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sábado, 8 de agosto de 2026

PL►Y: We're All Going to the World's Fair

Anna: a vida online é ou não é real?

Arrepiado diáriw, antes de impressionar com Eu Vi o Brilho da TV (2024) a diretora Jane Schoenbrun realizou (ao lado de Valeria Santiago) este We're All Going to the World's Fair e deixou claro que tinha algo a dizer que não fosse convencional. O território de Jane é o thriller psicológico, temperado com dramas existenciais adolescentes que se alimentam uma atmosfera da horror. Aqui o roteiro se utiliza de um desafio online em que o cotidiano é transformado em registros que precisam avançar para situações de terror. A protagonista, Casey (a ótima Anna Cobb) é iniciante na brincadeira e não sabe muito bem como seus registros irão avançar. Sozinha no sótão registando vídeos e assistindo de outros participantes, Casey começa a construir sua trajetória online de forma que quem assiste não sabe se ela está sendo sincera ou se está criando uma ficção diante da câmera. A situação fica tensa quando um jogador veterano chamado JLB (Michael J. Rogers) começa a interagir com ela. O filme nunca deixa claro quais são os interesses de JLB em Casey e também não esclarece se os relatos dela são realmente angústias que ela atravessa cotidianamente. São nas ambiguidades do que é real e o que é encenação online  que o filme avança de forma instigante em um formato pouco convencional. A tensão cresce lentamente no estranhamento que o filme provoca, especialmente por usar o verniz do terror para falar de um tempo em que postagens online são constantes e embaçam a percepção de quem assiste. Esta ideia é o que torna o desfecho (apenas o relato de um personagem) ainda mais estranho.  Cheio de lacunas a serem preenchidas pelo espectador, o filme revela-se uma reflexão instigante sobre o mundo online e a solidão que camufla. Em cartaz na MUBI o filme é um ótimo aquecimento para Acampamento Miasma, novo filme da diretora que foi premiado em no Festival de Cannes deste ano. 

We're All Going to the World's Fair (EUA / 2021) de Jane Schoenbrun e Valeria Santiago com Anna Cobb, Michael J. Rogers, Turner Greaves, Theo Anthony, Marc Santiago e Holly Anne Frink. ☻☻☻

terça-feira, 9 de junho de 2026

CICLO DIVERSIDADESXL: O Despertar da Juventude

Alex e Sam: desejos e receios.

Conflituoso diáriw, sabe aquele filme que você não espera muita coisa e conforme ele se desenrola você percebe o quanto ele tem algo mais a oferecer? Senti isso ao assistir Minyan, ou como foi chamado por aqui: O Despertar da Juventude. O filme conta a história de David (Samuel H. Levine), um jovem de família imigrante russa que em meados dos anos 1980 vive em Nova York e começa a descobrir sua própria sexualidade enquanto altera seu olhar sobre o mundo que o cerca. Ele se sente deslocado na escola judaica em que estuda e deseja frequentar uma escola pública, ele também prefere morar com o avô (Ron Rifkin) do que permanecer na casa dos pais e lidar com as pressões familiares, mas além disso, David começa a perceber que seu interesse sexual por homens é crescente. Neste ponto, os dois homens idosos que vivem no apartamento ao lado de seu avô ajudam a fazê-lo perceber que talvez seu desejo não precisa silenciado. No entanto, para evitar problemas com a família, ele começa a ter encontros secretos com desconhecidos até ter um envolvimento mais pessoal com Bruno (Alex Hurt), um bonitão que trabalha num bar gay da cidade. O diretor Eric Steel consegue fazer um belo filme baseado no livro de David Bezmozgis, mas sua abordagem intimista perde a chance de aprofundar algumas questões como o advento da AIDS nos anos 1980, algo que é apresentado de forma tão sutil que gera menos impacto do que deveria. A presença contida de Levine também pode incomodar em um personagem que vivencia conflitos tão intensos entre o tradicional e o transgressor. O rapaz passa quase o filme todo com a mesma cara, com alguns bons momentos para além das cenas tórridas com o filho de John Hurt. Porém, o filme aborda tantas questões que termina parecendo ainda ter material para mais meia hora de projeção, o que pode soar um tanto frustrante ao espectador.

O Despertar da Juventude (Minyan/ EUA -2021) de Eric Steel com Samuel H. Levine, Ron Rifkin, Mark Margolis, Alex Hurt, Brooke Bloom, Gera Sandler, Richard Topol e Zane Pais. ☻☻☻

sábado, 4 de maio de 2024

PL►Y: Transmissões Sinistras

Shum: impressões traiçoeiras.
 
Um amigo ficou tão instigado com Transmissões Sinistras que recomendou que eu assistisse. O título não ajuda a despertar interesse e o longa está escondido no acervo do Prime Video sem muito destaque. De fato o ponto de partida do longa é muito interessante, já que é baseado em uma história real sobre transmissões piratas que invadiram o sinal de emissoras nos Estados Unidos nos anos de 1963 e 1987 com imagens estranhas e sons bizarros. Nunca foram identificados os responsáveis ou as intenções daquelas imagens, mas algumas pessoas tiveram arrepios com o que viram na tela. Divagando sobre o que aconteceu e inúmeras teorias envolvendo o ocorrido, os roteiristas Phil Drinkwater e Tim Woodall construíram a história de James (Harry Shum Jr), um rapaz que ao final dos anos 1990 trabalha como arquivista de vídeo em uma emissora e se depara com uma das transmissões. Ele não conhece aquela história e começa a desenvolver uma verdadeira obsessão sobre o que aquelas imagens queriam dizer. No entanto, enquanto busca desvendar os mistérios da transmissão, James tem sua objetividade comprometida com acontecimentos mal resolvidos de sua própria vida - o que faz com que associe aqueles vídeos a alguns crimes sem resolução. O diretor Jacob Gentry consegue fazer um bom trabalho durante a primeira metade da sessão, em que consegue explorar o tom de paranoia junto às imagens esquisitas que apresenta e as teorias que começam a surgir no caminho do protagonista. Ainda que seja notório o orçamento curto do filme, ele consegue construir uma tensão envolvente na busca pela verdade sobre aquele sinal pirata que foi até investigado pelo FBI. O problema é que conforme o filme insere outros personagens no caminho de James o filme se embola nas intenções, se torna repetitivo e pouco convincente com os rumos escolhidos. A intenção é até interessante, já que aponta para uma  determinada cegueira do protagonista, que está tão obstinado a encontrar as respostas que deseja que é incapaz de questionar qualquer indicação de que esteja errado. Lembra um pouco o caminho feito por figuras notórias que produzem suas próprias verdades inquestionáveis e ainda atraem seguidores. O desfecho bizarro aumenta ainda mais o tom pessimista do desfecho e reforça a atmosfera de terror que aparecia nas entrelinhas da história. Ao terminar o filme, tive a impressão que este ponto de partida ainda pode ser retomado em uma produção mais ambiciosa e interessante no futuro. 
 
Transmissões Sinistras (Broadcast Signal Intrusion - EUA / 2021) de Jacob Gentry com  Harry Shum Jr, Kelley Mack, Chris Sullivan, Michael B. Woods, Justin Welborn e Jennifer Jelsema.

 

sábado, 9 de setembro de 2023

PL►Y: Cyrano

Haley e Peter: nova versão de um clássico. 

