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domingo, 8 de setembro de 2024

Ciclo Verde e Amarelo: Pacarrete

 
Marcélia: uma das grandes atrizes do cinema brasileiro.
 
Pacarrete (Marcélia Cartaxo) é uma professora de dança aposentada que vai viver em Russas, no interior do Ceará, para cuidar de uma irmã (Zezita de Matos), mas sempre deixa claro que toda aquela realidade é muito diferente do que ela gostaria de vivenciar. Com a proximidade da festa em celebração dos 200 anos da cidade, ela decide convencer o governo local a fazer uma apresentação de ballet, o que dá início a uma série de conflitos com quem está ao seu redor. Escrito, dirigido e produzido por Allan Deberton, desde sua cena inicial o filme dá conta de apresentar que Pacarrete destoa da realidade daquele lugar, mas o faz com alegria e esperança de ter reconhecimento por sua arte, no entanto, conforme ela percebe que ninguém se importa com o que ela tem a oferecer, começa a surgir um tanto de insatisfação, desespero e até depressão. Por conta dessas mudanças de humor da personagem, o filme pode ser dividido em dois atos, no primeiro, a história tem um ritmo de comédia bastante preciso, ditado muitas vezes pela entonação de voz altiva e um tanto destoante de Marcélia Cartaxo, que parece se divertir muito em cena. Sua questão de falar truncado com quem atravessa seu caminho, o uso de sotaque estrangeiro para falar algumas palavras e até a forma como enfrenta de forma impetuosa os demais personagens, demonstram não apenas a personalidade forte da personagem, mas também o quanto falta um tantinho só para que tudo saia do eixo. No segundo ato, a coisa sai do eixo mesmo. A personagem se torna mais introspectiva, triste e desanimada e lida com o mundo ao seu redor de forma totalmente diferente do que vimos no início, a fotografia (que era solar) se torna mais escura e sombria, enquanto a personagem se torna amarga e desiludida. Deberton demonstra habilidade no trabalho com a mudança de tom de sua narrativa e  consegue manter debaixo de toda mudança estética uma certa chama em Pacarrete, o que torna a cena final ainda mais emocionante e bonita. No entanto, acho difícil que o filme funcionasse se não tivesse em cena o talento da paraibana Marcélia Cartaxo. Pouca gente deve lembrar, mas a atriz tem em sua estante o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim por sua antológica performance como Macabéa na versão cinematográfica de A Hora da Estrela (1985). Sempre que a vejo em cena eu penso como a atriz sempre recebe menos atenção do que deveria em nosso país. Pelas variações que apresenta na pele de Pacarrete (e que a torna totalmente convincente como uma professora de dança aposentada à beira de um colapso emocional), a atriz recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado e o Troféu Grande Otelo de melhor atriz e, fez muita gente lembrar, que ela é uma das grandes atrizes do nosso cinema. 

Pacarrete (Brasil - 2019) de Allan Deberton com Marcélia Cartaxo, João Miguel, Soia Lira, Zezita Matos e Samya de Lavor. ☻☻☻

quarta-feira, 12 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: Blue Jean

Viv (Kerrie Hayes) e Jean (Rosy McEwen): dilemas pertinentes.

Jean (Rosy McEwen) é uma professora de Educação Física de uma escola inglesa para adolescentes. Sua vida profissional é aparentemente sem problemas, mas a vida pessoal passou por atribulações com um divórcio recente e um relacionamento cada vez mais distante com a família. O único lugar em que Jean pode ser ela mesma é no bar que costuma frequentar com a namorada, Viv (Kerrie Hayes) e algumas amigas. Jean é lésbica e ainda precisa lidar com o desconforto que as pessoas demonstram ao descobrir sua homossexualidade. Vale lembrar que o filme é ambientado no cenário bastante conservador de 1988, em que direitos dos homossexuais estava em pauta na mídia britânica e rendia discussões acaloradas que se refletiam em toda sociedade, incluindo nas escolas. Diante da postura de alguns colegas de trabalho, Jean fica ainda mais preocupada com a ideia de um dia descobrirem que se relaciona com outras mulheres, ao ponto de temer nunca mais conseguir trabalhar na região. A forma discreta com que Jean consegue lidar com sua sexualidade e separá-la da vida profissional irá passar por um teste árduo com a chegada de uma nova aluna, Lois (Luccy Halliday), que passa a integrar o time que ela treina para a escola. Lois é sempre perseguida pelas outras colegas, por vezes gerando atos de violência. No dia em que Lois passa a frequentar o mesmo bar que Jean e suas amigas, a professora entra em crise ao imaginar o que pode acontecer depois, logo em seguida se vê diante um dilema que acarretará consequências para ambas. Blue Jean é o filme de estreia da britânica Georgia Oakley que foi indicada ao BAFTA de revelação britânica pelo trabalho e, de fato, realiza algo notável na forma como seu filme se torna cada vez mais complexo perante a postura da professora e do mundo perante sua sexualidade. O roteiro junto ao bom trabalho da atriz Rosy McEwen tem como maior objetivo tornar difícil julgar a postura da personagem, uma vez que suas atitudes são sempre pautadas pelas implicações que podem ser geradas, mas por outro lado, geram ações bastante questionáveis. Desde que Lois atravessa a divisória da realidade traçada por Jean, o filme só cresce em tensão e passa a pontuar questões que talvez a professora negasse pensar durante muito tempo. Um dos pontos mais importantes é ressaltado por Viv em uma das conversas mais tristes que já vi em um filme, mas que é realizado com bastante sutileza pela diretora. O mesmo pode se dizer sobre as cenas de Jean na casa da irmã, local que parece um mundo tão orquestrado que beira o incômodo, mas que também serve de cenário para o momento mais libertador da personagem. Blue Jean é um filme que faz pensar sobre as implicações do preconceito introjetadas na personalidade dos sujeitos que precisam fingir ser outras pessoas como um verdadeiro mecanismo de defesa e sobrevivência. Ao término do filme eu apenas imaginei como a protagonista estaria vivendo hoje. 

Blue Jean (Reino Unido - 2022) de Georgia Oakley, com Rosy McEwen, Kerrie Hayes, Lucy Halliday, Lydia Page, Becky Lindsay, Laynei Shaw e Amy Booth-Steel.

domingo, 9 de junho de 2024

CICLO DIVERSIDADESXL: A Vida sem Você

 Elgerd e Andersson: cenas de uma separação.

Eis que um dia Hampus (Jonathan Andersson) percebe que seu relacionamento com Adrian (Björn Elgerd) não está funcionando. Resta apenas anunciar o término. O anúncio é feito como se algo houvesse morrido,  passa a impressão que qualquer questionamento perante o fim soe mais como uma negação do que a tentativa de buscar argumentos para que prossiga. Resta aceitar. Existe uma apatia, certa indiferença e um senso de comodidade no diálogo que se segue entre o jovem casal. Resta cada um seguir sua vida. Dividirem o que é de quem na casa (incluindo metade da cama, já que a ideia de dividirem o valor não funcionou, mas a metade serve para compensar a TV que ganharam de presente e que não pode ser dividida). Nas conversas entre os dois personagens percebemos que já se separaram anteriormente, mas agora parece diferente, parece definitivo. Embora os dois se encontrem de vez em quando, afinal gostam de ir ao mesmo pub, tem amigos em comum e um sabe onde ver o outro em momentos de recaída, a ideia de voltar atrás sempre soa como um retrocesso, confirmado quando as conversas deixam o afeto de lado e se tornam ásperas pela realidade já conhecida dos momentos de crise. Entre a vontade de reatar e seguir em frente, novas oportunidades de romance aparecem na vida de ambos enquanto tentam manter contato um com o outro.  Talvez seja pela cena inicial (presente nesta postagem) somada ao fato do filme ser sueco, mas a todo instante em que eu assistia A Vida Sem Você, o filme me parecia uma variante do clássico Cenas de Um Casamento (1974) de Ingmar Bergman. Seria óbvio ressaltar que David Färdman (que aqui marca sua estreia em longa metragem de ficção) está longe de ter a genialidade bergmaniana (assim como todos os outros diretores que tentaram fazer algo parecido ao filme estrelado por Liv Ullman), mas assim como alguns admiradores da obra, consegue erros e acertos na empreitada. Durante boa parte de sua duração, A Vida sem Você se apresenta como se não houvesse diferença no rompimento de um casal gay ou hétero, o que por vezes força uma dinâmica um tanto simulada entre os personagens. O elenco se esforça para injetar complexidade nos dilemas dos seus personagens introspectivos,  o que ajuda bastante já que a trama segue sem grandes sobressaltos enquanto descobrimos segredos, mágoas e expectativas daquele relacionamento naufragado. Nota-se uma preocupação especial com Adrian ao longo da narrativa, já que ele é quem menos aceita o rompimento (provavelmente por ter sido anunciado pelo parceiro), mas ao longo do filme passa por uma autoavaliação que se mostra bastante reveladora a si mesmo, o arco do personagem funciona como fio condutor da história. Achei um tanto exagerada a cena em que ele dorme abraçado com um bicho de pelúcia (seria um sinal de carência ou de imaturidade?) e também não gostei da última cena, em que ele anda de bicicleta pelo campo ao por do sol, praticamente um clichê em forma de desfecho. O filme deveria ter terminado na cena anterior demonstrando que o rapaz enfim encontrou seu ponto na conformidade com o inevitável. Dizem que o filme tem um final alternativo, mas acabando na penúltima cena já estaria de bom tamanho para concluir um filme sem novidades mas que cumpre seu papel ao abordar as dores de um término de relacionamento e o sempre desconfortável recomeço.

