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sábado, 4 de julho de 2026

CATÁLOGO: Johns

David: antes de Dewey. 

Curioso diáriw, é estranho como a mente de um cinéfilo funciona. Enquanto eu assistia Spider-Noir eu reconheci o Lukas Haas (que era aquele garotinho do clássico A Testemunha/1985, único filme que indicou Harrison Ford ao Oscar) e lembrei de outro filme protagonizado por Haas: Johns. Eu só o assisti recentemente ao encontrar no Youtube. O longa marcou a estreia de Scott Silver no cinema (depois ele dirigiu o fracassado Mod Squad/1999 e preferiu ser apenas roteirista de filmes badalados como 8Mile/2002 e ser indicado ao Oscar por O Vencedor/2010 e Coringa/2019. Seu filme de estreia conta a história de dois amigos que ganham a vida como garotos de programa nas ruas de Los Angeles. John (David Arquette no papel que deu destaque suficiente para conseguir um papel como o policial Dewey de Pânico/1996) está prestes a completar 21 anos nas vésperas do natal. Ele sonha passar aquela noite no elegante Park Plaza Hotel, mas para isso ele precisa atender alguns clientes e juntar dinheiro. Acontece que ele também tem uma dívida a ser paga com o violento Jimmy (Terrence Howard) e vive brigando com a namorada, Nikki (Allana Ubach). Seu alento parece ser a amizade com Donner (Lukas Haas) que sonha ser ator, mas também ganha a vida nos perigos das ruas de Los Angeles. Entre policiais e clientes perigosos, os dois pensam em largar aquela vida, mas o risco que correm pode tornar já tarde demais.  Apesar do ritmo nervosinho e da fotografia poderiam sugerir uma comédia, Johns é um filme bastante melancólico. Apesar do diretor filmar sem muita personalidade, o elenco e os situações que parecem improvisadas prendem a atenção. Não espere nudez ou cenas de sexo, o interesse de Silver é outro. Vale ressaltar que o diretor escreveu o roteiro baseado em relatos de vários garotos de programa que venderam suas histórias por vinte dólares. 

Johns (EUA - 1996) de Scott Silver com David Arquette, Lukas Haas, Keith David, Wilson Cruz, Alanna Ubach, Richard Kind, Terrence Howard, Elliot Gould e Nicky Katt. ☻☻☻

quinta-feira, 30 de abril de 2026

PL►Y: Kill Bill - Volume I e II

Uma: a Mamba Negra. 
Saudoso diáriw, recentemente chegou aos cinemas uma nova versão de Kill Bill em que a montagem transforma os dois volumes dos filmes de 2003 em apenas um, ou seja, faz o que Tarantino não conseguiu fazer na época do lançamento. A ideia da nova versão é costurar tudo com alguns extras e correlações entre fatos dos volumes de forma mais orgânica. Na época diziam que um filme representava o ocidente e o outro o oriente, talvez por isso tanta gente curta mais um do que o outro. Quentin Tarantino estava em baixa quando lançou a história da noiva com sede de vingança, ela após quase morreu no dia de seu casamento pelas mãos da mesma gangue de mercenários da qual fazia parte. Uma Thurman ganhou o papel mais famoso de sua carreira e foi até indicada ao Globo de Ouro pelo papel por viver a assassina de traje amarelo e hattori hanzo na mão. Tarantino fez a festa com sangue jorrando da tela, diálogos absurdos e cenas de ação elaboradas (algo até então inédito em sua carreira). A violência desenfreada o redimiu nas bilheterias depois que ele tentou ser mais sério em Jackie Brown (1997). A trama é um fiapo e puro pretexto para a plasticidade estética e a violência estilizada cheia de referências batidas no liquidificador pop do diretor. Não existe subtexto, reflexões intelectuais em torno da noiva, apenas uma trama de vingança, crua e cheia de cenas memoráveis para ficar na cabeça dos fãs. O encontro da noiva com cada um de seus algozes sempre rende algo interessante até o desfecho derradeiro em que o título se torna inevitável. O "I'm Gonna Kill Bill" só deve ser menos famoso do que o assobio de Daryl Hannah (de tapa olho) no corredor do hospital. Quentin disse que lançaria uma continuação da saga com uma nova vingança, mas acho que mudou e ideia já que criou para si a maldição de criar seu último filme em breve. 

Kill Bill - Volume I e II (Kill Bill - Vol I & II / EUA - 2003) de Quentin Tarantino com Uma Thurman, Lucy Liu, Michael Madsen, Daryl Hannah, David Carradine, Vivica A. Fox, Chiaki Kuryiama e Sonny Chiba. ☻☻☻

domingo, 27 de julho de 2025

CATÁLOGO: Meu Querido Companheiro

David e seus amigos: o fantasma da AIDS nos anos 1980. 

Meu Querido Companheiro de Norman René entrou para a história do cinema como o primeiro filme de Hollywood a tratar a propagação da AIDS. Lançado em 1989, o filme trazia para as telonas um tema bastante atual, além de difícil e bastante espinhoso de ser trabalhado. Assistido nos dias atuais, percebe-se que apesar do ritmo arrastado e do tom novelesco, o filme até que envelheceu bem na forma como lida com o tema. O maior trunfo do filme é driblar os estigmas que ainda eram bastante presentes na época, chegando até mesmo a citá-los mas de forma que ainda hoje conseguimos ver como uma crítica ao olhar limitado que o período possuía com relação à doença e sua proliferação entre homossexuais. A narrativa inicia em 1981, quando começam as primeiras notícias em torno da estranha doença que afeta o sistema imunológico de suas vítimas. No centro da trama está um grupo de amigos gays que precisará lidar com aquela ameaça desconhecida, com as perdas que se seguirão no grupo e os preconceitos gerados por ela. O roteiro de Craig Lucas estrutura a história com passagens de tempo que atravessam a década de 1980, revelando os rumos que as vidas dos amigos com o HIV pairando sobre eles.  O mais interessante é que o roteiro consegue construir identidades para seus personagens para além do fato de serem homossexuais (algo que até hoje é uma dificuldade em produções de estúdio), eles possuem suas vidas estruturadas, profissões, relacionamentos que perduram, terminam e recomeçam. Além disso, consegue retratar o temor de perceber que um amigo está emagrecendo demais ou a ameaça de uma mancha que aparece na pele, além de marcas bastante comuns sobre o período em que sabiam pouca coisa sobre a doença, o que tornava o uso de objetos um cumprimentos algo visto como "perigoso" entre membros da comunidade, afinal, ainda era um mistério a forma omo a doença era transmitida. Obviamente que por ser feito nos anos 1980, a maioria do elenco é formada por atores héteros, rendendo até uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante para Bruce Davison na pele de David, que terá que lidar com a doença de seu parceiro. O longa também recebeu o prêmio do Júri no Festival de Sundance e ainda é visto como uma das obras mais importantes de seu período de lançamento. A temática do filme já foi explorada outras vezes, seja na estupenda minissérie Angels in America (2003) ou em filmes como E a Vida Continua (1993) e The Normal Heart (2014). Uma curiosidade é que o filme independente Buddies (1985) recebeu menos projeção em sua época de lançamento, mas oferece uma visão bem mais sombria sobre o período do que a oferecida em Meu Querido Companheiro, que peca um pouco pela forma um tanto formal com que lida com o drama dos personagens.  

Meu Querido Companheiro (Longtime Companion / EUA - 1989) de Norman René com Bruce Davison, Campbell Scott, Dermot Mulroney, Mary Louise Parker, Patrick Cassidy, John Dossett e Michael Schoeffling. ☻☻☻

sábado, 26 de julho de 2025

CATÁLOGO: Aquário

Katie e Michael: desconforto em forma de filme.