Eu estava na torcida por uma indicação ao Oscar de melhor ator para Peter Dinklage por seu trabalho em Cyrano, mas infelizmente ele foi lembrado somente na categoria de melhor ator em comédia ou musical no Globo de Ouro. Acho que o sucesso abaixo do esperado da nova empreitada de Joe Wright não ajudou muito. É verdade que o filme tem seus problemas, mas o resultado é bastante agradável de assistir, sobretudo pelo trabalho de Peter esbanjando carisma na adaptação de um personagem clássico da literatura. O dramaturgo Edmond Rostand teve sua peça encenada pela primeira vez em 1897 e era baseada na figura real de Hector Savinier de Cyrano de Bergerac. A peça gira em torno de um homem que sofria complexos mas que consegue conquistar o coração da mulher que ama, Roxane, escrevendo cartaz através de um amigo que deseja conquistá-la. Assim, mesmo através de um intermediário, Cyrano sente o prazer da conquista, mas também o ciúme de ver sua amada se apaixonar por um homem que não possui sua habilidade com as palavras. O triângulo amoroso sofre ainda interferência do Duque de Guiche, que ganha o contorno de vilão de história e torna-se responsável pelo destino dos personagens da trama. A peça já recebeu várias adaptações para o cinema e talvez a mais famosa delas seja Cyrano de Bergerac (1990) de Jean Paul Rappeaneau que foi indicada a cinco categorias no Oscar, incluindo melhor filme estrangeiro e melhor ator (Gerard Depardieu). Em 2018, enquanto estrelava a icônica Game of Thrones, Peter Dinklage estrelou no teatro uma adaptação da peça escrita por sua esposa, Erica Schmidt, em formato de musical com a colaboração da banda The National e Aaron Dressner. A repercussão da peça fez Joe Wright se empolgar com a ideia de levar a trama mais uma vez para os cinemas. A espinha dorsal da história é a mesma, apenas trocando o nariz proeminente do protagonista pela estatura de seu astro principal, o que não altera em nada as emoções envolvidas na peça. Aqui Roxane é vivida por Haley Bennet, o amigo Christian é interpretado por Kelvin Harrison Jr. e o vilão fica por conta de Ben Mendelsohn. O quarteto principal garante bons momentos no decorrer da história que é conduzida com bastante leveza por Wright. Sei que muita gente irá torcer o nariz pelo fato do filme ser um musical, mas se o texto original já era todo rimado, vejo como algo bastante lógico imaginar a história formatada dentro do gênero. O diretor conduz as cenas musicais de forma bastante orgânica no decorrer da história, de forma que a narrativa não desafina quando as canções aparecem (embora nenhuma delas seja realmente marcante). Aqui o diretor retoma uma mise en scène bastante teatral como vimos em sua adaptação de Anna Karenina (2012), os figurinos (indicados ao Oscar) são uma atração à parte, mas tudo isso sofre com uma fotografia um tanto tediosa em tons marrons e rosados que pode causar certa sonolência. Para espantar isso, sempre podemos contar com o vigor de Dinklage que consegue provar mais uma vez que pode ser um galã mais que eficiente. Eu adoraria que o diretor houvesse alterado o final, mas infelizmente ele deve ter considerado que já mexeu muito em um clássico. O filme está atualmente disponível no catálogo do Prime Video


Cyrano (Reino Unido - Canadá - EUA / 2021) de Joe Wright com Peter Dinklage, Halley Bennett, Kelvin Harrison Jr., Ben Mendelsohn, Monica Dolan, Anjana Vasan, Joshua James e Ruth Sheen. ☻☻☻

terça-feira, 5 de setembro de 2023

CICLO VERDE E AMARELO: Medusa

 
A gangue mascarada: fé no ódio. 

Nas ruas de da cidade um grupo de mulheres mascaradas perseguem outras. O que poderia ser visto como um assalto ou uma rixa pessoal logo ganha contornos reveladores quando as vítimas são chamadas de "messalina" ao final do linchamento. O tal grupo registra em vídeo a agredida prometendo que deixará de ser mundana, que será recatada e seguirá o senhor. Medusa da diretora Anita Rocha da Silveira é isso mesmo, uma alegoria sobre o fanatismo religioso que causa uma cegueira capaz de guiar um comportamento agressivo para ditar como os outros devem viver. Ninguém imagina que a tal gangue mascarada, que vaga pelas noites atrás de seus alvos, é na verdade um grupo de devotas cristãs que se apresentam na igreja entonando hinos de devoção a Deus e amor a Jesus sob o nome de  As Preciosas. Onde o próximo fica nisso tudo é outra história. É interessante que o filme que possui este ponto de partida receba o nome de um dos seres mais famosos da mitologia grega. Medusa era uma bela mulher que é punida por uma esposa traída ao descobrir que seu marido se envolveu com ela. Transformada em um monstro, capaz de transformar em pedra qualquer um que olhe para ela, a personagem gera fascínio até os dias atuais. Aqui a Medusa pode ser vista como Melissa (Bruna Linzmeyer em participação especial), uma jovem atriz que foi punida por conservadores por viver sua sexualidade sem culpa e acabou desaparecida após ficar deformada. Existe uma certa obsessão da protagonista, Mari (Mari Oliveira), membro da tal gangue, em encontrar o paradeiro de Melissa, mas isso até se perde no monte de ideias apresentadas no roteiro da diretora. Existe muita coisa a ser desenvolvida em Medusa e, por conta disso, algumas delas recebem resoluções insatisfatórias. A própria questão da religiosidade aqui não consegue esbarra sempre na caricatura, com suas personagens histéricas pelo desejo reprimido e os discursos que se repetem exaustivamente para justificar seus atos mais execráveis e, não por acaso, a líder do grupo se chama Michele (Lara Tremouroux) - que nas horas vagas dá dicas de maquiagem cristã às suas seguidoras (enquanto disfarça os hematomas com bases variadas ao longo do filme). Essa ideia ideal de feminilidade aparece em vários momentos do filme, incluindo no discurso dos Vigilante de Sião, um grupo de rapazes que fazem par com as mascaradas nas esquisitices extremistas e treinam para sua cruzada em coreografias que são difíceis de serem levadas a sério (em uma cena parece até aquela cena da dancinha dos Kens em Barbie só que em versão fascista). Muito da trama gira em torno da crise de identidade vivida por Mari quando a perseguição à uma das vítimas mundanas não sai como o esperado. Sua vida acaba sofrendo mudanças e ela começa a ceder aos impulsos de seu corpo. Mari Oliveira realiza um bom trabalho em cena, revelando as várias camadas da personagem, mas o roteiro atira para tantos lados que seu arco acaba perdendo força chegando a um ponto em que o texto tenta resolver tudo aos gritos (literalmente). Longo demais (mais de duas horas), o filme funciona melhor quando flerta com o terror e o suspense, momento em que a fotografia e a trilha sonora caprichada conseguem criar um atmosfera bastante envolvente, mas quando deixa se levar pelo pastiche o filme perde fôlego e cai na repetição. No fim das contas com o romance de Mari com um colega de trabalho (Felipe Frazão)  fica no meio do caminho, a busca por Melissa perde a importância, a forma como como a protagonista lida com o desejo é reduzida, a violência contra a mulher fica de escanteio e o filme vai se perdendo gradativamente nas pontas soltas. Acho que a cena perfeita para terminar o filme seria aquela apresentação hilariante e um tanto assustadora em que as meninas desabam no palco numa exemplificação da farsa desconstruída de suas vidas banhadas em discurso de ódio amparado por corações de pedra e cabeças de vento. 

Medusa (Brasil - 2021) de Anita Rocha da Silveira com Mari Oliveira, Laura Tremeroux, Joana Medeiros, Felipe Frazão, Thiago Fragoso, Bruna Linzmeyer, Carol Romano, João Oliveira e Isadora Ruppert. 

domingo, 30 de julho de 2023

PL►Y: O Acontecimento

 
Anamaria: uma jornada solitária. 

Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2021, o drama francês O Acontecimento da diretora Audrey Diwan é baseado no romance homônimo da escritora Annie Earnoux que narra a jornada de uma jovem estudante em busca da interrupção de uma gravidez indesejada. A história se passa em 1963 e deixa bem claro que o aborto era um crime na França, que poderia levar para a prisão a pessoa que realizou o aborto, assim como todas as pessoas ao seu redor ajudaram na situação. Anne (Anamaria Vartolomei) é uma dedicada estudante de letras que sonha em ser escritora, mas fica instigada quando seu ciclo menstrual atrasa. Logo começam as dores de cabeça, o mal estar e ela descobre que está grávida. Diante dos planos que tem para sua vida, imediatamente Anne declara que precisa de ajuda para não ter o bebê. A partir dali, quase todos os personagens que descobrirem a sua situação irá deixar claro os perigos de tentar realizar um  aborto, mas Anne não desiste, se envolvendo em situações desconfortáveis, enganadoras e até fatais. A corajosa Anamaria Vartolomei (que lembra uma jovem Winona Ryder com expressivos olhos azuis) dá conta de sua personagem com louvor, a retratando como uma pessoa comum que precisa lidar com uma situação que mudará sua vida para sempre. Audrey Diwan opta por uma narrativa direta, sem firulas ou medo de gerar imagens desconfortáveis para a plateia. É curioso como em alguns momentos ela parece criar um filme de espionagem (como aquela em que Anne anda pelo parque com a "mulher do jornal") ou de terror (a cena no vaso sanitário), estas iniciativas servem para carregar ainda mais as tintas de tensão em torno das angústias da protagonista que encontra-se cada vez mais solitária em sua jornada. Sobram pessoas para questionar e até tentar se aproveitar da situação em que a personagem atravessa. De amigas, passando pelo pai da criança, um amigo ou até um médico é possível perceber todo o peso que se acumula nos ombros da protagonista. Além disso, pesa a vergonha capaz de fazer com que não conte em momento algum para sua família (destaque para a mãe vivida pela veterana Sandrine Bonnaire). Diwan cria cenas bastante gráficas sobre os procedimentos adotados por Anne que expressam com vigor os horrores do aborto clandestino, que independente do seu posicionamento sobre o tema, faz pensar sobre toda discussão em torno do tema. O filme em cartaz na HBOMax é poderoso em sua narrativa, meu único problema com o filme é que em momento algum ele me convenceu que era ambientado nos anos 1960, sei que a construção de diálogos e posturas semelhantes ao de nosso tempo são propositais para aproximar o público atual dos dramas da personagem, assim como sinalizar que toda aquela situação continua acontecendo nos dias atuais. No entanto, em vários momentos eu tinha que lembrar a mim mesmo que o filme era sobre uma história ambientada em 1963. A prática do aborto foi legalizada na França em 1975. 

O Acontecimento (L'Événement / França - 2021) de Audrey Diwan com Anamaria Vartolomei, Sandrine Bonnaire, Luàna Bajrami, Louise Orry-Diquéro, Kacey Mottet Klein, Louise Chevilotte, Pio Marmaï e Leonor Oberson ☻☻☻☻

domingo, 9 de julho de 2023

.Doc: Wham! / Tina / Love to Love you, Donna Summer / Moonage Daydream

 
George e Andrew: desconstruindo o Wham! 

Confesso que estava um tanto ansioso para ver o documentário Wham! sobre a dupla pop formada por George Michael e Andrew Ridgeley. Muito por conta da minha surpresa quando adolescente de descobrir que muitas músicas que eu considerava ser de George era na verdade de grupo. Além disso, teve todas as piadinhas ao longo do tempo sobre Andrew não fazer nada por ali. O documentário de Crhis Smith, disponível na Netflix, não apenas passa a limpo a carreira da banda, como também supre nossa curiosidade pela dupla de amigos que chegou ao topo das paradas musicais dos anos 1980, aos poucos eles deixaram as críticas sociais de lado e investiram cada vez mais numa sonoridade pop. O filme é praticamente todo costurado por cenas de arquivos e entrevistas da dupla e ajuda a reconhecer o talento inestimável de George Michael, na verdade Georgios Kyriacos Panayiotou, um jovem inglês, filho de imigrantes gregos que com vinte e poucos anos era cantor, compositor e produtor. Um verdadeiro prodígio que tinha que lidar com a fama e o assédio de fãs enquanto internamente lidava com a descoberta de sua homossexualidade. Se Wham! serve para viajar no tempo e lembrar do sucesso da dupla, o destaque para os conflitos de George enquanto se tornava um grande astro pop ajuda a entender melhor os rumos de sua carreira solo e os dilemas que atravessou entre brigas com gravadoras, problemas com policiais em banheiros públicos e outras desventuras que deixou os fãs desavisados um tanto surpresos. Por outro lado, o filme torna a figura de Andrew Ridgeley como alguém crucial para George desenvolver seus talentos e persona pública, afinal, sem o apoio do amigo, provavelmente o astro teria se tornado um garoto tímido comum desde aquele primeiro dia na escola em que os dois se aventuraram a fazer tarefas juntos. O documentário se torna mais do que um registro sobre artistas que fizeram sucesso nos anos 1980, mas também um belo registro sobre a amizade da dupla, que ao que tudo indica chegou ao fim sem conflitos de ego ou desavenças.

Tina: furacão na vida e nos palcos. 

O documentário da Netflix prova mais uma vez que o cinema volta-se cada vez mais para o fascínio que histórias de artistas renomados provoca no público, não apenas em produções como Bohemian Rhapsody (2019), Rocketman (2019) ou Elvis (2023), mas também em outros documentários recentes que estão disponíveis no streaming. Outro deles é Tina que está no HBOMax, que conta a história de Tina Turner, passando por sua infância pobre, o casamento turbulento com Ike Turner e seu renascimento para a música pop nos anos 1980 numa idade em que a maioria das artistas começam a penar para se manter em evidência. A história de Anna Mae Bullock já foi muito bem contada em Tina - A Verdadeira História de Tina Turner (1993) e quem viu o filme estrelado por Angela Bassett não encontrará muita novidade por aqui, talvez apenas a irritante menção constante da imprensa ao ex-marido Ike em entrevistas da artista. Talvez a lembrança da dupla Ike e Tina Turner fosse muito vívida entre o público dos Estados Unidos, mas no resto do mundo, Tina ressurgiu com luz própria como um furacão da música pop. O documentário celebra o talento da artista e apresenta aspectos delicados de sua vida pessoal, sem esquecer sua obstinação em resistir quando a indústria da música lhe deu as costas. Diante do recente falecimento da artista, o documentário se torna uma homenagem à considerada Rainha do Rock. Quem também possui documentário na HBOMax é a diva da disco music Donna Summer com Love to Love You, que apresenta aos fãs a história da maior cantora dos anos 1970. Lembrando o início da carreira dela como atriz de teatro e posteriormente chamando atenção com a provocante canção que dá título ao documentário, o filme deixa aquele gosto de ver uma cinebiografia de Donna nos cinemas. Feito com cenas de arquivo e entrevistas de pessoas que estavam por perto da diva, o filme revive o marco que foi ver uma cantora negra romper barreiras no cenário da música pop  nos Estados Unidos. Algumas canções de Donna ainda soam inovadoras (como a sonoridade e I Feel Love ou as letras de She works hard for the Money ou Bad Girl) e são capazes de animar qualquer balada até hoje. 

Love to Love You: a história da rainha da disco music. 

Sempre me perguntei o que teria acontecido que fez a carreira de Donna perder força ao final do século XX e o filme esclarece sua declaração infeliz sobre "Deus não ter criado Adão e Ivo" no meio de um show. A diva que era cultuada pelo público gay sofreu críticas severas em um tempo em que a AIDS começava a aparecer. A declaração fementada na mídia fez com que a artista começasse a sofrer boicotes e represálias por grande parte do seu público. A coisa só piorou com os problemas de saúde que atravessou mais tarde. Embora seja mais convencional e feito direto para a TV, Love To Love You, Donna Summer é um belo resgate da história da diva. No TelecinePlay temos Moonage Daydream o celebrado documentário sobre David Bowie. O longa de Brett Morgen segue um caminho diferente de todos os outros citados aqui. Mais experimental, o filme constrói um verdadeiro universo para Bowie, com cenas de shows, entrevistas, clipes, fotos e entrevistas, deixando que a sonoridade e a estética criada pelo artista faça todo o resto aos olhos e ouvidos do público. A sensação é que somos tragados para um mundo diferente, liderado por um alienígena de sexualidade fluída que deixa as plateias enlouquecidas. Esta mistura entre o artista e seu personagem Ziggy Stardust é proposital e não abandona o filme mesmo quando o camaleão do rock muda de pele. Cada fase do cantor é contextualizada dentro de uma ideia particular que perpassa até seus trabalhos no cinema e atitudes mais polêmicas. Em um tempo em que termos como não-binário não existia e a androginia era o rótulo reservado a ele, Bowie quebrou paradigmas no mundo da arte e criou alvoroço quando assumiu sua bissexualidade. O filme reserva poucos momentos para a vida pessoal do artista e celebra mesmo é a sua carreira. É verdade que depois do sucesso sem fronteiras com Let's Dance (1983), seus discos pairaram em lugares sem o mesmo estrondo, de forma que o filme dedica menos espaço para esse período posterior da vida do artista. Nessa fase, Bowie parece mais disposto a digerir o que era inovador e não criar tendências, no entanto o último ato com Black Star poderia ter sido mais aproveitado na montagem final. Presente em várias listas de melhores filmes do ano, Moonage Daydream é uma belíssima viagem psicodélica pela mente de Bowie. Para os fãs é um verdadeiro delírio. 

