadência dos fatos  que observamos durante a sessão. Embora exista uma certa arrogância em sua postura, Sixmith, aos poucos, começa a mudar seu sentimento sobre aquela história, especialmente quando a busca daquela senhora parece chegar ao fim. Diante de uma revelação devastadora (que costuma tirar lágrimas da plateia), a jornada de Philomena continua seu rumo, agora com a admiração de seu parceiro. Aos poucos vemos como uma história bastante particular, funciona como elemento revelador de uma história muito maior que precisa ser contada. Frears evita o escândalo, não crítica seus personagens (principalmente a resignação da protagonista que continua a ter fé, por mais que sua dor jamais seja curada) e entrega um filme com uma história difícil, mas magistralmente conduzida. É verdade que o texto e as atuações ajudam bastante a transformar o filme numa história de amor e esperança menos clichê do que esse comentário! Prova disso é que após seis décadas lidando com as dores do seu passado, a verdadeira Philomena Lee foi recebida pelo Papa Francisco no Vaticano após o sucesso do filme e de sua instituição (Philomena Project) que auxilia no encontro de famílias separadas por adoções forçadas. Transformar a dor em um motivo para mudar a história só ressalta o quanto a personagem merece ser conhecida. O filme foi indicado aos  Oscars de atriz (Dench), trilha sonora, Melhor Filme e roteiro adaptado (que segundo Philomena Lee mostra mais sua relação com Steve Coogan do que com o verdadeiro Sixmith!). 

Coogan e a verdadeira Philomena: relação presente no roteiro. 

Philomena (Reino Unido - EUA - França/2013) de Stephen Frears com Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Sean Mahon, Peter Hermann e Mare Winninghan. ☻☻☻☻

segunda-feira, 12 de maio de 2014

DVD: Entre o Amor e a Paixão

Rogen e Michelle: o amor resiste à comodidade do casamento?

Entre e o Amor e a Paixão já é um título que não inspira muita confiança, mas  até que serve bem para esse drama romântico assinado pela multitarefa canadense Sarah Polley. Depois de todo o sucesso de Longe Dela (que ganhou mais de 40 prêmios internacionais), Sarah (que na maior parte do tempo é atriz) provou que era uma realizadora competente (e a indicação ao Oscar pelo roteiro sobre a crise no casamento de uma personagem com Alzheimer só comprovou isso). É evidente que ao lançar seu novo filme, a diretora queria continuar no caminho por dramas humanos e relações humanas, especialmente sobre o assunto casamento (tema recorrente em sua cinematografia, para entender melhor essa obsessão, basta ver o documentário Histórias que Contamos/2012). Porém, apesar dos elogios, Entre o Amor e a Paixão é um filme difícil. Michelle Williams faz das tripas coração para que possamos simpatizar com sua personagem, a insatisfeita Margot. No início do filme vemos Margot em uma excursão, onde no final dela precisa dar uma chicotadas num personagem adúltero diante de uma plateia de turistas. Ironicamente, naquele momento ela conhece Daniel (Luke Kirby), rapaz que ainda ficará próximo dela na viagem de volta e com quem dividirá um táxi até chegar em casa. Margot não aparenta muita vaidade. Usa roupas largas, pouca maquiagem e os cabelos estão quase sempre desgrenhados, enquanto Daniel tem aquele jeito despojado sedutor com olhos verdes que parece hipnotizá-la. Quando o táxi chega ao destino de Margot ela confessa que é casada enquanto Daniel, decepcionado, revela que são vizinhos, já que ele mora numa casa quase em frente à ela. "Ai meu Deus", diz a personagem ciente de que não cair em tentação com ela tão próxima será um grande desafio. Margot é casada com Lou (Seth Rogen dando conta de um personagem mais sutil com bastante competência), um cara gorducho (afinal é um chef que prepara um livro sobre pratos envolvendo frangos em preparos variado), com um humor quase infantil e bem carinhoso. A casa deles é cheia de objetos que retratam anos de convivência e memórias compartilhadas, assim como visitas de parentes e amigos. Pena que nada disso é capaz de tornar Margot feliz. Michelle Williams tem o talento suficiente para mostrar que o que era aconchegante parece fazê-la sobrar a partir de certo momento, aí, as investidas do esposo, assim como as suas sobre ele sempre parecem desengonçadas. Ela diz que precisa de "coragem" para seduzí-lo. Atônito Lou pergunta: "Você precisa de coragem para seduzir o seu esposo?". De fato, há algo que não está funcionando no casamento dos dois (talvez só a brincadeira bizarra de descrever formas de ferir um ao outro seja espontânea para ela). Tudo só piora quando Margot passa a se encontrar com Daniel e ele revela-se um artista plástico sem sucesso que ganha a vida carregando um riquixá pelas ruas de Montreal. Com Daniel tão próximo, a resistência de Margot é testada a todo instante e a nossa também, já que o filme deixa tudo em marcha lenta, arrastado e vagaroso - deixando que o espectador desfrute de todo o tédio que Margot enxerga em seu casamento e vendo no adultério a única injeção de ânimo em sua rotina. A pergunta que o título brasileiro propõe é se a personagem deve optar pela segurança do amor no casamento com Lou ou os riscos da paixão tórrida com Daniel. Talvez, ao final das contas, Margot descubra que nada é tão sedutor quanto suas fantasias e que toda sua insatisfação nem fosse por conta de Lou (que é um cara bacana e imperfeito como todos os outros) mas das expectativas que tem sobre si mesma.    

Entre o Amor e A Paixão (Take this Waltz/Canadá-2011) de Sarah Polley com Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman e Aaron Abrahms. ☻☻

DVD: Vai que Dá Certo + O Concurso

Vai que Dá Certo: quando tudo dá errado. 