Mia (Katie Jarvis) mora com a mãe, Joanne (Kierston Wareing) e a irmã caçula, Tyler (Rebecca Griffiths) no subúrbio e passa a maior parte do tempo se metendo em encrencas com os moradores locais. Na primeiras cenas fica evidente que Mia não tem muito o que fazer para passar o tempo, ao mesmo tempo fica claro que ela não tem alguém que preste muita atenção no que ela está fazendo. Depois dos momentos iniciais em que a história ainda parece não ter sido encontrada, a adolescente conhece o novo namorado de sua mãe: Connor (Michael Fassbender). Connor começa a ser figura sempre presente na casa e se aproxima cada vez mais de Mia, por vezes tendo atitudes que fazem a plateia começar a duvidar de suas boas intenções junto daquela família. Carente por atenção, Mia deixa que Connor preencha cada vez mais as lacunas deixadas em sua vida emocional sem perceber o quanto ele pode se aproveitar de toda aquela situação de vulnerabilidade em que se encontra. Aquário (na verdade o Fish Tank do título original) faz alusão à uma das cenas que demonstra mais sobre a personalidade de Connor do que se imagina, já que ele ensina Mia a pegar um peixe com as mãos ao perceber exatamente a hora certa de agarrá-lo. Este é o segundo longa-metragem de Andrea Arnold e se tornou a obra mais marcante de sua carreira. A diretora inglesa que ganhou um Oscar pelo seu curta-metragem Wasp (2004) e gosta de voltar sua câmera para personagens em situações sociais complicadas, o que geralmente se molda muito bem ao seu estilo áspero de direção. Arnold filma como se fizesse um documentário sobre a vida de seus personagens, o que imprime bastante realismo e uma certa angústia em suas narrativas. Confesso que tenho dificuldades para lidar com sua forma de fazer cinema, mas sempre tive curiosidade em assistir Aquário por conta das críticas positivas que sempre ouvi em torno dele. Considero que este seja seu melhor trabalho, já que após o início um tanto caótico, o filme se concentra cada vez mais em uma dinâmica perigosa entre Mia e Connor, dois personagens plenamente valorizados por seus intérpretes desconhecidos até então. Difícil acreditar que este foi o primeiro trabalho de Katie Jarvis como atriz devido a profundidade que apresenta, especialmente na última e desoladora parte do filme. Já Michael Fassbender estava prestes a se tornar mundialmente reconhecido após sua participação em Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino no mesmo ano. Aqui ele utiliza seu charme e talento habitual para construir um personagem execrável e tornar o filme ainda mais desconfortável para o espectador. Dolorido de assistir, o filme se desenvolve de forma hipnótica até que o drama ganha tons de suspense perto do desfecho. Aquário foi recentemente lembrado na lista do New York Times sobre os 100 melhores filmes do século XXI e merece ser descoberto. 

Aquário (Fish Tank / Reino Unido - 2009) de Andrea Arnold com Katie Jarvis, Michael Fassbender, Kierston Wareing, Rebecca Griffiths, Harry Treadaway e Jason Maza. ☻☻☻☻

sábado, 12 de julho de 2025

CATÁLOGO: Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer

Shreryl e Kyle: os primórdios de Twin Peaks. 

Faz tempo que assisti Fire Walk With Me, ou como ficou conhecido no Brasil: Os Últimos Dias de Laura Palmer. Este é o sexto longa-metragem de David Lynch, lançado no ano seguinte após o cancelamento da cultuada série de televisão Twin Peaks (1989-1991), programa que revolucionou as minisséries televisivas ao inserir uma linguagem mais cinematográfica à uma estrutura novelesca temperada com mistério e surrealismo. A série (que está disponível na MUBI atualmente) marcou época e costuma ser mais lembrada pela sua era de ouro do que a pataquada de esquisitices que se tornou quando Lynch se afastou na produção para se dedicar à Coração Selvagem (1990), seu quinto longa e ganhador da Palma de Ouro em Cannes. Bastou Lynch se afastar para o programa se perder em um monte de bobagens sem sentido e jogar no lixo o seu principal fio condutor: quem matou Laura Palmer? Lynch até tentou salvar o programa nos últimos episódios, mas o martelo já estava batido e a série foi cancelada, até retornar em 2017 com mais dezoito episódios - que embora não tenha alcançado o apelo da série original, o resgate fez a glória dos fãs de Lynch. O título deste filme no Brasil rendeu uma grande decepção aos fãs da série, já que não explica detalhadamente o que houve com Laura Palmer (Sheryl Lee), mas quem  é fã de Lynch já tinha entendido muito bem ao final da série o que tinha acontecido com a cobiçada jovem loura da pacata cidade que dá título à série. A série já deixava claro que debaixo de toda a paz da cidadezinha, havia algo de sórdido escondido entre seus habitantes e Laura, tinha uma vida secreta com parceiros sexuais variados, visita a inferninhos, investimento em fetiches e... todo este apetite pela autodestruição parece motivada por conta dos abusos vividos por Laura em sua própria casa. A situação de abuso parece relacionada à morte de outra personagem, Teresa Banks (Pamela Gidley), a amante de Leland Palmer (Ray Wise), o pai de Laura. Quando o filme começa, tudo gira em torno da morte de Teresa e a investigação realizada pelo agente Chester Desmond (Chris Isaak) e seu parceiro Sam Stanley (Kiefer Sutherland) e, logicamente, que Lynch não seguiria uma trama de investigação convencional, mudando o rumo antes da primeira hora de filme. Lynch reproduz aqui a atmosfera da série, com sua cadência lenta e contemplativa, seguindo Laura em seus encontros amorosos e situações de crise ao ser assombrada por Bob (Dana Ashbrook), um personagem misterioso que somente ela é capaz de ver. A maioria dos personagens importantes da série aparecem pouco e chama atenção a substituição de Lara Flynn Boyle por Moira Kelly no papel de Donna (dizem que a atriz já estava de saco cheio de lidar com sua personagem da série e queria novos rumos na carreira), a melhor amiga de Laura. Lynch recria a atmosfera da série e faz um ótimo contraste do tom de novela com a sordidez dos personagens e seus habituais momentos em que parece divagar em outra dimensão que está mais relacionada com os níveis de consciência do que com o multiverso. Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer não acrescenta muito ao universo da série (que rendeu várias outras produções e até um game para os fãs), mas ressalta que sobre aquele crime, Lynch não tinha mais muita coisa a dizer. 

Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk with Me / EUA - 1992) de David Lynch com Sheryl Lee, Ray Wise, Chris Isaak, Kiefer Shutherland, Kyle MacLachlan, Moira Kelly, David Bowie, Mädchen Amick, Pamela Gidley, Heather Graham, Peggy Lipton, James Marshall, Eric DaRe e David Lynch. ☻☻ 

sábado, 24 de maio de 2025

PL►Y: A Cura

Yakusho, Ujiki e Hajiwara: e se serial killer tiver super-poderes?

Muitos consideram o cineasta Kiyoshi Kurosawa um mestre do terror japonês. Dirigindo desde a década de 1970, ele acumula vários títulos que são dignos de culto pelos fãs. Um deles é este intrigante A Cura, que foi lançado em uma época em que os serial killers cinematográficos estavam em alta em produções de Hollywood - e se David Fincher soube fazer a diferença com Se7en (1995), dois anos depois, Kurosawa (que não tem nenhum parentesco com o Akira Kurosawa) também soube deixar a plateia hipnotizada com o suspense de sua trama. O filme conta a busca do detetive Kenichi Takabe (Kôji Yakusho) pela relação que existe entre uma série de crimes cometidos por pessoas diferentes em circunstâncias semelhantes. No entanto, alguns elementos demonstram que os crimes possam ter uma relação entre si. Seus autores eram pessoas inofensivas que, subitamente, sem maiores explicações, assassinaram pessoas próximas. O interessante é que a trama conta esta história de uma forma diferente, ao invés de manter o foco somente no detetive, a narrativa parece um tanto dispersa no início, apresentando vários personagens e, aos poucos, nos damos conta do painel traçado como se fosse um mapa das pistas que levarão até o provável responsável pelas atrocidades. Quando ele aparece (um ótimo trabalho de Masato Hagiwara), esquecido, perdido, sem identidade, somos incapazes de dizer do que aquele jovem é capaz de fazer - mas não demora para que possamos perceber o quanto aquela figura difusa é ameaçadora. Em determinados momentos o detetive parece até mais ameaçador do que o rapaz de fala macia e conversas enigmáticas. Colocando o vilão emaranhado na mente de seus "cúmplices", o filme assume riscos que o torna ainda mais estimulante e surpreendente, deixando os caminhos do detetive tão imprevisíveis quanto os crimes cometidos. Não por acaso, o final lembraria o filme de Davi Fincher se o roteiro não se esticasse mais um pouco e apresentasse que ameaça pode estar em qualquer lugar. Vendo o filme lembrei de uma conversa sobre Longlegs/2024 em que dois alunos (que curtem muito cinema) me recomendaram este filme que não estava disponível em streaming algum (agora está fresquinho no Filmicca). Kiyoshi Kurosawa faz um filme seco e até elegante perante a atmosfera psicológica que emana desde os momentos iniciais. 

A Cura (Cure/Kyua - Japão/1997) de Kiyoshi Kurosawa com Kôji Yakusho, Masato Hagiwara, Tsuyoshi Ujiki, Anna Nakagawa, Yoriko Dōguchi, Yukijirō Hotaru e Ren Osugi. ☻☻☻☻

sexta-feira, 21 de março de 2025

CATÁLOGO: Encaixotando Helena

Sands e Fenn: thriller erótico ou suspense bizarro?