Moonage Daydream: jornada intergalática em David Bowie.

Wham! (EUA-2023) de Chris Smith com George Michael, Andrew Ridgeley e Elton John.  ☻☻☻☻

Tina (EUA-2021) de Dan Lindsay and T.J. Martin com Tina Turner, Carl Arrington e Ike Turner.  ☻☻☻☻

Love to Love You, Donna Summer (EUA - 2023) de Brooklyn Sudano e Roger Ross Williams com Donna Sumer, Michael McKean e Arsenio Hall.  ☻☻☻

Moonage Daydream (EUA - 2022) de Brett Morgen com David Bowie, Iman e Mick Ronson.  ☻☻☻☻

domingo, 23 de abril de 2023

PL►Y: Compartimento Número 6

Seidi e Iuriy: rumo ao Polo Norte. 

Laura (Seidi Haarla) é uma estudante de arqueologia finlandesa que passou os últimos tempos na Rússia  ao lado da namorada Irina (Dinara Drukanova), uma professora universitária que vive num grupo bem mais academicista que sua parceira. Laura está prestes a realizar um sonho antigo: ir até o Círculo Polar Ártico para visitar as pinturas rupestres milenares de Murmansk. O problema é que ela terá que ir sozinha, devidamente acompanhada de uma câmera para registrar tudo. Se a ideia de ir desacompanhada já não é muito boa, a coisa piora quando ela conhece seu parceiro de vagão (o compartimento do título), um jovem russo chamado Vadim (Iuriy Burisov), um mineiro que está de mudança em busca de emprego. Os dois não poderiam ser mais diferentes, ela é uma  discreta intelectual, Vadim é um operário desbocado e de modos pouco polidos, que não demora a tentar começar uma conversa com grosserias e ofensas. Fosse uma comédia de Hollywood, os dois beberiam na manjada fonte dos "opostos que se atraem" e se odiariam até descobrirem que são almas gêmeas ao final do filme. Como é um filme finlandês, os dois vão se estranhar no início até que um forte vínculo de amizade se instaure entre os dois e o filme ganhe uma leveza insuspeita em seus momentos iniciais. Obviamente que ambos terão que fazer por onde, Ele terá que maneirar em suas grosserias e apresentar que é capaz de ser um sujeito sensível e divertido, assim como ela terá q baixar a guarda e tentar criar vínculo com aquele sujeito que está por perto. Afinal, paira sobre ambos uma sensação de solidão e insegurança durante a viagem. Se ela não consegue conversar muito com a namorada por telefone ou ter muito o que fazer em cada estação em que o trem para, ele também não tem muito mais o que fazer do que encher a cara sempre que pode. Diante dessa insatisfação mútua durante a viagem, surgirá uma  conexão entre os dois que deixará a jornada de ambos menos melancólica. Compartimento Número 6, que está disponível atualmente no prime Vídeo, foi um dos filmes europeus mais badalados de 2021, ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes2021,  concorreu a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, além de ser indicado ao Bafta, César e Independent Spirit na mesma categoria. O motivo para tantos elogios é o diferencial do filme calcado na dupla principal que trazem um tanto de calor humano às paisagens gélidas que atravessam e, aos poucos, modificam a ideia claustrofóbica construída no início do filme. Não por acaso a personagem principal começa interessada nos registros do passado (as pinturas rupestres) e termina com uma carta calorosa na mão ao desfecho do filme. 

Compartimento Nº 6 (Hytti nro 6 / Finlândia - Rússia - Estônia - Alemanha / 2021) de Juho Kuosmanen com Seidi Haarla, Yuriy Borisov, Dinara Drukarova, Julia Aug e Tomi Alatalo. 

domingo, 16 de abril de 2023

PL►Y: Red Rocket

Suzanna e Simon: planos de retomar a carreira. 

De vez em quando o cinema autoral se volta para ídolos do universo pornô. Foi assim com Dirk Digler e seus colegas no clássico Boogie Nights (1997) e recentemente no pesadão Pleasure (2022). Particularmente, acho que se não tivesse assistido este último eu teria achado mais graça de Red Rocket, último filme de Sean Baker. Já é público e notório que Baker gosta de desviar sua câmera para personagens periféricos a cenários que habitam nosso imaginário, foi assim ao filmar Los Angeles (com um iPhone) e focar em protagonistas trans em Tangerine (2015) ou em contar uma história terna com crianças que moram ao lado da Disney (mas que nunca teriam dinheiro para visitar o parque mais famoso do mundo) em Projeto Flórida (2017). Agora ele nos apresenta Mikey (Simon Rex), um astro pornô que caiu em decadência e acaba de voltar para casa, ou melhor, para a casa da ex-mulher, também ex-pornstar, Lexi (Bree Elrod). Como a grana anda curta, a mãe dela divide o teto com ela faz tempo. Mikey logo percebe que a vida não será fácil, como emprego anda difícil e ele é sempre cobrado a trazer algum dinheiro para casa, ele começa a se arriscar em atividades ilegais. A vida dele parece mudar mesmo quando conhece Strawberry (Suzanna Son), uma adolescente que trabalha em uma loja de donuts. Ele acredita que é capaz de convencê-la a fazer filmes eróticos com ele e, com isso, ter um retorno triunfal na indústria pornográfica. Com essa premissa, Red Rocket mistura drama e comédia, principalmente por conta do jeito atrapalhado de seu protagonista vivido com gosto por Simon Rex. Rex foi um ícone da MTV americana, se tornou bastante popular e viu sua carreira minguar quando seu passado em filmes adultos comprometeram seus projetos futuros. Na pele de Mikey se torna até fácil simpatizar com ele, apesar de todas as suas canalhices, suas trapaças recebem tom cômico, assim como suas discussões, cenas de sexo e nudez. Não por acaso sua carismática desenvoltura lhe rendeu o prêmio de melhorador no Independente Spirit do ano passado e uma torcida (que não deu em nada) para que recebesse uma indicação ao Oscar (difícil a Academia comprar uma ideia feito a sinopse do filme). Logicamente que Baker constrói a história pelo gosto de ver a cara de pau do protagonista ser quebrada várias vezes, mesmo que paire sobre a trama a sombra dele poder ganhar a vida às custas de uma adolescente. Talvez por isso o final tenha me parecido um tanto abrupto, deixando as intenções do diretor (sejam elas quais forem) no meio do caminho. Este olhar bem humorado e um tanto desleixado sobre a decadência de um "Macho Alfa" pode ser visto no TelecinePlay. 

Red Rocket (EUA-2021) de Sean Baker com Simon Rex, Suzanna Son, Bree Elrod, Brenda Deiss, Judy Hill, Brittney Rodriguez e Marlon Lambert. ☻☻☻

sexta-feira, 17 de março de 2023

PL►Y: O Mundo Atrás de Nós

Aurélien e Louise: romance de seres comuns. 

