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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Terra Estrangeira

Fernandinha e Fernando: perdidos em uma terra em branco e preto. 

Durante este Ciclo Verde e Amarelo ouvi tanta gente falando sobre Ainda Estou Aqui (2024), a nova parceria de Fernanda Torres e Walter Salles que foi inevitável lembrar dos outros longas que fizeram juntos. Antes do longa que estreou no Festival de Veneza e saiu de lá com o roteiro premiado, os dois já se encontraram para realizar O Primeiro Dia (1999) e este Terra Estrangeira (1996), o filme que se tornou uma guinada na carreira de Walter Salles. Salles começou a carreira como diretor de projetos para a televisão e estreou em longa-metragem com o criticado A Grande Arte (1991), adaptação da obra de Rubem Fonseca que foi acusada de se render à uma estética hollywoodiana com seu elenco internacional (tinha o novaiorquino Peter Coyote numa adaptação gringa do detetive Mandrake e o turco Tchéky Karyo como o misterioso Hermes). Ainda que muitos observassem ali um adeus para a estética do cinema novo e um aceno para um maior cuidado visual, o filme foi um fracasso. É interessante perceber que tempos depois, a câmera do diretor se volta para brasileiros à deriva em uma terra que não os pertence. A trama é ambientada durante o governo Collor, mais precisamente naquele momento fatídico em que o primeiro presidente eleito pelo voto direto em 30 anos no Brasil resolveu confiscar a poupança da população que vivia com uma inflação de 84% ao mês. Havia um certo tom de desespero naquela medida e o filme deixa isso perceptível com os fatos que acontecem na vida do jovem Paco (Fernando Alves Pinto), que por anos ouviu a mãe (Laura Cardoso) sonhando rever a terra de sua família na Espanha. Paralelo a isso, conhecemos Alex (Fernanda Torres), brasileira que trabalha como garçonete em Portugal e vive com Miguel (Alexandre Borges), um músico envolvido com contrabando. Eis que um dia, o desamparado Paco conhece o misterioso Igor (Luís Mello), que banca a viagem do rapaz à Europa, mas, para isso, ele precisa entregar um pacote para Miguel em Portugal e... nada sai como o esperado. Há novamente aqui muito de inspiração no film noir, assim como no longa anterior de Walter, mas desta vez, ele utiliza este deslocamento geográfico que recai sobre os personagens para falar um tanto sobre um deslocamento da própria identidade. Existem diálogos ótimos como aquele em que Paco escuta que Portugal não é Terra de se achar ninguém, mas uma terra para perder alguém, até a si mesmo. É sobre isso. Embora eu considere o romance de Alex e Paco um tanto forçado (podem dizer que ocorre pela identificação de ter alguém da mesma origem por perto, mas não acho convincente a forma apressada como tudo acontece), Terra Estrangeira sempre fala de algo mais do que contrabando e perseguições. É sobre a venda de um passaporte que te impossibilita de voltar para casa porque você não tem mais dinheiro para viver em uma terra que lhe parecia promissora. É sobre procurar as origens de sua família em uma terra distante porque a sua já parece não ter importância. É sobre procurar algo que dê sentido ao que se é. Tudo isso se torna pretexto para Walter demonstrar todo seu talento na condução dos atores e construção de imagens como aquela do barco encalhado deteriorando no litoral (que serviu de inspiração para toda história do filme) ou daquela estrada sem fim ao som de Vapor Barato que nunca cortou tanto o coração, seja na voz de Gal Costa ou de Fernandinha. Considerando um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos, o filme fincou uma produtiva parceria entre Walter e a codiretora Daniela Tomas, que já era reconhecida pelo seu trabalho no teatro. O filme também marca a parceria de Salles com o roteirista Marco Bernstein, que anos depois escreveu Central do Brasil (1998) ao lado do (hoje novelista) João Emanuel Carneiro. Central do Brasil de Walter Salles foi o último filme brasileiro a concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro e Walter Salles pode levar o Brasil mais uma vez para a disputa. Oremos. 

