![]() |
| Anna: a vida online é ou não é real? |
sábado, 8 de agosto de 2026
PL►Y: We're All Going to the World's Fair
terça-feira, 9 de junho de 2026
CICLO DIVERSIDADESXL: O Despertar da Juventude
![]() |
| Alex e Sam: desejos e receios. |
sábado, 4 de maio de 2024
PL►Y: Transmissões Sinistras
![]() |
| Shum: impressões traiçoeiras. |
sábado, 9 de setembro de 2023
PL►Y: Cyrano
![]() |
| Haley e Peter: nova versão de um clássico. |
Eu estava na torcida por uma indicação ao Oscar de melhor ator para Peter Dinklage por seu trabalho em Cyrano, mas infelizmente ele foi lembrado somente na categoria de melhor ator em comédia ou musical no Globo de Ouro. Acho que o sucesso abaixo do esperado da nova empreitada de Joe Wright não ajudou muito. É verdade que o filme tem seus problemas, mas o resultado é bastante agradável de assistir, sobretudo pelo trabalho de Peter esbanjando carisma na adaptação de um personagem clássico da literatura. O dramaturgo Edmond Rostand teve sua peça encenada pela primeira vez em 1897 e era baseada na figura real de Hector Savinier de Cyrano de Bergerac. A peça gira em torno de um homem que sofria complexos mas que consegue conquistar o coração da mulher que ama, Roxane, escrevendo cartaz através de um amigo que deseja conquistá-la. Assim, mesmo através de um intermediário, Cyrano sente o prazer da conquista, mas também o ciúme de ver sua amada se apaixonar por um homem que não possui sua habilidade com as palavras. O triângulo amoroso sofre ainda interferência do Duque de Guiche, que ganha o contorno de vilão de história e torna-se responsável pelo destino dos personagens da trama. A peça já recebeu várias adaptações para o cinema e talvez a mais famosa delas seja Cyrano de Bergerac (1990) de Jean Paul Rappeaneau que foi indicada a cinco categorias no Oscar, incluindo melhor filme estrangeiro e melhor ator (Gerard Depardieu). Em 2018, enquanto estrelava a icônica Game of Thrones, Peter Dinklage estrelou no teatro uma adaptação da peça escrita por sua esposa, Erica Schmidt, em formato de musical com a colaboração da banda The National e Aaron Dressner. A repercussão da peça fez Joe Wright se empolgar com a ideia de levar a trama mais uma vez para os cinemas. A espinha dorsal da história é a mesma, apenas trocando o nariz proeminente do protagonista pela estatura de seu astro principal, o que não altera em nada as emoções envolvidas na peça. Aqui Roxane é vivida por Haley Bennet, o amigo Christian é interpretado por Kelvin Harrison Jr. e o vilão fica por conta de Ben Mendelsohn. O quarteto principal garante bons momentos no decorrer da história que é conduzida com bastante leveza por Wright. Sei que muita gente irá torcer o nariz pelo fato do filme ser um musical, mas se o texto original já era todo rimado, vejo como algo bastante lógico imaginar a história formatada dentro do gênero. O diretor conduz as cenas musicais de forma bastante orgânica no decorrer da história, de forma que a narrativa não desafina quando as canções aparecem (embora nenhuma delas seja realmente marcante). Aqui o diretor retoma uma mise en scène bastante teatral como vimos em sua adaptação de Anna Karenina (2012), os figurinos (indicados ao Oscar) são uma atração à parte, mas tudo isso sofre com uma fotografia um tanto tediosa em tons marrons e rosados que pode causar certa sonolência. Para espantar isso, sempre podemos contar com o vigor de Dinklage que consegue provar mais uma vez que pode ser um galã mais que eficiente. Eu adoraria que o diretor houvesse alterado o final, mas infelizmente ele deve ter considerado que já mexeu muito em um clássico. O filme está atualmente disponível no catálogo do Prime Video.
