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segunda-feira, 21 de abril de 2014

DVD: A Caça

Mads: preso num labirinto de acusações. 

A Caça é o tipo de drama que mais parece um filme de terror. O dinamarquês Thomas Vinterberg conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, excelente e premiado em Cannes), um professor de creche que tenta reconstruir sua vida depois de um divórcio. Além dos desentendimentos com a esposa e a briga pela guarda do filho, Lucas passa o tempo na companhia de sua adorável cadelinha Fanny e dos amigos com quem caça de vez em quando. Apesar dos dramas familiares, a vida de Lucas pode ser considerada tão tranquila quanto a cidade em que vive. O melhor amigo de Lucas é Theo (Thomas Bo Larsen) que de vez em quando se desentende com a esposa e deixa a filha de oito anos, Klara (Annika Wedderkopp) meio de escanteio. Nos momentos de crise familiar, é o sereno Lucas que serve de porto seguro para a menina. É nesse desenvolvimento inicial que podemos ver  quanto Klara admira o amigo de seu pai. Percebendo isso, Lucas conversa com Klara e ela sente raiva suficiente para comentar com a diretora que "odeia Lucas" porque "ele é bobo, feio e tem pipi". Misturando referências que ouviu seu irmão adolescente conversando com amigos, ela complementa seus comentários de forma que a diretora acredita que Lucas molestou a menina na escola. Daí em diante, Lucas mergulha num inferno astral onde de bom sujeito ele se transforma num pedófilo perante a comunidade - sem nunca ficar muito claro do que está sendo acusado. O filme constrói lentamente o drama do personagem, que começa a ser rejeitado por toda a comunidade, perde o emprego, as chances de ficar com o filho e se torna alvo de ações violentas de quem antes considerava ser seus amigos. Cria-se entre os personagens uma estrutura sufocante, onde a verdade nunca consegue aparecer numa histeria coletiva onde o que importa é execrar Lucas e quem está perto dele. Econômico em sua narrativa, mas pleno no domínio de cada cena, Thomas constrói um drama pesado num ritmo de pesadelo onde a condução de um comentário é capaz de acabar com a vida de alguém. Vendo o filme lembrei de O Processo de Kafka e de As Bruxas de Salém de Arthur Miller, mas A Caça ganha vida própria ao lidar com uma paranoia atual de forma bastante contundente. O filme serve como modelo exato de como não lidar com um caso desses, a diretora nunca faz as perguntas certas à menina, deixa sempre lacunas para que seus próprios medos possam preencher, da mesma forma, nunca é clara com a comunidade, deixa o imaginário de todos aumentar ainda mais o comentário da menina, expõe vítimas, o suspeito e seus familiares, vizinhos, crianças, escola... transformando toda a cidade num campo onde quem é considerado "pessoa de bem" precisa estar disposto a cometer alguma selvageria. A tensão é crescente e a reflexão sobre como a "civilidade" se transforma facilmente em "selvageria" quando borramos os conceitos de vingança e justiça é certeira em seus objetivos. Há de se exaltar as atuações de todo o elenco, sobretudo da menina Annika e de Mads que está excepcional na pele de Lucas (há nele algo de Jó, que fica ainda mais evidente na catártica cena da igreja).  Vinterberg cria aqui o seu melhor filme, curiosamente, abordando uma tema parecido com do longa que o revelou para o mundo (o controverso Festa de Família/1998). Além da boa condução da jornada de Lucas, o filme mostra-se brilhante quando, ao final, tudo parece se acertar de forma incômoda ao espectador - até que uma surpresa (que remete diretamente ao título) mostra que, por mais que a verdade tenha aparecido, a mancha permanecerá para sempre na vida de seus personagens.   

A Caça (Jagten/Dinamarca-2012) de Thomas Vinterberg com Mads Mikelsen, Annika Wedderkopp, e Thomas Bo Larsen. ☻☻☻☻

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

OS MEUS FAVORITOS DE 2013

MELHOR FILME
Ferrugem e Osso
 Jacques Audiard nos envolve numa história de amor que se sobressai à violência presente na vida de um casal que se conhece e se completa quase que por acaso. Ao invés de criar um melodrama, o diretor conta uma forte história de autoconhecimento cheia de som e fúria. O incrível é que o filme tinha tudo para dar errado, mas funciona que é uma beleza. 
Outros favoritos (direita para esquerda): Amor, As Aventuras de Pi, À Procura de Sugar Man, Gravidade e O Impossível.

MELHOR DIRETOR
Alfonso Cuarón (Gravidade)
Vai parecer preconceito, mas entre os seis diretores que mais me chamaram atenção não existe nenhum americano. Não foi de propósito, talvez um efeito positivo de nosso acesso a obra de autores de outros países. Alguns deles caem nas graças de Hollywood para fazer filmes que desafiam a lógica da indústria, como Gravidade, a ficção científica existencialista de primeira feita por Cuarón.
Outros Favoritos (direita para esquerda): Ang Lee (As Aventuras de Pi), Jacques Audiard (Ferrugem e Osso), J.A. Bayona (O Impossível), Thomas Vintenberg (A Caça) e Michael Haneke (Amor)

MELHOR ATOR
John Hawkes (As Sessões)
Os rapazes estão de parabéns, houve atuações que não saíram de minha cabeça durante o ano, mas nenhuma delas conseguiu me sensibilizar tanto quanto a espetacular atuação de John Hawkes paralisado do pescoço para baixo e tentando perder a virgindade. Sua atuação na pele de Mark O'Brien é tão envolvente que  é difícil não pensar que tudo é real. 
Outros favoritos (direita para esquerda): Daniel Day Lewis (Lincoln), Jean Luc Trintignant (Amor), Joaquin Phoenix (O Mestre), Mads Mikkelsen (A Caça) e Matthias Schoenaerts (Ferrugem e Osso)

MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard (Ferrugem e Osso)
De vez em quando o cinema recebe uma Diva, uma dessas atrizes que podem aparecer por cinco minutos que já levam o nosso coração para sempre. Faz tempo que Marion Cotillard recebe nossa atenção, mas fazia tempo que a sétima arte lhe devia um papel tão completo como o da domadora de baleias Stéphanie. O filme é o retrato de sua jornada em busca de seu novo lugar no mundo e Marion o descobre com maestria.
Outras favoritas (direita para esquerda): Cate Blanchett (Blue Jasmine), Emanuelle Riva (Amor), Sandra Bullock (Gravidade), Elizabeth Olsen (Martha Marcy May Marlene) e Naomi Watts (O Impossível)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tom Holland (O Impossível)
Crianças prodígio são ainda mais irresistíveis na telona quando não fingem ser adultos, ou seja, quando atuam de acordo com a idade de seus personagens. Tom Holland é um desses achados que esperamos ver em vários filmes no futuro. Aos poucos seu personagem amadurece perante a devastação física e emocional. Na pele do primogênito que sobrevive à catástrofe do tsunami  o menino tornou-se uma revelação. 
Outros Favoritos (direita para a esquerda): Christopher Waltz (Django Livre), Phillip Seymour Hoffman (O Mestre), Samuel L. Jackson  (Django Livre), Daniel Brühl (Rush) e Leonardo DiCaprio (Rush). 

