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sábado, 19 de novembro de 2022

Ciclo Verde e Amarelo: Medida Provisória

Taís e Enoch: futuro distópico. 

Fechando o Ciclo Verde e Amarelo deste ano, escolhi Medida Provisória que foi um dos filmes mais comentados do ano e isso aconteceu por vários motivos. O principal deles é que o cinema brasileiro atravessou quatro anos de vacas magras sem muito apoio para sua produção e ver um filme de forte viés político como a estreia de Lázaro Ramos na direção é um grande feito. Outro motivo que despertou muita curiosidade é o fato do filme abordar uma distopia (isso mesmo, aquela palavra que virou moda para filmes de ficção científica nos Estados Unidos em que um futuro não muito distante nos guarda um destino pouco agradável). No futuro em questão não se fala mais sobre negros, mas pessoas com "melanina acentuada" ou então "melaninados". Em busca de  reparações históricas, o governo acaba de aprovar uma indenização para descendentes de escravos no Brasil  e quando a primeira senhora vai sacar o dinheiro, um problema impede o recebimento. Este é o primeiro fato que aponta para a ferida de que a ideia de reparação agrega um benefício político para as classes governantes que almejam o título de politicamente corretas ou inclusivas, mas falta vontade para realizar. A coisa então remete à outra solução, bancar o retorno de pessoas com ascendência africana para a terra de seus antepassados, a África. A ideia estapafúrdia surge envolta de um marketing altamente positivo, mas que é vista com desconfiança por alguns. Se a proposta começa como opcional, logo a coisa se torna autoritária ao determinar que todas as pessoas que lembrem "levemente" características africanas devem ser deportadas. Começa então uma verdadeira caçada aos cidadãos que não desejam de forma alguma sair do seu país de origem. Nestes dois pontos existem os elementos mais interessantes do filme, o primeiro é como um discurso é apropriado pela classe dominante de forma tão dissimulada ao ponto de ser totalmente distorcida em sua ideia matriz. O outro é a fragilidade de um convivência inter-racial pacífica fajuta que não precisa de muito para revelar os preconceitos que se escondem abaixo da superfície. Em outros tempos eu diria que esta minha afirmação é um exagero, mas tendo em vista a realidade escancarada dos discursos de ódio nas redes sociais, vemos que uma estapafúrdia Medida Provisória 1888 vista no filme (não por acaso, ano da Lei Áurea) traria os mesmos desdobramentos que vemos no filme. Merecem destaque no filme várias frases que remetem diretamente ao simulacro que presenciamos diariamente, além de alusões históricas de ontem (como a ideia de branqueamento nacional) ou de hoje ("como não vimos o que estava acontecendo, como foi que rimos disso?"). Como diretor Lázaro Ramos traz um belo gosto pela provocação e sabe conduzi-la com drama e até algum humor, mas ao estabelecer o centro da narrativa no casal Capitu (Taís Araújo) e Antônio (o internacional Alfred Enoch) o filme mantem um belo fio condutor para o que tem em mãos, mas que encontra no desfecho um problema. Diante da abrasiva alegoria que constrói ao longo da sessão, o final, ainda que poético, não consegue fechar a história que tinha em mãos de forma satisfatória. Podem dizer que simboliza que a luta  (ou a resistência, termo utilizado várias vezes no filme) continua, mas me pareceu que a genial ideia do filme ficou no meio do caminho (assim como aquela cena sobreposta da morte de dois personagens quase ao mesmo tempo, que pretende emocionar num manifesto antiviolência, mas que não tem desdobramento algum na vida dos outros personagens, seja de quem viu, quem matou ou quem sofre), se faltou amarrar estes momentos, sobram aqueles diálogos que pretendem narrar o que já estamos vendo na tela e, por isso mesmo, são desnecessários. Medida Provisória é um filme interessante e necessário, mas parece não se dar conta dos valiosos desdobramentos que deixa pelo caminho, no entanto, Lázaro Ramos tem uma estreia bastante promissora como cineasta. 

Medida Provisória (Brasil/2022 - Brasil) de Lázaro Ramos com Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Luis Miranda, Flávio Bauraqui, Mariana Xavier e Paulo Chun. ☻☻☻

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Ciclo Verde e Amarelo: Meio Irmão

 
Sandra e Jorge: tentando se manter de pé. 