terça-feira, 5 de setembro de 2023
CICLO VERDE E AMARELO: Medusa
Nas ruas de da cidade um grupo de mulheres mascaradas perseguem outras. O que poderia ser visto como um assalto ou uma rixa pessoal logo ganha contornos reveladores quando as vítimas são chamadas de "messalina" ao final do linchamento. O tal grupo registra em vídeo a agredida prometendo que deixará de ser mundana, que será recatada e seguirá o senhor. Medusa da diretora Anita Rocha da Silveira é isso mesmo, uma alegoria sobre o fanatismo religioso que causa uma cegueira capaz de guiar um comportamento agressivo para ditar como os outros devem viver. Ninguém imagina que a tal gangue mascarada, que vaga pelas noites atrás de seus alvos, é na verdade um grupo de devotas cristãs que se apresentam na igreja entonando hinos de devoção a Deus e amor a Jesus sob o nome de As Preciosas. Onde o próximo fica nisso tudo é outra história. É interessante que o filme que possui este ponto de partida receba o nome de um dos seres mais famosos da mitologia grega. Medusa era uma bela mulher que é punida por uma esposa traída ao descobrir que seu marido se envolveu com ela. Transformada em um monstro, capaz de transformar em pedra qualquer um que olhe para ela, a personagem gera fascínio até os dias atuais. Aqui a Medusa pode ser vista como Melissa (Bruna Linzmeyer em participação especial), uma jovem atriz que foi punida por conservadores por viver sua sexualidade sem culpa e acabou desaparecida após ficar deformada. Existe uma certa obsessão da protagonista, Mari (Mari Oliveira), membro da tal gangue, em encontrar o paradeiro de Melissa, mas isso até se perde no monte de ideias apresentadas no roteiro da diretora. Existe muita coisa a ser desenvolvida em Medusa e, por conta disso, algumas delas recebem resoluções insatisfatórias. A própria questão da religiosidade aqui não consegue esbarra sempre na caricatura, com suas personagens histéricas pelo desejo reprimido e os discursos que se repetem exaustivamente para justificar seus atos mais execráveis e, não por acaso, a líder do grupo se chama Michele (Lara Tremouroux) - que nas horas vagas dá dicas de maquiagem cristã às suas seguidoras (enquanto disfarça os hematomas com bases variadas ao longo do filme). Essa ideia ideal de feminilidade aparece em vários momentos do filme, incluindo no discurso dos Vigilante de Sião, um grupo de rapazes que fazem par com as mascaradas nas esquisitices extremistas e treinam para sua cruzada em coreografias que são difíceis de serem levadas a sério (em uma cena parece até aquela cena da dancinha dos Kens em Barbie só que em versão fascista). Muito da trama gira em torno da crise de identidade vivida por Mari quando a perseguição à uma das vítimas mundanas não sai como o esperado. Sua vida acaba sofrendo mudanças e ela começa a ceder aos impulsos de seu corpo. Mari Oliveira realiza um bom trabalho em cena, revelando as várias camadas da personagem, mas o roteiro atira para tantos lados que seu arco acaba perdendo força chegando a um ponto em que o texto tenta resolver tudo aos gritos (literalmente). Longo demais (mais de duas horas), o filme funciona melhor quando flerta com o terror e o suspense, momento em que a fotografia e a trilha sonora caprichada conseguem criar um atmosfera bastante envolvente, mas quando deixa se levar pelo pastiche o filme perde fôlego e cai na repetição. No fim das contas com o romance de Mari com um colega de trabalho (Felipe Frazão) fica no meio do caminho, a busca por Melissa perde a importância, a forma como como a protagonista lida com o desejo é reduzida, a violência contra a mulher fica de escanteio e o filme vai se perdendo gradativamente nas pontas soltas. Acho que a cena perfeita para terminar o filme seria aquela apresentação hilariante e um tanto assustadora em que as meninas desabam no palco numa exemplificação da farsa desconstruída de suas vidas banhadas em discurso de ódio amparado por corações de pedra e cabeças de vento.