A Vida sem Você (Are We Lost Forever/ Suécia - EUA / 2020) de David Färdmar com Jonathan Andersson, Björn Elgerd, Shirin Golchin, Victor Iván, Micki Stoltt e Nemanja Stojanovic. ☻☻☻

domingo, 3 de dezembro de 2023

PL►Y: Minha Irmã

Hoss: uma mulher em recomposição.

A alemã Nina Hoss é uma das atrizes mais interessantes em atividade no cinema. Se você curte cinema europeu, provavelmente a conheceu em um dos filmes de Christian Petzold (provavelmente em Fênix/2014 que ficou em cartaz por aqui durante semanas), mas se você curte mesmo filmes celebrados na temporada de prêmios, deve tê-la visto como a companheira de Cate Blanchett em TÁR (2022) que a deixou cotada para uma indicação ao Oscar de coadjuvante. Quem conhece Nina sabe que ela é capaz de inserir várias camadas nas personagens que encarna, geralmente as tornando mais complexas do que se imaginaria ao ler uma sinopse ou roteiro. Este gosto pelo ofício é o que podemos ver mais uma vez em Minha Irmã, filme que tentou uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro no ano de seu lançamento e acabou ficando de fora. À primeira olhada parece um melodrama manjado sobre pessoas com doença na família, mas as diretoras e roteiristas Stéphanie Chuat e Véronique Reymond seguem por outro caminho, acentuado ainda mais pelo trabalho de Hoss. O filme conta a história de Lisa (Hoss), uma dramaturga alemã que deixou sua carreira de lado para viver na Suíça com o esposo (Jens Albinus, craque em viver sujeitos odiáveis). Duas filhas depois, ela acaba retornando para Berlim por conta do seu irmão gêmeo, Sven (Lars Eidinger) que está passando por um tratamento contra o câncer. O que poderia ser apenas um conjunto de dias ao lado do irmão doente se torna uma verdadeira jornada de desconstrução para a personagem. Além de reencontrar o irmão que é ator, ela também tem novamente proximidade com a mãe (Marthe Keller), uma atriz aposentada que nunca entendeu muito bem o motivo da filha ter deixado tudo para trás, mas também não entende o motivo dela se afastar do esposo naquele momento. Fica evidente que a relação entre a família é tensa e ela só piora quando Lisa resolve trazer as filhas para visitar o tio. Aos poucos tudo parece entrar em colapso, a relação de Lisa com os conhecidos do teatro, a relação com a mãe, com o marido e, obviamente, consigo mesma. A sensação é que Lisa está prestes a perder sua metade conforme a situação de saúde o irmão piora. No desespero, resta se agarrar a qualquer esperança de que ele permaneça por perto. Apesar de alguns momentos de explosão, o filme é bastante sutil nas engrenagens que se escondem por baixo do que se vê e escuta. Achei um filme tão forte quanto sensível e Nina tem algun do melhores momentos de sua carreira, como aquele em que ela parece que vai explodir em lágrimas e respira fundo para continuar tentando prosseguir. No entanto, tem uma frase que me dói toda vez que ela é dita, aquele "eu sinto muito" mecânico que não quer dizer muita coisa e que só quem tem alguém amado à beira da morte é capaz de sentir e identificar.

Minha Irmã (My Little Sister/Suíça - 2020) de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond com Nina Hoss, Lars Eidinger, Jens Albinus e Marthe Keller. ☻☻☻☻

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

PL►Y: O Baile dos 41

 
Os 42: escândalo mexicano.

Faz tempo que no México o número 41 é visto como uma alusão à homossexualidade masculina. O motivo está em um famigerado baile que contou com 42 homens na noite de 17 de novembro de 1901 na Cidade do México. Grande parte dos envolvidos fazia parte da elite local e metade se encontrava vestida de mulher durante a ocasião. Na verdade, os bailes já eram rotina na vida daqueles homens, muitos mantinham uma vida de aparências fora dali e aproveitavam para vivenciar naquele espaço um tipo de comportamento que não lhes era permitido no dia a dia. As festas eram secretas e aconteciam num casarão perto do Palácio Nacional, a residência do presidente. Os policiais invadiram a mansão em que o encontro era realizado e, não fosse um que conseguiu escapar, a polícia teria prendido todos. Aos que foram levados para a prisão restou a exposição, a humilhação e a ridicularização perante a sociedade da época. O filme dirigido por David Pablos conseguiu alguma repercussão ao contar essa história e abraçar a história que o quadragésimo segundo participante era na verdade o genro do presidente Porfírio Diaz. Historicamente a trama fica ainda mais interessante quando nos damos conta de que a homossexualidade nunca foi considerada  crime no México, sendo uma postura muito mais ancorada na moral e nos bons costumes no preconceito do que em qualquer suspeita de um crime ter sido cometido. Ainda assim, o escárnio seguiu com músicas com zombarias e gravuras publicadas nos jornais locais. Pura homofobia. Quem tinha dinheiro conseguiu se livrar das punições, os rapazes de origem mais humilde foram mandados para a Guerra das Castas que era travada no sudeste do país e morreram no esquecimento. Diante de um material tão explosivo, eu considerava que o filme O Baile dos 41 seria um verdadeiro achado. Não é bem assim. O cineasta David Pablos faz um filme com o maior jeito de novela mexicana, com planos e enquadramentos que parecem saídos de um melodrama pouco inspirado. Obviamente que o destaque na história fica por conta do genro do presidente, Ignacio de la Torre (Alfonso Herrera) que começa a frequentar os bailes e se apaixona por um outro homem (Emiliano Zurita) e o filme gira em torno disso soando maior do que sua duração de pouco mais de noventa minutos. O capricho visual de Pablos aparece mesmo nos vestidos utilizados pelos participantes do baile e algumas cenas mais apimentadas que criam um contraste com o tom quadradinho do resto do filme - o que só demonstra como o filme possui uma narrativa irregular.  O mais interessante é que nada prepara o espectador para a triste cena final de ridicularização total do personagens que foram obrigados a varrer as ruas usando os vestidos utilizados no baile sob os gritos de uma multidão histérica. Ainda que seja um filme com problemas, o resgate desta história real merece atenção por abordar homens que precisaram construir um mundo paralelo para conseguir viver suas verdadeiras identidades. 

O Baile dos 41 (El Baile de los 41 / México - 2020) de David Pablos com Alfonso Herrera, Emiliano Zurita, Mabel Cadena, Fernando Becerril, Rodrigo Virago, Roberto Duarte e Álvaro Guerrero. ☻☻

sábado, 21 de outubro de 2023

PL►Y: O Clube dos Anjos

 

O Clube do Picadinho: na mira de um misterioso cozinheiro. 

