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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

PL►Y: Ladrões

Butler: o humor caótico do novo filme de Aronofsky.

Não fosse o nome de Darren Aronofsky assinando a direção, provavelmente eu não daria a mínima atenção para este Ladrões. A sinopse não me empolgou com a história de um jogador de baseball que teve a carreira acabada por conta de um acidente e que vê novamente sua vida virada do avesso quando precisa tomar conta do gato de um vizinho - sem fazer ideia da quantidade de bandidos que irão atravessar o seu caminho por conta disso. Ambientado no final dos anos 1990, o filme é baseado em um livro de Charlie Huston (que também assina o roteiro), Aronofsky demonstra uma energia bastante diferente dos seus filmes anteriores. Embora os cenários e a fotografia ainda façam lembrar alguns dos seus filmes mais sombrios (especialmente os do início da carreira), a vibração aqui é outra. Existe muito senso de humor na atmosfera dos acontecimentos que começam a desabar na rotina do ex-jogador Hank Thompson (Austin Butler). Embora a vida que ele leva seja bem diferente da sonhada por ele nos tempos e atleta promissor, tudo o que ele quer é sossego ao lado da namorada Yvonne (Zoë Kravitz), só que tudo é posto a perder quando ele começa a ser perseguido por todos os outros personagens que cruzam o seu caminho. O diretor conta esta história como se fosse uma versão noventista de Depois de Horas (1985) de Scorsese (e a presença de Griffin Dunne no elenco enfatiza ainda mais a relação). Darren capricha nos ângulos, planos e enquadramentos, o ritmo é mantido sempre acelerado e mantem o espectador atento às reviravoltas da trama. Acredito que não é por acaso que o filme é ambientado no período em que Aronofsky iniciou sua carreira, como se fosse a demonstração de outro caminho (outra pegada) que seu cinema poderia ter seguido nos primórdios de sua cinematografia iniciada com o incômodo Pi (1998) - que também contava com gangsteres judeus no encalço do protagonista. Esta espécie de "recomeço" também serve para dar fôlego à uma carreira que recebeu duras críticas pela forma como adaptou o texto de Samuel D. Hunter quando resolveu filmar A Baleia (2022), que embora tenha rendido o Oscar de melhor ator para Brendan Fraser, carrega nas tintas melodramáticas mais tradicionais para envolver o público (enquanto a outra parte torce o nariz). No entanto, vendo os fantasmas que assombram o protagonista de Ladrões, é fácil perceber de onde surgiu o interesse por fazer este filme, afinal, ele acaba de ser incluído na seara de personagens perturbados que o diretor adoram ao lado da antológica Sara Goldfarb, a bailarina Nina  e - basta lembrar que - nem o bíblico Noé (2014) escapou. Ladrões passará em branco nas premiações, mas ouso dizer que é um filme fundamental para o cinema de Aronofsky se reencontrar com suas intenções mais viscerais e, ao ver o elenco que topou a empreitada, percebe-se que ele tem crédito de sobra entre os artistas. 

Ladrões (Caught Stealing / EUA - 2025) de Darren Aronofsky com Austin Butler, Zoë Kravitz, Matt Smith, Regina King, Bad Bunny, Griffin Dunne, Tenoch Huerta, Vincent D'Onofrio e Laura Dern. ☻☻☻

quarta-feira, 8 de março de 2023

Na Tela: A Baleia

 
Brendan: duzentos quilos de maquiagem. 