Recentemente o Brasil foi apresentado a um novo grupo de jovens comediantes que ganharam fama com shows de stand up comedy e vídeos no youtube. Agregados e conhecidos sob o nome de Porta dos Fundos, os vídeos da trupe são campeões de audiência na internet e rendeu convites para vários trabalhos na TV, no entanto, diante da liberdade que a internet lhes proporciona, deixaram claro que era melhor continuar mais ou menos com o caminho que trilharam. Alguns podem até ser vistos em programas de TVs por assinatura, mas é o cinema que tem se mostrado uma plataforma de interesse para Fábio Porchat, Gregório Duvivier e sua patota. É verdade que eles ainda precisam saber utilizar seu brilhantismo para segurar uma história de hora e meia de duração, mas basta comparar os resultados alcançados com Vai que Dá Certo (2013) e O Concurso (2013) para ver que eles estão no caminho certo. Vai que Dá Certo é fruto da parceria de Porchat com o diretor Maurício Farias (um dos maiores responsáveis pelo sucesso do seriado A Grande Família), os dois deram o trato na história dos quatro amigos de infância que após uma festa caem na real de que a vida deles não anda muito bem. A maré de azar é capitaneada por Rodrigo (Danton Mello) que perde a mulher e o emprego logo em seguida, graças a esses fatos acaba caindo na lábia de Danilo (Lúcio Mauro Filho), que inventa um crime perfeito de assalto a um carro forte para que todos consigam tirar o pé da lama. Obviamente que o plano irá se desenrolar da pior forma possível e - a melhor sacada do roteiro - os amigos irão acumular dívidas ao invés de lucros com a empreitada. A história não chega a ser original, mas prende atenção quando os amigos se metem em confusões - que ainda envolvem um amigo que virou político (Bruno Mazzeo) e a Jaqueline (Natália Lage) menina gorducha que virou cobiçada pela turma. No entanto, o desenvolvimento da história não é notável, já que existem muitos diálogos que parecem soltos e cenas em que todo mundo falando alto numa histeria irritante incomoda um bocado. Em alguns momentos parece um filme amador, mesmo que conte com os talentos de Porchat e Duvivier como uma dupla de irmãos que não levam a mínima vocação para bandidos. A bagunça final consegue ser divertida, mas enquanto cinema ainda fica devendo. Melhor resultado alcançou O Concurso, uma chacota sobre o concorrido concurso para Juiz Federal a ser realizado no Rio de Janeiro. O filme aborda a trajetória de quatro concorrentes dias antes da famigerada prova. Tem o certinho funcionário de cartório chamado Bernardinho (Rodrigo Pandolfo), o gaúcho carregado de desconfiança que atende por Rogério Carlos (Fábio Porchat), o advogado malandro carioca de nome Caio (Danton Mello) e Freitas (Anderson Di Rizzi), um cearense que vê no concurso a saída para as dificuldades que enfrenta ao lado da esposa grávida (Carol Castro). O roteiro de LG Tubaldini Jr. investe em tudo que o preparo para o concurso pode ter de inusitado. Da compra do gabarito em negociação com traficantes, sessões num centro de umbanda, pendengas com drag queens vingativas e até uma artista de circo filha do atirador de facas com a contorcionista (vivida pela comediante Sabrina Sato) aparece para atrapalhar um dos candidatos. As piadas intermináveis sobre os estereótipos do roteiro rendem risadas até o final. Destaque para Porchat e seu personagem de trejeitos sutis que mostram que uma franga está prestes a ser solta a qualquer momento. Bem fotografado e de ritmo ágil, O Concurso é uma comédia bem cuidada tecnicamente com um elenco que não tem medo do ridículo - todo mundo tem aquele momento em que a vergonha precisa desaparecer do mapa, seja por uma prótese dentária ou uma corrida sem calças por aí. Tanto empenho custou 5 milhões de reais e rendeu quase quinze milhões nas bilheterias nacionais, parece bastante, mas Vai Que dá Certo rendeu quase vinte e nove milhões nos cinemas. O sucesso dos filmes ajudaram a consolidar a produção em massa de filmes de comédia rasgada no cinema nacional, embora alguns nem sempre sejam tão divertidos quanto imaginam.  

O Concurso: preparo inusitado para o grande dia. 

Vai que Dá Certo (Brasil-2013) de Maurício Farias com Fábio Porchat, Danton Mello, Lucio Mauro Filho, Natália Lage, Gregório Duvivier e Felipe Abib. ☻☻

O Concurso (Brasil/2013) de Flávio R. Tambellini com Danton Mello, Fábio Porchat, Rodrigo Pandolfo, Anderson Di Rizzi, Carol Castro e Pedro Paulo Rangel. ☻☻☻

sábado, 10 de maio de 2014

DVD: Sete Psicopatas e um Shih Tzu

Olga, Walken, Colin, Sam, Abbie, Tom e Woody: com quantos psicopatas se faz um filme? 

Por sua engenhosidade, o inglês Martin McDonagh tem um Oscar na estante de melhor curta de ficção por Six Shooter (2004), prêmio que lhe rendeu a repercussão necessária para dirigir seu primeiro longa metragem, o superestimado Na Mira do Chefe (2008), que lhe rendeu a indicação ao Oscar de roteiro original e  o Globo de Ouro de ator de comédia para Colin Farrell (aquele ator irlandês de espessas sombrancelhas que andou gastando seu talento em refilmagens como O Vingador do Futuro/2012 e A Hora do Espanto/2011). É interessante que o filme mais interessante que Farrell fez desde então seja o segundo longa de McDonagh, este Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Maldosamente, o filme teve menos repercussão que o anterior, embora seja mais elaborado e com atuações mais marcantes. No entanto, entendo o motivo das reservas que alguns tiveram com o filme, já que em alguns momentos o diretor tropeça em sua própria pretensão narrativa. A história gira em torno de Martin (Farrell), roteirista de cinema que está tendo dificuldades para criar seu novo roteiro: Sete Psicopatas. Afim de subverter a ordem dos filmes americanos do gênero, Martin não consegue criar a história de seus sete personagens, assim apela para a ajuda do amigo Billy (Sam Rockwell) que lhe dá algumas sugestões na construção deles. Billy já seria um personagem interessante por si só, já que ajuda um senhor acima de qualquer suspeita, Hans (Christopher Walken, estupendo), a sequestrar cachorros para depois devolvê-los aos donos - depois deles divulgarem uma gorda recompensa para quem encontrar o cãozinho. Quando some o Shih Tzu do gangster Charlie (Woody Harrelson, ótimo), Hans torna-se o principal suspeito, mas existem outros interesses de Billy debaixo do sumiço do gracioso Bonny. McDonagh utiliza sua engenhosidade para costurar essa trama quase banal com os sete psicopatas do roteiro de Martin, que inspirados na vida real, acabam cruzando seu caminho em alguns momentos. Um quaker com sede de vingança, uma jovem negra sequestrada que se une ao namorado para assassinar serial killers, um vietnamita budista e um assassino que deixa cartas de baralho no local das mortes são alguns dos tipos curiosos que aparecem pelo roteiro. Dá para perceber que o diretor faz sua escrita sobre a própria história que assistimos e, a maior parte do tempo, faz com grande desenvoltura. O irônico é que enquanto costura suas tramas até o ponto em que os personagens imaginários revelam-se reais, o filme é de tirar o fôlego, depois que resolve virar "um filme francês" (nas palavras de um  dos personagem com delírios em volta de uma fogueira no deserto) o filme perde o ritmo bruscamente em situações aquém da tensão que se armava no início. Essa quebra no ritmo é até perdoável se não deixasse a impressão que McDonagh considera isso a grande sacada de sua história. Não é bem assim. Seu exercício de metalinguística funciona melhor quando é auto-crítico, como o momento em que reclama-se que a personagens femininas de Martin nunca apresentam profundidade (e percebemos que o diretor escalou um time feminino de primeira com Gabourey Sidibe, Abbie Cornish e Olga Kurylenko para pequenas participações que ficam pelo meio do caminho) ou quando relata-se uma cena de "tiroteio final" que sabemos que nunca acontecerá (embora possa ter passado pela cabeça de McDonagh). A certa altura tudo parece que é o filme que Guy Ritchie teria pensado após ver Adaptação (2002). O longa tem cenas de arrepiar entre o divertido e o sangrento, além de atuações vigorosas de Walken, Harrelson e Amanda Warren - a única personagem feminina de respeito e Sete Psicopatas e um Shih Tzu não deixa de ser uma evolução de seu criador como cineasta, agora só falta a humildade de não entregar tanto ouro antes da hora.