O jovem Labidi (Aurélien Gabrielli) escreveu um conto tão elogiado que ganhou aclamação da crítica e um prêmio literário. Anos depois, tantos elogios não lhe renderam o sucesso e o dinheiro que imaginava. Ele agora trabalha fazendo entregas através de aplicativo, divide um apartamento minúsculo com o melhor amigo Aleksei (Léon Cunha Da Costa) e tenta dar prosseguimento ao seu romance sobre a Guerra da Argélia. Os dois ambiciosos primeiros capítulos de seu romance chamam a atenção de uma editora que pretende publicar o livro, mas o escritor precisa terminar a obra em seis meses. Ele considera que é capaz de cumprir o prazo. Eis que um dia ele visita seus pais em Lyon e conhece, Elisa (Louise Chevillotte), jovem estudante por quem se apaixona e passa a nutrir sonhos de uma vida a dois. Embora o amor preencha os dias do jovem com aquela sensação inebriante que lhe faltava na rotina cansativa de antes, o maior problema de Labidi permanece: as contas no vermelho e a dificuldade de escrever na correria do dia a dia. O filme de estreia de Louda Ben Salah-Cazana não reinventa o gênero, mas traz um certo frescor que falta a muitos filmes que pretendem construir o recorte da vida real de personagens de carne e osso. Os problemas vividos por Labidi e Elisa são universais e podem acontecer em qualquer lugar do mundo e recebem aqui um tratamento sincero e afetuoso. Mesmo nos momentos de crise encontrados pelos personagens, seja por conta da grana sempre curta, da vergonha por não alcançar as expectativas que os outros tinham sobre ele ou a insegurança de sair da casa do pai para viver um novo relacionamento, tudo soa bastante verossímil. Labidi constrói um personagem tão crível e com uma doçura que somos capazes de entender o desespero que o faz realizar seus golpes em determinado momento da história, assim como também confere à Elisa as camadas necessárias para compreender suas inseguranças à vida que avista para os dois. Há de se ressaltar ainda o trabalho encantador de Saadia Bentaïeb e Jacques Nolot como os pais muçulmanos do protagonista, que ganham a vida administrando um pequeno café em Lyon. Com uma fotografia que procura não embelezar o cotidiano dos personagens e uma edição sem pressa, Louda Ben Salah-Cazana contrói um filme sem sobressaltos, mas envolvente sobre um casal entre seus sonhos e a realidade. Resta dizer que o título faz alusão à guinada do livro de Labidi, que toma o rumo de uma reflexão sobre a sua própria identidade de filho de imigrantes na França e seus problemas socioeconômicos. Uma pequena pérola do cinema independente francês. 

O Mundo Atrás de Nós (Le monde après nous / França - 2021) de Louda Ben Salah-Cazana com Aurélien Gabrielli, Louise Chevillotte, Saadia Bentaïeb, Jacques Nolot e León Cunha da Costa.  

sábado, 11 de março de 2023

PL►Y: A Ilha de Bergman

 
Vicky e Tim: passeio cult. 

Um casal de cineastas resolvem viajar para a ilha de Faro, local que ficou famoso pelos filmes de Ingmar Bergman e por ser o lugar escolhido para que ele passasse parte de sua vida recluso. Os dois vão para explorar o turismo local, mas também para buscar inspiração para seus novos trabalhos. Obviamente que os dois são fãs do diretor sueco e, de vez em quando, aparecem algumas divergências sobre o gosto de ambos quanto à vida e obra do cineasta (seja a dificuldade de escolher um filme da vasta obra do artista ou o diálogo sobre os cinco casamentos de Bergman e os nove filhos que passaram a vida aos cuidados das esposas). No entanto, as coisas começam a complicar quando Tony (Tim Roth) começa a criar seu novo roteiro e Chris (Vicky Krieps) não consegue ter tantas ideias assim. Assim, os dois acabam seguindo caminhos distintos por ali, de forma que se ele segue passeios turísticos e ela acha mais interessante conversar e ir para a praia com um jovem cineasta que passa as férias por ali. A cineasta Mia Hansen-Løve parece arranhar aqui e ali sobre o que seu filme quer explorar, se esquiva de fazer um filme sobre os pesares de ser a esposa cineasta de um diretor mais famoso, parece se aproximar do estranhamento das ideias que rondam a cabeça de seu parceiro (como o bloco de anotações que possuem desenhos que se assemelham à tortura), assim como a busca por uma voz própria. São ideias interessantes, mas que parecem deixadas pelo meio do caminho quando a narrativa se rende à história criada por Chris (protagonizada por Mia Wasikowska e Anders Danielsen Lie) e nos deparamos com uma história de reencontros amorosos e conflito com as escolhas feitas. Cabe ao espectador explorar a história como se fosse um retrato das angústias de Chris e estabelecer até que ponto aqueles sentimos são reais ou apenas fruto de sua criatividade. Quando o filme borra realidade e ficção a coisa fica ainda mais frouxa, até que a cena final deixa a sensação de que Hansen-Løve não sabia muito bem o que fazer com seus personagens na locação que escolheu. Com várias ideias deixadas pelo meio do caminho, o filme deixa apenas o gosto de tudo que poderia ter sido, mas escolheu ser apenas um agrado aos fãs de Bergman que podem conhecer um pouco da ilha e suas curiosidades cinemáticas. 

A Ilha de Bergman (Bergman Island / França - 2021) de Hansen-Løve com Tim Roth, Vicky Krieps, Mia Wasikowska, Anders Danielsen Lie e Hampus Nordenson. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

PL►Y: Um Herói

Jadidi: quando a sorte vira azar. 

Os filmes de Asghar Farhadi costumam ser saudados como dramas tão engenhosos que começam a soar como um verdadeiro suspense diante dos desafios que recaem sobre seus protagonistas. Foi assim que ele levou para casa o Oscar de filme estrangeiro com o brilhante A Separação (2011) e depois repetiu o feito com O Apartamento (2016), mesmo quando seus filmes não alcançam todas as notas desejadas, eles costumam ser crônicas interessantes sobre o ser humano e as conjecturas que o cerca (foi assim com O Passado/2013 e Todos Já Sabem/2018). Este Um Herói saiu do Festival de Cannes do ano passado com o Grande Prêmio do Júri, mas acabou perdendo sua vaga no Oscar de Filme Estrangeiro. Pouco tempo depois o filme se envolveu numa polêmica em que Farhadi foi acusado de plágio por ter copiado a ideia de outro roteirista. Polêmicas a parte, o filme está disponível no Telecine Play e vale sua atenção para acompanhar a sucessão de desventuras de Rahim (Amir Jadidi), um homem que foi preso por conta de uma dívida. Liberado por dois dias para visitar a família, a namorada lhe apresenta uma bolsa que acabou de encontrar na rua e está cheia de moedas de ouro. Rahim fica tentado a usar as moedas para pagar a dívida, mas após uma série de situações resolve devolver a bolsa para a dona. O gesto chama atenção de muita gente que exalta sua postura e se comove com sua história de endividamento, ele só não imagina que depois de ser tão querido pela opinião pública, uma série de detalhes irá lhe causar mais transtornos do que imaginava. Um Herói abarca uma série de assuntos, alguns se relacionam com a cultura do Irã, outras com a velocidade com que as notícias se propagam nas redes sociais. A já notória habilidade de Asghar Farhadi lidar com os dois lados de uma história, torna uma tarefa difícil para o espectador classificar seus personagens entre mocinhos e vilões. Entre detalhes, mentiras e omissões, Um Herói se torna um labirinto angustiante para seus personagens e deixa o espectador cada vez mais curioso em imaginar como tudo aquilo irá terminar. Vale ressaltar o bom trabalho de Amir Jadidi como Rahim, que torna seu personagem confiável (ainda que seja  um dos sujeitos mais atrapalhados da história do cinema), além de Mohsen Tanabandeh como o antagonista sempre disposto a mostrar o outro lado da história para a plateia. Quando estes dois explodem, fica ainda mais difícil tomar partido de toda situação que o filme instaura. 

Um Herói (Ghahreman /Irã - França / 2021) de Asghar Farhadi com Amir Jadidi, Mohsen Tanabandeh, Sahar Goldust, Fereshteh Sadre Orafaiy, Sarina Farhadi e Ehsan Goodarzi ☻☻

PL►Y: The Souvenir - Parte II

 
Honor Swinton Byrne: o luto de uma cineasta em formação. 