Charlie (Brendan Fraser) é um professor de redação que após a morte de seu parceiro encontrou na comida uma forma lidar com a solidão. Antes do relacionamento homoafetivo, ele era casado com Mary (Samantha Morton) e tinha uma filha de oito anos que, agora, tornou-se uma adolescente revoltada, a Ellie (Sadie Sink), com quem ele tenta uma reaproximação. Acontece que Charlie tem problemas com a sua auto imagem após ganhar mais de duzentos quilos, sem sair de casa há tempos, ele opta por dar aulas online sempre com a câmera desligada. Com cada vez mais problemas de saúde, ele conta com a ajuda da amiga enfermeira, Liz (Hong Chau) para lidar com algumas de suas dificuldades. Vez por outra ele também recebe a visita de um jovem missionário da Igreja Nova Vida, Thomas (Ty Simpkins), que tenta não apenas convertê-lo como também salvar aquela alma desesperada. Esta é a sinopse de A Baleia, novo filme do diretor Darren Aronofsky que divide opiniões desde que estreou no Festival de Veneza (e ainda assim rendeu seis minutos de aplauso pela atuação de Brendan Fraser). Baseado na peça de Samuel D. Hunter (que também assina o roteiro) o filme nem tenta escapar de sua origem teatral, se apropriando sem pudores a ideia de um único cenário em que personagens entram e saem após interagir com o protagonista. Este ponto é bastante curioso se levarmos em consideração a carreira de Aronofsky, que costuma escrever suas próprias histórias e lidar com muitas invencionices visuais. Talvez depois de toda a elaboração de Mãe! (2017), Darren quis simplificar as coisas (e o efeito é muito parecido com a dicotomia do incompreendido Fonte da Vida/2006 com o aclamado O Lutador/2008, incluindo as referências religiosas de um com a redenção do relacionamento de pai e filha do outro), mas, como de hábito, seu novo projeto está longe de agradar a todos. Nem vou dizer o que acho da ideia de tirar Brendan Fraser do papel principal e colocar um ator com mais de duzentos quilos diante da câmera (quantos assim você conhece que geraria interesse nas bilheterias?), o maior problema do filme não é nada disso, mas a forma como o roteiro parece tocar uma nota só por quase duas horas. Não existe aqui movimento nos personagens, a filha é sempre desagradável com o pai, o missionário sempre cego em sua fé (ainda que o filme se embole mais do que deveria quando revela o segredo dele), Liz sempre puxando a orelha do amigo e o próprio Charlie faz pouco mais do que aguentar as pancadas da vida enquanto pede desculpas. Ajuda a ter a ideia de inércia a ambientação monocromática dos cenários e da fotografia. O que faz o filme parecer um tantinho melhor com o material que oferece são as atuações de Hong Chau, indicada ao Oscar de coadjuvante (como uma atriz consegue demonstrar afeto e aspereza de forma tão contundente?) e especialmente de Brendan Fraser com seus enormes olhos azuis emoldurados por uma maquiagem impressionante (também indicada ao Oscar). Fraser foi um grande astro nos anos 1990, passando de filmes adolescentes para projetos sérios, mas teve problemas físicos (por conta de um acidente nas filmagens de A Múmia que o condenou a tomar remédios fortíssimos) e emocionais (pelo caso de assédio sexual de um produtor de Hollywood) que fez sua carreira perder fôlego de forma repentina. Agora, ele retorna com um comeback factor irresistível perante a Academia que lhe indicou ao prêmio de melhor ator por sua performance (e com fortes chances de ser premiado), ele só merecia um filme mais robusto para fazer jus ao seu desempenho. A Baleia (título provocativo em "alusão" ao livro Moby Dick que é quase uma obsessão para Charlie) não é ruim, mas também não é tão bom quanto poderia ser. 

A Baleia (The Whale/ EUA -2022) de Darren Aronofksy com Brendan Fraser, Hong Chau, Sadie Sink, Ty Simpkins, Samantha Morton e Jacey Sink. ☻☻☻

domingo, 24 de setembro de 2017

Na Tela: Mãe!

Bardem e Jennifer: prepare-se para a maior viagem do ano. 

