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domingo, 28 de julho de 2024

#FDS Esportivo: Carruagens de fogo

Charleson e Cross: rivalidade com respeito. 

Fechando nosso #FimDeSemana Esportivo está um filme que surpreendeu o mundo inteiro quando foi anunciado como o ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1982. Naquele ano as apostas estavam em torno de Reds (ainda mais depois que o longa deu o Oscar de direção para Warren Beatty minutos antes), mas fico imaginando se a Academia (ainda mais daquele tempo) bancaria premiar um filme ambientado na Revolução Bolchevique. O grande público estava na torcida mesmo era para Os Caçadores da Arca Perdida, o clássico de aventura de Steven Spielberg que cravou Indiana Jones na história do cinema. O grande prêmio do cinema americano não foi para um nem para o outro, mas para uma produção inglesa que era vista como o azarão perante seus concorrentes. O filme conta a história real de dois  jovens atletas que sonhavam em se tornar medalhistas nas Olimpíadas de Paris de 1924 (um século atrás!). Eric Lidell (Ian Charleson) era um devoto cristão escocês que sonhava em ser missionário na China, mas que se dedica cada vez mais às corridas para incompreensão de sua esposa religiosa. A história de Lidell é contada paralelamente à de Harold Abrahams (Ben Cross), que sofre preconceito por seu judeu mesmo sendo aluno da prestigiada Universidade de Cambridge. O primeiro acredita que é seu amor a Deus que o faz ser tão rápido, o segundo acredita que se consagrar nas corridas trará o reconhecimento que sempre deseja junto aos seus pares. O diretor Hugh Hudson (falecido em 2023) realiza aqui seu segundo longa-metragem e encara o desafio de equilibrar e costurar a vida dos dois atletas na tela sem pender mais para um lado do que para o outro. O roteiro (também oscarizado) de Collin Welland insere alguns dilemas da vida dos personagens na trama, inclui também algumas implicâncias políticas de suas ações de forma que até a escolha de Sam Mussabrini (Ian Holm) para ser técnico de Abrahams gera polêmica. Muita gente critica o filme como um dos filmes menos estimulantes a ganharem o maior prêmio do cinema americano, muito se deve pela direção quadradinha de Hudson que evoca um cinemão clássico, mas um tanto sem personalidade. Esta sensação é ainda mais intensa na primeira meia hora de filme, em que a trama se estende demais na apresentação dos atletas de forma pouco empolgante, inclusive em seus relacionamentos amorosos. A situação melhora quando o filme aborda a intensificação dos treinos e a tensão das Olimpíadas (lembrando que a reprodução dos jogos merece destaque), aspectos que prendem mais a atenção do espectador. Charleson e Cross estão eficientes em cena, mas quem rouba a cena é Ian Holm (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) como o técnico exigente (e no elenco vale destacar a presença de Brad Davis que posteriormente causou polêmica com seu trabalho em Querelle no ano seguinte). O longa também ganhou o Oscar de figurino (aspecto que se torna fundamental para a reconstituição de época). Obviamente que não posso deixar de mencionar a emblemática trilha sonora de Vangelis, que garantiu ao filme mais uma estatueta e se tornou uma espécie de trilha sonora informal das Olimpíadas. Não seria exagero afirmar que a trilha sonora ficou mais conhecida que o filme ao longo do tempo.

Carruagens de Fogo (Reino Unido / 1981) de Hugh Hudson com Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell, Nigel Havers, Brad Davis, Daniel Gerroll, Lindsay Anderson, Nigel Davenport, Cheryl Campbell e Alice Krige. ☻☻☻

sábado, 27 de julho de 2024

#FDS Esportivo: O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki

Jarkko e Oona: o amor roubando a cena. 

Olli Johan Oskari Mäki nasceu em dezembro de 1936 na Finlândia. Desde jovem começou a se dedicar ao boxe. Em 1959, ainda como atleta amador, ganhou o título de campeão de peso leve europeu após ficar em segundo lugar dois anos antes. Após ser descartado pela delegação olímpica finlandesa em 1960, ele se tornou profissional e disputou títulos até 1973 com 23 vitórias, 14 derrotas e 8 empates. No entanto, o início de sua carreira profissional foi bastante complicada, especialmente quando seu técnico resolveu que ele deveria perder peso para disputar na categoria de peso pena. O filme finlandês O Dia Mais Feliz da vida de Olli Mäki se concentra neste início de jornada de uma figura ilustre do esporte local. O roteiro do diretor Juho Kuosmanen e de Mikko Myllylahti parece mais interessado nos bastidores deste período do que propriamente nos treinos e lutas disputadas por ele, a câmera na mão e a fotografia em preto e branco colaboram muito para criar uma atmosfera realista com base na linguagem documental - e ao chegar no resultado da famigerada luta contra Davey Moore, temos a impressão de saber exatamente o motivo daqueles dois rounds históricos no currículo de Mäki. Ao invés de construirem mais um filme motivacional como tantos outros que usam o boxe como alegoria, o diretor opta por buscar os sentimentos por trás do praticante de um esporte marcado pela força. Jarkko Lahti encarna um Olli Mäki discreto e um tanto deslocado com a fama conquistada. Fica notável sua inadequação com os encontros, jantares, fotos, entrevistas e toda publicidade que sua figura começa a gerar no país, uma pressão que aos poucos começa a pesar muito sobre ele. Olli é muito mais feliz quando está ao lado da namorada, Raija (Oona Airola) e o diretor capricha nas cenas em que os dois estão juntos. Elas parecem saídas de um romance clássico do cinema, especialmente pelo olhar apaixonado impresso pelo casal em cena. O treinador (Eero Milonoff) não vê com bons olhos aquele relacionamento, considera que pode atrapalhar o preparo para a luta, no entanto, ele continua achando uma boa ideia que Olli tenha que perder peso para mudar de categoria em sua vida profissional. É visível como a perda de peso é prejudicial para o atleta, que realiza medidas extremas para atingir o padrão que lhe é exigido (para além da atuação, Jarkko Lahti realiza uma transformação física notável ao longo da projeção). Ainda que exista toda uma tensão no preparo para a luta, o filme ainda consegue destacar alguns momentos cômicos, assim como cenas de sutil romantismo quando Olli e Raija estão juntos. Em determinados momentos, parece que e aquele sentimento é o que mais importa ao longo do filme, tanto que o título e a cena final parecem sinalizar que a felicidade do personagem foi finalmente se livrar de todo aquele stresse. O filme foi premiado na Mostra Un Certain Regard  do Festival de Cannes e assim como o segundo filme do diretor (Compartimento nº6 / 2021) caiu no radar das premiações mundiais pela maneira envolvente com que aborda a relação de seu casal protagonista.

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (Hymyilevä mies / Finlândia - 2016) de Juho Kuosmanen com Jarkko Lahti, Oona Airola, Eero Milonoff, Esko Barquero, Elma Milonoff e Joonas Saartamo. ☻☻☻☻

#FDS Esportivo: Quem Fizer Ganha

Fassbender e seu time: quase um milagreiro. 
 