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE 
Amy Adams (O Mestre)
Quando pensamos que já vimos o suficiente do talento de Amy Adams, a atriz nos surpreende com outro personagem memorável. No denso O Mestre, Amy interpreta a esposa do próprio, uma mulher que consegue ser tão discreta como estranha. Se por vezes ela parece submissa, às vezes ela é a que parece ter mais controle sobre o que acontece em torno do mentor espiritual com quem é casada. Em poucas cenas, Adams consegue criar uma personagem instigante, ao mesmo tempo que provoca arrepios com sua atuação à  beira do colapso. 
Outras Favoritas (direita para esquerda): Nicole Kidman (Obsessão), Sally Hawkins (Blue Jasmine), Anne Hathaway (Os Miseráveis), Helen Hunt (As Sessões) e Cameron Diaz (O Conselheiro do Crime). 

MELHOR ROTEIRO
Amor 
Sempre acho interessante os roteiros onde a ação é o que mais importa em cena, os olhares, os gestos, os símbolos... nesse ponto, Amor é um primor. Poucas vezes me deparei com um texto em que os diálogos fossem tão supérfluos diante do que vemos. Em Amor, um sorriso, uma agressão, um pombo que resolve entrar pela janela ganha o sentido de uma nota na triste melodia composta por Michael Haneke. 
Outros Favoritos: Martha Marcy May Marlene, Bernie, A Caça, Nota de Rodapé e Ferrugem e Osso. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

10+ Melhores Filmes em Cartaz em 2013

Neste ano a lista dos meus escolhidos entre os lançamentos do ano me parece melhor porque ficou bastante variada, com produções de diversos países que chegaram por aqui com algum atraso, mas que conseguiram fincar lugar em minha memória até esse finzinho de 2013. Dois deles estrearam no final de dezembro de 2012 e acabaram ficando de fora da lista anterior, mas acabaram recebendo projeção nas salas em 2013. Os filmes lançados e que carregarei do ano que termina são os seguintes (em ordem alfabética):

Estreou em 23/03/2013
A CAÇA 
Mads Mikkelsen já se tornou um dos meus atores favoritos, nem precisava ter uma atuação tão avassaladora quanto a que faturou o prêmio de melhor ator em Cannes no ano passado para meus olhos caírem sobre ele. O drama de Thomas Vinterberg (um dos fundadores do movimento Dogma 95) mostra a ruína de um professor acusado de ter molestado uma criança. Ainda que seu personagem seja acima de qualquer suspeita, o filme torna-se arrasador pelo poder que a palavra tem de alimentar a crueldade humana. O filme estreou nos EUA somente esse ano e concorre a uma vaga na categoria de filme estrangeiro no próximo Oscar.

Estreou em 18/01/2013
AMOR 
Nunca pensei que Michael Haneke ganharia um Oscar, mas ele ganhou com a história de um casal de idosos que precisa lidar com todas as dificuldades que o passar do tempo é capaz de proporcionar. As excelentes atuações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (que se tornou a atriz mais idosa a concorrer ao Oscar de atriz) conduzem o tom do casal em lidar com um AVC. Apesar de narrar um recorte temporal específico do casal protagonista, pode-se perceber toda a intimidade que somente anos de convivência podem construir até a dolorosa cena final.


Lançado em DVD em junho de 2013
À PROCURA DE SUGAR MAN
Os documentários me parecem cada vez mais interessantes, especialmente quando contam histórias de ilustres desconhecidos como Sixto Rodriguez, cantor de origem latina que tornou-se um fracasso de vendas nos EUA no início da década de 1970 e virou uma lenda com as histórias sobre seu fim trágico e suicida. Mais do que isso, o filme aborda como suas músicas se tornaram símbolo de lutas políticas na África do Sul. Malik Bedjelloul usa uma narrativa irresistível para seguir seu astro de trajetória um tanto torta para descobrir o que de fato aconteceu com o homem e sua carreira. Supreendente, emocionante e inspirador!

Estreou em 21/12/2012
AS AVENTURAS DE PI
Foi uma grata surpresa ver Ang Lee receber o Oscar de direção por esse filme. Além de mostrar a jornada do personagem que se vê perdido no meio do oceano num bote ao lado de um tigre, o diretor tempera o filme com a busca de uma religiosidade que poderia facilmente cair na chatice. Além das cenas belamente construída, dos efeitos especiais impressionantes e de um dos melhores usos da tecnologia 3D dos últimos anos, o diretor consegue ainda transformar seu filme em algo mais com o desfecho. Nas mãos de qualquer outro diretor o filme poderia ficar entre os piores do ano, nas mãos de Lee (que já fora traído por efeitos especiais) torna-se uma fantasia primorosa.

Estreou em 15/02/2013
AS SESSÕES
Desde que foi lançado nos cinemas por aqui, tive a impressão que o filme não recebeu a atenção que merecia. Talvez a culpa seja do diretor Ben Lewin, que lida com temas espinhosos com uma leveza invejável. Fazer um filme sobre sexo e deficiência física não deve ser muito fácil, mas ao contar a história de Mark (John Hawkes) impossibilitado de movimentar-se do pescoço para baixo e sua jornada para perder a virgindade - com o auxílio da terapeuta substituta Cheryl (Helen Hunt) - se torna uma grata surpresa em sua despretensão despudorada. Sem o peso de querer ser "uma lição de vida", o filme é uma tocante história sobre como nos relacionamos com o sexo.

Estreou em 09/08/2013
FERRUGEM E OSSO
Se Jacques Audiard já merecia meus aplausos por O Profeta/2009, com Ferrugem e Osso ele merece entrar para minha lista de diretores favoritos. Fiquei impressionado como ele filmou essa história com tudo para se tornar um melodrama insuportável. O romance entre uma domadora de baleias (Marion Cotillard) e um segurança que se envolve com lutas clandestinas (Matthias Schoenaerts) é contada com toda a força necessária para se tornar uma obra que será lembrada por muito tempo. Entre toda a brutalidade e violência que existe na trajetória dos personagens, Audiard injeta um lirismo que há muito eu não sentia. Além disso, Marion e Matthias estão ali de corpo e alma para a plateia sentir.

Estreou em 11/10/2013
GRAVIDADE
Alfonso Cuarón teve dificuldades para convencer os estúdios de investir num projeto como Gravidade. Sua sorte mudou quando Sandra Bullock se interessou pelo projeto e o ajudou a se tornar uma das raras unanimidades entre os lançamentos de 2013. A história da astronauta que se vê perdida no espaço, torna-se capaz de falar de cada um de nós, do sentimento de solidão e de que muitas vezes precisamos enfrentar nossos fantasmas sozinhos se quisermos sobreviver. Repleto de referências e simbologias, o filme é um grande acerto e Sandra está de parabéns em mostrar que tornou-se uma atriz madura.