Quando vi pela primeira vez o trailer de Mãe! de Darren Aronofsky tive a impressão de ver uma versão do clássico O Bebê de Rosemary/1968 para o século XXI. Acho que foi proposital fazer pensar que a história de um casal que começa a ter a casa invadida por um bando de adoradores em clima maligno tivesse relação com o clássico de Roman Polanski. Na verdade até tem, mas o que o diretor novaiorquino faz em sua nova provocação vai muito além disso. Na verdade, Darren subverte o que fazia o longa de Polanski assustador, já que aqui as referências vão de encontro ao divino, um divino estranho, mas, ainda assim, divino. Desde sua estreia em Pi (1998) até o sucesso absoluto com Cisne Negro (2010), Aronofsky demonstra interesse em personagens obsessivos, tão obsessivos que percebem a realidade de uma forma distorcida. Não importa se são matemáticos, bailarinas, lutadores, cientistas ou, até mesmo, uma mãe que deseja perder peso mais do que tudo na vida. Não foi por acaso que o diretor foi quase o responsável por repaginar os filmes de Batman antes que Christopher Nolan topasse a empreitada e criasse a trilogia do Cavaleiro das Trevas.  No entanto, depois que Darren se aventurou pelas águas bíblicas em Noé (2014), algo novo foi agregado ao seu estilo particular, já que o cineasta mostra-se mais preocupado com a responsabilidade humana com o planeta em que vivemos. Prometo que a partir daqui não vou revelar muito mais sobre o controverso Mãe! até a segunda parte desta postagem. Depois de um início mais revelador do que parece, conhecemos um escritor, na verdade um poeta (Javier Bardem) que convenceu a nova esposa (Jennifer Lawrence) a morar na antiga casa onde vivenciou uma tragédia no passado. Ela é bem mais jovem que ele, mas abraça a casa com a intenção de fazer dali mais do que um lar, um verdadeiro paraíso. Ela se esforça para que a casa se torne o mais aconchegante possível e, com isso, agradar o esposo que não escreve nada há tempos, enfim, ele não consegue criar. Embora ele pareça insatisfeito com a rotina da vida a dois, as coisas mudam quando recebem a visita de um médico (Ed Harris). Ela não parece confortável com a visita do estranho, o que piora ainda mais quando chega a sua inconveniente esposa (Michelle Pfeiffer) e, mais tarde os dois filhos do estranho casal (os irmãos Brian Gleeson e Dohmnall Gleeson) acarretando uma mudança radical na trama. Se a presença daquelas visitas atrapalha a rotina da casa, você não faz ideia do que irá acontecer na meia hora final. Mãe! faz crescer a tensão pouco a pouco até se tornar cada vez mais incômodo, seja pela necessidade do poeta sentir-se adorado, de seu desprezo às preocupações com a esposa ou com as pessoas que aparecem na casa sem ter respeito algum por aquele espaço. Darren nos brinda com um filme que torna-se cada vez mais sombrio, delirante e metafórico, estando sujeito a muitas leituras (seria um pesadelo? um livro escrito pelo poeta? Um surto da esposa que anseia a perfeição daquele lar? O retrato de um casamento abusivo? Uma casa assombrada?), aspectos que podem fazer o filme transitar por muitos gêneros. Embora muita gente possa odiar o filme (o que já mostrou-se comum desde sua primeira exibição no Festival de Veneza) não há como negar que Aronofsky realiza aqui um dos seus trabalhos mais impressionantes com a ajuda de atores em performances excepcionais. Faz tempo que Michelle Pfeiffer não tem um papel tão interessante e Jennifer Lawrence alcança sua performance mais intensa em muito tempo - mesmo quando o filme exagera, a queridinha de Hollywood mantem a linha e não deixa tudo cair no ridículo, tornando impossível não compartilhar de sua dor ao ver o lar que construiu com tanto zelo e carinho desintegrar diante dos nossos olhos. Se você não quer saber mais do que isso é melhor parar de ler exatamente aqui. Alerta SPOILER! 

Pfeiffer: Eva em carne, osso e costela?

Desta parte em diante me darei ao luxo de comentar SPOILERS sobre o filme, recomendando que você leia essa parte somente se já tiver visto o filme ou se quiser conhecer uma espécie de manual para entender o que se passa na tela durante a nova piração do diretor de Réquiem Para um Sonho (2000). Mãe! se tornou um sucesso de crítica, mas tão logo o filme começou a ser criticado pela maioria do público o diretor e sua estrela começaram a comentar um pouco mais por todas as ideias que estavam por trás da trama, talvez a pedido do estúdio que fez divulgação e distribuição maciça do filme ao redor do mundo (se fosse feito no esquema independente de antigamente, provavelmente Aronofsky nem ligaria para as reclamações). Se você tem um olhar atento é capaz de identificar várias delas, principalmente se pescar das cenas iniciais dica de desvencilhar o filme de uma estética realista. Claro que você pode explicar tudo de formas diferentes, mas o fato é que o roteiro foi inspirado na Bíblia, da gênese ao apocalipse - e até o que viria depois dele. Em vários lugares já mencionaram que Javier Bardem interpreta o poeta como o criador (ou Deus, se preferir), Jennifer Lawrence é a mãe natureza, o homem que os visita é Adão (Ed Harris), a esposa que aparece (depois dele surgir rapidamente machucado na altura da costela) é Eva (Michelle Pfeiffer). O quarto de criação do poeta seria a árvore do conhecimento ou da ciência que estava presente no paraíso, o cristal que eles quebram seria o fruto proibido, da ciência e a (assustadora) origem de tudo. Os filhos que vivem brigando são Caim e Abel e... você sabe o que acontece. Depois o filme tem o alento da gravidez da mãe natureza, a alegria e a inspiração surgem e tudo volta ao normal como uma boa nova para aquele lar... nas, antes que o filho do criado nasça, ele já é adorado por uma multidão cega que interpreta a obra do poeta de forma diferente, mas a multidão é incapaz de zelar pela casa onde estão. A casa é o nosso planeta, devastado, depredado, explorado quase ao ponto do apocalipse que é anunciado pela própria protagonista antes da pior noite de sua vida. A multidão cega tem a mesma devoção pelo criador quanto o Noé interpretado por  Russell Crowe, ao ponto de não ter a mínima consideração por um bebê e criar a alusão à comunhão da forma mais horripilante que já se viu no cinema (provocação máxima do filme, já que em O Bebê de Rosemary os adoradores do coisa ruim queriam cuidar do anticristo). Em meio à histeria coletiva, guerra e toda a loucura que se instaura nos momentos final do filme, Aronofsky paga um preço alto pelas sua trama cheia de simbologias e alusões religiosas. Ele provoca, choca,  exagera (confesso que me desconectei do filme por um tempo durante a parte da guerra) e faz do caos a matéria prima de uma obra realmente insana como não se via em muito tempo. A própria Jennifer Lawrence passou mal durante as filmagens, deixando claro que não é uma obra angustiante somente para quem assiste. Mãe! é um filme para amar ou odiar, numa relação tão extrema como a dos personagens apresentados na tela. Mas se você prefere considerar toda essas simbologias uma grande viagem, você pode optar por pensar que tudo é um delírio de uma dona de casa desesperada que parou de tomar seu misterioso remédio amarelo - e que deu o azar de casar com um megalomaníaco obcecado por ser adorado.     