Não estava nos meus planos escrever sobre este clássico das locadoras dos anos 1990, mas como planejei fazer uma retrospectiva de David Lynch ao longo do ano, achei que seria de bom tom comentar o filme de estreia de sua herdeira, a cineasta Jennifer Lynch. Jennifer atualmente trabalha de forma recorrente dirigindo episódios de séries de TV (como American Horror Story, Ratched e Capote Vs The Swans) e demonstrava desde o início um gosto e estilo bastante peculiares para contar histórias (que logo disseram ser influência do pai). Seu primeiro longa metragem chamou atenção antes mesmo de estrear por conta da desistência da estrela Kim Basinger em protagonizar o filme, foi alegada uma quebra de contrato que gerou um processo milionário. Vale a pena lembrar que o filme foi concebido em meio aos anos 1990 e com todo o sucesso de Instinto Selvagem/1992 (que Kim também rejeitou o papel que acabou ficando com Sharon Stone), todo mundo estava atrás de um thriller erótico para chamar de seu (até Madonna cometeu Corpo em Evidência/1993 no mesmo ano deste aqui e teria interpretado Helena se não tivesse Evita nos planos). Foi o período em que o puritanismo de Hollywood cedeu espaço ao erotismo em nome de bilheterias robustas, mas ao invés disso, muitos fracassos se seguiram (incluindo o filme seguinte de Sharon Stone, Invasão de Privacidade também de 1993 - um ano agitadíssimo como se percebe). Eis que Jennifer Lynch, com todo o peso de seu sobrenome, consegue tirar do papel seu roteiro (escrito ao lado de Phellipe Calland) sobre uma paixão obsessiva que motiva ações bizarras. Quando o filme começou a ser exibido a crítica o massacrou (e houve até aquele famoso comentário de que os nove milhões que Kim precisou pagar para sair do filme valeu cada centavo). A maioria das críticas se deve à audácia da diretora estreante de 24 anos contar uma história tão abusiva com um verniz tão sensual. A trama conta a história de Nick (Julian Sands), um médico cirurgião obcecado por Helena (Sherilyn Fenn), uma mulher com  quem manteve um relacionamento no passado. Só que Helena seguiu em frente e já possui até outro namorado (Bill Paxton), mas Nick ainda deseja reconquistá-la. Quando ele percebe que não tem chances, ele a sequestra e a leva para sua mansão. Até aí a trama lembra outras centenas que já vimos, a diferença é que para ela não ir embora, ele começa a amputar seus membros. A estratégia chocante do personagem é apresentada em contraponto com toda a ambientação do filme repleta de jardins, cortinas, velas, trilha sonora e fotografia luxuriante. Toda a estética do filme remete aos filmes eróticos que tentavam parecer chiques no período. Além da direção de arte referencial, não faltam cenas picantes para endossar semelhanças com o gênero impróprio para menores. O longa deu o que falar nos meus tempos de escola (imaginem, eu tinha menos de quinze anos na época que o filme foi disponibilizado por aqui) e a mistura de filme de terror (qual outro gênero falaria de amputação tão desavergonhadamente?), suspense e erotismo aguçava a curiosidade. Vale dizer que a performance de Sherilyn Fenn que segura o filme. A atriz (que ganhou fama pela beleza e por seu trabalho na série Twin Peaks concebida pelo pai de Jennifer), tem um trabalho marcante com todas as limitações físicas que possui no filme (e os efeitos especiais feitos em seu corpo são desconfortáveis de tão impressionantes). Visto com o distanciamento permitido nos dias de hoje, Encaixotando Helena mantém seus deslizes, mas traz elementos interessantes se não percebermos sua trama como algo literal, mas como uma metáfora para um relacionamento abusivo em que a vítima se percebe impossibilitada de se afastar do abusador. A dinâmica entre Nick e Helena torna-se ainda mais incômoda por conta da dependência que ela passa a ter de um sujeito sádico desequilibrado que a percebe como propriedade de seu desejo. Falando em desejo, Jennifer ousa mais ainda ao expor não apenas a nudez de suas atrizes, mas de seus atores também, com direito até a nu frontal de Bill Paxton (algo raro para o período). É um tema bastante sério tratado com uma atmosfera sexual inusitada e Jennifer Lynch pagou um preço alto por isso, voltando a dirigir outro filme somente quinze anos depois (com o policial Sob Controle/2008 que foi exibido no Festival de Cannes). O mais curioso é perceber que a Helena se relaciona com problemas de saúde enfrentados pela própria cineasta, já que Jennifer nasceu com uma deficiência nos pés que a impossibilitava de engatinhar, quando bebê, ela se arrastava e quando cresceu precisou de uma barra de metal entre os tornozelos para conseguir se locomover. Ela passou por quatro cirurgias e usava sapatos ortopédicos até os doze anos. Se a situação parecia resolvida, ela piorou novamente quando foi atropelada aos 19 anos, o que comprometeu sua espinha dorsal e a fez passar por novas cirurgias. Foi neste período que ela escreveu Encaixotando Helena e o impregnou de seus temores mesclado à sexualidade ainda latente da adolescência. Pelo filme, Jennifer Lynch ganhou o Framboesa de Ouro de pior direção daquele ano, mas ainda hoje aparenta orgulho de sua obra de estreia. Foi tão ousado e corajoso quanto estranho. Muito estranho. 

Encaixotando Helena (Boxing Helena / EUA - 1993) de Jennifer Lynch com Sherilyn Fenn, Julian Sands, Bill Paxton, Kurtwood Smith, Art Garfunkel, Betsy Clark e Nicolette Scorsese. ☻☻

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

CATÁLOGO: A Estrada Perdida

Patricia e Bill: labirinto sombrio entre imagens e identidades.

Em homenagem à carreira do David Lynch a Mubi disponibilizou em seu catálogo vários filmes do diretor que devem ficar em cartaz até o final desta semana, quem curte o trabalho do cineasta que nos deixou no no início de 2025 vai adorar reencontrar o universo de um dos diretores mais estilosos do cinema e, quem não tem muita familiaridade com sua linguagem, terá a chance de se deparar com a atmosfera única de filmes que sempre valem a pena ser revisitados. Quando Lynch lançou A Estrada Perdida ele estava em baixa por conta do fracasso comercial de seu filme anterior (Os Últimos Dias de Laura Palmer/1992, que ainda bebia no sucesso da cultuada série Twin Peaks). Fazia tempo que Lynch não trabalhava uma trama original para o cinema e uma nova geração de espectadores não sabiam exatamente do que o diretor era capaz. Esperto, Lynch embalou o filme com uma trilha sonora que chamou ainda mais atenção para  o lançamento da obra. Aos cuidados do (hoje oscarizado) Trent Reznor, a trilha mostra-se fundamental para estabelecer a atmosfera do filme desde a abertura ao som de David Bowie e seguindo por Nine Inch Nails, Rammstein e Marilyn Manson. A sonoridade entre o eletrônico e o hardcore cai como uma luva para a história de Fred Madison (Bill Pullman), um saxofonista de jazz que vive uma vida confortável ao lado da esposa, Renée (Patricia Arquette). Só que os dois começam a receber gravações externas da casa onde vivem e, logo depois, cenas internas da casa (incluindo até os dois dormindo). Fred começa a ter contato com um homem estranho que mais complica do que explica o que está havendo, a situação só piora quando um crime acontece e Fred é condenado à morte. Atormentado pelos acontecimentos, com uma enxaqueca constante, uma situação inusitada ocorre quando, em sua cela, o músico se transforma no jovem mecânico Pete Dayton (Balthazar Getty) - o coitado não faz a mínima ideia de como foi parar ali. A situação chama atenção da polícia, mas não existe uma explicação, resta liberar o rapaz e observa-lo por alguns dias. Se Pete retoma sua vida depois do ocorrido, a situação se enrola ainda mais quando ele se envolve com a misteriosa Alice (uma loura Patricia Arquette), a amante do poderoso Dick Laurent (Robert Loggia). Ao longo do filme, Lynch embaralha a vida e as identidades de seus personagens com um subtexto que permite muitas analogias sobre a relação entre imagem e identidade, com subtextos que podem dar um nó na cabeça do espectador. Qual a explicação para tudo aquilo? Por que as mulheres são tão parecidas? O que houve com Frank? Lynch capricha mais uma vez na atmosfera onírica de sua obra e envolve o espectador em um pesadelo por mais de duas horas sem perder o tom. A obra dividiu a crítica na época, que a considerou com mais forma do que conteúdo, no entanto, com o passar do tempo, mostrou-se um dos filmes mais cultuados do diretor, responsável por uma nova geração de fãs que no meio de suspenses protocolares de Hollywood se deparou com um verdadeiro enigma que desafia o tempo e as interpretações subjetivas da plateia. 