É muito interessante imaginar a relação que o primeiro The Souvenir (2019) tem com a vida da diretora Joanna Hogg. A protagonista é uma estudante de cinema dos anos 1980, Julie (Honor Swinton Byrne) que escuta todo o tempo dizerem para ela contar mais de sua história em seus filmes. Ela se considera uma jovem privilegiada, com os pais sempre dispostos a bancar suas despesas e talvez por ter uma vida tão previsível se envolveu com Anthony (Tom Burke) - um diplomata que tinha sua cota de problemas pessoais para resolver e acaba drenando a namorada para dentro deles. Baseado em um romance vivido pela própria Joanna, a sinceridade impressa fez do filme um sucesso em festivais e perante o público cult. Com a repercussão do filme, ela bancou um segundo longa metragem sobre a jornada de Julie em busca da própria voz. O filme começa praticamente depois do desfecho do primeiro e agora a protagonista tenta se acostumar com a ausência do namorado. Quem viu o primeiro filme sabe que a vida dos dois não era um mar de rosas, mas a própria personagem estranha a espécie de vazio que se instaurou em sua vida sem ele. Embora ainda esteja disposta a investir em um novo romance, ela não sabe muito bem o quanto está disponível para viver uma nova história de amor e parece mais preocupada em terminar o seu filme de conclusão da faculdade de cinema. Mais uma vez, suas ideias e  roteiro sofrem críticas, de forma que pedem para que seja mais pessoal na construção de seu projeto e, enquanto observa as filmagens dos filmes de seus colegas, Julie parece um tanto intimidada na construção de um filme baseado em sua história com Anthony. Se já existe o estresse de fazer um filme para conclusão do seu curso, a coisa complica ainda mais quando precisa vivenciar novamente momentos complicados de seu relacionamento. São nestes momentos que considerei The Souvenir - Parte II um filme mais interessante que o primeiro. A parte do luto é um tanto repetitiva e maçante, deixando a melhor parte para os colegas de curso - que compõem sua equipe de filmagem - que começam a questionar detalhes cênicos, sejam as atitudes dos personagens (que Julie tenta reproduzir como de fato aconteceram) ou a estranha sensação de que os dias não passam naquela narrativa. Penso que Hogg imprime aqui alguns pontos que foram ressaltados sobre o primeiro filme e aqui ela afirma ser tudo intencional na reconstrução da história. Tilda Swinton (mãe da atriz principal na vida real) repete seu papel de mãe dentro da tela, mas o que chama atenção são os demais personagens que cruzam o caminho da personagem. Entre cineastas em potencial, atores e profissionais em formação, a diretora consegue imprimir uma atmosfera bastante realista sobre o universo habitado por Julie durante seu amadurecimento profissional e emocional. 

The Souvenir - Parte II (The Souvenir - Part II / Reino Unido - Irlanda - EUA / 2021) de Joanna Hogg com Honor Swinton Byrne, Tilda Swinton, Alice McMillan, Oli Bauer, Jaygann Ayeh, Charlie Heaton, Richard Ayoade, Frankie Wilson, Jack McMullen, Harris Dickinson e Jow Alwyn. ☻☻

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

PL►Y: Wolf

 
George: Jacob, o menino lobo. 

Ainda que pareça um rapaz educado Jacob (George MacKay) gosta mesmo é de andar pelado pela floresta uivando para a lua. O moço se considera um lobo preso no corpo de homem e sua postura aparentemente inofensiva já rendeu até uma agressão grave a outra pessoa. Diante do estranhamento provocado por seu comportamento, seus pais decidem interná-lo numa clínica especializada no que costumam chamar de Disforia de Espécie, onde descobrimos que não é apenas Jacob que se considera um bicho, mas uma série de outros jovens apresentam o mesmo comportamento. Na clínica vemos adolescentes que se veem como cavalo, esquilo, pastor alemão, papagaio, pato... todos estão sob os cuidados do tratamento criado pelo Doutor Zookeeper (Paddy Considine) e acompanhados pela Doutora Angeli (Eileen Walsh). Espera-se que ao longo do tratamento, os pacientes comecem a se reconhecer como seres humanos e deixem para trás a ideia de que são espécies diferentes presos no corpo errado. Se a ideia parece nobre, o método adotado por Zookeeper é bastante agressivo, de forma que trata seus pacientes como bichos, sujeitos a situações de tortura psicológica (ao ponto de dizer para uma garota vestida de papagaio pular de uma janela já que ela, enquanto pássaro, sabe voar, ou até fazer um rapaz perder a unha enquanto tenta escalar uma árvore como um esquilo faria). Por outro lado, Jacob parece ciente do que deve fazer para sair dali o mais rápido possível, mas, ao mesmo tempo, assumir-se enquanto lobo parece inevitável mediante um método que não entende o que se passa em sua cabeça. A diretora e roteirista Nathalie Biancheri parece beber na fonte do absurdismo que faz a glória do novo cinema grego na escola de Yorgos Lanthimos, mas carece de um olhar um pouco mais ácido para fazer seu filme alcançar todas as notas que anseia. Em alguns momentos as situações parecem querer provocar risos na plateia, em outros gera angústia, em outras compaixão, mas de forma um tanto desequilibrada ao longo da sessão, principalmente quando os personagens não se desenvolvem ao longo da história. A impressão é que o olhar da diretora sobre aqueles personagens fica em cima do muro, entre o poético e o absurdo, deixando até que paire sobre o filme comparações com pessoas trans e o olhar que a sociedade possui sobre elas. O que faz o filme funcionar mesmo é a atuação do inglês George MacKay, ator que está prestes a completar 30 anos e atua desde os dez anos de idade. Em Wolf seu trabalho de expressão corporal impressiona quando caminha feito um lobo de verdade, pena que o roteiro não apara a complexidade de seu personagem como ele merece. 

Wolf (Irlanda - Reino Unido - Polônia / 2021) de Nathalie Biancheri  com George MacKay, Lily-Rose Depp, Eileen Walsh, Paddy Considine, Fionn O'Shea, Darragh Shannon e Terry Notary. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

PL►Y: Era uma Vez em Staten Island

A família Dedea: culto a Rocky Balboa. 

Imagine um feel good movie familiar feito por uma produtora famosa por seus filmes de terror (a Blumhouse). Agora imagina que este filme é dirigido pelo criador da franquia Uma noite de Crime (2013), para finalizar coloque tudo na história girando em torno do filme Rocky III (1982). Parece esquisito? É mais ou menos esta sensação estranha que perpassa toda a duração de Era Uma Vez em Staten Island, um filme cheio de boas intenções, mas perdido feito todos os seus personagens. Ambientado no final de semana de estreia do filme de Stallone (28 de maio de 1982) num bairro repleto de ítalo-americanos, o filme gira em torno da família Dedea, fãs incondicionais do personagem lutador de boxe. O filho caçula, Anthony (Lucius Howard) é apaixonado pela filha do maior inimigo do pai, o mafioso Frank Larocca (Bobby Cannavale). O pai (Frank Grillo), anda preocupado com o trabalho no restaurante que administra que está prestes a perder para as más intenções de Frank. Os dois tem uma rixa do passado que ainda instiga uma tensão constante entre os dois - e ao que tudo indica envolve a mãe da família (Naomi Watts) que está bastante preocupada com seu primogênito, Christian (Jonah Hauwe King). Se no início a maior preocupação dos personagens é assistir ao novo filme de Rocky juntos, depois cada um terá seu problema para administrar (e Anthony terá que fugir por boa parte da narrativa, já que um mal entendido faz com que seja perseguido pela maioria dos personagens). O roteirista e diretor James DeMonaco parece ter se baseado em suas memórias pessoais para criar a história do filme (algo que está em moda em Hollywood ultimamente), mas concentrar todos os dilemas de seus personagens após assistir uma sessão de cinema soa um bocado estranha (especialmente se levarmos em conta a forma como a identidade de gênero de um dos personagens é tratada). Era Uma Vez em State Island parece uma colagem de cenas curiosas que poderiam dar muito certo ou dar muito errado por conta do seu roteiro, aqui fica no meio do caminho. Desengonçado em sua concepção, o filme não transmite a sinceridade necessária para ser levado a sério, não conseguindo ser genuinamente divertido ou comovente, parece apenas superficial - especialmente quando toda a família se reúne na cena final. Não lembro de Rocky III ser um filme tão cultuado assim (apesar de sempre achar estranho que o primeiro filme ganhou o Oscar de Melhor Filme de 1976 (derrotando Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente e Taxi Driver), mas na casa de DeMonaco parece ter sido realmente transformador para sua família. 

