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sexta-feira, 25 de julho de 2025

.Doc: A Movie About Movie Posters

Mais do que cartazes de filme: objetos de culto. 
 
Quem acompanha o blog sabe que é tradição por aqui a lista de melhores pôsteres ao final do ano (geralmente é a que inaugura minhas listas em dezembro). Eis que meu querido amigo Pablo descobriu um documentário sobre os pôsteres de filmes. O documentário dirigido por Kevin Burke conta um pouco sobre a importância da produção dos pôsteres na história do cinema, sobretudo por ser (em várias ocasiões) o primeiro contato que alguém tem com um filme. A história destes cartazes se mistura com a história do próprio cinema e seus filmes de sucesso. No início os cartazes incentivavam as fantasias da plateia em torno de uma produção e não necessariamente reproduziam uma cena, mas criavam uma imagem capaz de brincar com o imaginário das plateias, gerando um apelo visual aos fãs de  determinado gênero e a construção de expectativas sobre seu lançamento. Os cartazes ilustrados tiveram seu auge nos anos 1970 e 1980, fortalecendo nomes de artistas importantes no ramo, mas nos anos 1990, os cartazes começaram a se tornar cada vez mais genéricos com os nomes de astros do cinema dividindo a atenção com seus rostos flutuantes nos cartazes. A arte perdeu espaço e acabou de lado na produção dos cartazes que passaram a construir seu apelo em torno de rostos famosos. Coincidência ou não, este período coincide com os supercachês de astros do cinema com base em estudos nas bilheterias que eram capazes de agregar à uma produção.  Curiosamente, este tipo de cartaz se consolidou no mainstream e começou a motivar um mercado alternativo com base em trabalhos de artistas inspirados por filmes famosos. Repleto de entrevistas com nomes famosos do ramo, o filme também traz entrevistas com donos de galerias e colecionadores, sem deixar de pontuar um contraponto entre o culto aos cartazes alternativos e as dificuldades dos artistas produzirem algo de qualidade com as limitações impostas pelos estúdios. A partir de certo ponto, o filme parece uma propaganda da Mondo, empresa que cria cartazes ilustrados em edição limitada e os torna dignos de culto em vendas on-line. Embora perca um pouco de seu ritmo quando mergulha nos negócios da Mondo, o filme se torna uma obra interessante sobre apaixonados por cinema e a relação da sétima arte com a arte ilustrada. 
 
A Movie About Movie Posters (24x36 A Movie About Movie Posters/Canadá - EUA / 2016) de Kevin Burke com Paul Ainsworth, Dave Alexander, Andrea Alvin, David Byrd, Tracie Ching e Joe Dante. ☻☻☻ 

sábado, 27 de julho de 2024

#FDS Esportivo: O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki

Jarkko e Oona: o amor roubando a cena. 

Olli Johan Oskari Mäki nasceu em dezembro de 1936 na Finlândia. Desde jovem começou a se dedicar ao boxe. Em 1959, ainda como atleta amador, ganhou o título de campeão de peso leve europeu após ficar em segundo lugar dois anos antes. Após ser descartado pela delegação olímpica finlandesa em 1960, ele se tornou profissional e disputou títulos até 1973 com 23 vitórias, 14 derrotas e 8 empates. No entanto, o início de sua carreira profissional foi bastante complicada, especialmente quando seu técnico resolveu que ele deveria perder peso para disputar na categoria de peso pena. O filme finlandês O Dia Mais Feliz da vida de Olli Mäki se concentra neste início de jornada de uma figura ilustre do esporte local. O roteiro do diretor Juho Kuosmanen e de Mikko Myllylahti parece mais interessado nos bastidores deste período do que propriamente nos treinos e lutas disputadas por ele, a câmera na mão e a fotografia em preto e branco colaboram muito para criar uma atmosfera realista com base na linguagem documental - e ao chegar no resultado da famigerada luta contra Davey Moore, temos a impressão de saber exatamente o motivo daqueles dois rounds históricos no currículo de Mäki. Ao invés de construirem mais um filme motivacional como tantos outros que usam o boxe como alegoria, o diretor opta por buscar os sentimentos por trás do praticante de um esporte marcado pela força. Jarkko Lahti encarna um Olli Mäki discreto e um tanto deslocado com a fama conquistada. Fica notável sua inadequação com os encontros, jantares, fotos, entrevistas e toda publicidade que sua figura começa a gerar no país, uma pressão que aos poucos começa a pesar muito sobre ele. Olli é muito mais feliz quando está ao lado da namorada, Raija (Oona Airola) e o diretor capricha nas cenas em que os dois estão juntos. Elas parecem saídas de um romance clássico do cinema, especialmente pelo olhar apaixonado impresso pelo casal em cena. O treinador (Eero Milonoff) não vê com bons olhos aquele relacionamento, considera que pode atrapalhar o preparo para a luta, no entanto, ele continua achando uma boa ideia que Olli tenha que perder peso para mudar de categoria em sua vida profissional. É visível como a perda de peso é prejudicial para o atleta, que realiza medidas extremas para atingir o padrão que lhe é exigido (para além da atuação, Jarkko Lahti realiza uma transformação física notável ao longo da projeção). Ainda que exista toda uma tensão no preparo para a luta, o filme ainda consegue destacar alguns momentos cômicos, assim como cenas de sutil romantismo quando Olli e Raija estão juntos. Em determinados momentos, parece que e aquele sentimento é o que mais importa ao longo do filme, tanto que o título e a cena final parecem sinalizar que a felicidade do personagem foi finalmente se livrar de todo aquele stresse. O filme foi premiado na Mostra Un Certain Regard  do Festival de Cannes e assim como o segundo filme do diretor (Compartimento nº6 / 2021) caiu no radar das premiações mundiais pela maneira envolvente com que aborda a relação de seu casal protagonista.

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (Hymyilevä mies / Finlândia - 2016) de Juho Kuosmanen com Jarkko Lahti, Oona Airola, Eero Milonoff, Esko Barquero, Elma Milonoff e Joonas Saartamo. ☻☻☻☻

sábado, 24 de fevereiro de 2024

#FDS Justine Triet: Na Cama com Victoria

Virginie e Vincent: a vida em caos.
 

Se você um dia encontrasse com a Victoria (Virginie Efira) e perguntasse em que lugar sua vida se tornou um verdadeiro caos, ela talvez dissesse que foi naquela festa de casamento de uma amiga em que um amigo, Vincent (Melvil Paupaud) foi acusado de cravar uma faca na namorada. Depois ela talvez se lembrasse que foi na mesma festa em que retomou o contato com um ex-cliente (Vincent Lancoste) que era acusado de ser traficante de drogas e, que disposto a mudar de vida, quis entrar para o ramo da advocacia e se ofereceu para cuidar das duas filhas dela, só para ficar mais tempo perto da rotina de Victoria. Foi o ex-cliente que disse para ela ficar atenta ao ex-marido, David (Laurent Poitrenaux) que inventou de escrever na internet sobre uma tal advogada chamada Vicky e que mistura alguns fatos reais da vida da ex com outras sandices inventadas para ser pura provocação, ou melhor, autoficção. MAs talvez Victoria não lhe respondesse nada, já que acontece tanta coisa em sua vida que ela nem tenha tempo para processar tudo o que está acontecendo, especialmente quando sua vida profissional e pessoal começou a se misturar de um jeito que ela não consegue mais ter controle sobre uma ou outra. Na Cama com Victoria é o segundo longa metragem de ficção de Justine Triet e já deixa evidente alguns aspectos que se tornaram marcas da cineasta: a protagonista que tem sua vida em julgamento (seja da plateia ou no roteiro), a ideia de que não há um certo e um errado (apenas interpretações sobre o que vemos na telona) e uma avalanche de informações que serve mais para desorientar do que propriamente seguir uma linha reta e segura. Victoria é vivida com gosto por Virginie Efira que consegue deixar visível a constante sensação de uma mulher que precisa respirar em meio ao furacão que sua vida se tornou. O nome da personagem é o título original do filme, mas os distribuidores daqui devem ter se empolgado com a vida amorosa da personagem e resolveram dar um ar mais... "íntimo" no pôster. A vida amorosa da moça vai de mal a pior, além do ex-marido, que se acha no direito de se apropriar da vida da ex como forma de vingança, ela já teve vários parceiros, mas nada parece ser muito empolgante. Pode se dizer que a mulher vai descer até o inferno, chegando a ficar proibida de trabalhar por conta das atribulações que sua vida atravessa. Justine Trier faz um filme ácido, bem humorado e frenético, uma mistura que já desejava em seu filme anterior (A Batalha de Solferino/2013 que guarda algumas semelhanças com a protagonista que vemos aqui), mas aqui o resultado é mais lapidado e organizado em uma estrutura que parece de uma comédia romântica esperta, muito por conta da  química entre Virginie e Vincent Lancoste que desde a primeira cena juntos já desperta torcida na plateia. O filme só decepciona por criar tantas situações em torno da personagem que por vezes não sabe que rumo tomar rumo à conclusão da história. O resultado é eficiente e bom para passar o tempo, evidenciando que a diretora começava a pensar em roteiros mais rebuscados e que tivessem mais a dizer sobre seus personagens. Antes de Anatomia de Uma Queda (2023) este era o filme mais conhecido da cineasta,   