Lançado em 1998, O Clube dos Anjos se tornou um dos livros mais queridos da série Plenos Pecados da Editora Objetiva. A série trazia sete livros assinados por autores renomados com tramas inspiradas nos sete pecados capitais. Embora o meu favorito para virar filme fosse Xadrez, Trucos e Outras Guerras do José Roberto Torero (a Ira), também lançado em 1998, fiquei curioso para ver o que o diretor Angelo Defanti fez em seu primeiro filme de ficção. Sabendo se sua experiência em curtas e documentários, imaginei como o cineasta os acontecimento repetitivos que perpassam o livro. Afinal, a escrita de Veríssimo consegue dar conta de manter o interesse com o mistério cheio de ironias sobre um grupo de amigos que se reúnem a tempos para comer, conversar e dizer bobagens. O grupo se conhece desde pequeno e mesmo com suas vidas seguindo caminhos diferentes, tentaram manter o contato. Obviamente que existiram picuinhas aqui, algumas tretas ali, alguns ressentimentos e um bocado de discussões. Ao longo de décadas de amizade, nada mais óbvio que existam algumas roupas a serem lavadas. Autointitulados de Clube do Picadinho, os encontros começaram a ser ameaçados quando o mais velho do grupo faleceu e deixou um clima pesaroso de fracasso sobre os demais membros do público. No entanto, quando Daniel (Otávio Müller) conhece um misterioso cozinheiro de mão cheia chamado Lucídio (Matheus Nachtergaele), o Clube renasce em nome da saborosa gastronomia. Logo estarão reunidos novamente Pedro (Marco Ricca), Samuel (Paulo Miklos), Abel (Ângelo Antônio), Tiago (André Ambujamra), João (Augusto Madureira) e o novato André (Cesar Mello), que entrou meio que por acaso no grupo para substituir o falecido - e parece o mais bem resolvido do grupo. Quem conhece o livro sabe, que logo depois do primeiro jantar, um dos membros irá falecer. Talvez seja pela emoção. Mas após um novo encontro, existe mais um falecimento. Depois tem outro... outro... outro... O Clube dos Anjos é uma história sobre a Gula, o delicioso pecado capital que parece o mais inofensivo, mas aqui se torna-se um pecado mortal. O grupo começa a se questionar se a comida está envenenada, se é tudo uma coincidência e depois se pergunta porque continua se reunindo (e comendo) sabendo do desfecho de cada encontro. Afinal, se correm risco de morrer, qual o motivo de permanecerem comendo? Os motivos para isso deixavam o leitor instigado e, de certa forma, compõe o foco de atenção do filme, embora em alguns momentos o filme escorregue ao abraçar a esquisitice com um tempero sombrio exagerado, que expressa pouco o humor refinado do livro O elenco está em boa sintonia, mas o tom de farsa adotado pelo diretor estraga um pouco o desfecho que explica as motivações de Lucídio topar cozinhar o grupo, este se torna o maior segredo do filme. O Clube dos Anjos é um filme interessante, mas é daqueles casos que eu prefiro o livro, no entanto, sugiro que veja o filme e leia o livro ou vice-versa para experimentar o sabor de cada um.

O Clube dos Anjos (Brasil/2020) de Angelo Defanti com Otavio Müller, MAtheus Nachtergaele, Paulo Miklos, Marco Ricca, Ângelo Antônio, César Mello, André Abujamra e Augusto Madureira.  

sábado, 20 de maio de 2023

PL►Y: Undine

 
Paula e Franz: amor e mitologia.

Em 2009 o diretor Neil Jordan lançou Ondine, um belo filme sobre um pescador que se apaixonava por um ser mitológico que vivia na água. Em 2020 foi a vez do alemão Christian Petzold beber na mesma fonte para criar Undine, nome da criatura marinha que vez por outra vem à superfície seduzir homens na pele de uma mulher. A protagonista do filme é Undine Wibeau (Paula Beer), historiadora funcionária de um museu em Berlim responsável por apresentações sobre a reconstrução moderna da cidade após a Segunda Guerra Mundial. Quando o filme começa, seu namorado Johannes (Jacob Matschenz) termina o relacionamento com ela e, num tom inesperado, Undine diz que ele morrerá senão ama-la. O que parece uma declaração de amor obsessivo logo ganha outros contornos conforme percebemos que a protagonista não é uma mulher comum. Não demora muito para ela conhecer o mergulhador Cristoph (Franz Rogowski), com quem viverá um romance idílico até que a plateia comece a se dar conta de que existe uma maldição que paira sobre os romances desfeitos da moça. Essa ideia constrói não apenas a ideia de um romance proibido, mas também de uma verdadeira prisão afetiva repleta de culpa pela responsabilidade da morte pairar sobre alguém. A ideia se torna bem mais complexa do que podemos imaginar, especialmente quando a morte ou a vida passa a se relacionar com algo tão abstrato como um sentimento ainda existente ou não. No filme, "a vida" é a concretização da existência do amor entre os personagens. Parece brega, mas o filme está bem longe disso. O desafio de Petzold é inserir os toques de fantasia com os pés fincados na realidade, o que ele dá conta através das explicações entre o antigo e o novo, que aparecem várias vezes no filme, em uma alusão aos mitos ancestrais e a modernidade. Envolvendo a personagem em mistérios, Undine se desenvolve como um romance bem construído e envolvente, ancorado pelo bom trabalho da atriz Paula Beer (que só pela primeira cena já honra seu prêmio no Festival de Berlim) e de Franz Rogowski como o rapaz mais fofo do mundo (pelo menos até às coisas complicarem). Depois de fazer tantos filmes considerados pessimistas, Petzold mostra que existe um bocado de romantismo em sua criatividade e repete aqui a química da dupla com que realizou o aclamado Em Trânsito (2018) que permanece funcionando bem que é uma beleza. Com a nova versão de A Pequena Sereia prestes a sair, não deixa de ser curioso conhecer a trama em que o conto se inspira.

Undine (Undine / Alemanha - França / 2020) de Christian Petzold com Paula Beer, Franz Rogowsky, Jacob Matschenz, Maryam Zaree e Anne Ratte Polle.

sábado, 27 de agosto de 2022

#FDS Viggo Mortensen: Ainda Há Tempo

 
Lance e Viggo: uma relação complicada. 

Embora Hollywood tenha tentado fazer dele um galã, Viggo Mortensen sempre quis ser mais do que um rosto (e corpo) bonito na tela grande. Por conta disso, foi deixando cada vez mais as superproduções de lado e investindo em filmes mais modestos, independentes, mas que lhe permitisse personagens variados. Quem achava que ele seguiria o caminho dos épicos bilionários como a trilogia Senhor dos Anéis (2001) quebrou a cara, afinal, ele prefere manter a parceria com o estranho David Cronenberg a enveredar por blockbusters. Por conta disso ele já foi indicado ao Oscar depois de lutar peladão em uma sauna em Senhores do Crime/2007, por ser um pai que se afasta da sociedade para criar seus seis filhos após o falecimento da esposa em Capitão Fantástico/2016 ou um motorista que reavalia seu racismo no controverso  Green Book/2018. No entanto, Viggo ainda quer mais e escreve, atua e dirige este Ainda há Tempo, filme que marca sua estreia na direção. Parece que Viggo queria escalar outro ator para ser protagonista, mas percebeu que sua figura na tela atrai mais investidores do que ele imaginava (e abriu mão do salário de ator para tocar o projeto). O filme conta a história de John (Mortensen) que precisa lidar com o pai, Willis (Lance Henriksen) que começa a apresentar os primeiros sinais de demência e precisa de cuidados especiais. Desde o início, John é um poço de paciência, aguentando o temperamento difícil do pai, agora ainda mais agravado por seu estado mental. Sr. Willis faz questão de demonstrar seu desconforto com a homossexualidade do filho a cada instante, sempre disposto a discorrer um insulto atrás do outro ao filho. Porém, a situação não é muito melhor quando sua filha (Laura Linney) e os netos chegam para visitar, as grosserias prosseguem num ritmo que pode cansar o espectador, mas que dá a exata medida da dificuldade que é conviver com aquela pessoa tão desagradável. Esta sensação é ainda mais ampliada pelos flashbacks, que demonstram que a vida em família nunca foi fácil, com algumas frases incômodas ditas desde a hora em que um bebê chega na casa ("desculpe te trazer para este mundo para morrer") e evolui para diálogos escatológicos com a filha de John e seu parceiro, Eric (Terry Chen). Como ator, Viggo está muito bem em cena (ainda que seus trejeitos manuais por vezes pareça mais de um mafioso, mas funciona bem em contraste com a personalidade contida do personagem), mas é Lance Henriksen que assusta com toda a fúria, rancor e ódio que seu personagem transborda. É a dinâmica entre os dois que sustenta o filme, mas seria injustiça não destacar o trabalho do sueco Sverrir Gudnason (que também estava ótimo em Borg Vs McEnroe/2017) bastante convincente como o jovem Will que não consegue se conectar com a família. O filme demora a engrenar - especialmente pela temática e narrativa bastante batida -, mas quando o filme chega em sua meia hora final, a qualidade cresce de forma surpreendente. Viggo demonstra sensibilidade atrás das câmeras e torna-se um diretor que eu gostaria de ver sua evolução em trabalhos futuros.