Jennifer e a casa: delírios apocalípticos.  

Mãe! (Mother! - EUA/2017) de Darren Aronofsky com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed Harris, Domhnall Gleeson e Brian Gleeson. ☻☻☻☻

domingo, 13 de abril de 2014

Na Tela: Noé

Lerman e Crowe: Salvando o que restou de um mundo corrompido. 

Quem conhece o trabalho de Darren Aronofsky jamais pensaria que ele faria um filme bíblico tal e qual o grande público espera. Por isso, é bom deixarmos a "surpresa" pelo resultado de Noé para os não iniciados à cinematografia do homem que já dirigiu Réquiem para Um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010). É verdade que Darren parece voltar aqui para as suas intenções no espinafrado (e bastante interessante) Fonte da Vida (2006), mas toda a embalagem e expectativa nos fazem acreditar que trata-se mais do que um filme bíblico, mas um verdadeiro blockbuster. Na verdade o filme tem a intenção de ser mais do que um filme religioso (talvez só o seu início que engana a maioria dos desavisados), trata-se de uma alegoria épica sobre problemas bastante contemporâneos, onde uma humanidade desgovernada não pensa muito na forma como explora as reservas naturais de onde vive, tão pouco as relações com os outros de sua espécie. Existe um forte jogo de poder entre os personagens, seja motivado por motivos mundanos ou de fanatismo religioso - é justamente nesse embate que o filme se sustenta em seus melhores momentos. Apesar das citações religiosas em seus filmes anteriores (seja o judaísmo na estreia em Pi/1998, crenças maias ou cristãs em Fonte da Vida/2006 ), descobri recentemente que Aronofsky é ateu, o que só ressalta a curiosidade e distanciamento na abordagem dessas temáticas. Noé trata do famoso trecho bíblico que conta a missão do personagem (vivido com gana por Russell Crowe) que recebe uma missão do Criador:  construir uma arca para abrigar casais de animais que precisam ser salvos diante de um grande dilúvio que irá destruir a humanidade corrompida. Vendo a terra sem vida, devastada pela ação predatória do homem é fácil perceber que faz tempo que a humanidade parou de zelar pela sua casa. As relações humanas ásperas propagadas pelos descendentes de Caim também justificariam a infelicidade do Criador perante a criatura que era para ser sua imagem e semelhança. A trama se aproxima e afasta da história que conhecemos por diversos momentos, investindo nos dilemas do protagonista perante a missão e investindo em algumas liberdades. Para aumentar a tensão na familia de Noé, o roteiro retira as noras de cena, deixando que o protagonista tenha a companhia da esposa Nameeh (uma inspirada Jennifer Connelly), dos filhos Shem (Douglas Booth), Cam (um eficiente Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll). As noras de Noé, foram substituídas por Illa (a cada vez melhor Emma Watson), filha adotiva histéril do patriarca. Quando o fim do mundo é anunciado, o maior medo de Naameh é que seus filhos não possam ter a chance ter esposas e filhos. Quanto à isso, Noé sente uma certa resignação que só aumenta o contexto para alguns dos momentos mais polêmicos do filme - já que o salvador dos animais não perceber que sua missão seja salvar a espécie que corrompeu a obra do criador (fato que pode levá-lo a tornar sua missão ainda mais dolorosa e afastá-lo para sempre de sua família). Aronofsky lida bem com os traços mais sombrios do roteiro escrito por ele e Ari Handel (baseado na Bíblia e textos antigos como os Pergaminhos do Mar Morto, O Livro de Enoque e o Livro dos Jubileus), mas destoa quando escancara o tom de fantasia usando o ancestral de Noé, Matusalém (um preguiçoso Anthony Hopkins) e a ajuda dos anjos caídos (castigados por Deus e transformados em gigantes de pedra). No entanto, Darren consegue criar um universo bastante harmônico ancorado num período de milagres e intervenções divinas bem demarcadas. Outro aspecto que desperta polêmica é a presença do vilão Tubal-Cain (Ray Winstone), que é mostrado sem muitas nuances, mas que cita pensamentos bastante atuais sobre a forma como o homem lida com o mundo em sociedade. Apesar de todas as críticas, o filme consegue se equilibrar entre a provocação e o respeito aos textos religiosos, prova disso são as belíssimas cenas da construção do mundo em sete dias (destaque para a colagem multifacetadas de Cains matando Abéis, ontem e hoje...), a vinda dos animais para a Arca e o próprio dilúvio, mostrado com todo o horror do povo que desejava ser salvo da inundação. O filme deve se tornar um sucesso mundial  e consolidar Darren como um dos diretores mais talentosos do cinema atual (ainda que eu considere que são nos momentos mais pesadelescos que sua mão se torne mais plena de bilhantismo). Noé mostra-se o passo seguinte (muito melhor do que seria ter quebrado o galho para o amigo Hugh Jackman dirigindo o pífio Wolverine 2 no ano passado), vale lembrar que antes o diretor fizera um indie de 13 milhões (Cisne Negro) que  arrecadou mais de 250 milhões pelo mundo, foi multi-indicado ao Oscar e levou um para casa. Nos 138 minutos da saga claustrofóbica da Arca, posso perceber o quanto custou para o diretor embarcar em sua primeira super-produção, cada tropeço da narrativa, cada ousadia, cada nó ou personagem com (ou sem) tridimensionalidade, transborda as angústias de Darren para completar sua missão de diretor autoral dentro da caixinha de um grande estúdio. O fato é que Noé funciona dentro das intenções do diretor (trabalhar personagens numa situação limite - uma obsessão em sua cinematografia) e merece ser visto como uma releitura de uma História antiga, capaz de refletir muito do mundo atual. 