Sete Psicopatas e um Shih Tzu (Seven Psychopaths/EUA-2012) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Tom Waits e Tom Waits. ☻☻☻☻

segunda-feira, 28 de abril de 2014

DVD: Sem proteção

Redford e Jenkins: manchas do passado na militância. 

Faz tempo que Robert Redford tinha aquele rosto perfeito que provocava suspiros na plateia, no entanto, aos 77 anos ele continua trabalhando com fôlego. Ele sabe que seu nome já está escrito na história do cinema e pode relaxar em frentes variadas. Se ele ainda tem prestígio suficiente para carregar um filme nas costas com Até o Fim (2013) ele também pode chamar atenção numa participação especial em Capitão América 2 ou por dirigir filmes como esse Sem Proteção. Em seus últimos filmes como cineasta, Redford mostra-se mais politizado, motivando discussões em torno do "discurso dominante" sobre histórias de prismas variados. Foi assim com o fiasco Leões e Cordeiros (2007) sobre as implicações da guerra no Afeganistão no congresso americano, com o elogiado Conspiração Americana (2010) sobre os meandros da morte de Abraham Lincoln e Sem Proteção prefere abordar um grupo de militantes que na década de 1970 tornou-se procurado pelo FBI por um assalto a banco que causou a morte de um homem. Os membros do grupo militante conhecido como Weather Underground desapareceram do mapa sendo incorporados à sociedade com identidades variadas. Quando Sharon Solarz (Susan Sarandon), uma pacata dona de casa, é presa, uma série de ligações a relaciona com o advogado Jim Grant (Robert Redford). As ligações entre os dois personagens mostram-se mais profundas conforme um jovem jornalista (Shia Labeouf) começa a investigar de onde os dois se conhecem, não demora muito para que descubram que Jim na verdade era o ativista Nick Sloan, que viveu no anonimato por 30 anos, casando-se e criando uma filha, que agora completa doze anos. Ciente da encrenca iminente, Nick corre em busca de seus ex-companheiros para encontrar provas que possam reconciliá-lo com o passado. Redford faz um filme bastante convencional, que torna cansativa a jornada em busca dos amigos do protagonista. É verdade que o time de veteranos é do mais respeitável, além de Redford e Sarandon o time de ativistas aposentados ainda conta com Richard Jenkins, Nick Nolte e Julie Christie - e  os personagens ainda encontram Stanley Tucci, Brendan Gleeson e Chris Cooper pelo caminho - mas não há talento que dê conta de uma narrativa de encontros e surpresas a cada dez minutos. A partir de certo momento o filme parece se estender demais nesse formato e resta ao público saborear as discussões entre os personagens. Redford tem a sabedoria de não tomar partido no tema espinhoso que está abordando, mas consegue abordar a militância sob diversos focos para não tornar seus personagens em simples heróis ou vilões. Sabendo que a ideologia que os movia tornou-se mais complexa com o passar do tempo, o roteiro ainda explora o papel da imprensa na forma como lida com suas fontes e informações e, principalmente, o efeito do passado no presente dos personagens. Sharon Solarz diz que os filhos mudaram sua forma de ver o mundo, Nick tem em sua relação com a filha um ajuste de contas com o passado... talvez Redford encontre na trama do livro de Neil Gordon uma forma de expressar sua preocupação em deixar um legado, uma marca no mundo.  Nesse ponto o filme funciona, o problema é a parte da investigação (no qual gasta mais tempo) já que o jornalista vivido por Shia Labeouf consegue estabelecer a lógica dos passos de Nick com uma facilidade impressionante - enquanto o FBI levou 30 anos para fazer o mesmo. 

Sem Proteção (The Company You Keep/EUA-2012) de Robert Redford com Robert Redford, Shia Labeouf, Julie Christie, Susan Sarandon, Nick Nolte, Stanley Tucci, Terence Howard, Richard Jenkins, Chris Cooper e Anna Kendrick. ☻☻☻

DVD: A Face Oculta

Cillian e Susan: "Psicose" light. 

O diretor estreante Michael Lander merecia melhor sorte com seu longa de estreia, A Face Oculta foi rejeitado pelos distribuidores e foi lançado somente em DVD em vários países (incluindo os EUA). Se chegasse aos cinemas, possivelmente, o filme teria rendido a Cillian Murphy e Ellen Page indicações a prêmios por suas atuações em papéis complicados. Cillian interpreta o bancário John Skillpa, que vive na pequena cidade de Peacock no estado de Nebraska. Apesar de preferir passar-se por invisível, John é visivelmente tenso, cheio de tiques e Cillian consegue construir um personagem que aprendeu a sufocar suas intenções pagando um alto preço por isso. Mas o que um sujeito aparentemente tão comum poderia esconder? Isso descobre-se quando um trem desgovernado atravessa o seu quintal enquanto John pendura roupas no varal. Não haveria problema algum se John não gostasse de se vestir de mulher enquanto cuida da casa... nos minutos em que ficou inconsciente perante o acidente, John é visto por vários vizinhos que acreditam que o que viram era a esposa dele. Esse é o ponto de partida para um filme estranho e sombrio sobre um personagem que poderia sofrer de dupla personalidade (ou não?). Mais do que falar sobre a provável homossexualidade do personagem, o filme mergulha na mente de seu protagonista e seu dilema em ter que lidar com Emma, sua personalidade feminina. Diante das situações que o trem gera na casa de Skillpa, Emma começa a aparecer cada vez mais, mais até do que John - e isso o aborrece bastante. Se John é arredio e antissocial, Emma é seu total oposto. No início ela é bastante reservada, mas conforme percebe que consegue ser aceita por pessoas como a primeira dama da cidade (Susan Sarandon), ela torna-se mais forte do que John. Colabora ainda para que Emma domine a cena a aparição de Maggie (Ellen Page), uma jovem sofrida que teve um filho com John e que precisa de dinheiro para as despesas - e que o instinto maternal de Emma pretende ajudar. Lander faz um filme cria uma atmosfera bastante opressora e consegue jogar com bastante competência com sua maior referência, o clássico Psicose (1960) de Hitchcock. Além do protagonista estranho, a maior influência do filme está na presença fantasmagórica da mãe de John, uma mulher capaz de atrocidades e que, de fato, colaborou para a personalidade dissonante de seu filho. A Face Oculta pode irritar alguns com sua narrativa lenta e a presença de Cillian Murphy querendo convencer que todos acreditam que, quando vestido de Emma, ele é uma mulher, mas o filme consegue envolver em sua estranheza que culmina num final aberto que é quase uma prisão para o personagem. Vale lembrar que Murphy já se travestiu em Café da Manhã em Plutão (2005) e aqui ele apresenta uma atuação totalmente diferente. 