A Estrada Perdida (Lost Highway / EUA - França / 1997) de David Lynch com Bill Pullman, Patricia Arquette, Balthazar Getty, Robert Loggia, Richard Pryor, Robert Blake, Henry Rollins, Natasha Gregson e Gary Busey. ☻☻☻☻ 

domingo, 12 de janeiro de 2025

CATÁLOGO: Temporada de Caça

Nolte e Coburn: o amor de filho pelo pai.

Sabe aquele filme que você ouve falar e fica curioso de assistir, mas o tempo passa, você não o encontra e você acaba esquecendo? Minha relação com Temporada de Caça foi exatamente assim, lembro que na cerimônia do Oscar de 1999 o filme recebeu o Oscar de melhor ator coadjuvante para o veterano James Coburn e que Nick Nolte concorria como ator principal. Os dois vivem respectivamente pai e filho em uma relação bastante complicada, que se torna mais um ponto para que o protagonista perca as estribeiras conforme o filme caminha para o desfecho. Nick Nolte interpreta Wade Whitehouse, o policial de uma pacata cidadezinha em que nada demais acontece ao longo do ano. Se a vizinhança é puro sossego, a vida de Wade tem lá sua cota de problemas, ele tem um relacionamento complicado com a ex-mulher e quando precisa ficar com a filha, ele nunca sabe o que fazer para agradar. Ele encontra algum alento nos braços de Margie (Sissy Spacek), que ele conhece desde a infância e vivem um romance sossegado. O problema é que Wade tem algumas marcas emocionais bastante complicadas, especialmente por ter crescido com a presença de um pai abusivo dentro de casa. Glen Whitehouse sempre foi bastante agressivo com os filhos e a esposa. Quem ficou farto de tudo isso e resolveu viver longe foi o irmão de Wade, Rolfe (Willem Dafoe) que narra o filme com um a entonação tranquila que soa dissonante com o que vemos na tela. Os três irão se reunir novamente por conta de um falecimento na família e o nível de estresse só aumenta por conta de uma morte ocorrida na temporada de caça da região. Um dos habitantes é encontrado morto e o único que estava por perto, Jack (Jim True-Frost), jura que tudo não passou de um acidente. Wade não acredita naquela justificativa e o fato ajuda a corroer ainda mais a sua estabilidade. O diretor e roteirista Paul Schrader adapta o livro de Russel Banks na rédea curta com uma tensão crescente, sobretudo pela postura do policial que começa como um sujeito pacato e se torna cada vez mais descontrolado, afastando até mesmo aqueles que sentem algum afeto por ele. As paisagens bucólicas e a ideia do marasmo só ressaltam o que aquele ambiente pode ter de sufocante para um sujeito com sede de sangue. A agressividade se torna cada vez mais a tônica das relações no roteiro e rende à Nick Nolte um dos seus melhores trabalhos, mas confesso que em alguns momentos eu achei até engraçada toda a tensão que existia entre pai e filho (e acho que essa era a proposta), ainda que a relação entre os dois se mostre cada vez mais irremediável rumo ao trágico. Temporada de Caça é o tipo de filme em que aparentemente nada acontece, mas não se engane, abaixo da superfície, existe um personagens corroído pouco a pouco (do jeito que Schrader gosta). Vale lembrar que 1999 foi um ano estranho para o Oscar, foi aquele em que Fernandona perdeu para Gwyneth Paltrow, que Ian McKellen perdeu para Roberto Benini, que Judi Dench discursou que merecia só um pedacinho do Oscar (por aparecer em menos de oito minutos como coadjuvante em um filme de duas horas) e também foi aquele em que Ed Harris era o favorito na categoria de ator coadjuvante e perdeu para James Coburn na força do ódio. A zebra estava solta.

Temporada de Caça (Affliction / EUA - 1998) de Paul Schrader com Nick Nolte, James Coburn, Sissy Spacek, Willem Dafoe, Jim True-Frost, Tim Post, Maria Seldes, Brigid Tierney, Holmes Osbourne e Mary Beth-Hurt. ☻☻☻☻

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

PL►Y: Sem Relação

Anna e Tom: Loki em sua estreia no cinema. 

A inglesa Joanna Hogg trabalha desde o final dos anos 1980, na década seguinte se dedicou a trabalhos para a televisão até se aventurar nos anos 2000 por um cinema mais autoral. Embora muita gente tenha conhecido seu trabalho quando The Souvenir (2019) caiu nas graças da crítica, e figurou em algumas listas de melhores do ano (tanto que o filme gerou uma sequência em 2021), Joanna estreou na telona com este Unrelated, um filme que fala sobre sentimentos complicados de uma mulher madura de quarenta anos.  A história acontece em alguns dias de férias em que Anna (Kathryn Worth) é convidada por uma amiga, Verena (Mary Roscoe), a passar alguns dias com ela em uma casa de campo na Itália, mais precisamente na Toscana. Enquanto Verena está ao lado do esposo (Michael Hadley), dos filhos, Archie (Harry Kershaw), Jack (Henry Lloyd-Hughes), Oakley (Tom Hiddleston) e Badge (Emma Hidleston) e mais um casal de amigos, à Anna cabe ter algumas conversas atravessadas com o esposo por telefone. Se por um lado Anna está muito calada, nas conversas ao telefone vemos que seu casamento não anda muito bem. O curioso é que esta sensação de um casamento ruindo lhe causa certo afastamento dos outros casais presentes na casa, mas gera uma certa proximidade com os filhos da amiga, especialmente com Oakley. Tanto este descolamento das pessoa maduras e a aproximação com o descompromisso da juventude estão marcadas nas entrelinhas do filme, já que Hogg é uma diretora que não gosta de ser explícita no que apresenta, prefere deixar que as cenas aconteçam de forma mais espontânea, quase improvisada como se não houvesse um roteiro, pelo menos até que um dilema se instaure. O dilema aqui está na atração que Anna começa a nutrir pelo charmoso primogênito da amiga, Oakley. Vale destacar um mérito inquestionável de Joanna Hogg, ela foi a primeira pessoa a confiar no apelo que Tom Hiddleston poderia ter  no cinema. Conhecido hoje por sua antológica performance como Loki, o deus da Mentira da Marvel, até então o ator estava restrito a papéis em programas de televisão sem muito destaque. Foi Hogg que percebeu como o ator poderia ser o objeto de desejo que a vida apática de sua protagonista precisava. Quando os dois estão juntos em cena, você pode sentir as faíscas entre os dois em uma narrativa que segue em uma ambientação morna, com uma paisagem bem mais (árida) e realista do que a que costumamos em ver em filmes sobre pessoas em férias paradisíacas. Talvez esta opção seja para dizer que ali não é o paraíso e tanto os conflitos entre Oakley com o pai, um acidente de carro e um amargo gosto de rejeição irão pairar a partir da metade do filme. Apesar do marasmo narrativo da primeira parte, Sem Relação se torna mais interessante conforme torna a viagem de seus personagens mais desconfortável, tão desconfortável quanto à realidade de Anna que precisa colocar os pés no chão e enfrentar uma realidade não desejada em sua volta para casa. A produção mostra-se então uma boa carta de apresentação de uma cineasta que possui um olhar sutil para fazer filmes sobre pessoas com histórias comuns e seus sentimentos complicados. 

Sem Relação (Unrelated / Reino Unido - 2008) de Joanna Hogg com Kathryn Worth, Tom Hiddleston, Mary Roscoe, Michael Hadley, Henry Lloyd Hughes, Harry Kershaw e Emma Hiddelston. ☻☻☻

sábado, 19 de outubro de 2024

CATÁLOGO: Um Caso de Amor

Russell e Jack: pai e filho em comédia romântica australiana.