Ainda há Tempo (Falling / Reino Unido - Canadá - EUA / 2020) de Viggo Mortensen, Lance Henriksen, Sverrir Gudnason, Terry Chen, Hannah Gross, Laura Linney e Henry Mortensen. ☻☻☻

quarta-feira, 8 de junho de 2022

CICLO DIVERSIDADESXL: O Advogado

 
Eimutis e Dogac: atração e autoironia. 

Marius (Eimutis Kvosciauskas) é um advogado corporativo na Lituânia. Homossexual assumido, ele sabe a realidade homofóbica de seu país e mantem um grupo de amigos próximos além de relacionamentos rápidos que nunca avançam muito. É em uma destas aventuras sexuais que ele conhece Ali (Dogac Yildiz), um stripper de site da internet.  A vida de Marius poderia seguir deste jeito até o fim de sua vida, não fosse o repentino falecimento de seu pai e algumas conversas que começam a fazê-lo repensar que o tempo está passando e que, talvez, estivesse na hora de repensar algumas diretrizes de sua vida - o que começa a envolver diretamente Ali e sua complicada realidade. Um amigo disse que O Advogado é quase "a versão queer de Uma Linda Mulher" e, vendo o filme, aos poucos comecei a entender o comentário. Para além do protagonista ser um advogado cínico que aos poucos começa a se desconstruir e revelar um bom coração, existe aquela sensação de ser a clássica história de Cinderela transposta para um contexto mais contemporâneo, em que uma espécie de príncipe encantado irá aparecer e resolver seus problemas. No entanto, O Advogado tem autoironia suficiente para brincar com todas estas referências. A forma como Ali rejeita o rótulo de vítima ou herói, a tensão que se estabelece entre os dois homens por conta das intenções que podem estar escondidas diante do desejo que só cresce entre os dois... também não faltam comentários sobre a simplificação de um indivíduo através dos rótulos não apenas sobre ser gay, bissexual, trans e, até mesmo, um refugiado (sem deixar de comentar que "os refugiados estão na moda"). No entanto, o filme precisa que o espectador compre a ideia de que o amor não apenas existe, mas é capaz de transformar pessoas, seja a revolta de Ali preso em Belgrado pelas burocracias governamentais, mas também o questionamento das regras na vida de Marius (que até então eram vistas como intransponíveis). O problema é que embora o filme encontre o caminho certo para desenvolver o romance que se estabelece entre os dois personagens (com ajuda da boa química entre os atores principais), no que tange ao contexto em que tudo acontece, existem muitas soluções simples para situações bastante complicadas. No fim das contas, fica a sensação da promessa de um final feliz sob a suspeita se ele seria realmente possível. Escrito e dirigido pelo lituano Romas Zabarauskas, o filme segue uma narrativa simples e sem firulas, mas que possui um uso inventivo no uso de cores. Não é por acaso que de vez em quando as cenas são cinzentas, avermelhadas ou até em preto e branco como se fosse um clássico filme sobre casais. Desde o início de sua carreira como cineasta, Romas deixou claro as suas intenções contra a homofobia, o que torna as intenções nobres de O Advogado um dos eixos de sua narrativa. 

O Advogado (Advokatas / Lituânia - 2020) de Robas Zabarauskas com Eimutis Kvosciauskas, Dogac Yildiz, Darya Ekamasova, Simonas Mozura e Heynce Saraf. ☻☻☻

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

PL►Y: Shirley

Moss e Odessa: laços criativos. 

Imagine você ser fã da obra de uma famosa escritora e resolve criar uma história sobre ela, de forma que ela se torne uma personagem de sua ficção (algo muito parecido com o que vimos em As Horas/2002). Esta é a ideia de Shirley, longa dirigido por Josephine Decker que é uma criação em torno da prestigiada escritora Shirley Jackson, que em suas obras de terror e suspense em meados do século XX chamava atenção pela abordagem psicológica de seus personagens. Leitura obrigatória em várias escolas dos Estados Unidos, a autora de A Maldição da Residência Hill (lançado originalmente em 1959), realmente brinca com nosso imaginário, mas sua vida pessoal pode surpreender ao saber que tinha uma vida aparentemente tranquila ao lado de esposo e quatro crianças na tranquilidade de Vermont. Portanto, é preciso deixar claro que o que vemos em Shirley é uma versão idealizada da escritora, que serve para que a trama (baseada no livo de Susan Scarf Merell) siga seus objetivos. Aqui vemos uma versão da escritora antes de tornar-se uma referência no gênero, mas que já chamava atenção dos leitores de suas história publicadas em jornais e revistas.  O filme busca retratar o olhar de estranhamento que uma mulher ao escrever histórias macabras poderia despertar na pequena cidade em que vivia com o esposo. Aqui a história se fundamenta em torno de seu segundo livro, O Homem da Forca (lançado em 1951) e que foi inspirado pelo desaparecimento de uma jovem universitária. Elisabeth Moss é a responsável por dar vida à esta versão da escritora, que se utiliza da presença de um jovem casal em sua casa para criar uma de suas obras mais impressionantes. Shirley é casada com o professor universitário Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg) que convida um jovem professor recém chegado, Fred Nemser (Logan Lerman) para se hospedar em sua casa (e de fato a casa do casal era constantemente cheia de amigos e escritores, embora não seja da forma soturna como o filme apresenta). Fred é casado com Rose (Odessa Young) que logo é convidada a se tornar uma espécie de cuidadora da anfitriã e da casa. Existe uma tensão entre os dois casais que oscila bastante no decorrer da narrativa. Existe uma rivalidade masculina que se instaura, enquanto as duas mulheres começam a desenvolver uma cumplicidade que motiva o processo criativo da escritora ao ponto que  Rose se torna uma espécie de musa inspiradora para que a obra de Shirley ganhe forma e sua personagem principal ganhe vida. A diretora Josephine Decker constrói uma narrativa que mescla bastante o real e o imaginário e que, aos poucos, modifica suas personagens femininas mesmo que, por vezes, coloque-as à beira de um abismo (literalmente) muito por conta da situação da mulher na sociedade (a necessidade da obra de Shirley ser legitimada pelo esposo, o fato dos comentários tecidos sobre ela ter mais credibilidade do que seu talento, a ideia da mulher viver para os afazeres domésticos, as relações de poder e gênero...) tecendo uma verdadeira rede de elementos da época habitada pela escritora. Incômodo e enigmático, Shirley é um filme realmente instigante, beneficiado ainda mais pelo bom trabalho de suas atrizes principais emoldurado por uma magnífica trilha sonora. 

Shirley (EUA-2020) de Josephine Decker com Elisabeth Moss, Odessa Young, Michael Stuhlbarg, Logan Lerman e Victoria Pedretti. ☻☻ 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

#FDS Made in Japan: Aya e a Bruxa

Aya: aprendiz de bruxa.