Terra Estrangeira (Brasil - Portugal / 1996) de Walter Salles e Daniela Tomas com Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto, Laura Cardoso, Alexandre Borges, Luís Melo, Tchéky Karyo e João Lagarto. ☻☻☻ 

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

CICLO VERDE E AMAELO: Morto Não Fala

Daniel e seus fantasmas: falando com gente morta.
 
Stênio (Daniel de Oliveira) é o plantonista noturno de um necrotério. Nas primeiras cenas vemos que ele conversa com os sujeitos que chegam mortos para que possa executar seu trabalho, de início achamos até engraçado ao cogitar que tudo não passa de algo que ele faz para passar o tempo e aliviar a atmosfera pesada do lugar, mas depois que ele liga para a esposa de um falecido após receber o número de telefone pelo próprio, percebemos que aquilo não é fruto da imaginação do rapaz. Chega a dar um arrepio esta primeira guinada que o filme, mas ela é só uma amostra tranquila de tudo que acontecerá na vida de Stênio. Morto Não Fala é o tipo de filme que quanto menos você souber, melhor. Eu mesmo me esquivei de toda informação que pudesse ter sobre ele, o que foi muito difícil já que todo mundo que o assistiu o aprecia demais, até mesmo pessoas que não curtem histórias de terror. O terror ainda é um gênero pouco respeitado no cinema brasileiro, mas o que o cineasta Dennison Ramalho faz aqui é de se aplaudir. A começar pela forma com que ele vira a vida de Stênio de cabeça para baixo pelo uso indevido de seu dom. A motivação para este deslize é alavancar uma trama de vingança, que gera um efeito colateral irremediável em sua realidade. Stênio não esperava que aquela vingança cairia sobre ele e sua família feito uma maldição, colocando em risco quem quer que esteja perto dele. É um verdadeiro festival de surpresas em uma espiral de problemas que não fazemos ideia de onde irá parar. Há de se elogiar também mais uma atuação memorável de Daniel de Oliveira, que sabe desenvolver cada degrau que seu personagem rumo à desgraça, assim como o trabalho de Fabíula Nascimento para tornar sua personagem em uma megera assustadora. Com narrativa dinâmica, ambientações sujas e um uso curioso de efeitos visuais e sonoros, Morto Não Fala se torna uma verdadeira descida ao inferno que se tornou a mente de seu protagonista. O longa segue firme rumo à uma das últimas cenas mais assustadoras do cinema brasileiro. Aquele momento em que Stênio anda pela rua, com os mortos caminhando calmamente atrás dele é de arrepiar. Num delírio interpretativo, é como se o menininho de O Sexto Sentido (1999) crescesse, fosse trabalhar em um necrotério e fizesse tudo errado com sua vida. Morto não Fala é uma grata surpresa do nosso cinema e uma pérola do gênero que tem tudo para se tornar um verdadeiro cult. 
     
Morto Não Fala (Brasil - 2018) de  Dennison Ramalho com Daniel de Oliveira, Fabíula Nascimento, Marco Ricca, Bianca Comparato e Annalara Prates. ☻☻☻

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Tia Virgínia

 
Holtz: a ovelha solteira da família.