De vez em quando eu procuro um filme que ouvi falar tempos atrás e que nunca assisti. Quando é uma raridade, sinto como se eu ganhasse uma estrelinha na vida cinéfila (quando se trata de um clássico... é como se eu recebesse uma medalha). Dia desses eu recebi uma estrelinha por ter encontrado o australiano Um Caso de Amor, filme estrelado por Russell Crowe quando ele tinha 30 anos e nem imaginava que iria fazer carreira nos Estados Unidos. Crowe já tinha chamado atenção em A Prova (1991) e estava em alta por lá com seu trabalho como o skinhead de Romper Stomper (1992) e decidiu fazer um trabalho totalmente diferente. Ele interpreta Jeff,  um bombeiro hidráulico que vive com seu pai, Harry (Jack Thompson), desde o falecimento da matriarca da família. Harry não se importa que o filho seja homossexual, pelo contrário, ele gostaria muito de ser apresentado a algum parceiro do rapaz que é extremamente discreto com sua vida amorosa. Faz um tempo que Jeff pretende ter um relacionamento sério, mas a situação é mais complicada do que ele imagina. Eis que um dia ele conhece Greg (John Polson) e a coisa parece seguir por um caminho diferente, porém, o pretendente enfrenta problemas em se assumir para a família o que o causa um desconforto ainda maior quando é tratado com plena naturalidade por seu futuro sogro. Harry também está procurando uma namorada e o receio da forma como ela lidar com a sexualidade de seu filho pode ser um problema. O filme dirigido por Geoff Burton e Kevin Dowling é bastante leve e espirituoso, apresentando a cumplicidade entre pai e filho sem exageros, assim como envereda pelo território da comédia romântica driblando alguns clichês. O longa ainda ganha um ar moderninho quando os personagens quebram a quarta parede e conversam com o espectador como se fôssemos amigos de longa data - muitas vezes o recurso é utilizado para contar a história da avó materna de Greg, que na terceira idade investiu em um relacionamento com uma mulher. Intercalando a vida amorosa de seus personagens, o filme flui sem problemas até mesmo quando um golpe do destino modifica a dinâmica entre pai e filho - e o que poderia escorregar para o melodrama segue sem maiores tropeços. Russell Crowe e John Polson estão muito convincentes em cena. Quem está acostumado a ver o Gladiador Crowe em papéis mais agressivos, irá se surpreender com a desenvoltura em suas cenas com John Polson (o que deve ter impedido o filme a passar na Sessão da Tarde nos anos 1990). No fim das contas, Um Caso de Amor (o título nacional meio equivocado para o original A Soma de Nós) é um filme sobre a busca pela cara metade como tantos outros que são lançados todos os anos,  porém, ver um filme de 1994 (trinta anos!!!) lidando com tanta naturalidade com a homossexualidade de seu protagonista nos faz repensar onde foi que a coisa desandou para os tempos conservadores em que vivemos. Vale lembrar que este foi o último filme da fase australiana de Crowe, no ano seguinte ele já era contratado pela produtora Sharon Stone para ser um dos pistoleiros de Rápida e Mortal (1995) e o resto da história todo mundo sabe. Curiosidade, o filme tem uma mensagem totalmente oposta de Boy Erased (2018), filme em que Crowe vive um pai que acredita na cura gay de seu filho. 

Um Caso de Amor (The Sum of Us/Austrália - 1994) de Geoff Burton e Kevin Dowling com Russell Crowe, Jack Thompson, John Polson, Deborah Kennedy, Joss Moroney, Mitch Mathews, Des James e Julie Herbert. ☻☻☻

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

CATÁLOGO: O Livro da Vida

PJ e Donovan: de volta ao mundo.

Na virada do ano de 1999 para o ano 2000 o canal francês Art convidou dez diretores de nacionalidades diferentes para criar uma série de filmes chamada "2000 seen by" em que cineastas deveriam retratar a atmosfera do fim do milênio e início. Entre os longas produzidos está o ótimo O Primeiro Dia do brasileiro Walter Salles, O Muro do belga Alain Berliner, A Última Noite do canadense Don McKellar e este O Livro da Vida do novaiorquino Hal Hartley. Pode se dizer que Hartley era o nome mais cult do cinema independente americano no início dos anos 1990, embora muita gente torcesse o nariz para a pretensão filosófica de tramas como Amateur (1994) e Flerte (1995), o rapaz estava entre o mais badalado de sua geração. Em O Livro da Vida ele manteve a pretensão intacta ao trazer Jesus Cristo (Martin Donovan, ator favorito do cineasta) para a Nova York do ano de 1999 ao lado de sua assistente, Madalena  (a cantora PJ Harvey) para anunciar o apocalipse. No entanto, ele se depara novamente com seus sentimentos de esperança perante a humanidade. Quem também circula pela cidade e está sempre por perto é Lúcifer (Thomas Jay Ryan), que aguarda ansiosamente o fim dos tempos para recolher os pecadores que considera estar na sua cota de direito. Enquanto os esses personagens famosos circulam entre os mortais, os noticiários assumem o tom alarmista de que o fim está cada vez mais próximo na virada do ano. Como os demais filmes da coleção, O Livro da Vida é curto (tem uma hora de duração), mas mesmo assim, deixa a impressão que não possui história para tanto. Mesmo que o diretor invista num tom de reflexão que era bem comum no período, ele parece não saber muito bem o que fazer com a premissa interessante que tem em mãos. Existe até boas ideias, como tratar todos como homens de negócios (em que o negócio em questão é o futuro da humanidade), mas entre cenas desfocadas e interpretações contidas, tudo parece um tanto emperrado. Confesso que minha maior curiosidade era ver PJ Harvey em sua primeira (e unica até o momento) experiência como atriz. Pode se dizer  que ela confere charme ao papel que lhe coube e isso traz até um diferencial para a produção que soa um tanto fria  diante das possibilidades fantásticas que tinha em mãos. Confesso que fiquei um tanto decepcionado com o filme (principalmente se comparado a outros lançados na mesma cinessérie), mas vale pela curiosidade de revisitar os pensamentos que habitavam o mundo com a proximidade do século XXI. No entanto, vale ressaltar, que se você se deparar com algum do filmes da coleção, vale a pena conferir, já que se tornaram artigos raros nos streamings por aqui. 

O Livro da Vida (The Book of Life/ EUA - 1999) de Hal Hartley com Martin Donovan, PJ Harvey, Thomas Jay Ryan, Miho Nikaido, Dave Simonds, DJ Mendel e James Urbaniak. ☻☻ 

sábado, 31 de agosto de 2024

PL►Y: O Corvo (1994)

Brandon Lee: morre uma estrela.

Podem me chamar de chato e conservador, mas está para nascer alguém que me justifique fazer o remake de um filme que já era bom o suficiente dentro de sua proposta. Não vejo nada demais em refazer um filme que não cumpriu o que prometia, mas mexer numa ideia que já surpreendia o público com suas qualidades inesperadas me soa como um tiro no pé. É verdade que em Hollywood existe a ideia de que o lançamento baseado em uma ideia já testada e aprovada tem mais possibilidade de fazer sucesso nas telas. Não vou dizer que já vimos essa teoria naufragar um milhão de vezes, mas (como diria meu primogênito) fazer o quê? O que posso fazer é ver na semana em que estreou a nova versão de O Corvo o clássico cult lançado em 1994 baseado na graphic novel de James O'Barr lançada em 1981. Barr se inspirou na morte de sua namorada para criar a trama sobre a morte não ser o fim para quem deseja vingança. Banhada em um misto de raiva e melancolia, a trama segue a história de Eric Draven, que retorna do mundo dos mortos para perseguir os criminosos que assassinaram ele e a namorada, Shelly. Em 1994 as adaptações de quadrinhos ainda eram poucas e viam no Batman (1989) de Tim Burton uma referência a ser seguida. Provavelmente a versão para as telonas de O Corvo idealizada por Alex Proyas não teria saído do papel se não fosse o sucesso do homem-morcego. O visual da cidade no filme lembra muito Gotham City, mas a direção de arte apresentada aqui investe ainda mais na atmosfera meio gótica, sombria com um certo verniz punk para sua violência estilizada (algo que o filme de Burton não trazia). A mistura quando estreou impressionou o público que ainda precisou lidar com a curiosidade gerada pelo ator principal que faleceu durante as filmagens. Brandon Lee (filho do Bruce Lee) morreu precocemente por conta de um projétil que estava em uma arma usada durante as filmagens, uma verdadeira tragédia. O filme ainda precisava ser finalizado e foi utilizado um dublê e o uso de efeitos digitais para sua conclusão. Lee está perfeito na pele de Eric Draven e o longa soa como a promessa de um astro que partiu cedo demais (ele recebeu até uma indicação póstuma de melhor ator no MTV Movie Awards que era um parâmetro de popularidade de um filme na época). Ele confere um desamparo ao personagem que traz um diferencial para concretização de sua vingança em tom sobrenatural (dentro e fora da tela). A trama em si não traz novidades, especialmente por conta dos seus vilões unidimensionais perseguidos um a um, mas Proyas confere um ritmo preciso com uma trilha sonora roqueira que fez muito sucesso na época ao som de the Cure, Nine Inch Nails, Stone Temple Pilots e Rage Against the Machine. A mistura de tantos elementos despertou não só a curiosidade do público na época, mas passado tanto tempo, o filme permanece com uma aura incomum. Ainda hoje é muito interessante ver o filme e perceber o somatório que ajudou o longa a fazer sucesso. Se levarmos em conta que a ideia rendeu outros dois filmes (que ninguém faz questão de lembrar), uma série de TV e um remake fadado ao fiasco, a magia em torno do filme se torna ainda mais curiosa. 
 