A Face Oculta (Peacock/EUA-2010) de Michael Lander com Cillian Murphy, Ellen Page, Susan Sarandon, Bill Pullman e Josh Lucas. ☻☻☻☻

segunda-feira, 21 de abril de 2014

DVD: A Caça

Mads: preso num labirinto de acusações. 

A Caça é o tipo de drama que mais parece um filme de terror. O dinamarquês Thomas Vinterberg conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, excelente e premiado em Cannes), um professor de creche que tenta reconstruir sua vida depois de um divórcio. Além dos desentendimentos com a esposa e a briga pela guarda do filho, Lucas passa o tempo na companhia de sua adorável cadelinha Fanny e dos amigos com quem caça de vez em quando. Apesar dos dramas familiares, a vida de Lucas pode ser considerada tão tranquila quanto a cidade em que vive. O melhor amigo de Lucas é Theo (Thomas Bo Larsen) que de vez em quando se desentende com a esposa e deixa a filha de oito anos, Klara (Annika Wedderkopp) meio de escanteio. Nos momentos de crise familiar, é o sereno Lucas que serve de porto seguro para a menina. É nesse desenvolvimento inicial que podemos ver  quanto Klara admira o amigo de seu pai. Percebendo isso, Lucas conversa com Klara e ela sente raiva suficiente para comentar com a diretora que "odeia Lucas" porque "ele é bobo, feio e tem pipi". Misturando referências que ouviu seu irmão adolescente conversando com amigos, ela complementa seus comentários de forma que a diretora acredita que Lucas molestou a menina na escola. Daí em diante, Lucas mergulha num inferno astral onde de bom sujeito ele se transforma num pedófilo perante a comunidade - sem nunca ficar muito claro do que está sendo acusado. O filme constrói lentamente o drama do personagem, que começa a ser rejeitado por toda a comunidade, perde o emprego, as chances de ficar com o filho e se torna alvo de ações violentas de quem antes considerava ser seus amigos. Cria-se entre os personagens uma estrutura sufocante, onde a verdade nunca consegue aparecer numa histeria coletiva onde o que importa é execrar Lucas e quem está perto dele. Econômico em sua narrativa, mas pleno no domínio de cada cena, Thomas constrói um drama pesado num ritmo de pesadelo onde a condução de um comentário é capaz de acabar com a vida de alguém. Vendo o filme lembrei de O Processo de Kafka e de As Bruxas de Salém de Arthur Miller, mas A Caça ganha vida própria ao lidar com uma paranoia atual de forma bastante contundente. O filme serve como modelo exato de como não lidar com um caso desses, a diretora nunca faz as perguntas certas à menina, deixa sempre lacunas para que seus próprios medos possam preencher, da mesma forma, nunca é clara com a comunidade, deixa o imaginário de todos aumentar ainda mais o comentário da menina, expõe vítimas, o suspeito e seus familiares, vizinhos, crianças, escola... transformando toda a cidade num campo onde quem é considerado "pessoa de bem" precisa estar disposto a cometer alguma selvageria. A tensão é crescente e a reflexão sobre como a "civilidade" se transforma facilmente em "selvageria" quando borramos os conceitos de vingança e justiça é certeira em seus objetivos. Há de se exaltar as atuações de todo o elenco, sobretudo da menina Annika e de Mads que está excepcional na pele de Lucas (há nele algo de Jó, que fica ainda mais evidente na catártica cena da igreja).  Vinterberg cria aqui o seu melhor filme, curiosamente, abordando uma tema parecido com do longa que o revelou para o mundo (o controverso Festa de Família/1998). Além da boa condução da jornada de Lucas, o filme mostra-se brilhante quando, ao final, tudo parece se acertar de forma incômoda ao espectador - até que uma surpresa (que remete diretamente ao título) mostra que, por mais que a verdade tenha aparecido, a mancha permanecerá para sempre na vida de seus personagens.   

A Caça (Jagten/Dinamarca-2012) de Thomas Vinterberg com Mads Mikelsen, Annika Wedderkopp, e Thomas Bo Larsen. ☻☻☻☻

sexta-feira, 18 de abril de 2014

DVD: Butter - Deslizando na Trapaça

Garner: espécie de Desperate Housewive psicótica.  

Não é fácil ser Jennifer Garner. Depois de protagonizar um dos melhores seriados de ação da década passada (a celebrada Alias que durou de 2001 até 2006 sob a batuta de J.J. Abrams), receber prêmios e ser apontada como a nova Julia Roberts (sempre tenho a impressão que Hollywood procura isso, não sei exatamente o motivo, mas Sandra Bullock e Julia Ormond também ouviram a mesma coisa) ela foi deixada meio de lado depois de protagonizar filmes que não decolaram (sobretudo a personagem dos quadrinhos Elektra/2005, mais conhecida como namorada do Demolidor/2003 de Ben Affleck). Se a carreira tem seus tropeços, Jennifer parece feliz no casamento com Ben Affleck (que já dura nove anos, uma eternidade para os astros do cinema) e seus três filhos (duas meninas e um menino) para cuidar. Entre uma licença maternidade e outra, Jennifer encontra refúgio em filmes independentes que costumam funcionar (basta lembrar de Juno/ 2007 ou o recente Clube de Compras Dallas/2013 ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme). Em 2011 ela chegou a produzir esta comédia de costumes que tinha a ambição de lhe garantir, pelo menos, um lugar no páreo do Globo de Ouro, mas o filme teve problemas com a distribuição durante a temporada de ouro nos EUA e acabou sendo exibido somente em festivais, - sendo exibido em poucas salas, obtendo uma carreira inexpressiva no cinema. Dito isso, o filme pode até assustar, mas Butter está longe de ser um desastre, mas talvez a ideia de chamar um filme de "manteiga" e contar uma história ambientada em concursos de esculpir o laticínio não tenha rendido uma boa campanha de divulgação. O diretor Jim Field Smith acerta no tom de deboche com que apresenta seus personagens e mostra que não  se pode levar a sério quem vê um concurso desses como sua única forma de subir na vida - esse é o problema de Laura (Jennifer Garner). Debaixo de sua casca de esposa perfeita, percebemos que existe algo meio fora do eixo em sua vida quando dela decide assumir a carreira do esposo, Bob (Ty Burrell), que ficou famoso por criar esculturas inovadoras em manteiga. Com Bob aposentado, ela acredita ter técnica suficiente para derrotar seus oponentes, até que uma criança (a carismática Yara Shahidi) torna-se sua maior oponente. Se Laura não consegue convencer nem a enteada (que a detesta), imagina como ela enfrenta uma menina fofa, talentosa e com histórico de vida cheio de dramas (foi abandonada pela mãe, viveu em orfanato é adotada... o que rende um hilariante discurso sobre os ganhadores do American Idol). Enquanto a menina encontra os pais adotivos que pediu a Deus - vividos por Rob Corddry e... Alicia Silverstone (!!!) em um bom momento -, o roteiro demonstra que nem tudo é perfeição na vida de Laura e Bob (ela está prestes a cair na lábia de um ex-namorado vivido por Hugh Jackman e Bob é amante de uma stripper vivida por Olivia Wilde). Quando a competição deixa Laura a beira do surto resta a ela apelar para o que o título anuncia. É verdade que o diretor não poupa os personagens de um tom caricatural, mas a coisa funciona de forma bastante eficiente. Apesar do filme não ter alcançado o sucesso que esperava, Jennifer Garner consegue construir uma personagem bastante interessante, uma espécie de irmã mais nova da personagem de Annette Bening em Beleza Americana/1999 (o filme em geral parece um irmão menor do celebrado longa de Sam Mendes), já que Laura não tem noção do quanto está deslocada no universo que escolheu para si e, por isso mesmo, faz Butter ser mais interessante do que ambiciona. O filme também vale a pena para ver Hugh Jackman num papel mais cômico do que estamos acostumados a vê-lo. 