Na Cama Com Victoria (Victoria/França - 2016) de Justine Triet com Virginie Efira, Vincent Lancoste, Melvil Paupaud, Jeane Arra-Bellanger, Arthur Harari e Alice Daquet. ☻☻☻

domingo, 29 de outubro de 2023

#FDS Pablo Larraín: Neruda

 
Gael: personagem perseguindo o seu escritor. 

Pablo Neruda é um escritor que se tornou mundialmente famoso, ao ponto de receber o Nobel de Literatura em 1971. No entanto, em um dos períodos mais sombrios de seu país, o escritor se tornou fugitivo ao final da década de 1940 por ser filiado ao partido comunista (Neruda foi até eleito senador pelo partido). Este período em que Neruda precisou fugir e ficar escondido se tornou o ponto de partida para o filme que fecha o #FinalDeSemana dedicado à obra do cineasta Pablo Larraín. Apesar do teor político da história, o chileno constrói aqui o seu filme mais poético ao dar asas à sua imaginação perante a busca pelo paradeiro do escritor. O espectador já sabe desde o início os passos de Neruda (vivido com gosto por Luis Gnecco), que está a maior parte do tempo ao lado da esposa, Delia (Mercedes Morán), no entanto, enquanto se impõe um cativeiro para a própria segurança, seu temperamento começa a ficar um tanto alterado pela tensão que começa a se construir ao seu redor. Uma fuga para Argentina se torna a solução. Quem se torna responsável por sua captura é o agente Óscar Peluchenneau (Gael Garcia Bernal), que aos poucos se torna o eixo da narrativa que passa a desenvolvê-lo como se fosse um dos personagens do escritor, um policial obcecado por encontrar seu procurado, mas que entra em crise perante sua jornada. Essa ideia de que Peluchenneau é uma criação do próprio Neruda permite que Larraín aprofunde cada vez mais a atmosfera noir do filme. Aqui existem cenas que são lindamente filmadas como uma espécie de reprodução dos clássicos que Hollywood realizava na mesma década em que a trama se passa. Dos figurinos, aos diálogos, passando pelas paisagens que são nitidamente projeções em uma parede, Larraín capricha na embalagem do filme. Curiosamente, o filme estreou no mesmo ano em que ele se aventurou pelo cinema americano com Jackie (2017), que rendeu uma indicação ao Oscar para Natalie Portman no ano em que este aqui pretendia conseguir uma vaga na lista de filme estrangeiro. No entanto, nada disso aconteceu. Muita gente torceu o nariz para Neruda  pela forma como o diretor apresenta o cultuado escritor, visto aqui como um sujeito de boa vida, que foi apontada como "vida burguesa" por vários críticos, que também torceram o nariz para suas visitas a bordeis e o diálogo com uma proletária, cenas que refletem uma imagem que arranha a percepção de um artista comunista engajado (particularmente acho uma ingenuidade imaginar que o escritor fez voto de pobreza durante a vida por ser comunista, já que a ideologia que ele acreditava está muito além do que essa superficialidade). Larraín não tinha a mínima intenção de criar um retrato fidedigno de Neruda - e visitando seus filmes posteriores envolvendo figuras históricas, como a já citada Jackeline Kennedy, Lady Di (em Spencer/2021) ou Pinochet em O Conde (2023), sabemos que seu interesse em criar histórias sobre esses personagens é muito mais um artístico do que documental. O melhor do filme é ver como o filme é construído de forma quase surreal até pouco antes do desfecho, naquele momento belíssimo no gelo com um monólogo estupendo de Gael. Tendo em vista que para Larraín ninguém é sagrado (basta ver a participação minúscula reservada a Alfredo Castro, seu ator favorito), trata-se de um filme de encher os olhos (e os ouvidos). 

Neruda (Chile/2016) de Pablo Larraín com Gael Garcia Bernal, Luís Genecco, Mercedes Morán, Diego Muñoz, Marcelo Alonso, Michael Silva e Pablo Derqui. ☻☻☻☻

domingo, 23 de julho de 2023

#FDS Para Maiores: Théo & Hugo

 
Couët e Nambot: desinibição com alma romântica 

A cena de abertura de Théo & Hugo é uma verdadeira afronta: um grupo de homens se entregando aos prazeres da carne em uma legítima black room localizada abaixo de um bar gay na França. A cena de estende por longos minutos e dá a impressão que estamos diante de mais um filme pornográfico que tem aos montes em sites da Internet. Quase vinte minutos depois, quando você imagina que o filme vai ficar só nisso, o filme muda de tom e passa a se dedicar a dois rapazes presentes naquela ocasião. No caso, os dois personagens do título que sentiram algo diferente um pelo outro perante a multiplicidade de parceiros presentes ali. Os dois resolvem continuar a noite em outro lugar, engatam uma longa conversa pelas ruas vazias de Paris que se transforma em uma crise quando Hugo (François Nambout)al descobre que Théo (Geoffrey Couët) não usou preservativo durante a transa que tiveram. Se você é um daqueles que consideram a atitude de Hugo um exagero (vale lembrar os riscos do lugar em que estavam durante a noite), a situação logo recebe maiores explicações quando Hugo revela ser soropositivo. O que prometia ser apenas o início de um romance logo se torna uma reflexão sobre o fantasma da AIDS consciência frente à doença no século XXI. Entre uma conversa e outra a atração entre os dois personagens oscila. Eles discutem, se afastam, se atraem, trocam acusações, questionam a postura de um e de outro, mas existe uma preocupação legítima de um com o outro que não consegue ser disfarçada. Em alguns momentos o filme lembra a trilogia do Before de Richard Linklater com as longas caminhadas embaladas pela conversa dos personagens que se revelam aos poucos, de forma que podemos perceber como Hugo é calejado e Théo ainda é um bocado ingênuo perante a vida sexual que pretende levar. O filme da dupla Olivier Ducastel e Jacques Martineau  foi premiado com o Teddy Bear no Festival de Berlim e ganhou alguma repercussão pela forma como retrata a AIDS nos dias de hoje, uma doença que pode parecer sob controle quando devidamente diagnosticada e medicada, mas que ainda necessita muito da prevenção e conscientização. Estes elementos complementares aparecem muito na vida aparentemente normal que Hugo consegue levar tendo com o uso de medicamentos e cuidados pessoais e encontra um contraponto na postura um tanto inconsequente de Théo. O  filme por vezes se torna cansativo por ser palavroso demais, algo que tenta contornar com uma certa tensão sobre o resultado do exame de Theo, aspectos que preenchem o filme até que volte a investir na desinibição de seus atores no último ato. Mas não se engane, apesar de toda ousadia, o filme tem uma alma romântica que busca retratar de forma mais natural possível a atração entre os personagens. Inicialmente assisti ao filme na Filmmica para escrever sobre no CICLO DIVERSIDADESXL no mês passado, mas ele acabou ficando de fora, mas cai como uma luva para encerrar esse #FimDeSemana dedicado a produções ambiciosas e ousadas dedicadas ao público maior de dezoito anos. 