O Corvo (The Crow/EUA-1994) de Alex Proyas com Brandon Lee, Ernie Hudson, Rochelle Davis, Michael Wincott, David Patrick Kelly,  Michael Massee e Angel David. ☻☻☻☻

domingo, 23 de junho de 2024

PL►Y: Buffalo 66

Christina e Vincent: amor ou síndrome de Estocolmo?
 
Conhecido nos dias de hoje como um sujeito difícil de lidar, Vincent Gallo foi um dos nomes mais celebrados do cinema independente quando lançou seu primeiro filme na direção, o nervoso Buffalo 66. Até então, o ator havia sido visto em filmes em um papel pequeno em Os Bons Companheiros (1990) de Martin Scorsese, recebeu algum destaque como o filho bastardo de  A Casa dos Espíritos (1993) de Billie August e chamou atenção em Os Chefões (1998) de Abel Ferrara. Gallo demonstrou que queria mais quando escreveu e dirigiu seu primeiro filme contando com artistas conhecidos no elenco, pena que sua carreira na direção degringolou no lançamento seguinte, o polêmico Brown Bunny/2003 (que foi nomeado pelo renomado crítico Roger Ebert como o pior filme já feito). Vendo como Vincent se tornou uma pessoa complicada nos últimos tempos é impossível não ver seu personagem em Buffalo 66 sob uma perspectiva diferente da época de seu lançamento. Aqui ele vive Billy Brown, um rapaz que acaba de sair da prisão. Durante o tempo em que esteve preso, ele inventou para os pais que estava morando longe, mas que a vida seguia bem com seu emprego e com uma esposa apaixonada por ele. Ao sair da prisão ele se vê forçado a sustentar suas mentiras, para isso ele sequestra Layla (Christina Ricci em seu primeiro papel como adulta) para fingir que é sua esposa. Layla demonstra bastante dedicação para sustentar toda a farsa de Billy perante os pais dele (vividos por Ben Gazarra e Anjelica Huston), mas mesmo depois da visita aos pais, os dois continuam ao lado um do outro. Se Billy não fosse um dos sujeitos mais insuportáveis da história do cinema, você poderia até torcer para que os dois ficassem juntos, mas aqui o efeito é o contrário - e torci o tempo inteiro para os dois se separarem de vez. Só que perante o comportamento agressivo de Billy, Layla parece desenvolver a síndrome de Estocolmo e chega a dizer que ele é o homem mais doce que ela já conheceu (e o mais bonito também). Fico imaginando o que a coitada já passou na vida (e Ricci imprime à personagem uma doçura impressionante, embora digam que ela e Gallo tenham se estranhado durante a após as gravações. Ela não fala com ele até hoje). Cabe ao espectador perceber que Billy Brown é um sujeito emocionalmente atrofiado e tão inseguro de si que resta apenas agredir quem considera mais fraco do que ele. As cenas dele com os pais e com velhos conhecidos deixam claro o quanto ele é inseguro e não sabe para onde ir, embora tenha em mente uma vingança que servirá de ponto de mudança para o personagem no desfecho. Como diretor, Gallo deixa seus atores a vontade enquanto reproduz uma estética de final dos anos 1970 e uma atmosfera da ressaca dos sonhos que ficaram para trás. Gosto da forma como ele insere as lembranças ou pensamentos dos personagens no meio da narrativa e também a forma como ilumina seus personagens em cenas que fogem do que esperamos deles (o pai grosseirão cantando no quarto ou Layla sapateando na pista de boliche), também é interessante saber que o diretor usou como locação para casa de Billy a mesma casa em que cresceu com seus pais. Embora flerte com filmes criminais e dramas familiares, Buffalo 66 revela em seu final que é uma comédia romântica com alma hardcore. Quem diria. O filme está disponível na MUBI. 
 
Buffalo 66 (EUA / Canadá - 1998) de Vincent Gallo com Vincent Gallo, Christina Ricci, Anjelica Huston, Ben Gazarra, Mickey Rourke, Jan Michael Vincent e Rosanna Arquette.  ☻☻☻

segunda-feira, 13 de maio de 2024

CATÁLOGO: Claire Dolan

Vincent e Katrin: uma pequena dose de amor.
 
Lembro quando Claire Dolan passou nos cinemas brasileiros e muita gente elogiava o trabalho da atriz principal, a inglesa Katrin Cartlidge que ficou conhecida de alguns cinéfilos por seus trabalhos com o diretor Mike Leigh (Naked/1993, Simplesmente Amigas/1997 e Topsy Turvy/1999), como a cunhada de Ondas do Destino/1996 de Lars Von Trier ou suas participações em filmes do leste europeu que concorreram ao Oscar (Antes da Chuva/1994 e o oscarizado Terra de Ninguém/2001). Assistindo ao filme me dei conta de como ela estava sumida dos cinemas e descobri que ela faleceu em 2002 por conta de septicemia em decorrência de uma pneumonia. Vê-la em Claire Dolan ressalta muito seus méritos como atriz, especialmente sobre a sua capacidade de transparecer sentimentos complicados de forma bastante sutil. Durante todo o filme ela carrega o olhar triste da protagonista que pretende dar uma guinada em sua vida, mas sempre encontra dificuldades. Claire se prostitui para pagar uma dívida com Roland Cain (Colm Meaney) que parece ser infinita. Quando ela recebe a notícia de que sua mãe faleceu, ela resolve mudar definitivamente os rumos de sua vida. Ela muda de cidade, entra em contato com uma prima que não via faz tempo e arranja um novo emprego. Aos poucos percebemos que suas emoções relacionadas ao amor e ao sexo permanecem confusas, especialmente quando ela conhece Elton (Vincent D'Onofrio), um taxista de poucas palavras que parece disposto a ter um relacionamento sério com Claire. No entanto, o passado da protagonista volta a complicar seu destino e resta saber o que Elton lidará com isso tudo. O segundo filme do diretor e roteirista Lodge Kerrigan consegue ser bastante eficiente ao exalar  o desconforto da personagem, utilizando uma narrativa seca que pode ser considerada bastante fria (inclusive nas cenas de sexo). No entanto, existe uma química interessante entre Katrin e Vincent (o ator aparece aqui com mais sex appeal do que na maioria dos seus papeis no cinema), cada um ao seu modo consegue dar vida a um personagem perdido que precisa se agarrar em uma dose de amor para recomeçar. Quem também está bem em cena é Colm Meaney como um antagonista realmente nojento. O filme foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes e concorreu nas categorias de melhor filme, melhor direção e melhor atriz no Independent Spirit Awards e está disponível na Reserva Imovision. Kerrigan acabou embarcando no mesmo universo décadas depois ao idealizar a série The Girlfriend Esperience (2016).  
 
Claire Dolan (EUA-França/1998) de Lodge Kerrigan com Katrin Cartlidge, Vincent D'Onofrio, Colm Meaney, Patrick Hustead e Madison Arnold. ☻☻☻

domingo, 28 de abril de 2024

#FDS Madonna: Destino Insólito

Madonna e Giannini: parceria traumatizante.

Acho que todo o casal tem o direito de fazer uma loucura, mas é sempre bom lembrar que existem consequências. Talvez algum dia alguém consiga explicar o que se passou na cabeça de Madonna e Guy Ritchie para inventarem um remake de Por Um Destino Insólito (1974) da italiana Lina Wertmüller que é historicamente lembrada como a primeira diretora a ser indicada ao Oscar de melhor direção. O filme era uma metáfora sobre luta de classes, a relação entre ricos e pobres, patrões e empregados encaram a vida, sendo que em determinado momento a lógica é invertida por conta de um naufrágio. Wertmüller era esperta para perceber que as relações da hierarquia social em si já são carregadas de tensão, mas ao adaptar o texto, Ritchie optou por tornar tudo mais exagerado e caricato. Destino Insólito conta a história de uma dondoca endinheirada Amber (Madonna) e um empregado humilde (Adriano Gianinni, filho do ator que encarnava o papel original) que surpreendidos por uma tempestade durante um passeio de iate, se separam da tripulação indo parar numa ilha deserta. Na tal ilha, o empregado demonstra ter as habilidades necessárias para que os dois sobrevivam àquela desventura e, obviamente que se imagina que os dois irão viver um romance. Se existem as mesmas tintas de crítica social na refilmagem, ao carregar demais as tintas, Guy cria um grande problema para estabelecer uma química entre os protagonistas (some isso ao desconforto de Adriano ter que interagir com a esposa do diretor nas cenas de amor e ódio e você entenderá ainda mais porque as coisas complicam). Também não ajuda o fato de Amber ser apresentada ao público como uma megera sem salvação - e Madonna torna a mulher insuportável, mas o que poderia ser um mérito se torna um problema quando a interpretação precisa lidar com a transição da personagem de mulher intragável em mulher apaixonada. Difícil. Nesta transição o filme começa a perder ainda mais o foco e depende cada vez mais da dinâmica entre os personagens para manter o interesse do público. O que era para ser um comédia com tintas de crítica social se torna num romance pouco convincente até naufragar (sem trocadilho) no melodrama. A dupla principal se esforça, mas não há muito o que fazer diante da base equivocada do projeto. Madonna e Guy casaram em 2000 e tiveram um filho (Rocco) e já haviam estabelecido parcerias anteriormente, seja em um comercial da BMW ou no clipe de What it Feels like for a Girl que possuem uma vibe parecida com os trabalhos anteriores do cineasta. Quem conhece a carreira de Guy (ele vinha de um sucesso mundial com Snatch/2000) sabe como Destino Insólito destoa completamente de seu estilo, talvez por isso Madonna tenha assumido a responsabilidade sobre o projeto. Ela estava animada depois dos elogios por Evita/1997 e o relativo sucesso de seu filme anterior, Sobrou Para Você (2000). Destino Insólito custou dez milhões de dólares e arrecadou pouco mais de um milhão ao redor do mundo, desagradando público, crítica e a própria Madonna. Ela ficou tão aborrecida com o massacre em torno do filme que anunciou que jamais atuaria novamente. Em seus recentes trabalhos com o cinema, a artista escolheu ficar atrás das câmeras, trabalhando como cineasta nos filmes Sujos e Sábios (2008) e W/E (2011). Por conta de todas as críticas exageradas que recebeu por seus trabalhos no cinema, a artista chegou a declarar que sofreu bullying por parte da imprensa (basta lembrar do Framboesa de Ouro de Pior atriz do século). Madonna e Guy se divorciaram em novembro de 2008. 