Quando conhecemos Sandra (Natália Molina) ela já parece um tanto acostumada com o desaparecimento da mãe. Existe aquela sensação estranha que a mãe já fez isso outras vezes e, na expectativa dela retornar algum dia, as horas foram passando, se acumulando e ela foi se dando conta de que ela nunca ficou tanto tempo longe. Sem receber notícias, a ausência começa a pesar por conta de situações que dependiam de sua responsável para resolver. Sandra começa a sofrer ameaças de despejo pelo aluguel atrasado, tem luz e água cortadas, o que a deixa cada vez mais arredia e até agressiva na escola. O pai não se preocupa com o que está acontecendo, já que separado há algum tempo das duas, já está um tanto saturado do comportamento da ex-mulher, mas nada que justifique a total negligência com relação à sua filha. Sem ter para quem recorrer, Sandra começa a realizar pequenos furtos na vizinhança (inclusive de baldes de água para tomar banho), até que cruza o caminho de seu meio-irmão, Jorge (Diego Avelino) com quem parece ter convivido durante algum período da infância, antes que ele optasse por viver com o pai (Francisco Andrade). Jorge e o pai são bem próximos, mas o rapaz ainda tem dificuldades para assumir a atração que sente por um amigo tatuador (Dico Oliveira) - e um incidente problemático deixará a situação ainda mais delicada entre os dois. Quando se reencontram a relação entre  Sandra e Jorge não é das melhores, os dois cresceram e se afastaram, existem traços de ressentimentos, ciúme e até rancores por conta de uma relação que ao invés de se sustentar ao longo do tempo, só intensificou a distância. O filme de Eliane Coster parte da ideia do abandono parental para entrelaçar uma interessante rede de relações entre seus personagens, contrastando a ausência da mãe com a presença atenciosa do pai de Jorge, o afeto aparece aqui e ali em relações um tanto cruas (e por vezes violentas), mas surge de forma bastante impactante em cenas como os meio irmãos no necrotério ou na cena de sexo sem firulas em que a câmera não desvia da nudez masculina. O cenário da periferia paulistana funciona bem como abrigo aos personagens, mas o roteiro cria para si um problema ao ampliar sua rede de personagens e situações sem desenvolver todas plenamente (e por vezes eu pensei se acabou o dinheiro e o filme ficou pronto com o que deu para fazer), porém o filme se beneficia muito das atuações de seu elenco desconhecido que imprime muita sinceridade nas cena, além de utilizar um humor discreto que se encaixa com perfeição na narrativa. Ainda que não alcance todos os pontos que propõe, Meio Irmão pode ser visto como um filme surpreendente perante o que apresenta. 

Meio Irmão (Brasil - 2020) de Eliane Coster com Natália Molina, Diego Avelino, Francisco Gomes, Dico Oliveira e André Andrade. ☻☻☻☻

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Marighella

Seu Jorge: escolha criticada em atuação premiada. 

Lançado no final do ano passado após diversos adiamentos, Marighella, o filme de estreia de Wagner Moura na direção já chegava aos cinemas com uma campanha de divulgação que aconteceu quase que por conta própria. Seja pela audácia de contar a história de um personagem histórico que lutou contra o regime militar (levando em conta o cenário político nacional recente), seja por ter escolhido Seu Jorge para viver o protagonista ou pelas diversas vezes em que foi apontada censura sob a não chegada dos filmes na telona. No fim das contas, quando o filme estreou havia tanto burburinho em torno dele que seria até difícil separar o que ele representava de suas qualidades cinematográficas. Entre discursos de direita e esquerda tentarei falar sobre o filme. Não resta dúvidas que diante de toda sua experiência em produções cinematográficas nacionais ou internacionais, Wagner Moura aprendeu direitinho como fazer cinema com C maiúsculo, afinal, sua qualidade técnica é invejável. Seu Jorge dá conta com grande vigor do personagem, apresentando suas convicções, sem perder de vista os traços que lhe tornou um líder carismático da Ação Libertadora Nacional, que reunia pessoas em prol da causa de "libertar o povo brasileiro da opressão". Como o filme repete várias vezes, "a mídia estava amordaçada" e o ponto de vista do grupo nunca era divulgado, deixando que fossem vistos no limiar entre a militância e o crime. Para dar um suporte dramático ao lado histórico do filme, o texto tenta contar a história de personagens que estavam em torno do protagonista, abordando seus dilemas pessoais de forma bastante concisa, sejam jovens, jornalistas ou líderes que veem na figura do policial Lucio (vivido por Bruno Gagliasso) a encarnação da opressão. Obviamente que o filme toma algumas liberdades para tornar sua trama mais envolvente, se enrola em algumas situações que parecem não ter muita serventia (como o assalto ao trem ou a entrada no banco com o filho por perto), despeja cenas de violência bastante gráfica (de fazer fechar os olhos nas cenas de tortura) e romantiza alguns personagens. Enfim, faz o filme com todos os ingredientes necessários para embalar um thriller político interessante. No entanto, alguns pontos me incomodaram, como o uso de frases feitas um tanto batidas e a dificuldade de fazer um corte final no filme, perto do final ele já me parecia interminável... e aquelas cenas finais sucessivas só aumentaram esta impressão. No entanto, nada que prejudique a estreia audaciosa de Wagner Moura na direção, ainda que ele carregue muito do estilo de José Padilha (Tropa de Elite/2007)  na direção, o moço tem tudo para fazer bonito em seus projetos atrás das câmeras. O filme concorreu a 17 categorias no Grande Prêmio Cinema Brasil e levou oito para casa, incluindo Melhor Filme, Direção e Melhor Ator (Seu Jorge). 