Théo & Hugo (Théo et Hugo Dans le Même Bateau / França - 2016) de Olivier Ducastel e Jacques Martineau com Geoffrey Couët, François Nambot, Bastien Gabriel e Miguel Ferreira. ☻☻

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

PL►Y: Mammal

Rachel e Barry: romance complicado. 

A primeira vez em que assisti um filme com a australiana Rachel Griffiths foi em O Casamento de Muriel (1994) em que ela vivia a melhor amiga da protagonista de Toni Collette. O tempo passou e ela foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho em Hillary & Jackie (1999) e colecionou prêmios por seus trabalhos nas séries A Sete Palmos (2001-2005) e Brothers & Sisters (2006-2011), mas atualmente ela pode ser vista em The Wilds na Amazon Prime Video. Como se percebe o cinema a deixou de lado faz tempo, mas ela não se importa desde que de vez em quando um papel interessante apareça para vermos como os holofotes nem sempre se voltam para os grandes talentos. Mammal é um desses, um pequeno filme irlandês que colheu elogios em alguns festivais e até concorreu a alguns prêmios em seu país de origem, mas bem que merecia um tantinho mais de atenção por conta dos trabalhos de Rachel e de seu parceiro de cena, o sempre interessante Barry Keoghan. Ela vive Margaret, uma mulher melancólica que trabalha em uma loja modesta e aluga um quarto vazio de sua casa para ganhar algum dinheiro extra. Logo no início já imaginamos o motivo da tristeza que transborda da personagem, por conta de uma cicatriz e da casa solitária em que vive, tentamos imaginar a triste história que se esconde por trás de sua rotina - que parece encontrar algum alento somente nos dias em que utiliza a piscina de um clube das redondezas. A mesma piscina é frequentada por Jo, um adolescente um tanto perdido e que cruza o caminho de Margaret enquanto ela recebe uma sucessão de notícias preocupantes. Tanto Rachel quanto Jo precisam de ajuda e os dois se agarram um ao outro como uma tábua de salvação. A diretora Rebecca Daly não se inibe ao embaralhar as emoções de sua protagonista, que ora observa Jo com olhar maternal e aos poucos passa a desejá-lo - e a câmera da diretora faz questão de criar uma transição física da vulnerabilidade e a sexualização do corpo do rapaz, por vezes em ângulos que revelam o quanto Keoghan é de fato um ator destemido. Vale ressaltar que a diretora utiliza aqui uma verdadeira subversão aos romances intergeracionais que costuma chegar nas telonas. Rachel tinha 48 anos durante a estreia do filme, enquanto Barry tinha metade de sua idade (embora aparente bem menos). Por mais estranho que pareça, a desenvoltura de ambos em personagens complicados são o grande trunfo do filme que por vezes abusa da cadência silenciosa. Obviamente que para além da questão da ausência a ser preenchida na casa de Margaret, o relacionamento entre ambos irá gerar um bocado de incompreensão. Não por acaso o longa (que se chamaria Mamífero, caso fosse traduzido) é repleto de simbologias sobre a maternidade, mas em sua essência, o filme de Rebeca Daly é apenas um filme sobre duas pessoas que precisam ser amadas com todas as cicatrizes que carregam. 

Mammal (Irlanda - Países Baixos - Luxemburgo/ 2016) de Rebeca Daly com Rachel Griffiths, Barry Keoghan, Michael McElhaton, Joanne Crawford e Johnny Ward. ☻☻☻☻ 

sábado, 27 de novembro de 2021

#FDS Made in Japan: Creepy

 
Hidetoshi e Kagawa: estranhos vizinhos. 

Depois de uma investigação que obteve um desfecho sangrento na delegacia, o policial Koichi (Hidetoshi Nishijima) se aposentou. Em busca de uma vida sossegada, ele agora se dedica ao magistério em uma faculdade local e se mudou para a tranquilidade do subúrbio com a esposa Yasuko (Yūko Takeuchi). Embora os vizinhos sejam bastante reservados e pouquíssimo simpáticos, o casal considera que fizeram uma ótima escolha em mudarem o estilo de vida para a calmaria. No entanto, Koichi encontra muita dificuldade para deixar de se interessar pelas investigações de um amigo policial e... isso basta para que os dois mundos do ex-policial comecem a se misturar. Se no início começam a suspeitar que existe algo de errado com o estranho vizinho, Nisihino (Teruyuki Kagawa), a situação só piora quando começam a desconfiar de que ele é um assassino procurado pela polícia há tempos. Pode se dizer que Creepy é composto por quatro atos bastante distintos em sua eficiência. O primeiro apresenta um mundo estranho em que o crime e a crueldade humana parece além da compreensão. No segundo, a busca pela tranquilidade se choca com a hostilidade da vizinhança e a sensação de que ninguém está muito disposto a fazer amigos, mas logo depois o filme começa a compor uma atmosfera investigativa com elementos aparentemente triviais do cotidiano. Assim, a nossa mente remete logo ao primeiro ato e suspeita que algo de ruim irá acontecer. Esta atmosfera é tão bem construída que me lembrou a série Mindhunter (quando sairá a terceira temporada, hein Netflix?) e sua tentativa de estudar os serial killers em sua habilidade de se camuflarem enquanto pessoas comuns antes do surto. Roteiro, direção e elenco fazem tudo direitinho para nos deixar instigados rumo ao que está prestes a ser revelado - e parece ter relação com as estranhas relações de Nisihino com sua família - afinal a esposa nunca é mostrada e a filha parece sempre estar escondendo algo. Eis que o terceiro ato surge e provoca os arrepios prometidos pelo título em inglês. Um jogo de manipulação e chantagens se instaura (ainda que tenha um elo fraco com a trajetória de Yasuko) . Quando o submundo da casa do estranho vizinho é revelado o filme custa a ficar de pé e tudo parece um tanto forçado e sem muita coerência. Parece o mergulho em um pesadelo urbano surreal que deixa toda a elegância do ato anterior para trás até que surge o desfecho. O curioso é que enquanto o filme se leva a sério, ele se garante numa boa em suas doses cavales de suspense, mas na segunda metade a busca por reviravoltas depende muito da boa vontade do espectador para continuar comprando a ideia. O problema é que na primeira parte a narrativa é tão boa que fica difícil manter o nível até o final, pelo menos  o rumo dos fatos é tão imprevisível que é impossível ficar indiferente ao que se vê no decorrer da história. Tivesse um roteiro mais lapidado em sua segunda parte, Creepy poderia ser um verdadeiro clássico da paranoia urbana. 

Creepy (Japão - 2018) de Kiyoshi Kurosawa com Hidetoshi Nishijima, Yūko Takeuchi, Teruyuki Kagawa e Masahiro Higashide. ☻☻☻

domingo, 31 de janeiro de 2021

PL►Y: Cães Selvagens

 

Dafoe, Cage e Cook: filme decepcionante. 