Estreou em 14/12/2012
NOTA DE RODAPÉ
Acho que nenhuma lista irá se lembrar desse filme israelense premiado em Cannes e que foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Apesar do final em aberto, o longa de Joseph Cedar é um achado na forma como insere as notas de rodapé durante a sua narrativa - marcada pelo conflito entre pai e filho, dois professores e pesquisadores que trilham ideologias diferentes que abordam muito das dicotomias entre o novo e o velho, o tradicional e a renovação, além de nostalgias, paradigmas, construção de identidade e laços familiares. Parece cabeça demais? Não é. Por isso Nota de Rodapé merece destaque nos filmes que ficaram em cartaz em 2013.

Estreou em 04/01/2013
O IMPOSSÍVEL
Muitos consideram o filme do cineasta catalão Juan Antonio Bayona pura manipulação, mas eu prefiro ficar no time de quem percebe que o diretor realizou o filme catástrofe mais realista de todos os tempos. O Impossível retrata a devastação física e emocional de uma família em meio à tragédia provocada pelo tsunami ocorrido no natal de 2004. Mais do que efeitos especiais, o filme se concentra na forma como os cinco membros da família tentavam se reencontrar em meio aos destroços. Uma história real em particular que consegue universalizar  a dor causada por uma das maiores catástrofes desse século.

Estreou em 10/05/2013

O QUE TRAZ BOAS NOVAS
Minha lista já estava quase pronta quando me deparei com esse filme canadense singelo e bastante interessante sobre a forma como uma escola enfrenta o suicídio de uma professora. A distância que separa professores, alunos e pais está presente durante todo o filme, que tem na figura tradicional de Bashir Lazar uma espécie de porto seguro para seus pequenos alunos. Entre um desentendimento aqui e outro ali, o filme consegue explorar a relação entre os personagens diante de um assunto delicado. Não é sempre que vemos um filme com atuações infantis de tão boa qualidade e amparadas por um roteiro que fala da dificuldade de nos relacionarmos com a morte. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

10+ Melhores Pôsteres de 2013

Para inaugurar a temporada de inevitáveis listas de melhores do ano eis que surge, não por acaso, a lista de melhores pôsteres do ano! Dessa vez, anabolizada com o dobro de contemplados (as anteriores só tinham cinco). É sempre bom lembrar de um dos instrumentos em que temos o primeiro contato com o filme (muitas vezes eles são capazes de chamar mais atenção do que um trailer). Em 2013 os que mais me chamaram a atenção foram os seguintes:

10 O Lobo de Wall Street 
Pode parecer a junção de elementos óbvios: Wall Street, a bandeira americana e cifrões... mas foi uma arte tão simples e bem executada que ela não poderia ficar de fora com todo seu amarelo ouro (dando um ar retrô para a produção baseada na biografia de Jordan Belfort, um corretor da bolsa que entrou em decadência na década de 1990 entre drogas e crimes do colarinho branco). Dirigido por Martin Scorsese o filme chega aqui no dia 24 de janeiro. 

09 Safety Last 
Lançado em 1923, a comédia Safety Last ganhou uma reedição especial muito charmosa embalada por esse cartaz. Utilizando uma famosa cena do longa com um cuidado todo especial para os créditos, o trabalho realizado não poderia ser esquecida. Um pôster tão cool que dá até vontade de conhecer um dos atores gênios do cinema mudo Harold Lloyd na pele de um rapaz que tenta a sorte na cidade grande.  

08 Nynphomaniac 
Quem achava que Lars von Trier estava satisfeito com o primeiro cartaz sutil de sua nova empreitada ficou surpreso quando viu a série de pôsteres com o elenco do longa simulando caras de... você sabe o que. Uma ousadia um tanto convencional em se tratando do tema. A ser lançado em dois volumes, as aventuras da personagem vivida por Charlotte Gainsburg tem sua primeira parte marcada para estrear dia 10 de janeiro de 2014 e a segunda parte está agendada para março do mesmo ano. 

07 Upstream Color 
Não é sempre que vemos um pôster que parece saído de um catálogo de moda, ainda mais se levarmos em consideração que se trata de um filme que ganhou o prêmio especial do júri em Sundance. O segundo longa de Shane Carruth (do pouco visto Primer/2004) conta a história de um casal que se aproxima devido ao ciclo de vida de um microorganismo e, a partir dessa relação, suas identidades são questionadas numa relação bastante intensa (como fica explícita do cartaz). O filme ainda não tem data de estreia por aqui. 

06 Em Transe
Por mais estimulante que fosse, a única unanimidade ao final do último filme de Danny Boyle era que tratava-se de uma obra confusa. O público pode até ter ficado surpreso, mas a trama onde a mente de James McAvoy se perde entre sessões de hipnotismo já tinha suas características explícitas no cartaz. O filme chegou em setembro nas locadoras. 

05 Spring Breakers 
Quem acompanha o blog sabe que minha opinião sobre o filme de Harmony Korine não é das melhores. Ainda que seja repetitivo e tedioso, devo reconhecer que o pôster reproduz o melhor momento de seu preguiçoso longa: James Franco (a melhor coisa do filme) ao piano, cercado pelas jovens desmioladas que vão curtir a vida e cometer crimes nas férias de primavera. A imagem paradisíaca em contraste com as moçoilas armadas consegue ser mais surreal e interessante que todo o filme. O longa foi lançado direto em DVD por aqui no mês passado. 

04 The Bling Ring
É interessante como sempre acho que os filmes de Sofia Coppola são tão elogiados pela crítica quanto mal digeridos pelo público. Baseado numa história real sobre jovens ladras consumistas, The Bling Ring ressalta mais uma vez as referências pop de Sofia, sendo assim, tem algo mais descolado do que apresentar as personagens sem mostrar as atrizes, mas os óculos de sol que melhor expressam suas personalidades? Eu etiqueta em estado cool! Ou melhor, uma mostra do trabalho de figurinista de Sofia. O filme foi lançado no Brasil em agosto e está prestes a sair em DVD e Blu-ray. 

03 Gravidade
Gosto quando um cartaz consegue expor o máximo de sua ideia com o mínimo de recursos. Nesse quesito o filme de Alfonso Cuarón é um pimor: um astronauta perdido no negror do universo de seus medos. Seria Sandra Bullock ou George Clooney? Não importa, laçados na imensidão do universo somos tão indefinidos que apenas a solidão de nossos dramas podem ser usados como referência. O filme ainda pode ser visto nos cinemas brasileiros. 

02 Terapia de Risco 
O cartaz merece destaque não pela foto de seu elenco, mas para o detalhe com que apresenta seus créditos que lembra um diagnóstico. A ideia caiu como uma luva na trama sobre um tratamento médico que parece fugir do controle dos envolvidos e a formatação do cartaz chama mais atenção do que os nomes badalados no elenco! Um dos filmes mais elogiados de Steven Soderbergh já está disponível nas locadoras. 

01 Nynphomaniac  
Ah, o poder da sugestão! O que seria da arte sem ela? Bem, Lars Von Trier sabe muito bem como inserir uma ideia em nosso inconsciente e não lembro de um filme que soubesse capitalizar tanto sua temática quanto a nova obra do diretor. Talvez para sugerir que a obra terá doses de sutileza, o primeiro cartaz divulgado quis apenas mudar para sempre a forma como vemos dois parênteses. Existe uma versão ainda mais elaborada com chaves e um i, mas acho que esse está de bom tamanho...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

DVD: O Que Traz Boas Novas

Alice e Lazhar: refletindo sobre a morte. 