Medusa (Brasil - 2021) de Anita Rocha da Silveira com Mari Oliveira, Laura Tremeroux, Joana Medeiros, Felipe Frazão, Thiago Fragoso, Bruna Linzmeyer, Carol Romano, João Oliveira e Isadora Ruppert. ☻☻
domingo, 30 de julho de 2023
PL►Y: O Acontecimento
domingo, 9 de julho de 2023
.Doc: Wham! / Tina / Love to Love you, Donna Summer / Moonage Daydream
domingo, 23 de abril de 2023
PL►Y: Compartimento Número 6
Laura (Seidi Haarla) é uma estudante de arqueologia finlandesa que passou os últimos tempos na Rússia ao lado da namorada Irina (Dinara Drukanova), uma professora universitária que vive num grupo bem mais academicista que sua parceira. Laura está prestes a realizar um sonho antigo: ir até o Círculo Polar Ártico para visitar as pinturas rupestres milenares de Murmansk. O problema é que ela terá que ir sozinha, devidamente acompanhada de uma câmera para registrar tudo. Se a ideia de ir desacompanhada já não é muito boa, a coisa piora quando ela conhece seu parceiro de vagão (o compartimento do título), um jovem russo chamado Vadim (Iuriy Burisov), um mineiro que está de mudança em busca de emprego. Os dois não poderiam ser mais diferentes, ela é uma discreta intelectual, Vadim é um operário desbocado e de modos pouco polidos, que não demora a tentar começar uma conversa com grosserias e ofensas. Fosse uma comédia de Hollywood, os dois beberiam na manjada fonte dos "opostos que se atraem" e se odiariam até descobrirem que são almas gêmeas ao final do filme. Como é um filme finlandês, os dois vão se estranhar no início até que um forte vínculo de amizade se instaure entre os dois e o filme ganhe uma leveza insuspeita em seus momentos iniciais. Obviamente que ambos terão que fazer por onde, Ele terá que maneirar em suas grosserias e apresentar que é capaz de ser um sujeito sensível e divertido, assim como ela terá q baixar a guarda e tentar criar vínculo com aquele sujeito que está por perto. Afinal, paira sobre ambos uma sensação de solidão e insegurança durante a viagem. Se ela não consegue conversar muito com a namorada por telefone ou ter muito o que fazer em cada estação em que o trem para, ele também não tem muito mais o que fazer do que encher a cara sempre que pode. Diante dessa insatisfação mútua durante a viagem, surgirá uma conexão entre os dois que deixará a jornada de ambos menos melancólica. Compartimento Número 6, que está disponível atualmente no prime Vídeo, foi um dos filmes europeus mais badalados de 2021, ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes2021, concorreu a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, além de ser indicado ao Bafta, César e Independent Spirit na mesma categoria. O motivo para tantos elogios é o diferencial do filme calcado na dupla principal que trazem um tanto de calor humano às paisagens gélidas que atravessam e, aos poucos, modificam a ideia claustrofóbica construída no início do filme. Não por acaso a personagem principal começa interessada nos registros do passado (as pinturas rupestres) e termina com uma carta calorosa na mão ao desfecho do filme.
Compartimento Nº 6 (Hytti nro 6 / Finlândia - Rússia - Estônia - Alemanha / 2021) de Juho Kuosmanen com Seidi Haarla, Yuriy Borisov, Dinara Drukarova, Julia Aug e Tomi Alatalo. ☻☻☻
domingo, 16 de abril de 2023
PL►Y: Red Rocket
De vez em quando o cinema autoral se volta para ídolos do universo pornô. Foi assim com Dirk Digler e seus colegas no clássico Boogie Nights (1997) e recentemente no pesadão Pleasure (2022). Particularmente, acho que se não tivesse assistido este último eu teria achado mais graça de Red Rocket, último filme de Sean Baker. Já é público e notório que Baker gosta de desviar sua câmera para personagens periféricos a cenários que habitam nosso imaginário, foi assim ao filmar Los Angeles (com um iPhone) e focar em protagonistas trans em Tangerine (2015) ou em contar uma história terna com crianças que moram ao lado da Disney (mas que nunca teriam dinheiro para visitar o parque mais famoso do mundo) em Projeto Flórida (2017). Agora ele nos apresenta Mikey (Simon Rex), um astro pornô que caiu em decadência e acaba de voltar para casa, ou melhor, para a casa da ex-mulher, também