Meo, Connely, Booth e Emma: a subjetiva leitura dos milagres do criador.

Noé (Noah/EUA-2014) de Darren Aronofsky com Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Logan Lerman, Ray Winstone, Anthony Hopkins e Douglas Booth. ☻☻☻☻

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

FILMED+: Cisne Negro

Natalie: Odile contempla sua Nina.

Darren Aronofsky parecia mais controlado nos últimos anos, chegou a dizer em entrevistas que não se vê mais como o diretor de Pi (1998) e Réquiem para um sonho (2000). Então, Cisne Negro deve ser uma recaída - já que guarda semelhanças fortes com estes longas. De Pi herdou o mergulho na loucura de uma pessoa determinada em alcançar seus objetivos, de Réquiem Para um Sonho absorve a atmosfera pesadelesca (incluindo o breakfast de ovo cozido e meia laranja). Ao contrário destes filmes, Cisne Negro se tornou um sucesso nos cinemas americanos (custou 13 milhões e já deve ter passado de 100 milhões de bilheteria, ou seja, um dos mais lucrativos filmes do ano) o que não é pouco para um filme que não ameniza as coisas para o espectador comum, sendo extremamente dark, incômodo e metafórico. Darren sempre ressalta que havia combinado com seu roteirista que fariam dois filmes irmãos, um sobre luta livre (e o resultado foi O Lutador (em sua leitura da forma mais baixa de arte) e outro sobre balé (visto como a forma mais elevada de arte). Em ambos ressalta o sangue, o suor e as lágrimas de seus personagens. Se em O Lutador o protagonista procura a leveza perdida de sua vida, em Cisne Negro a protagonista busca o oposto. Nina (Natalie Portman, favorita ao Oscar de atriz, ganhadora do Globo de Ouro, prêmios de crítica e sindicatos) é a jovem bailarina tecnicamente perfeita que está prestes a ter a chance de sua carreira ao ser escolhida para protagonizar O Lago dos Cisnes. O problema é se ela não consegue dar conta dos lados opostos de suas personagens, é tão pueril como o Odete, o cisne branco, e nada parecida com o luxuriante, sedutor e arriscado lado oposto, Odile - o Cisne Negro. O exigente diretor da companhia, Thomas (Vincent Cassel) a instiga a explorar seu lado mais sombrio através do sexo, o problema é que o nível de estresse de Nina cresce cada vez mais, sobre os indícios de que a loucura se aproxima. Nesse processo o sangue é uma constante em seus devaneios (fico pensando no vermelho simbolizando o desejo que tenta sair, mas ela sempre procura contê-lo, limpá-lo em troca de ser cada vez mais sufocada). Piora ainda mais o fato de Nina viver com sua mãe (Bárbara Hershsey, atriz que admiro muito e que anda cada vez mais sumida), bailarina frustrada e super controladora (o que sugere até suspeita de surtos anteriores de Nina). A jovem bailarina ainda tem que lidar com seu lado obscuro encarnado em uma novata, Lilly (Mila Kunis, que numa espécie de pegadinha foi premiada em Veneza no lugar de Portman) que pode tomar seu lugar no espetáculo caso Nina não supere as limitações. A jornada de Nina rumo à face de sua personalidade que não quer abraçar é o pretexto para Aronofsky misturar realidade e delírio, vida e arte  numa narrativa que funde a sua protagonista à trama de Lago dos Cisnes e o resultado é impressionante. Muitos críticos gostam de ressaltar as semelhanças do filme com clássicos de Roman Polanski (Repulsa ao Sexo/1965) e David Cronenberg (A Mosca/1986), mas o diretor diz mesmo que esse é seu filme de Lobisomen! Talvez por isso, apesar do elenco anabolizado, as maiores glórias recaiam sobre Natalie Portman  que explora todas as faces de sua personagem, da angústia dos ensaios pela busca da perfeição passando pelos momentos em que seu cisne negro se anuncia e lhe invade sem pudores (numa cena orgásmica primorosa - e não estou me referindo à cena com Kunis, mas quando... coloca as asinhas de fora...) matando a inocência que ainda existia diante de uma platéia impressionada. Essa pérola dramática com toques de horror está indicada a cinco categorias para o Oscar: filme, direção, atriz (Portman), edição e fotografia. Faltou a indicação ao roteiro – metaforicamente enriquecido pela participação de Winona Rider como a ex-primeira bailarina da companhia. A atriz que já foi uma das boas moças de Hollywood enfrentou problemas psicológicos e ainda luta para mostrar que é mais do que um cisne negro liberto. São todas essas leituras que elevam a maturidade de Darren Aronofsky a um dos melhores filmes da temporada.   