Em ritmo de Olimpíadas, dedico este #FinalDeSemana a filmes com tramas em torno de esportes. Pra começar, eu escolhi este filme recente que está em cartaz no Disney+ e que não chamou muita atenção nos cinemas. É sempre bom lembrar que Taika Waititi se construiu como artista em sua terra natal, a Nova Zelândia. Filho de pai maori e mãe judia nascida na Rússia, temos uma ideia que suas referências são bastante diferentes da maioria dos cineastas de Hollywood. Waititi começou sua carreira como ator em 1999 e anos depois começou a se exercitar como cineasta em curtas metragens. Por um deles, foi indicado ao Oscar de melhor curta-metragem (Two Cars, One Night/2004). Seu senso de humor peculiar ficou ainda mais evidente em seus longas Boy (2010), O Que Fazemos nas Sombras (2014) e Fuga para Liberdade (2016) , causando surpresa quando a Marvel o escolheu para dirigir Thor: Ragnarok (2017). O filme foi o maior sucesso de uma aventura solo do Deus do Trovão nos cinemas. Com crédito em Hollywood, não só Taika conseguiu bancar uma adaptação polêmica sobre um menino que tinha Hitler como amigo imaginário em Jojo Rabbit (2019), como também ganhou o Oscar de roteiro adaptado pelo trabalho. No entanto, depois a coisa desandou com Thor: Amor e Trovão (2022) e o diretor resolveu baixar a bola com Quem Fizer Ganha, aqui o protagonista é um treinador mal humorado que a contragosto se torna responsável por dar um jeito no time de futebol de Samoa Americana. Ninguém ganha um Oscar impunemente e muito menos se coloca no alto dos créditos um ator do calibre de Michael Fassbender a toa. O filme foi cercado de burburinho e falavam em prêmios e mais um Oscar... mas não era  pra nada disso. Waititi dá a impressão que queria voltar a fazer suas comédias despretensiosas novamente, mas o público e a crítica desejavam, especialmente depois da bomba que foi sua última desventura com a Marvel. A trama aqui é inspirada em uma história real sobre um time que chamou atenção por ser derrotado com a maior goleada em uma eliminatória de Copa do Mundo. Samoa Americana perdeu de 31 a 0 para a Austrália em 2001. Um vexame que abalou definitivamente as estruturas do time da pequena ilha do pacífico que viu na figura sisuda do estadounidense Thomas Rogen a chance de superar seus traumas. Pode se dizer que Waititi faz o básico por aqui amparado pela forma diferente com que Rogen e o time encara a relação com esporte. Esta diferença entre o olhar do técnico e do time reflete muito das diferenças culturais entre o estrangeiro e os habitantes da região. No entanto, estas diferenças nunca se aprofundam muito e só são superadas quando os problemas pessoais do próprio Rogen começam a aparecer em cena.  Eu nunca imaginaria Fassbender para um papel que precisa de alguma habilidade cômica, mas digamos que Waititi inovou ao investir na verve germânica do moço, ainda mais depois dele ficar quatro anos fora dos cinemas. O filme é bastante inofensivo e convencional. As cenas das partidas e treinos também não trazem novidades, mas o que me chamou mais atenção no filme foi o trabalho da estreante Kaimana que interpreta Jaiyah Saelua, que foi a primeira jogadora transgênero do mundo a disputar uma partida de eliminatórias da Copa do Mundo. Na pele de Jaiyah, a atriz injeta nuances inesperadas em um filme voltado para um time de futebol, especialmente pela forma como todos s definem como Fa'afafine (termo que designa na cultura samoana americana as pessoas que têm gêneros fluidos, mostrando dois espíritos coexistindo em uma pessoa). A forma como a personagem é retratada no filme se torna a grande surpresa do filme, mais até do que acompanhar um filme que nem faz questão de ganhar, mas que gostaria de fazer pelo menos um gol em uma partida. Chegado a personagens deslocados, fica fácil entender o motivo desta história real chamar atenção do diretor.
 
Quem fizer Ganha (Next Goal Wins / Austrália - EUA / 2023) de Taika Waititi com Michael Fassbender, Elisabeth Moss, Kaimana, Will Arnett, David Fane, Rachel House, Will Arnett, Oscar Kightley, Beulah Koale e Taika Waititi. ☻☻☻

domingo, 26 de maio de 2024

#FDS Palma de Ouro: Paris,Texas

Natassja e Stanton: a erraticidade da vida. 
 
Para encerrar o #FinalDeSemana dedicado a filmes ganhadores da Palma de Ouro aqui no blog, escolhi um dos premiados mais queridos de suas setenta e sete edições. Paris, Texas é apontado em várias listas como um dos melhores filmes a levarem a Palma de Ouro para a casa, assinado pelo alemão Win Wenders, o filme se tornou uma de suas mais aclamadas experiências em Hollywood. Colabora muito para isso seu olhar estrangeiro em uma trama que transborda referências aos filmes de velho oeste em uma história mais contemporânea. Escrito por Sam Shepard, o filme traz elementos típicos da filmagem de um western (a trilha sonora, os planos abertos, a concepção dos personagens) para os anos 1980, época em que os dramas familiares estavam em alta no cinema dos Estados Unidos. Assim, a produção articula a abordagem de uma trama intimista com uma certa grandiloquência dos clássicos de John Ford. O título é referente à um pequeno vilarejo que o protagonista, Travis (Harry Dean Stanton) acredita ser o lugar ideal para viver com sua bela esposa, Jane (Natassja Kinski) e o bebê que tiveram juntos. No entanto, o relacionamento entre o casal enfrentou problemas e Travis ganhou o mundo em uma jornada que ninguém entendeu muito bem, inclusive ele. Anos depois, Travis vai em busca de seus irmão, Walt (Dean Stockwell) que passou a cuidar do pequeno Hunter (Hunter Carson), após a mãe do menino também buscar outros caminhos. Quando Travis retorna, a família sente-se insegura com os rumos que irá tomar, sobretudo quando o reaparecido demonstra a vontade de reencontrar a esposa. A maior parte do filme se concentra na forma como o dissonante Travis se aproxima novamente da família, se o irmão e a cunhada não entendem muito bem o que se passa na cabeça dele, aos poucos ele consegue se aproximar mais do filho, sobretudo quando os dois partem para encontrar o paradeiro da esposa desaparecida com base em uma pista. Paris, Texas se desenvolve como um road movie familiar com toques bastante emocionais, embalada com a magnífica trilha sonora de Ry Cooder com base em uma guitarra melancólica e o uso de cores vibrantes da fotografia de Robby Müller. No entanto, acho que nada prepara  o espectador para o reencontro do casal em um ambiente que só ressalta o distanciamento entre os dois personagens, assim como o jeito desajeitado como a ideia de um sonho americano de desmontou. O final deixa aquela sensação do cowboy que cumpriu sua missão, mas que segue sua jornada pessoal banhado na sensação de incerteza sobre os caminhos que deve seguir. Não por acaso o desfecho deixa aquela sensação de final em aberto que pode incomodar muita gente. Naquele ano outros filmes que concorriam ao prêmio foram O Elemento de um Crime de Lars Von Trier, Henry V de Marco Bellochio, Quilombo de Cacá Diegues e, ironicamente, À Sombra do Vulcão de John Huston. 

Paris, Texas (Alemanha Oriental - Reino Unido - França - EUA/1984) de Win Wenders com Harry Dean Stanton, Natassja Kinski, Hunter Carson, Dean Stockwell e Aurore Clément.☻☻☻☻

sábado, 25 de maio de 2024

#FDS Palma de Ouro: Adeus, Minha Concubina

Cheung: romance em meio à conturbada história chinesa.

Em 1993 houve um empate na votação do filme que levaria a Palma de Ouro do Festival de Cannes para casa, o fato não chegava a ser uma novidade, já que ao todo foram nove vezes que o prêmio máximo do festival foi compartilhado entre duas produções. Imagino o júri diante do impasse ao assistirem O Piano de Jane Campion e Adeus, Minha Concubina de Chen Caige. Dois grandes filmes que são considerados verdadeiros clássicos dos anos 1990 com histórias de amor atravessadas por uma realidade dura e cheia de convenções.  Adeus, Minha Concubina é uma adaptação do livro de Lilian Lee, que conta a história de dois atores da ópera de Pequim que através da conturbada história da China no século XX. São quase três horas de filme sobre a história de Cheng Dieyi, um menino que é abandonado por sua mãe junto a outros garotos a serem formados para atuar nos palcos. Com o início de sua formação em 1924, Dieyi vai comer o pão que o diabo amassou na companhia, a começar pelo dedo extra que sua mãe acaba cortando para que seja aceito pela companhia. A origem do menino também não é bem vista pelos colegas, o que faz com que ele seja perseguido pelas outras crianças. Um pouco de alento chega pela companhia de Duan Xialou, que se tornará seu parceiro de palco através de décadas e, até que isso aconteça, compartilhará os terríveis castigos da companhia em nome da perfeição. Como os papéis nos palcos eram vividos somente por homens, Dieiyi, devido às suas características físicas mais delicadas,é escolhido para viver os papéis femininos, incluindo o da peça que dá título ao filme. O filme desenvolve nas entrelinhas uma ambiguidade sobre a sexualidade de Dieyi em sua vida adulta (agora vivido por Leslie Cheung), sempre com sugestões de que ele era apaixonado por Xialou (interpretado quando adulto por Zhang Fengyi), ao ponto de vivenciar fortes crises de ciúmes quando o colega se casa com Juxian (a diva Gong Li), instaurando um triângulo amoroso problemático. Acompanhamos então a relação entre os três mesclada com a ascensão dos atores perante as mudanças políticas na China, envolvendo conflitos como Japão e a chegada do partido comunista chinês ao poder. Tudo se torna cada vez mais tenso e por várias vezes coloca a vida dos dois atores em risco até o desfecho. Existe aqui uma história de amor com a História de um país como pano de fundo, o que quando costuma funcionar se torna extremamente envolvente. Para além destes dois elementos, Adeus, Minha Concubina tem uma direção de arte belíssima, valorizada ainda mais pela fotografia de encher os olhos, numa contraposição da estética de um sonho com a dureza da realidade que sempre paira sobre os dois atores. Existe ainda um caráter metalinguístico na trama, já que nas entrelinhas existe muita  semelhança entre a vida de Xialou e Dieyi e a peça que os tornam consagrados. Por último, vale ressaltar que existe uma sintonia perfeita entre Zhang e Cheung, que muitas vezes se comunicam somente pelo olhar. Falando em olhar, Leslie Cheung está perfeito ao reproduzir a alma melancólica de seu personagem ao longo de todo o filme com aqueles olhos entre a raiva e a tristeza, além de de um trabalho corporal notável quando surge como figura feminina no palco. O filme se tornou o primeiro filme chinês a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas foi banido dos cinemas chineses devido à censura local, retornando às salas meses depois em uma versão mais curta. O longa também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Fotografia (mas merecia lembranças em várias outras categorias, como maquiagem, figurino, direção de arte). Entre os outros filmes que concorriam à Palma de Ouro em 1993 estavam Naked de Mike Leigh, Tão Longe Tão Perto de Win Wenders, Um dia De Fúria de Joel Schumacher, Muito Barulho por Nada de Kenneth Branagh e O Inventor de Ilusões de Steve Soderbergh.  Adeus, Minha Concubina se tornou um dos filmes orientais mais falados dos anos 1990 e ainda hoje permanece com seu impacto irretocável.