ex-pornstar, Lexi (Bree Elrod). Como a grana anda curta, a mãe dela divide o teto com ela faz tempo. Mikey logo percebe que a vida não será fácil, como emprego anda difícil e ele é sempre cobrado a trazer algum dinheiro para casa, ele começa a se arriscar em atividades ilegais. A vida dele parece mudar mesmo quando conhece Strawberry (Suzanna Son), uma adolescente que trabalha em uma loja de donuts. Ele acredita que é capaz de convencê-la a fazer filmes eróticos com ele e, com isso, ter um retorno triunfal na indústria pornográfica. Com essa premissa, Red Rocket mistura drama e comédia, principalmente por conta do jeito atrapalhado de seu protagonista vivido com gosto por Simon Rex. Rex foi um ícone da MTV americana, se tornou bastante popular e viu sua carreira minguar quando seu passado em filmes adultos comprometeram seus projetos futuros. Na pele de Mikey se torna até fácil simpatizar com ele, apesar de todas as suas canalhices, suas trapaças recebem tom cômico, assim como suas discussões, cenas de sexo e nudez. Não por acaso sua carismática desenvoltura lhe rendeu o prêmio de melhorador no Independente Spirit do ano passado e uma torcida (que não deu em nada) para que recebesse uma indicação ao Oscar (difícil a Academia comprar uma ideia feito a sinopse do filme). Logicamente que Baker constrói a história pelo gosto de ver a cara de pau do protagonista ser quebrada várias vezes, mesmo que paire sobre a trama a sombra dele poder ganhar a vida às custas de uma adolescente. Talvez por isso o final tenha me parecido um tanto abrupto, deixando as intenções do diretor (sejam elas quais forem) no meio do caminho. Este olhar bem humorado e um tanto desleixado sobre a decadência de um "Macho Alfa" pode ser visto no TelecinePlay.
sexta-feira, 17 de março de 2023
PL►Y: O Mundo Atrás de Nós
sábado, 11 de março de 2023
PL►Y: A Ilha de Bergman
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
PL►Y: Um Herói
PL►Y: The Souvenir - Parte II
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
PL►Y: Wolf
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
PL►Y: Era uma Vez em Staten Island
quinta-feira, 17 de novembro de 2022
CICLO VERDE E AMARELO: Marighella
domingo, 18 de setembro de 2022
PL►Y: O Homem Ideal
sábado, 17 de setembro de 2022
PL►Y: Querido Evan Hansen
Imaginar um musical que gira em torno de temas como saúde mental e suicídio parece um tanto estranho mesmo em tempos em que já vimos praticamente de tudo na tela grande. Pois foi com esta matéria-prima que Dear Evan Hansen se tornou um sucesso na Broadway em 2016, principalmente pelo seu elenco e a performance de Ben Platt - que foi agraciado com o Tony por seu trabalho. O sucesso carimbou o passaporte do ator e cantor para o estrelato, fazendo com que estrelasse série na Netflix (The Politician) e filmes em Hollywood. Portanto, nada mais natural que ao anunciarem a adaptação cinematográfica de Querido Evan Hansen alguns envolvidos batessem o pé para que Ben fosse o protagonista. Ironicamente, muitos críticos apontaram a presença do ator um dos maiores problemas desta adaptação, afinal, Ben tinha 26 anos na época das filmagens, praticamente, dez anos a mais do que o personagem principal, um adolescente com ansiedade social e que necessita de acompanhamento médico para manter a sua saúde mental. É visível o esforço de Ben para convencer no papel que já lhe é bem familiar, não por conta de transparecer os dilemas do personagem, mas porque a linguagem cinematográfica é bastante cruel em sua proximidade para evidenciar o que no teatro poderia ser imperceptível: a idade de seu ator principal. Ciente de que o olhar, a voz, a postura e o gestual talvez não dessem conta do rejuvenescimento do ator, apelaram para uma maquiagem que parece estranha até que você decida não dar importância para ela. Assim, Ben vive os dilemas de um adolescente que é solicitado pelo terapeuta a escrever uma carta para si mesmo e, por acidente, acaba a imprimindo na escola e deixando que ela caia nas mãos de um colega bastante agressivo, Murphy (vivido por Colton Ryan). Acontece que Murphy também possui sua cota de mazelas para administrar e, sem dar conta delas, se