Apesar de todos os problemas que afetam a educação eu ainda considero que o trabalho em uma escola tem uma magia que nenhum outro espaço pode proporcionar. Acho fascinante perceber as identidades dos alunos sendo construídas e a forma como professores e alunos podem influenciar essa construção de forma positiva (e até negativa). Talvez por perceber a escola como um espaço de construção, as primeiras cenas de O Que Traz Boas Novas tenha me deixado tão chocado. O filme não tem floreios ao mostrar os efeitos do suicídio de uma professora dentro do espaço escolar, especialmente quando a estratégia é evitar falar sobre o assunto. É como se todo aquele ambiente que parece seguro e de regras tão claras fossem destruídas no mesmo instante. Talvez isso seja um reflexo da própria sociedade, sempre com dificuldades em lidar com as perdas, que são consideradas como verdadeiras derrotas. Essa lógica tão presente em nossa sociedade ocidental recebe um olhar diferenciado no filme quando aparece o argelino Bachir Lazhar (Mohamed Fellag) para assumir a turma da finada professora. É verdade que existe um choque quando o professor aparece no universo dominado por mulheres, aumenta ainda mais esse efeito a visão mais conservadora sobre a educação. Cadeiras enfileiradas? Balzac para crianças? Cascudo? Aos poucos os alunos aprendem a lidar com esse professor diferente, ao mesmo tempo que ele aprende a lidar com seus pupilos. O mais interessante no elogiado filme de Phillippe Falardeau é como ele mostra uma escola um tanto engessada, mesmo em sua prática pedagógica progressiva. Mais do que pelo suicídio (que parece assombrar mais os adultos do que as crianças), um ambiente tão repleto de emoções aparece sufocando-as com a proibição de contato físico  (abraços estão terminantemente proibidos) e de abordar assuntos que incomodam. O diálogo sobre a morte parece exclusividade da psicóloga, que nunca conversa muito bem com Lazhar sobre a forma como os alunos estão lidando com a situação. Na classe de Lazhar dois alunos merecem destaques, a madura Alice (Sophie Nélisse) e o provocador Simon (Émilien Néron), ambos parecem dividir um segredo sobre os acontecimentos que precederam o suicídio da professora (além de serem os únicos alunos que viram o corpo antes de ser retirado do local). Esses, sobretudo, sentem o benefício do olhar estrangeiro do novo mestre, especialmente na forma como ele os ajuda, dentro dos meios possíveis a lidar com a perda da professora de forma tão repentina. Talvez por ter sido casado com uma professora e ter sua própria cota de dramas pessoais (que inclui a busca pela autorização de morar no Canadá), Lazhar veja na escola um espaço quase sagrado. A catártica cena em que Simon desabafa sobre sua culpa é um bom exemplo disso. Negando a sala de aula como um espaço para "transbordar seu desespero", Lazhar com todo o o seu conservadorismo parece o porto seguro, uma rocha sólida em que as crianças podem se apoiar enquanto esperam as nuvens pesadas se afastarem da escola. Não se trata de um discurso pró-conservador sobre educação, mas como a personalidade de um professor influência no desenvolvimento de uma classe. A direção de Falardeau é precisa. Sem excessos, nos torna observadores daquele universo, nos aproxima do olhar de Lazhar sobre aquela nova cultura (acha um absurdo as crianças terem que aprender duas línguas simultaneamente) e as pequenas violências daquele espaço. Além disso, o filme nos assusta com as atuações vigorosas dos pequenos Sophie e Émilien diante da morte como um tabu. Extremamente terno, O Que Traz Boas Novas (o significado do nome do professor) é uma pequena obra-prima que merece seu lugar entre melhores filmes sobre a relação entre professores e alunos, talvez por isso tenha sido indicado a vários prêmios, incluindo o Oscar de filme estrangeiro em 2012 (o qual perdeu para Separação ao lado de Bullhead e Nota de Rodapé). O filme nos faz pensar mais do que na educação, mas na forma como as relações humanas podem ser formativas.

O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar/Canadá-2011) de  Phillippe Falardeau com Mohamed Fellag, Sophie Nélisse, Emilien Néron e Brigitte Poupart. ☻☻☻☻

sábado, 26 de outubro de 2013

FILMED+: Gravidade

Bullock: calando os desconfiados.

É sempre interessante quando acompanhamos a produção de um filme desde que ele era apenas um embrião. Quando ouvi falar de Gravity pela primeira vez, Alfonso Cuarón ainda procurava uma atriz capaz de facilitar a produção de um filme complicado para realizar. Afinal, toda a ação ressaltava como o espaço pode ser desolador. Apesar de ser um diretor bastante elogiado, Cuarón teve como maior bilheteria de seu currículo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004), terceiro livro do milionário bruxinho que chegou ao cinema depois das morosas adaptações de Chris Columbus. Na época, o filme foi classificado como o melhor da série (e muitos o colocam nesse posto até hoje), mas até os mais otimistas precisam reconhecer que o sucesso ocorreu mais por conta da franquia do que pelo talento inegável de Cuarón. Seu filme seguinte, Filhos da Esperança (2006) recebeu tantos elogios quanto problemas com a distribuição. Por isso, mal arrecadou o que custou para ser feito. Ainda assim, a Academia reconheceu os méritos do filme que rendeu duas indicações ao Oscar (Edição e Roteiro Adaptado), vale lembrar que antes o diretor recebera a indicação pelo roteiro de E Sua Mãe Também (2001), filme mexicano que se tornou cult entre os cinéfilos. Mas (infelizmente) nada nesse currículo capacitava o diretor perante os estúdios para filmar Gravidade. A coisa só começou a andar quando o texto caiu nas mãos de Sandra Bullock. Na época a atriz acabava de colocar o seu Oscar pelo açucarado Um Sonho Possível (2009), e entre tantos comentários que repetiam que sua atuação não era para tanto, ter em roteiro de ficção científica em que você é o centro das atenções mexe com o ego de qualquer um (além de poder servir de ótimo instrumento para calar os mais desconfiados). Ok, Sandra! Você venceu. Seria uma completa maldade creditar todo o espetáculo organizado por Cuarón somente aos efeitos especiais. Gravidade é acima de tudo um filme genial por preencher de humanidade toda a tecnologia que ostenta. Quem for ao cinema para assistir uma aventura de astronauta poderá encontrar só isso, mas quem mergulhar nas camadas de seu roteiro irá perceber que o filme é muito mais do que isso. Além das qualidades técnicas irrepreensíveis, penso que o filme não conta a história de uma astronauta à deriva lutando para sobreviver, mas de como o ser humano precisa lidar com seus fantasmas e medos para prosseguir. A atuação de Bullock mostra isso na medida certa! Contida e introspectiva, podemos sentir o nó que sente na garganta, o desconforto de não coordenar os movimentos, a sensação de que o seu destino não lhe pertence mais... a história poderia se passar num submarino, num cofre, num road movie, mas o espaço amplia o desconfortável isolamento de forma ainda mais devastadora - e dá a chance de Cuarón criar cenas plasticamente inesquecíveis. Os mais xiitas vão reclamar, mas Cuarón bebe diretamente na narrativa de 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick, justamente no que ela possuía de mais complicado: a lentidão nos movimentos e os longos silêncios. É visível o cuidado na criação de cada cena, cada emoção de cada personagem, cada efeito visual (em 3D a sensação de ser um astronauta é a mais próxima que poderei ter). É verdade que Cuarón teve a necessidade de criar cenas de ação para captar a quantidade de público necessária para que o filme se pague (afinal é um filme que custou mais de cem milhões de dólares, mas já arrecadou o dobro disso num ano minguado), mas em nenhum momento o longa desafina. Cuarón mostra que cinema pode ser de entretenimento sem perder qualidade artística, prova que um filme para ser bom deve dizer mais do que o aparente. Há quem critique a sucessão de acidentes, a história da filha morta, George Clooney (ótimo em cena) parecer um anjo da guarda, sinceramente, esses devem procurar outro filme para assistir. Vai ser brega eu dizer que todos somos Ryan Stone (e o nome não é unissex por acaso), que contempla o silêncio do vazio até preferir sentir o conforto do lar - que de tão longe parece nem existir mais. Quando o lar parece cada vez mais distante, a voz de um desconhecido, o latido de um cachorro, uma canção de ninar é capaz de  inebriar a alma e até motivar para que possamos caminhar novamente... E a Terra? Imensa. Azul. Nunca emanou tanta segurança, tanto acolhimento, tanto lar.

