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sábado, 27 de março de 2021

PL►Y: O Refúgio

Jude e Carrie: mansão assombrada pelas aparências. 

Não são poucos os que clamavam uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Carrie Coon por sua interpretação em The Nest (que preferiram traduzir por mais um O Refúgio do que batizar com o literal O Ninho por aqui). Carrie tinha uma carreira premiada no teatro até começar a receber papeis de destaque sem séries de televisão e convites para o cinema. Embora sempre tenha habilidade de tornar interessantes papéis de coadjuvante (sua estreia no cinema foi como a irmã de Ben Affleck em Garota Exemplar/2014), agora ela tem sua primeira grande protagonista. Ela vive Alisson O'Hara, uma professora de equitação que tem ao lado do esposo Rory (Jude Law) e filhos uma vida confortável em Nova York, mas por conta dos negócios do esposo, a família precisa se mudar para o Reino Unido. Aparentemente Rory se sente em casa, já que volta para sua terra natal enquanto os outros membros da família passam por um período de estanhamento que parece comum à mudança para um casarão um tanto, sombrio. De início o espectador vai achar o filme bastante sem graça por conta da forma como o diretor  Sean Durkin (do anterior Martha Marcy May Marlene/2011) resolve revelar aos poucos a realidade por trás daquela situação. Para começar a  mudança na fotografia (assinada pelo húngaro Mátyás Erdély) ajuda bastante a criar a atmosfera necessária para o filme brincar com as simbologias de casas mal assombrada com o horror da inadequação e o distanciamento que recai sobre aquela família. Cada um começa a se sentir cada vez mais solitário naquele casarão imponente, que cai como uma luva para esconder um verdadeiro jogo de aparências que Rory experimenta. Embora comece o filme bastante simpático, o maridão precisa provar o tempo inteiro que se tornou um sucesso, seja para a mãe, os patrões, os futuros sócios... mas não consegue convencer a esposa que está cada vez mais sufocada com a nova realidade. Durkin não tem pressa de apertar os nervos de seus personagens e faz uma espécie de terror psicológico que cresce em tensão e incomoda em sua segunda metade. Se Jude Law não inova em seu personagem, Carrie Coon carrega a responsabilidade de estabelecer o vínculo com a plateia e mantê-la ao seu lado durante toda a sessão (vale lembrar que os dois foram indicados ao Gotham Awards por seus trabalhos). A atriz tem um trabalho perfeito de construção interna de uma personagem, seus gestos, olhares e posturas compõem uma personagem soterrada por aquela realidade enganosa criada pelo esposo. Se existe um problema no filme é o seu desfecho - que é onde a plateia imagina que seria de pura explosão. Mas será que os O'Hara continuarão presos naquela casa (que está bem longe de ser seu ninho)?

O Refúgio (The Nest / Reino Unido - Canadá / 2020) de Sean Durkin com Carrie Coon, Jude Law, Oona Roche, Charlie Shotwell, Tanya Allen e Michael Culkin. ☻☻☻☻

sábado, 15 de junho de 2013

DVD: Martha Marcy May Marlene

Elizabeth e Hawkes: a melhor Olsen de toda a história. 

Não lembro de ter visto este filme ganhar espaço nos cinemas. Depois de assistí-lo em DVD acho que, devido a sua estranheza, acabou indo direto para as locadoras. Desde a exibição em Cannes o filme do novato Sean Durkin foi saudado com elogios, principalmente por exibir os genes mais famosos da família Olsen, que foram todos para Elizabeth. Ela é a irmã caçula daquelas gêmeas (chatinhas) Mary-Kate e Ashley Olsen, curioso é que bastou apenas um filme para que ela fosse considerada a melhor atriz da família e quase fosse indicada ao Oscar! Pode parecer truque de marketing, mas a garota, que tinha vinte anos quando o filme foi realizado é realmente bastante competente. O resultado é fruto das aulas de teatro que obteve na infância e os estudos na Escola de Artes de Nova York. A indicação ao Oscar de Lizzie acabou não aparecendo, mas ela colecionou alguns prêmios da crítica e em festivais de cinema independente. Desde o início vemos que Martha Marcy May Marlene não é o tipo de filme realizado para ser um campeão de bilheteria, mas é extremamente eficaz em sua proposta de gerar tensão ao explorar um tema que parece estar voltando à moda. O filme mistura o passado e o presente de Martha (Elizabeth Olsen), uma adolescente que parece ter atravessado problemas familiares e cujo o único parentesco é com uma irmã recém casada (Sarah Paulson). Martha passa a morar com a irmã depois de algum tempo em meio a uma comunidade que parece hippie, mas que mantinha traços de culto abusivo. Liderados por Patrick (John Hawkes), um grupo de jovens viviam em comunidade, com prática de sexo livre e... treino de tiro e prática de alguns assaltos pela redondezas. Isolados do mundo, os rapazes atendem o telefone sob o nome de Mathew Lewis e as garotas com o nome de Marlene Lewis, o que só indica que o grupo tem coisas sérias a esconder. Esse passado obscuro só conhecemos através dos flashbacks que assombram a jovem enquanto a irmã e o cunhado (Hugh Dancy) tentam descobrir o que se passa na cabeça atormentada da garota. Ao que parece, as coisas vão demorar para entrar nos eixos na mente de Martha, principalmente por que as marcas são mais profundas do que ela mesma imagina. Além das atuações, existem vários outros méritos no filme de Sean Durkin. A maior delas é a tensão que o diretor consegue construir vagarosamente conforme a narrativa mescla os fatos do passado ao presente da personagem. A mistura exala um perigo iminente que culmina no final paranoicamente aberto. A trilha sonora também colabora muito ao criar os tons estranhos da história e a edição Zac Stuart-Pontier merecia um Oscar pela precisão com que corta e costura as percepções da plateia pelos olhos da protagonista. Muita gente compara o culto do filme aquele fatídico de Charles Manson (que vitimou Sharon Tate, esposa de Roman Polanski em 1969) e comparam Martha à personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965) do próprio Polanski. Essas sinistrices só colaboram para deixar o filme ainda mais estranho. Há quem considere que a abordagem psicológica do filme enfraquece um pouco a força da história, eu penso totalmente o oposto. A abordagem sutilmente perturbadora de MMMM é suficiente para deixar a plateia à beira do ataque de nervos por um bom tempo, especialmente pelo que os lobos em pele de cordeiro andam fazendo com uma juventude cada vez mais sem referencias. Depois de ver o filme, vale buscar na internet o curta-metragem Mary Last Seen  feito pelo mesmo diretor em 2010 que conta uma espécie de prévia deste aqui.

Martha Marcy May Marlene (EUA-2011) de Sean Durkin com Elizabeth Olsen, Sarah Poulson, John Hawkes, Hugh Dancy e Brady Corbett.
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