Butter - Deslizando na Trapaça (Butter/EUA-2011) de Jim Field Smith com Jennifer Garner, Yara Shahidi, Ty Burrell, Olivia Wilde, Hugh Jackman, Alicia Silverstone e Rob Corddry. ☻☻☻

DVD: O Labirinto de Kubrick

Jack e o labirinto: colagem de referências ou de subjetividades?

Não sei o efeito que os filmes de Stanley Kubrick têm sobre você, mas tenho consciência de que eu sou hipnotizado por eles. Posso até não gostar quando os assisto pela primeira vez, mas  sinto vontade de vivenciar as experiências que proporcionam mais de uma vez - e quando os assisto novamente consigo apenas enxergar qualidades. Talvez seja por esse motivo que Kubrick seja considerado um mestre, um dos poucos cineastas capaz de enfileirar uma obra-prima depois da outra e, por isso mesmo, um documentário sobre a sua obra era quase inevitável. Room 237 causou alguma polêmica quando foi exibido em Sundance, talvez pela forma bastante subjetiva como recebe o formato documental quando, na realidade, seja uma coleção de interpretações sobre um dos filmes de maior sucesso de Kubrick: O Iluminado. Lançado em 1980, o filme é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, o que torna mais curioso perceber que embaixo da trama esconde-se uma série de referências que tornam o filme mais rico. São essas referências que renderam o título nacional de O Labirinto de Kubrick. O cineasta mescla simbologias de forma quase inconsciente na mente do espectador. Dentro dos vários olhares que o filme apresenta, a única que eu havia percebido é a forma como o diretor apresenta o hotel como um verdadeiro labirinto de percepções (é como se os cômodos tivessem vida própria, movendo-se de um lado para o outro, confundindo o espectador entre cortes e sobreposições precisas. O Hotel nunca parece o mesmo quando se anda dentro dele - é quase como se os personagens e o espectador se perdessem em seu sistema digestório). Há indícios de que Kubrick queria provocar o espectador a perceber o quanto é fácil ser enganado pelas imagens e isso o torna bastante instigante. No entanto, esse é apenas um dos itens utilizados pelo diretor para enriquecer essa adaptação da obra de Stephen King (que, como dizem no filme, odiou a adaptação devido as alterações que o diretor realizou em sua história original). A trama mostra um escritor Jack (Jack Nicholson) que se isola num hotel junto com a família e enlouquece aos poucos sob a influência das assombrações que habitam aquele lugar - dizer mais do que isso pode estragar a sessão. De acordo com os entrevistados, a trama aparentemente simples, servia como uma luva para as ousadias narrativas que o diretor queria utilizar depois de sua insatisfação com o resultado alcançado em Barry Lyndon (1976). Se Lyndon pode ser considerado um filme "tedioso feito por um homem entediado",  Kubrick queria se recuperar em sua obra seguinte, realizando um filme que explorasse o poder da imagem sobre o espectador, misturar referências que iam desde o genocídio dos índios americanos, o holocausto, desejos sexuais, mitologias e a forma como a humanidade destrói sua família sobre a terra. Debaixo de todas essas camadas que rondam a cabeça do protagonista (e do diretor), ainda há os que acreditam que O Iluminado esconde a confissão de Kubrick sobre seu envolvimento na farsa das imagens divulgadas da viagem da Apollo 11 à Lua (essa confissão estaria presente em diálogos, na camisa usada pelo filho de Jack, no número do quarto presente no título - que corresponde à distância entre a Terra e a Lua). O diretor Rodney Ascher faz em seu primeiro longa-metragem (antes havia realizado somente curtas e tinha experiência em efeitos visuais) uma colagem curiosa das obras de Kubrick (além de O Iluminado, ainda utiliza várias cenas de 2001 - Uma Odisseia no Espaço/1968, Lolita/1962, De Olhos bem Fechados/1999...) com filmes antigos e outros nem tanto (como a versão de O Iluminado feita para TV em 1997 em forma de minissérie) para ilustrar o que seus entrevistados tem a dizer. Chama a atenção o fato de nenhum deles ser famoso e que em momento algum o rosto deles é revelado, trata-se de um grupo de pessoas diversas que admiram o diretor e sua obra - e que constuíram ao longo do tempo interpretações interessantes para um filme. É interessante conhecer essa colagem subjetiva de impressões, mas dificilmente suas afirmações irão ser lembradas quando o espectador estiver mergulhado na narrativa de O Iluminado mais uma vez. Prometo que assistirei a O Iluminado novamente e escreverei sobre ele ao efeito do que ouvi sobre esses 102 minutos. 

O Labirinto de Kubrick (Room 237/EUA-2012) de Rodney Ascher com entrevistas de Bill Blakemore, Geoffrey Cocks, Juli Kearns e Jay Weidner. ☻☻☻

quinta-feira, 17 de abril de 2014

DVD: A Porta

Mads: nem sempre o passado é mais seguro. 