Gravidade (Gravity/EUA-Reino Unido/2013) de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock, George Clooney e Ed Harris. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 8 de outubro de 2013

FILMED+: Ferrugem e Osso


Matthias e Marion: boa química em ótimo romance. 

Quase que em 2013 tivemos a chance de ver duas atrizes francesas na disputa do Oscar da categoria. Infelizmente, a Academia reservou lugar somente para a performance irretocável de Emanuelle Riva em Amor e Marion Cotillard ficou de fora. Não que isso importe. Faz tempo que uma atriz francesa não cria tanto rebuliço em Hollywood. Desde que foi celebrada por sua atuação em Piaf - Um Hino ao Amor (2007), onde levou para casa inúmeros prêmios entre Oscar e Globo de Ouro, a  atriz já marcou presença em vários filmes. Seja sob a batuta de Woody Allen ou Christopher Nolan, suas atuações são sempre dignas de elogios, mesmo que suas participações sempre fosse de coadjuvante. Chega a ser irônico que para ser protagonista ela tenha que voltar para a França e provar, mais uma vez que é capaz de carregar um filme - não que alguém tenha duvidado. Assinado por Jacques Audiard (do excelente O Profeta/2009), Ferrugem e Osso é uma história de amor bastante inesperada que é valorizada pelas atuações precisas de Marion e do belga Matthias Schoenaerts (protagonista de Bullhead/2009). Ela é uma beldade que trabalha em shows protagonizados por baleias orcas. Ele é um estrangeiro que tenta a vida como segurança na França depois que ficou com a responsabilidade de cuidar do filho. Apesar de ser um romance, Audiard tempera a trama com bastante brutalidade. Não por acaso, Stéphanie (Marion) e Alain (Matthias) se conhecem em meio à uma briga na boate onde ele trabalha, mas a relação entre os dois personagens só irá aprofundar meses depois, quando um acidente irá mudar a vida de Stéphanie para sempre. O acidente que sacrifica metade das pernas da personagem é o motivo para que os dois personagens se aproximem e descubram que se complementam. Marion está excepcional  ao explorar as transformações de sua personagem após o acidente. As dificuldades de perceber que a vida continua estão estampadas em seus rosto. Suas vaidades e desejos parecem ter sido tão mutiladas quanto seu corpo. É com a companhia e intervenções do rústico Alain que ela irá subjetivar sua nova condição. Ao mesmo tempo em que Alain se mete em arriscadas lutas clandestinas, percebemos outras nuances do personagem conforme ajuda Stéphanie a redescobrir sua sexualidade e autoestima. Nesse ponto, há de se reconhecer que Matthias prova mais uma vez que é expert em mesclar brutalidade e sensibilidade em suas atuações. Não deixa de ser interessante como após um filme extremamente testosterônico (O Profeta), Audiard tenha experimentado tons mais sutis nas relações de seus protagonistas. Stéphanie descasca Alain e Alain descasca Stéphanie durante o filme, explorando o que parecia escondido entre os dramas que sofreram.  É verdade que existem socos e sangue na trajetória de ambos, mas a alma de seu filme é extremamente romântica. Audiard é capaz de construir cenas belíssimas - especialmente quando Stéphanie relembra os gestos que guiavam os movimentos da baleia, além das cenas na praia - e ousa criar um final diferente aos que estamos acostumados a esse tipo de filme. Alguns chamaram o filme de implausível pela forma como mistura os dois mundos dos personagens, mas eu não acho. Ferrugem e Osso é original em suas escolhas e, apesar do exagero no sofrimento do pequeno filho de Alain,  pode ser considerado outro grande acerto na cinematografia de Audiard. O cineasta filma muito bem e constrói um deleite para quem está cansado de histórias pasteurizadas. Além disso, acertou em cheio em sua dupla principal. Schoenaerts deixa claro que não se contenta em ter cara e porte de galã e Marion crava ainda mais fundo o seu lugar no coração dos cinéfilos. 

Ferrugem e Osso (De rouille et d'os/França-2012) de Jacques Audiard com Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure e Céline Sallette. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

FILMED+: À Procura de Sugar Man

Rodriguez: um público em busca de seu porta-voz. 