Marighella (Brasil-2019) de Wagner Moura com Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Adriana Esteves, Humberto Carrão, Luiz Carlos Vasconcelos, Herson Capri, Bella Camero e Jorge Paz. ☻☻☻☻

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Ciclo Verde e Amarelo: Mar de Dentro

 
Monica e Rafael: aprendizados com as armadilhas da vida. 

Manu (Monica Iozzi em sua estreia no cinema) é uma publicitária que já sai a algum tempo com Beto (Rafael Losso), os dois estão cada vez mais próximos e quando consideram que tudo já está bom o suficiente, ela se descobre grávida. Diante da surpresa ela não sabe muito bem o que fazer, mas aos poucos percebe que o parceiro está disposto a manter um relacionamento sério e assumir as responsabilidades do que pode ser o início de uma família. Tudo vai bem até que um golpe do destino muda a vida deles. Dirigido por Dainara Toffoli, o filme Mar de Dentro parece ser um filme simples, mas torna-se surpreendente pela forma como desenvolve sua história em cima das mudanças que acontecem na vida de sua protagonista. O que em muitos filmes é visto de forma cômica ou romantizada, aqui é apresentado de forma muito honesta e sincera, os enjoos, a sensação de solidão, as dores, as mudanças no corpo, a hora do parto, a mudança de rotina, a volta ao trabalho, os palpites dos outros e até a armadilha de ter que achar-se auto-suficiente para lidar com o novo dia-a-dia surgem na tela. O texto de Dainara e Elaine Teixeira transborda a sensação de que a maternidade é algo tão transformador como assustador e, embora Manu tenha uma vida financeira confortável para conseguir pagar duas babás, isso não a exime de ter que encontrar diversas vezes o equilíbrio de sua vida enquanto profissional, mãe e mulher. Gosto muito da forma como o filme se desenvolve principalmente através de imagens, sem ficar entregando tudo mastigadinho para o espectador, deixando que a plateia preencha as lacunas deixadas ao longo da narrativa. Neste ponto, outro destaque é o trabalho de Monica Iozzi que está perfeita na pele de Manu. Lembro de Monica quando ela foi escolhida como apresentadora do finado CQC e de lá para cá ganhou prêmios como apresentadora e até se aventurou por novelas, mas nada que se compara com seu trabalho intimista de grandes olhos expressivos que sabem transmitir o que se passa na mente da personagem. Durante a sessão o filme aponta vários caminhos que deixa de seguir (aborto? Luta pela guarda do filho? Depressão pós-parto?) e opta por desenvolver sua história a partir da personagem que observa a realidade e modifica a forma como lida com ela. Não por acaso, a belíssima cena final é um bálsamo perante tantas tempestades enfrentadas ao longo do caminho, além do enquadramento que evoca diretamente a ideia da família reunida mais uma vez. Fugindo da comodidade, o roteiro sutil acerta em cheio. Filmão. 

Mar de Dentro (Brasil - 2020) de Dainara Toffoli com Monica Iozzi, Rafael Losso, Gilda Nomacce, Fabiana Guglielmetti, Zé Carlos Machado e Magali Biff. ☻☻☻☻

terça-feira, 15 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: A Viagem de Pedro

 
Cauã: imperador à beira da loucura. 