Existem filmes que dariam um ótimo episódio seriado Além da Imaginação, o dinamarquês A Porta é um desses. O filme funciona bem no seu misto de drama e suspense, conseguindo manter o interesse mesmo quando sua trama fica mais estapafúrdia. Tenho que ressaltar que ter no alto dos créditos um ator do porte de Mads Mikkelsen ajuda bastante a desbravar o filme. Ele encarna David, um artista plástico que coleciona amantes, apesar de ser casado e ter uma filha. David é um sujeito tão descarado que tem um caso até com a vizinha sem que a esposa desconfie. É por conta de um desses encontros secretos que ele deixa a filha sozinha em casa... e ela morre num acidente. Cinco anos se passam e vemos que David ainda não se recuperou da perda e da culpa que sente. Além disso, sua carreira foi pelo ralo, a esposa o deixou e resta a ele vagar por aí até que sua vida termine. Eis que numa dessas noites de depressão, David encontra uma caverna que revela-se uma espécie de fenda no tempo. Passando por ela, David retorna ao dia fatídico que mudou sua vida e consegue mudar o rumo das coisas ao salvar a filha do terrível acidente. O problema é que nem tudo são flores, já que, David encontra consigo mesmo no dia em que retorna ao passado e após uma briga acaba sendo o único David a existir (?!). Ficou confuso? A coisa piora depois. A filha dele observa que algo estranho aconteceu e resta a ele convencer a esposa (Jessica Schwarz) que tudo continua como antes. Baseado no livro de Akif Pirinçci, o roteiro de Jan Berger consegue ser bastante engenhoso ao não deixar claro ao espectador se tudo o que acontece é um delírio de David ou se realmente está acontecendo. Essa ambiguidade faz o que o filme tem de mais surreal funcionar amparado pelo desejo do espectador de mudar algo em seu passado, voltar a um ponto onde poderia mudar o rumo dos fatos e deixar tudo mais feliz, ou pelo menos, aparentemente. Na jornada de David pelo passado, ele ainda tem algumas coisas a acertar, já que seus casos extraconjugais ainda se mostram pedras no caminho de seu relacionamento com a esposa - que já precisava ser resgatado. Mads (que deve ter um dos rostos mais exóticos do cinema) consegue demarcar as emoções do personagem com precisão a cada transição do personagem, sempre deixando claro que ele esconde um doloroso segredo perante os que o cerca. O filme fica mais complicado quando a vida no passado é menos confortável do que parece, não apenas por conta das ações do protagonista, mas porque outras pessoas voltaram ao passado e precisaram se livrar de sua versão de cinco anos atrás - o que coloca em riscoa vida de todos, inclusive de sua esposa. Enquanto utiliza os dramas dos personagens para construir o suspense o filme funciona bem, quando começa a parecer um filme de terror com assassinatos e conspirações o filme perde um pouco do fôlego, se parecendo com vários outros do gênero, ainda assim, o filme comprova que a Dinamarca anda com uma cinematografia bastante interessante.

A Porta (Die Tür/Dinamarca-2009) de Anno Saul com Mads Mikkelsen, Jessica Schwarz, Tim Seyfi e Valeria Einsenbart. ☻☻☻

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DVD: Uma Ladra sem Limites

Bateman e Melissa: frutos de uma dura transição. 

Ainda que hoje pareça que não existe tanto preconceito do artista que transita do cinema para a televisão, o inverso ainda não é tão evidente. A TV está aberta para astros do porte de Woody Harrelson, Kevin Bacon, Matthew McConaughey e Al Pacino, mas o cinema ainda resiste em abrigar os talentos da telinha. É verdade que existem artistas que dão sorte e conseguem uma transição tranquila de uma mídia para outra, já outros nem tanto. A comédia Uma Ladra Sem Limites  traz dois exemplos do árduo processo de ganhar a vida na tela grande: Jason Bateman e Melissa McCarthy. Bateman ficou famoso com a elogiada série Arrested Development, que em 2013 foi ressuscitada. Jason está sempre fazendo filmes, mas  seus papéis são sempre muito parecidos, ou seja, conseguiu fincar um tipo entre os produtores de Hollywood e quando conseguir subvertê-lo irá surpreender e ganhar prêmios. O difícil é conseguir sair da camisa de força que é o estereótipo no cinema... já McCarthy deu mais sorte, depois de utilizar seu tipo rechonchudo para construir personagens adoráveis na televisão (como em Gilmore Girls ou em Mike & Molly), no cinema ela prefere investir em personagens diferentes do que a TV gosta de apresentá-la. Foi assim que ela conseguiu vaga nas premiações como a madrinha abrutalhada de Missão Madrinha de Casamento (2011) e tem ganho o pão em produções como essa. Melissa tem se mostrado ótima em construir tipos diferentes para si e aqui ela se torna a maior graça de um filme que estica sua única piada ao limite. Sandy Patterson (Bateman) é o cara certinho que descobre que seu nome está manchado por conta da ação de um ladrão que clonou sua identidade - e o fato de ter um nome unissex facilita ainda mais a empreitada. Diante da burocracia da ação da polícia ele só poderá tomar alguma providência depois que cassar o estelionatário por sua própria conta e risco. É assim que ele encontra uma vigarista (McCarthy) que acostumou-se a ganhar a vida contraindo dívidas através de identidades falsas. Apesar a habilidade habitual de Jason, é Melissa que garante as risadas em cenas absurdas e até sórdidas (a noite no motel com um convidado especial da série Modern Familly é bastante estranha). Ainda que o roteiro saiba explorar a situação com tudo que ela pode proporcionar de absurdo no início, aos poucos o filme humaniza sua vilã e a mostra quase como uma vítima do sistema. Fosse feito nos anos 1980, Uma Ladra Sem Limites poderia ser uma diversão ainda mais radical com a disposição que sua atriz tem para arrancar gargalhadas da plateia. Conforme caminha para seu final previsível após a constante perseguição que vitima seus protagonistas (o casal é perseguido por assassinos profissionais), o filme perde um pouco do ritmo. No entanto, Melissa deixa claro que tem  um lugar garantido para ela em comédias despretensiosas na telinha ou na telona. 

Uma Ladra Sem Limites (Identity Thief/EUA-2013) de Seth Gordon com Melissa McCarthy, Jason Bateman e Robert Patrick. ☻☻

quinta-feira, 27 de março de 2014

DVD: Segredos de Sangue

Mia, Nicole e Matthew: família esquisita. 