suicida deixando que a tal carta seja encontrada e confundam Hansen com seu melhor amigo. Começa então uma grande mentira que fará de Evan Hansen uma celebridade local, com direito a campanhas e tudo mais, além de uma colateral aproximação com a família do falecido. Dito tudo isso, fica a ideia de um drama pesado na cabeça do espectador, mas se você lembrar que subitamente o elenco irá cantarolar suas angústias a coisa fica estranha - afinal, na Broadway a ideia pode funcionar, na telona... a artificialidade da proposta fica bastante desconfortável. No entanto, vale destacar alguns pontos que evidenciam o que há de bom na história: a ideia das redes sociais para aproximação das pessoas, mas também para o massacre de indivíduos que passam a ser julgados por isso ou aquilo, a necessidade de uma geração em tornar tudo público (ainda que seja um segredo), a ideia ilusória de que você só importa se for for popular (o que só confunde as inseguranças vinculadas à sua autoestima), além de como o seu estado mental pode ser disfarçado com sorrisos ou agressividades. No entanto, ao optar por sua versão branda de tudo o que abraça, Querido Evan Hansen nunca atinge as notas que almeja. Resta o esforço de Ben e a atuação de Julianne Moore que percebe o abismo em que seu filho mergulha lentamente. Não é o desastre que anunciaram, mas é um filme muito esquisito. Ainda acho que a direção de Stephen Chbosky (de As Vantagens de Ser Invisível/2012 e Extraordinário/2017), contribui para a coisa não desandar de vez, mas deixa a impressão que o rapaz está se repetindo filme após filme e perdendo o fôlego cada vez mais.
Querido Evan Hansen (Dear Evan Hansen/ EUA - 2021) de Stephen Chbosky com Ben Platt, Julianne Moore, Amy Adams, Kaitlyn Dever, Amandla Stenberg, Colton Ryan e Nik Dodani. ☻☻
quinta-feira, 25 de agosto de 2022
PL►Y: Pequena Mamãe
Em cartaz no Prime Video, Pequena Mamãe foi indicado ao BAFTA e ao Independent Spirit na categoria de Melhor Filme estrangeiro. O filme chegou a ser cotado para uma indicação ao Oscar por seus fãs fervorosos e isso deve ter mexido com as minhas expectativas quando assisti ao novo filme da diretora Céline Sciamma. A ideia é bastante simples, e pode funcionar com seu apelo universal para todas as idades, mas a diretora confia tanto nesta ideia que esquece de fazer o mais importante: contar uma história a partir dela. A personagem principal é uma menina que acaba de perder a vovó. Nelly (Joséphine Sanz) tem oito anos e ajuda os pais arrumarem os objetos da falecida. A arrumação de tantos objetos é em si uma representação do luto daquela família da ausência causada pela morte que ainda paira sobre seus pensamentos e lugares que costumavam ser acolhedores - o que torna todos os personagens do núcleo familiar distante nas situações e diálogos. No entanto, um dia Nelly encontra uma menina, Marion (Gabrielle Sanz), muito parecida com ela num bosque perto dali e as duas ficam amigas. Aos poucos percebemos que as vidas de ambas possuem mais coisas em comum do que somente a aparência semelhante. Sciamma não faz mistério com o que vemos na tela, já que as duas meninas são praticamente idênticas e uma delas carrega o nome da mãe da outra. Sciamma conta a história nos detalhes, poupa seu elenco de verter lágrimas diante da câmera e conduz sua trama com cenas do cotidiano em que quase nada demais acontece (a construção de uma casa no bosque, o dia de fazer a barba do papai, um passeio de barco, a feitura de um bolo...). Pequena Mamãe é uma história de fantasia filmada como se fosse uma trama realista. Fala sobre família, sentimentos, perda, morte, vida... lindamente fotografado, o que o torna uma produção muito bonitinha (assim como as duas meninas), mas que não avança muito em suas possibilidades, dependendo muito da vontade do espectador comprar a ideia e se sensibilizar. Embora entenda a presença do luto na atmosfera, achei um filme bastante frio, especialmente com as duas meninas passando a maior parte do filme com a mesma cara. Embora a proposta seja um convite ao encantamento, o resultado é incrivelmente duro em sua formatação emocional. Parece ter vergonha de encantar, o que é uma pena.