A cineasta Laís Bodansky já participou de tantos projetos interessantes que sempre que algum novo filme dela é lançado minha curiosidade começa a soar uma espécie de alarme. Foi assim também com A Viagem de Pedro - que desde o início me causou estranhamento a ideia de ter Cauã Reymond na pele de Dom Pedro I. Imaginar o galã na pele de um herdeiro real português deve ter sido a tarefa mais difícil no início do filme, talvez, por isso eu considere que a produção demora para engrenar. O filme conta a história real da viagem do Pedro I de volta à Portugal em 1831 para guerrear com seu irmão, D. Miguel (Isac Graça) e colocar sua filha no trono. Na viagem, Pedro deixou seu filho de cinco anos reinando no Brasil e saiu daqui sobre gritos de uma população que não o enxergavam como digno de ser um imperador brasileiro. Da mesma forma, os portugueses também tinham dificuldade em vê-lo como digno de reinar por lá, já que seus pais vieram para o Brasil fugindo de Napoleão Bonaparte quando ainda era pequeno. Durante a viagem do título, o filme pretende abordar estas e outras questões de forma romantizada, já que não existem registros sobre o que se passava na cabeça de Dom Pedro I durante a longa viagem. Assim, o filme torna-se cada vez mais interessante conforme investe nos delírios, pesadelos e lembranças deste personagem histórico, sem deixar de lado todas as especulações sobre o fato de ter contraído sífilis em suas inúmeras aventuras sexuais e as crises de epilepsia ao longo da viagem. O relacionamento com suas esposas e amantes aparecem em algumas cenas, assim como vários diálogos sobre sua impotência sexual e outros detalhes de alcova (e muita nudez, inclusive). Filmado de forma claustrofóbica, o filme consegue transformar toda sua ambientação cênica em uma espécie de labirinto mental do protagonista (e Cauã Reymond quanto mais doido fica, melhor funciona). No filme se fala várias línguas (identifiquei pelo menos cinco) e confere à viagem a ideia de uma verdadeira Torre de Babel, sem perder de vista os toques anacrônicos que aparecem aqui e ali (alguns diálogos parecem ouvidos na esquina e provocou algumas risadas enquanto eu assistia, a relação dele com os escravos também não parece verossímil), mas o que mais me incomodou foi a sensação que o barco estava parado o tempo inteiro até chegar em Portugal (!). No fim das contas A Viagem de Pedro é um grande devaneio sobre uma viagem histórica importante, pena que quando as viagens criativas não acontecem o filme seja bastante cansativo. 

A Viagem de Pedro (Brasil - Portugal / 2022) de Laís Bodanzky com Cauã Reymond, Luise Heyer, Francis Magee, Welket Bungué, Izabel Zuáa, Luísa Cruz, Isac Graça e João Lagarto. ☻☻☻

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Meteoros

 
Pavoski: amadurecimento pós-apocalipse. 

Filmes sobre a passagem da adolescência para a vida adulta são bastante comuns e já se tornaram até um gênero cinematográfico ("coming of age") e, na grande maioria das vezes, o desafio de seus realizadores é conjugar o interesse sexual de seus personagens com desventuras um tanto inusitadas. Quando mais imprevisíveis são as desventuras, mais original o filme parece. Se em diversas outras sociedade existiam ritos que marcavam a passagem para a vida adulta, a nossa sociedade carece deste momento, o que confere ainda mais importância para a finalização do Ensino Médio, a ida para a faculdade e o primeiro emprego. O final do Ensino Médio é o período vivenciado pelos amigos Fralda (Matheus Pavoski) e Tito (Vinícius Beu). Os dois se conhecem há muito tempo e estão ansiosos para iniciarem suas vidas sexuais  - o que rende alguns problemas junto às meninas da escola. Em sua parte inicial, o filme não difere muito do que vemos em filmes adolescentes já realizados centenas de vezes, a diferença fica por conta do momento em que os dois bolam um plano de levar algumas garotas para um sítio afastado da cidade no carro que Tito acaba de comprar e... tudo sai errado. Na companhia de algumas drogas, a dupla irá para uma cidade deserta e passará por alguns apuros que podem custar até a vida deles. Meteoros é o filme de estreia de Luis Carone, que possui experiência em séries como Pico da Neblina (HBO) e Cidade Invisível (Netflix), o rapaz sabe contar sua história e aqui o faz num filme adolescente dividido em três atos: no primeiro é a típica comédia adolescente sobre namoro, no segundo é sobre a ideia de insegurança e isolamento de quem se perdeu no mundo e acha não vai encontrar de novo o caminho de casa (uma simbologia interessante perante as angústias dos amigos que mudam de foco conforme colocam a vida em risco), já a terceira é aquela em que precisam assumir responsabilidade e agir por conta própria para sair da enrascada em que se meteram, nesta parte, ainda precisem notar que precisam da ajuda de adultos, colocar a amizade sob nova perspectiva e, principalmente, deixar algumas ilusões de lado. Entre os atos que possui, meteoros subverte tudo o que achamos dele, até que o inevitável acontece com Fralda (Pavoski não convence como um rapaz de dezoito anos, mas a forma como o interpreta em desajeitada presença física até que funciona) que passa a ser chamado pelo seu nome e não mais pelo apelido infantilizante. No entanto, o destaque do elenco vai para a participação de Cyria Coentro que rouba a cena dos dois aventureiros sem fazer muito esforço. Meteoros é um bom filme sobre assumir responsabilidades e crescer além do tamanho e pelos pubianos. 