Resolvi dedicar o último Fim de Semana do mês para comentar alguns filmes japoneses que assisti recentemente. O motivador para este #FDS foi esta animação dos Estúdios Ghibli, chamado por aqui de Aya e A Bruxa. Antes mesmo de entrar em cartaz na Netflix o filme já se envolveu em uma polêmica, já que em setembro apareceu rapidamente no catálogo do streaming para sair logo em seguida. Parece que houve um erro na disponibilização do filme na plataforma e o mesmo aparecia somente com dublagem e legendas em inglês. Resolvido o problema, o novo filme de Goro Miyazaki (filho do cultuado Hayao Miyazaki) já está disponível para quem desejar contemplar a primeira animação em 3D do estúdio. O filme conta a história da menina órfã Aya, que é deixada em um orfanato quando ainda era apenas um bebê. Ela cresce por lá tendo um gosto especial por coisas assustadoras e, devido a amizade com o menino Pudim, não tem muita pretensão de ser adotada. O problema é que quando um estranho casal visita o orfanato e a escolhe para ser filha deles, ela não demora muito para descobrir que aquele casal é formado por dois seres ligados à bruxaria (e podem ter uma ligação com o seu passado). O filme é baseado no livro Tesourinha e a Bruxa da escritora Dyana Wyne Jones (mesma autora de O Castelo Animado/2004 que ganhou versão para o cinema pelas mãos de Hayao), mas encontra alguns problemas em sua transição para a telona. O roteiro é bastante simples e sem muita lapidação, o que compromete na hora de desenvolver o contato da pequena Aya com os elementos que demonstram uma ligação daquele estranho casal com seu passado, assunto desenvolvido de forma um tanto precária no texto, mas o maior problema mesmo está no desfecho abrupto como se houvesse acabado o dinheiro da produção e tudo terminasse antes de uma conclusão satisfatória. Este parece ser um reflexo da produção problemática que cercou o filme, uma vez que Goro recebeu dinheiro para a produção, mas não contou com a ajuda dos animadores experientes na empreitada, contando com uma equipe de novatos neste tipo de trabalho e enfrentou várias críticas pela forma como desenvolveu o projeto (cuja inexperiência no ramo 3D fica visível em vários momentos). O longa  acabou estreando na TV por conta da pandemia, mas não empolgou muito a crítica, ainda que estivesse entre os candidatos à uma vaga ao Oscar de Animação deste ano. Considerado por muitos o pior filme do estúdio Ghibli, Aya e a Bruxa tem seus tropeços, mas capricha no uso das cores e tem momentos divertidos quando Aya envereda pelo mundo da bruxaria - e pode causar certa antipatia por sua habilidade em manipular quem está ao seu redor. No entanto, está longe de ter a beleza marcante do estúdio e trazer uma história inesquecível. Esta não é a primeira vez que Goro desagrada ao assinar uma animação, seu controverso Contos de Terramar (2006) está até hoje entre os filmes menos queridos do estúdio. Talvez no futuro a própria relação entre Goro e Hayao gere um filme no futuro, já que o peso do sobrenome e a vontade de sair da sombra do pai é uma constante na carreira do rapaz. O problema de Aya é ser um filme que explora bem menos do que deveria as possibilidades que possui.

Aya e a Bruxa (Earwig and The Witch / Japão - 2020) de Goro Miyazaki com vozes de Gaku Hamada, Kokoro Hiasawa e Myiuki Sahaku.  

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

PL►Y: Verdade e Justiça

 
Pearu e Andrés: como desconstruir um galã. 

Na Estônia do final do século XIX, Andrés (Priit Loog) investe seu suado dinheiro nas terras localizadas nos cafundós do seu país. No meio do nada, ele sonha construir seu patrimônio e deixar para seus herdeiros. Ele e a esposa Krõõt (Maiken Pius) farão de tudo para cuidar da terra úmida e de pedaços pantanosos para e torná-la produtiva. Não bastasse o trabalho árduo do casal, eles possuem um vizinho grosseiro, Pearu (Priit Võigemast), que terá vários anos de embate com Andrés. A briga entre os dois irá parar nos tribunais várias vezes, muitas delas por conta de mentiras e provocações de Pearu. Diante desta realidade, logo Andrés começará a ver o mundo de uma forma diferente, como se as palavras do título entrassem em confronto e constituísse uma dicotomia em sua cabeça. Pelas duas horas e quarenta e cinco minutos, não acompanhamos somente as desventuras destes dois homens, mas também de suas famílias e também de alguns agregados. Trata-se de uma saga familiar que se estende por mais de uma década (e que por aqui renderia uma novela de Benedito Ruy Barbosa dos bons tempos), com Andrés e Krõõt tendo várias filhas enquanto perseguem um herdeiro do sexo masculino e apresentando o endurecimento do seu protagonista na busca de seus objetivos. Se a esposa parece ser o ponto de equilíbrio de Andrés, logo, ele perderá o rumo e ficará cada vez mais parecido com o vilão da história dado ao seu distanciamento dos filhos e os acontecimentos que acabam envolvendo a personagem Maria (Ester Kuntu) na segunda parte da história. Narrado de forma contemplativa, não faltam acontecimentos dramáticos no filme, mas que são contados de forma bastante sensível pelo cineasta Tanel Toom, sobretudo nas transições vividas pelos personagens e nos momentos trágicos que se esquivam do sentimentalismo com competência. Outros destaques da produção é a forma como valoriza a fotografia na mudança das estações e os planos abertos revelando a beleza daquele lugar inóspito, assim como o trabalho alinhado dos atores. A leveza de Maiken Pius cria alguns dos melhores momentos do filme (a cena em que ela chama os porcos para seu lado da cerca é de uma simplicidade comovente) enquanto coube ao grandão Priit Loog a tarefa árdua de mostrar a mudança brusca de Andrés ao longo dos anos. Existe ainda no filme um aspecto que o título não revela, em vários momentos a religião aparece tendo um peso importante sobre os personagens. A ideia do pecado e do castigo se fazem presente em vários momentos, por vezes de forma assustadora, mas o texto não aproveita este recurso por mais de um terço de sua longa duração. Escolhido pela Estônia para concorrer a uma vaga no Oscar de filmes estrangeiro de 2020, o filme acabou ficando de fora dos indicados. É curioso perceber que o filme tem aquele jeitão clássico que a velha guarda da Academia adora. Na história do Oscar, apenas uma vez a Estônia marcou presença no Oscar, foi em 2015 com o excelente Tangerinas de Zaza Urushadze.

Verdade e Justiça (Tõde ja õigus / Estônia - 2019) de Tanel Toom com Priit Loog, Maiken Pius, Priit Võigemast, Ester Kuntu, Simeoni Sundja e Indrek Sammul. ☻☻

sábado, 6 de novembro de 2021

PL►Y: Stardust

Johnny: Bowie só em outra dimensão. 