Adeus, Minha Concubina ( Ba wang bie ji / China - Hong Kong / 1993) de Kaige Chen com Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Gong Li, You Ge, Zhi Yin, Dan Li e Wenli Jiang. ☻☻☻☻

sexta-feira, 24 de maio de 2024

#FDS Palma de Ouro: A Criança

 Jérémie e Déborah: hora de crescer.

A Palma de Ouro do Festival de Cannes é um dos prêmios mais cobiçados do cinema. Além de sinalizar quem foi escolhido como o melhor do festival, o filme recebe uma projeção que, na maioria das vezes, lhe rende atenção ao longo de todo o ano cinematográfico (basta lembrar o fôlego que o ganhador do ano passado, Anatomia de Uma Queda, apresentou até recentemente). A 77ª edição do Festival francês termina amanhã com o anúncio do favorito deste ano e, para entrar no clima, o blog relembra nesse #FimDeSemana três filmes que foram aclamados com a Palma. Para começar escolhi A Criança, longa-metragem dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Os manos belgas são famosos por suas tramas com pessoas comuns enfrentando problemas sociais e geralmente aparecem em Cannes com suas produções (ao todo já concorreram nove vezes à Palma de Ouro), mas receberam o prêmio máximo do festival somente com este drama sufocante. O filme conta a história do casal Sonia (Déborah François) e Bruno (Jérémie Renier), ela acaba de sair do hospital com um bebê de oito dias, ele gasta o tempo aplicando golpes que lhe garantem algum sustento. Ao chegar no apartamento, Sonia já se depara com outra pessoa morando por ali e não entende muito bem o que está acontecendo. Quando ela encontra Bruno na rua, ele não parece muito animado com a ideia de ser pai. As cenas do casal junto parecem improvisadas e pretendem dizer o quanto os dois ainda são imaturos (pela idade ainda podem ser considerados adolescentes), no entanto, a coisa piora quando Bruno cogita vender a criança. No entanto, ele não comunica à Sônia os seus planos e você pode imaginar o que acontece. Se contar mais, estraga. A criança passa a conciliar o drama familiar com uma espécie de thriller, em que o rapaz tenta consertar o estrago que fez, mas precisa arcar com as consequências de suas atitudes numa espiral de acontecimentos envolvendo o submundo do tráfico de crianças. Os Dardenne apresentam a situação de forma bastante crua, sem pedir para que o público entenda ou perdoe as atitudes do rapaz, mas aos poucos deixam claro que a criança do título é o próprio Bruno. Temos a impressão que ele cresceu sem assumir responsabilidades e que agora precisa amadurecer. A mãe dele aparece rapidamente em cena e ele não parece ser bem vindo em casa. Seu comparsa de golpes é um adolescente de treze anos e Sonia não parece disposta a perdoar o namorado pelo que fez. A Criança soa até como um filme simples, filmado como se fosse um recorte do cotidiano daqueles personagens (que é o estilo dos diretores), mas difere na engenhosa construção de uma tensão crescente na vida perdida de Bruno. Esta capacidade de atribuir força à narrativas aparentemente simples é uma especialidade dos Dardenne, que levaram a Palma de Ouro daquele ano deixando para trás produções renomadas como Caché de Michael Haneke, Flores Partidas de Jim Jarmush, Manderlay e Lars Von Trier e Marcas da Violência de David Cronenberg. 

A Criança (L'Enfant / Bélgica - França / 2005) de Jean-Pierre e Luc Dardenne com Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione e Olivier Gourmet. ☻☻☻☻ 

 

domingo, 28 de abril de 2024

#FDS Madonna: Destino Insólito

Madonna e Giannini: parceria traumatizante.

Acho que todo o casal tem o direito de fazer uma loucura, mas é sempre bom lembrar que existem consequências. Talvez algum dia alguém consiga explicar o que se passou na cabeça de Madonna e Guy Ritchie para inventarem um remake de Por Um Destino Insólito (1974) da italiana Lina Wertmüller que é historicamente lembrada como a primeira diretora a ser indicada ao Oscar de melhor direção. O filme era uma metáfora sobre luta de classes, a relação entre ricos e pobres, patrões e empregados encaram a vida, sendo que em determinado momento a lógica é invertida por conta de um naufrágio. Wertmüller era esperta para perceber que as relações da hierarquia social em si já são carregadas de tensão, mas ao adaptar o texto, Ritchie optou por tornar tudo mais exagerado e caricato. Destino Insólito conta a história de uma dondoca endinheirada Amber (Madonna) e um empregado humilde (Adriano Gianinni, filho do ator que encarnava o papel original) que surpreendidos por uma tempestade durante um passeio de iate, se separam da tripulação indo parar numa ilha deserta. Na tal ilha, o empregado demonstra ter as habilidades necessárias para que os dois sobrevivam àquela desventura e, obviamente que se imagina que os dois irão viver um romance. Se existem as mesmas tintas de crítica social na refilmagem, ao carregar demais as tintas, Guy cria um grande problema para estabelecer uma química entre os protagonistas (some isso ao desconforto de Adriano ter que interagir com a esposa do diretor nas cenas de amor e ódio e você entenderá ainda mais porque as coisas complicam). Também não ajuda o fato de Amber ser apresentada ao público como uma megera sem salvação - e Madonna torna a mulher insuportável, mas o que poderia ser um mérito se torna um problema quando a interpretação precisa lidar com a transição da personagem de mulher intragável em mulher apaixonada. Difícil. Nesta transição o filme começa a perder ainda mais o foco e depende cada vez mais da dinâmica entre os personagens para manter o interesse do público. O que era para ser um comédia com tintas de crítica social se torna num romance pouco convincente até naufragar (sem trocadilho) no melodrama. A dupla principal se esforça, mas não há muito o que fazer diante da base equivocada do projeto. Madonna e Guy casaram em 2000 e tiveram um filho (Rocco) e já haviam estabelecido parcerias anteriormente, seja em um comercial da BMW ou no clipe de What it Feels like for a Girl que possuem uma vibe parecida com os trabalhos anteriores do cineasta. Quem conhece a carreira de Guy (ele vinha de um sucesso mundial com Snatch/2000) sabe como Destino Insólito destoa completamente de seu estilo, talvez por isso Madonna tenha assumido a responsabilidade sobre o projeto. Ela estava animada depois dos elogios por Evita/1997 e o relativo sucesso de seu filme anterior, Sobrou Para Você (2000). Destino Insólito custou dez milhões de dólares e arrecadou pouco mais de um milhão ao redor do mundo, desagradando público, crítica e a própria Madonna. Ela ficou tão aborrecida com o massacre em torno do filme que anunciou que jamais atuaria novamente. Em seus recentes trabalhos com o cinema, a artista escolheu ficar atrás das câmeras, trabalhando como cineasta nos filmes Sujos e Sábios (2008) e W/E (2011). Por conta de todas as críticas exageradas que recebeu por seus trabalhos no cinema, a artista chegou a declarar que sofreu bullying por parte da imprensa (basta lembrar do Framboesa de Ouro de Pior atriz do século). Madonna e Guy se divorciaram em novembro de 2008. 

Destino Insólito (Reino Unido / Itália - 2002) de Guy Ritchie com Madonna, Adriano Giannini, Bruce Greenwood, Elizabeth Banks, Jeanne Triplehorn, David Thornton e Yorgo Voyagis. ☻☻

sábado, 27 de abril de 2024

#FDS Madonna: Evita

Banderas e Madonna: polêmica adaptação de uma opera rock.   
 