Paul Schrader tem uma longa carreira como diretor, afinal desde 1978 que ele também é reconhecido como cineasta. O diretor do clássico Taxi Driver (1976). Ele tem no currículo filmes controversos como Gigolô Americano (1980) e (sua única indicação ao Oscar por) Fé Corrompida (2017), geralmente com personagens fortes e que estão longe de ser uma unanimidade. Nem sempre público ou crítica costumam cair de amores por ele, especialmente quando ele derrapa feio como neste Cães Selvagens, filme que passou em branco em 2016 e que não faz muita diferença em sua carreira. Curiosamente ele não assina o roteiro, que fica por conta do desconhecido Matthew Wilder (que antes tinha somente um filme no currículo e depois escreveu mais dois que ninguém lembra) baseado no livro de Edward Bunker. Não sei bem ao certo onde a história quer chegar ao contar o encontro de três bandidos para realizar um último crime, no caso o sequestro de um bebê que acontece lá pela metade da sessão. Até lá, conhecemos como cada um deles acabou preso e percebemos que estão longe de ser amigos ou estáveis. Entre drogas, bebidas e assassinatos, a dupla Nicolas Cage (Troy) e Willem Dafoe (Mad Dog) tem talento de sobra para chamar atenção para o filme, mas eles são acompanhados por Christopher Matthew Cook (Diesel) que está longe de ser carismático e o roteiro está longe de apresenta-los de forma que você consiga torcer por qualquer um deles. A narrativa é apresentada num amontoado de cenas rápidas, desconexas e que brincam com os filtros da fotografia e a trilha sonora. De vez em quando o filme para e respira, mas está longe de apresentar algo envolvente. A impressão é que Schrader quis bancar o diretor moderninho e acabou se confundindo na condução da história simplória cheia de firulas para fingir que tem muito a dizer. O humor é sofrível, a violência é explícita e os atores fazem o que podem com seus personagens unidimensionais. Para piorar ouvi gente dizendo que o filme parece com os primeiros longas do Tarantino, o que não quer dizer nada, já que qualquer filme que tenha piadinhas e tiros as pessoas costumam dizer isso - o que é um sacrilégio... para quem enxergar semelhanças eu recomendo que reveja os três primeiros filmes do moço e perceba como este aqui é completamente diferente. Cães Selvagens termina com sabor de uma grande perda de tempo. 

Cães Selvagens (Dog Eat Dog / EUA -2016) de Paul Schrader com Nicolas Cage, Willem Dafoe, Christopher Matthew Cook, Omar J. Dorsey, Louisa Krause e Melissa Bolona. ☻  

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

PL►Y: Um Contratempo

Ana e Mario: construção de mistérios. 

 Assim como dissemos que alguns filmes são clássicos da Sessão da Tarde ou do Corujão por se tornarem recorrentes nestas sessões globais, também podemos cunhar a expressão clássicos da Netflix para aqueles filmes que se tornaram famosos no serviço de streaming. Sabe aquele filme que parece que todo mundo assistiu e você ainda se pergunta porque ainda não fez o mesmo? Esta foi minha sensação com Um Cotratempo, tanta gente me indicou o filme que eu já ficava sem graça de dizer que não tinha assistido (sabe se lá o motivo). Num fim de semana desses eu conversei com um amigo e fiz praticamente uma promessa de assistir. Assim o fiz. É fácil entender o motivo do filme cair na graça do espectador, a começar pela história que nunca se revela por completo, criando uma uma rede de revelações que seguem surpreendentes até o final da sessão. A trama gira em torno de Adrian Dória (Mario Casas) que é acusado de matar sua amante (Bárbara Lennie) num quarto de hotel, embora ele afirme que um desconhecido entrou no quarto e cometeu aquele assassinato. Ele logo contrata uma renomada advogada (Ana Wagener) para defendê-lo, mas suas chances de convencer o júri são pequenas. Conforme Adrian conta sua história a coisa se complica cada vez mais, também não ajuda muito o fato de pensarmos a todo instante que o rapaz está construindo um discurso de forma que a advogada e o publico possa acreditar em sua inocência. A morte da amante mostra-se somente a ponta de um iceberg, já que os dois estiveram envolvidos em um acidente mantido em segredo e que introduz outro casal na história. Ancorado na retórica de seu protagonista e na forma como ele nunca se compromete com os acontecimentos envolvidos, Um Contratempo bebe em várias fontes clássicas para compor sua história (Hitchcock, Agatha Christie e até uma pitada do David Fincher na construção de sua estética de suspense), o melhor é que alcança um bom resultado. A montagem da história é precisa, a fotografia investe em diferentes tonalidades para contar a história (reparem no uso de azul, verde e o caloroso amarelo em determinada cenas) e a direção de Oriol Paulo sabe exatamente os momentos em que deve focar especificamente no embate entre a advogada e seu cliente, onde não se sabe especificamente quem é mais esperto ali - sobretudo naquele momento em que ela consegue ganhar a confiança dele e fazê-lo acreditar que pode ser totalmente honesto. Eficiente na construção de seus mistérios e surpresas, Um Contratempo é mais um exemplo de como o cinema espanhol é um dos mais interessantes do mundo. 

Um Contratempo (Contratiempo / Espanha-2016) de Oriol Paulo com Mario Casa, Bárbara Lennie, Anna Wagener, Jose Coronado, Francesc Orella, Paco Tous e David Selvas. ☻☻☻☻

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

PL►Y: Dia de Trabalho Mortal

 
Gallagher: brincando de resta um. 

James Gunn ficou muito famoso com o sucesso de Guardiões da Galáxia (2014) na Marvel. Da noite para o dia se tornou um diretor que ninguém dava muita bola para um dos nomes mais cobiçados de Hollywood (basta lembrar que ele está na Marvel e fará o novo Esquadrão Suicida para a DC/Warner). Acontece que antes de levar para a tela os heróis pouco conhecidos dos quadrinhos, Gunn tinha uma carreira de filmes que não tinham pudores de ir mais longe do que o bom senso aconselha. Foi assim com seu filme de estreia (com o pezinho no trash) com Seres Rastejantes (2006) e o filme de super-herói tosquinho Super (2010). O roteiro deste Dia de Trabalho Mortal tem muito do que era Gunn antes da fama e, sabendo que agora tem um nome a zelar (e basta lembrar seus comentários antigos no Twitter para lembrar como ele aprendeu esta dura lição) ele acabou cedendo o roteiro para que outro diretor dirigisse. Sábia decisão. Gunn cria aqui uma espécie de releitura daqueles experimentos comportamentais que eram muito comuns nos anos 1960 e 1970, só que de forma mais radical e explícita (basta ver o nome original: The Belko Experiment). Aqui ele coloca um grupo de pessoas trabalhando num prédio no meio do nada diante de um dia de trabalho incomum. Com o prédio lacrado e sem possibilidade de fuga, os funcionários descobrem que terão que matar uns aos outros se quiserem continuar vivos. Sem linhas telefônicas ou internet, eles pensam que se trata de uma espécie de trote e hesitam começar a carnificina, mas a coisa piora quando alguns colegas de trabalho começam a morrer sem motivo aparente. Logo tomam ciência que se trinta pessoas presentes ali não morrerem dentro de algumas horas, sessenta serão assassinadas aleatoriamente. Enquanto alguns tentam arranjar um meio de fugir, outros de escondem e alguns buscam estratégias para evitar a barbárie, logo aparecem os líderes pontuando que empilhar alguns corpos seria algo a ser pensado e até razoável. Eles nem imaginam que o pior ainda está por vir. Se existe algum comentário social na premissa ela logo vai para o espaço quando algumas cabeças começam a estourar (literalmente), mas a graça está no clima de tensão que o diretor Greg McLean instaura pouco depois do início da sessão. McLean também conta com um bom elenco que ajuda muito a termos empatia por alguns personagens e comprarmos o exagero com que lidam com a tensão naquele ambiente de trabalho. Talvez a maior dificuldade do filme seja preparar as reviravoltas para a trama que parece mais um reality show macabro do que um experimento social, mas os fãs de terror e suspense não devem reclamar. Destaque para John Gallagher Jr. no papel do funcionário bom moço em contraponto com Tony Goldwyn (na pele do como o chefe fascista), além de Sean Gunn (irmão de James) e Michael Rooker, atores de Guardiões da Galáxia que aparecem aqui sem aquelas maquiagens pesadas. 