Virgínia (Vera Holtz) é a irmã do meio de uma família de três irmãs. Foi a única que não casou e não teve filhos, seguindo a vida da forma que considerasse melhor. No entanto, nos últimos tempos, devido ao quadro de saúde da mãe (Vera Valdez), ela se tornou responsável por cuidar da matriarca e da casa, afinal, as irmãs já pareciam estar muito ocupadas cuidando de seus maridos, filhos e netos. Embora a vida de Virgínia tenha uma rotina sob controle, a chegada das festas de fim de ano com as manas chegando para visitar, já cria-se uma tensão por si só. Depois piora. Valquíria (Louise Cardoso) é a primeira que chega acompanhada pelo filho (Iuri Saraiva), que está cada vez mais parecido com o avô. Depois chega a irmã mais velha, Vanda (Arlete Salles), ao lado do esposo (Antonio Pitanga) e da filha (Daniela Fontan). Obviamente que a rotina de Virgínia muda completamente naqueles dias, mas o maior desconforto da personagem fica por conta dos comentários das irmãs sempre em tom de alfinetadas. Existe sempre um subtexto em Tia Virgínia, um que fermenta conforme uma conversa avança, uma crítica é realizada resultando num processo de combustão pela química entre as três personagens. Se Valquíria tem uma certa arrogância que lhe permite a capacidade de considerar que está sempre com razão, à Vanda cabe o posto de se desculpar pela ausência constante. Para ambas, o papel que coube à Virgínia foi o de cuidadora da mãe e da casa, nada mais do que isso. É possível que já tenhamos visto várias reuniões familiares (na tela ou fora dela) semelhantes a que temos aqui, mas a proposta do diretor e roteirista Fábio Meira é avançar a tensão até que sua personagem principal chegue ao limite. Colabora muito para que a coisa funcione o tom impresso ao filme, que sabiamente foge da histeria e opta por um humor sutil e uma dramaticidade contida que oferece ainda mais complexidade às personagens (o que não impede que o filme reserve momentos bastante duros em cena). Premiada no Festival de Gramado e com o Troféu Grande Otelo de melhor atriz, Vera Holtz está espetacular em cena, deixando transparecer o tempo inteiro a insatisfação perante a forma como as irmãs a enxergam - de forma que quando Virgínia verbaliza o que sente, já sabíamos exatamente o motivo de todo seu desconforto. Arlete Salles e Louise Cardoso também estão ótimas em cena e defendem suas personagens com um senso de ironia que torna tudo ainda mais interessante. Antonio Pitanga tem um papel pequeno, mas algumas cenas marcantes, como aquela do jantar em que praticamente pedimos para ele apresentar aquela reação perante a postura  de Virgínia. Ou seja, que coisa boa ver um elenco tão experiente reunido em uma mesma cena! O desfecho, embora libertador, também carrega um tanto de melancolia e um certo questionamento que poderia ser respondido se no ano seguinte fôssemos convidados novamente a participar da ceia ao lado daquela família. A ocasião serviria para que a trama amarrasse algumas situações que ficam um tanto soltas (como a postura instável do sobrinho), um deslize que já está perdoado, já que a vida teima em seguir pelo mesmo caminho. 

Tia Virgínia (Brasil - 2023) de Fábio Meira com Vera Holtz, Arlete Salles, Louise Cardoso, Antônio Pitanga,  Vera Valdez, Amanda Lyra, Iuri Saraiva e Daniela Fontan. ☻☻

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Bem-Vinda Violeta

Débora: terapia ao contrário.

Ana (Débora Falabella) é uma escritora que resolve participar de um famoso laboratório literário na Cordilheira dos Andes. Chegando por lá, a ambientação rústica é frequentada por um grupo de escritores que pretendem escrever com mais vigor e complexidade, para isso, buscam as orientações de Holden (Darío Grandinetti), um autor que se tornou cult por conta de seu livro A Cordilheira, mas que se tornou recluso e agora ganha fama compartilhando de seu método com seus aprendizes. Conforme avança no processo, Ana fica confusa sobre o que está acontecendo, especialmente quando percebe que para desenvolver seu livro plenamente, ela precisa se render cada vez mais à personalidade de sua personagem, a agressiva Violeta - que considera ser o seu total oposto. Mas será que é mesmo? Parte da proposta de Holden é fazer com que a insegura Ana perceba o quando criador e criatura são semelhantes. Assim como o processo é vivido pela escritora, ele também é vivenciado pelos demais presentes e os efeitos desta jornada (uma espécie de fusão entre vida e arte) podem ser tão libertadores quanto perigosos. Em determinado momento de Bem-Vinda, Violeta! tive a estranha sensação de que eu nunca havia assistido um filme como ele. É verdade que existe ao longo da narrativa uma série de elementos que já vimos utilizados em outras produções, mas a forma como são encaixados e apresentados em cena, criam a sensação de que estamos diante de uma obra bastante original, o que não significa que seja um filme fácil de digerir. A atmosfera de suspense psicológico calcado no árduo processo criativo da escrita oferece ao filme uma complexidade que é muito bem representada pela ambientação claustrofóbica. Enquanto lá fora as belas naturais sejam arrebatadoras (o longa foi filmado em Ushuaia na Patagônia argentina), dentro daquela casa tudo parece sombrio e pesaroso. Estes fatores me deixaram surpreso ao lembrar que o diretor Fernando Fraiha é o mesmo do divertido La Vingança (2016), que curiosamente, também restabelece os laços do nosso cinemas com o país vizinho, embora os dois filmes não pudessem ser mais diferentes. Há de se destacar que Fraiha filma muito bem, preocupado com os closes em seus personagens, os planos e movimentos de câmera amparados por uma edição precisa, o que confere ao filme uma identidade visual marcante ao lado da fotografia gélida. Com relação ao elenco, Débora Falabella está excelente na pele da protagonista, optando por um trabalho contido que tem as mudanças da personagem transmitidas pelo olhar intenso em cena, ela contrasta muito bem com o argentino Darío Grandinetti que constrói um mestre tão imponente quanto assustador, dando a impressão que todo o processo vivenciado por seus alunos trata-se de uma seita literária que funciona feito uma terapia ao contrário (em que ao invés de melhorarem a forma como lidam com suas emoções, o efeito é o oposto). Meu único problema com Bem-Vinda, Violeta! (que é inspirado no romance Cordilheira do paulista Daniel Galera) foi o final que se revela exatamente como eu imaginei. Diante do método criativo imprevisível que vimos até ali, um final que já era esperado deixou um sabor de insatisfação ao final da sessão. No entanto, até o desfecho o filme consegue ser bastante interessante pela dinâmica entre os personagens, seja com os outros ou com eles mesmos. 