Era Uma Vez em Staten Island (This is The Night/ EUA -2021) de James DeMonaco com Lucius Howard, Frank Grillo, Naomi Watts, Bobby Cannavale, River Alexander e Chase Vacnin. ☻☻

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Marighella

Seu Jorge: escolha criticada em atuação premiada. 

Lançado no final do ano passado após diversos adiamentos, Marighella, o filme de estreia de Wagner Moura na direção já chegava aos cinemas com uma campanha de divulgação que aconteceu quase que por conta própria. Seja pela audácia de contar a história de um personagem histórico que lutou contra o regime militar (levando em conta o cenário político nacional recente), seja por ter escolhido Seu Jorge para viver o protagonista ou pelas diversas vezes em que foi apontada censura sob a não chegada dos filmes na telona. No fim das contas, quando o filme estreou havia tanto burburinho em torno dele que seria até difícil separar o que ele representava de suas qualidades cinematográficas. Entre discursos de direita e esquerda tentarei falar sobre o filme. Não resta dúvidas que diante de toda sua experiência em produções cinematográficas nacionais ou internacionais, Wagner Moura aprendeu direitinho como fazer cinema com C maiúsculo, afinal, sua qualidade técnica é invejável. Seu Jorge dá conta com grande vigor do personagem, apresentando suas convicções, sem perder de vista os traços que lhe tornou um líder carismático da Ação Libertadora Nacional, que reunia pessoas em prol da causa de "libertar o povo brasileiro da opressão". Como o filme repete várias vezes, "a mídia estava amordaçada" e o ponto de vista do grupo nunca era divulgado, deixando que fossem vistos no limiar entre a militância e o crime. Para dar um suporte dramático ao lado histórico do filme, o texto tenta contar a história de personagens que estavam em torno do protagonista, abordando seus dilemas pessoais de forma bastante concisa, sejam jovens, jornalistas ou líderes que veem na figura do policial Lucio (vivido por Bruno Gagliasso) a encarnação da opressão. Obviamente que o filme toma algumas liberdades para tornar sua trama mais envolvente, se enrola em algumas situações que parecem não ter muita serventia (como o assalto ao trem ou a entrada no banco com o filho por perto), despeja cenas de violência bastante gráfica (de fazer fechar os olhos nas cenas de tortura) e romantiza alguns personagens. Enfim, faz o filme com todos os ingredientes necessários para embalar um thriller político interessante. No entanto, alguns pontos me incomodaram, como o uso de frases feitas um tanto batidas e a dificuldade de fazer um corte final no filme, perto do final ele já me parecia interminável... e aquelas cenas finais sucessivas só aumentaram esta impressão. No entanto, nada que prejudique a estreia audaciosa de Wagner Moura na direção, ainda que ele carregue muito do estilo de José Padilha (Tropa de Elite/2007)  na direção, o moço tem tudo para fazer bonito em seus projetos atrás das câmeras. O filme concorreu a 17 categorias no Grande Prêmio Cinema Brasil e levou oito para casa, incluindo Melhor Filme, Direção e Melhor Ator (Seu Jorge). 

Marighella (Brasil-2019) de Wagner Moura com Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Adriana Esteves, Humberto Carrão, Luiz Carlos Vasconcelos, Herson Capri, Bella Camero e Jorge Paz. ☻☻

domingo, 18 de setembro de 2022

PL►Y: O Homem Ideal

 
Dan e Maren: quando o homem perfeito não agrada.

Em seu terceiro longa-metragem a diretora alemã Maria Schrader revisita uma ideia que já foi usada várias vezes: um robô capaz de satisfazer os desejos de uma mulher. Nos anos 1980 ele tinha a cara de John Malkovich (Construindo um Cara Certinho/1987) nos anos 2000 era a cara do Jude Law (o Gigolo Joe de Inteligência Artificial/2001) vinte anos depois a ideia está de volta com a cara do Dan Stevens - que perdeu peso e ficou sarado depois de falecer na série Dowton Abbey e migrar para as telas de cinema. A prova de que a ideia ainda funciona são os prêmios e as críticas positivas que o filme recebeu, além do sucesso de público que comprou a ideia mais uma vez. Talvez a maior diferença entre o robô que aparece aqui e os seus anteriores é que este surge num tempo em que o apreço à tecnologia é maior do que nunca na história da humanidade e, em alguns momentos, se você trocar o robô por um celular a ideia não parece tão distante. O filme foi o escolhido da Alemanha para conseguir uma vaga na categoria de melhor filme internacional, mas acabou ficando de fora, provavelmente pela sensação de déjà vu que por mais gracioso que o filme possa ser, torna-se inevitável. O filme é ambientado em um futuro próximo em que Alma (Maren Eggert), uma workaholic um tanto mal humorada, resolve testar um invento revolucionário: um robô, chamado Tom (Dan Stevens) capaz de ser tudo aquilo que ela deseja em um homem. O problema é que enquanto a máquina de última geração faz de tudo para agradar, ela parece estar disposta a não ser nem um pouco agradável com ele, afinal, como ela repete o tempo todo, ele é uma máquina e não possui sentimentos. Sendo assim, o filme se torna uma comédia romântica de uma piada só: já que em momento algum ela parece estar disposta a ter um relacionamento, seja com o simpático Tom ou com uma pessoa de verdade. A coisa complica se você imaginar que Tom foi composto com tudo que ela idealiza num homem (da inteligência ao formato do genital) e mesmo assim, ele não é possível de agradá-la. Obviamente que lá pelas tantas iremos entender o motivo de Alma hesitar mergulhar em relacionamentos, mas a pergunta de porque diabos ela foi se meter num experimento destes se não estava afim de colaborar não acaba mesmo depois dos créditos finais. Lembrei de alguns momentos de terapia em que eu era questionado por me aplicar demais ao trabalho para não perceber coisas na minha vida pessoal que me desagradava e a forma como por vezes nos fechamos e depois reclamamos da solidão. O Homem Ideal ainda tem aquele final deliciosamente contraditório, em que Alma sela de vez sua opinião negativa sobre robôs capazes de nutrir nossas carências para depois, bem... você verá. No fim das contas, fica a óbvia resolução de que homens ideais não existem, assim como mulheres ideias também não. 

O Homem Ideal (Ich bin dein Mensch / Alemanha - 2021) de Maria Schrader com Maren Eggert, Dan Stevens, Sandra Hüller, Jürgen Tarrach, Hans Löw e Inga Busch. ☻☻ 

sábado, 17 de setembro de 2022

PL►Y: Querido Evan Hansen

Ben Platt: cantando sobre saúde mental. 