Acredito que a vida de todos nós daria um filme, o difícil seria escolher um gênero em que se enquadrasse melhor. Talvez a saída menos complicada seja fazer um documentário, juntar relatos de pessoas sobre você, comentários sobre as suas proezas e talvez até alguns mitos que não deixaria os espectadores saberem o que é real e o que foi um boato que serviu para construir um mito. O mais difícil seria o documentário de nossa vida ser momentos tão envolvente quanto neste À Procura de Sugar Man. Vale ressaltar que ser envolvente ou não depende menos de nossa história e mais da forma como ela é contada, neste quesito o filme baseado na trajetória de Sixto Rodriguez é um primor. É verdade que você pode encontrar algumas críticas ferrenhas ao filme na internet, mas quem ainda não aprendeu que documentário, apesar de lidar com fatos reais, é um olhar subjetivo sobre um tema? O filme gira em torno de Rodriguez, um cantor promissor dae Detroit da década de 1970 - as comparações com Bob Dylan são inevitáveis, mas as vendas do rapaz nunca decolaram. Rodriguez acabou lançando apenas dois álbuns  que lhe garantiram boas críticas, uma precoce aposentadoria e vários comentários sombrios sobre sua morte. Não faltam pessoas que contam que tornou-se um sem-teto, ou que insatisfeito com a carreira acabou cometendo suicídio na frente da plateia atônita. Uns dizem que um tiro na cabeça acabou de vez com sua carreira, outros dizem que o tom foi mais dramático: jogou gasolina em seu corpo e ateou fogo em si mesmo sobre o palco. Talvez se Rodriguez soubesse de seu enorme sucesso na África do Sul isso não houvesse acontecido. Pois é, apesar do fracasso de vendas nos EUA, os discos de Rodriguez vendiam como água na África do Sul. Baseado em depoimentos de fãs sul africanos (todos brancos, o que indica que tornou-se um ídolo para brancos liberais do país), o filme mostra como a música desse ilustre desconhecido caiu como uma luva aos protestos anti-apartheid, ditando tendências musicais, comportamentos e  inspirando centenas de fãs a lutarem por uma causa. O curioso é que, como tudo indica, o sucesso do cantor aconteceu por meio da venda de milhões de cópias piratas ou contrabandeadas de seus álbuns (a situação da gravadora na situação nunca fica clara) - mesmo com algumas de suas canções sofreram censura das autoridades. Sem a internet ou uma mídia que cultuasse celebridades, Rodriguez tornou-se um ídolo de vendas maiores do que Elvis Presley e os Beatles naquele país, embora ele nem imaginasse. A partir de tanto sucesso, tornou-se inevitável que algumas pessoas procurassem por sua verdadeira história, o ponto de partida da investigação tornou-se o destino do dinheiro das vendas de seus trabalhos. Com o advento da internet na década de 1990 e algumas matérias em revistas o ponto de interrogação em torno de Rodriguez acabou chamando atenção ao ponto de notícias reais sobre ele aparecerem. Neste momento é difícil não se emocionar com a jornada desse personagem real. À Procura de Sugar Man recebeu vários prêmios merecidos (entre eles o Oscar e o BAFTA de melhor documentário) e merece ser visto como a jornada de um artista incompreendido que estava fora do seu lugar no mundo. Penso no longa como uma poderosa celebração à arte e como ela é capaz de unir pessoas tão distantes a partir de ideias convergentes. Ainda que possam acusá-lo de manipulador (e qual documentarista não o é?) o diretor Malik Bendjelloul escapa do lugar comum e cria um filme extremamente envolvente (com uso de película, super 8, vídeo, computação gráfica e até câmera de celular!) sobre a  redenção de um artista. 

À Procura de Sugar Man (Searching for Sugar Man/Suécia-Reino Unido-EUA-2013) de Malik Bendjelloul. ☻☻☻☻☻

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DVD: As Sessões

Hawkes e Hunt: plena sintonia em uma história real. 

A certa altura uma personagem precisa descrever o protagonista e ela diz: "ele só mexe a cabeça". Talvez por dar conta de um personagem desses com tanta competência,  As Sessões era alardeado como uma das grandes apostas para o Oscar conforme era apresentado em festivais de cinema independente. Infelizmente, acabou conquistando somente uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante para Helen Hunt. O filme é baseado na biografia de Mark O'Brien (John Hawks que ganhou o Independent Spirit de melhor ator), um personagem real que adoeceu de poliomielite ainda adolescente. O filme apresenta brevemente como ele tornou-se famoso por estudar na faculdade de Berkeley, formando-se em jornalismo - mas gostava mesmo era de escrever poesias. Aos 38 anos, Mark já vivia confinado à necessidade de viver preso a um pulmão de aço - que abastecia seu corpo para viver algumas horas fora dali. Com todas as adversidades, Mark era bem humorado e tentava levar uma vida comum dentro de suas limitações, mas seu olhar sobre a vida muda quando é convidado a escrever uma matéria sobre a relação entre os deficientes físicos e o sexo. A partir dali, seu objetivo passa a ser perder a virgindade. Em sua jornada pelo que parecia impossível, ele conta com os conselhos de um padre mais que compreensivo (o sempre confiável William H. Macy), ajudantes devotados (Moon Bloodgood e M. Earl Brown) e os serviços de uma substituta, papel de Helen Hunt. A tal substituta é uma espécie de (fisio?)terapeuta sexual que auxiliará Mark a conhecer as sensações de seu corpo, a intenção é que Mark possa controlar o corpo ao ponto de poder manter relações sexuais. Trata-se de um tema espinhoso, mas que o diretor Ben Lewin consegue abordar de forma leve, bem humorada e respeitosa aos personagens. É interessante como o roteiro torna seus sujeitos surpreendentes à medida que os revela ao público. Fazia tempo que Helen Hunt não recebia um papel tão belo e desafiador em sua carreira, ela eleva os conflitos de sua personagem a outro patamar ao exibir o esforço em se distanciar emocionalmente de Mark. Com um Oscar de melhor atriz na estante (por Melhor É Impossível/1997) e vários Globos de Ouro (a maioria por conta da série Mad About You/1992-1999) ainda me pergunto se a atriz não merecia outro careca dourado com essa indicação ao prêmio de coadjuvante no Oscar! William H. Macy também deixa seu padre entre a solidariedade e a curiosidade perante a sexualidade - da qual também está privado, mas por motivos totalmente diferentes. Mas dificilmente o filme teria sua força se não investisse no talento do ainda pouco conhecido John Hawkes na pele de Mark. Revelado como o tio esquisito de Jennifer Lawrence em Inverno da Alma/2010 (filme que lhe valeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante), desde então o ator não para de trabalhar, mas é neste filme que o ator comove a plateia na pele de um personagem que exige total expressão com um corpo quase totalmente inerte. Cada olhar e palavra do personagem é defendido pelo ator em sua plenitude, de forma que é fácil entender como pode ser ameaçador aos homens que deixam as mulheres por perto dele. Hawkes entrega uma das atuações mais impressionantes do ano. Além de todo o mérito do elenco, não lembro de ter visto um filme onde o sexo é tratado de forma tão naturalmente terna. 

As Sessões (The Sessions/EUA-2012) de Ben Lewin com John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy e Moon Bloodgood. ☻☻☻☻

quarta-feira, 31 de julho de 2013

DVD: Amor

Georges e Anne: quanto amor você suporta?