Dia de Trabalho Mortal (The Belko Experiment / EUA - 2016) de Greg McLean, com John Gallagher Jr., Adria Arjona, Tony Goldwyn, Michael Rooker, John C. McGinley, Brent Sexton, Rusty Schwimmer, David Dastmalchian, Brent Sexton e Sean Gunn. ☻☻☻ 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

PL►Y: O Cidadão Ilustre

 
Oscar (ao centro): conflito entre o provinciano e a arte. 

Sabe aquele filme premiado que fica na sua lista da Netflix e fica lá, esquecido... até que um dia você assiste e se arrepende de não ter assistido antes? O Cidadão Ilustre foi um destes. O filme é bastante interessante em seu olhar ácido sobre o culto às celebridades e, desde o início, deixa claro que o tal cidadão do título não é a criatura fofinha que muitos imaginam. Afinal, seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura é praticamente uma total desconsideração ao mérito que o prêmio possa ter, já que Daniel Montavani (Oscar Martínez em uma atuação deliciosa que lhe valeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza) deixa bem claro o quanto ser reconhecido é ter se tornado convencional e pouco criativo. Um tanto irritado com o culto que se formou em volta de sua carreira literária, ele tem cada vez menos paciência para entrevistas e eventos, mas no meio de todos os convites que recebe está o de visitar sua  pequena cidade natal na Argentina, a mesma cidade que serviu de inspiração para algumas de suas obras reconhecidas internacionalmente. Se no início o convite é visto com estranhamento, aos poucos ele considera que seria uma boa ideia rever o local que lhe serviu de inspiração (lugar que estava apenas na memória por tanto tempo). No entanto, assim que chega, percebe que as condições serão bem diferentes dos grandes eventos a que se acostumou a participar, mas pelo menos pode rever amigos, um amor do passado e ver que a cidade tem muito orgulho de seu trabalho - pelo menos até que uma sucessão de acontecimentos comecem a colocar a admiração lado a lado com uma certa antipatia que termina quase em linchamento. Da forma como se posiciona artisticamente até a forma como retrata a cidade passa a ser revista pelos moradores e os conflitos são inevitáveis, fãs ficam decepcionados com o escritor e uma fã mais atirada acaba rendendo mais problemas do que ele imagina. O roteiro de Andrés Duprat faz humor das situações mais simples e revela muito sobre o escritor, que decepciona seus fãs ao mostrar-se uma pessoas de carne e osso, com qualidades e defeitos, além de não muita paciência para o culto em torno de sua pessoa (embora também ele se revele mais vaidoso do que ele mesmo imagina). Os diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn conta esta história sem firulas, com enquadramentos simples e tom quase documental que rende surpresas ao se distanciar sempre das expectativas do espectador. A narrativa cresce comicamente na construção de uma espécie de bomba-relógio até aquela cena final cheia de tensão. Sem poupar comentários sobre a importância da arte e do artista, assim como esta relação tende ficar embaçada nos tempos de hoje, o filme resulta divertido, provocativo e bastante astuto em seu olhar sobre o culto às celebridades. 

O Cidadão Ilustre (El ciudadano ilustre / Argentina - 2016) de Gastón Duprat e Mariano Cohn com Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio, Nora Navas, Marcelo D'Andrea, Emma Rivera, Nicolás de Tracy. ☻☻☻☻   

sexta-feira, 12 de junho de 2020

PL►Y: Más Notícias para o Sr. Mars

François e Veerle: dias de apuros. 

Phillipe Mars (François Damiens) é um homem maduro que trabalha em uma empresa de informática faz tempo. Ele tem dois filhos, mas devido a um divórcio eles ficaram sob a guarda da mãe. Seus pais são falecidos, sua irmã resolveu ser artista plástica e a maior aventura de sua vida atual parece ter sido designado para trabalhar com um parceiro meio estranho, Jérome (Vincent Macaigne). Espero que toda esta tranquilidade que Sr. Mars transpira tenha lhe rendido dias melhores do que aparecem nesta comédia francesa dirigida por Dominik Moll, já que mal o filme começa as adversidades começam a mudar a rotina do protagonista, mas nunca seu temperamento - é bom ficar claro. Devido a compromissos profissionais da ex-mulher, os filhos irão morar com ele por algum tempo, o que só irá evidenciar o abismo existente entre ele e o filho vegetariano Grégoire (Tom Rivoire) e a filha presunçosa Sarah (Jeanne Guittet), não bastasse isso ele sofrerá um acidente no trabalho, irá receber um hóspede inesperado e até o final irá impedir três desmiolados de cometer um verdadeiro desastre. O roteiro se beneficia muito do humor das situações que acontecem durante a história e mais ainda da atuação impassível de François Damiens, que tem a tarefa complicada de nos fazer simpatizar com este homem comum que não consegue segurar as rédeas da vida. Mesmo que tente, ele sempre acaba submerso na vontade que quem está ao seu redor. Sua insatisfação silenciosa pode ser percebida nas expressões do personagem um tanto farto de sua própria passividade. O roteiro tem ótimos momentos com Mars visivelmente se sentindo deslocado em um mundo que deixou de entender faz tempo. É interessante como o filme explora esta vontade de se distanciar de um  mundo que parece cada vez mais confuso com os sonhos do personagem vestido de astronauta indo para o silêncio do espaço. Não por acaso o filme caminha para uma explosão que pode colocar fim à sua existência e acrescenta um  tom de aventura atrapalhada num roteiro que até então primava pelo bom humor. O tom preciso desta comédia francesa funciona como uma bela crônica sobre aquelas pessoas bem intencionadas que precisam perceber a responsabilidade em se deixar afetar pela bagunça dos outros. Uma boa surpresa do filme foi reencontrar a atriz belga Veerle Baetens (do magnífico Alabama Monroe/2012) como a estranha pretendente de Jérome. 

Más Notícias para o Sr. Mars (Des nouvelles de la planète Mars / França - Bélgica / 2016) de Dominik Moll com  François Damiens, Vincent Macaigne, Jeanne Guittet, Tom Rivoire, Julien Sibre e Veerle Baetens. ☻☻☻☻

sábado, 9 de maio de 2020

PL►Y: Depois da Tempestade

Hiroshi Abe e Tayio: histórias do cotidiano. 

Depois da Tempestade é um daqueles filmes que faz sucesso junto a um público restrito. É lançado em poucos cinemas e acaba sendo conhecido mais por indicação de um amigo do que por campanhas de marketing. Dirigido por Hirozaku Koreeda (do premiadíssimo Assunto de Família/2018 que em breve comentarei por aqui) o filme é um daqueles exercícios em que o cinema tenta criar um recorte realista da vida de seus personagens comuns. Este recorte tem como marco a chegada de mais um tufão no Japão enquanto somos apresentados à uma família simples. Uma mãe (Kirin Kiki), mora sozinha com o filho, Shinoda (Hiroshi Abe) após a morte do marido. Ela também tem uma filha que aparece de vez em quando (e ajuda a construir o tom leve do filme nos minutos iniciais) e juntas sempre comentam que o rapaz não passa por uma boa fase na vida. Ele tentou ser escritor, mas seu primeiro livro não fez o sucesso esperado e agora ganha a vida como detetive particular. Ele também tenta ter mais contato com o filho, além de reconquistar a ex-esposa (especialmente quando observa que ela está iniciando um novo relacionamento). Aos poucos o filme desenvolve esta história simples, com diálogos espirituosos que nunca o deixam ficar pesado ou cair no melodrama. Existe uma leveza e um carinho na forma como o diretor conta a história destes personagens e revela aos poucos o passado que carregam. O relacionamento da matriarca com o falecido, os motivos do casamento de Shinoda ter terminado, os ressentimentos entre os personagens.... o filme de desenvolve tornando aqueles personagens pessoas palpáveis de carne e osso, com seus dramas pessoais e insatisfações com uma bem dosada poesia presente em diálogos e imagens. Basta olhar a quantidade de objetos presentes naquela casa para notar as várias histórias que ela tem para contar! O filme erra somente quando exibe demais o protagonista em seu local de trabalho, que não acrescenta muita coisa ao filme, mas tudo é compensado quando o tufão chega e os personagens tem a chance de ter aquelas conversas sérias que pareciam ser constantemente adiadas. Sem grandes saltos narrativos ou trama mirabolante, Depois da Tempestade poderia ser uma obra sobre nossos vizinhos, nossos parentes ou aquele amigo que perdemos contato com o tempo. Este tom universal de sua história é o que faz a diferença e o torna comovente em sua simplicidade (ao ponto de se dar ao luxo de usar somente assobios como trilha sonora na maior parte do tempo). 