Segredos de Sangue era um dos filmes que mais aguardei em 2013, talvez por isso tenha deixado um gosto de decepção. Nem me refiro ao longa ter passado em branco nos cinemas brasileiros, ou de sua bilheteria mundial ter sido modesta, o fato é que a expectativa gerada pela estreia do cineasta Chan-Wook Park em Hollywood (do badalado Oldboy/2003) pode ter prejudicado ao filme. Não que ele seja ruim, mas deixa a impressão que tem mais forma do que conteúdo. O diretor não poupa a plateia de cenas belamente construídas, ainda que seja dentro de uma atmosfera vampírica (potencializada ainda mais pelo nome original: Stoker - sobrenome da família do filme e do autor de Drácula). No entanto, o roteiro do ator Wentworth Miller (da série Prison Break em sua estreia como roteirista) funciona somente quando prefere manter escondido o que há na mente dos protagonistas, conforme revela os segredos a coisa fica cada vez mais previsível e desinteressante. Tudo gira em torno de India (Mia Wasikowska) que ainda tenta lidar com a morte do pai (Dermott Mulroney, com aquela pança que cada vez mais imagino ser real). A adolescente era muito próxima, mas com a morte dele seu melhor amigo passa a ser o piano - e sua maior motivação é descobrir quem lhe manda sempre o mesmo modelo de sapato todos os anos como presente de aniversário. Seu relacionamento com a mãe, Evelyn (Nicole Kidman) é distante - e a coisa piora quando as duas recebem a visita do tio Charlie (Matthew Goode). Charlie ficou longe por muito tempo por conta de suas viagens pela Europa, talvez por isso soe tão atraente para as duas mulheres tão acostumadas ao universo limitado da sombria casa onde vivem. É visível que existe um elegante clima de sedução entre os personagens, já que Charlie representa para Evelyn um novo começo e para India o começo de sua vida como adulta. No entanto, a visita de tia Gin (a ótima Jackie Weaver) mostra uma preocupação com a presença do misterioso Charlie tão perto das duas - e ela serve para mostrar do que Charlie é capaz para manter seus segredos intactos. Conforme o diretor desenvolve a tensão nesse núcleo familiar a coisa funciona bem, mas quando dedica-se a mostrar o que Charlie quer tanto esconder... o filme decepciona, nem mesmo os indícios de que India possa ter mais em comum com o tio do que a mãe supõe parece interessante. O problema pode estar no excesso de estilização proposta pelo diretor, que nunca parece aproximar os dilemas dos personagens da plateia ou até mesmo do segredo que revela-se quase banal já que, debaixo de tanta elaboração cênica, o que era para ser um "trunfo" revela-se semelhante a um monte de filmes que já vimos. É verdade que existe algumas ousadias (a cena de India no chuveiro, o close em Evelyn prestes a perecer...), mas o arremate do filme é bem menos interessante do que as promessas de seu início. Na trama sobre perda da inocência, o conflito entre mãe e filha (e a concepção anacrônica das personagens colabora bastante para isso) é mais interessante do que India descobrindo os genes que tem em comum com o tio. Deveríamos nos contentar com  o visual de conto de fadas gótico? Acredito que não. Penso que Chan-Wook Park poderia fazer mais se desse mais atenção aos personagens (a cena final de India na beira da estrada ou Evelyn revelando seus sentimentos ruins com a maternidade soam abruptas e mal desenvolvidas) do que ao visual do filme. 

Segredos de Sangue (Stoker/EUA-Reino Unido/ 2013) de Chan-Wook Park com Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode e Jackie Weaver. ☻☻☻

segunda-feira, 24 de março de 2014

DVD: Querido companheiro

Keaton e Kline: gracinhas sem ousadia. 

Em mais de trinta anos de trabalho no cinema, começando como roteirista (O Império Contra-Ataca/1980 e Os caçadores da Arca Perdida/1981) e depois como diretor (de Corpos Ardentes/1981 passando pelo elogioado O Reencontro/1983 e o sucesso de O Guarda Costas/1992), nunca Lawrence Kasdam havia deixado de lançar um filme por tanto tempo. Nove anos separam esse aqui do hediondo O Apanhador de Sonhos (2003), que baseado na obra de Stephen King se tornou o pior filme do diretor. Graças aos deuses do cinema, não existe qualquer semelhança entre ele e Querido Companheiro. É como se Kasdam demorasse todo esse tempo para colocar sua carreira sob uma nova perspectiva, voltando o olhar para as situações mais simples, mas que são capazes de gerar mudanças na vida de pessoas comuns (tal e qual apresentou no ser melhor filme, O Reencontro). É verdade que apesar de contar com um elenco formado pelos premiados veterados  Kevin Kline, Diane Keaton, Diane Wiest e Richard Jenkins, o filme não tem medo de soar brando na forma em que conta sua história. A trama gira em torno do aparecimento e desaparecimento de um cachorro, numa família de vida bem confortável. A família Winter, chefiada por Beth (Diane) e o médico Joseph (Kline) parece perfeita. A filha Grace (Elizabeth Moss) está terminando o doutorado e tudo encontra-se naquele ponto cômodo em que se tudo permanecer como está, já está de bom tamanho. Mas será que está mesmo? Se num primeiro momento o cão encontrado serve para aproximar Grace de um veterinário indiano (Jay Ali), é justamente após a cerimônia de casamento deles que o cão irá se perder e forçar Beth e Joseph a discutirem a relação. Os Winters aproveitam a cerimônia para ficar um final de semana em sua propriedade nas montanhas, na ocasião, contam com a companhia de Penny (Dianne Wiest), irmã de Joseph, seu atual namorado Russell (Jenkins) - que pretende abrir um pub que tem como maior atração servir cerveja morna - e o filho de Penny, o também médico Bryan (Mark Duplass, que assina ao lado do irmão Jay a direção de filmes como Cyrus/2010 e Jeff e as Armações do Destino/2011). Depois que conhecemos um pouco mais esses personagens, Joseph sai para passear com o cachorro e o perde enquanto conversa no celular. Começa então a busca pelo bicho de estimação e o jorro de cobranças que deixaram Beth engasgada por tantos anos de casamento. Não espere muita profundidade ou muita sujeira na tela, Kasdam não perde a simpatia nesses momentos e consegue ser casto até quando apresenta o flerte entre o certinho Bryan com uma mulher de origem cigana (Ayelet Zurer). Com uma gracinha aqui e outra ali, apresentada por um elenco carismático, o filme é fácil de assistir (principalmente com as belas locações emolduradas por uma fotografia de cartão postal) mas ao final da sessão não deixa de parecer um pouco preguiçoso. Nada contra um programa leve e despretensioso para curtir quando não se tem mais nada a fazer, mas Kasdam não ousa um milímetro durante a sessão. No fim da sessão, parece mais um filme que investe num público que andava abandonado em Hollywood, os filmes para terceira idade. Assistindo a Querido Companheiro, temos a ideia exata dos mandamentos presentes na cartilha desse novo filão cinematográfico. É um filme bem feitinho, mas não deve ficar na memória por muito tempo.

Querido Companheiro (Darling Companion/EUA-2012) de Lawrence Kasdam com Dianne Keaton, Kevin Kline, Richard Jenkins, Dianne Wiest e Mark Duplass. ☻☻

DVD: Cores do Destino

Carruth e Amy: amor, larvas, porcos e esquizofrenia. 