É público e notório que fiquei extremamente surpreso quando Amour de Michael Haneke foi indicado a cinco categorias no Oscar deste ano: Filme do ano, Diretor, Atriz (Emanuelle Riva), Roteiro Original e levou para casa o de filme estrangeiro (o filme foi indicado pela Áustria, pátria de Haneke). A carreira do filme começou muito bem com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas isso não é uma novidade na carreira de Haneke. Com filmes do porte de Violência Gratuita (1997) e A Professora de Piano (2001) no currículo, o diretor ficou conhecido pela pouca fé na humanidade - o que está longe de ser um ponto positivo perante a Academia de Hollywood. Interessante é como a repercussão do filme levou muita gente aos cinemas esperando a história apaixonada de dois velhinhos e se depararam com um filme lento, de narrativa seca, poucos cortes, praticamente dois atores em cena o tempo inteiro num único cenário até o final de dar nó na garganta. Quem não estava acostumado à estética do diretor estranhou e achou que o filme era um grande produto de marketing, já quem conhece Haneke sabe que o longa é um primor de sutilezas entre a filmografia do diretor - mais até do que no seu consagrado longa anterior A Fita Branca (2009) - a começar pelos diálogos, que na maioria das vezes não significam nada diante das ações dos personagens defendidas pelas estupendas atuações do casal protagonista (que renderam inúmeros prêmios ao filme). Georges (Jean-Louis Trintgnant) e Anne (Emanuelle Riva) são veteranos professores de música e já passaram dos oitenta anos. Vivem sozinhos num casarão onde utilizam somente quatro cômodos e raramente recebem visitas - até mesmo as da filha do casal, Eva (Isabelle Huppert), acontecem raramente. Os dois vivem uma rotina onde um faz companhia para o outro sem grandes sobressaltos, até o momento em que Anne começa a ter atitudes estranhas. Logo será diagnosticada uma doença que irá mudar a vida do casal. Curioso é como Haneke se afasta dos clichês do gênero, Anne nunca posa de vítima e seu orgulho pessoal afeta bastante a forma como passa a lidar com as pessoas diante de sua nova condição, enquanto Georges sempre mostra-se prestativo, até mesmo com algumas atitudes ríspidas da esposa. Os dois se veem sozinho numa corrente de situações que sabem não ter retorno ou saída agradável e a situação se agrava cada vez mais até o final. Haneke desenvolve seus personagens com brilhantismo, sempre preparando o espectador para o que está por vir. Cada diálogo aparentemente inofensivo é o anúncio de um ato revelador ao final de cada cena, até o momento em que Georges está à beira da exaustão (é magnífica a cena em que Eva mostra-se desperta de sua letargia e o pai, já cansado, não consegue controlar as palavras diante dela). Trintgant e Anne tem belos momentos em cena e, às vezes, até com um humor inusitado (como a cena em que Anne perde todo o apreço por um CD que ganhou de presente). Haneke parece guiar o espectador ao limite do amor de seus personagens, onde ações podem soar tão libertadoras quanto covardes. Curiosamente é o auge desse paradoxo, que serve ao desfecho do filme, que perde-se a chance do filme ser surpreendente na filmografia do diretor. Ainda assim, cenas como a do pombo visitante mostra porque um cineasta como Michael Haneke é mais do que necessário no cinema atual. 

Amor (Amour/França-Alemanha-Áustria/2012) de Michael Haneke com Emanuelle Riva, Jean-Louis Trintgnant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud. ☻☻☻☻

sábado, 27 de julho de 2013

DVD: Nota de Rodapé

A nora, o filho e o pai: diferentes paradigmas em questão. 

A relação entre pais e filhos costuma gerar filmes memoráveis quanto é bem explorado. Nota de Rodapé é um desses casos. Dirigido por Joseph Cedar (que é nascido em Nova York e criado em Jerusalém desde os cinco anos de idade), o filme foi premiado na categoria de melhor roteiro em Cannes e depois foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro (além de ter recebido dez prêmios perante a Academia Israelense de Cinema). Todos os prêmios são merecidos. Cedar consegue construir uma narrativa interessante acerca do velado conflito entre pai e filho, utilizando várias vezes um recurso semelhante ao que dá título ao filme. O filme começa com o professor Uriel Shkolnik (Lior Ashkenazi) sendo homenageado pelos seus estudos. Uriel aproveita a oportunidade para homenagear seu pai no discurso, o também professor Eliezer Shkolnik (Shlomo Bar-Aba). Desde o início percebemos o desconforto de Eliezer com a homenagem, só depois descobrimos que sua carreira mergulhou numa espécie de limbo por um desses acasos maldoso do destino. Cedar utiliza digressões para explicar aspectos importantes na relação da dupla de professores. Enquanto Uriel tem suas pesquisas sobre os escritos do Talmude reconhecidas, Eliezer passou vinte anos fazendo pesquisas sobre os textos originais para que suas conclusões fossem esquecidas quando um outro pesquisador, Grossman (Micah Lewensohn), encontrou um texto antigo que comprovava tudo o que Eliezer descobrira explorando vários textos antigos que encontravam-se dispersos. Grossman consegue notoriedade pelo trabalho e Eliezer mergulha no ostracismo, esquecido pelos pesquisadores do Talmude. Com tudo isso, a única homenagem que recebeu foi ser mencionado em uma nota de rodapé no livro de um amigo. As coisas mudam quando após a homenagem recebida pelo filho, Eliezer recebe uma ligação dizendo que será homenageado pelo auspicioso Prêmio Israel por suas pesquisas. Por décadas, Eliezer esperou esse reconhecimento e o prêmio coloca mais uma vez seu nome em evidência, mas Uriel irá descobrir uma informação que poderá mudar o rumo da homenagem. É no desassossego de Uriel e na revanche de Eliezer que o filme se sustenta de forma vigorosa. A trama escrita por Cedar permite várias leituras, seja o que herdamos de nossos pais, o respeito que temos por eles, o reconhecimento que esperamos para agradar a nós mesmos e a eles, ou até aspectos culturais ainda mais complexos como o tradicional e o moderno, o novo e o velho, as quebras de paradigmas, tudo escrito com bastante clareza e com uma preocupação de transformar os personagens em carne e osso que faz toda a diferença. Os cortes são precisos, assim como as atuações, e apesar de tudo caminhar para um grande conflito familiar, a trilha sonora é encarregada de dar um tom cômico aos dilemas dos personagens - mesmo quando à certa altura o bonachão Uriel parece trocar de personalidade com o pai. Além disso, a simpatia que sentimos pelo injustiçado Eliezer aos poucos é ameaçada pelo seu jeito amargo de perceber a vida e a carreira do filho. O longa concorreu ao Oscar com o ótimo Bullhead (da Bélgica) e perdeu para A Separação (do Irã), mas teria mais chances se Cedar não optasse em deixar o desfecho da história por conta do espectador - o que não deixa de ser uma ironia, já que o filme dá mais valor às notas de rodapé que apresenta no caminho do que à conclusão do dilema que se instaura entre pai e filho. 

Nota de Rodapé (Hearat Shulayin/Israel-2011) de Joseph Cedar com Lior Ashkenazi, Micah Lewensohn, Aliza Rosen e Alma Zach. ☻☻☻☻

sábado, 22 de junho de 2013

DVD: O Impossível

Naomi e Holland: laços afetivos para superar a tragédia. 