Depois da biopic de Freddie Mercury  em Bohemian Rhapsody (2018) e de Elton John em RocketMan (2019), uma versão para o cinema da vida de David Bowie ganhou as manchetes. Com o nome de peso de Stardust (sobrenome do alter-ego alienígena Ziddy, vocalista da Spiders from Mars) o filme carrega a intenção de contar a história do camaleão do rock antes que se tornasse um verdadeiro ícone da música. O protagonista do filme é o artista após o seu grande sucesso com Space Oddity em 1969 e a temporada em que tentou ganhar fama nos Estados Unidos em 1971 quando seu álbum The Man Who Sold the World era considerado sombrio demais para emplacar. Neste período a gravadora Mercury resolveu mandar o cantor para promover o disco do outro lado do Oceano Atlântico, mas as coisas não saíram muito bem como o esperado. Impossibilitado de fazer shows, por problemas com o visto, o astro teve que se contentar com pequenos shows em ambientes privados e entrevistas para revistas e rádios locais. Apesar de toda a decepção que a aquela visita se tornou, o diretor Gabriel Range (que escreve o roteiro ao lado de Christopher Bell) compram a ideia de que a aquele visita à um outro país, bem mais conservador do que a Inglaterra do início dos anos 1970, foi fundamental para que Bowie criasse sua icônica obra seguinte: The Rise and Fall of Ziggy Stardust. Desbravar os elementos que atravessaram a mente de Bowie na construção do que muitos consideram sua obra-prima, já é em si uma ideia mais do que interessante, mas o filme enfrenta apresenta alguns problemas. A começar pela escolha de Johhny Flynn que tem semelhança zero com o Bowie da vida real. O rapaz pode até ser talentoso, mas aqui revela-se um grande equívoco, não bastou colocar uma peruca, dentadura (quem não curtiu a de Rami Malek na pele de Mercury vai reclamar com razão novamente....), usar um vestido e fazer gestos delicados para ser um protagonista deste porte. Faltou a alma. Eu até dei um desconto para acreditar que aquele era o cantor no início de carreira, inseguro e um tanto neurótico com os rumos que sua carreira tomaria. Diante dos olhares estranhos direcionados à sua figura andrógina, eu realmente relevei o desconforto que o ator imprime ao personagem. Sorte que ao menos a Jena Malone (convincente como Angela Bowie) e Marc Maron (sem bigode na pele do agente Ron Oberman) ajudam a colocar molho na morna visita aos Estados Unidos. Os conflitos de David com estes dois personagens geram os melhores momentos do filme, mas ainda existe um terceiro personagem importante na história: o irmão de Bowie, Terry (Derek Moran) que assombra o irmão com o quadro de esquizofrenia apresentado na idade adulta. O Bowie do filme está bastante preocupado de ser o próximo a enlouquecer - e o filme até sugere que encarnar outras personas ajudaram a driblar este fantasma de sua vida. No fim das contas, a ideia de Bowie ter se sentido um verdadeiro alienígena nos EUA e ter retratado isso na voz de Ziggy soa convincente, mas aquele ato final só demonstra que Johnny Flynn estava mais confortável mostrando o traseiro na versão mais recente de Emma (2020) do que evocando um rockstar. Sem o sex appeal do retratado (basta ver o documentário Ziggy Stardust and The Spiders From Mars/1973) para ver a diferença de energia entre os dois). O final poderia ter feito filme ganhar mais pontos, mas termina deixando a certeza de que um ator mal escolhido pode custar caro à uma produção. No fim das contas, o filme serve pela curiosidade dos aspectos da vida pessoal de Bowie e da ambientação favorecida pela fotografia (que parece saída de um filme dos anos 1970). Vale lembrar que o filme não teve permissão para usar as músicas de Bowie - o mesmo aconteceu com Velvet Goldmine/1998 e não foi propriamente um grande problema, falando nisso, fica a dica para ver Jonathan Rhys-Meyers vivendo uma variável de Bowie bem mais interessante. 

Stardust (Reino Unido/2020) de Gabriel Range com Johnny Flynn, Marc Maron, Jena Malone, Derek Moran, Anthony Flanagan e Julian Richings. ☻☻

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

PL►Y: Vento Seco

Teóphilo e Lelo: o desejo em cenas para maiores. 

Selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim do ano passado, o brasileiro Vento Seco chamou a atenção não apenas por suas cenas homoeróticas (bastante) explícitas,  mas também por ser um filme brasileiro ambientado em Goiás, mais precisamente na cidadezinha de Catalão, terra natal do diretor Daniel Nolasco. Em entrevistas o cineasta sempre ressaltou como as pessoas ficavam surpresas quando relatava as histórias do vivência homossexual em sua cidade e o filme é a sua forma de recontar os causos em formato cinematográfico. Entre histórias, points e personagens, Vento Seco se constrói entre a realidade, a fantasia e o fetiche, em cortes, narrações em off e uso bastante inventivo das cores para contar a história de Sandro (Leandro Faria Lelo), homem maduro que não assume a sua identidade sexual na vida real - mas a vivencia plenamente entre as árvores de eucalipto das redondezas e nos sonhos banhados de luxúria. Se por um lado ele se relaciona com um colega de trabalho (Allan Jacinto Santana), por outro lado, ele se sente cada vez mais atraído por um novo empregado da fábrica de fertilizantes em que trabalha (Rafael Teóphilo). Assim, mesmo sem se dar conta dos conflitos que carrega há tempos dentro de si, ele começa a mergulhar cada vez mais nos desejos mais escondidos. Pode se dizer que Nolasco é um cineasta ousado, sem pudores para mostrar o que o cinema convencionou considerar inadequado para a plateia, no entanto, imprime ao seu primeiro longa metragem a mesma estética já exibida em seus curtas. Existem muitos closes em partes específicas do corpo masculino, muita nudez e cenas afrontosas que não torna o filme recomendável para quem considera a anatomia masculina ofensiva na tela grande ou que considera sexo entre homens algo a não ser revelado em filmes que fogem à seara pornográfica. Debaixo das cenas tórridas (e acreditem, o diretor vai mais longe do que a maioria ousa ir), existe uma vasta gama de emoções a ser trabalhada. A não aceitação de si mesmo, a vergonha, o preconceito, a intolerância, o ciúme, a censura, a violência... o texto de Vento Seco constrói sua história e personagens através de elementos que já foram vistos em inúmeros filmes de temática LGBTQIA+, no entanto, os costura com personalidade, coragem e fluídos corporais. Em algumas cenas o filme parece evocar o estilo de David Lynch no que possui de mais onírico, embaçando o que é real e o que é imaginário, abraçando uma cadência imagética entre a rotina mais comum entre um sonho (ou seria pesadelo?) erótico. No entanto, para além do sexo como elemento narrativo, Nolasco apresenta várias ironias no seu texto que fazem a diferença e sustentam o filme em seu objetivo de ser levado a sério, são elas os comentários sobre o clima seco e a frieza noturna de doer os ossos, os lábios que se deterioram naquele ambiente, a ideia de um segredo proibido que deve ser mantido (mas que outras pessoas já conhecem faz tempo), a cena no parque de diversões ou o discurso no rodeio enquanto Sandro busca alguma satisfação com um desconhecido. No entanto, o filme peca em alguns cortes que retiram da edição final momentos que seriam importantes para a trama (a violência contra um dos personagens e o desfecho de Cezar), mas acho que a ideia de Nolasco é fugir de tudo que é convencional, já que o cenário escolhido já traria esta ideia de monótona normalidade. Vale destacar que o filme oferece ao protagonista Leandro Faria Lelo um grande desafio, mas que ele executa com bastante destreza. Da exposição corpórea às emoções que estão escondidas sob o rosto de pedra (que por vezes revela a vulnerabilidade em sua plenitude), o personagem se torna fácil um dos mais interessantes da cinematografia nacional, embora seja necessário ter maior de dezoito anos para conhecer sua história, real ou imaginária. Porém, definitivamente, não é para todos os gostos.

Vento Seco (Brasil/2020) de Daniel Nolasco com Leandro Faria Lelo, Allan Jacinto Santana, Renata Carvalho, Rafael Teóphilo, Leo Moreira Sá e Mel Gonçalves. ☻☻☻

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

PL►Y: Falsos Milionários

Gina, Richard e Evan: rumo ao trambique perfeito. 

Suspeita-se que Old Dolio (Evan Rachel Wood) recebeu este nome em homenagem a um idoso que estava à beira da morte e que seus pais acreditavam que ela herdaria tudo que era dele. Como esta ambição não se concretizou, restou este nome estranho para uma garota que precisou crescer sob a responsabilidade de um casal de trambiqueiros. Vivendo de pequenos golpes, Robert (Richard Jenkins) e Theresa (Debra Winger), criaram a filha de uma forma bastante peculiar. Educada desde pequena para ser cúmplice das tramoias, sobrou pouco tempo para sua educação sentimental, o que a tornou uma jovem distante e incapaz de demonstrar emoções ou saber digerir seus próprios sentimentos. Além disso, crescer sempre sob a ameaça de despejo, ainda que morem em um escritório com uma parede que sempre escorre espuma em determinado horário, torna a rotina da família ainda mais esquisita. Eis que diante da necessidade de pagar o aluguel, o trio conhece Melanie (Gina Rodriguez), que se tornará cúmplice em alguns golpes e irá mudar a sólida dinâmica instaurada naquela estranha família. É preciso deixar registrado que a direção e o roteiro do filme são de Miranda July que em seu status de artista multimídia pode ser acusada de tudo, menos de ser convencional. Escritora, diretora, atriz, cantora e artista performática digital ou ao vivo, Miranda curte pitadas de nonsense em sua obra e neste seu terceiro longa-metragem, talvez ela tenha alcançado o seu resultado mais próximo do "normal". Eu disse próximo. Kajillionaire (o nome original que se refere à ideia de prosperidade que aqui se tornou o enganoso Falsos Milionários) parece ser uma dramédia bizarra sobre uma família complicada, mas consegue ser um tanto mais do que isso, quando começa a fazer sua protagonista desconfiar que existe algo de muito equivocado em sua trajetória. A começar pelo curso de maternidade que começa a frequentar para ganhar alguns trocados e depois com a chegada da luminosa Melanie, que começa a lhe proporcionar um desconforto jamais experimentado. É possível notar que até determinado ponto, ela era vista menos como uma filha e mais como uma cúmplice, sujeita às ideias, mandos e desmandos dos pais, pelo menos até que ela comece a questionar o que ela deseja para si mesma. É neste ponto, lá pela segunda metade do filme que a história engata de vez, demonstrando como o desejo pode ser uma força transformadora. Nesta guinada, Miranda capricha na sutileza, deixando o espectador perceber aos poucos a mudança que esta acontecendo na personagem de Evan Rachel Wood, num caminho que aos poucos se torna até óbvia dentro de uma estrutura anticonvencional. Embora seja um filme repleto de esquisitices, Miranda transforma aquela relação que aos poucos ganha contornos quase inevitáveis o aspecto mais natural de seu filme. Em seus filmes anteriores (Eu, Você e Todos que Conhecemos/2005 e O Futuro/2011), Miranda também assumia o posto de protagonista, aqui ela preferiu ficar somente atrás das câmeras e com isso cedeu espaço para a atuação mais estranha de Evan Rachel Wood (que está mais robótica do que em Westworld) que se torna um ótimo contraste ao carisma de Gina Rodriguez, que muda diretamente o tom do filme (e o foco de interesse da história) assim que aparece. Tão ambicioso quanto estranho, o filme peca pelo excesso de artifícios bizarros em seu início, mas tão logo deixa de enfatiza-los a todo instante, torna-se uma produção interessante. 