Devo confessar que tenho uma queda por produções estranhas, mas de vez em quando encontro algumas que até eu duvido que consegui assistir, talvez por isso, fiquem martelando na minha cabeça por dias depois que acabo de assisti-las. Ontem assisti Cores do Destino, filme independente que chamou a atenção no ano passado desde que foi aclamado em Sundance, de onde saiu com o prêmio especial do júri pela "forma inventiva como utiliza som e imagem". Ainda que as plateias possam rejeitar a proposta do diretor Shane Carruth, há de se perceber que a mente do rapaz é bastante engenhosa na hora de construir quebra-cabeças dramáticos sobre tramas de ficção científica. Ele já havia realizado algo semelhante com Primer (2004) e aqui ele injeta doses cavalares de romance para narrar um experimento que beira o grotesco, mas tratada com uma plasticidade cênica e sonora que a torna uma bela experiência sensorial. No entanto, apesar dos nós que pode dar na mente do espectador, seu fio condutor é fácil de entender. Nas primeiras cenas nos deparamos com a criação de uma larva, cultivada a partir de uma planta. Quando essa larva é introduzida no ser humano, ela torna sua vítima submissa ao poder da sugestão, ela funciona como uma espécie de hipnose ou até amnésia. Ela é utilizada por um ladrão para fazer com que Kris (Amy Seimetz, ótima) lhe entregue todo o seu dinheiro. Depois, Kris tenta seguir a vida normalmente, mas não consegue devido aos efeitos daquilo em seu organismo. Quando descobre o que está acontecendo, ela busca uma cura através de um tratamento inusitado - realizado por um criador de porcos misterioso (Andrew Sensenig). Quando se considera curada, ela se envolve com Jeff (vivido pelo diretor Shane Carruth). Parece que a coisa ficará mais tranquila? Bem... aí a narrativa do filme se rende a uma rede de cenas fragmentadas, que podem ser vistas como analogias entre o casal e os animais criados pelo personagem misterioso... entre outras coisas. Kris continua ouvindo sons estranhos, tem sensações esquisitas e percepções que parecem além do seu corpo. É visível que Kris ainda padece dos efeitos da larva  e isso afeta a forma como segue sua vida e o relacionamento com o compreensivo Jeff. Não espere respostas, clareza ou sentidos explícitos na narrativa, Carruth nos submete à mesma percepção fragmentada da realidade vivenciada por sua protagonista. Ainda que o espectador possa compreender a essência da trama, torna-se um desafio acompanhar a narrativa e superar a suspeita de que na verdade não estamos entendendo muito bem o que está acontecendo. O fato é que o filme consegue ser tão instigante quanto confuso. A ideia de sobrepor os efeitos da larva no organismo com a chegada do amor na vida de Kris é interessante e traz uma aura esquizofrênica que motiva acompanhar, no entanto, não é todo dia (e nem é todo mundo) que está disposto a desbravar os paralelos propostos pelo roteiro. Porém, nada chama mais atenção que a coragem de Carruth, afinal, estamos diante de um diretor de 42 anos que dirigiu somente dois longas e que costuma fazer tudo em seus trabalhos: dirige, atua, escreve, produz, edita, fotografa... talvez por isso seu cinema tenha uma identidade tão forte (que me lembra muito o caminho que Darren Aronofsky teria seguido se continuasse na seara de seu longa de estreia, o famigerado Pi de 1998) ainda que distante do grande público (que não está acostumado a ter suas concepções alteradas a cada dez minutos de projeção). A boa notícia é que Shane não ficará nove anos sem instigar a audiência (entre Primer e Cores do Destino ele deu forma e abandonou um projeto, A Topiary I que não vingou), seu novo filme The Ocean Modern já está em produção e deve envolver "comércio de commodities, piratas e corsários...", resta esperar para ver se criará tanto barulho quanto as interpretações subjetivas provocadas por Cores do Destino.

Cores do Destino (Upstream Color/EUA-2013) de Shane Carruth com Amy Seimetz, Shane Carruth e Thiago Martins. ☻☻☻

segunda-feira, 17 de março de 2014

DVD: Histórias que Contamos

Michael e Sarah Polley: reverenciando a história da família.

Sarah Polley é uma atriz canadense que já trabalhou em vários filmes queridos pela crítica (entre eles Exótica/1994 e O Doce Amanhã/1997, ambos de Atom Egoyam, Vamos Nessa/1999 de Doug Liman e Minha Vida sem Mim/2003 de Isabel Coixet), mas apesar de todo o respeito conquistado diante das câmeras é atrás delas que Sarah parece mais confortável. Foi em seu segundo longa metragem que abordou as dores do esquecimento em Longe Dela (2006) e conseguiu arrancar uma performance memorável de Julie Christie (indicada ao Oscar de Melhor Atriz), além de conseguir para si uma indicação ao careca dourado de roteiro adaptado. Chega a ser impressionante que enquanto lançava a crise no casamento de Entre o Amor e a Paixão (2011), ela terminava de lapidar esse documentário que explora uma temática bastante pessoal. Num primeiro momento, tem-se a impressão que a diretora reuniu a família para falar sobre sua mãe, Diane. No início existe grande hesitação de todos os envolvidos, o pai (intrigado com as câmeras presentes no estúdio onde ele grava a narração do filme), os dois irmãos (Mark e John), as duas irmãs (Suzy e Joanna), os amigos da família... Sarah tem dificuldades de dar forma ao que ela não gostaria que fosse apenas uma jornada egocêntrica em sua intimidade. As cenas aleatórias dão a impressão de que a ideia da cineasta ainda procura uma forma - e quando a encontra toda a desconfiança da plateia é quebrada. O que vemos através das entrevistas é a forma como todos nos apresentam a matriarca Diane. Uma atriz de uma energia contagiante, que contaminava toda a família, mas existem pistas de que existe um segredo que todos evitam revisitar num primeiro momento. A constituição da família Polley é exposta para o público com todas as suas alegrias, tristezas, elos, aspirações e tropeços. Do dia em que Diane conhece Michael Polley numa peça de teatro, a chegada dos filhos, a crise no relacionamento, além das tentativas de Diane ser reconhecida como atriz (e a forma como as dores de ter perdido a guarda dos filhos do primeiro casamento - John e Suzy) marcará seus atos futuros. É como se aos poucos a diretora construísse uma grande colagem sobre aqueles personagens que giram sobre a órbita de sua mãe, até o momento em que revela o motivo de todo esse cruzamento de narrativas: a suspeita de que Sarah não seria filha de Michael Polley. É visível como esse fato é doloroso para a família, sobretudo para a forma como a vivenciam - é Mark que consegue expressar de forma mais tocante as angústias de sua mãe, ainda que não a isente de reprovações. Mais emocionante que a jornada da diretora em busca do pai biológico, são as cenas onde os personagens precisam se deparar com uma dolorosa verdade, que no fundo, não parece fazer tanta diferença assim. Sarah cria um filme sensacional, onde revela que um documentário pode ser única e somente o cruzamento de versões sobre o passado, mas isso não impede que seja rico e crie impressões universais de como uma família forja a construção da identidade de seus sujeitos. Além disso, o encadeamento das entrevistas mostra-se fundamental para que conheçamos Diane como um ser humano e não um ser mítico, além disso tem a memorável cena final (a primeira gravada para o documentário) onde Michael Polley confronta as intenções (in)conscientes da filha. Ele reage de forma deliciosamente humana aos sentimentos que passaram na cabeça da diretora durante toda a feitura do filme. Histórias que Contamos é um documentário simples sobre pessoas comuns, mas realizado no capricho com cenas reais entremeadas com atores representando os personagens quando jovens. Sem os moralismos e ressentimentos que costumam aparecer nesse tipo de fime, Sarah Polley realizou outro grande trabalho, que prima, sobretudo, pela sinceridade. 

Histórias que Contamos (Stories We Tell/Candá-2012) de Sarah Polley com Michael Polley, Sarah Polley, John Buchan, Suzy Buchan, Mark Polley, Joanna Polley, Harry Gulkin e Anne Tait. ☻☻☻☻