Destino Insólito (Reino Unido / Itália - 2002) de Guy Ritchie com Madonna, Adriano Giannini, Bruce Greenwood, Elizabeth Banks, Jeanne Triplehorn, David Thornton e Yorgo Voyagis. ☻☻

sábado, 27 de abril de 2024

#FDS Madonna: Evita

Banderas e Madonna: polêmica adaptação de uma opera rock.   
 
Fazia quase dez anos que Madonna havia começado seus trabalhos no cinema e, tirando os elogios que havia recebido por seus trabalhos em Dick Tracy (1990) e Uma Equipe Muito Especial (1992), no saldo de seus trabalhos como atriz havia mais críticas do que sucessos. A sua não indicação nas premiações também a deixou desapontada, para ter ideia a vez em que ela chegou mais perto do Oscar foi quando Sooner or Later da trilha sonora de Dick Tracy foi premiada como melhor canção original. A apresentação na cerimônia do Oscar rendeu um dos momentos mais icônicos da carreira da rainha do pop e até hoje surpreende muita gente pela destreza vocal que apresenta. No entanto, logo depois, Madonna chegou ao auge da polêmica. Em 1992, ela havia lançado um livro (o famigerado SEX) e um álbum baseado em suas fantasias sexuais (Erotica). Houve também um filme (Corpo em Evidência/1993) que foi massacrado pela crítica em que Madonna vivia uma mulher que havia matado o marido rico por excesso de sexo. A rejeição do público foi grande e a loura precisava reciclar sua imagem, começou a fazer músicas mais românticas e no cinema fez participações especiais em produções independentes, enquanto seu papel dos sonhos não aparecia: viver Eva Perón no cinema. Quando o diretor Alan Parker começou a tocar o projeto, Madonna fez de tudo para conseguir o papel, mas reza a lenda que bancou o clipe da música Take a Bow (do álbum Bed Time Stories de 1994) para convencer o cineasta de que era a escolha certa para o  papel. Levando em conta que o filme era na verdade uma adaptação de uma opera rock da Broadway, a escolha de uma cantora que parecia fisicamente com a icônica figura política argentina não soava tão absurda (ainda mais depois que Meryl Streep e Michelle Pfeiffer desistiram do papel). Madonna foi escolhida e fez tudo conforme manda o figurino. Ficou comportada, ganhou alguns quilos para o papel, fez aulas de canto para dar conta da árdua exigência vocal da produção que desde o início sabia que seria uma cantoria infinita. Fazer um musical quando o gênero estava em baixa em Hollywood era um risco e o barulho era ainda maior levando em conta todos os protestos dos peronistas argentinos de verem uma figura histórica santificada vivida por uma artista com o histórico de Madonna. Alan Parker parecia não se intimidar. O diretor já tinha obras importantes no currículo, inclusive musicais cultuados como The Wall (1982) e The Commitments (1991), além de duas indicações ao Oscar (uma por O Expresso da Meia-Noite/1978 e outra por Mississipi em Chamas/1988), ou seja, Madonna estava em ótimas mãos. Vale destacar que a produção do filme é impecável, mas o problema está que a peça escrita por Tim Rice é feita para os palcos e não para uma aula de História, não tendo pudores em ter algumas imprecisões (como colocar Che Guevara, vivido por Antonio Banderas, como uma figura próxima da protagonista). O longa conta a história da mulher de origem humilde, filha bastarda de um agricultor que parte para a cidade e chama atenção de Juan Perón (vivido pelo inglês Jonathan Pryce) prestes a se tornar um cultuado político no país. O filme explora bem a construção de um mito ao redor da personagem, que tinha grande apelo entre a população mais pobre do país e que potencializava o apelo populista do marido. O filme se esquiva de discussões sobre a índole do casal (que ostentava uma vida luxuosa em um país pobre), mas aborda um pouco da tensão política que os países latino-americanos viviam no período. Se historicamente a produção tem seus problemas, como filme ele funciona muito bem se você não se incomodar com personagens que cantam o tempo inteiro. Sim, é artificial e a ideia é essa mesmo, o que não impede de ter alguns momentos memoráveis como I'd Be Surprisingly Good for You e da clássica Don't Cry For Me Argentina que se converteu em hit no repertório da cantora). Entre o elenco, Madonna é realmente o grande destaque com uma presença luminosa que é lembrada como sua melhor performance como atriz. Ela foi cotada para o Oscar, mas teve que se contentar com o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical (que ironicamente, recebeu ao derrotar a futura ganhadora do Oscar de melhor atriz daquele ano: Frances McDormand por Fargo). Por suas qualidade, Evita apareceu em algumas listas de melhores filmes de 1996 e foi indicado em cinco categorias do Oscar: fotografia, cenografia, montagem, som e ganhou a categoria de melhor canção original com You Must Love Me, que rendeu a primeira apresentação de Madonna após dar a luz à sua primogênita, Lourdes Maria. Confesso que sempre achei melancólico ver Madonna se visivelmente tensa para dar conta de cantar "Você Precisa me Amar" quando sua maior chance de indicação ao Oscar não se concretizou. 

Evita (EUA/1997) de Alan Parker com Madonna, Jonathan Pryce, Antonio Banderas, Jimmy Nail, Olga Merediz, Laura Pallas, Gary Brooker e Adrià Collado. ☻☻☻☻

sexta-feira, 26 de abril de 2024

#FDS Madonna: Procura-se Susan Desesperadamente

Rosana e Madonna: a cara dos anos 1980.