Cisne Negro (Black Swan/EUA-2010) de Darren Aronofsky com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel e Barbara Hershey. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CATÁLOGO: O LUTADOR

Rourke: a arte imita a vida.

Terminando nossa retrospectiva Darren Aronofsky antes da estréia de Cisne Negro, chegou a vez de O Lutador, quarto filme do diretor. Trata-se de seu filme mais convencional e não deixa de ser um efeito imediato das críticas recebidas por Fonte da Vida (2006) que chegou a ser vaiado no Festival de Veneza – festival que ironicamente premiou O Lutador com os prêmios de melhor filme e ator (Mickey Rourke), ou seja, Aronofsky entendeu o recado e ainda utilizou essa oportunidade para ganhar muita publicidade para sua carreira. O filme colheu indicações a quase todos os prêmios – incluindo o Globo de Ouro, que premiou Rourke (que ganhou fôlego para chegar ao Oscar). Lembro que muita gente cobria o filme de elogios, mas devo admitir que é o filme Aronofskyano do qual menos gosto. Darren utiliza um ritmo quase documental ao acompanhar a trajetória de um lutador decadente, que quer abandonar banalidade de seu trabalho (as lutas ensangüentadas são as coisas mais marcantes do filme) e ter uma vidinha normal, mas percebe que isso é mais difícil do que pensava. Em seu caminho tenta ajustar seu relacionamento com a filha (Evan Rachel Wood) e se interessa por uma stripper mãe solteira e de bom coração (Marisa Tomei, indicada ao Oscar de coadjuvante e espantando de vez os comentários maldosos de quando foi premiada por Meu Primo Vinny/1992). O filme é propositalmente sujinho e tem muita nostalgia (o protagonista vive dizendo que tem saudade dos anos 1980, que não por acaso foi o auge de Rourke), mas apesar dos enquadramentos curiosos (como as tomadas que seguem o personagem como se estivesse sempre entrando no ringue) ainda acho que é muito semelhante a todos os outros filmes sobre lutadores (sendo que o mais recente deles, o elogiado O Vencedor é produzido por Darren). O diferencial está mesmo na presença de Rourke, que empresta muito de sua história para o personagem. Famoso na década de 1980 (onde protagonizou cults como Coração Satânico e Barfly, ambos de 1987) o ator resolveu ser lutador de boxe e ficou deformado por cirurgias plásticas que lhe conferiram um dos rostos mais estranhos de Hollywood. Aqui, apesar da carranca, ele finalmente foi levado a sério alcançando momentos realmente comoventes (como a cena em que chora ao confessar seus arrependimentos para a filha e na despedida de sua amiga stripper ao final). No fim das contas Darren ajudou Rourke a renascer e Rourke ajudou Darren ao dar maior projeção perante o público. No entanto, apesar dos elogios e prêmios, Darren afirmou que continua sendo difícil conseguir financiamento para seus filmes (e por isso topou fazer o novo solo de Wolverine, para ter a experiência “diferente” de fazer um filme que “todo mundo quer fazer”. O diretor tem ressaltado as semelhanças que existem entre O Lutador e Cisne Negro, só que todo o surrealismo presente em seu filme mais recente foi banido de O Lutador, que parece uma pegadinha para aqueles que não conheciam o seu trabalho.