Falsos Milionários (Kajillionaire / EUA-2020) de Miranda July com Evan Rachel Wood, Gina Rodriguez, Richard Jenkins e Debra Winger. ☻☻☻ 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

PL►Y: Voyagers

 
Lilly e Tye: missão espacial em risco. 

Afetado ainda pela pandemia, Voyagers chegou aos cinemas numa época de bilheterias minguadas, mas bem que merecia um pouco mais de atenção. Não que o novo longa de Neil Burger esteja destinado a se tornar um clássico, mas pelo menos o filme toca em alguns temas bastante atuais com verniz de ficção-científica. O longa gira em torno de um grupo de jovens que está destinado a viajar pelo espaço para colonizar um novo planeta. Concebidos e educados para serem astronautas desde pequenos, eles estão cientes de sua missão ao crescerem em uma nave espacial junto ao mentor designado para a missão, o atencioso Richard (Collin Farrell). No entanto, a chegada da adolescência e seus hormônios são sempre capazes de gerar problemas... a começar quando dois amigos tripulantes Christopher (Tye Sheridan) e Zac (Fionn Whitehead) começam a desconfiar de uma substância identificada em seus organismos, a qual, logo descobrem que é utilizada para, digamos, inibir alguns traços de personalidade que possam ser prejudiciais para a missão que possuem. Assim, Chris e Zac param de ingerir a substância em começam a mudar o comportamento. A primeira mudança se relaciona com o interesse sexual pelas garotas a bordo. Se antes os sexos conviviam com a maior naturalidade, agora, a libido começa a aflorar e, com poucos adultos por perto, você pode imaginar o que acontece - ou pelo menos imagina, já que o filme é bastante pudico neste aspecto (ainda que no Brasil tenha recebido o acréscimo de Instinto e Desejo no título e um pôster sugestivo com Tye e Lilly-Rose Depp, a filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis). Zac se torna cada vez mais agressivo e se em determinado momento o bom moço Christopher é eleito líder do grupo, seu colega de viagem sabe exatamente o que fazer para mexer com o imaginário dos demais e instalar um processo de paranoia perante uma "ameaça alienígena" que diz estar a bordo. Esta ameaça alienígena logo se torna motivação para segregação, exclusão e até execuções. O que era para ser uma missão espacial se torna uma alegoria sobre a humanidade e a dificuldade que possui de perceber quando perde as estribeiras. Voyagers tem uma bela ideia nas mãos para o cenário político-social atual, mas poderia ser um tantinho mais provocador nas questões que aborda. Sobretudo no desfecho simplista (que provocou um riso nervoso pela solução dos problemas ser exatamente o que deu errado anteriormente), mas para o roteirista Neil Burger fazer outra tentativa pode funcionar perante os personagens voláteis que tem nas mãos. No fundo ele é mais do que um otimista (é um iludido mesmo). Ainda que não explore plenamente suas possibilidades enquanto ficção-científica e alegoria política, Voyagers toca em questões interessantes - mesmo que não saiba muito bem como lidar com elas. 
 
Voyagers - Instinto e Desejo (Voyagers - EUA/2020) de Neil Burger com Tye Sheridan, Fionn Whitehead, Lilly-Rose Depp, Colin Farrell, Chanté Adams, Madison Hu, Archie Ranaux, Wern Lee e April Grace. ☻☻☻

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

PL►Y: Let Them All Talk

 
Lucas, Meryl, Dianne e Candice: viagem de improvisos. 

Eu li e ouvi tantas críticas decepcionadas com o último filme de Steven Soderbergh que confesso ter ficado curioso com Let Them All Talk, bem... para ser honesto, o que me chamou atenção foi o fato de ter três grandes atrizes que admiro no mesmo filme. Some o promissor Lucas Hedges e a proposta de improviso diante das câmeras do cineasta e acho que está mais do que justificado meu interesse pelo filme. A ideia é bem simples, uma escritora famosa (Meryl) é contemplada com um prêmio literário, mas para receber, precisa ir para a Inglaterra. Eis que sua antiga agente acabou de se aposentar e a nova (Gemma Chan) está doida para conquista-la e, sabendo do medo que a autora tem de avião, consegue que ela viage num transatlântico (com direito a acompanhantes) em troca de uma palestra. Fica evidente diante desta ideia que Steven traça somente algumas linhas para guiar sua história e o que a ideia traz de frescor para o filme, também torna o projeto bastante arriscado. Na pele de Alice, a multipremiada Meryl Streep parece não sair muito do lugar com seus dilemas e conflitos no processo criativo de seu novo livro (mas o próprio conceito da personagem parece deixar a atriz um tanto amarrada), no entanto, ela tem bons momentos quando comenta sobre seus livros e autores que admira (ou despreza), mas ainda assim, são os personagens que transitam ao seu redor que ficam com as partes mais interessantes da sessão, a começar por sua amiga Roberta (Candice Bergen, ótima!) que estranhamente aceita o convite da amiga para fugir dela por boa parte da viagem (o que acaba revelando ressentimentos que se tornam um verdadeiro obstáculo entre as duas). Já a compreensiva Susan (Dianne Wiest), tenta conciliar a amizade entre as duas, mas se vê cada vez mais interessada em um outro escritor que está a bordo. Outro que acompanha Alice nesta viagem é o sobrinho, Tyler (Lucas Hedges) que possui grande curiosidade sobre aquela amizade que atravessou meio século, pelo menos até ele se apaixonar pela agente de sua tia (que embarca meio que escondida naquela transatlântico). Avançando em conversas aqui e ali, uma alfinetada de um personagem e outro, o filme flui bem, mas perde a chance de ser uma experiência mais divertida ao optar pelo tom mais intimista. Entre segredos, piadinhas e poucos conflitos o filme se desenvolve sem maiores pretensões e destaca as instalações do luxuoso Queen Mary 2. É um filme leve e divertido, que se torna ainda melhor para quem é fã do elenco. 

Let Them All Talk (EUA-2020) de Steven Soderbergh com Meryl Streep, Candice Bergen, Dianne Wiest, Lucas Hedges, Gemma Chan e  David Siegel. 

PL►Y: Pequenos Vestígios

Rami, Jared e Denzel: donos do maior segredo do filme. 