Imaginar um musical que gira em torno de temas como saúde mental e suicídio parece um tanto estranho mesmo em tempos em que já vimos praticamente de tudo na tela grande. Pois foi com esta matéria-prima que Dear Evan Hansen se tornou um sucesso na Broadway em 2016, principalmente pelo seu elenco e a performance de Ben Platt - que foi agraciado com o Tony por seu trabalho. O sucesso carimbou o passaporte do ator e cantor para o estrelato, fazendo com que estrelasse série na Netflix (The Politician) e filmes em Hollywood. Portanto, nada mais natural que ao anunciarem a adaptação cinematográfica de Querido Evan Hansen alguns envolvidos batessem o pé para que Ben fosse o protagonista. Ironicamente, muitos críticos apontaram a presença do ator um dos maiores problemas desta adaptação, afinal, Ben tinha 26 anos na época das filmagens, praticamente, dez anos a mais do que o personagem principal, um adolescente com ansiedade social e que necessita de acompanhamento médico para manter a sua saúde mental. É visível o esforço de Ben para convencer no papel que já lhe é bem familiar, não por conta de transparecer os dilemas do personagem, mas porque a linguagem cinematográfica é bastante cruel em sua proximidade para evidenciar o que no teatro poderia ser imperceptível: a idade de seu ator principal. Ciente de que o olhar, a voz, a postura e o gestual talvez não dessem conta do rejuvenescimento do ator, apelaram para uma maquiagem que parece estranha até que você decida não dar importância para ela. Assim, Ben vive os dilemas de um adolescente que é solicitado pelo terapeuta a escrever uma carta para si mesmo e, por acidente, acaba a imprimindo na escola e deixando que ela caia nas mãos de um colega bastante agressivo, Murphy (vivido por Colton Ryan). Acontece que Murphy também possui sua cota de mazelas para administrar e, sem dar conta delas, se suicida deixando que a tal carta seja encontrada e confundam Hansen com seu melhor amigo. Começa então uma grande mentira que fará de Evan Hansen uma celebridade local, com direito a campanhas e tudo mais, além de uma colateral aproximação com a família do falecido. Dito tudo isso, fica a ideia de um drama pesado na cabeça do espectador, mas se você lembrar que subitamente o elenco irá cantarolar suas angústias a coisa fica estranha - afinal, na Broadway a ideia pode funcionar, na telona... a artificialidade da proposta fica bastante desconfortável. No entanto, vale destacar alguns pontos que evidenciam o que há de bom na história: a ideia das redes sociais para aproximação das pessoas, mas também para o massacre de indivíduos que passam a ser julgados por isso ou aquilo, a necessidade de uma geração em tornar tudo público (ainda que seja um segredo), a ideia ilusória de que você só importa se for for popular (o que só confunde as inseguranças vinculadas à sua autoestima), além de como o seu estado mental pode ser disfarçado com sorrisos ou agressividades. No entanto, ao optar por sua versão branda de tudo o que abraça, Querido Evan Hansen nunca atinge as notas que almeja. Resta o esforço de Ben e a atuação de Julianne Moore que percebe o abismo em que seu filho mergulha lentamente. Não é o desastre que anunciaram, mas é um filme muito esquisito. Ainda acho que a direção de Stephen Chbosky (de As Vantagens de Ser Invisível/2012 e Extraordinário/2017), contribui para a coisa não desandar de vez, mas deixa a impressão que o rapaz está se repetindo filme após filme e perdendo o fôlego cada vez mais. 

Querido Evan Hansen (Dear Evan Hansen/ EUA - 2021) de Stephen Chbosky com Ben Platt, Julianne Moore, Amy Adams, Kaitlyn Dever, Amandla Stenberg, Colton Ryan e Nik Dodani.  



quinta-feira, 25 de agosto de 2022

PL►Y: Pequena Mamãe

As irmãs Sanz: encantamento sufocado. 

Em cartaz no Prime Video, Pequena Mamãe foi indicado ao BAFTA e ao Independent Spirit na categoria de Melhor Filme estrangeiro. O filme chegou a ser cotado para uma indicação ao Oscar por seus fãs fervorosos e isso deve ter mexido com as minhas expectativas quando assisti ao novo filme da diretora Céline Sciamma. A ideia é bastante simples, e pode funcionar com seu apelo universal para todas as idades, mas a diretora confia tanto nesta ideia que esquece de fazer o mais importante: contar uma história a partir dela. A personagem principal é uma menina que acaba de perder a vovó. Nelly (Joséphine Sanz) tem oito anos e ajuda os pais arrumarem os objetos da falecida. A arrumação de tantos objetos é em si uma representação do luto daquela família da ausência causada pela morte que ainda paira sobre seus pensamentos e lugares que costumavam ser acolhedores - o que torna todos os personagens do núcleo familiar distante nas situações e diálogos. No entanto, um dia Nelly encontra uma menina, Marion (Gabrielle Sanz), muito parecida com ela num bosque perto dali e as duas ficam amigas. Aos poucos percebemos que as vidas de ambas possuem mais coisas em comum do que somente a aparência semelhante. Sciamma não faz mistério com o que vemos na tela, já que as duas meninas são praticamente idênticas e uma delas carrega o nome da mãe da outra. Sciamma conta a história nos detalhes, poupa seu elenco de verter lágrimas diante da câmera e conduz sua trama com cenas do cotidiano em que quase nada demais acontece (a construção de uma casa no bosque, o dia de fazer a barba do papai, um passeio de barco, a feitura de um bolo...). Pequena Mamãe é uma história de fantasia filmada como se fosse uma trama realista. Fala sobre família, sentimentos, perda, morte, vida... lindamente fotografado, o que o torna uma produção muito bonitinha (assim como as duas meninas), mas que não avança muito em suas possibilidades, dependendo muito da vontade do espectador comprar a ideia e se sensibilizar. Embora entenda a presença do luto na atmosfera, achei um filme bastante frio, especialmente com as duas meninas passando a maior parte do filme com a mesma cara. Embora a proposta seja um convite ao encantamento, o resultado é incrivelmente duro em sua formatação emocional. Parece ter vergonha de encantar, o que é uma pena. 

Pequena Mamãe (Petite Maman / França - 2021) de Céline Sciamma com Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne e Margot Abascal. ☻☻

domingo, 21 de agosto de 2022

PL►Y: Noite Passada em Soho

Matt, Tomasin e Anya: só desperdício. 

Podemos dizer que Edgar Wright tem três filmes nos pedestais da cultura pop (ainda farei um pódio sobre o moço), um é a melhor comédia sobre zumbis (Todo Mundo Quase Morto/2004), o outro é uma subestimada adaptação de HQ para (Scott Pilgrim Contra o Mundo/2010) e recentemente provou que filme de ação poderia ter alma de musical (Em Ritmo de Fuga/2017). Portanto, quando ele anunciou um novo projeto para a temporada de ouro, os olhos e ouvidos dos cinéfilos cresceram. Cresceram tanto que a expectativa chegou no topo e Noite Passada em Soho dividiu opiniões. A minha não é muito boa. O filme tinha tudo para dar certo, o visual é super caprichado na tentativa de emular a efervescência do bairro londrino, a fotografia é caprichada no uso das cores neon, os figurinos são competentes, os penteados são caprichados, o elenco é de encher os olhos, mas... faltou um roteiro sólido para dar alma para tudo isso. O filme conta a história de uma jovem órfã que pretende ser estilista e é aceita em uma conceituada faculdade em Londres. Assim que chega, Eloise (Thomasin Mckenzie) começa a ser hostilizada por suas colegas e, não bastasse isso, ela é sensitiva e tem o hábito de ter visões que ela não sabe muito bem o motivo. Chegando no Soho é como se ela viajasse para os anos 1960, ela fica fascinada com isso, mas tudo muda memso quando ela começa a ter visões repetidas sobre a vida de uma misteriosa garota (Annya Taylor-Joy), que também foi tentar a vida por lá e se envolveu em uma trama sombria no passado. Eloisa tenta desvendar os mistérios em torno da garota e o filme fica indo e voltando sem revelar nada de realmente surpreendente, até que um crime acontece e a trama se enrola mais ainda para desenvolver o labirinto em que se meteu. Particularmente eu comecei a desconfiar do filme quando ninguém avançava muito nos comentários sobre a trama em seu lançamento - e pudera, realmente ela é isso descrito acima - e se contar mais é o desfecho. Falando em desfecho, confesso que achei uma das coisas mais esquisitas os caminhos escolhidos pelo diretor para concluir a trama, afinal, ela é repleta de homens abusivos que em alguns momentos fazem o filme patinar no gelo de seus posicionamentos. Fosse uma ideia bem amarrada não teria problema, mas o gelo é finíssimo aqui, quebradiço até. Fora isso, me causou certo déjà vu esta mistura do ponto de partida e das cores do Suspiria (1977) de Dario Argento, com os delírios de Repulsa ao Sexo (1965) - tem cenas que parecem verdadeiras cópias deste último. A sensação de já vi este filme antes (e melhor) provocou alguns cochilos inevitáveis. Se você sente pena de ver Anya Taylor-Joy tentando dar dignidade aos caminhos previsíveis de sua personagem, repara no último trabalho da excepcional Diana Rigg como a senhoria da protagonista, ela faz até o filme parecer melhor do que é, mas nem sempre o talento é suficiente para operar milagres na sétima arte. 

Noite Passada em Soho (Last Night In Soho / Reino Unido - China / 2021) de Edgar Wright com Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Diana Rigg, Terence Stamp, Matt Smith e Connor Calland. ☻☻