Os filme catástrofe está entre os gêneros mais ingratos do cinema. O motivo é que não importa o quanto você se esforce para fazer um filme sério, sempre haverá aqueles que acusam o filme de ser melodramático, manipulador e igual a todos os outros do estilo. O diretor espanhol Juan Antonio Bayona assumiu o desafio de tentar convencer com uma das tragédias mais recentes de nosso tempo, o tsunami que devastou a Tailândia em 26 de dezembro de 2004. Para isso escalou dois atores de talento reconhecido em Hollywood e um garoto que já faz sucesso no teatro londrino e que não deve decepcionar no cinema. Baseado numa história real, o filme rendeu à Naomi Watts sua segunda indicação ao Oscar de atriz (a primeira foi por 21 Gramas/ dirigido por outro diretor de origem latina). Ela interpreta Maria, uma médica que passou os últimos anos cuidando dos três filhos enquanto o esposo,  Henry (Ewan McGregor) ganhava o sustento. Eles vão passar férias na Tailândia quando o hotel litorâneo em que estavam hospedados com os meninos é vitimado pela famosa onda gigantesca. O local fica devastado, assim como os personagens diante da dor física e emocional diante da tragédia. Parece até um milagre que Maria e seu primogênito, Lucas (o ótimo Tom Holland que ganhou alguns prêmios de revelação do ano pelo papel) se encontram e precisam cruzar vários desafios para sobreviver. No entanto, ambos sabem que os graves ferimentos de Maria irão dificultar a tarefa. Há de se reconhecer que Bayona é um diretor destemido, não teve medo de mostrar que filmes de terror podem ser belamente trágicos em O Orfanato (2007) e agora mostra que um filme catástrofe pode render uma trama de respeito. Obviamente que o tsunami faz com que a trama transborde dramaticidade, a cada pessoa que a família encontra em seu caminho é difícil para o espectador não se envolver com as situações de solidariedade ou individualismo que aparecem na tela. Mas ao invés de conquistar a audiência com draminhas, Bayona esgarça tudo que o tsunami teve de avassalador na vida daquelas pessoas. Dos rasgos na pele de Maria, aos personagens sem noção de que outra onda pode surgir ou se algum parente sobreviveu à catástrofe, consegue-se atingir uma emoção tão autêntica quanto o realismo com que o diretor trata a onda gigantesca nos momentos iniciais.   Esse impacto visual é primordial para que o filme funcione, por isso Bayona preferiu filmar num tanque gigante a usar apenas efeitos especiais. Além de seus méritos na construção do cenário devastado, ele ainda consegue atuações poderosas de seu elenco. McGregor consegue um de suas melhores trabalhos como o pai em busca de reunir a família, Naomi está excepcional num papel de poucos diálogos mas que lhe exige muito fisicamente, especialmente na expressão do olhar assustado diante da tragédia que se abateu. Já Tom Holland mostra-se um ator bastante promissor, vale lembrar que seu carisma não lembra o de Jamie Bell por acaso, foi Holland que viveu a adaptação de Billy Elliot (2000) para os palcos londrinos. Os mais xiitas ficaram reclamando da forma como o filme manipula toda a situação para que a plateia se preocupe com os protagonistas ricos e esqueçamos a dor dos pobres diante da situação. Esses devem ter visto outro filme, já que Bayona deixa bem claro que a situação econômica não gerou distinção na hora da catástrofe. Todos foram submetidos aos mesmos atendimentos precários movidos mais pela solidariedade do que pelas condições de salubridade. Além disso, somente um sujeito de pensamento pequeno acharia que a dor de um conta mais do que a do outro numa situação daquelas! Seja como for, a cena final onde essa distinção de condições aparece, o filme deixa claro que aquilo não diminui a tragédia, pelo contrário, parece ampliá-la sob o olhar lacrimejante de uma personagem. O Impossível é um bom filme, ainda que incompreendido - para se ter ideia, concorreu somente a um prêmio da Academia, quando merecia pelo menos outras quatro indicações nas categorias de maquiagem, edição, som e efeitos especiais. 

O Impossível (The Impossible/EUA-2012) de J.A. Bayona com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland e Geraldine Chaplin. ☻☻☻☻

terça-feira, 9 de abril de 2013

DVD: As Aventuras de Pi


Parker e Pi: filme bonito por dentro e por fora. 

Muita gente ficou surpresa quando viu Ang Lee ser eleito pelo Oscar o melhor diretor de 2012. Achavam que com Ben Affleck fora do páreo (ainda com toda a consagração de Argo) a vitória de Steven Spielberg seria certa. Eu já imaginava que a Academia não renderia a Spielberg uma terceira estatueta de diretor, mas não esperava que fosse consagrar, pela segunda vez, o cineasta taiwanês. Desde que levou para a casa a estatueta de diretor por Brokeback Mountain (2005) o diretor não caia no gosto da Academia e até do público. Depois de carregar no erotismo em Desejo e Perigo (2007) e fazer um retrato ingênuo do festival de rock mais famoso da história em Aconteceu em Woodstock (2009) já estava na hora de fazer um filme arrebatador como esta adaptação do premiado livro do canadense Yann Martel. Lançado em 2001, o livro teve sua própria cota de polêmicas - ao ponto de ser acusado de se tratar de plágio do livro "Max e os felinos" do brasileiro Moacir Scliar. Na obra de Scliar um jovem náufrago alemão se vê num bote ao lado de um jaguar. Na época do lançamento, Martel chegou a fazer declarações bastante deselegantes alegando que pegou uma ideia "que não foi aproveitada como deveria por um escritor ruim". No meio da confusão, Scliar resolveu se calar e Martel pediu desculpas fazendo agradecimentos à "semente" de Pi que foi plantada não pelo livro de Scliar, mas por uma resenha que lera sobre a obra. Alegando ser bastante diferente do livro brasileiro, Martel ficou bastante feliz com as onze indicações ao Oscar que o filme recebeu. Muitos dos méritos do filme se deve ao esforço hercúleo de Lee que conduziu um orçamente inchado de 240 milhões numa produção arriscada que envolvia cerca de três mil profissionais. Dá para perceber em que partes da leitura a produção começou a tomar forma na mente de seu diretor como um longa em 3D. Cenas como as do naufrágio, o momento em que céu e terra se fundem para um bote que parece navegar no infinito, o ataque dos peixes voadores, o salto da baleia e outros belíssimos momentos renderam cenas que impressionaram na telona, mas que mesmo em DVD não devem decepcionar. Ainda acho que o único problema é  o início que demora a engrenar ao introduzir a relação do jovem indiano Pi(scine) Patel com uma religiosidade híbrida. Ainda assim, a relação do personagem com Deus(es) é fundamental para o andamento da trama e serve de liga para os acontecimentos que se seguem quando o navio em que viaja com a família e os animais do zoológico naufraga. Depois de tirar o fôlego da plateia com a tragédia, Pi (o estreante Suraj Sharma) se vê num bote ao lado de uma zebra, uma hiena e um tigre de bengala conhecido como Richard Parker (!), mas logo um orangotango irá se juntar ao grupo. Aos poucos, Pi se verá sozinho com o ameaçador Tigre, que de uma maneira incomum irá colaborar para a sua sobrevivência. A forma como o tigre lhe inspira medo e solidariedade é um dos grandes trunfos do filme que flerta com a fantasia em alguns momentos sem desafinar na narrativa. Lee cria um espetáculo para os olhos, sem perder de vista as reflexões filosóficas que um homem solitário pode ter em seus confrontos com a natureza ao seu redor e em si mesmo. Não bastasse todas as qualidades da produção, o roteiro ainda reserva um desfecho surpreendente para a história que torna tudo ainda mais simbolicamente rico. Nem precisava tanto, as cenas em que Pi e Richard Parker vencendo suas diferenças na imensidão do oceano já são suficientemente arrebatadoras (com ou sem 3D).

As Aventuras de Pi (Life of Pi/USA-Taiwan/2012) de Ang Lee com Suraj Sharma, Irrfan Khan, Rafe Spall, Gérard Depardieu, Adil Russain e James Saito. ☻☻☻☻