O LUTADOR (The Wrestler/EUA - 2008) de Darren Aronofsky com Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood. ☻☻☻

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CATÁLOGO: Pi

Max (de Máximo?): Conheço essa sensação, amigo...

Continuando nossa retrospectiva da cinematografia de Darren Aronofsky (até a estréia de Cisne Negro) o filme escolhido dessa semana é Pi, o filme de estréia do diretor. Nos atuais momentos finais de minha dissertação, Pi é o filme que mais me vem à cabeça por passar aquela sensação de que você pode investir o máximo de si por um estudo e ainda assim ter a impressão de que não é suficiente. Lembro de ter visto o filme enquanto estava na faculdade e meus amigos matemáticos o odiarem, pudera, acho que metade da humanidade deve ter a mesma reação. Pi conta a história de Max Cohen (Sean Gullete, o ator fetiche de Darren no início da carreira e que também ajuda no roteiro), um gênio matemático obstinado em descobrir alguma lógica na cotação da bolsa de valores. O surpreendente é que em meio aos seus cálculos se depara com Pi, aquela constante matemática da razão entre a circunferência de qualquer círculo e seu diâmetro, ou seja 3,1415265... e uma infinidade de números que Max encontra por acaso em seu sitema caótico. Sua descoberta é matemáticamente expressiva, mas para os engravatados da bolsa de valores não serve para nada, estes começam a persegui-lo em busca das respostas prometidas pelo matemático. Ao mesmo tempo, a perfeição de sua descoberta o faz ser perseguido por judeus ortodoxos que estudam a cabala - e chegam a cogitar que o número é a comprovação científica da existência divina. O roteiro tem contornos de ficção científica ao colocar o matemático entre o mercado capitalista e a religião. Afinal de contas a ciência deve servir a quem? Esta é uma das perguntas que deve passar pela cabeça de Max enquanto sofre dores de cabeça insuportáveis na busca por respostas cada vez mais imprecisas. Aronofsky é um diretor voltado para personagens obstinados, que enfrentam seus limites para alcançar sua realização e Pi é um excelente cartão de visitas desse interesse em sua obra. O filme causou sensação ao ser exibido em Sundance - imagino o furor que as cenas do cérebro sendo comido por insetos, da sensação da furadeira estar entrando em seu ouvido (num efeito sonoro impressionante) e do mundo em preto e branco (sem meio tom) em que o protagonista vive - Darren já mostrava seu interesse pelo cinema sensorial e nem precisa de 3D! Ao fim da jornada de Max (entre perseguições e auto-descobertas que o coloca no limite entre a genialidade e a loucura) escolhe o que considera melhor para continuar vivo. Até fevereiro, quando estréia Cisne Negro, terei os meus dias de Pi até a conclusão de meu mestrado e até lá o cérebro permanecerá com aquele zunido de insetos a devorá-lo dia após dia.

Pi (EUA-1998) de Darren Aronofsky com Sean Gullette, Mark Margolis e Ben Shenkman. ☻☻☻☻

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

FILMED+: Réquiem para um Sonho

Goldfarb: o pesadelo das drogas segundo Aronofsky.