Fazia quase dez anos que Madonna havia começado seus trabalhos no cinema e, tirando os elogios que havia recebido por seus trabalhos em Dick Tracy (1990) e Uma Equipe Muito Especial (1992), no saldo de seus trabalhos como atriz havia mais críticas do que sucessos. A sua não indicação nas premiações também a deixou desapontada, para ter ideia a vez em que ela chegou mais perto do Oscar foi quando Sooner or Later da trilha sonora de Dick Tracy foi premiada como melhor canção original. A apresentação na cerimônia do Oscar rendeu um dos momentos mais icônicos da carreira da rainha do pop e até hoje surpreende muita gente pela destreza vocal que apresenta. No entanto, logo depois, Madonna chegou ao auge da polêmica. Em 1992, ela havia lançado um livro (o famigerado SEX) e um álbum baseado em suas fantasias sexuais (Erotica). Houve também um filme (Corpo em Evidência/1993) que foi massacrado pela crítica em que Madonna vivia uma mulher que havia matado o marido rico por excesso de sexo. A rejeição do público foi grande e a loura precisava reciclar sua imagem, começou a fazer músicas mais românticas e no cinema fez participações especiais em produções independentes, enquanto seu papel dos sonhos não aparecia: viver Eva Perón no cinema. Quando o diretor Alan Parker começou a tocar o projeto, Madonna fez de tudo para conseguir o papel, mas reza a lenda que bancou o clipe da música Take a Bow (do álbum Bed Time Stories de 1994) para convencer o cineasta de que era a escolha certa para o  papel. Levando em conta que o filme era na verdade uma adaptação de uma opera rock da Broadway, a escolha de uma cantora que parecia fisicamente com a icônica figura política argentina não soava tão absurda (ainda mais depois que Meryl Streep e Michelle Pfeiffer desistiram do papel). Madonna foi escolhida e fez tudo conforme manda o figurino. Ficou comportada, ganhou alguns quilos para o papel, fez aulas de canto para dar conta da árdua exigência vocal da produção que desde o início sabia que seria uma cantoria infinita. Fazer um musical quando o gênero estava em baixa em Hollywood era um risco e o barulho era ainda maior levando em conta todos os protestos dos peronistas argentinos de verem uma figura histórica santificada vivida por uma artista com o histórico de Madonna. Alan Parker parecia não se intimidar. O diretor já tinha obras importantes no currículo, inclusive musicais cultuados como The Wall (1982) e The Commitments (1991), além de duas indicações ao Oscar (uma por O Expresso da Meia-Noite/1978 e outra por Mississipi em Chamas/1988), ou seja, Madonna estava em ótimas mãos. Vale destacar que a produção do filme é impecável, mas o problema está que a peça escrita por Tim Rice é feita para os palcos e não para uma aula de História, não tendo pudores em ter algumas imprecisões (como colocar Che Guevara, vivido por Antonio Banderas, como uma figura próxima da protagonista). O longa conta a história da mulher de origem humilde, filha bastarda de um agricultor que parte para a cidade e chama atenção de Juan Perón (vivido pelo inglês Jonathan Pryce) prestes a se tornar um cultuado político no país. O filme explora bem a construção de um mito ao redor da personagem, que tinha grande apelo entre a população mais pobre do país e que potencializava o apelo populista do marido. O filme se esquiva de discussões sobre a índole do casal (que ostentava uma vida luxuosa em um país pobre), mas aborda um pouco da tensão política que os países latino-americanos viviam no período. Se historicamente a produção tem seus problemas, como filme ele funciona muito bem se você não se incomodar com personagens que cantam o tempo inteiro. Sim, é artificial e a ideia é essa mesmo, o que não impede de ter alguns momentos memoráveis como I'd Be Surprisingly Good for You e da clássica Don't Cry For Me Argentina que se converteu em hit no repertório da cantora). Entre o elenco, Madonna é realmente o grande destaque com uma presença luminosa que é lembrada como sua melhor performance como atriz. Ela foi cotada para o Oscar, mas teve que se contentar com o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical (que ironicamente, recebeu ao derrotar a futura ganhadora do Oscar de melhor atriz daquele ano: Frances McDormand por Fargo). Por suas qualidade, Evita apareceu em algumas listas de melhores filmes de 1996 e foi indicado em cinco categorias do Oscar: fotografia, cenografia, montagem, som e ganhou a categoria de melhor canção original com You Must Love Me, que rendeu a primeira apresentação de Madonna após dar a luz à sua primogênita, Lourdes Maria. Confesso que sempre achei melancólico ver Madonna se visivelmente tensa para dar conta de cantar "Você Precisa me Amar" quando sua maior chance de indicação ao Oscar não se concretizou. 

Evita (EUA/1997) de Alan Parker com Madonna, Jonathan Pryce, Antonio Banderas, Jimmy Nail, Olga Merediz, Laura Pallas, Gary Brooker e Adrià Collado. ☻☻☻☻

sexta-feira, 26 de abril de 2024

#FDS Madonna: Procura-se Susan Desesperadamente

Rosana e Madonna: a cara dos anos 1980.

Aproveitando a chegada de Madonna em terras brasileiras na próxima semana para seu show da Celebration Tour, aproveito para fazer um #FimDeSemana dedicado à sua controversa carreira no cinema. Reza a lenda que quando Madonna Louise Ciccone partiu da cidade de Detroit para Nova York com 20 anos e apenas 35 dólares no bolso, a então estudante de dança sonhava em se tornar atriz. Ela havia feito um curta (The Egg/1974) e um longa obscuro (Um Certo Sacrifício/1979), mas ela queria mais. Acontece que conforme absorvia o universo da música enquanto trabalhava como dançarina, ela acabou seguindo por um outro caminho. Com o primeiro álbum lançado em 1983 e o segundo no ano seguinte, Madonna sabia muito bem como chamar atenção não apenas com suas músicas provocativas. Com shows, vídeos e apresentações precisas, sua imagem logo chamou atenção do cinema. Ela fez uma pequena participação em Em Busca da Vitória (1985) cantando o hit Crazy for You, mas foi a diretora Susan Seidelman que lhe rendeu o primeiro papel de destaque em Hollywood. Seidelman acabava de alcançar algum reconhecimento com sua estreia no indie Smithereens (1982) e estava disposta a trazer alguma novidade quando produzia Procura-se Susan Desesperadamente. A história girava em torno de Roberta (Rosana Arquette), uma dona de casa insatisfeita que faz tempo que não vê sentido em sua rotina com o marido (Gary Blum), para escapar de seu cotidiano pouco inspirador, ela acompanha começa a acompanhar os classificados de um jornal em que Jim (o galã sumido Aidan Quinn) que publica anúncios procurando sua amada, a descolada Susan (Madonna). Roberta fica obcecada por aquela história e acaba procurando descobrir o desfecho que o encontro entre os dois possa ter. Só que nem tudo sai como o esperado e uma troca de jaquetas misturado  com uma amnésia em Roberta irá render uma série de situações imprevisíveis, já que ela passa a ser confundida com Susan que descobrimos ser perseguida por um grupo de bandidos. Ela passa a contar então com a ajuda de Jim, enquanto Susan não está nem aí para o moço e tem mais coisas para se preocupar do que encontrar o amor de sua vida. O tom de comédia romântica se desenvolve como um típico filme de aventura urbana dos anos 1980, embalado pelo hit Into the Groove de Madonna e ajudou a impulsionar a carreira de muita gente como John Turturro, Laurie Metcalf e Giancarlo Esposito. Quando foi lançado o filme foi acolhido pelo público, mas não convenceu a crítica. Recentemente o filme passou por uma revisão, que não apenas o percebe como um retrato convincente do da estética urbana de seu tempo além de outros méritos até então pouco destacados, especialmente na justaposição de suas duas personagens como reflexo de uma realidade feminina que passava por transformações, seja pela insatisfação domiciliar de Roberta ou a total falta de interesse de Susan em se render ao mocinho da trama. Ainda que não fosse muito levado a sério na época, o César (o Oscar francês) indicou o longa ao prêmio de Filme Estrangeiro (ao lado de Ran de Kurosawa e o ganhador A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen). Rosanna Arquette foi premiada no BAFTA na categoria de atriz coadjuvante e indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical, mas... e Madonna? Bem, como a futura Rainha do Pop interpreta uma variável de si mesma, ela acabou chamando menos atenção nas premiações que sua colega de elenco. No entanto, recebeu alguns elogios pela performance que foi considerada promissora. O principal foi que ela ajudou o filme a se tornar um sucesso de público que estava curioso em vê-la na tela grande. Curiosamente, o filme indicou algo que se reproduziu na vida real com muitas mulheres sendo influenciadas por sua imagem de mulher independente e sexualmente bem resolvida. Ainda que Madonna não pareça fazer muito esforço em cena (motivo que dizem ter rendido conflitos entre ela e Rosana), o fato é que Seidelman percebeu na jovem cantora a energia necessária para se tornar uma influência sobre seu tempo.