Depois da Tempestade (Umi yori mo mada fukaku / Japão - 2016) de Hirozaku Koreeda  com Hiroshi Abe, Kirin Kiki, Taiyô Yoshizawa, Yoko Maki, Satomi Kobayahi e Lyly Franky. ☻☻☻☻

domingo, 29 de setembro de 2019

PL►Y: Snowden

Joseph: figura controversa. 

No marasmo de poucas ideias que assolam Hollywood uma tendência ganhou força nos últimos anos: fazer versões dramatizadas de documentários premiados. Como o grande público tem alergia à palavra documentário (que muita gente escuta "filme chato" quando escuta falar de um), contar a mesma história com um ator famoso se tornou um recurso recorrente no cinema americano. Se em 2014 o longa Citizen Four de Laura Poitras ganhou fama e o Oscar de melhor documentário por mergulhar nas polêmicas envolvendo Edward Snowden, o diretor Oliver Stone considerou que poderia fazer uma versão com atores daquela história. Se o documentário é praticamente uma entrevista sobre as descobertas de Snowden ambientado em um quarto de hotel, mas cheio de tensão sobre o momento em que aquele material foi registrado - pouco antes da fuga e exílio do analista de sistemas, por outro lado o novo filme é bem menos envolvente. No filme de Oliver Stone, o que vemos é um filme bastante tradicional, que tenta reproduzir os dilemas morais do protagonista ao mesmo tempo que investe em alguns dramas poucos trabalhados de sua vida pessoal (sobretudo no relacionamento com a namorada vivida por Shailene Woodley), esta falta de profundidade também afeta todos os outros personagens que cruza sem caminho (basta ver o "chefe" encarnado por Rhys Ifans que está sempre pelo meio do caminho). Na pele do protagonista, o bom Joseph Gordon Lewitt convence como o rapaz tímido, reservado e brilhante (é curioso lembrar que o ator também fez um outro filme adaptado de um documentário antes deste aqui: A Travessia/2015 em que encarnava o equilibrista francês Philippe Petit). Para se diferenciar do documentário, o filme conta um pouco como foi a vida militar de Snowden, sua passagem pela CIA e seu trabalho junto com polêmicas operações que violavam a privacidade de pessoas comuns em nome de medidas de segurança do governo americano. Não resta dúvidas de que a história é interessante, que um bando de gente desinformada vai ficar chocado com o que aparece em cena e que o filme deve ter rendido discussões acaloradas depois das sessões, no entanto, a produção está longe de ser empolgante. Oliver Stone faz um filme longo e um tanto sem energia que dá voltas em torno de si mesmo por boa parte do tempo. Talvez se eu não houvesse assistido ao documentário, Snowden houvesse me empolgado mais, por outro lado, tenho saudades do que o antigo Oliver (diretor do clássico Platoon/1986 e do insano Assassinos por Natureza/1994) faria com um material desses nas mãos.  No Brasil a situação ficou ainda mais interessante com o subtítulo Herói ou Traidor, o que instiga ainda mais a controversa trajetória do rapaz, afinal ele pode ser os dois, dependendo do ponto de vista de quem observa a história. 

Snowden - Herói ou Traidor (Snowden - EUA / 2016) de Oliver Stone com Joseph Gordon Lewitt,  Shailene Woodley, Melissa Leo, Zachary Quinto e Rhys Ifans. ☻☻☻

sábado, 20 de outubro de 2018

PL►Y: Não Ultrapasse

Michael e Brendan: assalto em família. 

A presença do astro Michael Fassbender garantiu o lugar de Tresspass Against Us entre os filmes mais esperados de 2016, mas o filme teve a estreia adiada várias vezes e a distribuição nos Estados Unidos foi modesta - e aqui no Brasil ele permaneceu inédito nos cinemas. Depois de passar os últimos anos se dedicando a grandes produções de Hollywood, Fassbender resolveu voltar às origens e fazer um filme menor, independente e sem grande novidades em sua execução. O filme conta a história de Chad Cutler (Fassbender), que cansado da vida fora da lei tentou viver mais tranquilamente ao lado da família. Quando ele se reaproxima do pai, Colby (Brendan Gleeson) a coisa começa a desandar - já que o patriarca sempre pede para que o filho volte para o mundo do crime. Diante da falta de perspectivas e problemas financeiros (a família vive num aglomerado de trailers junto com outras famílias), Chad repensa suas decisões e pagará um preço alto por isso. O filme de estreia do diretor Adam Smith demora para engrenar, talvez por sua inexperiência ou pelo roteiro do também estreante Alastair Siddons (que depois assinou a repaginada de Lara Croft em Tomb Raider: A Origem/2018 com Alicia Vikander, a esposa de Fassbender). O texto faz uma apresentação confusa dos personagens e demora meia-hora para ganhar ritmo, exigindo paciência para ver um bando de homens sujos e desbocados fazendo bobagens com diálogos ásperos, ritmo arrastado e fotografia desbotada. Depois de alguns tropeços (como a inconcebível cena em que os bandidos são cercados pela polícia em um posto de gasolina - e estes sequer saem das viaturas!), o filme começa a ganhar pontos ao investir no conflito entre pai e filho diante da vida marginal que levam. O pai é chegado a analogias religiosas e sempre demonstra ser uma péssima influência para o neto (Georgie Smith), enquanto isso, Chad está sempre relutante sobre o caminho que deve seguir. Fassbender consegue demonstrar como a marginalidade está para Chad como uma espécie de vácuo sempre à espreita, pronto para sugar-lhe sem piedade. Não Ultrapasse é sustentado pelos dramas familiares que propõe, mas o roteiro não ajuda muito (os coadjuvantes nunca recebem o devido destaque, os policiais são mostrados sem qualquer esperteza, tem ainda uma cena polêmica envolvendo um rapaz com problemas mentais...), no fim das contas o filme apareceu em algumas premiações indies do Reino Unido e ninguém lembra muito dele. O que vale mesmo é ver mais uma boa atuação de Fassbender que pode agradar os fãs que tiveram o viram desperdiçado em bobagens recentes como Assassin's Creed (2016) e Boneco de Neve (2017), aqui pelo menos ele tem um bom personagem para trabalhar. 

Não Ultrapasse (Tresspass Against Us / Reino Unido - 2016) de Adam Smith com Michael Fassbender, Brendan Gleeson, Georgie Smith, Lindsey Marshall, Rory Kinnear e Sean Harris. ☻☻

sábado, 29 de setembro de 2018

PL►Y: From Nowhere

Moussa (ao fundo): um rosto nas estatísticas. 