Meteoros (Brasil-2022) de Luis Carone com Matheus Pavoski, Vinícius Beu, Cyria Coentro e Carol Medeiros. ☻☻☻

domingo, 13 de novembro de 2022

CICLO VERDE E AMARELO: Os Primeiros Soldados

 
Reanata e Johnny: ótimas atuações em meio à chegada do HIV. 

Começando o Ciclo Verde e Amarelo de 2022, escolhi um filme que assisti meio que por acaso numa noite dessas. Trata-se de "Os Primeiros Soldados", que aborda um tema ainda pouco explorado no cinema brasileiro. Aqui temos a história de Suzano (Johnny Massaro) que passou um tempo na Europa antes de voltar para sua cidade natal para visitar a irmã (Clara Choveaux) e o sobrinho no Espírito Santo. O ano é 1983, mas durante o período em que esteve fora nada parece ter mudado com relação à vida de homossexuais em suas cidade, afinal, eles continuam se encontrando de forma clandestina e sofrendo preconceitos de formas variadas. Se para ele a realidade já é complicada, imagine para Rose (Renata Carvalho), uma travesti discriminada no transporte público ou no hospital em que grita por atendimento. A coisa só complica com uma doença diferente que ninguém sabe como é transmitida ou como tratar. Estamos nos anos 1980. O HIV começava a surgir no Brasil e contaminar principalmente um grupo já discriminado, adepto do sexo livre (presente da contracultura das décadas anteriores) e que era visto de forma marginalizada pela sociedade, especialmente quando a chamada "peste gay" apresentava seus primeiros sintomas. Dirigido por Rodrigo de Oliveira, Os Primeiros Soldados faz alusão aos primeiros que foram para a frente de batalha do enfrentamento da AIDS em meio a todos os mecanismos sociais que os discriminavam e não faziam a mínima ideia de como lidar com um vírus que liquidava a imunidade do organismo humano. A ideia do título fica ainda mais forte quando Suzano e Rose se juntam a Humberto (Vitor Camilo) numa casa de campo utilizando recursos enviados pelo parceiro estrangeiro de Suzano, no que seria a busca de um tratamento que ainda era experimental. O diário de bordo realizado pelo trio torna o filme ainda mais angustiante, seja pelo isolamento, seja pela falta de perspectivas e a ideia de que a morte está cada vez mais perto. A atmosfera de festas e conquistas sexuais logo é substituída por uma mais fúnebre e desesperançada, construindo um retrato bastante eloquente do período em que a trama se passa. Johnny Massaro apresenta aqui mais um belo trabalho, no início com um tom afetado que aos poucos se diluí em olhos marejados. Ele está muito bem acompanhado de Renata Carvalho (que também aparece no forte Vento Seco/2020, excelente na pele de uma mulher trans artista que ainda é rotulada de transformista. Os Primeiros Soldados é tão contundente que parece até ser uma dolorosa história verídica. Talvez seja. 

Os Primeiros Soldados (Brasil-2021) de Rodrigo de Oliveira com Johhny Massaro, Renata Carvalho, Clara Choveaux, Vitor Camilo e Alex Bonini. ☻☻☻☻