Procura-se Susan Desesperadamente (Desesperately Seeking Susan / EUA - 1985) de Susan Seidelman com Madonna, Rosana Arquette, Aidan Quinn, John Turturro e Gary Blum. ☻☻☻

domingo, 24 de março de 2024

#FDS Diretoras: Pedágio

Kauan e Maeve: pecados pelo caminho.
 
Infelizmente não consegui fazer um Ciclo Diretoras no mês de março, mas tentei compensar dedicando esse #FimDeSemana a três cineastas que mereceram atenção na safra recente. Para fechar o fim de semana, assisti ao novo filme de Krolina Markovicz. Vale dizer que a cineasta brasileira está disposta a se tornar um dos maiores nomes do cinema nacional. Após a estreia avassaladora com Carvão (2022) a diretora retornou chamando atenção com Pedágio, seu segundo longa-metragem e que não apenas foi selecionado para o influente Festival de Toronto como também garantiu à diretora uma homenagem através do Tribute Awards que também destacou as contribuições de Pedro Almodóvar, Spike Lee e o fotógrafo polonês Lukasz Zal à sétima arte. Faltou só que o Brasil escolhesse Pedágio para disputar uma vaga na categoria de filme internacional do Oscar2024 (algo que Carvão também deveria ter conquistado). Pedágio conta a história de uma mãe que está cada vez mais incomodada com a homossexualidade do filho adolescente. Tudo que o rapaz faz a incomoda, dos vídeos que posta na internet fazendo propaganda de alguns produtos para ganhar um dinheirinho. As músicas que o menino escuta também a tiram do sério e até quando ele se fantasia para animar uma festa ela detesta. Eis que surge um curso de "cura gay" numa igreja da região e aquela passa a ser a grande chance de que o menino saia do "mau caminho". O problema é que com a mãe trabalhando no pedágio da cidade, a grana é sempre curta e o preço do tal curso é quase o valor de um salário mínimo, mas, certa de que não pode perder tão oportunidade, a "mãe zelosa" se arrisca a ser cúmplice de criminosos para alcançar seu objetivo. Pedágio demonstra mais uma vez como Karolina é dona de uma escrita esperta e de uma direção envolvente que evolui à narrativa gradativamente na ironias que o destino é capaz de arquitetar. Ainda que o visual seja um tanto sujo, as paisagens nebulosas de Cubatão nunca foram suspeitas de se tornarem tão cinematográficas. Na pele da mãe, a Suellen, a atriz Maeve Jenkins tem mais uma interpretação que a credencia como uma das atrizes mais interessantes de nosso país, afinal, ela incorpora com perfeição a ideia de que para fazer seu filho deixar de ser gay vale a pena qualquer sacrifício. Não por acaso, Tiquinho (Kauan Alvarenga) é o personagem mais sereno do filme, destoando dos outros personagens que o julgam e não veem problema em realizar outras ações que também são vistas como "pecados aos olhos de Deus". Existe uma camada religiosa no filme, mas ela só torna ainda mais estranha a motivação para que algumas pessoas ainda se incomodem com o fato de outro gostar de pessoas do mesmo sexo. Para além de todo o viés de discutir o tema do preconceito, Markovicz toca em temas bastante sensíveis relacionados ao tema, desde a relação entre mãe e filho como de Tiquinho às voltas com um mundo que o rejeita. Pedágio pode não ter o brilhantismo de Carvão, mas comprova que Markovicz merece sempre atenção.

 Pedágio (Brasil/2023) de Karolina Markovicz com Maeve Jinkins, Kauan Alvarenga, Thomas Aquino, Isac Graça, Aline Marta Maia e Erom Cordeiro. ☻☻☻☻

sábado, 23 de março de 2024

#FDS Diretoras: Anatomia de Uma Queda

Sandra Hüller e Swan Arlaud: entre a verdade e o sensacionalismo.

Enquanto nutria minha vontade gigante de assistir Anatomia de Uma Queda, realizei uma retrospectiva dos filmes anteriores de Justine Triet. Antes de ser premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, a cineasta francesa havia realizado outros três longa metragens, todos também escritos por ela e seu esposo, Arthur Harari (ambos premiados com pelo último Oscar de roteiro original de Anatomia de uma Queda). O mais interessante é perceber que vistos em ordem cronológica, seus filmes revelam pontos em que uma produção revela  um ponto de inspiração para seu sucessor, no entanto, nada realizado anteriormente pela diretora se compara ao brilhantismo que ela exibe aqui, seja na escrita ou no controle da narrativa. O mais interessante é que o filme nasce de uma ideia fixa na filmografia de Trier: casais em crise. Se em Na Cama com Vitória (2016) a relação do casal acaba parando nos tribunais, aqui, o que está em julgamento parece ser o próprio casamento dos personagens. O filme conta a história de uma escritora, Sandra (a excelente atriz alemã Sandra Hüller, indicada ao Oscar pelo papel) que vive afastada com esposo (Samuel Theis), filho (Milo Machado-Graner) e cachorro (Messi, um achado) nos alpes franceses da cidade em que o seu esposo nasceu. Quando o filme começa, ela tenta ser entrevistada enquanto marido coloca uma música altíssima para embalar a reforma do sótão. A entrevista é interrompida. O filho vai passear com o cachorro e ao voltar, ele se depara com pai morto sob a neve. Sandra escuta os gritos do filho e o que aparentemente era um acidente chega aos tribunais com a suspeita de que Sandra pode ser responsável pela morte do esposo. A partir daí, momentos bastante pessoais daquela casal começam a ser destrinchados e impostos para justificar um assassinato ou a tentativa de um suicídio. Aspectos pessoais da vida de Sandra (sua sexualidade, nacionalidade, profissão e obra) começam a impulsionar narrativas que questionam cada vez mais a sua inocência, num labirinto de versões e inferências sobre fatos que por vezes nem mesmo o espectador sabe mais o que pensar. Anatomia de uma Queda se torna assim um verdadeiro estudo sobre a construção da verdade, da difícil tarefa de chegar ao que de fato aconteceu quanto uma série de informações são apresentadas e manipuladas para chegar a um objetivo: a inocência ou a condenação de Sandra. Justine Triet conduz o filme com maestria ancorada por um roteiro excepcional e uma montagem esperta (também indicada ao Oscar), que sempre revela o necessário para manter a interrogação na mente do espectador. O filme é uma verdadeira aula de como manter o interesse do espectador com base nos diálogos encadeados e, por vezes, confrontados ao longo de duas horas e meia de narrativa. Anatomia de Uma Queda se constrói como quebra-cabeça, mas no fim não saberemos se todas as peças estão no lugar certo, especialmente depois do testemunho final deixado na interpretação do prodígio Milo Machado-Graner. É um daqueles filmes que faz você pensar por muito tempo e pode até se tornar uma referência para os surrados filmes de tribunal. O filme, que concorreu a cinco Oscars, incluindo o de Melhor Filme já está disponível no Prime Video. 

Anatomia de Uma Queda (França / 2023) de Justine Triet com Sandra Hüller, Milo Machado-Graner, Swann Arlaud, Samuel Theis, Antoine Reinartz e Anne Rotger. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 22 de março de 2024

#FDS Diretoras: Priscilla

Priscilla e Elvis: conto de fadas do avesso.