From Nowhere foi exibido em vários festivais indies nos Estados Unidos em 2016, foi muito elogiado e recebeu alguns prêmios (como o da audiência no badalado South by Southwest Film Festival) No entanto, o filme conseguiu apenas espaço nos cinemas americanos em 2017. Inédito nos cinemas brasileiros, From Nowhere é um belo filme sobre um tema bastante atual. O filme acompanha três adolescentes que são imigrantes ilegais nos Estados Unidos. Os três vivem no Bronx e estudam na mesma escola, assim como foram encaminhados ao mesmo advogado para regularizar a situação no país. Quando o filme começa, a conversa é bastante impessoal com o advogado Isaac (Denis O'Hare). Além de perguntar a história de cada um deles - e transparecendo indiferença com o que escuta - ele sugere que pesquisem problemas sérios em suas famílias (assassinatos, estupros, tráfico de drogas...) com o objetivo de sensibilizar os responsáveis pelo processo de imigração a deixa-los continuar na terra do Tio Sam. A partir daí conhecemos um pouco mais da realidade de cada jovem, descobrimos os detalhes que os levaram para além da fronteira tem mais nuances do que podemos imaginar. Vemos que Moussa (Malory McCree) migrou da República da Guiné quando ele e a irmã ainda eram crianças e ao chegar nos Estados Unidos a situação da família se tornou bastante complicada. Conhecemos a situação de Alyssa (Raquel Castro), uma jovem peruana que foi morar com a irmã e o cunhado americano (a irmã possui Greencard e por conta disso tem a situação estável), além de observarmos a  dura realidade de Sophie (Octavia Chavez-Richmond), que mora com familiares que não se importam muito com ela e a exploram cotidianamente. A vida desta jovem nascida na República Dominicana lhe garante uma certa revolta e falta de perspectiva - e por conta disso, ela comete pequenos furtos e não vê a extradição como o maior dos seus problemas. Além dos familiares dos três protagonistas, o filme ainda é costurado pelas orientações da professora Jackie (Julianne Nicholson), que está sempre disposta a ajudar os três alunos. Dirigido por Mathew Newton, o filme opta por uma narrativa bastante realista, quase documental, sem grandes floreios ou desvios narrativos e pulso firme. O resultado consegue ser bastante direto e sensível. Ao apresentar seus personagens como adolescentes comuns (em seus conflitos, romances e angústias), o diretor humaniza quem vive na ilegalidade e oferece ao espectador um olhar bastante humanista para a situação - e escorrega somente por não aprofundar o núcleo de Alyssa (que possui tão poucas cenas que existe até um desequilíbrio por conta disso), mas é um problema pequeno dentro da proposta do filme. Ainda que seja uma obra de ficção, From Nowhere confere rosto a quem costumamos ver somente como números em estatísticas sobre imigração. 

From Nowhere (EUA-2018) de Mathew Newton com Mallory McCree, Octavia Chavez-Richmond, Julianne Nicholson, Raquel Castro e Denis O'Hare. ☻☻☻☻  

sábado, 23 de junho de 2018

PL►Y: Desafiando a Arte

Nicole e Jason: infância marcada por pegadinhas.

Camille (Jason Butler Harner) e Caleb Fang (Kathryn Hahn) são artistas que ficaram famosos com uma carreira controversa. Especialistas em criar situações em público para provocar a reação das pessoas, o trabalho do casal divide opiniões. Para alguns eles são gênios que transcendem os limites da arte (seja o palco, a tela ou uma exposição), para outros, são dois picaretas que vivem fazendo pegadinhas com inocentes nas ruas. Por algum tempo a obra dos Fang contou com a participação de dois coadjuvantes de peso, seus próprios filhos, que ficaram conhecidos como criança A e criança B nas apresentações que realizaram. As crianças ajudaram bastante nas provocações realizadas ao público - como o dia em que cantaram em uma praça que todos os pais deveriam morrer ou na antológica apresentação de Romeu e Julieta que chocou parte da plateia. Só que o tempo passou, a criança A cresceu e se tornou atriz e a criança B se tornou um escritor. Interpretados respectivamente por Nicole Kidman e Jason Bateman, Annie e Baxter querem manter distância deste passado, que de vez em quando lhes bate a porta através de comentários e entrevistas. Por acaso, os dois atravessam momentos difíceis em suas carreiras, faz tempo que Annie não lança um filme importante e o segundo livro de Baxter também não repetiu o sucesso do primeiro. Os irmãos também estavam distantes, até que um acidente com Baxter os reaproxima e... a visita dos pais é inevitável. Vividos agora por Christopher Walken e Maryann Plunkett, Caleb e Camille tentam evitar a lavagem de roupa suja na companhia dos filhos, mas ainda querem convencê-los a participar de novos trabalhos, mas... um golpe do destino acontece e Annie e Baxter não conseguem acreditar que seja verdade, afinal, a especialidade dos seus pais é pregar peça nas pessoas.  Como podem perceber, Desafiando a Arte tem um ponto de partida interessante ao lidar com as mágoas e ressentimentos de uma família de artistas, tem como pano de fundo uma discussão sobre um tipo de humor que se tornou muito comum nos anos 1990, mas a direção de Jason Bateman (este é o segundo filme dirigido pelo ator) não faz questão de aprofundar as questões interessantes que aponta. Embora consiga deixar o espectador com a mesma desconfiança dos personagens (o que cria algum suspense durante o filme), Bateman tenta construir uma comédia sofisticada, com pendores dramáticos, mas anda em círculos a maior parte do tempo. É um filme com bom elenco, atuações dedicadas e que demonstra que o diretor tem sensibilidade para fazer mais do que provocar risadas, mas erra a mão no ritmo e no exagero de melancolia, o que torna o filme menos interessante do que deveria. Desafiando a Arte passou em branco nos cinemas americanos em 2016 e mesmo tendo Nicole Kidman no elenco, não conquistou o interesse dos distribuidores por aqui, mas, apesar de suas imperfeições, pode render discussões interessantes para quem assisti-lo - só não espere um grande filme. 

Desafiando a Arte (Family Fang/EUA-2016) de Jason Bateman com Nicole Kidman, Jason Bateman, Christopher Walken, Maryann Plunkett, Kathryn Hann e Jason Butler Harner. ☻☻

domingo, 17 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Heartstone

Baldur e Blaer: amizade sob ameaça. 

Li várias críticas positivas destinadas a este filme islandês, mas, ainda assim, fui assistir com um pouco de desconfiança. Sorte que ela logo se dissipou diante da bela construção realizada pelo diretor e os atores, com ajuda de bucólicas locações emolduradas por uma bela fotografia. Talvez Heartstone pudesse ser um pouco mais curto, mas ainda consegue ser uma história envolvente sobre dois amigos que começam a ter suas primeiras aventuras amorosas - e tudo se complica quando um deles se descobre apaixonado pelo outro. O filme lida de forma bastante delicada e respeitosa com a situação, obtendo um resultado bastante sincero sobre a amizade dos dois meninos. Thor (Baldur Einarsson) é o melhor amigo de Kristján (Blaer Hinriksson), os dois vivem num vilarejo perto da gélida costa da Islândia e não há muita coisa o que se fazer por lá além de passar o tempo brincando com outras pessoas de sua idade ou arrumando encrenca com quem não pertence à mesma turma. De vez em quando os dois flertam com duas garotas da vizinhança e aprendem a lidar com os primeiros jogos de sedução de forma muito mais desastrada do que propriamente sensual. São em algumas brincadeiras que Thor começa a desconfiar que Kristján sente algo mais do que amizade. Seja por conta de um comentário, um toque ou um olhar, talvez o próprio lourinho esteja perdido entre os sentimentos que nutre pelo amigo. Também não ajuda muito o fato de recentemente um homem da vizinhança ter sido alvo de agressões pelo fato de ser homossexual - o que passa a povoar a mente dos moradores como um verdadeiro fantasma. Os adultos da região também não ajudam muito, são carrancudos e não costuma conversar muito com os filhos que estão com os hormônios a flor da pele, a própria mãe de Thor não parece entender  que o filho está crescendo - e as irmãs costumam implicar com ele o tempo todo. Com tantas relações ásperas, fica fácil entender as emoções de Kristján - que podem gerar decisões extremas. O filme constrói sua história vagarosamente, entre uma festinha aqui, uma briga ali, uma travessura, alguns desentendimentos, flertes entre meninos e meninas das redondezas, mas deixa Kristján cada vez mais desconfortável. Embora possa exagerar na melancolia, Heartstone é bonito de assistir, mescla as emoções de seus personagens às paisagens locais e funciona bem como um rito de passagem, um período de descoberta que pode mudar a forma como nos relacionamos com o mundo e como o próprio mundo se relaciona conosco. Ganhador de mais de trinta prêmios internacionais (incluindo no Festival de Veneza), Heartstone merece atenção pela sua sutileza. 