Pequena Mamãe (Petite Maman / França - 2021) de Céline Sciamma com Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne e Margot Abascal. ☻☻
domingo, 21 de agosto de 2022
PL►Y: Noite Passada em Soho
![]() |
| Matt, Tomasin e Anya: só desperdício. |
Podemos dizer que Edgar Wright tem três filmes nos pedestais da cultura pop (ainda farei um pódio sobre o moço), um é a melhor comédia sobre zumbis (Todo Mundo Quase Morto/2004), o outro é uma subestimada adaptação de HQ para (Scott Pilgrim Contra o Mundo/2010) e recentemente provou que filme de ação poderia ter alma de musical (Em Ritmo de Fuga/2017). Portanto, quando ele anunciou um novo projeto para a temporada de ouro, os olhos e ouvidos dos cinéfilos cresceram. Cresceram tanto que a expectativa chegou no topo e Noite Passada em Soho dividiu opiniões. A minha não é muito boa. O filme tinha tudo para dar certo, o visual é super caprichado na tentativa de emular a efervescência do bairro londrino, a fotografia é caprichada no uso das cores neon, os figurinos são competentes, os penteados são caprichados, o elenco é de encher os olhos, mas... faltou um roteiro sólido para dar alma para tudo isso. O filme conta a história de uma jovem órfã que pretende ser estilista e é aceita em uma conceituada faculdade em Londres. Assim que chega, Eloise (Thomasin Mckenzie) começa a ser hostilizada por suas colegas e, não bastasse isso, ela é sensitiva e tem o hábito de ter visões que ela não sabe muito bem o motivo. Chegando no Soho é como se ela viajasse para os anos 1960, ela fica fascinada com isso, mas tudo muda memso quando ela começa a ter visões repetidas sobre a vida de uma misteriosa garota (Annya Taylor-Joy), que também foi tentar a vida por lá e se envolveu em uma trama sombria no passado. Eloisa tenta desvendar os mistérios em torno da garota e o filme fica indo e voltando sem revelar nada de realmente surpreendente, até que um crime acontece e a trama se enrola mais ainda para desenvolver o labirinto em que se meteu. Particularmente eu comecei a desconfiar do filme quando ninguém avançava muito nos comentários sobre a trama em seu lançamento - e pudera, realmente ela é isso descrito acima - e se contar mais é o desfecho. Falando em desfecho, confesso que achei uma das coisas mais esquisitas os caminhos escolhidos pelo diretor para concluir a trama, afinal, ela é repleta de homens abusivos que em alguns momentos fazem o filme patinar no gelo de seus posicionamentos. Fosse uma ideia bem amarrada não teria problema, mas o gelo é finíssimo aqui, quebradiço até. Fora isso, me causou certo déjà vu esta mistura do ponto de partida e das cores do Suspiria (1977) de Dario Argento, com os delírios de Repulsa ao Sexo (1965) - tem cenas que parecem verdadeiras cópias deste último. A sensação de já vi este filme antes (e melhor) provocou alguns cochilos inevitáveis. Se você sente pena de ver Anya Taylor-Joy tentando dar dignidade aos caminhos previsíveis de sua personagem, repara no último trabalho da excepcional Diana Rigg como a senhoria da protagonista, ela faz até o filme parecer melhor do que é, mas nem sempre o talento é suficiente para operar milagres na sétima arte.
Noite Passada em Soho (Last Night In Soho / Reino Unido - China / 2021) de Edgar Wright com Thomasin McKenzie, Anya Taylor-Joy, Diana Rigg, Terence Stamp, Matt Smith e Connor Calland. ☻☻






