Enquanto Baz Luhrman ainda desfrutava de todo sucesso de seu filme Elvis (2022), Sofia Coppola divulgou que contaria a história de Priscilla Presley, a esposa do Rei do Rock. Houve quem torcesse o nariz para a ideia, mas houve um grupo que considerou que seria interessante ver o outro lado da história que foi contada pelo exuberante diretor pelas mãos de uma cineasta de estilo completamente diferente como Sofia. Se a própria Priscilla havia elogiado o filme de Baz, ela agora se tornava produtora do filme de Coppola com seu roteiro adaptado de sua famosa autobiografia chamada "Elvis e Eu" lançada em 1985. A obra já havia sido adaptada para um telefilme em 1988 (que por aqui foi exibida no SBT), mas isso não era obstáculo nenhum para o trabalho de Sofia. Dona de um estilo único, vale lembrar que ela se tornou a primeira cineasta nascida nos Estados Unidos indicada ao Oscar de direção por Encontros e Desencontros (2003) e, desde então, seguiu uma carreira que não se curva perante os parâmetros da indústria de Hollywood. Priscilla é mais um exemplo disso, ela consegue ser o total oposto do brilho colorido glamouroso do longa de Baz Lurhman e se torna um filme bastante introspectivo ao criar um retrato bastante íntimo da personagem que se apaixona pelo maior astro da música mundial - quando era uma adolescente de dezesseis anos. Este deve ser o ponto mais incômodo do filme e a escolha de Cailee Spaeny ressalta ainda mais a diferença de idade entre Priscilla e seu futuro esposo, já que ela consegue ser muito convincente como alguém muito jovem, assim como a mulher madura que se torna. A protagonista morava em uma base militar na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, no mesmo período em que Elvis foi para a guerra. Obviamente que a garota ficaria fascinada com a chance de conhecer o ídolo de todas as garotas de sua idade e Elvis também ficou visivelmente atraído por ela. Não demora muito para que ambos fiquem debaixo do mesmo teto, ou melhor, para que ela se mude para casa dele enquanto ele cumpre seus compromissos de astro do rock. Durante a maior parte do tempo, Priscilla passa seus dias sozinha, indo para a escola, convivendo com as rápidas visitas de seu amado e as famosas oscilações de humor de seu futuro esposo. Muita gente reclama que o filme se arrasta nessa rotina da personagem, mas são justamente estes momentos que fazem do filme uma obra bastante incômoda sobre a realidade desta personagem real. Fico imaginando uma menina de dezesseis anos que é escolhida para ser a esposa de um homem mais velho e é tratada como uma espécie de propriedade preciosa, mas que precisa lidar com todos os percalços da personalidade complicada de seu parceiro. Cailee está ótima em cena e foi considerada a melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado com justiça. Em sua interpretação podemos ver a montanha russa de emoções que se tornou a vida daquela adolescente, que precisou se tornar mulher à sombra das vontades de um dos homens mais famosos do mundo. Por outro lado, temos Jacob Elordi que não se parece com Elvis, mas consegue emanar um magnetismo irresistível, além de saber dosar os destemperos do cantor longe das câmeras na privacidade do lar. Existe algo de realmente angustiante nesta trama de conto de fadas virado do avesso, algo que o faz ser um filme complementar ao filme de Baz Luhrman.  Pode não ser um filme perfeito, mas é um exercício narrativo instigante proposto pela diretora. O filme está em cartaz na MUBI. 

Priscilla (EUA - Itália / 2023) de Sofia Coppola com Cailee Spaeny, Jacob Elordi, Ari Cohen, Dagmara Dominczyk, Tim Post, Lyne Griffin e R. Austin Ball. ☻☻☻

domingo, 25 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: Sibyl

Gaspard, Adèle e Sandra: Freud explica?

 Para fechar o #FimDeSemana dedicado à cineasta Justine Triet, temos seu terceiro longa de ficção. Depois de dois filmes que enveredavam pelo tom cômico, a francesa Justine Triet resolveu explorar o campo do suspense com uma história complexa que flerta o tempo inteiro com projeções, transferência, arquétipos, identidades e tudo mais. O resultado estreou no Festival de Cannes2019 e dividiu opiniões, sobretudo pela forma como o roteiro amplia tanto suas possibilidades que depois enfrenta problemas para resolver o que apresentou ao espectador. Sibyl (Virginie Efira) é uma psicoterapeuta que sonha ser reconhecida como escritora. Ela está tão decidida a escrever um romance que chega a interromper o tratamento de trinta pacientes para que possa se dedicar à escrita. Enquanto busca inspiração, ela acaba recebendo a ligação de Margot Vasilis (Adèle Exarchopoulos), uma jovem atriz que está em crise. Desesperada, Margot passa a se consultar com Sibyl e revela que está muito aflita por estar grávida de seu parceiro de cena, Igor (Gaspard Ulliel) que namora a diretora do filme em que trabalha atualmente. Margot pretende fazer um aborto para não comprometer sua carreira e a do amante, mas também não tem certeza se essa é a decisão certa a fazer. O drama da atriz faz com que Sibyl relembre um dilema parecido que enfrentou no passado e considera que ali existe a inspiração necessária para escrever seu livro. Só que Sibyl começa a fazer tudo o que não deve em nome de seu processo criativo, além de gravar as conversas com a paciente sem consentimento dela, se apropria de sua história para construir a trama do livro e, mais tarde, ela mesma começa a ter contato com Igor. Sibyl e Margot tem suas semelhanças, mas também são figuras um tanto antagônicas que se complementam ao longo da história que tropeça aqui e ali enquanto mistura as duas num emaranhado de situações em que a vida de Sibyl começa a entrar em crise e desmoronar no envolvimento com a nova paciente. O filme cria um emaranhado psicológico tão complicado entre seus personagens que por vezes nem se preocupa em colocar sua protagonista em situações que façam sentido (como as duas intervenções diretas de Sibyl na gravação do filme), isso compromete um pouco a credibilidade da história perante o espectador. O melhor mesmo fica por conta das atuações (com participação de Sandra Hüller como a diretora séria e traída) que ajudam o espectador a não saber muito quem de fato são aqueles personagens, além daquelas cenas em que o filme não se leva muito a sério (a cena dos tapas seguidos em Igor soa como uma vingança velada). Triet apresenta aqui mais uma vez seu interesse por personagens femininas em crise, mas começa a enveredar por uma seara mais complexa do que vimos em seus longas anteriores se tornando mais inquieta e ousada na construção de suas tramas. 

Sibyl (França-2019) de Justine Triet com Virginie Efira, Adèle Exarchopoulos, Gaspard Ulliel, Sandra Hüller, Niels Schneider, Arthur Harari e Paul Hamy. ☻☻☻

sábado, 24 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: Na Cama com Victoria

Virginie e Vincent: a vida em caos.
 

Se você um dia encontrasse com a Victoria (Virginie Efira) e perguntasse em que lugar sua vida se tornou um verdadeiro caos, ela talvez dissesse que foi naquela festa de casamento de uma amiga em que um amigo, Vincent (Melvil Paupaud) foi acusado de cravar uma faca na namorada. Depois ela talvez se lembrasse que foi na mesma festa em que retomou o contato com um ex-cliente (Vincent Lancoste) que era acusado de ser traficante de drogas e, que disposto a mudar de vida, quis entrar para o ramo da advocacia e se ofereceu para cuidar das duas filhas dela, só para ficar mais tempo perto da rotina de Victoria. Foi o ex-cliente que disse para ela ficar atenta ao ex-marido, David (Laurent Poitrenaux) que inventou de escrever na internet sobre uma tal advogada chamada Vicky e que mistura alguns fatos reais da vida da ex com outras sandices inventadas para ser pura provocação, ou melhor, autoficção. MAs talvez Victoria não lhe respondesse nada, já que acontece tanta coisa em sua vida que ela nem tenha tempo para processar tudo o que está acontecendo, especialmente quando sua vida profissional e pessoal começou a se misturar de um jeito que ela não consegue mais ter controle sobre uma ou outra. Na Cama com Victoria é o segundo longa metragem de ficção de Justine Triet e já deixa evidente alguns aspectos que se tornaram marcas da cineasta: a protagonista que tem sua vida em julgamento (seja da plateia ou no roteiro), a ideia de que não há um certo e um errado (apenas interpretações sobre o que vemos na telona) e uma avalanche de informações que serve mais para desorientar do que propriamente seguir uma linha reta e segura. Victoria é vivida com gosto por Virginie Efira que consegue deixar visível a constante sensação de uma mulher que precisa respirar em meio ao furacão que sua vida se tornou. O nome da personagem é o título original do filme, mas os distribuidores daqui devem ter se empolgado com a vida amorosa da personagem e resolveram dar um ar mais... "íntimo" no pôster. A vida amorosa da moça vai de mal a pior, além do ex-marido, que se acha no direito de se apropriar da vida da ex como forma de vingança, ela já teve vários parceiros, mas nada parece ser muito empolgante. Pode se dizer que a mulher vai descer até o inferno, chegando a ficar proibida de trabalhar por conta das atribulações que sua vida atravessa. Justine Trier faz um filme ácido, bem humorado e frenético, uma mistura que já desejava em seu filme anterior (A Batalha de Solferino/2013 que guarda algumas semelhanças com a protagonista que vemos aqui), mas aqui o resultado é mais lapidado e organizado em uma estrutura que parece de uma comédia romântica esperta, muito por conta da  química entre Virginie e Vincent Lancoste que desde a primeira cena juntos já desperta torcida na plateia. O filme só decepciona por criar tantas situações em torno da personagem que por vezes não sabe que rumo tomar rumo à conclusão da história. O resultado é eficiente e bom para passar o tempo, evidenciando que a diretora começava a pensar em roteiros mais rebuscados e que tivessem mais a dizer sobre seus personagens. Antes de Anatomia de Uma Queda (2023) este era o filme mais conhecido da cineasta,   

Na Cama Com Victoria (Victoria/França - 2016) de Justine Triet com Virginie Efira, Vincent Lancoste, Melvil Paupaud, Jeane Arra-Bellanger, Arthur Harari e Alice Daquet. ☻☻☻

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: A Batalha de Solferino

Laetitia: o caos no macro e no micro.