Bem-Vinda, Violeta (Brasil/Argentina - 2022) de Fernando Fraiha com Débora Falabella, Darío Grandinetti, Germán de Silva, María Ucedo, Pablo Sigal, Germano Melo e Jenny Moule. ☻☻☻

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Levante

Ayomi: filme com causa.

Sofia (Ayomi Domenica) é uma jovem jogadora de volley que se dedica ao esporte por conta de um projeto social de sucesso que começa a chamar atenção da mídia. Ela está prestes a ser contratada por um grande time quando descobre que está grávida. Diante da situação não planejada, ela começa a pensar em resolver a situação em um país onde a interrupção da gravidez é ilegal. Quando ouvi falar de Levante pela primeira vez ele havia sido escolhido para ser exibido em uma mostra paralela do Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio Fripesci dado pela Federação Internacional de Críticos que participam do Festival. Some o prêmio ao filme ter como pano de fundo um esporte que não aparece muito nas telonas  e a ideia de um tema polêmico no Brasil (o aborto)... minhas expectativas foram nas alturas. Por conta da decisão da protagonista, o filme segue seus caminhos para alcançar seu objetivo. Ela tenta realizar o procedimento em outro país, as amigas se organizam para conseguir o dinheiro que ela precisa, ela pondera os riscos de uma clínica clandestina e, por fora de tudo isso, começa a se formar uma polêmica em torno do desejo da personagem de realizar um aborto. Assim, o filme agrega toda a insatisfação com o discurso conservador que emergiu no Brasil nos últimos anos, chegando até um desfecho irônico e esperto que compensa aqueles momentos em que o filme demonstra dificuldade em aprofundar seus personagens. Levante é um filme que gira em torno de uma ideia e espera que todo o resto faça sentido por conta disso, não é bem assim. Entendo que a diretora Lilla Hallah se esquive de qualquer traço de melodrama em sua narrativa, que foge dos lugares comuns (o roteiro não se preocupa com quem é o pai da criança) e que pretende construir em torno da protagonista um universo em que todo mundo compreende plenamente suas intenções, deixando que a oposição fique por conta de "pessoas de fora" do seu ciclo social, estes assumindo o  posto de vilão da história. O efeito disso é um tanto maniqueísta na tela. O pai (Rômulo Braga), as amigas, a treinadora (a ótima Grace Passô em um papel miudinho), todos estão dispostos a apoiar a personagem como se ela pertencesse a um universo paralelo em que todas as pessoas mais próximas fossem super esclarecidas sobre a questão do aborto no Brasil. Essa artificialidade nas relações permanece quando o filme prefere gastar seu tempo mais com festinhas com a estética periférica que o cinema brasileiro adora repetir e a pegação da protagonista com uma colega de time, opções que por vezes deixam o filme emperrado. O pior é que a parte do esporte deixa muito a desejar, não convencendo nem um pouco nas cenas de quadra e mais ainda que Sofia é uma atleta promissora. São alguns deslizes que começam a pesar conforme o filme se estende. A sorte é que Levante tem um final que realmente impressiona e deixa a sensação que é um filme melhor elaborado do que se mostrou até ali.