Aproveitando a chegada de Madonna em terras brasileiras na próxima semana para seu show da Celebration Tour, aproveito para fazer um #FimDeSemana dedicado à sua controversa carreira no cinema. Reza a lenda que quando Madonna Louise Ciccone partiu da cidade de Detroit para Nova York com 20 anos e apenas 35 dólares no bolso, a então estudante de dança sonhava em se tornar atriz. Ela havia feito um curta (The Egg/1974) e um longa obscuro (Um Certo Sacrifício/1979), mas ela queria mais. Acontece que conforme absorvia o universo da música enquanto trabalhava como dançarina, ela acabou seguindo por um outro caminho. Com o primeiro álbum lançado em 1983 e o segundo no ano seguinte, Madonna sabia muito bem como chamar atenção não apenas com suas músicas provocativas. Com shows, vídeos e apresentações precisas, sua imagem logo chamou atenção do cinema. Ela fez uma pequena participação em Em Busca da Vitória (1985) cantando o hit Crazy for You, mas foi a diretora Susan Seidelman que lhe rendeu o primeiro papel de destaque em Hollywood. Seidelman acabava de alcançar algum reconhecimento com sua estreia no indie Smithereens (1982) e estava disposta a trazer alguma novidade quando produzia Procura-se Susan Desesperadamente. A história girava em torno de Roberta (Rosana Arquette), uma dona de casa insatisfeita que faz tempo que não vê sentido em sua rotina com o marido (Gary Blum), para escapar de seu cotidiano pouco inspirador, ela acompanha começa a acompanhar os classificados de um jornal em que Jim (o galã sumido Aidan Quinn) que publica anúncios procurando sua amada, a descolada Susan (Madonna). Roberta fica obcecada por aquela história e acaba procurando descobrir o desfecho que o encontro entre os dois possa ter. Só que nem tudo sai como o esperado e uma troca de jaquetas misturado  com uma amnésia em Roberta irá render uma série de situações imprevisíveis, já que ela passa a ser confundida com Susan que descobrimos ser perseguida por um grupo de bandidos. Ela passa a contar então com a ajuda de Jim, enquanto Susan não está nem aí para o moço e tem mais coisas para se preocupar do que encontrar o amor de sua vida. O tom de comédia romântica se desenvolve como um típico filme de aventura urbana dos anos 1980, embalado pelo hit Into the Groove de Madonna e ajudou a impulsionar a carreira de muita gente como John Turturro, Laurie Metcalf e Giancarlo Esposito. Quando foi lançado o filme foi acolhido pelo público, mas não convenceu a crítica. Recentemente o filme passou por uma revisão, que não apenas o percebe como um retrato convincente do da estética urbana de seu tempo além de outros méritos até então pouco destacados, especialmente na justaposição de suas duas personagens como reflexo de uma realidade feminina que passava por transformações, seja pela insatisfação domiciliar de Roberta ou a total falta de interesse de Susan em se render ao mocinho da trama. Ainda que não fosse muito levado a sério na época, o César (o Oscar francês) indicou o longa ao prêmio de Filme Estrangeiro (ao lado de Ran de Kurosawa e o ganhador A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen). Rosanna Arquette foi premiada no BAFTA na categoria de atriz coadjuvante e indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical, mas... e Madonna? Bem, como a futura Rainha do Pop interpreta uma variável de si mesma, ela acabou chamando menos atenção nas premiações que sua colega de elenco. No entanto, recebeu alguns elogios pela performance que foi considerada promissora. O principal foi que ela ajudou o filme a se tornar um sucesso de público que estava curioso em vê-la na tela grande. Curiosamente, o filme indicou algo que se reproduziu na vida real com muitas mulheres sendo influenciadas por sua imagem de mulher independente e sexualmente bem resolvida. Ainda que Madonna não pareça fazer muito esforço em cena (motivo que dizem ter rendido conflitos entre ela e Rosana), o fato é que Seidelman percebeu na jovem cantora a energia necessária para se tornar uma influência sobre seu tempo.

Procura-se Susan Desesperadamente (Desesperately Seeking Susan / EUA - 1985) de Susan Seidelman com Madonna, Rosana Arquette, Aidan Quinn, John Turturro e Gary Blum. ☻☻☻

domingo, 22 de outubro de 2023

CATÁLOGO: Epidemic

Trier em cena: testando a paciência do fã mais devotado. 

O dinamarquês Lars von Trier ganhou ao longo de sua carreira a fama de difícil. Ele foi considerado um sujeito difícil quando cursava cinema, atrizes reclamaram da forma como conduz as filmagens em suas produções. Alguns críticos o detestam da mesma forma como outros o adoram, além disso, o público por vezes não sabe como reagir às suas provocações, seja em entrevistas ou na telona mesmo. No entanto, nada, absolutamente nada, da fama do cineasta me deixou preparado para assistir seu segundo longa metragem: Epidemic (disponível na MUBI). Longa que foi inserido instantaneamente no último lugar na minha lista de filmes do diretor. Mais uma vez, o que ajuda a passar  o tempo (assim como em Elemento do Crime/1984) é identificar o embrião de tudo que o cineasta se tornaria em seus filmes seguintes. Aqui, enquanto o diretor mescla a produção de um filme sobre uma misteriosa epidemia com uma epidemia de verdade ao redor do mundo, vemos mais uma vez o seu estilo provocador, sua vontade de inovar e instigar o espectador perante a forma com que se faz cinema. Aqui para separar realidade da ficção, ele insere uma espécie de selo para que possamos identificar o que é ficção do que seria a realidade de quem está envolvido no projeto. No entanto, sua ânsia de não seguir regras do cinema convencional faz o filme soar mais confuso do que interessante. A ideia de registrar o processo criativo envolvido na tarefa de fazer cinema também aparece em As Cinco Obstruções (2003) que o diretor faria posteriormente, o gosto por uma linguagem mais crua e realista, quase documental também foi melhor aproveitada pelo diretor em Os Idiotas (1998) e até na comédia O Grande Chefe (2006), além de ser a base para a instituição do movimento Dogma95. Quando flerta com a ficção científica, o diretor demonstra que a ideia de levar o gênero a sério lhe perseguia muito antes de Melancolia (2011), o problema é que Epidemic não consegue sustentar o interesse por si só. Os personagens (se é que podemos chama-los assim) não são interessantes ou minimamente desenvolvidos, a mistura de camadas também soa fragmentada demais para que ofereça algum ritmo plausível à narrativa. Diante disso, o elenco está sempre improvisando (basta ver as risadas espontâneas que aparecem a todo instante) e ao se colocar como ator diante da câmera, Lars deixa claro o motivo de ter evitado atuar posteriormente. Apesar da boa aparência, seu carisma não vai muito além do olhar típico de quem está prestes a aprontar. Arrastado e confuso, Epidemic se tornou um fiasco. Sorte que o fez repensar sobre sua forma de fazer cinema e ele ressurgiu com a excelente adaptação de Medeia (1988) para a TV dinamarquesa , para logo depois ganhar às telas novamente com o inebriante Europa (1991) - longa que pavimentou o auge de sua carreira nos anos seguintes. O filme vale pela curiosidade, mas exige disposição até do fã mais devotado. 

Epidemic (Dinamarca /1987) de Lars von Trier com Lars von Trier, Allan de Waal, Ole Ernst, Michael Gelting, Colin Gilder, Svend Ali Hamann, Ib Hansen, Udo Kier, Cæcilia Holbek Trier e Gert Holbek. ☻ 

sábado, 30 de setembro de 2023

PL►Y: Sinfonia Inacabada

 
Benjamín: talento à beira da loucura. 

Existem algumas experiências em assistir filmes que são muito interessantes, como por exemplo, ver um diretor estreante fazendo milagres com um orçamento minúsculo, um intérprete tendo a interpretação que mais chama atenção em um filme, assistir vários filmes seguidos de uma mesma nacionalidade... também gosto de descobrir o filme de estreia de um diretor consagrado após ver seu último trabalho. Foi assim que resolvi ver Sinfonia Inacabada (2006) do chileno Pablo Larraín após assistir seu premiado último longa, O Conde (2023). Os dois estão em cartaz na Netflix e embora sejam bastante diferentes entre si, carregam a assinatura autoral de um dos diretores latino-americanos mais prestigiados da atualidade. Sinfonia Inacabada conta a história de Eliseo Montálban (Benjamín Vicuña), ambicioso jovem músico que deseja criar uma sinfonia grandiloquente, mas no meio do caminho as coisas não saem como esperado. É neste ponto que o filme mergulha em cortes que parecem constituídos de ilusões e flashbacks, delírios e memórias, construindo um verdadeiro labirinto mental para o protagonista  - e deixando que  o espectador seja levado por tudo aquilo. Há quem estranhe a concepção narrativa do filme, mas conforme ele avança se torna cada vez mais interessante. Embora o filme seja costurado pela pelas intenções de um outro músico (Gastón Pauls), que tenta descobrir o paradeiro de Montálban para que a tal sinfonia do título seja finalmente concluída, eu gosto muito mais das cenas em que o protagonista interage com Claudio (Alfredo Castro, um dos atores que sempre que vejo em cena me torno cada vez mais fã), um homossexual que parece estar sempre no limite (enquanto planeja sua fuga do manicômio). Montálban pode ser considerado um artista genial, mas possui tantos fantasmas em sua mente que beira o impossível imaginar a conclusão de sua obra. Embora Larraín deixe a impressão que se perde aqui e ali na complexidade de suas ideias, considero que o último ato o redime de qualquer deslize. É angustiante a ideia que após caminhar em um labirinto, seus personagens cheguem em um beco sem saída, ou melhor, uma ilha no meio do nada - enquanto o compositor perdido encontre finalmente alguma paz. Desde sua estreia, Larraín apresenta seu interesse por personagens complicados, mas embora o filme não tenha recebido muita atenção de público e crítica na época (algo que só foi conquistado mesmo com Tony Manero/2008), o cineasta recebeu o prêmio de melhor cineasta estreante no Festival de Cartagena por esta carta de apresentação. 

Sinfonia Inacabada (Fuga / Argentina - Chile / 2006) de Pablo Larraín com Benjamín Vicuña, Gastón Pauls, Francisca Imboden, Alfredo Castro, Alejandro Trejo, Marcial Tagle e Héctor Noguera. ☻☻☻