Em foco no #FimDeSemana do mês, a cineasta Justine Triet é aclamada mundialmente após Anatomia de Uma Queda levar para a casa a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2023, o primeiro de muitos prêmios que o filme recebeu ao longo do ano de 2023. A aclamação culminou nas cinco indicações ao Oscar recebidas pelo filme (incluindo melhor filme, direção e roteiro) nada mal para uma produção estrangeira que não foi a escolhida por seu país de origem a disputar a vaga de filme internacional. Reza a lenda que um dos motivos para este snob são as falas políticas de Trier na imprensa que critica política cultural do atual governo francês. Esta pegada política da cineasta é muito presente em seu primeiro longa de ficção: A Batalha de Solferino, que de certa forma, retoma o tema de um documentário realizado por ela em 2009 sobre as eleições francesas. Aqui ela mescla o acompanhamento da apuração das eleições francesas de 2012 (na disputa entre Sarkozy e François Hollande que estavam praticamente empatados nas pesquisas) com um dia no cotidiano da repórter Laetitia (Laetitia Dosch) responsável para cobrir a apuração diante da multidão na Rua Solferino, local em que se encontra a sede do partido socialista francês. Se a multidão na rua cria um clima caótico, a vida da protagonista não é muito diferente, já que ela mal consegue se arrumar para o trabalho enquanto suas duas filhas pequenas choram e o namorado pede atenção por se sentir um tanto de lado. Quando o babá chega para ajudar, as coisas não melhoram muito com as crianças e tendem a piorar com a recomendação de que ele não deve de forma alguma deixar que o pai das crianças, Vincent (Vincent Macaigne, eleito melhor ator no Festival de Mar Del Plata) entre na casa para vê-las. Caso isso aconteça, ela pede até para um vizinho (Vatsana Sedone) intervir. Acontece que ela vai para o trabalho e Vincent chega e complica ainda mais o dia daquela mulher. Trier ainda carrega aqui as marcas de seu trabalho documental, sobretudo quando percebemos que as entrevistas com os escolhidos na multidão são reais, seja pelos discursos engajados ou desarticulados que estão no filme. Fica marcado assim uma disputa no campo político mais amplo daquele país, mas que cria uma analogia interessante na disputa que se estabelece entre Laetitia e Vincent pelas filhas, o que por vezes gera decisões absurdas de ambos até envolver a polícia. Trier imprime um tom propositalmente frenético e caótico no filme, trazendo um senso de urgência que por vezes torna até compreensível as decisões equivocadas dos personagens. É tanta discussão, tanta gente falando ao mesmo tempo, tanta gritaria que por vezes beira o insuportável. Curiosamente quando o filme se acalma e se torna mais "domiciliar" o filme perde o ritmo e se torna um tanto redundante. Desta vez a improvisação fica mais evidente, mas não sabe para onde ir, chegando a um final que aspira ser de diálogo e conciliação (ou um pastiche disso) mas que se torna insatisfatório por nunca avançar em sua mistura entre o dramático e cômico. No entanto, esta contraposição entre o micro e o macro estabelecido pelo roteiro serviu para que Triet fosse indicada ao César pela primeira vez na categoria de melhor primeiro filme. Uma estreia longe de ser perfeita, mas bastante promissora. 

A Batalha de Solferino (La Bataille de Solférino/França - 2013) de Justine Triet com Laetitia Dosch, Cincent Macaigne, Arthur Harari, Virgil Vernier, Liv Harari e Vatsana Sedone. ☻☻

domingo, 21 de janeiro de 2024

#FDS Aki Kaurismäki: Folhas de Outono

Alma e Jussi: amor à moda antiga.

Ansa (Alma Pöysti) trabalha em um supermercado e ao chegar em casa tem apenas a companhia do rádio que não para de dizer notícias ruins. Holappa (Jussi Votanen) é um operário que para esquecer da vida sem graça sempre encontra tempo para tomar um pouquinho de álcool. Os dois são notoriamente solitários, mas se encontram num bar de karaokê e começam a demonstrar interesse um pelo outro. Os dois irão se encontrar mais algumas vezes até que tenham coragem de dizer um para o outro que consideram que um é a companhia que o outro precisa. Fosse uma comédia romântica feita em Hollywood os dois falariam aos montes, agiriam feito adolescentes, discutiriam por qualquer bobagem até perceberem que são almas gêmeas. Como se trata de um filme do finlandês Aki Kaurismäki, os dois vão passar a maior parte do tempo remoendo seus sentimentos e expressando o que sentem pelos olhares carregados dos sentimento  um pelo outro. Folhas de Outono é o novo filme de Kaurimäki que acaba de chegar na MUBI após uma temporada nos cinemas brasileiros. O filme estreia no streaming com o prestígio de ter ganho o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes no ano passado e ser um dos favoritos a conquistar uma indicação ao Oscar de filme internacional (os anúncios serão feitos no dia 23 de janeiro e se a indicação se consolidar, será a segunda vez que a Finlândia entra no páreo - a primeira vez foi também com Kaurismäki com O Homem sem Passado/2002). Prova de que o filme caiu nas graças do público internacional foi a valiosa indicação de Alma Pöysti ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia por seu trabalho perfeito na pele de uma mulher que ainda procura o amor, por mais que ele seja difícil em sua vida. Embora a ambientação seja igual a todos os filmes de Kaurismäki e passe a sensação de que a história acontece no passado, as notícias no rádio sobre a guerra na Ucrânia deixam claro que o filme se passa em tempos atuais. Folhas de Outono é mais uma prova de que os filmes do cineasta parecem passar em um lugar isento de linha do tempo, embora sejam de épocas distintas, no entanto, poucas vezes nesse universo os personagens impassíveis do diretor apresentaram tanta alma quanto Ansa e Hollapa. Acho que muito se deve aos olhos brilhantes da atriz que só ressalta a química que existem entre os dois, mesmo quando se instaura um conflito entre os dois, a plateia ainda torce para que os dois se reencontrem e se acertem. Obviamente que o senso de humor peculiar do cineasta está presente a todo instante, seja nos bilhetes perdidos, nos empregos sempre deixados para trás, na cachorra abandonada que encontra finalmente um lar, num acidente, nos dois assistindo a um filme de zumbi (o pífio Os Mortos não Morrem/2019) ou na hilariante música de synth pop com versos do porte de "eu gosto de você, mas não me suporto" e "até os cemitérios tem cercas"). Não resta dúvidas de que Ansa e Hollapa foram feitos um para o outro e que essa história de amor só poderia ser contada com os temperos que só Kaurismäki possui. 

Folhas de Outono (Kuolleet lehdet / Finlândia - Alemanha / 2023) de Aki Kaurismäki com Alma Pöysti, Jussi Vatanen, Alina Tomnikov, Martti Suosalo e Janne Hyytiäinen. ☻☻☻☻

sábado, 20 de janeiro de 2024

#FDS Aki Kaurimäki: O Homem sem Passado

Peltola: o recomeço segundo Kaurismäki.

Houve grande surpresa quando a Finlândia cravou sua primeira indicação ao Oscar de filme estrangeiro com O Homem sem Passado em 2003. Ainda que o filme tenha recebido o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, todo mundo esperava que filmes como o sucesso francês 8 Mulheres de François Ozon, o elogiado espanhol Segunda-Feira ao Sol com Javier Barden ou o blockbuster brasileiro Cidade de Deus tivessem mais chances de agradar a Academia. No fim das contas, quem levou para casa o prêmio foi o alemão Lugar Nenhum da África que pouca gente lembra. A indicação filandesa atiçou a curiosidade em torno do filme e fez muita gente ver pela primeira vez um filme de Aki Kaurismäki e garanto que muita gente estranhou o ritmo lento, as interpretações impassíveis e o senso de humor seco que faz a glória dos fãs do cineasta (tente conter o riso nas cenas do cachorro "feroz" do filme). Trata-se de um universo bastante particular que o diretor construiu para suas histórias, com ambientações de estética retrô e pôsteres com a maior cara de clássicos do cinema. No entanto, debaixo de tudo que possa provocar estranhamento, existe uma bela história sobre recomeços. O filme constrói um tom de crônica ao nos apresentar um homem (Markku Peltola) que é espancado e roubado por um trio de assaltantes logo no início da sessão. Ferido, sem dinheiro ou documentos, ele é dado como morto em um hospital, mas desperta e sai do hospital sem fazer a menor ideia de quem seja e para onde deve ir. Sem lembrar de nada, resolve vagar pela cidade até que sua vida começa a ganhar novos rumos. Consegue um emprego, um lugar para morar e até uma namorada sempre por caminhos um tanto imprevisíveis e contando com a ajuda de algumas pessoas que encontra pelo caminho. Todos que estão em volta do personagem sabem que ele não tem lembranças do passado e ao mesmo tempo que algumas pessoas o acolhem, existem outras que apenas desejam se aproveitar dele. Outro ponto interessante na história é que toda figura de autoridade que poderia lhe ajudar a descobrir quem é, acaba o tratando muito mal por considerá-lo um delinquente subversivo. Kaurimäki tem um senso de humor bastante peculiar, ao inserir seu personagem desmemoriado em situações um tanto surreais, como aquela em que tenta abrir uma conta no banco e acaba testemunhando um assalto para logo depois ser preso por desacato ou quando passa a agenciar uma banda promissora. Provavelmente a Academia se rendeu ao filme por conta do caminho oposto que a maioria dos filmes em torno da temática seguiriam. Ao invés de buscar esclarecer algo sobre si mesmo, o personagem vive a partir do que surge em seu caminho e, quando o passado finalmente o reencontra, o filme de Kaurismäki demarca mais uma vez ser uma crônica sobre o recomeço como um sinal de esperança para seus personagens. Não é um filme para todos os públicos, mas merece atenção pela originalidade apresentada em um tema já usado diversas vezes.