Levante (Brasil - 2024) de Lillah Halla com  Ayomi Domenica, Rômulo Braga, Grace Passô, Suzy Lopes e Glaucia Vandeveld.

domingo, 8 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Pacarrete

 
Marcélia: uma das grandes atrizes do cinema brasileiro.
 
Pacarrete (Marcélia Cartaxo) é uma professora de dança aposentada que vai viver em Russas, no interior do Ceará, para cuidar de uma irmã (Zezita de Matos), mas sempre deixa claro que toda aquela realidade é muito diferente do que ela gostaria de vivenciar. Com a proximidade da festa em celebração dos 200 anos da cidade, ela decide convencer o governo local a fazer uma apresentação de ballet, o que dá início a uma série de conflitos com quem está ao seu redor. Escrito, dirigido e produzido por Allan Deberton, desde sua cena inicial o filme dá conta de apresentar que Pacarrete destoa da realidade daquele lugar, mas o faz com alegria e esperança de ter reconhecimento por sua arte, no entanto, conforme ela percebe que ninguém se importa com o que ela tem a oferecer, começa a surgir um tanto de insatisfação, desespero e até depressão. Por conta dessas mudanças de humor da personagem, o filme pode ser dividido em dois atos, no primeiro, a história tem um ritmo de comédia bastante preciso, ditado muitas vezes pela entonação de voz altiva e um tanto destoante de Marcélia Cartaxo, que parece se divertir muito em cena. Sua questão de falar truncado com quem atravessa seu caminho, o uso de sotaque estrangeiro para falar algumas palavras e até a forma como enfrenta de forma impetuosa os demais personagens, demonstram não apenas a personalidade forte da personagem, mas também o quanto falta um tantinho só para que tudo saia do eixo. No segundo ato, a coisa sai do eixo mesmo. A personagem se torna mais introspectiva, triste e desanimada e lida com o mundo ao seu redor de forma totalmente diferente do que vimos no início, a fotografia (que era solar) se torna mais escura e sombria, enquanto a personagem se torna amarga e desiludida. Deberton demonstra habilidade no trabalho com a mudança de tom de sua narrativa e  consegue manter debaixo de toda mudança estética uma certa chama em Pacarrete, o que torna a cena final ainda mais emocionante e bonita. No entanto, acho difícil que o filme funcionasse se não tivesse em cena o talento da paraibana Marcélia Cartaxo. Pouca gente deve lembrar, mas a atriz tem em sua estante o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim por sua antológica performance como Macabéa na versão cinematográfica de A Hora da Estrela (1985). Sempre que a vejo em cena eu penso como a atriz sempre recebe menos atenção do que deveria em nosso país. Pelas variações que apresenta na pele de Pacarrete (e que a torna totalmente convincente como uma professora de dança aposentada à beira de um colapso emocional), a atriz recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado e o Troféu Grande Otelo de melhor atriz e, fez muita gente lembrar, que ela é uma das grandes atrizes do nosso cinema. 

Pacarrete (Brasil - 2019) de Allan Deberton com Marcélia Cartaxo, João Miguel, Soia Lira, Zezita Matos e Samya de Lavor. ☻☻☻

sábado, 7 de setembro de 2024

CICLO VERDE E AMARELO: Mussum - O Filmis

 
Aílton: Mussum de respeitis.