Heartstone (Hjartasteinn / Islândia - Dinamarca / 2016) de Guðmundur Arnar Guðmundsson com  Baldur Einarsson, Blær Hinriksson, Diljá Valsdóttir e Soren Mallig. ☻☻☻☻

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Jonathan

Pai e filho: catarse sempre adiada. 

Jonathan (Jannis Niewöhner) passou os últimos anos se dividindo entre o trabalho na fazenda da família e os cuidados com o pai, que atravessa estado avançado de um câncer de pele que já se espalha pelo cérebro. Por conta do avanço da doença, Burghardt (André Hennicke) não vê muito sentido em continuar vivo e o fato dele não manter um bom relacionamento com a irmã (Barbara Auer) piora ainda mais seus dias. Burghardt também se incomoda quando o filho lhe pergunta sobre o acidente que levou a sua esposa á morte, na verdade, sempre que aparece alguma questão relacionada ao passado da família, o patriarca se esquiva de qualquer explicação ou resposta elaborada. Pelo menos, diante da situação, a chegada de uma enfermeira (Julia Koschitz) para ajudar a cuidar do enfermo, trará um pouco mais de alegria para Jonathan, que irá aos poucos se aproximar dela e viver um tórrido romance. Metade da duração do filme é sobre o jovem personagem tentando lidar com o peso das responsabilidades que a vida lhe reservou tão cedo, além da inquietação sobre as histórias que sua família evita lhe contar, em sua outra metade, o filme revela o que havia de tão secreto na história de Burghardt, principalmente com a presença cada vez maior de Ron (Thomas Sarbacher), um velho amigo de Burghardt que aparece após muito tempo para ficar ao lado do amigo que está definhando dia após dia. A presença de Ron incomoda alguns personagens, mas deixa Burghaudt mais animado, ao ponto de se tornar insustentáveis as histórias que sempre contou para o filho  - que não irá demorar para perceber que existe algo mais entre o pai e o amigo cada vez mais carinhoso. Jonathan é um filme a que se assiste sem dificuldade e consegue misturar melodrama e erotismo com uma desenvoltura invejável, porém, tem uma dificuldade enorme para lidar com os segredos que habitam a família de Jonathan. O filme demora muito para abordar o impacto da verdade naquele universo e, quando o faz, se apressa para lidar com os dilemas dos personagens. O filme tenta não representar Burghaudt como um vilão, mas patina quando tem que abordar as escolhas diante da atração que os dois amigos sentiam um pelo outro, a responsabilidade com o casamento e a paternidade, assim como a decisão de silenciar seus sentimentos por tanto tempo. Embora tenha um material rico em mãos, além de um elenco bastante dedicado, o diretor Piotr J. Lewandowski também se esquiva da história em torno da família de Jonathan. Assim, o filme toca em algumas questões apenas superficialmente (preconceito, mentiras, segredos, vergonha, culpa...) e adia a catarse de Burghaudt até o último momento. O desenvolvimento deste drama familiar poderia ser ainda mais intenso e interessante, mas prefere não tornar ainda mais densa a relação entre seus personagens. 

Jonathan (Alemanha-2016) de Piotr J. Lewandowski com Jannis Niewöhner, André Hennicke, Julia Koschitz, Barbara Auer e Max Mauff. ☻☻☻

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: O Centro do Meu Mundo

Svenja, Jannik e Louis: relacionamentos em conflito.

Phil (Louis Hoffman) é um adolescente que acaba de voltar das férias para a casa onde mora com a mãe (Sabine Timoteo) e a irmã gêmea, Dianne (Ada Philline). No caminho, ele fica impressionado com a destruição provocada por uma tempestade - que afetou até o jardim de sua casa que foi destruído. Esta sensação de que algo que lhe era tão familiar já não é mais também aparece quando ele percebe que as duas mulheres da casa não estão se falando muito bem. Dianne anda cada vez mais distante e cabe a ele apenas especular o que está acontecendo. Devido ao distanciamento com a irmã, a melhor amiga Kat (Svenja Jung) ganha mais importância em sua rotina, seja na hora de fazer companhia nas tardes depois da aula ou na hora de trocar confidências. É Kat que comenta com o amigo sobre o menino novo da escola que todo mundo parece estar interessado. Trata-se de Nicholas (Jannik Schumann), que não vai demorar para se tornar mais próximo do tímido Phil e os dois terão um romance. O diretor Jakob M. Erwa consegue criar uma versão bastante simpática do livro de Andreas Steinhöfel, fazendo de O Centro do Meu Mundo um filme colorido, com boa trilha sonora e uma edição esperta que consegue ilustrar bem o que se passa na cabeça do protagonista e ganha pontos por não fazer da sexualidade de Phil o único assunto do filme. Diante dos vários flashbacks percebemos que existem alguns problemas familiares que nunca foram bem resolvidos dentro da casa, a começar pela total ausência de informação sobre quem é o pai dos gêmeos, some isso aos vários namorados da mãe e um aborto mal explicado e você terá uma ideia do que passa na cabeça do rapaz. Por outro lado, o filme vive num verdadeiro dilema entre o real e o idílico. Se por um lado todo mundo aceita bem a sexualidade de Phil (com exceção dos pais de Nicholas que nem aparecem no filme e os mocinhos não tem problemas em manter relações sexuais onde tem vontade, seja no vestiário, na casa de amigas, num quartinho...), do outro lado, o filme quer demonstrar que mesmo sem enfrentar preconceitos, o relacionamento dos rapazes também possui problemas causados pela personalidade de ambos. Se Phil é todo romântico e mergulha na relação de peito aberto, Nicholas é mais reservado e racional, o que causa estranhamento e insegurança no parceiro, no entanto, parte do público vai estranhar quando o romance entre os dois vai perdendo espaço na trama. É um filme que que se não fosse por uma e outra cena mais ousada poderia ser apreciado pelo mesmo público que curtiu Com Amor, Simon (2018) nas salas brasileiras. Para além da linguagem pop do filme, ele também funciona por conta de Louis Hofmann, bom ator juvenil que pode ser visto no indicado ao Oscar Terra de Minas (2016) e na série alemã Dark (e quando estreia a segunda temporada, Netflix?). Hofmann é craque em transpirar vulnerabilidade com seu olhar tão esperançoso quanto triste e na pele de Phil, fica fácil simpatizar com seus dilemas. Atuando desde os 13 anos, o rapaz já completou a maior idade e está partindo para Hollywood, onde já fez uma pequena participação em Operação Red Sparrow (2018) e está no novo filme dirigido por Ralph Fiennes, The White Crow. Com vários prêmios em sua terra natal, o rapaz tem tudo para se tornar um astro internacional nos próximos anos.

O Centro do Meu Mundo (Die Mitte Der Welt / Alemanha - Áustria / 2016) de Jacob M. Erwa com Louiz Hofmann, Jannik Schumann, Svenja Jung, Sabine Timoteo, Ada Philine e Svenja Jung. ☻☻☻