O Homem sem Passado (Mies vailla menneisyyttä / Finlândia - Alemanha - França / 2002) de Aki Kaurismäki com Markku Peltola, Kati Outinnen, Anniki Tähti e Kaija Parkarinen. ☻☻☻☻

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

#FDS Aki Kaurismäki: Contratei um Matador Profissional

Leáud: muso francês no mundo de Kaurismäki.

O finlandês Aki Kaurismäki é um dos cineastas europeus mais cultuados do mundo e não é a toa que a MUBI preparou uma retrospectiva da carreira do diretor. No momento em que decidi fazer um #FimDeSemana dedicado à obra dele, foi difícil escolher apenas três filmes para escrever. Acabei escolhendo para começar este Contratei um Matador Profissional (1990), sua primeira aventura cinematográfica fora de seus país. Se o diretor já era bastante conhecido pelo seu estilo particular, com silêncios, interpretações contidas e um senso de humor seco, aqui ele agrega outros elementos que tornam o filme ainda mais interessante. A começar por uma atmosfera de film noir com tempero Hitchcockiano em torno de um homem infeliz que decide deixar de viver. Na Inglaterra do final dos anos 1960, o francês Henri Boulanger (Jean-Pierre Leáud) acaba de ser demitido após quinze anos de serviços prestados à uma empresa. O patrão não gasta muito tempo com justificativas e ressalta que diante de tempos de crise, os cortes se iniciam pelos estrangeiros. Henri já parecia um tanto deprimido com a vida solitária e perder o emprego que lhe preenchia os dias o deixa ainda pior. Ele começa a investir em tentativas de suicídio que nunca dão certo e, já que não se julga competente nem para acabar com a própria vida, ele resolve ir à um estabelecimento onde possa encontrar alguém que faça o serviço. Gastando seus poucos tostões com um matador profissional, ele imagina que em breve seu desespero terá fim. Só que ele conhece uma vendedora de flores, Margaret (Margi Clark) e os dois se apaixonam. Ali seria um recomeço para Henri, mas ele precisa entrar em contato com o assassino enviado para acabar com sua vida e dizer que mudou de ideia - o que complica muito o romance do casal. A trama demonstra bastante o humor peculiar de Kaurismäki e um tanto de seu olhar sobre a vida, já que enquanto Henri se dá conta que ainda lhe resta esperança para viver quando chega à sua decisão mais radical, enquanto isso também acompanhamos a trajetória do assassino às voltas com seus próprios dilemas perante a mortalidade. O filme avança sem maiores alardes promovendo alguns encontros curiosos entre o trio principal até terminar de forma irônica. Os conhecidos cenários de cores fortes e objetos gastos do diretor funcionam muito bem para ambientar a trama. O muso de François Truffaut, Jean-Pierre Leáud (que já foi aquele menino irresistível de Os Incompreendidos/1959) compõe um personagem de alma desgastada que reencontra uma razão de viver com um charme quase inexplicável enquanto Margi Clark parece uma das estrelas de Hitchcock com suas roupas de cores vivas e cabelo platinado. Em contraponto com os dois está Kenneth Colley com contornos humanísticos perante a mortalidade. Pode não ser o filme mais querido de Kaurismäki, mas é um dos mais curiosos e com uma premissa tão interessante que foi até reciclada no brasileiro Não Tem Volta (2023) de César Rodrigues e estrelado por Rafael Infante e Manu Gavassi.  

Contratei um Matador Profissional (I Hired a Contract Killer / Finlândia - Suécia - França - Alemanha - Reino Unido / 1990) de Aki Kaurismäki com Jean-Pierre Leáud, Kenneth Colley, Margi Clark, Nicky Tesco e Charles Cork. ☻☻☻

domingo, 12 de novembro de 2023

#FDS Pré-Oscar: Terra de Deus

Elliot Croesset Hove: a história de seis fotografias.

Terminando nosso #FimDeSemana com filmes que disputam uma vaga no páreo de Melhor Filme Internacional no ano que vem, temos um filme que entrou em cartaz em pouquíssimas salas durante o ano e que agora está disponível no serviço de streaming da Filmicca. Terra de Deus é o filme selecionado pela Islândia para ter chances no Oscar do Tio Sam e é um dos filmes que se estivesse na disputa nos anos 1980 ou 1990 ficaria fácil entre os cinco selecionados, com as mudanças que a Academia atravessou nos últimos anos ele pode perder espaço para filmes mais moderninhos. O diretor islandês Hlynur Pálmason faz um filmão à moda antiga, com muitos planos abertos (que valorizam ainda mais as inacreditáveis paisagens islandesas) e ritmo lento, o que pode tornar a produção um tanto árdua para aqueles que gostam de cenas de ação e montagem de cortes rápidos. O longa é contemplativo mesmo, gosta de expor as cenas sem pressa e se estende por duas horas e vinte minutos. No entanto, a trajetória do padre Lucas (Elliott Crosset Hove) prende atenção pela forma bem construída com que o diretor apresenta os momentos em que a fé do rapaz é posta à prova em sua missão de fundar uma igreja nos cafundós da Islândia no final do século XIX. Lucas é dinamarquês e parte em uma árdua jornada para chegar ao seu destino. A distância, as paisagens e os obstáculos naturais tudo o faz repensar se vale realmente à pena seguir seus votos, por vezes suas orações é quase um pedido de desculpas a Deus por não dar conta da missão que lhe foi confiada. O que ajuda a passar o tempo é sua paixão pela fotografia. Diferente dos dias atuais, naquele tempo uma fotografia era um artefato raro e exigia muita destreza de quem fosse realizá-la. O registro exigia imobilidade absoluta e a revelação era feita de forma precária, assim, não era raro estragar o registro tão trabalhoso. A fonte de inspiração do próprio filme é a fotografia, já que a trama foi escrita pelo diretor a partir de seis fotografias datadas do final do século XIX encontradas enterradas em uma caixa em um lugar remoto de seus país. A partir delas, a imaginação do roteiro coloca o bom moço Lucas em situações que testam não apenas a sua religiosidade, mas também sua ética, moral e valores. Se o caminho é difícil, a coisa não melhora muito quando chega ao seu destino e precisa lidar com as pessoas que o cerca, as interações humanas começam a parecer um prato cheio para pecar, seja por amor ou ódio, nesse aspecto personagens como o velho Ragnar (Ingvar Sigurðsson), o anfitrião Carl (Jacob Hauberg Lohmann), sua filha Anna (Vic Carmen Sonne), a caçula Ida (Ída Mekkín Hlynsdóttir) e até o tradutor (Hilmar Guðjónsson) parecem obstáculos para a santidade do jovem padre. Não é por acaso que a natureza no filme surge tão bela quanto assustadora em sua amplitude, seja nas enormes cachoeiras, nos desfiladeiros gigantes, na chuva, na lama, na lava fétida da região, no rio revolto, diante de tanta grandiosidade os personagens sempre parecem pequenos a mercê de seus caprichos (incluindo os da própria natureza humana). Terra de Deus é um belo filme sobre o homem em conflito diante da fé, que aqui é colocada à prova sem sensacionalismos. Exibido com elogios no Festival de Cannes do ano passado, o longa metragem pode surpreender ao render uma indicação para a Islândia, algo que não acontece desde 1992, quando entrou no páreo com Filhos da Natureza. Se em 2022 o folk horror de Lamb chegou perto, quem sabe uma vibe mais clássica encanta a Academia? 

Terra de Deus (Vanskabte land / Dinamarca - Islândia /2022) de Hlynur Pálmason com Elliott Crosset Hove, Ingvar Sigurðsson, Hilmar Guðjónsson, Vic Carmen Sonne, Jacob Hauberg Lohmann e Ída Mekkín Hlynsdóttir. ☻☻☻☻