Até assistir Réquiem para um Sonho eu não fazia ideia das sensações que um filme poderia provocar no expectador. Não estou me referindo às emoções que temos por torcer por um herói, ter raiva dos vilões ou sentir aquela tristeza junto a um punhado de personagens. Estou falando de enjoo mesmo, aquela sensação de nó na garganta que vai descendo até embrulhar o estômago e causar náusea. Réquiem é assim, um dos filmes mais angustiantes que um cineasta já ousou fazer, de uma melancolia tão profunda e de uma brutalidade tão dramática que beira o horror. Darren adapta o romance de Hubert Selby Jr (o mesmo de Noites Violentas no Broklyn de 1988) com tamanho estilo e ousadia que é impossível ficar indiferente. Quando o filme foi exibido em Cannes foi declarado o tipo de filme que ou se ama ou se odeia. Eu me enquadro no primeiro grupo. O filme acompanha o martírio de quatro personagens enquanto descem ao fundo do poço para fugir da realidade. Harry (Jared Leto) e seu amigo Tyrone (Marlon Wayans) fumam maconha, mas resolvem faturar uns trocados traficando drogas pesadas, assim pensam em bancar suas ambições - a de Harry é bancar a butique de sua namorada, a bela Maryon (Jennifer Connely, que aqui aprendeu a atuar de verdade). Enquanto os três começam a se afundar no vício em heroína, a mãe de Harry, Sarah Goldfarb (Ellen Burstyn, indicada ao Oscar de atriz e derrotada injustamente por Julia Roberts) sonha com o dia em que participará de um programa de televisão e caberá novamente no vestido vermelho que usou na formatura de seu filho. Sarah começa a usar remédios para emagrecer, logo estará viciada em anfetaminas com consequências desastrosas. Darren filma essa descida ao inferno com truques de edição, fotografia de cores sombrias ou exuberantes, contempla os delírios e a degradação de todos numa narrativa vertiginosa que tem seu auge nos últimos quinze minutos.  O filme é narrado dividido pelas estações do ano, verão, outono e inverno... propositalmente faltou a primavera, momento em que o diretor abandona os personagens para que retomem seus caminhos por mais dilacerados que estejam.  O diretor arranca a alma de seus atores no filme e o resultado é o melhor de suas carreiras nesta uma jornada auto-destrutiva de personagens que representam o obituário do sonho americano. Depois desse filme ninguém imaginava que Darren faria algo como Fonte da Vida. Até porque o filme colocou a arte sensorial cinematográfica em outro patamar - nisso a esplêndida trilha sonora de Kronos Quartett ajuda bastante.

Réquiem for a Dream (Requiem for a Dream/EUA-2000) de Darren Aronofsky, com Ellen Burstyn, Jennifer Connely, Jared Leto, Marlon Wayans e Sean Gullete. ☻☻☻☻☻

CATÁLOGO: Fonte da Vida

Hugh Jackman : O Melhor ator de 2006

Mês que vem estréia por aqui Cisne Negro, o novo filme de Darren Aronofsky e até lá espero comentar sobre os filmes anteriores do cara. Vou começar pelo filme que foi a coisa mais marretada que o cara já fez. Fonte da Vida foi um desses projetos que demoram anos para ser realizados, sendo difícil de conseguir financiamento, distribuidores... precisa de astros... é cancelado despudoradamente no meio da produção. Ou seja, foi o projeto mais complicado que Darren já fez, demorando seis anos para chegar aos cinemas. Darren foi de artista promissor com Pi (1998) ao auge com Réquiem por um Sonho (2000) e achou que poderia lançar o roteiro mais maluco que lhe viesse na telha. Foi assim que surgiu The Fountain. O filme foi badalado na época da produção porque Brad Pitt e Cate Blanchett se interessaram por ele, depois desistiram do projeto e tudo foi cancelado - com um corte de metade do orçamento. Enquanto isso, Hugh Jackman desperdiçava seu talento em filmes pós-X-Men, quanto seu agente disse que ele deveria se dedicar a produções mais ambiciosas. Foi quando o roteiro de Aronofsky caiu em seu colo e ele resolveu bancar parte da produção. Fonte da Vida é um filme bem menos complicado do que dizen. Por debaixo da narrativa complexa, trata-se de uma bela história de amor sobre um homem que quer vencer a morte. O  filme  possui dois núcleos narrativos (e não três como os que não entendem pensam), Jackman vive o doutor Thomas Creo que tenta buscar a cura do câncer que vitima sua esposa, Izzi (Rachel Weisz), correndo contra o tempo acaba se deparando com a essência de uma árvore rara encontrada na América do Sul que tem resultados impressionantes no combate à doença. Ao lado dessa narrativa existe o livro criado por Izzi, onde um explorador espanhol (também Jackman) parte em busca dessa mesma árvore para salvar sua rainha (também Weisz) tendo que enfrentar muitos perigos. Darren insere outra camada narrativa que parece ser a do próprio Creo imortalizado rumando à uma nebulosa que os astecas acreditavam ser o destino das almas. Na verdade todas as tramas são variações do mesmo tema: o homem em busca da imortalidade, rumando ao desconhecido em busca de repostas nem sempre existentes. Aronofsky consegue conduzir suas ideias de forma coesa e arranca atuações inspiradas de seu elenco, especialmente de Jackman que apresenta nuances que mereciam o Oscar daquele ano. Sua atuação devastadora casa à perfeição com o visual do arrebatador do filme - com efeitos criados a partir de texturas químicas. Apesar de toda a alardeada complexidade, Fonte da Vida é uma história de amor em formato de ficção científica (ou seria metafísica?), o que não o faz deixar de ser lírico como todo bom romance.

Fonte da Vida (The Fountain - EUA/2006) de Darren Aronofsky com Hugh Jackman, Rachel Weisz, Sean Gulette, Ellen Burstyn e Mark Margolis. ☻☻☻☻