Não lembro de um filme recente me dar tanto trabalho para assistir quanto Pequenos Vestígios. Das cinco vezes que tentei assistir ao filme, confesso que dormia boa parte da sessão. Voltava e assistia. Dormia. Assim, fui levando o filme. Embora seja uma produção policial com inspiração noir, o maior mistério do filme é como três atores oscarizados deixaram se envolver por uma história tão insossa. Talvez no roteiro a trama fosse envolvente  e cheia de possibilidades, mas em sua transposição para a telona muita coisa deve ter se perdido. Reza a lenda que o texto vagava pelas gavetas de Hollywood desde os anos 1990 e somente no ano passado chegou aos cinemas, quer dizer, foi lançado para ser visto, já que com a pandemia, ele foi lançado diretor no streaming na maior parte do mundo. Talvez esta opção não tenha feito estrago à imagem de um filme estrelado por Denzel Washington, Rami Malek e Jared Leto que mereciam coisa melhor, porém, ainda assim, Jared Leto cravou indicações em duas premiações importantes (SAG e Globo de Ouro), o que é compreensível, já que no final das contas o seu personagem é mesmo o mais interessante. O filme é ambientado nos ano 1990 e conta a história de uma investigação em busca de um serial killer que ataca mulheres em lugares diferentes. Os crimes chamam atenção do policial veterano Joe Deacon (Denzel), mas está sob responsabilidade do detetive Jim Baxter (Rami). Enquanto o primeiro é capaz de driblar as regras e formalidades para "fazer justiça", o outro é tão certinho quanto ambicioso - e enquanto Joe é solitário (e carrega um terrível segredo), Derek é casado e com duas filhas adoráveis. Os crimes afetam cada um dos dois de formas distintas, mas o roteiro gosta de manter isso nas entrelinhas... pelo menos até aparecer o estranho Albert Sparma (Leto). Sparma brinca com a percepção das autoridades e não ajuda muito o fato do destino que é reservado ao outro suspeito pelos crimes. Diante dos rumos da investigação, Joe e Jim resolvem usar estratégias arriscadas para prender o suspeito. Debaixo de tantas pretensões e clichês, o filme se arrasta por duas horas e deixa que o espectador tire suas próprias conclusões, o curioso é que estas são construídas não apenas pela postura do suspeito (bem realizado por Jared), mas, também pelas posturas dos policiais que acabam metendo os pés pelas mãos ao longo do filme. Além da boa trilha sonora e da fotografia muito escura (será que isso ajudou a me dar sono?), chama atenção que o filme tenha recebido espaço na temporada de prêmios pelo desespero da Warner ter perdido as esperanças com Tenet (outro pastel de vento) e por não ter acreditado no potencial de Judas e o Messias Negro (o que corrigiram a tempo do Oscar). Sinceramente, não me envolveu e eu só fiquei pensando como seria se Jared e Rami trocassem seus papéis. Fica a ideia para o seu inconsciente. 

Pequenos Vestígios (The Little Things / EUA - 2020) de John Lee Hancock com Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto, Natalie Morales, Michael Hyatt, Chris Bauer, Terry Kinney e John Harlam Kim. 

domingo, 15 de agosto de 2021

PL►Y: Freaky - No Corpo de um Assassino

Vince e Kathryn: trocando de corpo.

Em sua aula magna sobre como misturar terror e comédia, Wes Craven já demonstrava que serial killers são muito mais interessantes em um filme de terror quando serve para fazer troça - o que se viu em toda franquia Pânico (que está prestes a lançar a sua quinta parte). O diretor Christopher Landon já demonstrou curtir esta lição em seus filmes anteriores, foi assim nos dois A Morte lhe dá Parabéns (2017 e 2018) e até no adorável (meu favorito) Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi (2015). Se antes ele já brincou com zumbis e pessoas presas em um loop temporal, agora chegou a vez de brincar com a velha fórmula de "pessoas que trocam de corpo e geram muita confusão", a diferença aqui está nos litros de sangue que ficam pelo caminho. Aqui ele até começa a história numa cidadezinha que de vez em quando precisa lidar com um serial killer misterioso que tem preferência por adolescentes. A cena inicial já deixa claro que apesar das gracinhas, a sanguinolência brutal não será branda. Ninguém leva muito a sério aquele assassino e os jovens da cidade tentam seguir a vida normalmente naquele ambiente cheio de hostilidade que é a marca das escolas em filmes americanos. Se Millie (Kathryn Newton) está bem longe de ser a garota mais popular da escola, ela se tornará conhecida após ser atacada pelo assassino misterioso, mas... por uma mágica inexplicável (explicada de forma simples e eficiente logo depois), ela troca de corpo com o matador (vivido por Vince Vaughn). Se boa parte da graça é ver o gigante Vince Vaughn tentar imitar uma doce adolescente, a outra é ver Kathryn caprichando nas caras doentias e nas mudanças bruscas da personagem quando precisa fingir que ainda é uma menina inofensiva perseguida por um psicopata. São os dois atores que compensam os momentos pouco inspirados de um roteiro que de vez em quando tem tiradas interessantes, mas que terminam sem o aproveitamento que deveria na história. A ideia é composta de mortes cheias de crueldade e momentos como aquele em que Vaughn quase recebe um beijo do crush de Millie. Se você assistir sem maiores pretensões o filme pode ser bem legal. Se você deseja um novo clássico do terrir, melhor procurar outro filme. 

Freaky - No Corpo de um Assassino (Freaky - EUA / 2020) de Christopher Landon com Vince Vaughn, Kathryn Newton, Celeste O'Connor, Katie Finneran, Nicholas Stargel e Alan Ruck. ☻☻

PL►Y: Irresistível

Steve e Rose: o ego é o que mais importa. 

Costumo dizer que a política mundial virou uma grande piada sem graça. Uma sucessão de encontros de megalomaníacos, egocêntricos, fake news, idolatrias e tudo mais que você possa imaginar em que o que menos importa são propostas políticas e a população. Num mundo em que eleitores buscam heróis e não políticos realmente comprometidos com a população, existem cada vez mais comédias voltadas para o quadro lamentável que estamos acompanhando. Se Adam McKay já se tornou uma referência no gênero com A Grande Aposta (2015) e Vice (2018), construindo para si uma identidade narrativa já reconhecível, chegou a vez de Jon Stewart tentar transpor seu estilo de sátiro político para a telona - o difícil é dispersar a ideia de que ele tenta imitar a eficiência de McKay o tempo inteiro (menos quando tropeça em piadas de baixaria que chegam a incomodar de tão deslocadas). Aqui ele conta uma desventura de Gary (Steve Carrell), um estrategista político que ficou marcado por aquela eleição surpreendente em 2016 nos Estados Unidos. O filme começa justamente neste período e deixa claro que já existia uma rixa entre o engravatado e a loura Faith (Rose Byrne) que só piorou com o resultado das urnas. Depois de penar naquela eleição, Gary ficou um tanto deprimido e passou a procurar um candidato que fosse capaz de fazê-lo se tornar novamente um profissional de respeito. É neste momento que ele encontra Jack Hasting (Chris Cooper), um veterano de guerra, descoberto em um vídeo da internet, que possui um discurso capaz de unir democratas e republicanos nas urnas. Sua humildade, obstinação e princípios parecem a mistura certa para Gary galgar uma carreira política que transcenda a disputa de uma prefeitura do interior. Garry tem planos ambiciosos para sua descoberta... mas Faith (e o nome não é por acaso), resolve aparecer por lá e ajudar o atual prefeito a se reeleger. Enquanto os dois candidatos tentam manter o nível da disputa, os dois apelam constantemente para a baixaria e a coisa sai um pouco dos trilhos - especialmente por Jack demonstrar cada vez mais seu desconforto em ter que fazer discursos políticos e levantar dinheiro para sua campanha. Existe um enorme contraste entre o casal protagonista com Jack, sua filha (Mackenzie Davis) e toda a população local, até que você se dá conta de que existe algo mais debaixo de toda aquele história. O roteiro também assinado por Jon Stewart é um tanto repetitivo e seus personagens batem sempre na mesma tecla a maior parte do tempo, mas a reviravolta perto do final tenta salvar tudo. A guinada é interessante, mas astuta demais para soar verossímil. Trata-se de uma crítica à política de um lado e do outro que acaba se preocupando com questões bem diferentes do bem-estar da população. Serve para passar o tempo e dar poucas risadas, além de trazer Carrell em um papel mais charmoso do que ele costuma encarnar, mas não chega a ser irresistível... 

Irresistível (Irresistible/EUA - 2020) de Jon Stewart com Steve Carrell, Rose Byrne, Chris Cooper, Mackenzie Davis, Brent Sexton, Natasha Lyonne e Topher Grace.