Inaugurando o Ciclo Verde e Amarelo de 2024, escolhi um filme que considero um tanto especial pela pessoa que ele homenageia. Acho que não é exagero dizer que Mussum é um dos artistas brasileiros mais queridos  do final do século XX. Nascido Antônio Carlos Bernardes Gomes, o menino de infância pobre estava prestes a seguir a carreira nas forças armadas quando deixou que o gosto pela arte falasse mais forte em sua vida. O sabor da vida artística veio primeiro pela música, quando fazia parte do grupo Originais do Samba e, depois, ganhou fama com os trabalhos como comediante na televisão. O sucesso se tornou gigantesco quando ele passou a integrar o quarteto Os Trapalhões, que se tornou um verdadeiro fenômeno nas noites de domingo na Rede Globo em 1977. Lembro quando eu era pequeno e quando saíamos de casa, eu tinha uma verdadeira angústia de chegar em casa antes que começasse o programa. Se a maioria das pessoas de minha geração conhece Mussum por sua parceria com Didi, Dedé e Zacarias, o filme de Silvio Guindane serve para contar um pouco mais da carreira do artista e um pouco do homem por trás de sua lendária figura televisiva.  Mussum - O Filmis começa com Antônio pequeno, sendo criado por Dona Malvina (vivida jovem por Cacau Protássioe depois por Neuza Borges) que começa a se preocupar com um futuro melhor para o filho. O filme não chega a contextualizar a realidade social daquele tempo, em que não era obrigatório uma criança estar na escola e que estudar, para muitos ainda era perda de tempo. Na verdade, todo o roteiro de Paulo Cursino está mais preocupado em contar a história do seu personagem do que contextualizar o país durante o crescimento do protagonista. A vida do personagem é contada como se acontecesse à margem do contexto histórico do país, o que se por um lado confere leveza à história, por outro, perde a chance de aprofundar algumas temáticas que o tempo todo o filme se esquiva (como o preconceito social e racial). Obviamente que Mussum vivenciou situações de preconceito durante sua vida (inclusive em algumas piadas que foram ao ar no programa dos Trapalhões), mas Guindane opta por deixar tudo isso de lado. Sendo assim, conhecemos a trajetória musical de Antônio e alguns momentos importantes para sua construção artística como ícone televisivo, sua parceria com Chico Anysio, a origem do seu apelido (odiado no início por ele mesmo), a forma icônica de falar com "is" no final das palavras, sua paixão pela Mangueira, seus casamentos... O bom é que estes momentos não parecem uma colagem de situações, mas uma narrativa bem cadenciada que envolve o espectador, muito também por conta da energia de Ailton Graça confere ao protagonista.  Sua simpatia irresistível fez com que em vários momentos eu esquecesse que se tratava de um ator em cena interpretando o Mussum e pensasse que estava diante do próprio. Provando que o filme quer evitar polêmicas, as tretas vividas pelos Trapalhões é abordada de forma bastante rápida, até mesmo seus problemas de relacionamento com os Originais do Samba é abordado com mais profundidade (especialmente pela dificuldade de conciliar a persona de músico e comediante junto à imagem do grupo).  Também senti falta de mais destaque para os filmes dos Trapalhões que são apenas comentados ao longo da sessão.... enfim, acho que a história de Mussum tem tanta coisa que uma série daria mais conta de tudo que eu gostaria de ver (e o documentário Mussum - Um Filme do Cacildis/2018 também tenta dar conta de tudo em pouco mais de uma hora). O longa recebeu o Troféu Grande Otelo de Melhor Ator para Ailton Graça e também de Diretor estreante para Guindane, mas apesar do moço trabalhar como ator no cinema há tempos (lembro dele estreando no cinema com treze aninhos no ótimo Como Nascem os Anjos/1997 de Silvio Guindane), seu trabalho soa bastante marcado pela linguagem televisiva, o que talvez não chegue a ser um defeito, já que Mussum ajudou a fazer a história desta linguagem em nossa memória afetiva. 

Mussum - O Filmis (Brasil - 2023) de Silvio Guindane com Aílton Graça, Cacau Protássio, Yuri Marçal, Gero Camilo, Neusa Borges, Felipe Rocha, Cinnara Leal, Edmílson Barros, Kéisa Estácio e Thawan Lucas. ☻☻